sábado, 8 de julho de 2017

(Continuação 30)

Avenida dos Aliados (Avenida da Cidade, Avenida das Nações Aliadas) e Câmara Municipal

Um dos primeiros projectos para a Avenida dos Aliados é do engenheiro Carlos de Pezarat de 1889, ainda sob os auspícios da monarquia.
Nele  o novo edifício da Câmara Municipal seria localizado na zona poente da avenida, juntamente com o Governo Civil e outros organismos do Estado. Ao cimo da Avenida dos Aliados ficaria a ver-se a Igreja da Trindade e haveria o projecto para a continuar até à Circunvalação.
Em 1915 o vereador Elísio de Melo apresenta um projecto de uma avenida como prolongamento da Praça da Liberdade para norte, que prevê a demolição, entre outras, do edifício de Monteiro Moreira, onde estava, à data, instalada a Câmara Municipal.
Em 1915 Barry Parker, convidado pelo Presidente da Comissão Executiva da Câmara, Eduardo dos Santos Silva, traça um outro projecto, tendo por base a maquete seguinte e que propunha uma nova localização para os Paços do Concelho, que na proposta da Câmara existente, por sugestão do arquitecto Marques da Silva sugeria uma área próxima do Carmo e da Praça Carlos Alberto, fronteira ao edifício da Universidade e para onde, anos depois, Fernando Távora propôs, em vão, a instalação de um Centro Comercial.


Maquete de Barry Parker

Sobre a proposta de Barry Parker, podemos ler o seguinte comentário no blogue “doportoenaoso.blogspot”:

“Em primeiro plano, à esquerda, a igreja da Trindade; à sua frente o edifício baixo proposto para a câmara municipal e a avenida; ao fundo, o palácio das Cardosas.
Colocando-o no topo da avenida - no exacto local onde acabaria por ser construído - o novo edifício dos Paços do Concelho de Barry Parker tentava, simultaneamente, dominar toda a composição e respeitar a igreja da Trindade. Para tal, Parker propunha um edifício baixo, de apenas dois pisos e um mezanino. A torre da Trindade surgiria por detrás, dando a ilusão de pertencer ao próprio edifício da câmara a quem subisse a avenida. Tal como em todas as edificações que projectou para o Porto, Parker usou na nova câmara uma linguagem de linhas simples, inspirada no neoclássico portuense, aliás de origem inglesa. 
A avenida é definida pelos traçados que se abrem a partir da praça da Liberdade até à praça do Município, conferindo-lhe uma forma triangular. Pretendia-se criar uma zona comercial e de passeio, pelo que o edificado que acompanhava a avenida seria composto por corpos alternadamente avançados e recuados. Em toda a extensão, uma arcada daria acesso a estabelecimentos comerciais. Na placa central, duas pérgulas, sombreadas pela vegetação, constituíam a hipótese de passeio.
Embora aprovado, o projeto de Barry Parker foi profundamente alterado aquando da construção da avenida, em particular a arquitectura das edificações. No entanto, permaneceram ideias mestras, tais como: a localização do edifício dos paços do Concelho e o traçado das ruas que o ladeiam; o eixo central unindo a estátua de D. Pedro com o centro da fachada da nova câmara; a avenida em "forma de bacalhau"; a identificação das praças da Liberdade e do Município; entre outras.
Aquilo em que o projeto de Barry Parker foi totalmente desvirtuado foi na arquitetura dos edifícios e na imagem global da avenida. O proposto por Parker para os edifícios ficava aquém das expectativas da administração e dos mais conceituados técnicos da câmara, todos de formação francesa e beaux-arts. Por isso, acabou por desaparecer a coerência do desenho de conjunto de toda a edificação, os pátios e as arcadas, alterando radicalmente a ideia de Parker e transformando o que seria um centro de comércio e de lazer, local central da animação e da vida da cidade, num mero local de passagem”.

Em 1 de Fevereiro de 1916 começaram os trabalhos de demolição do edifício da Câmara Municipal.


Demolição dos antigos Paços do Concelho

Demolição dos Paços do Concelho em 1915. À direita a capela dos Reis Magos na Rua do Laranjal


Na foto acima a antiga Câmara sita nos palacetes de Monteiro Moreira e de Morais Alão já foi demolida. Vai ser rasgada a Avenida das Nações Aliadas, mais tarde chamada Avenida dos Aliados.


Abertura em 1921 da Avenida das Nações Aliadas - Ed. (s.n.) AHMP

Na foto anterior o edifício da esquina é conhecido como “Edifício da Nacional”. Pela avenida acima seguir-se-á a construção do “Edifício do Comércio do Porto”, “Edifício Garantia” e “Edifício Capitólio” como os mais emblemáticos.

“ O modelo de Barry Parker seria então historicamente mais correcto, mas Marques da Silva tinha razão quando desdenhava da sua pouca monumentalidade, e percebe-se que tenha procurado inspiração noutras paragens, noutro tempo e noutra arquitectura, que também tinham estreita ligação ao Porto. O concurso para a nórdica câmara portuense, ganho pelo arquitecto camarário Correia da Silva, levou à construção dos actuais Paços do Concelho, iniciados em 1920 e inaugurados apenas em 1957, já com o contributo de Carlos Ramos e, com eles, o neoclássico projecto de Parker para a avenida foi sabotado. Em 1 de Fevereiro de 1916 a obra começara, precisamente com a demolição dos antigos Paços do Concelho. Em 1919, Marques da Silva faz um primeiro projecto para os dois edifícios de gaveto que marcariam o seu arranque: o da Companhia de Seguros Nacional, a ocidente, e o do Prédio Pinto Leite, hoje Banco BilbaoVizcaya, a oriente. Sobretudo o primeiro, iniciado em 1920, interessa-nos, pois o prédio é bem demonstrativo do que Marques da Silva pretendia para a novo coração cívico citadino. De facto, o torreado edifício da Nacional é assumidamente revivalista, flamengo e maneirista. Emprega abundantes elementos originários, mas nalguns casos já em processo de mutação, da tratadística quinhentista: desde a ordem jónica gigante e da serliana, até às cartelas, aos mascarões e ao trabalho de couro; desde a o verticalismo de frontões e coberturas às lucarnas e aos vãos guarnecidos com um arremedo da ordem "francesa" proposta por De l'Orme. O prédio fronteiro, igualmente torreado e originalmente designado por Prédio Pinto Leite, tem projecto de 1922, também de Marques da Silva e, apesar de ser mais bidimensional, de maior simplicidade e menor movimento, mostra uma nítida vontade de simetria com o da Nacional. Marques da Silva, citado pelo investigador António Cardoso, autor de uma obra fundamental sobre a obra do arquitecto portuense, refere, sobre o edifício da Nacional, que "os seus elementos deveriam conjugar-se com a feição arquitectónica mais preponderante no Porto. Essa feição sofre a influência da Renascença Flamenga". Assim, Marques da Silva compreendeu a importância histórica da arquitectura flamenga no Porto. A avenida ficará como um monumento a ela, mas não só: em 1919-1920, contemporaneamente portanto ao edifício da Nacional, o arquitecto Ernesto Korrodi projectara no gaveto formado entre a Praça de D. Pedro IV e a actual Almeida Garrett, mais um edifício "flamengo", para sede do Banco Nacional Ultramarino, que se articulou com a fachada dos Congregados”.
Com a devida vénia a José Ferrão Afonso, In jornal “Público”, 10/1/12001


“Com um esboceto de dois edifícios de gaveto, datado de finais de 1919, Marques da Silva acabará por determinar o arranque da Avenida dos Aliados, então ainda designada Avenida das Nações Aliadas. Eles vão fixar a imagem urbana e monumental que será tomada como modelo para as construções seguintes, bem ajustada aos procurados valores de prestígio e símbolos individualizadores deste centro representativo.
A seguradora "A Nacional", que em Abril de 1918 havia comprado o terreno do cunhal poente formado pelo alinhamento da praça da Liberdade e da nova Avenida, e que um ano depois tem já aprovado o desenho para a sua nova sede da autoria do arquitecto Oliveira Ferreira, não ficará indiferente à proposta de Marques da Silva e em Abril de 1920 acaba por solicitar à Câmara a substituição do projecto”.
Fonte: “fims.up.pt”


Local de instalação do edifício “A Nacional”- Ed. Foto Guedes

Local actual da foto anterior - Fonte: Google Maps


Avenida dos Aliados

Na foto acima vemos, à esquerda, o Banco Aliança depois Banco Totta e Açores, em edifício que se seguia ao de “A Nacional”.
O Banco Aliança já tinha estado também, no Palacete de Belmonte dos Pacheco Pereira.


Edifício Comércio do Porto de 1932 do arquitecto Rogério Azevedo

Mais acima, na esquina com a Rua Ramalho Ortigão, sobressai o “Edifício Garantia”, de 1955, da autoria de Júlio de Brito.


Edifício Garantia – Fonte Google Maps

No terreno do Edifício Garantia, esteve antes, um campo de basquetebol do F. C. do Porto. 

"Agência Abreu" (viagens) no Edifício Garantia


Edifício Capitólio em construção do arquitecto Carlos Neves


O Capitólio actualmente  – Fonte: Google Maps

Abaixo é visível, a nascente da avenida o “Edifício Pinto Leite”, comprado pelo Bank of London & South America ao Banco Pinto Leite, e objecto de obras de ampliação, no início da década de 30.


Vista do “Edifício Pinto Leite” e da avenida, já bem lançada

Por esse lado nascente da avenida seguiam-se o “Edifício do Café Sport”, o “Edifício do Banco Lisboa & Açores”, o “Edifício do Banco Borges & Irmão”, o “Edifício Lima Júnior” e o “Edifício do Montepio Geral”, juntando-se no quarteirão seguinte o “Edifício da Caixa Geral de Depósitos”, o Edifício do “Jornal de Notícias”, o da “Lutuosa”, o da “Casa de Saúde da Avenida” e, por fim, o “Edifício da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe”.

Na área contígua ao do futuro edifício "Joaquim Pinto Leite" esteve, em tempos, um prédio com 4 pisos

Na área contígua ao do futuro edifício "Joaquim Pinto Leite" o prédio de 4 pisos da gravura anterior passou a ser um outro de 5 pisos


Ao edifício com 5 pisos acabou por ficar adossado o “Edifício Pinto Leite” na fachada voltada para a Avenida dos Aliados.
O projeto inicial do “Edifício Pinto Leite” foi requerido à Câmara do Porto por Joaquim Pinto Leite, em 1922.
Em 1923 Pinto Leite completa o projeto com a parte em falta, o betão armado. Em 1924 são introduzidas pequenas alterações ao projeto inicial. A obra estava concluída em 1924.
Nos anos 30, com a compra do prédio pelo Bank of London & South America, realizam-se obras de ampliação e transformação, sem alterar a imagem inicial proposta pelo arquitecto Marques da Silva.




Pela direita corria a Rua Elias Garcia. O antigo edifício da Câmara já foi demolido

Na fotografia acima, de 1917, podem ver-se as fachadas dos edifícios (que não seriam demolidos) da antiga Rua Elias Garcia, e que viriam a ficar ocultas pelas novas construções (executadas para garantir o novo alinhamento da Avenida). A única excepção a este modo construtivo seria a do edifício do Banco Lisboa & Açores.
Um pouco acima do “Edifício Joaquim Pinto Leite” ficaria o edifício onde esteve o Café Sport, seguindo-se aquele onde esteve o Banco Lisboa & Açores.


Vista aérea – Fonte: Google maps

Na vista aérea podem observar-se os telhados dos antigos prédios, agora recuados, relativamente ao leito da Avenida dos Aliados e, que, antes tinham as fachadas voltadas para a Rua Elias Garcia.
No canto inferior esquerdo é o “Edifício Pinto Leite”.
Com o nº 1 vê-se o único edifício que não tem qualquer outro adossado nas suas traseiras, e ficou conhecido como “Edifício Lisboa & Açores”.
É possível, também observar, que o “edifício do Café Sport” com o nº 2, está ligado ao “Edifício do Banco Borges & Irmão” com o nº 3, pelas suas traseiras.


Desenho da fachada do Café Sport

Desenho de pormenor da porta de entrada do Café Sport


Na entrada com o toldo no nº 34 e 36 era o Café Sport


Desenho da fachada do Banco Lisboa & Açores


Banco Lisboa & Açores


“Com projeto inicial de 1921, ao contrário dos edifícios deste quarteirão, o edifício do Banco Lisboa e Açores não corresponde à justaposição de uma nova construção ao preexistente, mas à construção total da área de implantação, numa distribuição espacial que se organiza em células, e onde se recorre a pátios para melhoria das condições de ventilação e iluminação”.
Fonte: “nocentenariodaavenida.up.pt”


Alçado de parte da fachada voltada para a Avenida dos Aliados dos prédios (excepto o do Café Sport) integrando o quarteirão do “Edifício Joaquim Pinto Leite”


Lendo o desenho acima da direita para a esquerda, encontramos o edifício do Banco Lisboa & Açores, seguido do Banco Borges & Irmão (abaixo representado), do Edifício Lima Júnior e por último o do Montepio Geral.


Desenho da fachada do Banco Borges & Irmão


“Em 1935 no edifício que fora do Banco Borges e Irmão é instalada a sala de bilhares do Café Sport. Apesar de, na fachada voltada para a Avenida, os edifícios não serem contíguos, nas traseiras, isto é, nas fachadas voltadas para a Travessa dos Congregados os lotes tocam-se”.
Fonte: “nocentenariodaavenida.up.pt”

Sala de Bilhares anexa ao Café Sport


Desenho da fachada do Edifício Lima júnior & Cia. Lda

No gaveto o Edifício do Montepio Geral inicialmente destinado à Companhia de Alcobaça


Caixa Geral de Depósitos – Fonte: “nocentenariodaavenida.up.pt”

O projecto do edifício da Caixa Geral de Depósitos (fronteiro ao do Montepio) é de 1930, da autoria de Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957), arquitecto chefe daquela instituição. 


Edifício do Jornal de Notícias em 1953 – Fonte: “nocentenariodaavenida.up.pt”

Para albergar a sede do Jornal de Notícias, José Marques da Silva projetou o prédio em 1925.

Edifício da Lutuosa com edifício do JN à direita da foto

Casa de Saúde da Avenida

A construção do edifício da Casa de Saúde da Avenida é de 1930, com projeto de Francisco de Oliveira Ferreira, discípulo de Marques da Silva.

Foto da colecção de César Romão, atribuída a Fernando Romão – Fonte: “nocentenariodaavenida.up.pt”

Na foto acima é possível observar que o “Edifício da Fiação e Tecidos de Fafe”, a rematar o quarteirão em que ficará inserido, ainda não tinha sido construído, o que só ocorreria no ano de 1948.

“Edifício Fiação e Tecidos de Fafe”actualmente – Fonte: Google maps

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