terça-feira, 2 de junho de 2026

25.306 Antigas personagens com relevante actividade pública

 
José Zagalo Ilharco
 
 
José Zagalo Ilharco (Lamego 1860 - 1910 Porto) ficou, sobretudo, conhecido como um fotógrafo amador, dedicado primordialmente à fotografia de paisagem, mas, também,  ao retrato de familiares, de amigos e dos ambientes em que viveu e, por isso, viu por diversas ocasiões premiado nacional e internacionalmente essa sua actividade.
Faleceu, então, em 1910, num palacete situado na Avenida da Boavista, nº 2609 que, curiosamente, é conhecido por Palacete Manoel Alves Soares, um capitalista ligado, entre muitos outros empreendimentos, ao Jornal “O Primeiro de Janeiro”, à Fábrica de Fiação e Tecidos da Areosa e à Empresa Fabril do Norte e, em todos eles, um reconhecido sócio de um outro empresário de sucesso – Manuel Pinto de Azevedo.
Aquele palacete foi, então, mandado construir em 1902 por José Zagalo Ilharco e vendido pelos seus herdeiros a Manoel Alves Soares.
José Ilharco era filho do General José Joaquim Ilharco de Sousa Cardoso e de Maria Cândida do Couto.
Na cidade do Porto, onde se fixou ainda jovem, acabaria por contrair matrimónio com Angelina Ribeiro de Moura.
O casal teve um filho único, Norberto de Moura e Melo Zagalo Ilharco (1883-1958).
José Zagalo Ilharco foi sócio fundador e director do Real Velo Club do Porto, gerente da companhia de seguros "A Equitativa do Porto" e director da agência no Porto da companhia de seguros "A Nacional".
Sendo um amante da arboricultura e jardinagem, havia de, em colaboração com Jacinto Matos, criar em volta da sua casa, na Avenida da Boavista, o chamado Parque Zagalo Ilharco, jardim que rodeava a vivenda mandada construir em 1902, ao Pinheiro Manso.
 
 
 

Licença de obra nº 211, de 1902, referente ao palacete de José Zagalo Ilharco
 
 
 
 

Palacete, na Avenida da Boavista, nº 2609

 
 
A seguir se dão alguns exemplos da actividade fotográfica de José Zagalo Ilharco.




“As redes a secar”, em 1891, praia de Matosinhos. Papel de impressão em gelatina e sal de prata  – Ed. Zagalo Ilharco


 
 

“Ponte Tavares” (Rio  Leça, Matosinhos), em 1888. Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco


 
 

“Ponte dos Arcos”, Matosinhos, em 1889. Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco

 
 
 

“Velódromo do Real Velo Club do Porto”, em 1893. Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco
 
 
 
 

“Barco Rabelo” e mosteiro da Serra do Pilar, em 1889.  Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco
 
 
 
 
 

 
“Jardim da Cordoaria”, (Passeios da Graça), em 1889. Papel de impressão em gelatina sal de prata – Ed. Zagalo Ilharco
 
 
 
Actualmente, o espólio fotográfico de Zagalo Ilharco encontra-se na posse da família Magalhães Carneiro, familiares do famoso fotógrafo amador.
Em 2024, a obra em versão alargada foi apresentada públicamente no Museu Soares dos Reis e no Museu de Lamego.
Em 2025, foi a vez de ser apresentada pela Câmara Municipal de Matosinhos, com toda a propriedade, pois, foi no concelho de Matosinhos, que  Zagalo Ilharco teve produção fotográfica de mérito.
Por sua vez, Norberto Zagalo Ilharco, o único filho de José Zagalo Ilharco residiu, entre 1918 e 1930, na “Vila Palma”, na antiga Rua Central, actual Rua Augusto Cardia Pires, em Leça da Palmeira e, também, como o seu pai, foi fotógrafo amador, tendo casado com Maria Helena de Magalhães Carneiro (1882-1965).
 
 
 

Norberto Zagalo Ilharco e a esposa na “Vila Palma”, em Leça da Palmeira
 
 
 
 
“Vila Palma, antes e, actualmente
 
 
 
 
Joaquina Margarida Cardoso – A “Cardosa”
 
 
 
Joaquina Margarida Cardoso, apelidada carinhosamente pelos portuenses, juntamente com o ramo feminino da família, como as “Cardosas”, habitou num segundo casamento e, por aí, faleceu, no prédio da Rua do Ouro, n.º 200 que, nos dias de hoje (2026), se encontra abandonado há muitas décadas.
A alcunha de “Cardosa” decorria do nome do seu primeiro marido de apelido de baptismo Cardoso - o Manuel Cardoso dos Santos.
 
 
 

Prédio da “Cardosa”, na Rua do Ouro, nº 200 – Fonte: Google maps

 
 

Fachada principal de prédio localizado próximo à Fonte do Ouro – Fonte: AHMP
 
 
 

A Fonte do Ouro e, à direita, a “Casa da Cardosa” – Ed. J. Bahia Junior, 1909
 
 
 
 
O pedido de licenciamento para a construção do prédio, sito como próximo à Fonte do Ouro, foi solicitado em 12 de Março de 1862, por Joaquina Margarida Cardoso.
Este prédio era identificado em 1892, na planta de Telles Ferreira, como “Casa da Cardosa” e localizava-se na esquina da Rua do Ouro com a Calçada do Ouro, confrontando, a nascente, com a Fábrica do Gás.

 
 

A Casa da “Cardosa” (à esquerda) e a Fábrica do Gás
 
 
 
Aqui, morou, até ao seu falecimento, em 21 de Agosto de 1890, Joaquina Margarida Cardoso, casada em 2ªs núpcias com Francisco Cardoso da Cunha, que foi seu testamenteiro e que haveria de falecer dois anos depois.
Joaquina Margarida Cardoso havia sido casada, antes, com Manuel Cardoso dos Santos, seu primo, com morada na Rua Nova de Santo António (Rua 31 de Janeiro), de cujo casamento resultaram três filhos: António Cardoso dos Santos (nascido em 4 de Janeiro de 1837), Joaquim Cardoso dos Santos (nascido em 21 de Abril de 1839) e Joaquina Cardoso dos Santos (nascida em 24 de Outubro de 1840).
Manuel Cardoso dos Santos (1796-1851), nascido na Quinta da Granja, Lugar de S. Martinho de Lordelo, foi um Brasileiro de torna-viagem, um dos Contratadores do Tabaco, que havia adquiri­do o edifício, que era uma ala inacabada do Convento dos Lóios (ou Convento Novo de Santa Maria da Consolação, ou Convento dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista), com vista a terminar o edifí­cio.
Do convento apenas chegou, até hoje, a fachada que os frades começaram a construir já no séc. XIX.
Após as invasões Francesas, entre 1810 e 1822, o edifício é ocupado por tropas portuguesas que aí instalaram um hospital militar.
Com a abolição das Ordens Religiosas em 1832 (decreto exarado nos Açores) e devido às Lutas Liberais, os frades abandonaram as obras de ampliação do edificado que vinham executando e o País.
O convento entrou em ruínas e a Câmara tratou da sua demolição em 1838.
Em 1838, já após a extinção das ordens monásticas o Largo dos Lóios foi ligado à Rua das Flores por uma rua que começou por se chamar Rua D. Maria II e é a actual Rua Trindade Coelho.
Posteriormente, a Câmara tomou posse e colocou à venda o edificado do convento, em hasta pública, sendo o seu comprador Manuel Cardoso dos Santos, um abastado negociante com fortuna feita no Brasil e que se comprometeu em acabar a fachada, mas, entretanto, falecido, em 1851, o edifício passou por herança para a viúva, filha e dois filhos.
 
 
 

Convento de Santo Elói e Capela de Nossa Senhora da Consolação – Desenho de Joaquim Villanova – 1833 
 
 
 
 
Assim, acontece que em virtude do falecimento de Manuel Cardoso dos Santos, não lhe foi possível completar a tarefa de remodelação do convento dos Lóios, e seria a sua mulher, a quem chamavam “A Cardosa”, a fazê-lo.

 
 

À esquerda, o Palacete das Cardosas
 
 
 
 
À sua morte, Manuel Cardoso dos Santos possuía uma fortuna, que depois de deduzido o dote da mulher, montava em 484.552$315 réis.
Para além dos muitos edifícios no Porto, Gaia, Vila do Conde, Almada, Lisboa e Brasil, tinha um enor­me lote de títulos de crédito, de embarcações, cortinados bordados e de damasco, muitos diamantes, inúmeras joias, faqueiro e muitos objectos de prata, rico mobiliário e piano. Dizem, porém, que nem um único livro possuía.
Para além do hoje denominado Palacete das Cardosas, situado a sul da Praça da Liberdade um outro espaço era de propriedade desta família, mas, poucos portuenses disso têm conhecimento.
Assim, a herança de Manuel Cardoso dos Santos contemplava um terreno e armazéns, entre a Rua de Santo António e a Viela da Neta, onde se situava o Circo de Cavalinhos, o Teatro Sá da Bandeira dos nossos dias.
A propriedade respectiva pertenceria, a partir de 1851, a Joaquina Margarida Cardoso, recebida por herança de seu marido Manuel Cardoso dos Santos, residente, à data, na Rua Nova de Santo António.
Por isso, em 1854, ela solicitava à Câmara do Porto autorização para proceder a obras, naquela área, inclusive alterar uma servidão que dava acesso pela Viela da Neta (Rua Sá da Bandeira) a uma armazém que ela dizia possuir. O pedido obteria a licença n.º 170/1853.
Em 1858, o Teatro Circo seria demolido de forma a ser construído um outro circo, desta vez usando a pedra como material de construção em detrimento da madeira, segundo projecto do arquitecto da Câmara Municipal de Gaia, Pedro José de Oliveira e que seria o “novo” Teatro Circo.
Em 1909, a propriedade ainda se encontrava na posse da mesma família, pois, documentação prova que, em resultado de uma vistoria executada pelas autoridades competentes, a proprietária do teatro, Laura Júlia Vilar Cardoso foi intimada a fazer obras na zona dos camarotes.
Laura Júlia Vilar Cardoso (1862 - 1918), referida no texto anterior, era filha de Laura Virgínia Vilar e de António Cardoso dos Santos e este, por sua vez, era filho de Joaquina Margarida Cardoso e de Manuel Cardoso dos Santos.
Do casamento de Manuel Cardoso e Joaquina Margarida houve, como já referido, dois filhos e uma filha.
A filha Joaquina Cardoso, que foi casada com Fausto de Queiroz Guedes, o 2º Visconde de Valmor, tendo falecido a 5 de Setembro de 1859.
Joaquina Margarida faria um primeiro testamento, em 8 de Novembro de 1878, no qual declarou que, à data, o seu único filho era António Cardoso.
Após o falecimento deste último, Joaquina Margarida Cardoso fez um segundo testamento, no qual, os herdeiros mais beneficiados foram a sua neta Laura Júlia, filha do seu filho António, casado com Laura Virgínia Vilar e o seu companheiro, Francisco Cardoso da Cunha.
Laura Júlia Vilar Cardoso foi casada em primeiras núpcias com Eduardo Barbosa de Castro, do qual se separou judicialmente de pessoas e bens e, parceira, de António Teixeira de Azevedo Cabral e Melo de Sousa Cyrne, de cujos enlaces resultaram os filhos Alfredo Cardoso de Castro e António Augusto Cardoso Cyrne de Madureira, este, último, ilegítimo, mas reconhecido no seu testamento.
Em 1916, quando é feito um novo arrendamento da sala de espectáculos a favor de António Pimenta da Fonseca e Arnaldo Moreira da Rocha Brito, Laura Júlia Vilar Cardoso ainda era a proprietária do icónico imóvel, vindo a falecer dois anos depois.
O antigo alfaiate, Arnaldo Moreira da Rocha Brito, já tinha em 1909 feito um primeiro arrendamento do teatro, situação que manteria até ao seu falecimento em 1970.

sábado, 23 de maio de 2026

25.305 O Teatro Rivoli e a ligação ao Banco Borges & Irmão (BBI)

 
Foi uma sociedade entre dois irmãos que originou o Banco Borges & Irmão.
Em 1884, António Nunes Borges (1858-1939) e Francisco António Borges (1861-1939), dois irmãos, oriundos do Lugar de Espadanal, freguesia de Ázere, concelho de Tábua, distrito de Coimbra, associam-se desenvolvendo um negócio, que já conheciam, de câmbios de moeda, que vinham exercendo por contra de outrem.
A citada associação sob firma de Casa António Nunes Borges & Irmão irá ter o seu início, na cidade do Porto, em 27 de Fevereiro de 1884.
A partir de 1891, a Sociedade passa a ser designada por Borges & Irmão.
António Nunes Borges, com 14 anos, partiu para Lisboa, passando a trabalhar como marçano na casa bancária Moura Borges, cujos proprietários eram seus familiares.
Daí, sai para se empregar, em Lisboa, na casa de câmbios António Inácio da Fonseca, na Rua do Arsenal, n.ºs 56-64 e, em 1878, devido às suas qualidades profissionais, é escolhido para gerente da filial da empresa que, entretanto, abria no Porto, à Feira de S. Bento (Praça Almeida Garrett), n.ºs 35-35.
Por sua vez, Francisco Borges tinha estado, também, a trabalhar na casa de câmbios, em Lisboa, de António Inácio da Fonseca, mas, em 1882, foi chamado pelo irmão para trabalhar na filial do Porto.
Então, em 1884, decidem montar um negócio próprio.

 
 

Publicidade à casa de Câmbios e lotarias de António Inácio da Fonseca, em 21 de Agosto 1886 – In almanake “Pontos nos ii”
 
 
 
A casa de câmbios e lotarias Borges & Irmão vai sediar-se num pequeno estabelecimento de duas portas, na Rua do Bonjardim, torneando para a Rua de Sá da Bandeira e com uma filial na Rua das Flores.
Não tardou que a casa Borges & Irmão enveredasse por outros sectores de actividade económica.
Assim, passou a exercer o negócio de revenda de tabaco, do qual tinham o exclusivo para quatro distritos do norte do país.
Numa perspectiva de diversificação do negócio, os dois irmãos decidiram dedicar-se à comercialização de vinho Verde e vinho do Porto.
Em 1885, Artur Lello, com conhecimento do sector vinícola, passa a gerir o departamento da comercialização de vinhos de Borges & Irmão.
Em 1905, já a Casa Borges & Irmão exportava numerosas marcas de vinhos finos do Porto, em barris e em caixas, de colares, Clarete Douro e de vinhos verdes para todos os portos do Brasil, o principal mercado, África e Europa.
Aquele departamento será o embrião da Sociedade dos Vinhos Borges, formalmente constituída em 1918, com Artur Lello já como um dos accionistas e principal gestor. 
A Artur Lello, depois do seu falecimento, em 1928, sucederá o seu filho Carlos Alberto Guimarães Lello, casado com Maria Cecília Calém de Guimarães Lello, falecida em 6 de Novembro de 1937.

 
 

Banco Borges & Irmão, na Rua do Bonjardim, após evolução a partir das primeiras instalações da Casa Bancária Borges & Irmão
 
 
 
 

Borges & Irmão, como Casa de Câmbios e Lotarias
 
 
 
 

Publicidade à firma “Borges & Irmão”, In jornal “A Voz Pública” em 31 de Março de 1907
 

 
A casa de câmbios dos irmãos Borges, na esquina das ruas do Bonjardim e de Sá da Bandeira, em 1910, torna-se numa casa bancária, com sede no Porto e agência em Lisboa.
Em 1912, é aberta uma filial no Rio de Janeiro.
Para além da actividade bancária, os irmãos continuam a manter um negócio de vinhos que, em 1918, se autonomiza com fundação da “Sociedade dos Vinhos Borges”.
Assim, em 3 de Setembro de 1918, por escritura desta data, nas notas do Dr. Ponce de Leão, constituiu-se a “Sociedade dos Vinhos Borges & Irmão, Lda.”, nova empresa, com sede na Rua do Bonjardim, 73-77, sendo fundadores António Nunes Borges, Francisco Borges e Alberto Guimarães Lelo, com o capital de 120 contos.
Em 1919, o pacto social da casa bancária é alterado com a entrada para a sociedade de Manuel Pires Fernandes e José Nunes Fonseca.
Em 1926, a casa bancária muda a sua sede para a Rua de Sá da Bandeira e, fruto da expansão dos negócios, em 1937, passa a “Banco Borges & Irmão (BBI).

 
 

Sede da fundação do Banco Borges & Irmão

 
 

Sede do Banco Borges & Irmão, a partir de 1937, na esquina das ruas de Sá da Bandeira e Santo António
 
 

 

Publicidade ao Banco Borges & Irmão em 1970
 
 
 
 
 
O BBI chegou a possuir, na região demarcada do Douro, as propriedades da Soalheira, Junco, Muro Ferradosa, Casa Nova, Hortos e Silho, na região de Coimbra as quintas do Choupal e Mizarela e, finalmente, no Algarve, a quinta do Barranco Longo, todas entregadas à Sociedade dos Vinhos Borges e Irmão, com sede em V.N. Gaia.
Tinha, também, a propriedade do Teatro Rivoli, cujo monumental edifício estava adossado à residência da família Borges, hoje, o local ocupado pela Caixa Geral Depósitos.
Aliás, havia uma passagem da residência da família Borges, para um camarote boca de cena.
 
 
 

À direita, o prédio onde vivia D. Maria Borges
 
 
 
 
 
Durante alguns anos, era no Rivoli que se fazia a festa de Natal para os filhos dos funcionários do Banco, com entrega de brindes, espectáculo e jantar.
Esta sala de espectáculos sucedeu, no mesmo local, ao Teatro Nacional, inaugurado, em 1913, e demolido para abertura da Avenida dos Aliados.
Tinha a sua entrada principal pela Rua Elias Garcia (desaparecida), nº 98, e uma modesta entrada pela Rua do Bonjardim, nº 153.
Em 1923, seria objecto de obras e quando, em 1926, o Teatro Nacional montou o ecrã, as revistas de cinema já lhe chamavam Rivoli.
No final da década de 1920, o Teatro Nacional foi adquirido por Manuel Pires Fernandes (1860-1944) que, desde 1919, era já acionista da sociedade Borges & Irmão, um empresário originário de Mirandela que decidiu demoli-lo para o substituir por um outro, na sequência de intervenções urbanísticas na zona.
O Rivoli foi, então, construído entre 1928 e 1932, pelo risco do arquitecto Júlio José de Brito, dotado de 1800 lugares.
A inauguração seria em 20 de Janeiro de 1932, com a presença em palco da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, vinda expressamente de Lisboa, tendo apresentado a comédia “Peraltas e Sécias” de Marcelino Mesquita.
No ano da inauguração, a sala de espectáculos foi dotada de equipamento de projecção para cinema sonoro.
Na primeira metade da década de 1940, seriam executadas obras de modo a tornar as instalações mais confortáveis para os espectadores e o próprio edifício receberia intervenções para o seu embelezamento.
Tudo isto seria executado sob a orientação da filha de Manuel Pires Fernandes, Maria Borges, uma reconhecida melómana e moradora num prédio contíguo ao teatro, casada desde o início do século XX com o banqueiro Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão.
Maria Assunção Fernandes Borges foi casada com Francisco António Borges (1861-1939), administrador do Banco Borges & Irmão, de cujo enlace houve uma filha, de seu nome, Maria Emília Fernandes Borges (1914-2000), condessa da Covilhã, e um filho, de seu nome, Francisco Manuel Fernandes Borges (1916-1959), de profissão engenheiro e que foi administrador do Banco Borges & Irmão.
Maria Emília Fernandes Borges ostentou aquele título nobiliárquico pelo seu casamento com o 3º conde da Covilhã, Júlio Anahory de Quental Calheiros (1900-1970), de cujo enlace houve a filha, Maria Manuela de Quental Calheiros.
O 3º conde da Covilhã chegou a este casamento, no estado de viúvo, vindo de um primeiro casamento, sem geração, com Vera de Sousa e Cruz, que faleceu muito nova, filha do Banqueiro Sousa e Cruz e de sua mulher, sendo reconhecido pelo povo anónimo como o fundador da fábrica de pneus MABOR.
Ficou também ligado ao desporto automóvel como entusiasta e apoiante de Casimiro Oliveira e Vasco Sameiro, dois pilotos de veículos de fórmula 1, por si importados e caracterizados pela sua cor amarela.
De seu nome completo Maria da Assunção Vaz Fernandes Borges sucederia, em 1944, na gestão do Teatro Rivoli, após o falecimento do seu pai.
Em 21 de Junho de 1946, é publicada escritura, no Diário da República III ª Série, que formaliza a constituição de uma sociedade para gestão do Rivoli, na qual Maria Borges é accionista maioritária.
Em 30 de Agosto de 1950, já D. Maria Fernandes Borges receberia, no Teatro Rivoli, das mãos do presidente Lucínio Presa, a Medalha de Ouro de Mérito Artístico pelo seu esforço, sem o qual não seria possível a constituição em 1947, da Orquestra Sinfónica do Porto, continuadora da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto.
Lucínio Gonçalves Presa foi o Presidente da Câmara Municipal do Porto que destruiu o Palácio de Cristal para em seu lugar construir um pavilhão de Hóquei em Patins, decisão da qual muitos portuenses nunca lhe perdoaram a ousadia.
D. Maria Borges, em 1951, após 12 anos sobre o falecimento do seu marido, haveria de decidir construir na moderna Avenida de Montevideu, em plena beira-mar, um palacete icónico com projecto do reputado arquitecto Viana de Lima que, nos anos de 2024 e 2025, foi sujeito a remodelações de vulto.
 
 
 

Actualmente (2024), a vivenda em trabalhos de remodelação que foi mandada erguer por Maria Fernandes Borges – Fonte: Google maps
 
 
 
 
Quando, nos anos 70, apareceram as dificuldades na gestão do Rivoli, o Banco Borges & Irmão (o proprietário de há muitos anos), pensou na sua demolição para a construção da sede daquela instituição bancária, mas acabaria por vendê-lo, tendo a sala de espectáculos passado sucessivamente pelas mãos da sociedade de construção William Graham e pelas do Banco Português do Atlântico.
Seria Maria Borges, filha do empresário e proprietário do antigo Teatro Nacional e, depois do Teatro Rivoli, Manuel Pires Fernandes e casada com o banqueiro Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão, a opor-se à destruição do Rivoli e a quem os portuenses devem essa benesse.
Maria Fernandes Borges que, diziam, tinha um camarote boca de cena que comunicava com a sua casa, que ficava adossada ao Rivoli, falece em 1 de Fevereiro de 1976 e, em sinal de luto, no dia seguinte, o Rivoli, em sinal de luto, fechava as suas portas.
 
 
  

Proposta que não teria execução prática para ocupar o chão do Teatro Rivoli, c. 1970
 
 
 
 
 
O Teatro Rivoli passou definitivamente para a alçada e propriedade da Câmara Municipal do Porto em 1989, ano em que a autarquia comprou o edifício ao Banco Português do Atlântico para o salvar do estado de degradação.
Posteriormente, após obras profundas de remodelação, a sala de espectáculos reabriu como grande palco cultural em Outubro de 1997.
Entretanto, quanto ao Banco Borges & Irmão, nas décadas de 1970 e 1980, apesar da nacionalização da banca, a actividade do Banco Borges & Irmão continua a alargar-se.
Enquanto entidade autónoma, o BBI deixa de existir em 1998, quando se dá a sua fusão com o Banco Fonsecas & Burnay e o Banco de Fomento Exterior, dando origem a uma nova instituição: o BPI - Banco Português de Investimentos.

terça-feira, 19 de maio de 2026

25.304 A Ponte das Barcas

 
A cidade do Porto só construiu uma ponte para unir as duas margens do rio Douro, servindo períodos alargados, em 1806 - a Ponte das Barcas.
Foi inaugurada a 15 de Agosto daquele ano.
Era constituída por 33 barcaças, ligadas entre si por cabos de aço, e abria em 2 partes para dar passagem às embarcações que subiam e desciam o rio.
Até aí, por vezes, a cidade improvisava a travessia através de barcaças ligadas, para cumprir objectivos pontuais. 
A outra possibilidade, que tinha sido praticada ao longo dos tempos, era utilizar as "barcas de passagem" manobradas por verdadeiros profissionais no manejo dos remos e que se apresentava mais económica.
A Ponte das Barcas, onde ocorreu o fatídico desastre, a 29 de Março de 1809, era um pouco diferente da que lhe sucedeu.
Primitivamente, com cerca de mil palmos de extensão, apresentava 33 barcaças ligadas por cabos de aço, podendo abrir em duas partes para dar passagem ao tráfego fluvial, com circulação sobre um passadiço de madeira. Em tempo de cheias, a ponte era desmantelada para evitar a sua destruição.
Aquela que a veio substituir, do mesmo tipo, tinha barcos mais altos, mais largos e mais afastados, de forma a poder deixar passar pequenos barcos a remos sem ter que ser aberta. Era mais larga e resistente que as anteriores. Só tinha 20 barcos, enquanto a anterior, tinha as tais 33 barcaças.
Naquele dia 29 de Março, a população aterrorizada pelo avanço das tropas francesas comandadas por Soult, aquando da 2ª invasão francesa, tentou fugir para Gaia atravessando a ponte assente em barcas que cederam ao peso excessivo, provocando inúmeras vítimas.
Os motivos para o sucedido variam segundo os relatos: uns dizem que a ponte, constituída por 33 barcaças não aguentou a pressão e desfez-se, provocando a queda no rio, da multidão.
Outra versão refere que do lado de Gaia, alguém abriu um alçapão na ponte para impedir que os franceses a atravessassem, que "engoliu" os que seguiam à frente na fuga, empurrados para a morte pelos que lhes seguiam na peugada.
Na tragédia morreriam, segundo as várias fontes consultadas, entre 4.000 e 10.000 portuenses, e a pilhagem da cidade durou 3 dias.
Após cerca de quarenta dias os franceses acabarão por ser expulsos.
A Ponte das Barcas foi a primeira ponte do género construída em Portugal, como solução a mais longo prazo. Carlos Amarante foi o seu autor, tendo ficado ligado a outras obras célebres da região norte do país, como o Bom Jesus e a igreja do Pópulo, em Braga; a Igreja da Trindade, no Porto; e a reconstrução das muralhas de Valença.
Sobre o trânsito e respectivas portagens, na Ponte das Barcas, se refere o texto seguinte.
 
«(…) Havia muita concorrência na sua passagem, sobretudo às terças e sábados. Os preços de passagem praticados eram os seguintes:
 
Cada pessoa a pé 5 réis
Cada pessoa a cavalo 20 réis
Carro de uma junta de bois 40 réis
Cadeirinhas de mãos 60 réis
Liteira 120 réis
Sege 160 réis
 
À noite, passados 45 minutos do pôr-do-sol, os preços duplicavam, taxa que se mantinha até 45 minutos antes do nascer do sol, sendo o momento anunciado pelo toque de um sino.
A "Ponte das Barcas" revestiu-se de uma enorme importância para o desenvolvimento das comunicações entre as zonas ribeirinhas, mas também no contexto inter-regional, na ligação entre as margens norte e sul do rio Douro”».
Fonte: historiaschistoria.blogspot.com


 

Ponte das Barcas em 1830 (com 20 barcaças) - Fonte: Leipzig Verlag, Georg Wigand  (col. Pessoal)
 
 
 
 
A Ponte das Barcas seria substituída pela Ponte Pênsil ou Ponte D. Maria II, praticamente no mesmo local, a partir de 1843.
A Confraria das Almas de S. José das Taipas e a igreja de S. José das Taipas têm uma grande ligação à Ponte das Barcas.
Começada a construir em 1795, a Igreja de S. José das Taipas foi benzida, em 1818, pelo bispo D. João Magalhães e consagrada em 1822, quando só estaria concluída 1878.
Quando foi consagrada, ainda só tinha sido edificado praticamente o seu solo. Tal ficou a dever-se pela necessidade de santificar o chão onde estavam sepultados os corpos dos que pereceram no desastre da Ponte das Barcas e que, para aqui, tinham vindo em 1809 por deliberação dos portuenses, dada a inexistência de locais para atender aos sepultamentos de tantos milhares de mortos.
Por esta razão, os taburnos (sepulturas) interiores da igreja, não contêm restos mortais de particulares.
Até à conclusão da igreja de S. José das Taipas, que ficaria com a sua entrada pela Rua do Calvário, existia nesse local, desde 1666, uma capela mandada erigir pela família dos “Pacheco”, com entrada pela Rua das Taipas.
Seria o terreno contíguo a essa capela que serviria de cemitério e de chão da nova igreja.
 



Painel representando o desastre da Ponte das Barcas exposto numa parede da igreja – Ed. JPortojo
 
 
 
 
A cena do painel acima exibida num altar do lado da Epístola, com uma assinatura de “A. Cunha” e ostentando a data de 1845, é uma pintura sobre cobre, baseada numa outra que, originalmente, esteve colocada no memorial das “Alminhas da Ponte” e que, por acção dos elementos atmosféricos se degradou.


 
 

Quadro alusivo à tragédia da Ponte das Barcas que serviu de modelo à existente na capela das Taipas
 
 
 
“Este quadro foi colocado depois onde estivera a ponte, e tornou-se local de romaria popular. Aí eram deixadas velas e dinheiro pelas alminhas – as "Alminhas da Ponte”, agora assinaladas na Ribeira por uma placa evocativa de Teixeira Lopes que continua a ser local de devoção. Quanto ao quadro, pintado depois a óleo, ficou à guarda da capela das Almas (ou das Taipas), na Cordoaria, que passou também a assegurar a gestão do dinheiro deixado nas Alminhas. É uma das imagens escolhidas para a exposição sobre o Porto e as invasões francesas que vai ser inaugurada, no Domingo, na Galeria do Palácio de Cristal”.
“noticias.sapo.pt” em 27/03/2009
 
 
 
No extremo do Muro da Ribeira, vê-se hoje um baixo-relevo, em bronze, protegido por um alpendre em ferro, assente em duas consolas, da autoria de Teixeira Lopes (pai), em memória do Desastre da Ponte das Barcas, ocorrido em 29 de Março de 1809.
Neste local, está exposto desde 1897.
Esta placa, mais resistente aos elementos atmosféricos, substituiu uma outra colocada em cota mais baixa, inaugurada em 1891 e oferecida por um devoto, de acordo com a notícia seguinte.


 
In jornal “A República” de 16 de Janeiro de 1891, pág 2

 
 
 

Placa mural alusiva à tragédia da autoria de Teixeira Lopes (pai)


 
 

“Alminhas da Ponte” – Fonte: portoarc.blogspot.com


 
Entretanto, a Confraria das Almas de S. José das Taipas foi responsável, desde 1810, pelas esmolas e o zelo do memorial das Alminhas da Ponte, situada na marginal da Ribeira.
Aquela confraria resultou da união da Irmandade de S. José das Taipas, que administrava a capela de S. José das Taipas, com a Irmandade de S. Nicolau de Tolentino das Almas (sediada na capela de S. João Novo, desde a sua fundação, em 1634, pertencente aos riquíssimos negociantes de bacalhau) e com a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação, que funcionava junto do Convento de Nossa Senhora da Consolação ou convento de Santo Elói, desalojada em virtude do derrube da muralha fernandina.
Em 1780, as três irmandades já estariam juntas e, em 1788, foi decidido construir a igreja.
 
 
“A esta confraria foi entregue pelos moradores da Ribeira, em 1810, o sufrágio das almas dos mortos no desastre da Ponte das Barcas do dia de 29 de Março de 1809. Tinha o encargo de ter sempre 2 velas acesas no local do desastre, recolher as esmolas e, no dia do aniversário, sufragar as almas das vítimas com missas e uma procissão que ia até à Ribeira, acompanhada de música. Este encargo trouxe à confraria uma grande simpatia e consequente aumento de esmolas. Estes rendimentos, acrescidos da percentagem dos lucros da venda do bacalhau, permitiu que se construísse a capela com a grandiosidade que hoje tem. Tem 4 altares laterais dedicados a Nossa Senhora das Dores, da Saúde, da Conceição e de Santo António”.
Cortesia de Rui Cunha
 
 

 
De notar que, face às enormes somas envolvidas, respeitantes a importantes donativos surgiu, há muitos anos, uma contenda entre a Confraria das Almas de S. José das Taipas e a Confraria da Capela das Almas, que ambicionava administrar esses donativos, sita na Rua de Santa Catarina, cujo conflito acabaria por ser resolvido pelo Bispo do Porto a favor da primeira. 
Durante muitos anos, realizou-se, também, a propósito das “Alminhas da Ponte”, uma procissão que, saindo da igreja de S. José das Taipas, retornava passando pela Ribeira, onde em cerimónia presidida pelo bispo, era costume ele paramentar-se na Capela da Lada ou Capela do Senhor Crucificado.
Em 1909, a Irmandade de S. José das Taipas realizou a última romagem (considerada a maior do Porto) em memória das almas perecidas no dia 29 de Março de 1809.
A partir de 1975, o Bispo do Porto, decidiu entregar o cumprimento das obrigações decorrentes da administração das dádivas decorrentes da devoção às “Alminhas da Ponte” à Paróquia de S. Nicolau, após um período de muitos anos durante o qual a tarefa foi da responsabilidade da Opus Dei.
Presentemente, na igreja de S. José das Taipas, a 29 de Março de todos os anos, se evocam, em cerimónia, as almas dos que pereceram no desastre da Ponte das Barcas.
Em 2009, foi inaugurada uma obra escultórica de Souto Moura, com uma parte em Gaia e outra no Porto, perto do local onde se encontrava a antiga ponte.

 
 
 

Escultura (Ribeira do Porto) de Souto Moura evocativa da tragédia da Ponte das Barcas – Fonte: historiaschistoria.blogspot.com


 
 
Escultura (Ribeira de V. N. de Gaia) de Souto Moura evocativa do desastre da Ponte das Barcas – Fonte: Mapio.net