terça-feira, 4 de julho de 2017

(Continuação 25) - Actualização em 11/11/2020

Lado SUL


A sul, a Praça D. Pedro era limitada pelo Palácio das Cardosas, um edifício neoclássico dos finais do século XVIII, com o rés-do-chão adaptado a diversos estabelecimentos comerciais e que, quando começou a ser construído, se destinava a ser um convento dos padres Lóios.
Após o Cerco do Porto e a vitória dos liberais, na guerra civil então acontecida, e da sequente extinção das ordens religiosas, o edifício passou para as mãos de uma família, cujo patriarca era Manuel Cardoso dos Santos (1797-1851) e, posteriormente, para a sua viúva e outros descendentes, passando a ser conhecido, no futuro, pelo Palacete das Cardosas.
Assim, Manuel Cardoso dos Santos casou com Joaquina Margarida Cardoso dos Santos, sua prima, de cujo enlace resultaram três filhos: António Cardoso dos Santos (nascido em 1837) Joaquim Cardoso dos Santos (nascido em 1839) e Joaquina Cardoso dos Santos (nascida em 1840).
Joaquina Margarida Cardoso contrai um segundo casamento e faz um testamento quando já tinham falecido dois dos seus filhos.
Nomeadamente, a filha Joaquina Cardoso, falecida em 1859, foi casada com Fausto de Queiroz Guedes, 2.º visconde de Valmor, de cujo enlace não houve descendência.
Fausto de Queiroz Guedes foi diplomata de reconhecidos méritos e senhor de uma grande fortuna, herdada de seu tio José Isidoro Guedes, 1.º visconde de Valmor, cujo nome tinha como origem uma quinta de que era proprietário em Armamar.
Entretanto, o filho António Cardoso dos Santos, casado com Laura Virgínia Vilar, faleceu e Joaquina faz um segundo testamento, que prevalece sobre o anterior e, no qual, os principais beneficiados são a sua neta Laura Júlia, filha de António e o seu viúvo.
Por herança, a propriedade vai acabar nas mãos de Laura Júlia Vilar Cardoso, que era filha única. 
Mais um proprietário feminino de apelido Cardoso do icónico imóvel para fazer juz ao nome - Palacete das Cardosas.


 

Notícia inserta no “Ecco Popular” sobre ocupação do Palacete das Cardosas e reproduzida pelo jornal “O Commercio” fundado em 1854 e que, em 1856, já se designava como “O Commercio do Porto”




Fachada do Convento dos Loyos – Ed. Joaquim Cardoso Villanova 
1833




Panorâmica tirada da Torre dos Clérigos



A foto acima é uma vista da torre dos Clérigos, à volta de 1860.



“Trata-se de uma vista rica em pormenores interessantes. Como que dividindo a foto a meio, temos o enfiamento da rua dos Clérigos, praça de D. Pedro (hoje, da Liberdade) -- o chamado passeio das Cardosas -- e subida da rua de Santo António (hoje, de 31 de Janeiro), até à igreja de Santo Ildefonso, no topo.
Ao centro da imagem, destaca-se a igreja dos Congregados e o edifício anexo, a ala do antigo convento, com frente para a praça de D. Pedro. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício original foi vendido em lotes e ocupado por vários negócios, entre os quais os famosos botequins e cafés: Guichard, Camanho, Suíço, entre outros. Um pouco mais acima, vê-se ainda uma zona de campos e, ao fundo, as traseiras dos prédios da rua de Santa Catarina. À data da foto já se tinha aberto a rua de Sá da Bandeira (no troço que hoje tem o nome de Sampaio Bruno) e, pouco depois, toda esta área estaria também urbanizada.
Do lado direito da imagem, a torre sineira da igreja do mosteiro de São Bento de Ave-Maria e a sua cerca. Delimitada, do lado esquerdo, pela muralha fernandina (são visíveis as ameias da muralha), ao fundo e à direita, por altos muros. Cerca de três décadas mais tarde, aqui abrir-se-iam os túneis que trariam os comboios vindos de Campanhã e o convento daria lugar à estação ferroviária com traço de Marques da Silva, que hoje conhecemos”.
Com a devida vénia a “Porto Desaparecido”.



Vista para a Rua dos Clérigos. Na foto, um Fiacre e um Americano




Praça D. Pedro e o Americano



O Pasmatório dos LóiosdepoisO Real Clube dos Encostados”, eram nomes pelos quais era conhecido o local, onde um conjunto de homens durante longas horas, conversando, iam admirando quem passava, encostados ao Palacete das Cardosas.
De notar, que nessa época, o rés-do-chão do edifício era ocupado praticamente na totalidade, por um conjunto de estabelecimentos comerciais dos mais variados ramos.



O edifício das Cardosas e o “Real Clube de Encostados”


Ao longo dos anos, o Palacete das Cardosas albergou uma miríade de estabelecimentos comercias.





Praça Almeida Garrett, em 17 de Junho de 1907, durante a visita de João Franco
 
 
 
Na foto acima, poder-se-á observar a fachada do Palacete das Cardosas voltada para a Praça Almeida Garrett, em 1907.
Assim, à esquerda, vemos o Depósito Central da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro de Miguel Moreira Pacheco, L.da, seguindo-se a Ourivesaria Belmiro e a Tabacaria José Teixeira.

 
 
À esquerda, próximo do cunhal do palacete das Cardosas, observa-se a ourivesaria Belmiro e a Tabacaria José Teixeira que exibe um placard anunciando os charutos Tonga
 
 
 
Sobre a foto anterior, observa-se que a entrada para a igreja dos Congregados, à direita, é feita por escadaria protegida por balaustrada, o que conduz à conclusão de que ela é anterior a 1913, momento a partir do qual o referido acesso ao templo passou a ser feito ao nível da rua.
Será, porém, Horácio Marçal quem nos vai deixar uma exaustiva descrição sobre o lado sul da Praça D. Pedro, a partir do último quartel do século XIX.
Assim, segundo ele, o lado sul da praça era praticamente ocupado pelo Palacete das Cardosas. Começando um périplo pela sua fachada, voltada para a Praça Almeida Garrett, encontrávamos a relojoaria de João Vieira, a tabacaria Martins & Brito e uma confeitaria de Avelino Teixeira da Mota que foi, mais tarde, incorporada no Café Astória.
Ultrapassado, o cunhal do edifício, seguia-se a tabacaria Sá Reis que, em 1895, já por lá se encontrava, uma alfaiataria a que se seguia uma camisaria de Teles & Marques e por aí, se instalaria, durante muitos anos, o Café Astória.
Logo aparecia uma casa de fazendas de Abreu & Irmão, o restaurante Internacional, sucedendo-lhe a casa bancária Sousa, Cruz & Cia, a camisaria de Guilherme de José d’Oliveira passada de trespasse a Manuel Caetano d’Oliveira, ocupado mais tarde, pelo Interposto Comercial e Industrial do Norte, Lda.
Continuando para poente, com a Torre dos Clérigos no horizonte, aparecer-nos-ia a Papelaria Central fundada, em 1885, por João Dias Alves Pimenta, na Rua de Sampaio Bruno e que, por aqui, se instalou em 1895, acabando na gerência do seu filho, um armazém de tecidos de Alves, Costa & Cia., os bancos Peninsular e Angola e Metrópole, a Casa Baptista, uma confeitaria que se transformou em café, o Banco Ferreira Alves & Pinto Leite, Lda., que ocupou o lugar de a alfaiataria Pinho & Lima, a Camisaria Passos e Ourivesaria Soares dos Reis que, anos depois, passou a casa Campeão & Cia, o Banco Pinto & Sotto Mayor ocupando o lugar de três outras, a camisaria Freitas Guimarães, Suc., a confeitaria Reis & Olimpo, fundada em 1902, o corrector de fundos Alberto Gonçalves, que deu lugar à Papelaria Guimarães, a Casa Laporte (artigos de caça e desporto).




Praça D. Pedro, nos finais do século XIX, durante a realização de um desfile



Na foto acima, é possível observar-se a nível do 2º andar, os escritórios da Sociedade Protectora dos Animais, e alojadas nos baixos do Palacete das Cardosas, da esquerda para a direita, as firmas Soares Reis & Filho, no nº 25, A Confeitaria Luzo-Brazileira no nº 26, Papelaria Guimarães no nº 28 e Casa Laporte.
Esta última firma comercializaria talvez, artigos relacionados com a caça, pois, vê-se uma réplica de uma espingarda por cima das padieiras das portas, e seria alvo da notícia que se segue, no jornal O Velocipedista em 1894:


Está exposta na casa Laporte, á Praça de D. Pedro, uma bicycleta fabricada na serralheria do snr. Figueiredo Junior, á rua do Campo Pequeno. É muitíssimo elegante na sua forma e de uma confecção fóra do usual, no esqueleto, pois é de prancheta e não de tubo de ferro, não chegando a pesar 20 kilos, destinando-se a passeio. Pertence ao snr. Camillo d’Almeida que, vendo, com outros amigos, no snr. Figueiredo, um industrial empreendedor e laborioso, lhe incutiu a ideia de tentar este género de construcções. Merece todos os elogios o hábil artista porque desempenhou satisfactoriamente o encargo, apresentando um artefacto em condições de realçar os seus merecimentos artísticos”.



Continuando para poente, tínhamos a casa de modas Silva Monteiro, depois Barbearia Petrónio, o armazém de fazendas João da Costa & Silva Magalhães & Filhos, que deu lugar à casa bancária Pinto da Fonseca & Irmão e depois ao Banco Comercial, a camisaria de José Amorim.
Na área destes dois últimos espaços comercias desde há muitas dezenas de anos, ainda hoje, está instalada a Farmácia Vitália.
Resta a Camisaria Central que sucedeu à firma Prata & Irmão e onde, desde meados do século XIX, esteve a Livraria Moré.



Farmácia Vitália e, à esquerda, a Barbearia Petrónio inaugurada em 2 de Outubro de 1939 – Foto de 1964






Esquina do Largos dos Lóios



“Na esquina do largo dos Lóios, ficava a melhor livraria do Porto, — a More, — onde, além dos livros, se vendiam «quinquilharias» várias; a esquina da More foi um lugar célebre de cavaco. Em frente deste vasto prédio, ao longo da valeta, viam-se durante o dia barracas de pano cru e mesas volantes, sobre as quais estendiam a sua sombra protectora gigantescos guarda-sóis de pano branco; encontravam-se ali à venda, desde o bacalhau às guloseimas, os géneros mais variados e as melhores pechinchas. Entre esta fila de vendedores e o edifício, corria o passeio chamado sarcasticamente o Pasmatório dos Lóios(...).
No Passeio das Cardosas estão instaladas algumas das mais conhecidas casas comerciais, como a “Camisaria Oliveira, installada com fino gosto no prédio fronteiriço à Câmara…É uma das camisarias mais bem sortida em roupas brancas, enxovaes, artigos ligeiros e de novidade para senhoras, homens e creanças…”; Livraria Moreira, “uma das mais conceituadas e bem installadas livrarias do Porto…”; e a casa de Modas e Confecções de F.Rebello & Coelho, de reputação invejável pelo primor da execução que se observa nas suas confecções e fina escolha nos artigos que vende…”
Artur Magalhães Basto – O Porto do Romantismo 1932; Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”




O comércio na Praça D. Pedro – Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”


 

Planta do edifício das Cardosas, em 1892, na planta de Telles Ferreira

 

Na planta acima, no nº 25, ficava a firma Soares Reis & Filho, no nº 28 a Papelaria Guimarães e, no nº 29, a “Laporte”.
No nº 1, esteve a livraria “Moré”.




Praça D. Pedro e Rua dos Clérigos com árvores do lado esquerdo c. 1900



À direita a Igreja dos Congregados e o seu varandim



Praça D. Pedro e os Eléctricos



Praça da Liberdade e Palacete das Cardosas à direita



Vista da Rua de Santo António para o Passeio das Cardosas



Panorâmica da Praça da Liberdade obtida a partir do Passeio das Cardosas em 1932



Praça da Liberdade em 1955 com mesma perspectiva da foto anterior

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