terça-feira, 31 de janeiro de 2017

(Continuação 13)



«…porque estando(…) metidos ao mar huns escabrosos penhascos, a que chama Leixoens o vulgo; por mais que as tempestades embravecidas ostentem nelles com encapellada inchação e horrorosos deliquios, nunca nelles se vio haver naufragio, antes sim seguro asylo a toda a embarcação, que de proposito encaminha o rumo a este surgidouro admiravel, para salvar-se de todo, o que de outra sorte seria infallivel estrago, e notorio perigo, conseguindo deste modo bonança na mais furiosa tormenta.»
António Cerqueira Pinto, In: História da Prodigiosa Image..., 1737

“Quis Deus ou a Natureza que na foz do rio Leça, a meio quarto de légua da costa, se elevasse das águas atlânticas um conjunto de rochedos a que os homens deram o nome de «Leixões». Eram o «Espinheiro», a «Alagadiça», o «Leixão» grande e pequeno, como grande e pequeno eram também os rochedos da «Lada». Mas havia também o «Tringalé», o «Galinheiro», o «Cavalo de Leixão», a «Quilha», a «Baixa do Moço», o «Fuzilhão», o «Baixo do Leixão Velho» e muitos outros…
Desígnio divino, ou tão só caprichosos afloramentos graníticos, que os geólogos classificam de grão médio ou gnáissico, os Leixões descreviam um semí-circulo no mar, formando como que um porto de abrigo natural.
Numa costa frequentemente assolada por tempestades e nevoeiros, perigosos dada a existência de abundantes penedias traiçoeiras só visíveis nas vazantes, e que muito contribuíram para o sombrio e nefasto título de «Costa Negra» dado a esta região durante séculos, o refúgio formado naturalmente pela enseada dos Leixões não poderia deixar de escapar à atenção e argúcia dos Homens. E, com efeito, desde a mais recuada Antiguidade é a intervenção humana, mais do que a natural ou a do Criador, que moldará a história de Leixões. Mesmo que, para tal, muitas vezes tenham os mortais enfrentado as adversidades impostas pela natureza, e outras tantas tenham vencido o que pareceu ser a oposição do divino ou, quem sabe, a vontade do Demo.
Não bastavam já os Leixões, também o próprio rio Leça contribuía e reforçava o apelo ao abrigo. Deslizando suave, nesta etapa final da sua viagem, o rio desaguava num convidativo estuário, navegável para montante até uma distância considerável. Tais potencialidades eram já aproveitadas no 1º milénio A.C. quando, muito próximo da sua embocadura, numa elevação da margem esquerda que hoje designamos por Monte Castêlo, surge um importante povoado da Idade do Ferro: o Castro de Guifões, habitado por Brácaros Galaicos. Na base do morro, junto ao rio, desenvolver-se-ia, seguramente, uma estrutura portuária, ainda que incipiente. Os achados arqueológicos recolhidos vêm atestando da chegada – por via marítima - de produtos originários de paragens longínquas.
Colonizado pelos romanos, a partir do século I A.C., o Castro de Guifões pertence agora, e insere-se com assinalável sucesso, no vasto espaço económico e comercial que é o Império Romano. Salvaguardadas pelos Leixões e conduzidas até à elevação onde se implantava este povoado através do rio Leça, as embarcações da época aqui fazem chegar produções agrícolas do sul da Península, conserva de peixe do estuário do Sado, cerâmicas e outras expressões da cultura material de Itália, sul de França, norte de África, oriente mediterrânico… Desta forma, a foz do Leça transformava-se, há já dois mil anos, num importante interface portuário e comercial da região, muito especialmente para os restantes povoados que se implantavam na bacia deste rio ou nas suas cercanias. E, desde então, ao longo da História, não mais a foz do Leça e o seu porto marítimo-fluvial deixaram de possuir tal importância. Por vezes a uma escala regional reduzida, muitas outras influenciando vastas áreas.
Entretanto o domínio romano resultara, igualmente, num povoamento mais disperso e contribuíra para uma maior aproximação das populações ao litoral marítimo e às margens fluviais. Neste contexto, ainda durante os primeiros séculos da nossa Era, iniciar-se-á a ocupação do espaço hoje coincidente com a cidade de Matosinhos-Leça. E se para esta última freguesia, implantada na margem direita da foz do rio Leça, uma vez mais a arqueologia revelou recentemente provas dessa ocupação tão remota, para o caso de Matosinhos, na margem esquerda, é a própria origem do topónimo que, segundo alguns investigadores, está decisivamente associada à época romana e à origem do porto.
Nos documentos mais antigos em que surge grafado o nome de Matosinhos, datados do século X e redigidos em latim, este aparece designado por Matesinus, topónimo que, por si só, é de difícil explicação ou significado.
Contudo, subdividindo a palavra surgem interessantes indícios explicativos da origem do topónimo. Com efeito sinus significava em latim, e muito particularmente para os romanos, recorte no litoral, côncavo na costa… porto de abrigo natural. Ou seja, algo que, como já analisamos, se adaptava perfeitamente à realidade geo-topográfica que os romanos aqui encontraram, devido à existência dos Leixões. De resto, o vasto mundo romano está repleto de topónimos que têm a referida designação sinus na sua origem ou como componente. Um outro exemplo elucidativo, em Portugal, é o de Sines.
Explicada a origem de metade da palavra, resta perceber o significado de Mate. Uma vez que os romanos tinham por hábito baptizar com o nome de divindades, imperadores, heróis ou figuras retiradas da mitologia as principais cidades, portos e outros locais de interesse geo-estratégico que fundavam ou conquistavam, é nesse campo que alguns estudiosos encontraram uma possível e, no mínimo, curiosa explicação. É que, com efeito, existe uma personagem mitológica, filho de Hércules, cuja designação – Amato – poderia facilmente estar na génese do actual topónimo. Matosinhos resultaria assim, como sabemos, de Matesinus e este, por sua vez, poderá derivar de Amato sinus: o porto de abrigo do filho de Hércules.
Porto de abrigo natural que, de facto, durante muitos séculos salvou milhares de vidas de marítimos, mareantes, passageiros e pescadores. Porque, como escrevia Marino Franzini, em 1812:
«talvez seja este o único ponto desta costa que oferece algum abrigo às embarcações acossadas pela travessia; e, em todo o caso, é a única paragem onde as equipagens podem ter esperanças de salvação quando seja inevitável encalhar. Os barcos de pilotos e pescadores quase sempre podem sair ao mar partindo deste ponto, quando pela ressaca é isso impraticável em outra qualquer paragem da costa.»
Mas, de porto de abrigo natural Leixões converter-se-á, no final do século XIX, numa gigantesca estrutura portuária artificial. Num dos mais dinâmicos locais onde a Europa encontra e abraça o Atlântico”.
Fonte – Site: “apdl.pt”



Naufrágio do vapor ” Olga”


Soares dos Reis estreou-se como repórter artístico do "Occidente", com o desenho do vapor inglês "Olga" que havia sido abalroado pelo vapor da marinha mercante francesa "Constantin". O "Olga", que sofreu danos irreparáveis, veio a encalhar na praia de Matosinhos, e Soares dos Reis dirigiu-se ao local do sinistro onde registou, em desenho, o acontecimento.

Vista sobre Matosinhos - Ed. Alberto Ferreira - Praça da Batalha-Porto


 “O Dr. Alberto de Oliveira, tal como muitos outros do Porto, passava a temporada de Verão em Matosinhos, onde seus pais tinham uma casa sobranceira ao braço salgado do Rio Leça, do lado de Matosinhos, portanto. O braço salgado do rio Leça ia até á ponte Tavares.
Era uma casa em forma de chalet, cujas traseiras davam para o rio Leça.
Na imagem, vê-se a casa a que o texto se refere, em tom mais escuro e cujas traseiras vão até ao rio”.
Fonte: matosinhosantigo.blogspot


Foz do rio Leça com Matosinhos em fundo - Ed. César Reis

Foz do rio Leça com Matosinhos em fundo

Foz do Rio Leça com vista sobre Matosinhos


Na foto acima o arruamento em frente é a Rua Heróis de França e à direita está o quartel da guarda- fiscal ainda existente.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

(Continuação 12)

Perante este cenário, o cemitério público municipal do Prado do Repouso não podia, mesmo, engrandecer-se. Várias vezes as autoridades civis tentaram acabar com o privilégio de enterramento privativo das Ordens, mas sem sucesso. Em 1851 deram-se até graves tumultos por esse motivo.
O Cemitério do Prado do Repouso foi, assim, o primeiro cemitério público da cidade do Porto.
Nos finais do século XVI, o Bispo Dom Frei Marcos de Lisboa mandou construir uma brévia na Quinta do Prado, outrora no Couto de Campanhã. A quinta foi remodelada em meados do século XVIII, pelo Bispo Dom Tomás de Almeida. Pelo 2º quartel do século XIX, Dom João de Magalhães e Avelar cedeu parte dos seus terrenos para a construção da cerca do Seminário Episcopal. A 13 de Dezembro de 1838, o mesmo Prelado doou o que restava da Quinta para a construção do Cemitério Oriental da Cidade, hoje Cemitério do Prado do Repouso, quando à frente da edilidade estava Luciano Simões de Carvalho. O Cemitério foi inaugurado a 01 de Setembro de 1839 e a cerimónia de abertura centrou-se na transladação dos restos mortais de Francisco de Almada Mendonça, que tinha sido provedor da Santa Casa, entre 1794 e 1804, da capela-mor da Igreja da Misericórdia do Porto para o novo cemitério.
Junto às ruínas do Seminário, edificou-se, apesar do projecto nunca ficar concluído, a capela do Repouso.
Para o largo aberto junto aos moinhos, no contacto entre a parte sul da quinta do Prado, da quinta do Reimão e da quinta da Fraga, onde acabavam as ruas de Gomes Freire e de S. Vítor, levantou-se a porta sul do cemitério. Foi junto a essa porta que e defronte da capela do Repouso que ficaram os restos mortais de Francisco de Almada e Mendonça.


Avenida principal do Prado do Repouso em 1905 - Ed. Photo Guedes

O Cemitério do Prado do Repouso integra uma das melhores colecções em Arquitectura e Escultura existentes na Cidade do Porto, reunindo obras da autoria de Soares dos Reis e Teixeira Lopes.
Destaca-se a capela do cemitério, restos da inacabada Igreja de São Vítor, o mausoléu de Francisco Almada e Mendonça, a capela de Delfim Ferreira, o cruzeiro do antigo Mosteiro de S. Bento da Ave-Maria, e o ossário das freiras do antigo Convento de S. Bento da Ave-Maria, entre os muitos monumentos.


“O dono do terreno escolhido para instalar o cemitério, o bispo D. Manuel de Santa Inês, não cedeu de bom grado o espaço que lhe pertencia. Depois, a obra não atraiu interessados e acabou por ser um mestre-de-obras da própria câmara, Luciano Simões de Carvalho, a tomar conta do projecto. E, por fim, as pessoas não se convenciam da bondade de serem enterradas assim, em terreno descoberto. Num artigo publicado n’O Tripeiro, em 1997, o geógrafo José A. Rio Fernandes, diz que a inauguração do cemitério foi mesmo motivo de uma reunião extraordinária da Câmara do Porto, onde se decidiu que a melhor forma de cativar as boas gentes da cidade para esta nova forma de dispor dos mortos era trasladar para o Prado do Repouso alguém ilustre.
A escolha recaiu sobre Francisco de Almada e Mendonça, filho de João de Almada, um dos responsáveis pelo planeamento urbanístico que mudou a cidade e que fora também provedor da Santa Casa da Misericórdia. A 1 de Setembro de 1839, o cortejo com os restos mortais do primeiro ocupante do Prado do Repouso atravessou a cidade, da Igreja da Misericórdia, na Rua das Flores, até ao novo cemitério, marcando a sua inauguração oficial. 
Ainda seriam precisos alguns anos para que os portuenses se habituassem ao seu cemitério, mas o Prado do Repouso foi-se transformando, aos poucos, num espaço que já não era só para enterrar os mortos, mas onde estes se faziam lembrar através de obras de arte encomendadas a Soares dos Reis ou Teixeira Lopes. 
E, depois, há as lendas, como a que ouvi pela primeira vez numa visita que ali fiz com o jornalista e investigador da história da cidade Germano Silva e em que acabámos a observar, ao longe, o túmulo de Teresa Maria de Jesus, com a sua escultura de São Francisco. Ele contou-me, então, como Teresa fora amada por uma “excêntrica” portuense, que, no dia do enterro, roubou a cabeça da morta, acabando por ser julgada e ilibada por isso — o juiz, benévolo, encarou o roubo de Henriqueta Emília da Conceição como um acto de amor. 
A história tão excêntrica como a sua personagem podia acabar aqui, mas, no túmulo que Henriqueta mandou construir em 1868, continuam a aparecer flores frescas colocadas não se sabe por quem.
Com a devida vénia a Patrícia Carvalho

Como acima é narrado, após a morte de Etelvina, foi cortada a cabeça ao seu cadáver, tendo Henriqueta levado a cabeça para casa, no Largo da Trindade. O caso acabou por se tornar conhecido em Março do ano seguinte, na sequência de uma denúncia. Apesar do escândalo, a opinião pública acabou por aceitar tal paixão.
A 2 de Novembro de 1874 morre, de desgosto, Henriqueta Emília da Conceição, nascida em 1840 mas que tinha envelhecido precocemente após a morte da sua amada Etelvina (ou Teresa Maria de Jesus), em 1868.
Henriqueta foi sepultada no talhão da Irmandade do Terço (de que era devota e antes vizinha) no Prado do Repouso.
Em 1855 a situação dos cemitérios no Porto alterou-se radicalmente, devido à grande epidemia de cólera. As autoridades civis conseguiram fechar os cemitérios privativos que não tinham condições e, paralelamente, mandaram construir, de forma apressada, um novo cemitério municipal: Agramonte.

“A 2 de Agosto de 1832, por motivos de ordem estratégica D. Pedro IV deu ordem para queimar e arrasar a importante casa de campo, muros e árvores da bela quinta de Agramonte, uma das mais formosas e produtivas dos subúrbios do Porto. D. Pedro foi pessoalmente levar a notícia, à viúva de Joaquim Pinho de Sousa e apresentar-lhe as suas desculpas, e assegurar-lhe que seria a primeira a ser indemnizada pelo seu justo valor logo que as circunstâncias o permitissem. Afinal parece que tal nunca sucedeu, apesar de repetidos requerimentos do tutor dos menores. Continuou um monte inculto até ser expropriado, em 1855, por uma quantia “miserável” para se construir um cemitério.” 
Texto coligido por Jorge Rodrigues.

O cemitério foi benzido em 2 de Setem­bro de 1855 e desde logo ficou pronto a ser utilizado. O primeiro cadáver que lá foi enterrado foi o de uma mulher da fregue­sia de Mafamude, em Gaia, chamada Ma­ria Rosa. Tinha 50 anos, era solteira e mor­reu de uma febre tifóide. 
A Capela Geral do Cemitério de Agramonte, cuja construção foi aprovada pela Câmara Municipal do Porto em 24 de Maio de 1866, substituiu a capela original que era de madeira e existia desde a inauguração do Cemitério no ano de 1855. 
A planta da dita capela é da autoria do eng. Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa, Director e professor do Instituto Industrial do Porto. As obras de construção iniciaram-se em 1870/71, sendo inaugurada em 1874. Esta capela foi posteriormente alterada relativamente à capela-mor, que ficou com configuração redonda, saliente em relação ao edifício. Deve assinalar-se que o projecto da capela-mor, para ampliação da Capela, é da autoria do arquitecto José Marques da Silva e datado de 22 de Fevereiro de 1906.
No cemitério são de admirar diversos jazigos, entre os quais o dedicado às vítimas do incêndio do Teatro Baquet em 1888 e o mausoléu do Conde de Ferreira da autoria de Soares dos Reis. Também aqui se encontra o jazigo da família Santos Dumont, onde se encontra sepultada a mãe do famoso aeronauta, Francisca de Santos Dumont.


Monumento às vítimas do incêndio do Teatro Baquet

Conde de Ferreira

O cemitério de Agramonte em finais do século XIX, tornou-se o modelo preferido para os cemitérios mais pequenos da cidade do Porto e arredores, sobretudo pelo facto de prestigiadas Ordens Terceiras da cidade terem estabelecido ali os seus cemitérios privativos (Carmo, Trindade e S. Francisco), que rapidamente se encheram de belos monumentos. Sendo assim, os cemitérios do Prado do Repouso e Agramonte são também verdadeiros "museus da morte".
Após a epidemia de 1855, todos os cemitérios das Irmandades acabaram por ser reabertos, embora fosse já, cada vez menos consensual, a manutenção daqueles que não tinham condições.
Num processo longo e difícil, cada Irmandade foi negociando com a Câmara do Porto a aquisição de secções privativas nos cemitérios municipais, tendo sido a Misericórdia do Porto a primeira a fazê-lo, adquirindo terreno no Prado do Repouso para esse efeito. No Prado do Repouso também foram depois construídas as secções privativas da Ordem do Terço e da Caridade e da Confraria do Santíssimo Sacramento de Santo. Ildefonso.
Com a reestruturação do Cemitério de Agramonte, em 1869, as outras Ordens da cidade estabeleceram também ali os seus cemitérios privativos. Dos cemitérios católicos privativos já existentes, só os da Lapa e do Bonfim se mantiveram em local próprio, porque, apesar de não serem públicos, eram já cemitérios com concepções urbanísticas modernas (sobretudo o da Lapa), em locais elevados e razoavelmente afastados de habitações. Note-se que, no Porto, existem actualmente oito cemitérios ou secções privativas em funcionamento, o que é caso único no país.

Funerais

 “Uma das coisas que contribui para a melancolia do Porto é o antigo costume dos enterros à noite; este uso, especialmente de Inverno, dá uma impressão tristíssima a quem não estiver habituado a ele. Ao anoitecer, disfruta-se muitas vezes na Praça D. Pedro um espectáculo deveras lúgubre: os sinos dos Congregados dobram, atroando os ares; dentro da Igreja, grande quantidade de pessoas até à porta, com tochas acesas, assiste aos responsos; rapazinhos do Colégio dos Órfãos com seus trajes eclesiásticos, entoam cânticos fúnebres; a eça elevada deixa distinguir, mesmo da rua, o cadáver deitado no caixão, que tem as paredes desengonçadas para os lados; na rua a berlinda espera o corpo para o conduzir ao cemitério; na praça, olhando para o lado de Santo António ou para o dos Clérigos, vemos enterros subindo pelas acidentadas ruas e, à distância, o aspecto das duas longas fileiras de tochas, mexendo e treme tremeluzindo, dão-nos a impressão de que aqueles tristes cortejos têm pressa de desaparecer para sempre na eternidade. Os caixões das crianças, quer sejam conduzidos em berlinda, quer sejam levados à mão, têm sempre a tampa aberta, vendo-se o “anjinho” enfeitado de flores e muitas vezes deitado sobre grande quantidade de amêndoas e confeitos! Numa ocasião acompanhámos um enterro a pé, como são quase todos, ao Cemitério do Repouso; a noite estava chuvosa, relampejava, quando atravessamos a rua principal, por entre as duas filas de túmulos, e assistimos ao acto profundamente tétrico de meter o caixão na cova à luz de tochas, julgámo-nos transportados ao Hamlet de Shakespeare, lembrando-nos com saudade do nosso grande actor António Pedro, que tão magistralmente desempenhava o papel de coveiro.
Os enterros de dia são raros. Os cemitérios do Porto são verdadeiros jardins com grande abundância de mimosas flores, muito bem cuidados, numa ordem e asseio irrepreensíveis e possuindo artísticos e grandiosos mausoléus. As coisas fúnebres, parece não incomodarem muito os portuenses; pois se até há bilhetes postais ilustrados com vistas de ruas de cemitérios! Francamente achamos a ideia extravagante. Quem escreverá nestes postais? Talvez algum genro a saber notícias da saúde da sogra..."
Texto de um visitante sulista, In O Tripeiro Volume 2, 20/5/1910 

domingo, 29 de janeiro de 2017

(Continuação 11)


Desde tempos recuados que se conhecem documentos, mencionando locais, nos quais, os portuenses enterravam os seus mortos.
Assim, para os lados da Sé, adossado à Catedral, existiu o cemitério do Bispo.
Anexo ao Hospital Rocamador, conhece-se a existência de um outro cemitério que servia essa unidade hospitalar.
As pessoas de posses, como se sabe, durante muitos anos, eram enterradas nas igrejas, situação que, estava vedada para todos, no caso de morte por lepra.
Para estes casos, houve um cemitério junto da capela de Santo André e de Santo Estevão, para as bandas do Largo da Ramadinha, onde terá existido um cruzeiro do Senhor da Consolação, que servia a gafaria de S. Lázaro, ali perto. Aquela gafaria tinha vindo de junto da igreja de S. Nicolau, lá para os lados da Ribeira.
O Porto também teve o seu cemitério catacumbal que, actualmente, pode ser visitado, na cave da Ordem Terceira de S. Francisco.
Cemitérios de comunidades próprias houve alguns, destacando-se o dos Ingleses, que começaram por dar descanso perpétuo aos seus entes queridos, na margem direita do rio Douro, mas, que, acabaram por levantar no Campo Pequeno, actual Largo da Maternidade Júlio Dinis, o chamado Cemitério dos ingleses.
Por outro lado, sabe-se que os Judeus tiveram o seu cemitério no Monte de Monchique.
Até 1732, ano em que se começou a levantar a Igreja dos Clérigos, o terreno em que ela seria erigida, servia de cemitério para quem era executado na forca.
Essa área conhecida como Cerro dos Enforcados ou Adro dos Enforcados, compreendia o cemitério e uma pequena capela em honra do Senhor dos Aflitos, que seriam transferidos aquando da construção da igreja dos Clérigos, para junto da Rua dos Carrancas, actual Rua Dr. Alberto Aires de Gouveia, numa área hoje situada, junto Hospital de Santo António.
Alberto Aires de Gouveia (1867-1941) foi um distinto pintor portuense que nasceu na Rua da Restauração, no Porto, a 3 de Março de 1867, no seio de uma família portuense ligada ao negócio dos vinhos.
À face daquela rua, passou a existir desde então, a Capela do Senhor dos Aflitos que substituiu um cruzeiro da mesma devoção que primitivamente ocupou esse lugar. Os enforcados passariam então, a ter enterramento, numa área atrás da capela.
Em Junho de 1857, o templo foi transferido por necessidades urbanísticas, para o interior da cerca do Hospital de Santo António.
Neste local esteve o templo, até que foi demolido, tendo sido entretanto novamente levantado e, hoje, serve de capela mortuária do referido hospital.


 “Luís Pinto de Sousa Pereira de Meneses, último representante, dizem os livros de linhagens, da nobre casa do Cutelo, em Miomães, no concelho de Resende, adoeceu e foi internado num dos pavilhões do Hospital de Santo António. Isto aconteceu por meados do século XIX quando, na cerca daquele hospital, havia dois pavilhões, um de primeira outro de segunda classe, para quem quisesse alguma privacidade e, naturalmente, tivesse dinheiro para pagar a estadia. O que era o caso do nosso fidalgo que foi admitido no pavilhão de primeira.
De uma das janelas do seu quarto avistava a capela do Senhor dos Aflitos e foi a este que fez uma singular promessa: se saísse do hospital completamente curado daria ao Senhor dos Aflitos o dinheiro equivalente ao seu peso em prata. E o fidalgo saiu do hospital curado. Não sabemos a quem atribuir o mérito da cura. Se aos médicos, se à interceção no caso do Senhor dos Aflitos. Mas de uma coisa temos a certeza: o tal fidalgo de Miomães cumpriu a promessa. Mas pagou em prestações.
Quando se foi pesar, logo após a saída do Hospital, verificou, naturalmente constrangido, que o seu peso excedia, muito, o previsto. O valor da promessa subiu assustadoramente e o Luís Pinto de Sousa não tinha disponível o dinheiro suficiente para pagar a promessa. Mas não havia problema. No dia 27 de Maio de 1872, no cartório do tabelião Francisco Pereira Pinto, perante a Santa Casa da Misericórdia do Porto, que administrava o hospital e zelava pelo culto na capela do Senhor dos Aflitos, constituiu-se devedor da quantia de 1 996$800 reis, importância em que foi avaliado o seu peso em prata. A dívida não foi saldada de uma só vez”.
Com a devida vénia a Germano Silva



Capela do Senhor dos Aflitos – Desenho de Gouveia Portuense

Capela do Senhor dos Aflitos na actualidade


Um outro cemitério existiu, ainda episodicamente, bem perto das Malvas, mais propriamente em frente à Porta do Olival. O padre Baltasar Guedes, num testamento, faz referência ao cemitério perto do Recolhimento do Anjo e a um “outro cemitério novo” entre as torres da Porta do Olival.
Para os Cristãos, fora os enterramentos para alguns poucos, dentro das igrejas e nos conventos, foram desenvolvidos espaços exteriores anexos a esses templos, sendo muitos deles portadores de cemitérios, como são exemplo a Igreja do Bonfim, a Igreja da Lapa, a Igreja de Paranhos, a Igreja de Ramalde, etc.
O adstrito à Igreja de Santo Ildefonso, entretanto encerrado, ainda existia em 1869.
O Dr. Eugénio de Andréa da Cunha e Freitas, numa interessante monografia que escreveu sobre o Convento dos Lóios, termina um dos capítulos da seguinte maneira:
"… agora, na Casa de Deus, em vez dos honrados frades de Santo Elói, estão os gordos e opulentos senhores da Finança e da Indústria, perturbando, na febre do negócio e do lucro, o eterno descanso de tantas cinzas veneráveis que ali jazem…" 

Relativamente ao convento dos Lóios, diga-se, por exemplo, que em 1808 o corpo do general D. Francisco Taranco e Lhano, comandante da divisão da Galiza que ocupava o Porto, foi sepultado no jazigo que o visconde de Balsemão (o do palacete da Praça de Carlos Alberto) tinha na igreja dos frades Lóios. Durante a usurpação de D. Miguel também ali terão sido guardados os restos mortais do general Bernardo da Silveira. Em 1838, a igreja foi demolida por estar em ruína e ser uma ameaça pública. Quando se tentava saber o que fora feita do túmulo do Balsemão e dos cadáveres que lá estavam, um cronista da época (Peres Pinto) não teve dúvida em afirmar que:
“essas ossadas e entulhos estavam a descansar no aterro da praça ou mercado do Bolhão…" 

Mas há notícias de muitas outras sepulturas no corpo da igreja e na cerca do convento dos padres Lóios, muitas delas, de difícil localização.
Por exemplo:

"Na asa do Capítulo, junto ao claustro" foi sepultado D. Manuel de Sousa, que foi arcebispo de Braga; Filipe Gonçalves, cidadão do Porto, "morador defronte da Porta do Olival, da parte de dentro", teve sepultura em Santo Elói onde instituiu um morgado a que vinculou as suas casas da "Travessa que vai dos Coronheiros (actual Rua da Vitória) para a Rua das Flores. Ao pé de um altar colateral, do lado do Evangelho, esteve sepultada D. Maria… mulher do dr. Estêvão Monteiro da Costa a qual morreu em Junho de 1693; e "no cruzeiro, junto às grades" ficava a sepultura, coberta com lâmina de latão e com as armas dos Correias de Mariz, de Francisco Correia de Mariz. António da Costa, barbeiro e sangrador, morador na Rua dos Canos (a parte da Rua das Flores que vai da Praça de Almeida Garrett até à Rua de Trindade Coelho) para ser sepultado em Santo Elói deixou ao convento o seu casal da Quinta, em S. Cosme, Gondomar. 
A pressão demográfica e as questões higiénicas, num contexto ideológico Iluminista, foram os principais factores que fizeram com que, a partir do século XVIII, algumas vozes se levantassem contra as inumações no interior das igrejas. Em Portugal, as primeiras tentativas legislativas no sentido de acabar com os enterramentos nas igrejas não deram resultados, muito porque o processo de laicização da sociedade portuguesa estava bastante retardado em relação a outros países europeus. Assim, foi necessário que muita tinta corresse até que os cemitérios públicos portugueses fossem oficialmente criados, em 1835. Porém, existiram experiências anteriores e o Porto, como em quase tudo nessa época, foi pioneiro na criação de cemitérios fora das igrejas.
Em 1833, o Cerco do Porto gerou uma situação extremamente difícil de salubridade na cidade e favoreceu o surgimento duma epidemia muito mortífera: o cholera morbus. Esta rapidamente lotou os locais de enterramento, facto agravado pelos soldados que iam morrendo nas investidas dos Miguelistas. Perante este cenário, foi necessário recorrer ao chão de algumas igrejas que nem sequer estavam totalmente construídas (como a da Trindade) e aos terrenos anexos de outras, para sepultar tantos cadáveres.
Em 25 de Junho de 1833 a regência do reino oficiou ao vigário do bispado do porto os locais que no futuro serviriam de cemitérios públicos.
Esses locais eram os que se seguem: a cerca do mosteiro de Santo António da Cidade servindo as freguesias de Santo Ildefonso e a Sé; a cerca do convento de S. Francisco para S. Nicolau; a cerca do convento de são João Novo servindo Miragaia; e a brévia dos Beneditinos de Cedofeita no sítio do Bicalho servindo Massarelos.
Esta brévia, de que hoje só resta uma fonte e um poço muito bem conservados está numa propriedade pertencente a Carlos Albino Ferreira Bastos que a herdou do pai que por sua vez a tinha comprado a um inglês.
Naquele mesmo ano, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo. A Mesa poderia ter em mente um mero terreno anexo temporário para sepulturas. Mas todo o processo de construção do posterior Cemitério da Lapa parece mostrar que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério "ao moderno". Ou seja, convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para a construção de monumentos, tal como se fazia já há algumas décadas em Paris, cidade modelo para quase tudo na época. Por isso, o Cemitério da Lapa é considerado o cemitério "moderno" mais antigo do Porto, mesmo não sendo público, até porque foi criado antes do decreto de 1835. Contudo, como situação de transição, foi necessário estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da respectiva igreja. O Cemitério da Lapa propriamente dito só foi oficialmente benzido no Verão de 1838, tendo os primeiros monumentos surgido em 1839.
Em 1 de dezembro de 1839 procedeu-se à bênção solene do cemitério do Prado do Repouso, com enterro, de novo de Francisco de Almada e Mendonça, que tinha falecido em 1804. A trasladação deu-se para vencer a relutância das pessoas ao novo cemitério. Como estava inverno com muita chuva e ventania, o bispo Manuel de Santa Inês apanhou uma constipação de que nunca se curou”.
Com a devida vénia a Germano Silva


O Prado do Repouso, durante cerca duas décadas permaneceu pouco moderno. De facto, nesta vasta quinta, parcialmente transformada em cemitério, apenas iam sendo sepultados os portuenses mais pobres. Os cidadãos abastados, se a sua mentalidade era mais "esclarecida", preferiam ser sepultados na Lapa (podiam tornar-se irmãos no próprio dia em que compravam o terreno). Se fossem mais "conservadores", talvez preferissem ser sepultados nos cemitérios das várias outras Ordens e Irmandades existentes na cidade. Estas possuíam cemitérios já no exterior das suas igrejas (cumprindo parcialmente o decreto de 1835), mas ainda junto a elas e sem qualquer ordenação espacial moderna.
Excepção foi o privativo Cemitério do Bonfim, que apesar de ter sido estabelecido em 1849/50 junto à respectiva igreja, mereceu uma organização mais moderna. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

(continuação 10)

“No relatório da gerência da Câma­ra Municipal do Porto, da presi­dência do visconde de Lagoaça, referente ao biénio 1858/59, leio este trecho: "Na freguesia de S. João da Foz fizeram-se consideráveis melhora­mentos, como no Largo do Castelo, Rua de S. Bartolomeu e na maior parte da Rua da Senhora da Luz, tudo pelo sistema de ma­cadame".  
O projeto para o arranjo de toda a zona envolvente do castelo de S. João da Foz do Douro é, efetivamente, de 1858. Nesse ano, a 16 de dezembro, para sermos mais concretos, a Câmara do Porto oficiou ao procurador-geral da Coroa a quem pedia "um decreto que a autorizasse a levar a efeito algumas expropriações de terrenos compreendidos na esplanada do castelo para que nos terrenos expropriados se leve a efeito um boulevard", assim mesmo, à francesa. Em português diz-se bulevar que significa ampla avenida ladeada de árvo­res. 
Como se sabe, as ordenações militares portuguesas proibiam, desde os começos do século XVIII, a construção de casas e de quaisquer outros edifícios em terrenos que circundavam as chamadas praças de guer­ra em que estavam incluídos os castelos, os fortes, os fortins e as fortalezas. 
Mais: nos campos adjacentes a essas pra­ças não era sequer permitido lavrar, se­mear ou plantar, fosse o que fosse. Mas, por meados do século XIX, essas leis esta­vam ultrapassadas e a Câmara do Porto, com o argumento de que naquele tempo a esplanada do Castelo era, na estação dos banhos, o mais concorrido local da Foz do Douro, queria modernizá-la. E foi isso que fez. 
Cinco anos depois, a Foz, no verão, era uma das zonas da cidade mais frequenta­das pela burguesia portuense e por famí­lias provenientes da região duriense. Já lá existia, desde 1835, o Hotel Boa-Vista que em 1863, a fazer fé numa crónica do "Jor­nal do Porto" de agosto desse ano, era um dos quatro centros de conversação que ha­via na Foz daquele tempo. Os outros três, segundo o referido jornal, eram a praia, pela manhã; a Cantareira, pelo entardecer; e a botica a qualquer hora do dia. 
O cronista especificava: "Na praia fala-se de banhos e de cada um; na Cantareira diz-se que a Foz é uma terra estúpida e que acabará um dia sufocada em sensaboria e poeira; no hotel ao redor da mesa do bilhar discutem-se as tacadas, os truques e as ca­rambolas; e na botica contam-se as vítimas do garrotilho".
A farmácia, entretanto desaparecida, fi­cou célebre, também, por causa da ação cívica e cultural que o seu proprietário des­envolveu na zona. Foi ele o conhecido Francisco Amorim de Carvalho, fundador, na Foz, de um clube a que foi dada a curio­sa denominação de Rigollot. Era frequen­tado pelas mais altas figuras da cultura, da política e da sociedade. Nos últimos anos do século XIX passaram pelo Rigollot mi­nistros, professores catedráticos, titulares, militares de alta patente e até magistrados. O barão de Paço Vieira, que foi juiz conse­lheiro do Supremo Tribunal de Justiça, che­gou a desempenhar as funções de presiden­te do Clube Rigollot. 
O arranjo a que se procedeu nos terrenos que envolviam o castelo de S. João da Foz do Douro conduziu ao desaparecimento do fosso que rodeava a fortaleza.
Já no século XX os melhoramentos na es­planada do Castelo prosseguiram. Em 17 de julho de 1907, ainda, portanto, no tempo da monarquia, o Ministério da Guerra ofi­ciou à Câmara do Porto informando-a de que estava autorizada a dar continuidade do ajardinamento do Passeio Alegre até à esplanada do Castelo. Satisfazia-se um pe­dido que havia sido feito pela edilidade. Mas havia mais dois. E quanto a esses o Mi­nistério disse o seguinte: "Quanto à cons­trução de um campo de ténis e de outro de futebol, o assunto vai ser estudado". Pelos vistos chegou a ser projetado para a espla­nada da Foz um campo de futebol. O de té­nis veio a concretizar-se. 
Ali muito perto do castelo, ao longo da costa marítima, estende-se a Avenida do Coronel Raul Peres. No desempenho des­sas funções, o coronel Raul Peres deu con­tinuidade ao arranjo urbanístico que se continuou a fazer na esplanada do Caste­lo. A evocação do seu nome na toponímia local deve ser vista como um simples ato de justiça. 
No gaveto da Rua da Senhora da Luz com a Avenida do Coronel Raul Peres, onde agora se ergue um moderno mas inestético imóvel, existiu uma das mais célebres pastelarias do Porto: a Casa Brasileira onde, nos idos de quarenta e cinquenta do sé­culo XX, se reunia o melhor da sociedade por­tuense daquele tempo. Era ali que os banhis­tas, depois do banho da tarde, iam tomar o seu chã com torradas. A esplanada, que ficava na frente do edifício, era o local preferido pelos frequentadores da casa para os seus chás das cinco. O estabelecimento ostentava na frontaria o nome do proprietário: Carlos Teixeira da Costa, avô de Jorge Nuno Pinto da Costa, o pre­sidente do Futebol Clube do Porto”.
Com a devida vénia a Germano Silva


Esplanada do Castelo em 1907 - Ed. Guia Ilustrado da Foz, de Joaquim Leitão


Da esquerda para a direita é possível observar a Confeitaria Brasileira, Mercearia Primavera e Alfaiataria High-Life. De notar que a Confeitaria Brasileira, criada por Carlos Teixeira da Costa, quando este regressou do Brasil, veio a mudar-se mais tarde, para edifício próprio, na esquina desta artéria com a Rua da Praia, com a designação Casa Brasileira.



Casa Brasileira - Ed. P.C.


Perspectiva actual da foto anterior - Fonte: Google maps


Rua da Senhora da Luz

Cine Foz - In "portoarc.blogspot"

O edifício da foto acima com o logradouro encostado ao que apresenta uma varanda, é o Cine Foz.



Farol da Senhora da Luz e Ermida da Senhora da Luz


Farol da Senhora da Luz é um farol português, já desactivado, classificado como Imóvel de Interesse Municipal (IIM), que se localizava no Monte da Luz, lugar privilegiado, cuja vista se estende da barra do Douro até Espinho, na freguesia da Foz do Douro. O Farol ficava ao cimo da actual Rua do Farol.
Foi construído junto da Ermida da Senhora da Luz, à época existente no mesmo local, mandada construir pelo bispo D. Miguel da Silva em 1536 na torre da qual foram colocadas 3 candeias para ajudar à navegação dos mareantes que demandavam o rio Douro.
Em 1680 estando a capela em ruína, foi recuperada com as dádivas de mercadores do Porto sendo o Farol da Senhora da Luz, mantido pela boa vontade da confraria do mesmo nome.
Em 1 de Fevereiro de 1758, por alvará do Marquês de Pombal é determinada a construção de um farol, no mesmo local, devido às dificuldades de entrada no Rio Douro.
O farol era constituído por uma pequena torre hexagonal no cimo de um torreão quadrangular, no lado Oeste de um edifício de dois andares, encimado por uma lanterna verde, hoje, já retirada, e substituída por um telhado.
Em 1761 estava construído e já dotado de uma estrutura capaz de lhe granjear a designação de farol, sendo assim, o primeiro farol que existiu na costa portuguesa.
Em 1814 foi destruído por um raio, mas foi recuperado e sucessivamente modernizado.
Durante as lutas entre liberais e miguelistas foi o local, bateria de guarnição daqueles e foi completamente destruído e recuperado posteriormente.
A importância do farol durante o conflito foi imensa, já que era pelo porto de Carreiros, sobranceiro ao farol, que os abastecimentos ao Porto eram feitos, pois, o rio Douro, devido à tomada de Gaia pelos miguelistas, ficou intransitável.
Quanto à Ermida da Senhora da Luz seria em 1832 desactivada, mas, no entanto, algumas dezenas de anos após, a romaria à Senhora da Luz ainda se realizava e era muito concorrida.
Em 1865 foi substituído o antigo aparelho com candeeiros de Argand e reflectores parabólicos, por uma óptica de Fresnel de 4ª ordem.
Em 1913, 18 de Dezembro, é iniciada uma modernização deste farol, o qual passa a emitir clarões de cinco em cinco segundos, com o alcance de trinta e oito milhas, tendo dirigido estas obras de beneficiação o oficial de Marinha A. Newparth.
Quanto à data da sua desactivação, há algumas divergências. Segundo a Marinha Portuguesa, terá sido desactivado em 1926, devido à entrada em funcionamento do Farol de Leça, outras fontes, porém, indicam o ano de 1945 como o ano da sua desactivação, devido às obras de modernização do Farolim de Felgueiras.

Gravura antiga do farol da Senhora da Luz (ao cimo à direita)


Farol da Senhora da Luz em 1833


Farol da Senhora da Luz em 1858, observando-se à esquerda uma estação semafórica de bandeiras, que estava sob a alçada da Associação Comercial do Porto


Farol da Senhora da Luz c. 1900 – Ed. Alberto Ferreira–Batalha-Porto; Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal


Farol da Senhora da Luz em 1925


Farol de Nossa Senhora da Luz - Casa do farol (antiga torre e a lanterna foram substituídas pelo telhado de quatro águas)


Afastado do edifício principal, cerca de cinco metros existe uma pequena torre octogonal, de dois pisos, em alvenaria revestida a reboco caiado de branco, com cinco metros de altura. Possui uma pequena e íngreme escada exterior em pedra, com guardas de ferro.
No afloramento granítico, anexo ao complexo, foram recentemente descobertas, um conjunto de gravuras rupestres.






Torre hexagonal

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

(Continuação 9)



Forte de S. João Baptista da Foz e Esplanada do Castelo


O Forte de S. João Baptista da Foz, também conhecido como Castelo de S. João da Foz, localiza-se na freguesia da Foz do Douro. Ergue-se em posição dominante na barra do rio Douro, guarnecendo o acesso fluvial à cidade do Porto.
Iniciado durante o reinado de D. Sebastião (1557-1578), na regência da sua avó, a rainha D. Catarina (foi arquiduquesa da Áustria, infanta de Espanha e rainha de Portugal como esposa de D. João III), em 1570, sob a supervisão de João Gomes da Silva, diplomata e homem de confiança da Corte, constituía-se numa simples estrutura abaluartada, envolvendo uma capela e um paço abacial anexo, mandado edificar por D. Miguel da Silva (1480-1556), bispo de Viseu, tarefa, para a qual, recorreu aos projectos do arquitecto Francesco de Cremona recrutado em Itália.
Bem perto e pela mão da mesma personagem tinha sido levantada a Capela - Farol de São Miguel-o-Anjo (concluído em 1527).


Capela renascentista do forte de S. João Baptista da Foz - Ed. Isabel Silva

Aquelas obras resultaram da acção mecenática de D. Miguel da Silva e de- correram ainda, do facto de possuir as rendas do Mosteiro de S. Tirso (ao qual a Foz do Douro estava ligada), tendo constituído a primeira manifestação de arquitectura renascentista no Norte de Portugal.
Na capela renascentista veneravam uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, considerada protectora dos homens do mar.
Diga-se que há anos existia no terreno um convento dos beneditinos de S. Tirso, a quem D. Mafalda, filha de D. Sancho I, tinha doado S. João da Foz do Douro e, que o complexo habitacional, era designado por Castelo da Foz.
Convém dizer que o bispo D. Miguel da Silva era filho do 1º conde de Portalegre, tendo seguido a vida eclesiástica após passar dez anos a estudar em Paris e onze anos em Roma como embaixador junto do Vaticano, nomeado por D. Manuel I.
D. Miguel da Silva viria a ser chamado em 1526 por D. João III para junto da corte, tendo-lhe, nessa ocasião, sido concedidas algumas rendas eclesiásticas, nomeadamente: o priorado perpétuo do mosteiro de Landim (Vila Nova de Famalicão) e a abadia do Mosteiro de Santo Tirso em Riba de Ave (hoje em Santo Tirso).
Veio a somar-se àqueles proventos, as rendas da Diocese de Viseu, pois, foi eleito por intersecção de Clemente VII para Bispo de Viseu, a 21 de Novembro de 1526.
D. Miguel da Silva teve uma estadia em Portugal de conflito constante com D. João III, entre outros motivos, também, pelo facto de se ter oposto ao rei, na introdução da Santa Inquisição no país.
Aliás, seria mais antiga a zanga e teria tido a ver com a intervenção que D. Miguel da Silva teve, no 3º casamento de D. Manuel I com D. Leonor da Áustria, que estava prometida a D. João, mas acabou por casar com seu pai, tornando-se madrasta do futuro D. João III.
D. Leonor era irmã do imperador Carlos V, e depois de enviuvar de D. Manuel I, acabaria passados 9 anos por casar com Francisco I, e ser rainha de França.
D. Miguel da Silva acabou então, por ser perseguido, tendo fugido para Roma, onde chegou lá, já como cardeal.
A elevação a cardeal fora realizada in pectore (latim: no coração/no peito), antes da fuga, por receio da reacção de D. João III.
Voltando ao forte de S. João Baptista, diga-se que, com a Guerra da Restauração da Independência, impôs-se a remodelação daquela fortificação.
Receando uma invasão espanhola pela fronteira norte do reino, o rei D. João IV (1640-56), em 1642, despachou para a cidade do Porto o novo Engenheiro-mor do Reino, o francês Charles Lassart.
Este teve oportunidade de constatar, in loco, a ineficácia da estrutura seiscentista diante dos meios ofensivos setecentistas, e elaborou-lhe um novo projeto que a ampliava e reforçava. As obras ficaram a cargo do jesuíta João Turriano.
Entretanto, problemas suscitados pela fonte dos recursos junto à Câmara do Porto, e problemas pessoais do tenente-governador da fortificação, Pinto de Matos (1643-1645), atrasaram sensivelmente o início das obras.


Vista interior da abóbada da capela - Ed. Isabel Silva


Com a nomeação de Martim Gonçalves da Câmara, como substituto de Pinto de Matos (Maio de 1646), as obras foram finalmente iniciadas, com a demolição no mesmo ano, da igreja velha, depois de tornadas prioritárias perante a invasão iminente do Minho por tropas espanholas, e encontravam-se concluídas em 1653.
Dois anos mais tarde, era o forte, considerado o segundo do Reino, logo após, o de São Julião, e o guardião não só da cidade do Porto, mas, ainda, da Província do Entre-Douro e Minho e a da Beira.


“No século XVII, o projecto de Lassart, embora modificando a orgânica da estrutura, não tocava no essencial da defesa quinhentista.
A antiga igreja, inserida na área militar, foi demolida, desaparecendo a parte central da fachada, sendo abertas as torres, removidas as lajes das campas no seu pavimento (reaproveitadas na alvenaria) e apeada a abóbada (a primeira em estilo renascentista do país). Agora a céu aberto, passou a servir como praça de armas, enquanto os seus anexos foram soterrados para consolidar o terrapleno do baluarte leste. Os nichos dos altares laterais foram entaipados por muros de alvenaria de pedra.
Ainda é possível ver vestígios da cúpula da capela, aos gomos, visível do exterior.
A partir da realidade imposta pela irregularidade do terreno e pela fortificação preexistente, a planta da nova estrutura apresenta o formato de um quadrilátero rectangular orgânico com três baluartes e um meio baluarte, concentrando o fogo da artilharia pelo lado de terra, dadas as dificuldades naturais de transposição da barra do rio Douro.
O único baluarte de traçado regular é o que aponta para a barra; dos dois voltados para o lado de terra, o do leste, é excepcionalmente pontiagudo, terminando num esporão de grande altura, enquanto do oeste se prolonga por um espigão destinado a eliminar um ângulo morto, actualmente quase encoberto pelo aterro viário.
O novo portal de acesso ao forte, em estilo neoclássico, foi construído pelo Engenheiro Reinaldo Oudinot (1796), dotado de ponte levadiça, corredor de entrada acasamatado e corpo de guarda tapando a fachada palaciana no lugar de um revelim seiscentista. Esta foi a última obra promovida, embora ainda se encontrasse incompleta em 1827.
Ao final do século XVII, em 1684, o forte estava guarnecida por 22 artilheiros, congregando seis regimentos de Cavalaria e dezoito de Infantaria.
No início do século XIX durante a Guerra Peninsular, a 6 de Junho de 1808, o Sargento-mor Raimundo José Pinheiro ocupou as suas instalações, e, na madrugada seguinte, fez hastear no seu mastro a bandeira das Quinas, primeiro acto de reação portuguesa contra a ocupação napoleônica. A fortificação estaria envolvida poucos anos mais tarde nas Revoltas liberais, tendo protegido, durante o cerco do Porto (1832-1833), o desembarque de suprimentos para a cidade.
Diante da evolução das embarcações e da artilharia, progressivamente perdeu a função defensiva, sendo utilizada como prisão para presos políticos. Entre os nomes ilustres que estiveram detidos nos seus cárceres, contam-se os de José de Seabra da Silva (na época do Marquês de Pombal) e os liberais, José de Passos Manuel e duque da Terceira.
Ainda no século XIX desapareceram o fosso e a ponte levadiça da fortaleza, assim como uma boa parte dos rochedos que a rodeavam, afastando-a do contacto com a foz do rio”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”

No século XX foi residência da poetisa Florbela Espanca, esposa de um dos oficiais da guarnição, António Guimarães, que toma posse em 15 de Julho de 1920 e que viria a ser o segundo marido da poetisa, pois, em 1913 já tinha Florbela Espanca contraído matrimónio em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola.
Na companhia de António Guimarães, acabou Florbela por fixar, em Agosto de 1920 residência na Rua do Godinho nº 146, em Matosinhos. Só mais tarde em Janeiro de 1921, foram morar para o Castelo da Foz do Douro, tendo casado em 3 de Julho de 1921.
Depois de ter casado com Guimarães e dele se ter separado mais tarde, iniciou uma relação amorosa com Mário Lage, que foi tenente médico do mesmo Destacamento de Artilharia do Porto, da G.N.R.., no Castelo da Foz, de Julho de 1920 a Fevereiro de 1922, data a partir da qual passou a exercer as funções de sub-delegado de saúde de Matosinhos.
Contraiu então, Florbela Espanca, matrimónio com Mário Lage, na Igreja de Matosinhos em Outubro de 1925, tendo passado a morar na casa de família do médico, na Rua 1.º de Dezembro nº 540, em Matosinhos.

À esquerda o nº 540 da Rua 1º de Dezembro – Fonte: Google maps



Foto actual do castelo

O forte de S. João Baptista da Foz do Douro, na primeira metade da década de 1990, sofreu uma intervenção arqueológica sob a responsabilidade do Gabinete de Arqueologia Urbana da Divisão de Museus e Património Histórico e Artístico da Câmara Municipal do Porto.
Actualmente sedia o Instituto da Defesa Nacional.



Gravura da fortaleza em 1850 - Ed. C. A. Pinto 

 Na gravura anterior entre o observador e a fortaleza, fica hoje, o Lawn Ténis Clube da Foz.



Esplanada do Castelo - In portoarc.blogspot



Largo do Castelo em 1908 - Ed. Emílio Biel

Na foto acima junto ao Hotel Boa-Vista está o Café Montanha.

Esplanada do Castelo


Largo do Castelo e Hotel Boa-Vista