terça-feira, 20 de outubro de 2020

25.101 Aurélio Paz dos Reis

Aurélio da Paz dos Reis nasceu no Porto, em 28 de Julho de 1862 e morreu, no Porto, em 18 de Setembro de 1931.
Foi realizador de cinema, exibidor, fotógrafo, comerciante, horto-floricultor, revolucionário republicano e maçon convicto.
É considerado o pioneiro do cinema em Portugal por ter realizado e produzido o primeiro filme, "A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança", réplica do primeiro da história do cinema, rodado em França pelos irmãos Lumière, em 1894 - La Sortie de l'usine Lumière à Lyon.



Saída do pessoal operário da Fábrica Confiança, na Rua de Santa Catarina

 

 

Paz dos Reis apresentaria o seu cinematógrafo no Porto – designado pelo próprio como Kinematógrafo Portuguez –mostrando filmes com a duração de um minuto no Teatro do Príncipe Real, actual Teatro Sá da Bandeira, no dia 12 de novembro de 1896.

 

 

“Adquiriu, logo em 1896, uma máquina de filmar e projetar, e realizou e exibiu nesse mesmo ano, pela primeira vez, no Porto, 27 pequenos filmes. O primeiro e mais célebre foi Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança (1896), rodado na esquina das ruas de Santa Catarina e Passos Manuel, na cidade do Porto. Seguiram-se O Zé Pereira na Romaria de Santo Tirso (1896). O Vira (1896), Manobras de Bombeiros (1896), Cortejo Eucarístico Saindo da Sé do Porto no Aniversário da Sagração do Eminentíssimo Cardeal Américo (1896), Barcelos (1896) e Avenida da Liberdade (1896), entre outros.”
Fonte: Infopédia

 

“Não foi, no entanto, Paz dos Reis o autor das primeiras imagens animadas filmadas em Portugal.

As primeiras são de um operador inglês com o nome de Henry W. Short, que acompanhava Edwin Rousby, um agente comercial do produtor e fabricante de equipamento de cinema Robert William Paul.
Rousby percorria vários países europeus com o intuito de dar a conhecer e de promover a venda do material fabricado pelo pioneiro inglês, em particular uma máquina de projectar com o nome de Theatrograph que em português poderá ser chamada teatrógrafo ou animatógrafo.
A projecção dos primeiros filmes rodados em Portugal tinha sido feita pouco tempo antes no Real Colyseu de Lisboa, na Rua da Palma, em várias sessões organizadas por Rousby, que duraram até ao dia 15 de Julho de 1896. Para isso teve o apoio técnico do lisboeta Manuel Maria da Costa Veiga que, como Paz dos Reis, se interessou pelo invento. Tornar-se-ia ele assim o segundo português a produzir e realizar filmes de actualidades e documentários em Portugal.
A cidade do Porto foi entretanto visitada por Edwin Rousby, que nela apresentou o teatógrafo em sessões públicas às quais Aurélio Paz dos Reis assistiu, a 17 de Julho, que tiveram lugar entre 7 de Julho e 10 de Agosto. É este evento que o entusiasma e o leva a decidir adquirir a curto prazo uma máquina de filmar, o que ele consegue numa deslocação que faz a França.”

Fonte: Wikipedia

 

Aurélio recebeu influências do avô, que foi miguelista e, por isso, deu ao filho o nome de Miguel da Paz dos Reis.

Porém, a inclinação política de Aurélio era o liberalismo, confirmando-se com a sua participação na Revolta do Porto, de 31 de Janeiro de 1891, que pretendia derrubar a Monarquia. Em sequência, foi preso e julgado, mas, porém, sairia ilibado deste processo.
De acordo com os seus ideais, iniciou-se na maçonaria na “Loja Honra e Dever”, em 1889, onde adoptou o nome simbólico de Homero.
Ao longo da sua vida, passou por várias Lojas Maçónicas e fez uma progressão rápida nos graus da Maçonaria do Vale do Porto, tendo aderido ao Partido Republicano.
Esta sua opção política originou dois encarceramentos na Cadeia da Relação.
Aurélio foi ainda vereador e presidente substituto da Câmara Municipal do Porto e cooperou com inúmeras instituições culturais e de beneficência, nomeadamente, como membro da “Comissão Executiva dos Empregados do Comércio” (com apenas vinte anos de idade), da “Associação de Protecção à Infância Desvalida”, como sócio fundador da “Associação Portuguesa do Asilo de S. João”, como director e segundo secretário do “Ateneu Comercial” (1896), dirigente do Clube dos Caçadores, tendo sido um dos fundadores do Orfeão Portuense e seu director, colaborador do Clube dos Fenianos e tendo-se envolvido também na criação do Conservatório de Música do Porto, pois, foi por sua proposta, de 17 Janeiro de 1914, que surgiu a posterior fundação desta instituição, em 1917, pela Câmara Municipal do Porto.
Na Rua do Barão de Nova Sintra, nº 125, teve a residência de família e, aí, viveu com a sua mulher e os seus quatro filhos.
Junto da residência, em terrenos anexos, localizavam-se os viveiros e as estufas que abasteciam a “Flora Portuense”, a loja fundada em 1893, de comércio de flores, plantas e sementes, instalada na Praça D. Pedro.




Casa de Aurélio da Paz dos Reis na Rua de Barão de Nova Sintra, nº 125, actualmente, o nº 194



Estufas e viveiros de plantas e flores, em Nova Sintra



“Flora Portuense” junto do Hotel Europa e do Restaurante Europa, na Praça D. Pedro



Aurélio e a sua mulher, Palmira de Souza Guimarães


A mulher de Aurélio era oriunda da Casa de Corim, na Maia.
Era filha do comendador António Fernandes Guimarães, o célebre “Visconde das Hortas”, um grande negociante da cidade do Porto, que residia na Rua das Hortas (hoje, um troço da Rua do Almada).


“Casa de Corim” do sogro de Aurélio Paz dos Reis



Exposição de Flores no Palácio de Cristal, em 1900, na qual participou a “Flora Portuense”



A filha de Aurélio, Hilda Ofélia, na Praça D. Pedro, em 1909, enviando um postal de Boas-Festas



A filha de Aurélio, Hilda Ofélia, no Molhe de Carreiros, à Foz do Douro, em 1913, na companhia de Adriano Ramos Pinto e das suas duas filhas



Molhe de Carreiros, em 1900


Aurélio da Paz dos Reis nos jardins de sua casa, à Rua do Barão de Nova Sintra, em 1915



O casal Paz dos Reis e os seus quatro filhos, em 1915



O Presidente do Ministério (1º Ministro) Afonso Costa, divertindo-se nos jardins da casa de Aurélio, na Rua do Barão de Nova Sintra

 

Aurélio tinha boas ligações aos políticos que governavam na época, mas com o afastamento de Afonso Costa, por Sidónio Pais, a vida política de Aurélio começaria a esmorecer.
Entre 1918 e 1919, perde tragicamente três dos seus quatro filhos.
Como curiosidade, diga-se que todos os nomes dos filhos começam pela letra "H":  Homero (nascido em 1887), Horácio (nascido em 1888), Hugo (nascido em 1891) e Hilda (nascida em 1898).
Hilda e Horácio não resistem à pneumónica e Homero morre em França no final da 1ª Guerra Mundial.
Restou Hugo, que passaria toda a documentação herdada dos trabalhos de Aurélio, para o seu filho, também ele, Hugo.


Praça D. Pedro, em 1913

 

Na foto acima vemos, da esquerda para a direita, a Casa Navarro, a Cervejaria Sá Reis e a Flora Portuense, com ligação, nas traseiras, à Rua das Hortas.
A Flora Portuense, à época, uma floricultura, substituiu, nesse local, a camisaria do pai.
Aurélio viveria com os seus pais, em solteiro, por cima da camisaria.
Será a neta de Aurélio, Hilda, filha de Hugo e Raquel, que será o último elemento da família ligado à "Flora Portuense" antes do seu encerramento.
Aí, se dedicou à venda de flores e sementes, mantendo o estabelecimento até ele ser substituído pela Confeitaria Ateneia.
Hugo Virgílio (filho), após a morte da mãe, abandona a casa de Nova Sintra, mudando-se para a Foz, guardando todo o espólio do pai que transmite depois ao seu filho, que o viria a depositar no CPF, em 1997.



No prédio mais próximo morou Aurélio da Paz dos Reis – Cortesia de “portosombrio.blogspot.com/”
 
 
 
 
Os prédios da foto acima foram erguidos, entre 1879 e 1880, por vontade do negociante João Leite de Faria, proprietário do terreno, visando o seu arrendamento, com a Licença de obra nº 130/1879.
 
 
“João Leite Faria era igualmente proprietário de vários prédios noutras freguesias do Porto, incluindo do conjunto de prédios na Rua Formosa que se situam em frente a uma das entradas principais do Mercado do Bolhão (do 313 ao 353), juntamente com outros dois sócios”.
Cortesia de “portosombrio.blogspot.com/”
 
 
 
Bem perto dos prédios acima mostrados, no nº 159, esteve, na transição para o século XX, uma moradia histórica, num terreno que era limitado, a sul, pela Travessa da China e que se estendia até à Travessa de Nova Sintra, do industrial António Dias Pereira, que era proprietário de mais alguns imóveis nas imediações.
 
 
“Noutros tempos, o que é hoje uma considerável extensão de mato que cresce de ano para ano descontroladamente, situava-se não só a moradia forrada a radiantes azulejos azuis do industrial António Dias Pereira como um armazém de cal, gesso e outros materiais de construção que funcionou entre os finais do século XIX e inícios do século XX”.
Cortesia de “portosombrio.blogspot.com/”
 
 
 
Rua do Barão de Nova Sintra, nº 159 – Fonte: Google maps

 
 
Pedido de licenciamento dirigido por António Dias Pereira, à CMP, para o nº 159, da Rua do Barão de Nova Sintra, em 14 de Julho de 1925 - Fonte: AHMP

terça-feira, 13 de outubro de 2020

(Conclusão)

 Centenário do Nascimento de Alexandre Herculano

 
 Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa, a 28 de Março de 1810.
Activista político, escritor, jornalista, polemista e historiador, é principalmente como romancista que Alexandre Herculano é mais reconhecido, partilhando com Garrett a génese do romantismo português.
Até aos 15 anos, frequentou o Colégio dos Padres da Congregação do Oratório de São Filipe de Néri, instalados no Convento das Necessidades em Lisboa. Entre 1830 e 1831, frequentou a aula de Diplomática na Torre do Tombo.
A sua actividade política, de defensor das ideias liberais, leva-o para fora de Portugal.
A obra que lhe dá mais fama é a sua História de Portugal, cujo primeiro volume é publicado em 1846.
A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o seu sócio efectivo em 1852, e encarregou-o do projecto de recolha dos Portugaliae Monumenta Historica, projecto que realiza em 1853 e 1854.
Em 6 de Junho do 1853, saiu de Lisboa, e percorrendo o norte do país, recolhe enorme porção de documentos de todos os arquivos eclesiásticos e seculares.

 
 
Armário/Estante que pertenceu a A. Herculano, à guarda na Torre do Tombo

 
 
A exemplo do que aconteceria por todo o País, também no Porto, o 1º centenário do nascimento de Alexandre Herculano teve o devido destaque.
Em 9 de Abril de 1910, ocorre uma conferência sobre Herculano e a sua obra, no Centro Comercial, protagonizada pelo Dr. Manuel Monteiro.
É o Jornal “A Pátria” que, na sua edição de 3ª Feira, 26 de Abril de 1910, nos dá conta do acontecido durante os festejos do centenário do nascimento de Alexandre Herculano.
Assim, é-nos narrado que “…no Domingo, grandioso cortejo em honra de Herculano com cerca de 20 mil pessoas, quase 200 bandeiras e estandartes e muitas bandas de música, além das autoridades, do Palácio à Biblioteca Municipal, onde foi inaugurado o oferecido busto em bronze, com discursos. Houve sessões no Liceu da Trindade, na Sociedade de Instrução e Recreio Verdi, à Boavista, nas escolas feminina e masculina de Aldoar, onde foram descerrados retratos. À noite, como na véspera, festejos populares na praça D. Pedro, com iluminações e concertos pelas bandas regimentais”.
 
 
 
Cortejo durante Centenário do Nascimento de Alexandre Herculano, em 1910 – Ed. Aurélio da Paz dos Reis; Fonte: CPF

 
 
Na foto anterior, em primeiro plano, está Marcos Guedes, presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras e, um pouco atrás, de chapéu de palha, o filho de Aurélio da Paz dos Reis de seu nome Hugo, o terceiro dos seus quatro filhos.
De notar ainda na foto que, em 1910, se observa no sentido ascendente da Rua de Santo António, a fachada do Bazar de Paris (que foi de Júlio Fassini), que ostenta a indicação de Bazar Mattos, a Sapataria Portuense e, bem na esquina, a Tabacaria Africana.

 
 
Perspectiva idêntica à da foto anterior, em 1940
 
 
 
Cortejo de homenagem a Alexandre Herculano terminando em frente à Biblioteca Municipal, ao Jardim de S. Lázaro, Maio de 1910

 
 
Cortejo de homenagem a Alexandre Herculano terminando em frente à Biblioteca Municipal, ao Jardim de S. Lázaro
 
 
 
 
 
 
Herculano foi o grande obreiro do desenvolvimento da Biblioteca Municipal, tendo começado por ser o seu Sub-Director, por nomeação de D. Pedro IV, que, para o efeito, o retirou das fileiras dos Voluntários da Rainha, (depois de tomarem e ocuparem a Cidade do Porto), confiando-lhe também a salvação do património cultural do País nas Províncias do Minho e de Entre Douro e Minho, cuja vandalização roubo e destruição pelo fogo se havia iniciado, a mando do usurpador, D. Miguel.
Após a vitória dos liberais e do levantamento, em sequência, do cerco de que a cidade tinha sido alvo, entre 1832-1834, Alexandre Herculano foi nomeado como 2º bibliotecário, na então recém-criada Biblioteca Pública Municipal do Porto.
Em 30 de Dezembro de 1833, por o Prefeito do Douro e a Comissão Municipal entenderem que a Biblioteca Pública – provisoriamente instalada no Hospício de Santo António de Vale da Piedade, à Cordoaria, e no Paço Episcopal – necessitava de um edifício mais espaçoso, é mandado examinar, para esse efeito, o «abandonado Convento de Santo António da Cidade», por uma Comissão constituída pelo 1º Bibliotecário, Diogo de Góis Lara de Andrade, pelo Arquitecto da Cidade, Joaquim da Costa Lima Sampaio e pelo 2º Bibliotecário, Alexandre Herculano.
Em 1842, é definitivamente instalada no edifício do Convento a Real Biblioteca Pública do Porto e inaugurada, em 4 de Abril, dia do aniversário da Rainha D. Maria II.

 
 
Primeiras instalações da Biblioteca Pública Municipal do Porto (Cordoaria) onde, nos nossos dias, está a extremidade a sul do Palácio da Justiça

 
 
Dias depois de ter ocorrido a chamada Revolução de Setembro, Alexandre Herculano seria dispensado daquele cargo, numa exoneração com carácter político por decisão dos novos poderes instalados.
Os novos decisores reclamam de Alexandre Herculano, a sua colagem aos novos ares.
Assim, é emitida a seguinte directiva a Alexandre Herculano:

 
“« Illm.º Sr. = Tendo S. M. a Rainha determinado que a Câmara e mais autoridades e empregados jurem a Constituição de 1822, assim o faço saber a V. S.ª para que hoje, ao meio dia, venha ao Paço do Concelho prestar o mesmo juramento, e deferi-lo depois aos empregados dessa repartição. Deus guarde a V. S.ª
 
Porto 17 de Setembro de 1836 = Illmo.º Sr. Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo = Manuel Pereira Guimarães, Presidente.»
 


A resposta de Alexandre Herculano não se fez esperar:
 

“«Ilm.º Sr. - Persuadido pela voz da íntima consciência de que não devo prestar o juramento para que V. S.ª me convida no seu oficio de hoje, julguei também que cumpria comunicar-lhe imediatamente a minha resolução.
A fé que prometi guardar à Carta Constitucional da Monarquia, selei-a com as misérias do desterro, e com os padecimentos e perigos de soldado, os quais passei na emancipação da pátria: para a conservação de um cargo público eu não sacrificarei, por tanto, nem a religião do juramento, nem o orgulho que me inspiram as minhas ações passadas.
Pode assim V. S.ª declarar a essa Ilm.ª Camara que o meu lugar de 2º Bibliotecario está vago, para que ela proponha ao governo atual outra qualquer pessoa, que por certo, melhor do que eu, desempenhará as obrigações a ele anexas. Deus guarde a V. S.ª Porto 17 de Setembro de 1836. - Illm.º Sr. Manoel Pereira Guimarães. = Alexandre Herculano de Carvalho.»
 

Passado cerca de um mês, Alexandre Herculano insistia junto do todo poderoso Manuel da Silva Passos (Passos Manuel):
 
 
Exmo.º Sr. Manuel da Silva Passos.
Há um mês que o 1.º Bibliotecário da Biblioteca Pública desta cidade e eu fomos convocados para prestar juramento à Constituição de 1822, que então e hoje, de futuro alterada, felizmente nos regia e rege. Ambos recusamos praticar este ato: procedimento a que, pela minha parte, me levaram as razões que V. Ex.ª verá da resposta que dei, e que remeto inclusa. Foi logo demitido o meu colega, e eu ainda aqui estou esquecido. Não atribuo isto a falta de equidade de V. Ex.ª, porque reconheço a retidão da sua alma e que nem ódio nem afeição seriam capazes de torcer os principios de V. Ex.ª, antes o lanço à conta dos muitos cuidados e negócio que cercam V. Ex.ª no alto cargo em que o colocou o voto unânime da nação e a livre escolha de S. M. a Rainha. Só da minha insignificância me dôo, que fez não ser eu lembrado de V. Ex., que a tantos com mão profusa tem liberalisado a honra da demissão.
Não creia V. Ex.ª, que por este modo a peço: porque nem uma demissão pediria ao governo atual: esta minha carta é apenas um memorandum que levo à presença de V. Ex.ª, como se eu fosse alheio ao caso; porém não indiferente à boa fama e glória de V. Ex.ª.
A Providência não se esqueça de V. Ex.ª nem de nós, como todos precisamos para que Portugal seja salvo.
 
Porto 19 de Outubro de 1836. = Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo.»
 
 
Voltando às comemorações do centenário, na 2ª Feira (23 de Abril de 1910), véspera do cortejo atrás referido, tinham-se iniciado as festas académicas do 1.º Centenário do Nascimento de Alexandre Herculano, no Teatro Príncipe Real, durante as cerimónias que aí tiveram lugar, os presentes assistiriam a uma espantosa oração do grande orador Alexandre Braga.
Em 28 de Abril de 1910, é colocado à venda um folheto (número único) de homenagem a Herculano, pela Comissão de Festas do Centenário, com colaboração de António Carneiro, Abel Salazar, Cristiano de Carvalho, Guerra Junqueiro e algumas outras personalidades em destaque naqueles tempos.
Naquele folheto, comemorativo do primeiro centenário do escritor, Guerra Junqueiro usa o seu proverbial talento retórico para descrever, num texto hoje esquecido, o que a historiografia nacional devia a Herculano:
 
 
«A História de Portugal era um enorme palácio desmantelado, com as janelas trancadas, as paredes fendidas pelos raios (…), e onde ninguém ousara penetrar com medo que desabassem aquelas podres escadarias monumentais, que contavam já setecentos anos de existência. Inspirava terror. Andavam lá dentro lobisomens, aparições lúgubres, fantasmas com sudários (…).
(…) Foi então que apareceu um homem extraordinário – Alexandre Herculano -, que abriu a porta desse pardieiro monumental, que andou lá dentro durante vinte anos consecutivos a levantar as escadas, a limpar os móveis, a abrir as gavetas, a consultar os livros, a erguer as paredes, os tectos, as colunas, e que, depois de um trabalho incalculável, sobre-humano (…), veio à rua dizer com simplicidade aos transeuntes estupefactos: “Podem entrar.”»
 
 
 
 
O 2º Centenário do nascimento de Alexandre Herculano, ocorrido em 2010, em plena actualidade, passaria praticamente ao lado das nossas vidas. Sinais dos tempos!
 
 
“Comemora-se amanhã o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano. Ou, mais exactamente, comemorar-se-ia, se o país que o sepultou nos Jerónimos, ao lado de Camões, não tivesse esquecido o homem que elevou a historiografia portuguesa a disciplina científica e que foi visto, por sucessivas gerações, como uma reserva moral da nação”.
Luís Miguel Queirós, In jornal “Público”, 27-03-2010
 
Em volta das comemorações do 2º Centenário do Nascimento de A. Herculano, no que diz respeito à cidade do Porto, destaca-se uma sessão evocativa promovida pela Cooperativa Árvore e pelo editor José da Cruz Santos que incluiu uma intervenção de Guilherme de Oliveira Martins, uma leitura de poemas pelo actor António Durães e o lançamento do álbum “Cinco Retratos para Herculano”.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

25.100 Camões e Alexandre Herculano evocados pelos Portuenses

 
Tricentenário da morte de Camões
 

As celebrações do 10 de Junho sobreviveram a três regimes políticos. Quase que poderemos dizer quatro, já que esta data — muito acarinhada pelos republicanos — foi evocada pela primeira vez em 1880, no reinado de D. Luís.
Em 10 de Junho de 1880, comemorou-se o Tricentenário da Morte de Camões, em grande parte, devido à iniciativa de Teófilo Braga.
Além do cortejo cívico promovido pela comissão de imprensa que organizou os festejos do tricentenário e para o qual Ramalho Ortigão redigiu o programa que representava o povo e as suas sucessivas conquistas de liberdade, merece também destaque, a entronização de Camões no Panteão dos Jerónimos.
Camões torna-se numa arma ideológica dos republicanos contra o regime e a sua obra-prima, os Lusíadas, transformou-se, então, num poderoso elemento de identificação nacional, contribuindo para um certo sentimento de solidariedade nacional.
Em 10 de Janeiro de 1875, no reinado de D. Luís, fundara-se o Partido Socialista Português (Partido Operário Socialista), figurando entre os seus fundadores nomes como os de José Fontana, Azedo Gneco e Antero de Quental. Aquele partido surgiria na sequência das decisões do Congresso de Haia da AIT - Associação Internacional de Trabalhadores.
Em 25 de Março de 1876, seria legalmente criado, com consentimento do rei D. Luís, o Partido Republicano.
Em 7 de Setembro de 1876, em consequência do Pacto da Granja (S. Félix da Marinha – V. N. de Gaia), fundir-se-iam nessa reunião política, o Partido Reformista e o Partido Histórico que, desde 1871, encabeçavam a oposição ao governo regenerador de Fontes Pereira de Melo, acabando por ser formado o novo Partido Progressista, sob a liderança de Anselmo José Braamcamp.
Em 1878, nas eleições de Outubro, o Partido Republicano apresentou-se pela primeira vez ao eleitorado, conseguindo eleger o deputado Rodrigues de Freitas, pelo círculo do Porto. 
É neste contexto político que, em 1880, se realizam as comemorações do Tricentenário da Morte de Camões, com a presença de republicanos ilustres na comissão organizadora da qual se destaca J. C. Rodrigues da CostaEduardo CoelhoSebastião de Magalhães LimaTeófilo BragaRamalho OrtigãoJaime Batalha ReisLuciano CordeiroRodrigo Afonso Pequito e com o envolvimento do Partido Republicano, verificou-se uma aderência significativa do povo, às teses daqueles republicanos.
D. Luís I e o Partido Progressista, no poder, afastaram-se das comemorações, constituindo a trasladação dos restos mortais de Camões e de Vasco da Gama para os Jerónimos, o seu momento mais alto.


 
Gravura de sátira na qual Camões agradece a ausência dos poderes instalados, o que acabaria por dar mais brilho à presença dos republicanos
 
 
 
A participação da cidade do Porto foi também significativa.
O visconde de Samodães seria o Presidente da Comissão Organizadora e Augusto Luso, o responsável pela parte cultural.
 
 
 
“Em 8 de Março de 1880 – Centenário de Camões: reunião da comissão, sendo eleito presidente o Visconde de Samodães”.
 In “Jornal da Manhã”, 10 Mar.1880, p. 3
 
 
 
“Em 12 de Março de 1880 – Centenário de Camões: reuniu ontem e elegeu para presidente da parte cultural o Dr. Augusto Luso e o drama Camões, de Cipriano Jardim, para lavar à cena no 1.º dia dos festejos”.
 In “Jornal da Manhã”, 13 Mar.1880, p. 2
 
 
Augusto Luso da Silva (Porto, 22 de Fevereiro de 1827 — Porto, 13 de Maio de 1902), mais conhecido por Augusto Luso, foi um professor do Liceu do Porto onde ensinava geografia e o autor de diversos compêndios, adoptados oficialmente, para o ensino daquela disciplina. Era também poeta e um reputado naturalista, especializado em moluscos, possuindo neste âmbito uma importante colecção, cujo catálogo ainda existe, acompanhado pela descrição das espécies, revista por Augusto Nobre.
Foi colaborador de diversos periódicos, entre os quais “O Primeiro de Janeiro” e “O Ensino” escrevendo, principalmente, sobre matérias relacionadas com a educação. Publicou poesia nos periódicos “Lira da Mocidade” e “Grinalda”, este último dirigido por J. M. Nogueira Lima.


 
Crónicas do correspondente no Porto do “Diário Illustrado”, de Lisboa, em 12 de Junho de 1880
 
 
 
O Salão Nobre da Associação Comercial do Porto, começado a construir em 15 de Setembro de 1862, sob o projecto de Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa, seria inaugurado em 12 de Junho de 1880, aquando de uma sessão comemorativa do Tricentenário da Morte de Camões.
 
 
 
Salão Árabe do Palácio da Bolsa – Fonte: “ncultura.pt/”
 
 
 
O Ateneu Comercial do Porto, que ganharia esta denominação em 24 de Março de 1884, ficaria também ligado às comemorações, mas, em 1880, ainda era a Sociedade Nova Euterpe, sita na Rua da Porta do Sol.
Seria, então, criado um busto monumental de Camões, esculpido em apenas 4 dias, da autoria de Soares dos Reis, com a colaboração de Marques de Guimarães, que era ainda aluno da Academia Portuense de Belas Artes.
 
 
 
Camões – Obra de Soares dos Reis
 
 
 
Por ocasião das comemorações do Tricentenário da Morte de Camões, merece referência, o lançamento da obra musical “Hino a Camões” da autoria do afamado músico portuense, Augusto Marques Pinto, com poesia de A. H. Rodrigues Cordeiro.
Aquele músico seria um dos fundadores da Sociedade de Quartetos e da Sociedade de Música de Câmara, de cuja fusão nasceria o Orpheon Portuense.
Teve aquele músico, como discípulos, Bernardo Valentim Moreira de Sá e José Pereira Carvalho, conhecido no meio artístico da época por José Casimiro.
Augusto Marques Pinto faleceria aos 50 anos, em 1888, na sua residência na Rua das Liceiras.
Após o seu funeral, à noite, durante a festa artística ao actor Firmino, que decorreria no Teatro Baquet, aconteceu o incêndio e a tragédia naquele teatro, que enlutaria a cidade.
Quem também ficaria ligado à memória de Camões, seria o negociante de secos e molhados, José Gomes Monteiro (Porto, 2 de Março de 1807; Porto, 12 de Julho de 1879) que, na década de 1830, de parceria com José Barreto Feio, financiou a edição das obras de Camões e, ainda, as de Gil Vicente.
Aliás, José Gomes Monteiro, que esteve exilado na sequência das lutas entre D. Miguel e D. Pedro, foi também grande amigo de Almeida Garrett, a quem ajudou durante o exílio do poeta.
De volta ao Porto, após o triunfo dos liberais, José Gomes Monteiro acabou por exercer, durante vários anos, o cargo de Recebedor da Fazenda do 2º Distrito Fiscal do Porto.
José Gomes Monteiro foi um erudito e tradutor admirável, de que se destaca, neste capítulo, entre muitas outras, a obra “Ecos da Lira Teutónica”, tendo sido, ainda, gerente da Livraria Moré, a partir de um momento em que ela se encontrava num estado um pouco decadente e que, com a sua tenacidade, passou a ser uma das livrarias mais notáveis do País. Muitos escritores, em começo de carreira, tiveram uma ajuda preciosa de José Gomes Monteiro.
Voltando a Camões, um ano antes do golpe que instituiu a ditadura militar em 1926, a I República declarou que a “Festa de Portugal se celebrará no dia 10 de Junho de cada ano”.
O Estado Novo manteve a data como “Festa de Portugal”, elevando-a à condição de feriado nacional em 1929.
Algumas décadas depois, em 1952, aquele dia passaria a ser o “Dia de Portugal”.
Em 1977, com Ramalho Eanes, passaria aquela data para “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas” e, em 1978, a “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.


 
 
O retrato de Camões, por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende


Nos nossos dias, no ano de 1980, comemorou-se o 4º Centenário da Morte de Camões.
No Porto, durante as comemorações foi descerrado um busto do poeta, no início da Avenida Brasil, na Foz do Douro, da autoria de Irene Vilar.

 
 
Camões



(Continua)

domingo, 4 de outubro de 2020

25.99 Quintas com história em V. N. de Gaia


Quinta e Casa de Fiães ou Quinta de Santo Inácio

 
Localizada em Avintes, foi esta propriedade pertença da família Vanzeller, desde 1773, mais propriamente de Pedro Vanzeller (1736/1802). No seu auge, a casa desta quinta emanava todo o romantismo da época.
Os Vanzeller, vindos da Holanda, viviam no Porto e tinham uma vida abastada, ligada ao comércio e à indústria.
Estavam muito ligados à freguesia de S. Nicolau, por aí terem morada, e à confraria sedeada na igreja de S. Nicolau. Os primeiros Estatutos da Confraria do SS. de S. Nicolau foram confirmados em Abril do ano de 1663, e revistos no de 1683.
Entre outras disposições, prescreveu-se que o Juiz seria pessoa nobre e que os irmãos “seriam convocados ao som de campa tangida”.
Inscritos como Juízes ou Mordomos no Tombo da Confraria do SS. de S. Nicolau, no âmbito da família Vanzeller, encontramos:
 
 
1º" Joam Vanzeller, desde 1697 a?;
2º Arnaldo João Vanzeller, desde 1730 a 1740;
3º Pedro Vanzeller, desde 1758 a 1759 e 1784; 
4º João Vanzeller (11), desde 1767 a 1797 e 1799;
5º Arnaldo João Vanzeller (II), desde 1773 a 1774;
6º Henrique Vanzeller, desde 1779 a 1780;
7º Antonio Vanzeller, desde 1780 a 1781;
8º Luiz Vanzeller, desde 1794 a 1795;
9º Francisco Vanzeller, desde 1798 a 1799 e 1818 a 1820;
10º lgnacio Vanzeller Junior, desde 1707 a 1708; 
11º Arnaldo João Vanzeller (III), desde 1808 a 1809 e 1826 a 1827;
12º Ignacio Vanzeller (II), arcediago, desde 1820 a 1821;
13º Roberto Vanzeller, desde 1835 a 1836;
14º Pedro Vanzeller (II), desde 1846 a 1847;
15º João Vanzeller (III), em 1857.
 
O texto que se segue narra um pouco da história da Casa de Fiães ou Quinta de Santo Inácio.
 
 
“A casa entra para o património da família pela morte de Vitória Maria Maynard que, por ter professado, vê-se com Pedro van-Zeller como único descendente. Este passa a utilizar a quinta como local de recreio no período de Abril a Novembro. Pedro van-Zeller é, na altura, um prestigiado comerciante e proprietário no Porto, de uma família que cedo se impõe no panorama industrial nortenho. A viagem desde o Porto era feita por barco, demorando a chegar até à quinta mais de cinco vezes do tempo que actualmente demora o percurso entre Porto e Avintes. A burguesia de então vinha também visitar os van-Zeller, chegando de barco e subindo para um carro de bois para chegar à casa após uma rampa muito acentuada. E na hora da despedida, desengane-se quem pensar que a família acompanhava os visitantes até ao cais do Douro: havia, para o propósito, o «banco da despedida» à saída do portão do bosque, que evitava assim uma longa caminhada até ao rio. Subtilezas de uma família da alta burguesia.
A fachada da casa possui várias janelas envidraçadas no primeiro andar e, em baixo, várias portas que dão entrada para os armazéns. Do lado direito, sobressai a capela dedicada a Santo Inácio, onde se rezavam as missas da aldeia sempre que a família estava por lá. De facto, o próprio padre passava a viver na quinta no período de Abril a Novembro, evitando que os van-Zeller se deslocassem à aldeia para assistir à missa. No centro da casa, uma dupla escadaria vinda do primeiro andar desce até ao pátio, um terreiro ou praça privada com três bicas de água. A poente, um bosque de carvalhos plantados geometricamente; a nascente, um jardim francês de camélias plantadas por Roberto van-Zeller, primeiro presidente da Sociedade Agrícola do Porto.”
Cortesia de Álvaro Cúria (2003-02-24)
 


No início do século XIX, Maria Isabel Vanzeller, nascida em Avintes, na Quinta de Santo Inácio, no seio de uma família inglesa, casaria com 17 anos com Pedro Vanzeller e, desde muito nova, era dada a ter preocupações no âmbito da protecção social.
Assim, em determinada fase da sua vida, perante o estado de saúde em que viviam os portuenses, face a um surto de varíola que se tinha instalado no Porto e conhecendo os progressos que, lá por fora, no campo da ciência, iam acontecendo, tratou de adquirir a expensas suas, uma grande quantidade de vacinas que, contra aquele mal, estava a ser experimentada pelo DR. Jenner (1749-1823), que tendo descoberto a famosa vacina, em 1775, só tornou a sua descoberta pública, em 1796, após vinte anos de experiências.
Maria Isabel Vanzeller, aplicou ela mesmo, as doses respectivas das vacinas a quem se quis sujeitar a tal, a partir de 1805.
Já com alguns milhares de vacinas administradas, Maria Isabel Vanzeller, à data, já viúva de Pedro Vanzeller, foi apelidada por pretensos sábios, de curandeira e conduzida ao Aljube, onde ficou detida.
Reagindo à prisão, levou o seu caso ao conhecimento da Academia Real das Ciências, que reagiria como se impunha.

 

“Caiu, em face da desassombrada atitude da Academia das Ciências, o Carmo e a Trindade. 
D. Maria Isabel foi libertada e, logo a seguir, (…) recebia a benemérita senhora, a 22 de Janeiro de 1814, a medalha de oiro daquela instituição científica, o prémio de 30$000 rs em livros e, pouco depois, o diploma de sócia correspondente do Instituto Vacínico.”
N. S., in revista “O Tripeiro” Vª série, Ano VIII

 

Diga-se, a título de curiosidade que, em 1800, já teria ocorrido no hospital da Misericórdia (Santo António) uma experiência de vacinação que não teve sequência, em virtude dos receios de todas as partes envolvidas.
Na Escola Médica naquele mesmo ano foi fundado o Instituto Vacínico.
Em 27 de Abril de 1834, a Sociedade Literária tomou a seu cargo a aplicação da vacinação, estabelecendo um posto na Escola Médica. Até 1839, foram inoculados contra a varíola 2560 indivíduos.
Ainda sobre esta terrível doença, no dia 1 de Outubro de 1902, o governador civil recebeu ordem para tomar o Hospital do Bonfim (Goelas de Pau) que a Misericórdia se negava a abrir e a recolher os doentes atacados com varíola, pois reclamava o recebimento de um subsídio de 1.000$00 rs.
O hospital acabaria por reabrir no dia 8, passada uma semana, e com o conflito, sanado.

 
Casa da Quinta de Fiães
 
 
Sousa Viterbo disse que Roberto Van Zeller trouxe para a casa da Quinta de Fiães, “duas colunas de granito que teriam pertencido à Nobre Porta da Ribeira da medieval Muralha Fernandina”.
 
 
“Sousa Vitervo, Francisco Marques – Nasceu no Porto, a 28 de Dezembro de 1845. Morreu em Lisboa, a 29 de Dezembro de 1910.
Dedicou-se ao jornalismo. O mundo da imprensa já não lhe era desconhecido, pois desde os seus tempos de seminarista, que vinha publicando a sua poesia em jornais e revistas literárias, como O Mundo Elegante (1858-60), Mosaico (1865), Aurora (1867-68), Grinalda (1855-69) – do Porto; o Boudoir (1863-65) – de Lisboa; A Chrysalida (1863-64) e A Folha (1868) – de Coimbra.
Teve uma ligação forte com a imprensa generalista da cidade do Porto, nomeadamente com o Jornal do Porto (1859-1887); o Jornal da Manhã (1872?-1888), do qual chegou a assumir a direcção política; o Progresso Comercial (1873); e o Comércio Português (1876-1887).
Em Lisboa, foi redactor do Comércio de Lisboa (1878-1880?), substituindo Luciano Cordeiro durante os meses em que esteve no Brasil (1879), e assumiu a direcção do Jornal do Comércio (1853-1989) enquanto Eduardo Burnay, seu director, esteve ausente em Paris (1886).”
Cortesia de Rita Correia (2011)
 
 
 
 
Capela da Casa da Quinta de Fiães
 
 
A capela da Casa da Quinta de Fiães é dedicada a Santo Inácio de Loyola, com uma pintura a óleo deste santo, representando o milagre da Virgem, quando lhe apareceu, e imagens de S. Francisco Xavier.
 
 
 
Jardim da Quinta de Fiães – Cortesia de Manuela Ramos
 
 
 
Camélias na Quinta de Fiães
 
 
 
Texto extraído de “portoarc.blogspot.com/” – Cortesia de Rui Cunha
 
 

“Propriedade da família Van Zeller a partir do último quartel de setecentos, a Quinta está ligada à história da horticultura portuense desde Francisco Van Zeller (1774-1852), responsável pela introdução oficial, entre 1808 e 1810, das camélias no nosso país, trazidas justamente para a Quinta de Fiães, onde ainda hoje podem ser admiradas. Além das camélias, os jardins de Fiães, exemplarmente recriados há poucos anos aquando da abertura da Quinta ao público, incluem roseirais e mixed-borders no jardim formal e, no jardim romântico, uma grande colecção de azáleas e rododendros. Na transição entre o jardim romântico e o bosque destacam-se alguns raros eucaliptos monumentais plantados por Roberto Van Zeller (1815-1868), entre eles um dos maiores Eucalyptus obliqua do nosso país. Desde cedo se revelou o interesse desta família pela Natureza. Foi pelas suas mãos, e acompanhado pelo ilustre portuense Alfredo Allen, que se organizou a primeira feira agrícola internacional em Portugal, no ano de 1857.”
Cortesia de Rui Cunha (24 de Maio de 2013)

 
 
Eucaliptos centenários, com mais de 45 metros de altura, plantados c. 1870 – Cortesia de Manuela Ramos.
 
 
 
 
A 10 de Junho de 2000, o Zoo Santo Inácio abriu as portas ao público. Neste parque, vivem mais de 200 espécies de animais exóticos.
 
 
 
 
 
Quinta das Devesas ou Quinta do Conde das Devesas
 
 
A Quinta das Devesas situa-se na freguesia de Santa Marinha, na Rua Leonor de Freitas, entre os armazéns do Porto Barros, a nascente, a ribeira de Azenhas ou de Santo Antão, a poente, e a Estação das Devesas, a sul.
Vários autores referem que, em 1601, a propriedade estava nas mãos do “abade de Valbom, padre José Garcês”.
Pinho Leal, de acordo com parágrafo abaixo, na sua obra “Portugal Antigo e Moderno…” dá a propriedade como pertencente, na primeira metade do século XVIII, à família dos condes da Arrochella (entre 1738 e 1744), sendo D. Manuel da Cruz Faria, enquanto pároco da freguesia de Santa Maria Madalena do concelho de Provezende, oriundo, contudo, da Casa das Devezas.

 
 


 
 
 
O capitão Manuel de Freitas de Faria, pai de Thomazia Josefa de Faria, na segunda metade do século XVIII, já era dado como senhor da Casa das Devezas, propriedade, cuja mata, se estendia até ao local onde se instalaria, mais tarde, a estação ferroviária das Devesas.
D. Thomazia casaria com Leonardo da Cunha Godinho, de cujo enlace, não resultariam quaisquer descendentes.
Herdaria depois a propriedade, c. 1779, José de Freitas Faria, que a deixou a sua mulher, D. Leonor Luísa de Freitas (cujo nome seria, mais tarde, atribuído à rua que limita o Parque da Quinta das Devesas a norte) que, por não ter filhos, a deixou a uma sobrinha, D. Mariana Vitória Pinto (1798-1872) que se casaria, por sua vez, com António Borges de Castro (1814-1884) que, tendo enviuvado, ficaria como único proprietário da Casa das Devesas.
Esta última personagem, para além de ter sido presidente da Câmara de Gaia, entre os anos de 1856 a 1857, foi também o primeiro e único visconde das Devesas, por decreto real passado por D. Luís, no ano de 1879.
Sem descendentes, os bens do visconde das Devesas passaram para a sua sobrinha, D. Maria da Conceição Bandeira de Castro, casada, por sua vez, com Francisco Pereira Pinto de Lemos, a quem foi atribuído o título de conde das Devesas por parte do rei D. Carlos, no ano de 1890.
 
 
 
Texto extraído da obra “Portugal Antigo e Moderno…” de Pinho Leal
 
 
 
Calótipo (editado) de Frederick W. Flower da Quinta das Devesas, em meados do século XIX, presente num quadro informativo do actual Parque municipal da Quinta das Devesas – Fonte: “gaiarevelada.blogspot.com/”
 
 
 
Na imagem anterior, a seta branca assinala os armazéns do Vinho do Porto, ainda existentes, na actual Rua Serpa Pinto, enquanto a seta amarela identifica a capela, junto do antigo solar.
 
 
 
 
Calotipo de Frederick William Flower, da Quinta das Devesas, c. de 1853, extraído do livro "Ensaio sobre as Camélias" de Nuno Gomes Oliveira – Fonte: “gaiarevelada.blogspot.com/”
 
 
 
Na imagem acima, ao longe, vê-se a cidade do Porto.
À data daquela impressão fotográfica, após uma visita, em 1857, o francês Olivier Merson, escrevia:
 
 
“…O Porto está ligado com Vila Nova de Gaia por uma ponte suspensa; navios de todas as nações enchem o porto; desde a base até ao cume das colinas desenham-se ruas a prumo, escadas cortadas na rocha; o Douro desaparece num fundo obscuro; nas duas margens, rochedos inacessíveis, à maneira de bastidores, fazem sobressair o motivo principal do quadro, e tudo isto, visto em distância, é de um efeito majestoso. Como decoração de teatro, como mise-en-scéne, é imponente, imenso, grandioso…”.
In O Tripeiro, Volume 3, (1/10/1912)
 
 
Ponte Pênsil D. Maria II
 
 
 
“Ao contrário do que se possa pensar, os títulos "conde" e "visconde das Devesas" não têm origens antigas e não pertenceram a uma única família. São, na verdade, títulos concedidos pelo rei de Portugal, no século XIX, a duas diferentes famílias de Vila Nova de Gaia, em reconhecimento dos benefícios económicos prestados à cidade e do país. O título de visconde das Devesas foi criado por D. Luís, em 1879, a favor de António Joaquim Borges de Castro, 1.º (e único) visconde das Devesas, nascido na Feira, em 1814 e falecido na Quinta das Devesas em 1884; como não teve descendência, a Quinta acabou na posse da sua sobrinha D. Maria da Conceição Bandeira de Castro e Lemos, que viria a casar com o 1.º conde das Devesas, título criado em 1890 do rei D. Carlos. Usaram este título:
1º conde das Devesas: Francisco Pereira Pinto de Lemos (1849-1916).
2º conde das Devesas: Alfredo Pereira Pinto de Lemos (1875-1945).
3º conde das Devesas: Ernâni Carlos Pereira Pinto de Castro e Lemos (1876-1965).
O 3.º conde das Devesas não teve descendentes e legou os seus bens à Misericórdia de Gaia, com usufruto para as cunhadas, a última das quais faleceu no solar em 1976, ficando a propriedade ao abandono até 2012. Em 2009 veio a ser acordada entre a Misericórdia e o Município uma solução urbanística para a quinta, que previa a entrega do solar e da sua zona adjacente a Câmara Municipal de Gaia.
O Conde Alfredo, homem profundamente religioso e sempre pronto a auxiliar os mais desfavorecidos, envolveu-se no movimento iniciado no dia 27 de novembro de 1928 pelo Notário Miguel da Silva Leal Júnior e por outros bons gaienses, para a criação da Misericórdia de Gaia. E quando a 26 de junho de 1929 a Misericórdia foi, oficialmente, constituída, os seus pares quiseram que fosse o Conde Alfredo a ocupar o lugar de Provedor.
Tinha então 54 anos e, durante mais sete, até 1936, ocupou esse cargo, tendo desenvolvido uma tarefa extremamente valiosa, para que fosse devidamente consolidada a vida da jovem e, então, ainda frágil instituição.
Por falecimento dos progenitores Conde Francisco e Condessa D. Maria da Conceição, herdaram os três filhos – Alfredo, Ernani e Jorge – em partes iguais, o património da família, de que era a parcela mais valiosa a chamada Quinta das Devezas, também então conhecida por Quinta do Estado, situada em Vila Nova de Gaia, onde a família tinha o seu solar.
Esta propriedade tem a sua entrada principal na Rua D. Leonor de Freitas, junto às instalações da firma Barros, Almeida & C.a. – Vinhos S.A. e era constituída por uma casa apalaçada, de dois andares, capela, anexos, jardim, estufas, pomares, hortas, adegas, casa para gado e terras de lavradio e de vinha, com uma área de 101.500 metros quadrados.
Graças à benemerência desta magnífica família, a referida Quinta é propriedade da Misericórdia de Gaia. Esta passagem realizou-se de forma faseada:
Por legado em testamento do Conde Ernani Carlos Pereira Pinto de Castro Lemos, falecido a 2 de agosto de 1965, da terça parte desta propriedade.
Por doação feita no dia 8 de março de 1966, pelas Senhoras D. Camila Machado dos Santos Castro Lemos, viúva do Conde Alfredo, falecida a 20 de maio de 1967, e de D. Maria Amélia Feio de Oliveira Leite Castro Lemos, viúva de Jorge Pereira Pinto de Castro Lemos, falecida a 14 de fevereiro de 1971, das outras duas terças partes de que eram pertença das mesmas, deduzidas de uma parcela de 21.206 metros quadrados, que as doadoras reservaram para si. Estas doações, segundo os termos da escritura, foram feitas pelo facto de ambas desejarem contribuir para “os altos fins de assistência a que se dedica a Misericórdia de Gaia”.
Na altura da morte da última das senhoras, em 1971, a Misericórdia tornou-se proprietária da Quinta das Devezas.
Entretanto, para homenagear os dadores, a Misericórdia construiu um magnífico lar para idosos, que foi inaugurado no dia 4 de julho de 1992, a que deu o nome de Lar Residencial Conde das Devezas, atualmente designado de Residências Seniores Conde das Devezas.
Fonte: “scmg.pt/historia”
 
 
No início da segunda metade do século XIX, o antigo solar foi renovado, adquirindo o aspecto que ainda hoje mantém.
Na fotografia seguinte, é possível observar-se o aspecto que a casa tinha antigamente.
 
 
 
Escadaria principal do solar da Quinta das Devesas – Cortesia Alexandre Silva
 
 
 
Capela (em ruínas) do solar da Quinta das Devesas – Cortesia Alexandre Silva
 
 
Fachada principal do solar da Quinta das Devesas – Cortesia Alexandre Silva
 
 
Presentemente, com o antigo solar da quinta, em ruínas, os seus jardins foram transformados no “Parque da Quinta das Devesas”, um equipamento municipal aberto ao público. 

 
 
Painel existente no Parque da Quinta das Devesas
 
 
 
Entrada do Parque da Quinta das Devesas. Em primeiro plano, as instalações da firma Barros, Almeida & C.ª

 
 
Pequeno lago com escultura na Quinta das Devesas – Cortesia de “gaiarevelada.blogspot.com/”
 
 
 
Lago e ponte da Quinta das Devesas – Cortesia de “gaiarevelada.blogspot.com/”



 
Quinta do Marques Gomes ou Quinta do Montado
 

A Quinta de Marques Gomes, também referida como Quinta do Montado, localiza-se na freguesia de Canidelo, no concelho de Vila Nova de Gaia.
Situada na margem esquerda do rio Douro, constitui-se numa vasta propriedade de 36 hectares e o seu palacete, uma ampla edificação, com 37 salas distribuídas entre o rés-do-chão e dois andares, cercado por árvores e um jardim. No interior tem tectos lavrados e paredes ornamentadas com frescos.
O autor do projecto foi o engenheiro António da Silva que, na transicção para o século XX, ficou ligado a projectos icónicos encomendados por membros dos grupos mais dinâmicos da estrutura industrial e comercial do Porto, de que se destaca o Palacete dos Andresen, na Avenida de Montevideu e, ainda, um já desaparecido chalet, situado junto de um viaduto ferroviário (do qual hoje só o conhecemos, apenas, por algumas fotos) e que se localizava próximo do Largo de Cadouços.

 
 
Palacete do Marques Gomes
 
 
Depois da revolução de Abril de 1974, o espaço albergou o Centro Popular de Canidelo e posteriormente a CerciGaia.
A propriedade passou, recentemente, pelas mãos de um fundo imobiliário que visava nela implantar um projecto de arquitectura da responsabilidade do gabinete Barbosa & Guimarães, autores, entre outros projectos, do edifício sede da Vodafone, na Avenida da Boavista.
 
 
“A propriedade encontra-se hoje em mãos da Espírito Santo Fundos Imobiliários (Banco Espírito Santo) que apresentou um projeto que previa a construção de 1.100 casas ocupando uma área de 148 mil metros quadrados. Este ambicioso projecto construtivo gerou muita polémica, levando a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte a chumbá-lo. Por acordo com a "Gaia Polis" e a Câmara Municipal de Gaia, a entidade promotora acabou por aceitar uma redução em dois terços da capacidade construtiva.
Para além disso, prevê-se preservar 100 mil metros quadrados de espaço verde que, cedidos à autarquia, irão permitir a criação do Parque Urbano do Vale de São Paio.”
Fonte: “pt.wikipedia.org/”
 
 
 
Há cerca de um ano, a propriedade foi comprada pela United Investments Portugal, que ali pretende realizar um investimento de cerca de 200 milhões de euros, a concretizar em várias fases nos próximos "cinco e sete anos", num projecto que inclui um "boutique hotel com uma marca internacional" e também uma "forte componente residencial".
 
 
Palacete do Marques Gomes - Cortesia de “ruinarte.blogspot.com/”
 
 
 
 
Manuel Marques Gomes (Canidelo, 15 de Novembro de 1867 — Canidelo, 18 de Janeiro de 1932) foi um homem de negócios e benemérito.
Filho de pescadores, nasceu pobre, tendo vivido os primeiros anos da sua vida com grandes dificuldades. Teve, no entanto, a sorte de ter despertado a atenção de uma senhora de posses que o retirou da rua e lhe deu educação. Em 1885, com dezoito anos, partiu para o Brasil.
No Pará, ingressou na firma comercial Nunes & Almeida Ld.ª que, em pouco tempo, se iria transformar em Marques Gomes & C.ª.
Importava aguardente, café e açúcar por grosso.
Conheceu, então, Rosalina dos Santos, brasileira com pais portugueses da Figueira da Foz, com quem se casou. Graças também à fortuna da família da mulher, os negócios de Marques Gomes foram crescendo, criando com outros sócios a Empresa de Navegação do Grão-Pará.
Problemas de saúde acabaram por ditar o seu regresso a Portugal, em 1890. Apesar da fortuna acumulada, Manuel Marques Gomes continua a actividade mercantil, na firma exportadora de vinhos Bento Cunha & C.ª, em Matosinhos.
Pai de treze filhos, adquiriu a Quinta do Montado — hoje mais conhecida como Quinta de Marques Gomes —, na Alumiara, Canidelo, Vila Nova de Gaia, começando a construção de um palacete. À volta do seu palacete mandou plantar uma frondosa floresta, com árvores únicas na região, importadas do Brasil. Na sua quinta, ergueu também uma fábrica de conserva do peixe. Investiu, ainda, em fábricas de cerâmica e em armazéns de vinhos do Porto.
Na sua terra natal, apoiou obras paroquiais, financiou o prolongamento da rede eléctrica até à freguesia, construiu o Apeadeiro de Coimbrões, uma escola primária (já demolida), o campo de futebol do Sport Clube de Canidelo, diversas ruas e estradas, etc. Foi, também, financiador do Clube Euterpe.
Faleceu em 1932, com 65 anos de idade, tendo os seus treze filhos se envolvido em disputas quanto à herança.
Abandonada, por isso, a propriedade e o palacete, há muitos anos, a ruína deste levou, a que nos últimos anos, o associem a uma lista de lugares assombrados na região, tendo a vegetação tomado conta do edifício que, entretanto, foi pilhado e incendiado.
Na obra literária “Histórias de um Portugal Assombrado”, Vanessa Fidalgo, faz o seguinte relato:
 
 
«”Saiam daqui, vão-se embora!” – vociferou uma voz metálica e grotesca assim que os elementos da equipa de investigação de fenómenos paranormais Team Anormal passaram um registo de EVP pelo software de limpeza de ruídos. A gravação fora feita poucas horas antes, no interior do Palacete de Marques Gomes, uma antiga mansão abandonada e prostrada aos pés do rio Douro, na margem de Vila Nova de Gaia [...] era a prova de que “as almas do outro mundo existem e andam por aí!”»

 
 
Entrada da Quinta do Montado – Cortesia de “timeout.pt/”