quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

(Continuação 14)


Décima Primeira do Barão de Forrester

Tendo os meus finados e muito respeitados amigos os Srs. António Bernardo Ferreira, e José Bernardo Ferreira sido os maiores empreendedores no país do Douro, hábeis lavradores, proprietários ilustrados, e cavalheiros estimados por todos os que tiveram a fortuna de possuir a sua amizade, julgo bem descrever as principais propriedades outrora destes fidalgos, e agora pertencentes à Exmª Sr.ª Dª Antónia Adelaide Ferreira.
Na margem direita do rio Douro, a um quarto de légua ao norte da Régua, sobre uma colina e no lugar de Travassos, está situada a casa e quinta do Sr. José Bernardo Ferreira, sem dúvida a mais fértil, e mais rica de todas as propriedades que se encontram nas duas margens deste rio, em todo o país, a que ele dá o seu nome.
O génio empreendedor e franco de seu dono à custa de grossos cabedais, e de penoso trabalho, fez que se tornasse um terreno, que era escabroso, pela maior parte inculto, cheio de rochedos, e rodeado de precipícios, em vinhas, campos, olivais, pomares, jardins, armazéns, lagares, e uma bela e apalaçada morada de casas.
Vai um soberbo muro circuitando a mesma quinta e casa, que tendo de altura 18 palmos, e pintado de branco, numa situação elevada, é visto na distância de 5 léguas.
Desde Travassos até Paredes se elevam nesta quinta um sem número de sucalcos, lançados em forma de grandes degraus. estes sucalcos feitos em ordem a sustentar horizontalmente o terreno que os separa, não são feitos de alvenaria como nas outras quintas: são grandes e grossos paredões de pedra faceada, e de espaço a espaço com um largo lanço de escadas, que os comunica.
Do alto desta quinta se goza um golpe de vista, que sempre se apetece e se deseja: dali se vê o pitoresco, o belo e o terrível; ali se apresenta tudo em perspectiva: lá se vê o Marão elevando ás nuvens seus escabrosos penhascos cobertos de neves sempre constantes... Vila Real, Cumieira, Santa Marta, Sanhoane, Lobrigos, Peso, Régua, Jugueiros e todas as povoações, até ao Moledo, dali se observam!...
De lá se vê o Douro desde a Varosa até ao Carvalho. Canelas, Presegueda, Fonte do Peso, toda a estrada desde o rio até Lamego, e todas as eminências até à serra de Santa Helena, que fica 8 léguas de distância, dai se descobrem...
Há mais abaixo um tanque que recebe 40 pipas de água, despejada por uma fonte que abrange o volume de uma telha; esta água tem a sua origem de uma extensa mina, que se abriu através dos rochedos, para se lhe encontrar o manancial. O seu aqueduto é feito com asseio, segurança e grandeza; daqui até o pomar de espinho é vinha, granjeada de tal modo que um arbusto não teria mais zelosa cultura; o que faz que toda a vinha tenha uma aparência ajardinada.
O pomar de espinho consiste em dois grandes tabuleiros, guarnecidos de altas paredes, vestidas de limeiras, limoeiros, bergamotas, cidreiras, &c.; quatro ordens de frondosas laranjeiras estão ao longo de cada tabuleiro: no primeiro há um grande tanque, que recebe duas bicas de abundante água, do qual se despejam para regarem as árvores.
Segue-se um jardim plantado a buxo: nele se veem vários arbustos, flores em volta de uma taça com seu repuxo. Para o nascente inclinado ao sul tem uma varanda de pedra de cantaria em todo o comprimento do jardim, que tendo no centro um semi-círculo saliente, guarnecido de bancos, é terminada nos dous extremos por duas portarias. As quatro partes do mundo e as quatro estações representadas em estátuas, ali existem levantadas em pilares ao longo da varanda.
Saindo do jardim, vai-se entrar em uma longa carreira, com pavimento de cantaria, guarnecida de uma asseada varanda de ferro que sustenta em grossos esteios de ferro, uma elegante gradaria de madeira lavrada, formando uma ramada de diferentes e escolhidas qualidades de uvas, e que se termina em uma casa de fresco feita também de grade de ferro, e tudo pintado de verde. Esta carreira é sobranceira a dois grandes quarteirões cada um dos quais é igualmente guarnecido de varanda de ferro: o primeiro tem uma bem ordenada cascata; o segundo, um tanque com duas bicas de água, e ambos estão plantados em horta ajardinada com as melhores qualidades de hortaliça.
À direita há um pomar de diversas qualidades de fruta de pevide e caroço. À esquerda fica a principal entrada da casa e quinta, fechada por um portão de ferro: e do outro lado da casa havia, há 7 anos, uma enorme pedreira; mas já não existe essa rocha; já desfeita, sucumbiu à força da indústria, existem em seu lugar um espaçoso terreiro, guarnecido de alto muro; essa enorme e grande pedreira tornou-se numa bem desenhada escadaria em um jardim: ergue-se à direita dela uma parede com portas que dão entrada para a vinha, e á esquerda é o corrimão de grade de ferro; vai terminar esta escadaria em um jardim guarnecido de gradaria de ferro, e que dá entrada para a casa pelo último andaime.
No fundo da quinta está a casa, levanta-se em dois andaimes, cada um de 11 janelas de frente, e na arquitectura é regular, porém no interior aparece o bom gosto e o asseio.
A capela está ao lado esquerdo da casa, é bem construída, e bem ornada e nada lhe falta para a decência do culto divino.
No primeiro andaime da casa, pela parte de trás das salas de respeito, estão três lagares de grandes dimensões em pedra de cantaria com os seus competentes pesos, fusos e balanças, e por canais praticados através do pavimento corre o vinho para dez toneis de trinta pipas cada um, arcados de ferro, e que estão no armazém, que ocupa toda a extensão da casa, ao nível da rua. Em distância curta deste, há outro armazém no sítio chamado a urtigueira dentro da quinta; dá-lhe entrada um portão de ferro seguido por uma larga rua, onde estão 600 pipas de vinho generoso, e de diferentes qualidades, e idades, divididas em lotes.
O rendimento actual desta grande propriedade é de 150 pipas de vinho da melhor qualidade entrando neste número de 48 a 50 pipas de vinho de uva bastardo; virá a ter 4 pipas de azeite, produzindo todas as oliveiras que estão levantadas, para cima.
É todavia forçoso advertir que todos os vinhos que produz esta quinta, são feitos com a maior escolha e rigoroso escrúpulo no tempo da vindima: nos lagares são escolhidas as uvas mais bem sazonadas para primeira qualidade, das menos se faz a segunda, e das menos ainda a terceira &c. e assim se tornam sempre os vinhos de maior crédito e de invariável existência; e por isso se torna a sua cultura e colheita a mais dispendiosa.
Esta narração em nada é exagerada, e a público não a rogo, mas sim com autoridade dos donos da propriedade, como terei muito gosto em descrever muitas outras quintas importantes em ambas as margens do Douro, no caso que seja a vontade dos seus possuidores.
As quintas da Boavista em Vila Maior do Valado e de Vargielas são, todas, quintas da família Ferreira, e produzem de 120 até 150 pipas de vinho cada uma, boa fruta de espinho, e algum azeite. São todas muito bem granjeadas: os lagares são cómodos e excelentes, e o vinho é feito com todo o esmero, tendo sempre comprador certo. - Mas a quinta das quintas - uma das maravilhas do mundo, outrora parte de uma cordilheira de montanhas incultas, agora servindo de monumento do quanto podem vencer a inteligência, perseverança, e o génio empreendedor do homem, é o VESÚVIO, ou QUINTA DAS FIGUEIRINHAS.
Na nossa descrição geológica do litoral do rio já falamos nesta grande propriedade. É situada sobre a margem esquerda do rio, na freguesia de Numão, concelho de Freixo de Numão, 2 1/2 léguas acima do ponto do Cachão. É quase inacessível por terra, exceto a cavalo, pela falta de estradas; mas quem a visitar pelos caminhos actuais, depois de terem andado umas poucas de horas em um deserto, entra no que bem se pode chamar paraíso. Um portão grande dá entrada para esta quinta; e magníficas e largas ruas conduzem por toda a extensão da propriedade, e com especialidade até á margem do rio, onde há uma boa casa de residência, excelente adega, e lagares espaçosos, armazéns, casas próprias para recolher os trabalhadores;  e como a quinta é muito longe de qualquer povoação ou vila, há também lojas de peso, de carpinteiro, pedreiro &c. para o serviço da quinta e para suprir a numerosa gente que forçosamente aqui se emprega por todo o ano.
Esta belíssima fazenda é cercada de um bom muro, e pode ser plantada para produzir acima de 700 pipas de excelente vinho maduro e encorpado, que também tem comprador certo, apesar de, como já dissemos, ser no cais da Baleira onde acaba a demarcação dos vinhos e embarque.
Também a quinta pode produzir de 80 a 100 pipas de azeite, 70 a 80 arrobas de amêndoa, e algum milho e centeio.
Enquanto que nos achamos nestes sítios, com estas belas vinhas em nossa frente, e com íntimo conhecimento da belíssima qualidade dos vinhos que produzem - qualidade que poderá ser igualada, mas não excedida em parte alguma da demarcação legal - gritaremos, como temos feito acerca das pedras no rio: Vergonha é que o governo, que se chama progressista, continue a marchar no trilho do retrocesso, e no obscurantismo dos tempos remotos. Em nome da razão, porque não há-de o governo actual ter coragem, sem mais pequena demora e neste momento crítico em que os habitantes do Douro se acham ameaçados com a ruina total das suas vinhas, e o país com a perca da jóia mais brilhante da sua coroa, para decretar que haja plena liberdade para cultivar a videira livremente em toda a parte, para que o vinho possa ser embarcado sem mais alcavalas, provas, e peias, que por um século tem arrasado o país, maneatado os lavradores, fazendo até criminosa toda e qualquer inovação que se encaminhe a progresso?
Há 10 anos que pela primeira vez levantei a minha débil voz neste mesmo sentido. O Commercio do Porto se lembrará da oposição que me foi feita, e que só em campo era eu o único estrangeiro a pregar esta doutrina - que aqueles, que tinham bem mais interesse que eu, para que os monopólios cessassem, e as leis bárbaras se derrogassem -, tanto contrariaram e impugnaram. Mas toda a sua oposição - toda a sua perversidade - todas as suas asserções a meu respeito alegando que o que eu tinha avançado, fora "vago, infundado, e falso" não me farão sair do meu campo: há 10 anos que tomei a minha posição, tenho podido sempre fazer frente á posição daqueles que me cercavam, e esta posição estou eu resolvido a sustentá-la, até que venha, ainda que tarde, a justiça e a liberdade que eu reclamo e que tenho direito a reclamar entre os mais proprietários do Douro.
Pois, Sr. Redactor, não se chamava a lei da imprensa a "lei das rolhas"? O governo mais direito tinha a mandar fechar a imprensa, do que tem para dizer-me a mim, e a milhares de outros - que só em certo terreno havemos de plantar couves, e em outro, semear feijão; ou, o que vem mais para o caso, - que em certo sítio de entre muros ou demarcações havemos de cultivar esta ou aquela qualidade de Vinho, o bem para as tavernas, e o ruim para o embarque.
já tenho dito que esta não é a primeira vez que tenho expendido estas ideias; mas quem tiver a curiosidade de ver o que eu escrevi sobre - Free Trade - sobre o estado actual de Portugal, e também sobre as belas esperanças que anunciei naquela época (Julho de 1853), podem referir-se a páginas nº 135 até 437 do meu "Ensaio premiado sobre Portugal" - esperanças que, como já disse, têm sido até agora malogradas.

Sou de VV.
J. J. Forrester


Quinta do Vesúvio – Ed. “boacamaboamesa.expresso.sapo.pt”

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

(Continuação 13)

Décima Carta do Barão de Forrester

O cachão da Baleira é o sítio mais romântico e importante de todo o rio Douro.
Até 1791 um enorme rochedo que aqui fazia cachão, impossibilitava a navegação direita por toda a extensão do rio. Então, Tua era um lugar importante por ser o cais onde se descarregavam os géneros que tinham de ir por terra para cima do Cachão, ou se carregavam os que vinham da raia e embarcavam para baixo.
O rio está actualmente tão seco, que nas raízes deste, outrora formidável rochedo, se veem a meio palmo abaixo de água os buracos das brocas, dos trabalhos do século passado, quando a dez palmos mais acima e, outros tantos, mais abaixo, o poço tem de 40 a 50 palmos de profundidade. No fragão à esquerda, por baixo de uma coroa imperial, vê-se a inscrição seguinte:
"Imperando Dona Maria I já se demoliu o famoso rochedo que fazendo aqui um cachão inacessível, impossibilitava a navegação desde o princípio há séculos, durou a obra desde mil setecentos e oitenta até mil setecentos e noventa e um"
Ainda há poucos anos desapareceram uma espada e bandeira que aqui existiam. O insigne geólogo português, Dr. J. Pinto Rebello, (que teve de se expatriar, por não achar meios no seu país) descreve este sítio do Douro nos seguintes termos:
"É precisamente neste ponto, onde outrora existiu a catarata que se opunha à navegação superior do rio, que termina o país vinhateiro propriamente dito. - É pois a quinta da Valeira, que ultima a demarcação da Companhia Geral, encostada ao grande penhasco de granito por onde o Douro se precipita numa longa e estreita fenda."
O canal do cachão propriamente chamado, tem de comprimento 400 braças, contando do ribeiro de Campeires até ao cais da Baleira. As margens são rocha viva, que não tem menos de 1500 palmos de altura. Abundam aqui pombos bravos e as corujas fazem entoar o seu grito melancólico por todo o sítio.
Na margem esquerda sobre o ponto mais elevado do penhasco citado, existe a Ermida de S. Salvador do Mundo e Senhora da Penha com todas as suas capelas e passos do Senhor, que não podem ser comparados em importância e extensão com o Bom Jesus de Braga; contudo belíssima que é a vista do senhor do Monte não iguala em majestade e aspecto sublime, a perspectiva que de S. Salvador se descobre. Que sítio este para o artista, para o homem de gosto, admirador da natureza inculta, para o geologista, arqueólogo ou naturalista! Daqui do lado do nascente os castelos de Numão e Anciães, situados em elevados terrenos de granito, conquistam um e outro a uma légua de distância objectos que tornaremos a referir quando concluirmos a nossa viagem pelo rio. Nota-se mui distintamente logo meia légua adiante que acabam os granitos e principiam os xistos e com eles a célebre Quinta do Vesúvio do qual nos ocuparemos quando aqui chegarmos. Pelo lado do norte descobre-se uma grande extensão de terreno montanhoso coroado pelo notável alto da Senhora da Cunha, pelo sul os vales de S. Xisto e Caçarelhes, cobertos de ricos olivais, e na encostada do mesmo monte de S. Salvador veem-se sítios que serviam de túmulos aos Romanos e mais acima entre as vinhas de terreno de lousa e granito encontram-se provas irrefragáveis de ter aqui havido em outras eras erupções vulcânicas: finalmente, voltando-se o expectador para o poente, logo se admira vendo correr o Douro no primeiro plano entre vinhas, no segundo entre granitos e no terceiro outra vez nos xistos.
Não sendo esta a primeira nem mesmo a vigésima primeira vez que tenho visitado estes sítios não me esqueci que uma pinga do meu bom vinho do Duque do Porto, do Marquês do Pombal, ou antes de D. Maria I (por ela ser a senhora do Cachão) misturado com a deliciosa água da bela fonte que nasce na casinha da - Ermida - acompanhada com um petisco tendo para sobremesa as belas vistas naturais, havia de saber bem; aqui descansei num gozo perfeito, esquecendo-me de amigos e inimigos, dos filhos, parentes, negócios e cuidados; entregue ao novo mundo criado na minha imaginação, à admiração da natureza e dela ao Creador de tudo.
Ah! que satisfação não teria metade dos habitantes deste país se pudessem também gozar destas delícias; porém não há estradas, ainda que em S. João da Pesqueira que dista um quarto de légua, se veem palácios e edifícios magníficos não há comodidades para os viajantes.
Eu digo isto por experiência: passei as últimas duas pontes em uma intitulada estalagem na qual não tivemos luxo, a não ser que a abundância de percevejos à noute e o importe da nossa conta pela manhã, possam assim ser considerados. Quando pedi contas, a resposta do estalajadeiro foi muito galante - fumando o seu cigarro e dando uma cuspidela formidável para o meio do chão, disse-me que quanto a contas não se lembrava para as dar por miúdo, porém o que tinha a receber que eram dous osberunos.
Perguntei-lhe de que terra ele era - respondeu-me: "Sou de Vila Nova de Foz Côa - A vossa senhoria parece- lhe que a conta é grande? Eu também tenho andado pelo país e não me parece muito o que tenho levado!"
Há anos, encontramos no monte de S. Salvador, vestígios de um acampamento e vários tijolos romanos - bem como algumas moedas - pedras de moer pão, ou de pisar terras metálica - porém, Sr. redactor, vamos continuando com as pedras do rio, deixando o monte de S. Salvador para quando tivermos mais vagar.
A descida desta posição elevada até ao cais da Baleira levou-nos um bom quarto de hora. Quando entramos na barquinha tivemos ocasião de gozar as escabrosas margens do poço da Caçarelhos até à Ripança e daí até S. Xisto onde intervêm os xistos e continuam até Arnozelo - aqui tornam a atravessar os granitos pela distância de um quarto de légua - ou até à quinta do Vesúvio, ou das Figueiras, em cujo cais paramos.


Sou de VV.
J. J. Forrester


Observações:

- A Quinta do Vesúvio situa-se na margem esquerda do rio Douro. perto de Murça, Mós e Santo Amaro, antes de V.N. de Foz Côa.
- O Alto da Senhora da Cunha é próximo de Alijó.
- S. Xisto fica muito perto de Vale de Figueira e já depois de S. João da Pesqueira.
- Arnozelo fica entre S. Xisto e a Quinta do Vesúvio.

Cachão da Valeira


Cachão da Valeira actualmente

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

(Continuação 12)

Nona Carta do Barão de Forrester

As minhas vindimas não permitem que eu trate somente do que está no fundo do rio; por isso eis-me nas vizinhanças da quinta do Enxodreiro e Régua, escolhendo alguns cachos de uvas sem defeito - obra bastante dificultosa em razão do oidium que nestes sítios tantos estragos tem feito.
Cheguei aqui justamente numa ocasião importante - que vem a ser uma festa musical sobre o rio. Todos os habitantes da Régua - em peso ou estavam no cais ou em barcos toldados e elegantemente armados. Os artistas eram de Jugueiros e da Régua, tocaram muito bem e todo o mundo parecia satisfeito - quando se ouviram gritos por todas as bandas, sensação geral pela aparição de um barco toldado, cortinado, emplumado de preto e cheio de homens vestidos de rigoroso luto!
Esta peça flutuante tinha estado amarrada mais para cima do rio, de sorte que os da festividade não a tinham visto. O barco fúnebre veio vindo vagarosamente para baixo - a música parou, e por alguns minutos todos mostraram certos receios.
Ao pé de mim, um sujeito assegurou-me que havia de haver pancada, que as figuras sinistras eram membros do clube musical da Régua, que vinham desafiar os seus irmãos de Jugueiros!
Outro, com aparente seriedade, deu-me a entender que talvez fossem alguns conspiradores do reino vizinho, que vinham raptar El-Rei D. Pedro V.
Um terceiro (e já se sabe o que diz o adágio acerca de negócio de três) logo que ouviu soar o verbo raptar lembrou-se do substantivo rapto, e possuído desta ideia e evocando os espíritos de seiscentos mil habitantes das regiões inferiores, exclamou com frenezim: "Será  o Conde de Saldanha raptando a filha do Ferreirinha".
Nisto o barco chegou ao pé de nós - entrou pelo meio de toda a súcia e parando entre as duas bandas de música abriram-se as cortinas e os empregados da Câmara do Peso da Régua, vestidos não de grande gala, mas de luto pesado pela morte de S. Magestade a Rainha [provavelmente D. Maria II], mostraram-se e fizeram as suas cortesias aos amigos e conhecidos.
Ora, Srs. redactores, durante o cerco do Porto e mesmo depois o general Conde de Saldanha sempre me fez a honra de me tratar com amizade; e quando escrevi o meu Ensaio sobre Portugal, ainda estava persuadido que sua Exa., já marechal e duque, era meu amigo e desejava promover o bem da sua pátria - porém, em primeiro lugar, se sua Exa. me não enganou, deixou de cumprir a sua palavra, prometendo dar-me todos os orçamentos e estatísticas sobre o país, que havia na secretária, - e não mos deu - e segundo, tanto ele como os Srs. Rodrigo e Fontes de Melo, me asseguraram que estavam resolvidos a fazer o bem destas províncias do norte, ao mesmo tempo que me fizeram a honra de pedir a minha humilde cooperação. Ofereci-me para servir gratuitamente na direcção da empresa - não fui aceite; ofereci o meu dinheiro há perto de um ano - não tem sido preciso.
Fiz o que pude, ao menos mostrei a melhor vontade - mas o bem para estas províncias ainda não veio e ainda se não principiaram as estradas!
Por estes motivos digo que hei-de pôr de quarentena todos estes bons desejos e profissões, portarias e decretos e discussões de partidos promovidos pelo governo ou seus agentes; e hei-de guardar o meu dinheiro na algibeira até que possa ter alguma garantia não simplesmente de boas palavras mas de boas obras; preferindo, em lugar de dedicar a minha atenção aos projectos de estradas do Minho, ver se posso estabalecer uma academia para a instrução de jovens arrais, na navegação deste rio, cujos obstáculos parecem que, por fatalidade, ainda tem de existir por muitos séculos.
Falo neste estilo de homens públicos, por serem eles como a caça do monte, que esta exposta, com licença ou sem ela, ao tiro de qualquer caçador, porém ainda que não esteja satisfeito com o proceder do Exmo. presidente do governo e seus colegas, muito senti ouvir semelhantes reflexões sobre o carácter particular do nobre marechal e seu filho, muito especialmente tendo eu há tempos encontrado o próprio conde que vinha de Travassos de visitar a Exma. Srª Dª Margarida Rosa Ferreira, o qual me assegurou que logo que soubera dos acontecimentos que tanto têm dado que falar, se tinha apressado a ir oferecer todas as satisfações à Exma. Srª Dª Antónia Ferreira, e não achando sua Exa. fora muitíssimo bem acolhido por sua Exma. mãe e vinha-se embora muito penhorado da visita.
Deixarei tocar os músicos e grazinar os murmuradores, que nestas alturas são ainda mais numerosos do que uma grande parte dos frequentadores da praça do Porto - lastimando em que eles não tenham outra cousa em que se ocupem, e voltarei ao exame das pedras do rio - mas por hoje não serei mais extenso.

Sou de VV
J.J. Forrester



Vindimas no Douro em 1911

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

(Continuação 11)

Oitava Carta do Barão de Forrester


Ocupar-me-ei da terceira parte do país vinhateiro, entre o Pinhão e a Baleira e que tenho chamado o Alto Douro.
A distância é de três légoas boas, mas quem tem de as caminhar facilmente acreditará serem quatro. Como acontece até aqui, não há caminho nas margens do rio, povos apenas se vem na margem direita Casal de Loivos, Foz Tua, Fiolhal, e Riba Longa, não sendo possível descobrir do rio os povos de Ervadosa, Soutelo, Nagoselo nem S. João da Pesqueira na margem esquerda.
Esta última divisão do terreno marcado para a produção do vinho que (com a exclusão de todo e qualquer outro) é destinado para o embarque, é sumamente interessante para o viajante, amador das belezas e maravilhas da natureza.
Em ambas as margens (até os ribeiros de S. Martinho, acima da quinta do Zimbro há belas quintas de vinho e azeite, e alguns pomares. No Fiolhal há bastantes amoreiras, das quais se faz alguma seda e os pomares em S. Mamede, logo ao pé, produzem a melhor laranjas da província.
O rio Tua nasce no reino da Galiza, próximo ao lugar de Pias, corre por Mirandela, fertilizando muitas terras, vem desembocar no Douro, no pequeno povo de Foz Tua.
Os ribeiros de S. Martinho separam os xistos dos granitos e são mui notáveis as vinhas na lousa de um lado de cada um dos ribeiros e as grandes e continuadas fragas de granito nos outros lados.
Destes sítios até ao 1º ponto dos Culmaços (um bom quarto de légua) as margens apresentam vistas sublimes que encantam o verdadeiro artista e amador da natureza. Nos Culmaços tornam a principiar os xistos e por conseguinte as vinhas e estas na sua vez acabam na Baleira  por baixo do celebre monte de granito de S. Salvador do Mundo.
Os pontos, de vergonha para o Governo, são os seguintes: Aroeda, Frete, Carrapata, Roriz, Malvedos, e Culmaços.
As terras nestes sítios são mais delgadas do que as do baixo Corgo e os calores são muito fortes. O bastardo e o alvarilhão que produzem bem no distrito de Penaguião não se dão aqui tão bem, e por isso que o gosto do mercado vinhateiro é sem dúvida de vinhos encorpados e com muita cor, se cultivam o Souzão, a Touriga, Tinta Francesa, Tinto Cão, Mourisca, e mais outras tintas. Os vinhos brancos ficam mais desviados das margens do rio.
As vindimas estão a findar e por toda a parte os excessivos calores tem secado muito vinho, talvez uma quinta parte da produção total.
Tenho dito que as margens do rio, por toda a extensão do país vinhateiro (que vem a ser outo léguas) tem poucos habitantes e não sendo no tempo das vindimas, apenas fica um caseiro em cada adega.
Agora porém, o país parece outro, ranchos de trabalhadores com cestos cheios de uvas às costas, comboios de bestas carregadas com odres, conduzindo vinho de umas adegas para as outras; centenas de mulheres nas vinhas, vindimando as uvas e cantando as suas modinhas; os homens nos lagares pisando as uvas ao som do tambor, viola e gaita de fole, é o que se vê e se ouve em todas as direções.
Apesar da moléstia das videiras e a probabilidade de uma continuada escasses de vinho, toda a gente que encontrei parecia contente e satisfeita, contribuindo para isso os altos preços por que se tem vendido os vinhos e não ter havido diferença sensível nos jornais.
Nota-se também que muitos negociantes estrangeiros do Porto, este ano compram uvas e fazem o vinho à sua vontade na época da vindima!
Falei os caseiros que ficam todo o ano a tomar conta das quintas. Honra seja feita a esta classe dos habitantes do Douro.
O caseiro tem toda a responsabilidade do granjeio das vinhas, do fabrico do vinho e na sua conservação até que seja carregado, desviado de qualquer povo, sofrendo privações, exposto ao rigor do tempo; recebe apenas por ano em renumeração dos seus serviços e para o seu sustento e da mulher e filhos, umas 15 a 20 moedas; são mui raros os casos em que ele se esquece do seu dever.
Os carreiros e carretões tem a consciência mais elástica, tal é o seu cuidado para que nem as pipas nem os odres arrebentem por andarem muitos cheias, que fazem alto muitas vezes pelo caminho, para dar alívio às vasilhas que conduzem, não se esquecendo de convidar os amigos que encontram para tomar parte nesta importante operação. Não deixara de ser interessante o seguinte extracto de uma ordem dada a 9 de Março de 1791 pelo juiz conservador da Companhia Geral do Alto Douro:
Sendo tão público e geral o desafôro praticado pelos carreiros de abrirem as pipas pelos batoques, até furando-as para beberem o vinho, e o dar a quem encontram; ordeno a todos os comissários que a Junta da Companhia tem no Douro, formem processos dos referidos factos &c. &c.
Não acontece haver a mesma generosidade da parte dos trabalhadores que conduzem as uvas. Às vezes tendo-lhes pedido um cacho de uvas, respondiam-me que não o podiam dar sem licença do patrão, e logo depois passava o ranco inteiro na barca de Bagauste e cada homem com todo o sangue frio lavando enormes cachos no rio, comendo-as e até dando-as ao barqueiro!
Não posso dizer com certeza se as vindimeiras costumam esconder passas nas algibeiras, porém o que é facto é que em certas quintas costumam à noute dar busca nas mulheres, na mesma forma que fazem nas fábricas de tabaco em Lisboa, Sevilha e outras cidades.
Em todas as quintas há duas cardanhas, uma para os homens, outra para as mulheres.
Nos domingos e dias santos, ouve-se missa logo ao romper do dia, para que os trabalhos da vindima não sejam interrompidos. Os homens ganham 200 reis por dia e as mulheres seis vinténs; o pão é à custa deles, mas o senhorio dá o almoço, jantar e ceia; em outro tempo também dava vinho, porém agora não o há.

Sou de VV.
J.J. Forrester

Observações:

- Nagoselo situa-se antes de S. João da Pesqueira.
- A actual barragem da Valeira situa-se perto de S. João da Pesqueira.
- O Zimbro situa-se após a foz do rio Tua.
- O Fiolhal é na margem esquerda do rio Tua próximo da sua foz.
- S. Mamede fica na margem direita do rio Tua próximo da foz.

Quinta de Malvedos adquirida em 1890 pela família Graham – Ed. “wineanorak.com”

Barco rabelo navegando no rio Douro em finais do séc. XIX

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

(Continuação 10)

Sétima Carta do Barão de Forrester


Apesar de se não poder fazer sempre a viagem da Régua ao Pinhão num dia, eu a farei nesta carta para que a descrição se torne mais interessante.
Já disse que os rios Corgo e Barosa separam o Baixo do Cima Corgo – o rio Pinhão separa este do resto do distrito vinhateiro, que eu chamo o Alto Douro.
O Corgo, chamado Corrugo pelos romanos, nasce nas vizinhanças de Vila Pouca, passa por Vila Real, recebe as águas do Tanha ao pé da Vila da Presegueda e cai no Douro entre a Régua e Canelas.
Os rios tributários do Douro entre o Corgo e o Pinhão são o Tedo, o Távora, e o Torto.
O Távora, ou Soberbo, tem origem numa fonte de Trancoso e aumentado por diversos ribeiros e regatos, divide os dois bispados de Viseu e Lamego, passa pela Vila de Távora e o Lugar de Tabuaço e daí caminha para o Douro.
Este rio deu o seu nome à ilustre família dos Távoras, e mandou-se chamar Soberbo, depois que o último marquês daquele título padeceu ignominiosa morte no Cais da Belém a 13 de Janeiro de 1759, por alegarem ter ele parte na conjuração contra El-Rei D. José I; porém o rio é ainda vulgarmente conhecido pelo seu antigo nome.
Na marca actual do Douro, os rios Corgo, Tua, Barosa e Távora, apenas são pequenos regatos – e os rios Tedo e Torto estão secos de todo.
Há poucas propriedades nas margens do Douro, desde o Piar até à Barca d’Alva que eu não possa descrever com a mesma exactidão como se fosse seu próprio dono – porém se eu declarasse que uma grande parte do vinho oferecido à venda nas adegas mais bem situadas, indicando estas uma por uma, não é produzido dentro da demarcação da Feitoria, mas trazido de muitas léguas de distância em odres – se mencionasse os nomes daqueles que em outro tempo não se envergonhavam de declarar que não havia baga nem mixórdias no Douro, sendo eles os principais cultivadores de sabugueiros e praticantes de adulterações – se indicasse a extensão de outras propriedades mencionando o número de alqueires de centeio que levam de semeadura – se enfim eu marcasse os sítios dos mais finos vinhos brancos ou tintos, notando quem se mostra mais amigo das castas de bastardo e arvarilhão, e quem prefere as de Touriga e Souzão, dizendo só a verdade e desmascarando os maiores inimigos da prosperidade ao seu país, iria contudo ofender interesses particulares e embrulhar alguns inocentes com culpados, e por isso, por enquanto, limitar-me-ei a descrever o que como viajante vi e presenciei ou o que por muitas vezes tenho visto mas sem me ocupar com individualidades.
Ambas as margens do rio nesta extensão de 4 léguas são muito elevadas e estão cobertas de vinhas – havendo entre elas bastante azeite. Agora não se pode falar nesta propriedade, porque pertence ela a um dos actuais ministros, logo as más-línguas haviam de dizer que eu pretendia dele algum crachá.
Na Folgosa e no Pinhão costuma às vezes haver bom carneiro, mas geralmente o carneiro deste país e muito magro e rijíssimo. O pão de Lamego e Portelo é o que se gasta na Régua e Folgosa: - no Pinhão acha-se a vender pão de Provesende a Favaios. É digno de se notar que até aqui todo o pão é de trigo e milhão, e só daqui para cima é que principia a haver pão de centeio.
Numa estalagem do Pinhão onde mandei recolher três cavalos meus, por uma noute, em razão da escassez de palha e grão, custou-me a sua ração dous mil e trezentos reis.
Já tenho dito que, ainda que no Piar principiem os xistos, não há pedras no rio, (exceptuando algumas de pequena dimensão no sítio da Sermenha, Corvaceira e Salgueiral) até ao Corgo: porém há-de ser difícil acreditar que exista nos países menos civilizados rio algum que se ache em tal estado do maior abandono, com tantas pedras à vista e tão fáceis de tirar como as que actualmente existem entre o Corgo e o Pinhão.
Quantas leis e decretos se têm feito ordenando impostos para melhorar a navegação do rio e tratar das obras da barra! Desta mesma barra em que os cartagineses de Himilcão naufragaram no ano do mundo 3531. Tenho todos esses decretos na minha colecção de papéis curiosos, mas por mais diligências que tenha feito não vinte e tantos anos que conheço o rio Douro, ainda ninguém me tem podido informar do destino que se tem dado aos impostos do rio e aos da barra. É verdade que 200 reis em pipa "para as pedras" não havia de render mais do que uns vinte contos anuais; porém em 10 anos importaria em duzentos contos e com tal soma muitas e importantíssimas obras se poderiam ter feito; muito preciosas vidas se teriam salvado e grandes valores de fazendas se não haveriam perdido.
Sobre estradas achamos de bastante interesse o Alvará de 13 de Dezembro de 1788, em que a Soberana declara que "sendo plenamente informada de que havendo-se dificultado pelas ruinas em que se acham as estradas que decorrem por uma e outra parte do Alto Douro o beneficio de todos que comerceiam em vinhos daquele distrito e sendo deste inconveniente também uma das causas principais, a de não haver na longitude daquele distrito uma estrada que sirva de auxilio à navegação dos barcos que sobem e descem pelo Rio Douro, nos tempos em que a nímia abundância ou a grande falta de águas dele dificultam, a sua pronta navegação, sou servida ordenar que se construam as referidas estradas, na forma mais pronta e perfeita, de que os respectivos terrenos forem capazes etc, etc."
Tem decorrido 66 anos e as estradas ainda ficam em projecto!!!
Os arrais chamam pontos ou galeiras, aos obstáculos à navegação e em uma das minhas obras já publicadas menciono que existem tem todo o rio 210 destes pontos, todos os quais estão actualmente à vista. Os pontos do Corgo, Bagauste, Outeiro de Covelinhas, S. Martinho, Moreirinha, Seco do Ferrão, ponto novo do Ferrão, Canal de Moura, Cachucha, Chanceleiros, Oliveirinha, e Sopas ou Buxeiro, são objectos que envergonham o actual governo de Portugal, por serem estes de fácil melhoramento. Quanto ao ponto do Canal das Marcas, o seu concerto seria mais custoso.
Julgo, Srs. Redactores, que os seus dignos compatriotas não levarão a mal as impressões de que me tenho servido, filhas do vivo interesse que tomo na prosperidade deste país, escrevendo na minha barquinha estas cartas e subindo estes mesmos pontos à força de trabalho dos infelizes marinheiros, trabalho que bem podia evitar-se.

Sou de VV
J.J. Forrester



Observações:

- O rio Pinhão nasce na Fonte de São João, no lugar de Raiz do Monte da freguesia de Vreia de Jales, no concelho de Vila Pouca de Aguiar e é um afluente da margem direita do rio Douro, após um percurso de cerca de 30 km de extensão, desaguando na Vila do Pinhão. Inaugurada em 2008 a Barragem do Pinhão, instalada no curso do rio, abastece os concelhos de Vila Real, Sabrosa, Peso da Régua, Murça, Alijó, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio.
- O rio Távora tem extensão de cerca de 70 km.

De 335 marcos, o Marco Pombalino nº 7 da Quinta da Manuela



Vista do Pinhão a partir do miradouro de Casal de Loivos – Ed. Roteiro do Douro

Barco rabelo navegando no rio Douro, com vista para a cidade da Régua em 1900

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

(Continuação 9)

Sexta Carta do Barão de Forrester 

Na nossa última carta dissemos que no Piar não existia indício algum de ter havido princípio de estrada em comunicação com a ponte que neste sítio se tentou fazer. Este facto é mais notável quando se vê no Elucidário de Viterbo que:
“El-Rei D. Dinis no ano de 1301 fez romper novas estradas por cima da sua Ponte do Douro em direitura a Canaveses”
Naquela época podia-se servir da palavra estrada, falando de qualquer caminho insignificante; porém, pelo que vimos nas nossas digressões de Penafiel até Mesão Frio por Canaveses e Marco, em alguns sítios é mesmo dificultoso passar um homem a cavalo.
O Piar não é somente notável por ser um sítio de muita passagem no XIII século, mas por ser o sítio onde acabam os granitos e principiam os xistos, e o país vinhateiro do Alto Douro.
O Douro faz bastantes voltas entre o Piar e a Régua – as suas margens são muito elevadas e cobertas de vinhas, entre as quais se notam alguns pomares e grande número de sabugueiros.
O rio leva mui pouca água – não se vêm pedras algumas, ainda que enormes bancos de areia estão depositados sobre grandes açudes de pedra de lousa.
Na margem direita notam-se os povos de Barqueiros, Mesão Frio, Cedadelhe, Oliveira, Fontelas, Caldas de Moledo, Salgueiral, Jugueiros, Régua e Peso.
Na margem esquerda temos Portagens, Vilar, Barô, Valonguinho, Moledo, Penajóia, Corvaceira, Samodães, Cambres e Portelo meia légua distante de Lamego.
Barqueiros é a primeira terra dos arrais e marinheiros – é abundante em vinhos e frutas mas a povoação é miserável e os habitantes pobríssimos.
Mesão Frio é uma vila bastante grande, situada no cume da montanha, tendo excelentes casas e a sua rua principal a mais bem calçada possível, formando parte da nova e excelente estrada real de Amarante à Régua. Sendo esta vila a principal entre Canaveses, Amarante e Lamego, já em 1097 o Conde D. Henrique e a piíssima rainha Dª. Teresa compraram nas suas vizinhanças umas casas para albergaria dos pobres, enfermos e peregrinos, e vê-se no citado Elucidário que a mesma rainha Dª. Teresa: “coutara a Gonçalo de Eriz a Quinta de Oseloa, e que de mão comum estabeleceram uma Albergaria em Meigomfrio, junto da mesma quinta, de cujos rendimentos se satisfariam os encarregados da dita albergaria,” – da mesma forma que “esta santa rainha estabeleceu a barca de Por Deus, a albergaria no lugar de Moledo, a de Amarante e Canaveses.”
A ideia vulgar por todos estes sítios, é que foi a rainha Santa Mafalda a fundadora destes pios estabelecimentos, porque lê-se nos documentos de Arouca, onde tanto a rainha D. Mafalda e a sua santa neta Mafalda ainda se veneram, que estas albergarias já eram velhas, quando a santa estava no princípio da vida.
O lugar das Caldas defronte de Moledo deriva o seu nome das águas sulfúricas que ai nascem perto do Douro e até no próprio leito do rio. Há mui poucos anos que apenas existiam aqui umas casinhas muito ordinárias e poucas ou nehumas comodidades para os enfermos que frequentavam as águas, porém agora há uma boa hospedaria, bons quarteis para famílias, lojas de peso bem sortidas, e como a posição é bela, o ar saudável, e a estrada magnifica, a afluência de gente irá cada vez em progresso aumento.
Cedadelhe, Oliveira e Fontelas, nada têm de extraordinário, sendo simplesmente povos pequenos cercados de vinhas, porém vale bem a pena que o viajante suba até aos cumes das serras de S. Silvestre e S. Gonçalo de Mourinho por ser da primeira onde ele poderá gozar belíssimas vistas das margens graníticas do rio, e da segunda de onde se pode descobrir todo o país vinhateiro de baixo Corgo.
De S. Silvestre vê-se toda a natureza em toda a sua majestade: em quanto que de S. Gonçalo de Mourinho, não há um palmo de terra que não fosse levantada três vezes por ano pela enxada do cultivador.
Salgueiral e Jugueiros estão situados num belíssimo vale onde em outro tempo não se cultivava senão trigo e frutas por ser a terra muito pesada demais para vinhas, mas depois da lei de 1843 cobriu-se de videiras.
Régua, como as Caldas, vai cada vez em aumento, especialmente na margem do rio onde se têm construído muitos e belos armazéns para o depósito de vinho. A principal casa é a da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro – na qual se fazem as reuniões das provas. Antigamente era muito curioso estar no Peso ou na Régua na época da feira, quando os lavradores vinham vender e os negociantes comprar os vinhos novos. Então como sempre acontece debaixo de monopólios, a companhia tinha grandes privilégios e entre eles o de comprar todo o vinho que quisesse, pelo preço da taxa por ela mesmo imposta – enquanto que o comércio em competência uns com os outros, muitas vezes tinham de pagar o dobro destes preços sendo o excesso da referida taxa chamado, maioria, pagável em dinheiro de metal sonante (com exclusão de papel moeda) à factura do escrito.
Também as leis do marquês do Pombal estavam em pleno rigor – não podendo haver introdução de vinhos de fora da demarcação, nem tão pouco o sabugueiro podia existir no distrito nem o seu fruto ser usado, debaixo de grandes penas. Neste último ponto a companhia prestou muito serviço aos principais consumidores do vinho do Douro, e como tinha o poder de apartar arbitrariamente os vinhos que quisesse para embarque, limitava-se o comércio entre poucas mãos. Depois teve o subsídio dos 150 contos e a produção aumentou espantosamente para melhor poder suprir a compra das 20 mil pipas que ela era obrigada a fazer anualmente. Nestes últimos anos, ainda que a companhia não fosse abolida, a lei do subsídio forçosamente teria de o ser pela razão da escassez que ao princípio resultou de estações desfavoráveis e agora ultimamente pelos efeitos da moléstia que tão terrivelmente flagela todos os países vinhateiros.
A companhia deixou pois de ter privilégios e autoridade, porém no seu lugar se estabeleceu uma comissão com quase idênticos poderes da extinta Companhia para regulamento das provas e separação dos vinhos, facilitando porém o uso da baga na sua composição, em razão da continuada exigência de imensa cor, dos vinhos intitulados de primeira qualidade para o embarque.
Como o meu fim, por ora, é só descrever as margens do Douro, reservar-me-ei para uma próxima ocasião para descrever o interessante país que se estende para o interior, e que é tão rico por natureza, mas cuja produção não é permitido desenvolver-se em razão das curtas e interessadas vistas das sucessivas administrações que Portugal tem tido e parece continuará a ter.
Há muito boas casas tanto na Régua como no Peso, e entre elas há fortunas colossais.
Todos os habitantes têm mais ou menos vinhas, e as pessoas principais são comissários de várias casas de comércio do Porto.
Graças ao digno administrador do correio central do Porto, e do seu delegado no Peso da Régua, há correio todos os dias entre o Porto, Vila Real, Lamego e Régua.
Na margem esquerda, desde Vilar até Cambres apenas há o sítio de Barô digno de especial menção, em razão do seu antigo convento situado no alto da montanha de onde se descobrem vistas tão vastas como as de S. Silvestre e com a vantagem de ser num país cultivado e abundantíssimo em vinho e frutas.
Acima da Régua, o rio Corgo e defronte o rio Barosa, formam os limites do país vinhateiro conhecido pelo distintivo de Baixo Corgo, cujos vinhos são mais palhetes que os do distrito contíguo.
As margens do Corgo não deixam de ser pitorescas, mas para vistas magnificas e sublimes, e que talvez seria difícil encontrar iguais em parte alguma do mundo, é forçoso que todo o viajante de bom gosto dê o seu passeio a cavalo pelos sítios da Valdigem, Sande e Serra de Balsemão até á antiga cidade de Lamego, voltando pela estrada real por Portelo, outra vez para o Douro.
Quanto ao estado das vinhas entre Mesão Frio e Régua pode dizer-se que a moléstia tem estragado as uvas todas, enquanto que apesar das asserções feitas por pessoas interessadas, a moléstia não fez grandes estragos na zona de Penaguião e se não fossem os grandes e continuados calores destes últimos dias que secaram muitas uvas a novidade de 1854, apesar de escassíssima em alguns sítios, noutros teria produzido dobrada quantidade do vinho da colheita do ano passado conforme escrevi neste jornal na minha carta de Pinhão.
Na estrada da foz do Barosa até à quinta de Vale de Lage, propriedade do nobre visconde de Várzea, notei com muito interesse que em algumas vinhas deste fidalgo a moléstia tinha feito grandes estragos, porem que no meio delas havia uma única vinha em que as videiras não tinha sinal algum da moléstia, e as uvas eram abundantes, bem criadas e perfeitas.
Tão extraordinária era esta vista que por três vezes tentei copia-la fotograficamente, porém, em razão do sol ardentíssimo todas as minhas tentativas foram malogradas.
Na Régua ainda se registam todos os vinhos produzidos no distrito, concedendo guias para a sua condução para baixo – guias que têm de ser conferidas e rubricadas no cais do Bernardo, Perto do sítio do Piar.

Sou de VV.
J.J. Forrester


Observações:

- O rio Corgo tem foz na margem direita do rio Douro.
- O rio Barosa agora Varosa, tem foz na margem esquerda do Douro em frente ao Peso da Régua.
- Cambres é a seguir a Samodães.


Caldas de Moledo – Ed. Pedro A. Leitão

Miradouro de S. Silvestre – Ed. Pedro A. Leitão


Casa da Companhia das Vinhas do Alto Douro na Régua, agora um museu – Ed. Pedro A. Leitão

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

(Continuação 8)

Quinta Carta do Barão de Forrester - 25 de Setembro


Desde Porto Manso até o Ponto do Piar, distante cerca de três léguas, o rio actual passa entre rochedos e altas penedias.
Na margem direita há os insignificantes povos de Lugar das Vendas, Mirão, Porto do Rei e a Vila de Barqueiros; na margem oposta apenas há o povo das Caldas de Aregos e algumas casas defronte de Mirão, Porto de Rei &c.
Vê-se a cultura em alguns intervalos, porém com imenso custo em razão da natureza do terreno.
Depois da demolição das azenhas, tem-se estabelecido moinhos em barcas sobre alguns pontos do rio, mas apesar dos ventos soprarem constantemente, não há moinho de vento algum desde S. João da Foz até à raia!
Logo acima do Portozelo, por exemplo no ribeiro de Cabrão, sítio lindíssimo e que produz azeite e algum vinho, há moinhos que, apesar da escassez geral das águas, são decerto, os melhores do rio; mas assim mesmo os habitantes precisam esperar alguns dias para lhes tocar a vez para moer o seu pão, em razão da grande concorrência dos povos vizinhos, que vêm aqui moer o seu pão trigo, bem como o milho e centeio enviado da cidade invicta de propósito para este fim.
Ora neste século de progresso, depois de recebidos no Porto os cereais da raia, com, pelo menos, 30 léguas de carretos e frete, tem estes de tornar a voltar dez léguas e três quartos de caminho para serem moídos e depois de novo conduzidos para o Porto!!!
Estávamos no cais da Rapinha, quando chegaram dous barcos, um dos quais carregado de sacas de milho e trigo vindas do Porto e conduzidas por um homem, sua mulher e filha. Trouxeram apenas três carros e meio em 20 sacas. O frete da condução do grão para cima, e para baixo, de farinha, apenas importava em sete mil reis, e por esta diminuta quantia, a família havia de gastar pelo menos 15 dias, pagando por sua conta as alagens e a algum homem para os ajudar a subir os pontos!
O segundo barco era de passagem de uma para a outra margem do rio, e logo que chegou a terra debaixo de uma salva de trovões e relâmpagos, saltou na praia um sujeito vestido de chambre de riscado e chapéu de palha, com um pau argolado, o qual se dirigiu a mim exclamando: “dê cá esses ossos!” e conheci que quem me abraçava com tanta amizade, não era outro que o distinguíssimo Ministro de Estado honorário Dias de Oliveira. Este recto juiz tendo aqui as suas terras, veio há pouco ver as obras que trás, e tendo visto do alto da sua quinta passar a minha barquinha, apareceu na forma do costume sem aparato algum nem bazófia, a oferecer-me a sua hospitalidade.
Da mesma maneira que os meus patrícios da Escócia aparecem por toda a parte, também se encontram nacionais da Galiza. Na Rapinha, neste sítio tão remoto e pouco povoado, logo que chegaram os dous barcos indicados, apareceu um galego para conduzir os sacos para o moinho, e com efeito ele só os levou. Como cada saco trazia 7 alqueires e ele tinha de o levar até ao moinho, distante uns 180 passos, fez pelo menos de ida e volta, uma légua de jornada na condução dos 20 sacos, e por este trabalho recebeu 200 réis.
As perspectivas são belíssimas nestas três léguas até o Piar; mas a cada passo há uma galeira que torna a navegação perigosíssima em toda a marca do rio. O leito está descoberto e acham-se à vista todos os obstáculos à livre navegação: as enormes pedras que em certa marca do rio estão cobertas, vêem-se-lhes agora as raízes cercadas de erva infernal e de bichinhos, como lagartos e pequenas cobras que eu nunca imaginava encontrar em semelhantes sítios.
Na ínsua da Bula é onde os rochedos apresentam uma configuração mais curiosa e pitoresca, por causa da força das correntes das águas, e aqui o rio agora (25 de Setembro) junto à lage da Bula apenas tem 40 palmos de largura e 25 a 30 de profundidade, tendo os rochedos em cada margem pelo menos 40 palmos fora de água.
Tem-se alteado e reformado o paredão da Bula – é uma bela obra esta, tão bem executada como concebida.
Não vi preparativo algum para o melhoramento do ponto de Louvagem – pois as pedras bem descobertas estão – mostrando claramente quão fácil seria a sua demolição. Bastante gente anda trabalhando no Cadão, a alargar a pequena estrada que existe na margem esquerda para a alagem dos barcos. Aqui vêem-se muitos rapazes e raparigas levando pedras e entulho em pequenas canastras à cabeça (!) e algumas pedras em terra se andam quebrando, porém nas pedras do ponto mesmo, não se tem bulido. É pois de recear que se deixe passar esta ocasião para talvez nunca mais voltar, em que o curso do rio podia tão facilmente ser temporariamente conduzido em outra direcção, enquanto se fizessem as obras necessárias, no sítio mesmo daquele ponto. No buraco do Cadão, existe uma pedra sobre a qual batem todos os barcos nesta marca do rio; - com meia dúzia de arráteis de pólvora, dentro de dous dias, podia desaparecer este obstáculo, porque agora apenas trás meio palmo de água por cima.
Igualmente na Figueira Velha não vejo andar obra alguma quando também em poucos dias e diminuta despesa, este ponto poderia melhorar-se.
Canedo em que em outros tempo tão grossas somas se gastaram – ainda nesta marca do rio restam uma pequena obra a fazer-se, que dentro de 8 dias em se podia efectuar e com mui pouca despesa e que será quase impossível logo que venham as águas.
Na Ripança andam obras para facilitar a descida dos barcos carregados quando a marca de trinta anda a descobrir e juntamente para a subida dos barcos. Esta obra não deixará de ser útil até onde ela chegar.
No Piar sentimos verdadeiro gosto por ver que finalmente se tinha tapado um dos canais neste ponto com uns poucos de sacos cheios de areia, de sorte que com a maior facilidade se podiam limpar as pedras soltas e entulho de calhau que ai se achavam depositados. Este ponto é um dos mais interessantes em todo o Douro, 1º por ser a chave das montanhas do distrito vinhateiro, e 2º por ser o único sítio em todo o rio onde se tentou fazer uma ponte de pedra. É evidente que esta ponte nunca se concluiu, ainda que, na margem esquerda existe a maior parte de uma coluna de pedra de cantaria, não há indício algum até de ter havido princípio da estrada. No Calhau da margem direita, havia há anos uma das colunas mui bem conservada e também se viam os alicerces das outras duas, porém agora estes estão cobertos de areia e a torre está quase desfeita.

Sou de VV.
J.J. Forrester

Observações:

- Vila de Barqueiros é após Santa Marinha do Zêzere e Frende.



Vista obtida a partir da estação ferroviária de Barqueiros – Fonte: Google maps


Marco Pombalino da Quinta de Piar, Barqueiros, Mesão Frio – Ed. “mesaofrio.com.pt”

Na foto acima na Quinta de Piar um dos marcos classificados como monumentos de interesse público em 1946, de demarcação da zona de Vinhos Generosos do Douro.
Aquele marco foi colocado nos terrenos de Lourenço de Azevedo, que solicitou a inclusão da sua quinta na demarcação em 1759.
Tendo sido anos mais tarde, usado com um outro na construção de um armazém, foi posteriormente recuperado e em 1941, recolocado na vinha abaixo da casa por iniciativa do então proprietário, o Eng. Luís Guedes de Paiva.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

(Continuação 7)

Quarta Carta  do Barão de Forrester  

O Convento de Ancede situado num belo vale, ainda que em posição elevada, a um quarto de légua de Porto Manso, é digno de atenção: mas o seu estado actual de abandono e a ausência dos frades, contrastam de uma maneira singular com o seu aspecto ordinário em outros tempos. O lugar de Porto Manso muito sente a extinção destas corporações religiosas, pelas esmolas que os frades distribuíam diariamente aos pobres – e quanto ao terem acabado os dízimos, dizem os povos que este benefício resultou só a favor dos proprietários. Conheço um indivíduo que ganhou com a mudança e é o meu compadra e arrais, António de Oliveira Dias (mestre o mais hábil no Douro) que tem aqui seu casal, e que costuma nas ocasiões da minha chegada empregar os serviços do ex-cozinheiro do dito extinto convento de Ancede. Em mui poucos países tenho assistido a jantares mais bem servidos e abundantes do que o foi um, que o meu compadre aqui me deu. Todas as cobertas foram servidas com delicadeza e asseio. Tivemos excelente caldo, vaca cozida e arroz – galinhas cozidas com presunto e salsichões – enorme peru assado com o seu picado à Ancede – dois gansos formidáveis – alguns frangos – uma perna de vitela – presunto de Melgaço feito em fiambre – boa cernelha de vaca assada – três coelhos bravos ensopados – dois excelentes guisados – um leitão muito tostadinho – e meia dúzia de perdizes mortas com toda a cerimónia da antiga lei, em 1 de Setembro. Depois seguiram pudins, pão-de-ló (ou cavaca fina), biscoutos, morcelas, melancia, melão, laranjas, limas, maças, pêras, pêssegos e doce de calda; - porém nem um só cacho de uvas, nem tão pouco uma garrafa de vinho!
As uvas pela maior parte se perderam e tal será a escassez de vinho nestes sítios, que o velho que em outros anos se comprava a seis mil reis e moeda de ouro, já se está vendendo a 30$ooo réis.
Fiz os meus cumprimentos ao meu compadre pela sua prodiga hospitalidade e ele respondeu-me que muito estimava poder mostrar-me que nos vinte anos que me tinha servido, não somente tinha ganho para o sustento e educação da sua família mas também poupado bastante dos dinheiros que eu lhe tinha dado a ganhar, não somente para me fazer este pequeno oferecimento mas também para que tivéssemos um petisco para comermos na viagem que íamos seguindo.
De Porto Manso fiz uma digressão até à antiquíssima vila de Canaveses, onde no Marco achei as videiras com a mais bela aparência e cheias de magnificas uvas – facto este o mais notável, quando nos arredores todas as uvas estão perdidas pela moléstia.
O Tâmega em Canaveses, ainda trás bastante água e tem uns 400 a 500 palmos de largo. O sítio é tão belo, que apesar da falta de comodidades, achei bastante em que me entreter durante dois dias inteiros.
Em todo o concelho de Baião, o pão está muito caro em razão do calor que tem perdido a maior parte do que estava na terra e que não servirá senão para o gado.
A ribeira de Porto Manso, outrora mui produtiva e abundante em água, este ano produz menos que metade do usual e se as chuvas continuarem a faltar, as consequências poderão ser mui fatais.
O estado do rio Douro entre o ribeiro de Pala e o rio Bestança é digno de particular observação. O leito está todo descoberto e o rio é um mero canal que apenas tem 60 palmos de largura e cujo curso é entre enormes rochedos de granito de 25 a 35 palmos de altura. Estes rochedos estendem-se sobre um espaço de 800 palmos de largura em cada uma das margens, até á casa do açougue em Porto Manso e a casa do Souto no cais do rio Bestança – e ambos estes pontos estão na altura de 60 a 70 palmos da borda do rio. Mesmo quando estes rochedos se acham cobertos, é uma temeridade navegar no rio com barcos carregados – porém no Inverno acontece muitas vezes que as enchentes do rio trazem dentro do curto espaço de três dias tal quantidade de água, que o rio sobe até às duas casas indicadas, tendo pois 1600 palmos em lugar de 60 de largura, e 90 de altura.
O motivo do rio levantar tanto neste sítio é bem óbvio: - nos pontos de Escarnidas e Fiéis de Deus, o aperto das margens e a altura dos rochedos impede que as águas desemboquem, e por isso espalham-se pelo cais de Porto Manso, da mesma maneira que em 1780 antes de se demolir o cachão de S. João da Baleira, as águas não achando expediente cobriram toda a Ribeira da Vilariça.
Logo acima das pedras da Morteira, que são os mais altos rochedos no cais de S. Paio, defronte do Porto Antigo, existia no meio do rio a pedra nativa chamada da Seixeira, que tinha 20 palmos de altura sobre a actual margem do rio – mas não era prejudicial à navegação – antes era uma rica propriedade de um particular, que dela tirava bom rendimento pela pescaria que até 1828 rendeu seiscentos e tantos sáveis num dia. Apesar do dispêndio, inutilmente feito a meu ver, com a demolição deste rochedo – ele ainda tem seis palmos de altura fora de água.
Se antes de empreender estas obras, se tivessem aconselhado com os homens práticos, haviam de ter-se informado que o princípio da resistência da água da Seixeira, nascia da Fisga para baixo – águas que não levam os barcos para a Seixeira, mas sim sobre o rochedo Gonçalo Velho, no cais do Souto do Rio, onde iam e ainda vão bater: e em prova desta nossa asserção a corrente que principia na Fisga ainda continua com a mesma força na marca do rio em que sempre é prejudicial.
A pólvora não está muito cara – o ferro não falta – a gente da terra tem sempre vontade de trabalhar, venha a ordem para a demolição somente de metade do assustador Gonçalo Velho, e em poucos dias e sem que se faça grande despesa, ele deixará de existir.

Sou, de VV. &c.   
J.J. Forrester


Convento de Ancede – Ed. Pedro A. Leitão