quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

25.300 Era portuense a musa inspiradora do escritor Machado de Assis

 
Chamou-se Carolina Augusta Xavier de Novaes (1835-1904) e nasceu no Porto, em 20 de Fevereiro de 1835, residindo os pais, à data, na Rua de Santa Catarina.
Era filha de António Luís de Novaes (1789-1867), um ourives e negociante de joias, sem marca registada, com estabelecimentos na Rua Formosa, n.º 179 (almanaques de 1852 e 1853) e de D. Custódia Emília Xavier.
O casamento do casal foi em 27 de Maio de 1816, na igreja paroquial de Santo Ildefonso.
No registo de nascimento de Carolina, a sua mãe é referida como dona, referência dada apenas aos nobres ou a quem vivia à lei da nobreza.
A amiga de sempre de Carolina, com quem gozava os prazeres da leitura e da poesia, foi Antónia Moutinho de Sousa, filha de um ourives do Porto, com marca registada e irmã de António Moutinho de Sousa (1834-1899), editor literário e escritor, nascido no Porto,
A amizade das duas jovens adviria, talvez, da proximidade entre os seus pais, profissionais do mesmo ofício ou do convívio originado na amizade entre seus irmãos Faustino e António.
Na realidade, o gosto pela poesia decorria, por certo, de Carolina ser irmã do poeta Faustino Xavier de Novaes (Porto, Rua de Santa Catarina, 19 de Fevereiro de 1820 – Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 1869), um amigo de Camilo Castelo Branco, ambos fazendo parte da “Corja do Guichard”, o famoso café, à época, situado junto à igreja dos Congregados, na Praça Nova.
Faustino, Camilo e outros escritores e poetas costumavam frequentar os “abadessados”, festas que eram levadas a cabo nos mosteiros e conventos femininos na cidade e, durante os quais, os poetas recitavam as sua obras e faziam versos repentistas.
De Faustino Xavier de Novaes, havia quem o comparasse, pelo versejar de improviso, a Nicolau Tolentino.
 
 
  

In revista “O Tripeiro”, 2.º Ano, N.º 38, 10 de Julho de 1909



 

Soneto de Faustino Xavier de Novaes, In revista “O Tripeiro”, 2.º Ano, N.º 38, 10 de Julho de 1909
 
 
 
 
Por sua vez, António Moutinho de Sousa (1834-1898), irmão mais velho de Antónia, foi também negociante de ourivesaria com estabelecimento, segundo os almanaques (1868/1869 e 1870), na Rua das Flores, n.º 271, era amigo de Faustino, tendo-lhe editado três livros de poesia, o primeiro dos quais, em 1851 e, o seu único filho varão, Júlio Moutinho, teve como padrinho, Faustino.
António Moutinho de Sousa, um bom amigo, também, de Camilo Castelo Branco, tinha já editado as primeiras edições das obras Duas Horas de Leitura e Espinhos e Flores.
Camilo cita-o nos Narcóticos e nas Noites de Insónia.
António Moutinho de Sousa partiu para o Brasil em 1859 e, lá, escreveu A Doida do Sítio, publicado em folhetim no jornal “O Futuro” de Faustino Xavier de Novais.
De acordo com a opinião de Helena Cardoso de Macedo Meneses, na revista “O Tripeiro”, Série Nova, Ano IX, N.º 8, Agosto de 1990, pág. 257, o título do romance de Camilo “A Doida do Candal” teria sido inspirado no de “A Doida do Sítio”.
Neste caso, quem enlouquece é, porém, a mãe da amante e não esta.
Chegado ao Brasil, António Moutinho de Sousa casa com Ludovina da Vecchi (1843-1861), que faleceria prematuramente e era filha da conhecida actriz portuense Gabriela da Cunha Vecchi (Porto, 1821 – Bahia, Brasil, 1882).




António Moutinho de Sousa – Col. do Dr. José Couceiro da Costa


A vida social das duas jovens não se deve ter afastado muito das jovens burguesas de então.
Entretanto, Carolina vai estar presente no primeiro casamento de Antónia e do qual não houve descendência e vai ver o negócio de seu pai começar a enfrentar sérias dificuldades.
Carolina teve irmãos: Faustino, Miguel, Henrique, Matilde Amália (casada com Gaspar Tomás Christ) e Emília (casada com Arnaldo Braga).
Os irmãos vão abandonando o lar paterno.
Faustino, já casado, desde Julho de 1855, parte para o Brasil, em 1858, no paquete “Tamar”, enviando regularmente ao pai trinta mil réis.
Em terras brasileiras, este casamento não dura muito e o casal separa-se, em 1860.
Tal como em Portugal, Faustino exerceu a sua actividade profissional colaborando em vários periódicos fluminenses: Jornal do Comércio, Correio Mercantil, Diário do Rio de Janeiro, A Marmota, Revista Popular e, ainda, teve oportunidade de lançar, em 1862, um periódico literário, como um empreendimento empresarial intitulado “O Futuro”.


 
 

Faustino Xavier de Novaes, no Rio de Janeiro – Ed. desconhecido
 
 
 
Os pais de Carolina morrem, a mãe a 14 de Abril de 1864, sendo, à data, moradora na Rua do Bonjardim, n.º 205 e, o pai, em 19 de Abril de 1867, sendo já residente na Travessa de Santa Catarina, n.º 35.
Carolina continuava solteira e, em 26 de Maio de 1868, vai embarcar para o Brasil para cuidar do seu irmão Faustino.
Acompanha-a na viagem, a bordo do vapor “Estrémadure”, o músico e compositor portuense, Artur Napoleão (1843-1925), a viver no Brasil desde 1866, amigo de Faustino e que tinha estado de visita à sua terra.
Conhecido desde de criança como o “Menino-prodígio”, pelos dotes extraordinários que apresentava como músico, por vezes, nas suas actuações ao piano, tinha a companhia de Faustino, à flauta.
Havia, até, quem dissesse, que Faustino era melhor flautista que poeta.
E, dado que, o escritor Machado de Assis (1839-1908) era amigo de Faustino, Carolina vai conhecê-lo e encontrar o seu companheiro para a vida.

 
 

Carolina teria embarcado para o Brasil, no cais da Ribeira, pois, à data, ainda não estava construído o Porto de Leixões - Foto c. 1870
 
 
 
Carolina, segundo opinião da escritora brasileira Francisca Basto Cordeiro (1875–1969), amiga de Machado de Assis, sendo alta e magra, não era bonita, não ria nunca e raramente sorria.

 
 

Carolina Xavier de Novaes – Fotografia de Miguel Novaes, Porto

 
 
Dela, embora tenha vivido numa época em que a fotografia não era geralmente acessível, existem muitas fotos, pois, um dos seus irmãos era Miguel Joaquim Xavier de Novaes (Porto, 1829-Rio de Janeiro, 1904), um dos primeiros fotógrafos a montar um estúdio de fotografia no Porto.
Assim, Miguel Novaes estabelecer-se-ia em 1854, na Rua do Bonjardim, nº 86, dedicando-se, principalmente, à retratística, pelo método de daguerreotipo, ocupando ainda estabelecimentos, na Rua do Bonjardim, n.º 233 e, depois, no n.º 586.
Em 1868, também Miguel Novaes parte para o Brasil, onde abriu um atelier fotográfico, na Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro.
Faustino sobrevive, apenas, um ano e pouco, após a chegada de Carolina, vivendo com ela numa morada, às Laranjeiras, perto do palacete do 1.º conde de S. Mamede, Rodrigo Pereira Felício (1821-1872), que o ajudava, por vezes, financeiramente.
Rodrigo Pereira Felício ficou, por cá, conhecido por ter dado 12 contos de réis (à data, uma grossa maquia) para a construção da igreja de S. Mamede de Infesta, que é hoje a sua matriz.
Este sobreviveu apenas três anos a Faustino. A sua viúva, Joana Maria Ferreira Felício, em 1876, casaria com Miguel Novaes, o fotógrafo, irmão de Carolina.
Aliás, Miguel Novaes haveria de casar em segundas núpcias com Rosa Augusta Paiva Gomes.
Carolina vai acabar por casar, em 12 de Novembro de 1869, com Machado de Assis, apesar da existência de algumas vozes discordantes, devido à tez mulata de Assis e viver esse casamento durante 35 anos.
Do enlace não houve descendência. Dizia-se que Machado de Assis não quis transmitir a sua epilepsia.
Carolina continuou a contactar Antónia por cartas, enviava-lhe muitas fotografias, mas nunca chegou a conhecer as filhas do seu segundo casamento.
 
 
 

Casa, na Rua do Cosme Velho, n.º 18, no Rio de Janeiro, onde viveu Machado de Assis (chamado, por isso o “Bruxo do Cosme Velho”) de 1883 até sua morte em 1908, e Carolina, nos seus últimos vinte anos de vida


 
 

Carolina Machado de Assis e Joaquim Maria Machado de Assis – Ed. desconhecido

 
 
Após o falecimento de Carolina, Machado de Assis dedicaria à sua memória um poema que ficou célebre.


 

Soneto de Machado de Assis, In obra “Relíquias de Casa Velha” (1906)
 
 
 
Todos os elementos da família Xavier de Novaes que, em determinado momento, demandaram terras brasileiras, fazem parte de um grupo de portuenses, que pela sua intervenção na sociedade, muitos deles, ficaram em memória ligados para sempre àquele país.
É o caso de Artur Napoleão, que teve um enorme sucesso e ficou para a posteridade.

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