terça-feira, 27 de novembro de 2018

(Conclusão)


Lugar da Igreja, Quinta do Dourado e capela de S. Cristovão


Esta quinta situada no antigo Lugar da Igreja, hoje na Rua da Igreja Velha, é composta de casa nobre e de caseiros, jardim, capela, eira de pedra e uma cortinha de lavradio. Dizem os textos que em 1772 o proprietário M. Costa Santiago reconstruiu-a, e que em 1849 passou à administração de Boaventura da Costa Dourado para nela mandar celebrar missa.


“Situada na R. da Igreja Velha, tem casa nobre, casa de caseiros, jardins, capela, eira de pedra, uma cortinha de lavradio, um monumental portão de entrada com nicho vazado no tímpano a recolher o orago protetor S. Cristóvão e, no logradouro da entrada, bem próximo da capela, existe um pavilhão ladeado por 2 pedras de arma de bom lavor e, defronte dele, um amplo lago enquadrado por esculturas barrocas em granito.
O atual portão de entrada belo monumental, o amplo lago e o pavilhão ladeado por 2 pedras de arma de bom lavor são da responsabilidade do último comprador da quinta em 1954, o Eng.º João Paes de Aguilar, que fez grandes obras na quinta modificando os jardins, construindo o lago e o pavilhão e substituindo o portão de entrada pelo atual que ele mandou fazer propositadamente para valorizar e recuperar a quinta”.
Com o devido crédito a José Rodrigues


Capela da Quinta do Dourado


Sobre a capela acima e segundo, José Rodrigues:

“Capelinha barroca, ereta sob a proteção de S. Cristóvão, e já sem a belíssima talha, foi referenciada em 1741 como 'huma capela com o seu quintal pegedo que adquirido de novo por compoziçãm que fes com os moradores da freguezia de Sam Mamede da Ermida que esta tudo cito no lugar donde estava situada a lgreya Velha da dita freguezia' (segundo o Eng.º Agostinho Boavida, em 1772, o proprietário M. Costa Santiago reconstituiu-a).
Parece concluir-se, com relativa segurança, que no quintal anexo à capela a que se reporta o aludido documento de 1741 esteve implantada a antiga igreja paroquial de S. Mamede de Infesta.
Em 1849, a quinta passou a ser propriedade de Boaventura da Costa Dourado para mandar celebrar missas na capela de S. Cristóvão existente na quinta.”


Boaventura da Costa Dourado foi um brasileiro de torna-viagem que tinha partido em 1813 para o Rio de Janeiro, para ver se aí resolvia os seus problemas mercantis e financeiros.
Regressado a Portugal antes de 1831 com a sua mulher Ursula Joaquina (Dourado) e os seus 2 filhos brasileiros baianos,  a família foi viver para a Rua das Flores, na freguesia da Sé, tendo aí se estabelecido como comerciante.


Portão de entrada da Quinta do Dourado  e casa nobre na Rua da Igreja Velha


Lugar de Picoutos e Capela de São Félix


Situada no antigo lugar de Picoutos, a Capela de São Félix, hoje à face da Rua da Mainça, integrava originalmente a quinta com o mesmo nome, sendo, aquele, o orago privativo da família proprietária.
Embora a propriedade de São Félix se estendesse pela área da freguesia de São Mamede de Infesta, a Capela de São Félix, situa-se em território de Leça do Balio.
Há alguns anos, a capela era usada para armazém de apoio à área agrícola anexa.
Por acção da população começou por ser limpa e, mais tarde, totalmente recuperada pelas autoridades.

“Esta pequena capela setecentista de uma só nave de planta retangular e sacristia adossada lateralmente também retangular. Os diferentes volumes são articulados com coberturas diferenciadas em telhado de uma e duas águas. A fachada é enquadrada por cunhais rematados por pináculos piramidais. O portal principal de vão retangular é balizado por pilastras toscanas que suportam um frontão curvo interrompido, sobrepujado, sucessivamente, por uma janela envidraçada e um nicho emoldurado que já não contém o santo padroeiro. No topo, apresenta um campanário, de um só vão, rematado por um frontão triangular interrompido, sobre o qual se implanta uma cruz. O interior de nave única abobadada é iluminado pela janela da fachada principal e por duas outras gradeadas rasgadas nas paredes colaterais. De salientar ainda o coro-alto, apoiado por consolas de pedra e com varandim de madeira cujo acesso é feito pelo exterior. No altar existe um retábulo, em talha dourada, com colunas salomónicas revestidas por cachos de uvas, fénix e putti.
Não se conhece a data exata da fundação da Capela de São Félix, bem como a da construção da quinta onde se encontrava integrada, que em 1868 era registada por Dom Rodrigo Gonçalves, seu proprietário na época, como possuindo também casas nobres de um andar, casas térreas, cavalariça e cocheira, celeiro e oficinas de lavoura, jardim com tanque, hortas e campos de lavoura (Sá: 1983, pp. 165-172). A quinta foi totalmente desintegrada, não subsistindo hoje nenhum dos seus elementos, à exceção da capela.
A capela serviu de local de sepultamento aos proprietários, entre o terceiro quartel do século XVIII e a primeira metade do século XIX, podendo por isso datar-se a sua edificação entre 1750 e 1775. No local enterraram-se primeiramente os membros da família Sousa Félix, possivelmente os proprietários originais da quinta na segunda metade do século XVIII, e depois membros da família Sousa Lopes, já no início da centúria de Oitocentos.
Ao longo dos séculos XIX e XX a Quinta de São Félix passou por diferentes proprietários, até que foi adquirida pela Câmara Municipal de Matosinhos em 1982. Nas décadas seguintes o espaço da quinta, em torno da Capela de São Félix, foi urbanizado, encontrando-se atualmente dividido em lotes nos quais se construíram moradias unifamiliares”.
Com o devido crédito a Catarina Oliveira


Capela de São Félix (fachada principal) em Matosinhos – Ed. DGPC


Capela de São Félix (tardós) em Matosinhos – Ed. DGPC


Sobre a história da Quinta de São Félix em tempos mais recentes, diz José Rodrigues, um estudioso dos nossos dias e um conhecedor profundo da história de Matosinhos.

“ (…) Devido às vicissitudes da vida do Comendador Dom Rodrigo Gonçalves Lopez que vivia a 09/02/1868 na R. do Anjo da freguesia de São João do Souto em Braga, a sua Quinta de S. Félix foi leiloada em 1872 para pagar as suas dívidas:
ela foi arrematada por Francisco António da Costa Braga que teve-a em seu poder durante 20 anos, até 1892.
Foi vendida então por ele ao negociante Cassiano dos Santos de Almeida que tinha feito testamento com 30 anos a 27/12/1888 e que faleceu solteiro e falido na freguesia da Sé a 05/12/893.
Em 1894, foi novamente arrematada em hasta pública por Joaquim Pedro de Resende que a vendeu, 4 meses depois, a António Cabral Borges.
Em 1901, ele vendeu-a a António Moreira Bessa, tendo entrado depois no património de Manoel Quelhas Lima, 1 dos 8 filhos de António Martins Lima e Amelia dos Santos Quelhas (17/10/1875 - 10/09/1969), casado com Maria Júlia Azenha (Quelhas Lima).
Infelizmente, esta quinta já não existe restando apenas a sua capela, a Capela de S. Félix”.


Capela de São Félix



Igreja Matriz de S. Mamede de Infesta


Igreja Matriz de S. Mamede de Infesta e a envolvente agrícola doutros tempos


S. Mamede de Infesta é a denominação que esta freguesia tem no ano de 1706, pois anteriormente só se chamava S. Mamede.
Infesta é um vocábulo associado a subida, “para aquelas terras se subia vindo do leito do rio Leça, situado lá em baixo”.
Foi também referida como S. Mamede da Ermida e S. Mamede da Ermida da Infesta, nas Constituições do Bispado do Porto de 1735 e noutros documentos do século XVIII e antes tinha-o sido, como S. Mamede de Moalde no "Catálogo e História dos Bispos do Porto" de Rodrigo da Cunha, em 1623. 

“Durante séculos, S. Mamede foi freguesia do “Couto de Leça do Venerando Balio, concelho e comarca da Maia”, como consta das “Memórias Paroquiais de 1758”:
… E esta freguezia, e as coatro, q. estam de marcos adentro deste Couto, que sam: Santiago de Costoyas, Sam Mamede de Ermida, ou da Infesta, Sam Migel de Barrejros, e Sam Faustino de Guefañs. …“.
Transformado o Couto em Concelho, com a sua extinção em 1836S. Mamede, Custóias e Leça, passaram a incorporar o concelho de Bouças”.
Fonte: “saomamedeinfesta.blogspot.com”

A actual Igreja Matriz foi projectada pelo arquitecto portuense Pedro de Oliveira, inspirado na Igreja da Trindade.
O lançamento da sua primeira pedra, data de 27 de Agosto de 1864, devendo-se o facto a um natural da terra, então radicado no Brasil, de seu nome, Rodrigo Pereira Felício (Conde de S. Mamede), falecido no Rio de Janeiro em 27 de Julho de 1872 e que para o erguer da obra, enviou a enorme quantia (para essa época) de doze contos de reis.
 A maior parte da talha da igreja é proveniente do convento de Monchique (Miragaia-Porto).


Igreja Matriz de S. Mamede de Infesta vista do cruzamento da actual Avenida do Conde e da Rua Godinho Faria


Mesma vista da foto anterior mas sem o cruzeiro implantado



Conta-se que no dia da inauguração da igreja, quando as autoridades aguardavam para dar início à cerimónia, apenas a chegada do Conde de S. Mamede, tendo ele surgido com a sua carruagem junto do cruzeiro (que se observa na foto acima) e se deparou com uma igreja de apenas uma só torre sineira, terá dado meia volta e regressado ao Brasil.


Igreja Matriz de S. Mamede de Infesta em 1910

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

25.23 Balio de Leça, Lugares de Moalde, Ermida, Igreja e Picoutos


 “Os registos fazem crer que, no século I, teria existido uma “villa ” Decio e um templo dedicado a Júpiter, onde hoje está localizado o Mosteiro de Leça do Balio, em São Mamede de Infesta.
Também na Quinta dos Alões, foi descoberta uma ara com a seguinte inscrição:
Flavus, filho de Rufo, cumpriu de boa mente o voto a Júpíter Optímus, Maxímus”.
Tais descobertas não são efetivamente de estranhar, já que S. Mamede de Infesta era atravessada pela estrada que ligava Olissipo a Bracara. Dessa via existe o local onde ela atravessava o rio Leça, na Ponte da Pedra, onde hoje existe a velha ponte medieval.
Efectivamente, encontraram-se na Quinta do Dourado um marco miliar romano, onde se encontra gravado o nome do imperador Adriano. Este marco miliar está no cemitério paroquial, junto da igreja matriz, transformado em cruz.
Decorria o ano 212, e o imperador Caracala, pelo édito com o seu nome, concedeu a cidadania romana a todos os povos do império. Sob Diocleciano, entre 284 e 288, passa a existir uma nova reorganização das províncias hispânicas, sendo formada uma nova província, a Galécia. Esta província tinha como fronteira a sul, o rio Douro, indo pelo norte até à Galiza. Nesta época, as vias de comunicação eram elementos de coesão de toda a estratégia romana na península. A via que ligava Olisipo a Bracara era certamente a mais importante rota do Norte ao Sul do atual território português. Esta via tinha também conexão à Serra do Gerês”.  
Fonte: “perdidanahistoria.blogspot.com”




Ponte da Pedra


Ponte da Pedra em vista lateral



Lugar de Moalde e Capela do Senhor da Boa Fortuna e da Boa Morte


S. Mamede de Infesta cujo povoamento do território, que hoje lhe é pertença, se deveu, certamente, ao reordenamento que os romanos impuseram em toda a região, obrigou os habitantes do Castro de Guifões , a descerem para as margens do rio Leça, a fim de aí implantarem uma agricultura intensiva, mais rentosa.
Dessas antigas explorações rurais, emergiu a Villa Manualdi, (do nome Manualdis, um presor germânico que dela se terá apropriado).

“O actual Lugar de Moalde, durante o século XI até ao XVI foi o mais importante desta paróquia. Em 1021D. Unisco Mendes e seus filhos, fazem a sua doação ao Mosteiro de Vacariça, e em 1130, nova doação é feita por Veremundo, ao Bispo D. Hugo, de metade de Manualde.
Aparecendo documentada nas inquirições de D. Afonso III em 1258 e no censo de 1527, até 1643 dizia-se paróquia de S. Mamede de Moalde e também da Ermida. Enquanto isso, à designação de Infesta, se a havia já, dava-se-lhe pouca importância pois significava o que todos já sabiam, isto é, que a paróquia se estendia, desde uma espécie de “planalto” ou cimo de monte pelas encostas desse até às terras baixas e férteis.”
Fonte: “saomamedeinfesta.blogspot.com”


Se em 1556 havia na freguesia de Sam Mamede os lugares de Aldeia de Baixo, Hermida, Outeiro, Carril Branco, Larangeyeira, Casal da Igreja, Casal das Devezas, Eirado, Moalde, Casal do Meio e Casal da Poupa, já em 1643 a freguesia chamava-se Sam Mamede da Ermida e era constituída pelos lugares de Eirado, Corujeira, Ermida, Larangeira, Aldeia da Igreja, Tilheiro, Carril Branco, Tronco, Moalde, Casal da Poupa, Asprela, Arroteia, Casal de Baixo, Devesa, Outeiro, Alagoa, Cidreira e Cavada.
Em 1836 todos os lugares de S. Mamede eram aldeias, excepto Moalde, que, segundo alguns, tinha o ar de vila minhota.
Em Moalde, na Rua de Moalde, existe ainda hoje, a capela do Senhor da Boa Fortuna e da Boa Morte, que primitivamente se chamava do Senhor da Cruz das Almas e foi mandada construir pelo Reverendo Manuel da Silva Barros.
Tem festividade anual no Domingo do Espírito Santo e tem larga tradição nas gentes do local.


Capela do Senhor da Boa Fortuna e da Boa Morte



Capela do Senhor da Boa Fortuna e da Boa Morte, actualmente




Lugar da Ermida e Capela da Ermida


“A existência do Largo da Ermida induz a interpretações equívocas quanto à designação da Vila e da Capela que nele existe. Uns consideram-na a primitiva Matriz, outros afirmam que a Aldeia da Igreja era o centro onde esta sempre tinha estado: “Mais tarde, a Igreja Paroquial passou para o Lugar da Ermida (…) existindo ainda hoje, na Ermida, a Capela de Nossa Senhora da Conceição”.
Capela de Nossa Senhora da Conceição que se julga datar de 1643 e que as “Memórias Paroquiais de 1758″ diziam pertencer ao “Venerando Balio de Leça, a qual reedificaram os moradores à sua custa”, foi reconstruída em 1804 Matriz durante a edificação da Igreja”.
Fonte: “saomamedeinfesta.blogspot.com”


Capela da Ermida que ostenta na padieira da porta a data de 1804


Esta capela da Ermida, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, foi Igreja Matriz de S. Mamede de Infesta durante a construção da actual igreja matriz.
O nome de S. Mamede da Ermida que vigorou em documentos do século XVII e início do XVIII, talvez se deva à existência da dita capela na vila. Há quem alvitre que poderá, ter existido aí, anteriormente, um eremitério. Esta capela foi restaurada em 1804, sendo posteriormente construída uma torre no início do século XX.


(Continua)

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

(Conclusão)


Companhia Vinícola Portuguesa

Em 1899 são transferidos para Matosinhos os armazéns e oficinas da firma Meneres & Cª. com as instalações a serem ligadas ao comércio de vinho (a construção decorreu entre 1897 e 1901).
A empresa ficaria instalada numa área de 11 000 m2 no lugar do Prado (actual Matosinhos-Sul) em 15 meses, entre princípios de 1897 e meados de 1898, com entrada pela futura Avenida Meneres, que nessa altura, ainda não existia.
Em 1899, no mesmo Prado de Matosinhos, com fachada principal voltada para a Rua Juncal de Cima (actual Rua Brito Capelo), instalava-se, bem perto da Meneres & Cª, a Real Fábrica de Conservas de Matosinhos de "Lopes, Coelho & Dias, Lda". A primeira  de cerca de meia centena, que nas décadas seguintes se iriam implantar na então Vila de Matosinhos.



Desenho da fachada principal da "Lopes, Coelho & Dias, Lda"


"Real Fábrica de Conservas de Matosinhos" durante a visita do rei D. Manuel II em 1908 - Ed. "Illustração Portugueza" (7 Dezembro)



Local onde esteve instalada a "Lopes, Coelho & Dias, Lda" - Ed. Graça Correia

O chamado Prado de Matosinhos ou Campo da Junqueira, era uma vasta área plana onde tinha estado, até há alguns anos antes, um hipódromo, e por onde corria em direcção ao mar, a ribeira do Prado, que resultava da juncção de duas mais pequenas com nascentes e percursos distintos, chamadas de Carcavelos e da Riguinha, respectivamente.


Ribeira do Prado em 1900 – Ed. Emílio Biel


Planta de Matosinhos, de 1896, da autoria de Licínio Guimarães, no livro “A Indústria Conserveira em Matosinhos”, de Lopes Carneiro

A planta acima teve como origem o blogue de José Magalhães que, por sua vez, a obteve através da colaboração do Dr. António Lage Almeida, Bibliotecário da BMFL – CMM, do Dr. Adriano Silva, Bibliotecário da BPMP, e do Dr. Albano Chaves.
Na planta pode observar-se o desenho do hipódromo do Campo da Junqueira.
A propósito da actividade desse hipódromo, O Tripeiro de 1972 (efemérides) noticiava:

“4 de Abril de 1872 – Corrida de cavalos e garranos no Campo da Junqueira, em frente a Matosinhos, organizado pelo Oporto Hunt Club”.

Nos terrenos daquele hipódromo, começaria o Football Club do Porto, de António Nicolau de Almeida, em 1893, por dar os primeiros pontapés na bola.


Meneres & Cª, já como, Companhia Vinícola Portuguesa em Matosinhos


Em 18/12/1902 desejando conservar indivisíveis as propriedades que detinha e nas quais se incluíam cerca de 200 000 pés de sobreiros, Clemente Meneres registou então, notarialmente, a sociedade por quotas 'Clemente Meneres, Lda', associando a si a sua 2.ª esposa e outros familiares.
A sociedade por quotas, era um dispositivo jurídico introduzido por lei de 1901 e pressupunha uma gestão empresarial.
Note-se que, desde a fundação (1902) até 1908, a gerência da 'Clemente Meneres, Lda', era assegurada por Clemente Meneres e estava sedeada na Quinta da Avenida, em Vila Nova de Gaia, onde morava a família, passando a partir de 1908 para o ex-convento de Monchique (uma vez que esteve antes ocupado pela firma Meneres & Cª, e pela Barbosa & Cª, sendo depois arrendado a vários inquilinos).
Além desse facto decisivo de só a partir daquela data o ex-convento passar a integrar a Sociedade.



Quinta da Avenida ou Quinta do Meneres (identificada com 1) – Fonte: Ana Rita Correia de Sousa Ramos Lima, 2013, Relatório de estágio de Mestrado


Da primitiva Quinta da Avenida, junto à Avenida da República, em 2014, restava uma casa e uma área verde envolvente, tudo em situação de abandono.


Quinta do Meneres ou Quinta da Avenida em V. N. de Gaia com fachada em 1º plano voltada para a Rua Luís de Camões – Fonte: Google maps


Avenida da República em V. N. de Gaia em 1934


Na foto acima, é visível à direita uma pequena porção do Jardim do Morro, começado a levantar em 1927 com o derrube e grande movimentação de terras que se elevavam num morro, à saída do tabuleiro superior da Ponte Luiz I.
A Quinta da Avenida seguia-se a esta área, também à direita, um pouco mais para Sul.
Entretanto, surge uma contrariedade na incapacidade da firma Barbosa & Cª, pertencente a um genro, não ser capaz de lhe absorver a cortiça produzida em Trás-os-Montes, o que leva á criação de uma nova fábrica em Mirandela, sucessivamente apetrechada com maquinaria para calibrar, fazer rolhas, caldeira e outros equipamentos.
Procedendo à legalização definitiva da unidade fabril, em 18 de Agosto de 1914, a Sociedade Clemente Meneres, Limitada, com sede em Mirandela, requer, com assinatura de Clemente Meneres, na administração do Bairro Oriental do Porto, licença para o estabelecimento da nova fábrica de cortiça e seus derivados em Miragaia, no ex-convento de Monchique.
Porém, a 6 de Julho de 1918, verificou-se um incêndio na fábrica de rolhas da fábrica Barbosa & Cª, de um genro de Clemente Meneres, sedeada em Monchique, numa das dependências do ex-convento. O incêndio foi enorme, tendo ardido toda a fábrica Barbosa & Cª e, ainda mais dois armazéns acabados de reconstruir que tinham sido alvo de outro incêndio algum tempo antes, bem como a ilha contígua que viria a ser conhecida como Bairro do Ignez (constituído por 12 casas) e, além disso, ardido o andar superior da casa que foi a moradia antiga da “Clemente Meneres, Lda”.
Um prédio ocupado pela Guarda Fiscal e por um armazém de madeiras foram, também, severamente atingidos.
O mirante do antigo convento colapsou.


Instalações no topo de um edifício em Monchique que foi sede da firma antes das novas instalações



Armazém de cortiça (guardada sobre o telhado) em prédio anexo ao antigo Convento de Monchique c. 1900, com traseiras para a Calçada de Monchique



Fábrica “A Varina”


Sobre a gravura acima diz José Oliveira Nunes, In “Jornal João Semana”:

 “Tratava-se de uma ilustração do princípio do séc. XX, anunciando uma fábrica a vapor (A Varina, em Ovar) de conservas de peixe, carne, frutas e legumes, da qual Clemente Meneres foi sócio de 1903 a 1908. Esta empresa, com a denominação social de Gomes, Meneres & C.ª Limitada, sedeada no antigo Largo do Mártir S. Sebastião (actual Praça Almeida Garrett), inaugurou em 1905, durante a permanência em Ovar de um filho deste empresário, de nome Agostinho, uma sucursal ao sul da Praia do Furadouro (grande armazém de madeira, que veio a ser do Mateiro), para a recolha e salga de sardinha capturada não só naquela praia, mas ainda na Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, etc.”

Por escritura de 1 de Junho de 1908, “A Varina” passou para novas mãos, a sociedade Ferreira, Brandão & C.ª.

Em 1905 é formada a firma 'Companhia Vinícola do Porto', uma sociedade por ações com capital de 500 contos de reis e com sede no Porto tendo sido fundada por Alfredo da Fonseca Meneres (ocupando cargo de Presidente do Conselho Fiscal) e outros, cujo director continuou a ser o seu irmão José da Fonseca Meneres e passando ele a ser o presidente do Conselho Fiscal.
Em Dezembro de 1905, é interposta uma acção comercial por parte da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal-Porto, vulgo Companhia Velha e, desde 1889, com aquela designação, por uso indevido de designação comercial por parte da ‘Companhia Vinícola do Porto’.
Em 1908 a empresa passa, em sequência do litígio que decorria em tribunal, a designar-se ‘Companhia Vinícola Portuguesa’.
Como curiosidade diga-se que um eléctrico ligava a Companhia Vinícola Portuguesa ao Porto de Leixões e fazia o transporte de vinho.
O edifício sofreria poucas alterações ao longo dos tempos, tendo apenas tido uma ligeira ampliação em 1903 quando é introduzido um torreão no extremo da fachada voltada para a Avenida Meneres e obras de decoração das fachadas em 1929.

“A publicidade na imprensa e a participação em exposições era uma preocupação de Clemente Meneres, quer agora na Sociedade (Exposição de Paris, 1900; Exposição Universal de S. Luís, Estados Unidos, em 1904; Exposição Permanente de Produtos Portugueses, no Rio de Janeiro, 1906, Exposição do Rio de Janeiro, 1908; Exposição em Toulouse, 1908; Imperial International Exhibitions, Londres, 1909), quer nas anteriores firmas com os filhos, das quais nos chegaram excelentes cartazes dos finais do século XIX”.
Fonte: Professor Jorge Fernandes Alves


Painel de azulejos da Companhia Vinícola Portuguesa e o seu vinho do Porto Victoria


Clemente Meneres morre em 27 de Abril de 1916 na sua Quinta da Avenida, que se situava junto à via-férrea, em V. N. de Gaia.



Escritório da “Real Vinícola Portuguesa”


Eléctrico dentro das instalações da Companhia Vinícola Portuguesa que pela Rua Brito Capelo fazia ligação ao Porto de Leixões


Na segunda década do século XX, depois fortemente agravadas pela Guerra, Agostinho Meneres fez um périplo pelos países nórdicos e Alemanha, na tentativa de encontrar clientes não só para o vinho como para a cortiça. Com o direito ao benefício do vinho do Porto, a Sociedade passou a vender também vinhos às firmas inglesas sediadas em Gaia (Croft, Sandeman).


Agostinho Meneres



Já depois da morte de Alfredo da Fonseca Meneres, a 12/07/1917, em 1922, a Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal absorve a Companhia Vinícola Portuguesa e o seu encerramento estava traçado, a partir daqui.
Agostinho da Fonseca Meneres faleceria em 1926.




“Funcionou de seguida, durante vários anos, como refúgio/albergue dos desalojados das casas demolidas junto às margens do rio Leça em Matosinhos e em Leça da Palmeira por causa da construção das Docas n.º 1 e n.º 2 do porto de Leixões, tendo aí nascido muitos matosinhenses.
Curiosamente, várias décadas depois e na sequência da descolonização de 1974/75, voltaria a desempenhar as mesmas funções em relação aos retornados das ex-colónias portuguesas em 1975.
1998: A Câmara Municipal de Matosinhos adquiriu o imóvel, em estado de abandono, por 4 milhões de euros (ou por 5 milhões em 2000?) tendo sido integrado no plano de urbanização de Matosinhos-Sul (anterior a 2006) da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira que pretendia nessa altura manter o edifício como pólo duma praça maior 'à espanhola' propondo-se a construção de equipamentos de turismo e lazer no edifício.
2008: Funcionaram neste imóvel oficinas e salas de aula de disciplinas Técnicas e Práticas dos cursos existentes então na Escola Secundária Gonçalves Zarco, devido às obras de reabilitação da escola.
01/07/2013: Este conjunto de 8 edifícios foi classificado como Monumento de Interesse Público pela Portaria n.º 431-B/2013, DR, 2.ª série, n.º 124 (suplemento) que também fixou a zona de especial proteção (ZEP) do monumento.
Outubro de 2014: O projeto de intervenção nesta antiga unidade fabril, da responsabilidade do arquiteto Guilherme Machado Vaz e resultante da proposta vencedora da QTCIVIL - ENGENHARIA E REABILITAÇÃO, S.A. no valor de €2 999 105, terá espaços para ateliers, biblioteca e auditório, acolherá a Orquestra de Jazz de Matosinhos num dos 8 blocos do edifício, terá uma praça ao ar livre para restauração e terá lojas que serão concessionadas; de acordo com a autarquia, o investimento estimado para a empreitada ronda os 3 180 milhões de euros”.
Com o devido crédito a Jorge Fernandes Alves, Professor catedrático da FLUP, In Revista da Faculdade de Letras, Porto, III Série, vol. 8, 2007, pp. 113-155


Instalações degradadas da Companhia Vinícola Portuguesa, antes da última reparação


Casa da Arquitectura - As instalações da Companhia Vinícola Portuguesa recuperadas - Ed. Lucília Monteiro

terça-feira, 20 de novembro de 2018

(Continuação)


CLEMENTE MENERES

O patriarca da família Meneres, Clemente da Fonseca Guimarães, natural da Vila da Feira, do lugar da Cruz, descendia de pais agricultores que, além de cultivarem os terrenos agrícolas de que eram proprietários, possuíam uma serralharia que ocupava na ocasião, cerca de 40 operários.
Clemente Guimarães iniciou na oficina a sua aprendizagem após ter terminado a instrução primária: a oficina dos pais era especializada em fechaduras e vendia para a cidade do Porto a maioria da sua produção, mas uma outra parte seguia depois o caminho da exportação, para o Brasil.
Clemente Guimarães à revelia dos seus pais, haveria aos 15 anos, de embarcar para o Brasil para se juntar a um tio.
Quando chegou ao Brasil, acabaria por encontrar o tio, na altura em que ele tinha acabado de liquidar um estabelecimento que possuía.
Retirado para a chácara, no Catumbi, propriedade do tio, acaba por casar, por influência deste, em 18/08/1860, no Rio de Janeiro com a sua filha Maria da Glória Guimarães da Cruz.
Passados 4 anos regressa por influência do tio a Portugal, passando a viver na Rua da Torrinha.
Entretanto, em 1867, afasta-se do tio/sogro por desavenças relacionadas com dinheiros e, por acção do pai, depois de ter alcançado um emprego como caixeiro, ele arranja-lhe um sócio capitalista, João Joaquim Paes, e os 3 contos de reis que o sogro lhe negara, para montar um negócio.
É nesta altura que passa a intitular-se, com o intuito de se afastar do apelido Guimarães que o ligava ao sogro, por Clemente Meneres.
Surge a 'Paes & Meneres' e a fábrica de rolhas de cortiça em Monchique, em 1872, que depois de diversas vicissitudes haveria em 1908 de reanimar a sua actividade.


“ (…) da época, surgiu então a 'Paes & Meneres' como fabricantes e negociantes de rolhas com depósitos de cortiça para exportação e ainda como comerciantes de drogas (enxofre, 'cimento romano', petróleo, aguardente, genebra, sumagre, baga de sabugueiro, pês louro e soda) com porta aberta na Rua da Ferraria; vendendo para a cidade do Porto e para província, a empresa estendeu os seus negócios ao Brasil e a alguns países europeus, para onde enviava produtos tradicionais (sobretudo vinho, rolhas, palitos e ferragens para o Império do Brasil, e frutas para Alemanha, França e Inglaterra)”.
Em 10 de Abril de 1874, fez-se escritura de cessão da 'Paes & Meneres' e escritura de trespasse da quota de João Joaquim de Paes a Clemente Meneres (avaliado em 28 contos de reis pagos através da apresentação de 8 letras de 3500$000 reis que seriam sacadas uma a uma de 6 em 6 meses a partir de 02/10/1874 e até 02/01/1878), este já na qualidade de sócio e único gerente da nova sociedade então criada por ele com a firma 'C. Meneres & Cª' e para a qual entraram como sócios Joaquim Silvano Filho (em 1897, tendo uma Fábrica de sabão, requereu a construção de uma casa destinada a escritório e armazém na R. de Carvalho Barbosa) e Alvaro Carneiro Geraldes (filho duma tradicional família de comerciantes do Porto com grande ligação ao Brasil, deslocou-se de imediato para o Brasil como representante da empresa no Rio de Janeiro), para continuar os negócios da 'Paes & Meneres' que só foi dissolvida por causa da retirada natural, por idade avançada, do sócio mais velho e capitalista, João Joaquim de Paes; a 'C. Meneres & Cª' surgiu durante vários anos nos almanaques como 'fábrica de rolhas para exportação, trabalho braçal e a vapor' no cais da Alfândega (na parte oriental do edifício do extinto Convento de Monchique).
(…) em fins de abril de 1874, a 'C. Meneres & Cª' já estava organizada com Joaquim Silvano Filho a assegurar o expediente na sede, Álvaro Carneiro Geraldes no Império do Brasil para controlar e ampliar as exportações, e Clemente Meneres a procurar potenciar os ganhos a montante assegurando o abastecimento de matéria-prima (cortiça) a preços e quantidades mais convenientes (assim, e acompanhado de um amigo conhecedor da cortiça, Clemente Meneres partiu a 14/05/1874 na diligência da ex-mala posta do Porto para Bateiras, e daqui até Foz Côa, onde verificou que os sobreiros locais eram consumidos como lenha pelos seus habitantes, tendo então ambos atravessado o rio Douro para chegarem ao Quadraçal, pelo Vale de Sinada, a 18/05/1874 e, ás 16:00 desse dia, chegaram ao lugar do Romeu em Mirandela abancando no tasco da Maria Rita onde, não havendo nada para comer, mandaram assar bacalhau acompanhado de pão negro de centeio); a 'C. Meneres & Cª', para além da sua fábrica de cortiça e da sua loja de comércio, procurava instalar na R. da Restauração, em espaços alugados a João Joaquim de Paes (o 1.º sócio de Clemente Meneres), uma fábrica de conservas que veio a ser conhecida como a 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias'.
Fonte: Professor Jorge Fernandes Alves


Aquela Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias, com sede na Rua da Restauração, produzia conservas de peixes, carnes, frutas, legumes e doces. A fábrica foi pioneira no Norte do país na introdução do método Appert (método de enlatar alimentos), e trabalhava com produtos oriundos de Trás-os-Montes.
Uma Resolução do Tribunal do Comércio do Porto acaba por dissolver a 'C. Meneres & Cª' por causa da demanda que os 2 sócios de Clemente Meneres tinham feito por terem divergências com ele, no âmbito da gestão. Indemnizados os sócios no mesmo dia associa-se a 2 novos sócios numa sociedade em comandita com a mesma firma da anterior 'C. Meneres & Cª' e para continuação dos negócios da anterior.


“A 9 de Março de 1876, a firma C. Meneres reorganiza-se e vai associar-se a Rául Cirne e António Tomás dos Santos, tendo a sociedade como objectivo a continuação da anterior, com o património da Fábrica Luso Brasileira em Monchique, no Porto e o comprometimento de Clemente Meneres de ceder à empresa as rolhas e cortiças lá fabricadas por sua conta para revenda com uma comissão de 20%; os lucros seriam distribuídos por metade para Clemente Meneres e por 1/4 a favor de cada um dos outros 2 sócios; a fábrica de cortiça passou rapidamente a depósito de cortiça quando Clemente Meneres instalou a fábrica de cortiça em Mirandela (junto da ribeira do Quadraçal e designada atualmente por 'fábrica velha') e passou a enviar a sua produção para o Porto, mas ao mesmo tempo começou a funcionar na R. da Restauração a 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias' como 2.ª unidade da 'C. Meneres & Cª'.
Era um óbice ao escoamento dos produtos transmontanos, o custo e demora no escoamento, o que impediam o desenvolvimento dos negócios. Clemente Menéres apercebeu-se da necessidade de fazer ali chegar a rede ferroviária.
Em 1878, Fontes Pereira de Melo, em visita a Mirandela, tinha já prometido uma linha até à cidade ao longo do Rio Tua. Clemente adere ao fontismo e inicia uma campanha em prol da construção da linha do Tua, contactando vários potenciais investidores e fazendo pressão junto de deputados. (Em 1883, chegou a concorrer ao concurso de construção e exploração do troço entre Mirandela e Bragança, que passava por Romeu, mas a sua sociedade não foi a vencedora. Este troço, no entanto, só seria inaugurado apenas em 2 de agosto de 1905, quando entre a foz do Tua e Mirandela o tinha sido em 1887).
Entretanto a linha do Douro em funcionamento em 1875 só seria concluída até Barca d’Alva em 1887.


Horário da linha do Douro em 1875 entre Porto e Caíde


A 1 de Fevereiro de 1879 entra como sócio na fábrica Constantino Joaquim Paes, filho de João Paes, passando a firma a designar-se Santos, Cirne & Cª - sucessores de Paes & Meneres.
A gerência era assumida em pleno pelos 2 sócios António Tomaz dos Santos e Raul Cirne, embora sujeitos a um conjunto de condições.
Em 1881 a empresa tinha uma sucursal em Espinho para a preparação de sardinha em azeite e a fábrica da R. da Restauração apresentava alguma debilidade por estar instalada numa casa de habitação arrendada (inicialmente a João Joaquim de Paes e depois a seu filho e sócio comanditário Constantino Joaquim Paes) onde funcionavam 2 cozinhas e havia 1 oficina de funilaria para construir e manipular as latas ocupando 50 operários que subiam sazonalmente aos 120 por ocasião da colheita da fruta.
No ano de 1881 a fábrica de cortiça do extinto Convento de Monchique (também antigo armazém da Alfândega do Porto) era a única existente no Porto e nela todo o trabalho era manual.


Instalações do Convento de Monchique com a capela em ruínas em 1º plano


Os negócios do Porto estavam agora estatutariamente entregues aos 2 gerentes Antonio Tomaz dos Santos e Raul Cirne, pois Clemente Meneres vivia na sua Quinta do Romeu onde também tinha a sua empresa agrícola para produzir frutas, vinho e sobreiros e também instalou uma fábrica de produção de cortiça que era exportada principalmente para a Alemanha e para o Brasil recebendo deste último ainda importantes encomendas de azeite em almotolias, para além dos vinhos tratados que enviava para Gaia.
Em 9 de Julho de 1885, os sócios comanditários Clemente Meneres e Constantino Joaquim Paes abdicaram de 1/3 da sua quota a favor de um 5.º sócio, Porfirio de Macedo que passou a integrar os corpos gerentes da sociedade.
Em 30 de Abril de 1887, A 'Santos, Cirne & Cª - sucessores de Paes & Meneres' foi dissolvida por retirada amigável de Clemente Meneres, que ali deu quitação geral, por já ter sido compensado da sua participação; todo o ativo da extinta sociedade (então representado pela 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias' e pela pequena fábrica de salga e conservas de sardinha de Silvalde a sul de Espinho) passava para a nova empresa de imediato constituída pelos 4 sócios e que passou a designar-se de 'Santos, Cirne & Macedo'.
Em 1887 Clemente Meneres toma o comboio para o Porto transportando consigo a família, os operários e as máquinas para montar de novo a fábrica de rolhas num dos armazéns do extinto Convento de Monchique e parte de novo para o Brasil para arranjar clientes.
De volta a Portugal faz com os seus filhos homens (outros já tinham à data falecido), Alfredo da Fonseca Meneres e Agostinho da Fonseca Meneres, a firma 'Clemente Meneres & Filhos' integrando nela todas as propriedades do Porto e de Trás-os-Montes.
O edifício do extinto Convento de Monchique foi ampliado, de forma a incluir a residência e as instalações para a sociedade comercial, arrendando ainda a terça parte que lhe não pertencia (a parte oriental do ex-convento passou a albergar as 2 principais atividades, a fábrica de rolhas de cortiça e o armazém de vinhos e doutras bebidas com uma grande variedade de marcas e géneros, desde vinho do Porto, moscatel e malvasia e licores diversos, tanto de produção própria como de produção alheia); anúncios em jornais e não só, de produção artística, apresentavam a empresa 'Clemente Meneres & Filhos' como fornecedora da Casa Real e costumavam apresentar referências relativas às distinções obtidas nas exposições internacionais (Filadélfia em 1876, Paris em 1889 e Lisboa em 1884), tanto mais que uma das marcas de vinho do Porto era a 'Dom Luiz' com autorização expressa do rei D. Carlos I para o efeito.
Em Maio de 1893 falece a sua mulher Maria da Glória da qual teve 10 filhos.
Em 1895 cria a 'Meneres & Cª' incluindo na sociedade existente a sua filha Leonor.
Esta casaria em segundas núpcias com Joaquim da Silva Barbosa.
Em 1897, Clemente Meneres separou-se do seu genro Joaquim da Silva Barbosa que ficou com a fábrica de cortiça, mudando-a para a Alfândega Velha sob a firma 'Barbosa & Cª, em comandita'.
Por sua vez a 'Meneres & Cª' ergueu em 15 meses os novos armazéns e oficinas da empresa, de acordo com o projeto do Eng.º António da Silva, no Prado de Matosinhos.
Texto com o devido crédito ao Professor Jorge Fernandes Alves

(Continua)