quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

(Conclusão)


Romaria ao Senhor da Pedra


A capela do Senhor da Pedra situa-se na praia de Miramar, na freguesia de Gulpilhares, no concelho de Vila Nova de Gaia. Esta capela foi construída em 1686 sobre um rochedo, tem um formato hexagonal e possui um Altar-mor.
É aqui, que todos os anos acontece uma concorrida romaria, no Domingo da Santíssima Trindade até à 3ª Feira seguinte.
Aquele Domingo é o que sucede a um outro chamado de Pentecostes que ocorre 50 dias depois da Páscoa.



“É considerada um local de culto e peregrinação. Anualmente, nesta praia, é realizada uma romaria ao Senhor da Pedra. Esta festa remonta de uma tradição muito antiga e é realizada no domingo da Santíssima Trindade e prolonga-se até à terça-feira seguinte. Reza a lenda que quando os habitantes de Gulpilhares se preparavam para construir uma ermida ao Senhor da Pedra, no terreiro conhecido por arraial, era frequente aparecerem sobre os rochedos junto ao mar uma certa luz.
Todas as noites essa mesma luz misteriosa reaparecia fazendo os habitantes acreditar que seria um sinal do Céu.
Por este motivo, desistiram da construção da ermida no arraial e resolveram construir a capela no sítio onde a luz costumava aparecer, ou seja, em cima de um rochedo à beira-mar.
Nesse rochedo, atrás da capela, existe incrustada uma marca semelhante a uma pegada de boi.
Os habitantes desta terra acreditam ser de um boi bento (boi que afagava o menino Jesus na manjedoura)”.
Cortesia de “radioportuense.com”



Capela do Senhor da Pedra



Romaria do Senhor da Pedra em 1918



"A festa dedicada ao Senhor da Pedra, na freguesia de Gulpilhares, em Vila Nova de Gaia, merece um destaque especial, tanto pelo local em que decorre, como pela grande devoção de que terá sido alvo no passado. O local da festa é uma capela de planta hexagonal erguida sobre um rochedo batido pelo mar na praia de Miramar. A capela que lá está agora data mais ou menos da época do rei D. João V, mas o local em que ela se ergue foi objecto de remotas crenças pagãs. Antes da capela actual, é de admitir que outros templos, pagãos e cristãos, tenham existido naquele rochedo.
Só o próprio facto de uma capela se erguer num local tão junto ao mar, sem que seja destruída por este nos dias de maior temporal, já parece um milagre. Não admira, por isso, que ela tenha sido o centro de um fervoroso culto.
A importância que a romaria ao Senhor da Pedra teve no passado é testemunhada pela existência, num raio de muitos quilómetros em redor, de cantigas de romaria que lhe são dedicadas. Há cantigas ao Senhor da Pedra em localidades como Cinfães e Paredes, entre muitas outras. Quer isto dizer, portanto, que acorriam às festas do Senhor da Pedra muitos romeiros vindos de muito longe, que formavam ranchos e rusgas e iam a pé pela estrada fora, cantando, dançando e tocando bombos, ferrinhos, cavaquinhos, concertinas, rabecas, violas ramaldeiras e braguesas, etc.". In blog A Matéria do Tempo



Senhor da Pedra em 1912 – Fotograma editado da Cinemateca



Capela do Senhor da Pedra em 2009


À entrada da capela, de cada lado, existem dois painéis de azulejos com as seguintes inscrições:

Painel do lado esquerdo – ” O local onde se levanta esta capela do senhor da pedra é certamente o mais antigo lugar de culto da freguesia antes de nele se celebrar a Cristo seria altar pagão” ;
Painel do lado direito – “A origem do grupo populacional de Gulpilhares remonta a maior antiguidade como bem se demonstra com o notável espólio arqueológico que nesta região tem sido achado”.



Painel de azulejos na entrada, à direita


Painel de azulejos da capela do Senhor da Pedra com datas de referência


Presentemente, para além dos dias consagrados à romaria, são na generalidade conhecidos relatos estranhos sobre visitas à capela e levadas a cabo nas suas traseiras, práticas bizarras que prenunciam actos de bruxaria e feitiçaria.


Vista aérea da Capela do Senhor da Pedra



“Ainda mal repousados das fadigas recentes, já se dispõem para nova peregrinação os romeiros do devoto Senhor da Pedra, cuja imagem se venera na respectiva capela erecta à beira-mar, dentro dos limites da freguesia de Gulpilhares.
É um nunca acabar de romarias, desde que lhes abre a porta, de par em par, o venerado S. Salvador de Quebrantões, até que a fecha a Senhora do Rosário, de S. Cosme de Gondomar.
As romarias constituem toda a alegria e distracção deste bom povo, que gosta de folgar por festas e arraiais para poder recomeçar, com mais ardor, no dia seguinte, a labutação donde aufere os recursos com que se ampara a si e aos seus.
Os romeiros de S. Salvador, pode dizer-se que são os do Senhor de Matosinhos, Senhor da Pedra e outras festas de oragos.
Da romaria do Senhor da Pedra derivam mais dois arraiais que são o da Raza e o das Devezas.
Para estes dois sítios vai de tarde muita gente, aguardando o regresso dos romeiros”.
In “Jornal do Porto” de 7 de Junho de 1873 - Sábado


O texto seguinte descreve a romaria do Senhor da Pedra em 1877.


“É amanhã domingo, 27 de Maio, a festa ao Senhor da Pedra.
O sítio da romaria é um extenso areal onde dardeja, de manhã à noite, um sol metálico, candente, capaz de fundir as pedras, sem uma sombra benéfica; há apenas o resguardo dos pavilhões de lona das tendas volantes que abrigam numerosas pipas de vinho, montes de pescado frito, que chia, de salsichas, de frangos, de caldeiros de arroz amarelo e outros víveres componentes destes regabofes populares.
As padeiras de Valongo alinham os seus enormes canastrões cheios de pão, tendo ao lado as mulas presas pelo cabresto e dando ao local o aspecto dum grande acampamento, vivacando.
Vareiras morenas e de olhos negros, com as suas cântars de água fresca, fervilham por entre a multidão sequiosa e as camponesas de Valadares e de Andorinho, exemplares de formusura e saúde sem confeição, oferecem pequenos encanastrados, forrados de alvíssimo linho, as laranjas e os mais rubicundos morangos do tempo.~
Aparecem a scerejas, as frutas da novidade, os doces de Paranhos, que parecem seixos, na moleza, os pães doces de Coimbrões e Avintes, chamados velhotes, as cavacas de Arouca, os doces de Milheiroz, que figuram burrinhos, aves, cães, vasos e leques.
Os pescadores do litoral atacam as famosas caldeiradas de peixe, que ali mesmo cozinham e comem.
Os romeiros espetam nos chapéus as estampas da imagem milagrosa e ramos de camarinhas, brancas como pérolas, e chamadas bagos de orvalho; com as jaquetas traçadas a tiracolo, inundados de suor, não sentindo o calor nem o vento de areia, dançam heroicamente todo o dia, esgadanhando na viola e fazendo enrouquecer as cantadeiras, as mais afamadas, que vêm de longe, contratadas para a festa.
Ao meio-dia sai a procissão arrostando intrepidamente um sol a prumo.
Na segunda-feira há corridas de cavalos sobre a areia; os “jockeys”não trajam jaqueta de setim, são os próprios donos, com os seus grossos jaquetões, hercúleos, pesados, valentes.
É uma romaria muito pitoresca e notavelmente concorrida e uma das que a classe média do Porto mais ama. A cidade costuma despejar-se e nas aldeias vizinhas não fica em casa, nesse dia, fôlego vivo, porque tudo quer ir ver a Pégada milagrosa que está gravada narocha, onde se ergue a capelinha, como um ninho de águia em frente da amplidão do mar e fitando o astro-rei que campeia no espaço infinito.
Mas aquela alegria imensa e ruidosa tem um lado repugnante, costuma ser cortada por vozes lancinantes dos mendigos que ali acodem de pontos longínquos.
Manetas, mancos, cegos, leprosos, aparecem ali em burros lazarentos, também dignos de comiseração, vê-se a morfeia, a elefância, as herpes, a gota, todas as excrescências cancerosas, todas as mutilações, todas as contracções, todos os defeitos do organismo, com grande cortejo de horrores”.
In jornal “O Commercio Portuguez” de 26 de Maio de 1877


Para ajudar ao esforço da caminhada, os romeiros costumavam cantar muitas músicas folclóricas, em que uma das quadras era:

Bendito o Senhor da Pedra
Bendito sempre sejais
Não tenho nada de meu
Oh Senhor tanto me dais

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

25.74 Duas Romarias que dizem muito aos portuenses


Santa Rita (Formiga) e a Quinta da Mão Poderosa

Desde o século XIX, que os romeiros demandam Ermesinde, em Maio, para assistirem e participarem nas festividades que têm subjacente a veneração a Santa Rita de Cássia.
Santa Rita de Cássia foi uma monja agostiniana da diocese de Espoleto, em Itália.
Nascida como Margherita Lotti, em 1381, e falecida a 22 de Maio de 1457, em Cássia, são-lhe atribuídos vários milagres, tendo a Santa Sé instituído a sua beatificação em 1900.



“Na capela da Formiga teve lugar no domingo, 24 de Maio, com muita pompa, a festividade de Santa Rita.
Houve arraial de tarde, onde, apesar da chuva que caía, afluiu bastante gente desta cidade e aldeias”.
In jornal “O Noticiador Portuense” de 26 de Maio de 1857


“No Convento da Formiga realiza-se nos próximos domingo e 2ª Feira, 22 e 23 do corrente, a grande romaria a Santa Rita de Cássia, muito venerada pela população nortenha como advogada do impossível e por isso de muito especial devoção dos bravos pescadores que, na hora das suas aflicções em alto-mar, a ela recorrem em suas preces.
Haverá arraial com vários atractivos”.
In “Jornal de Notícias” de 19 de Maio de 1949



“A Igreja de Santa Rita ou Igreja de Santa Rita da Mão Poderosa localiza-se na freguesia portuguesa de Ermesinde, concelho de Valongo, distrito do Porto.
Começou a ser construída na segunda metade do século XVIII, a primeira pedra foi colocada em 1749. É de estilo barroco.
Está ladeada por duas torres sineiras e o seu pórtico é rematado por um frontão triângular interrompido por um nicho barroco onde está colocada a imagem de São Pedro. No interior da Igreja, destaca-se a excelente talha dourada nas capelas laterais, no altar-mor e na estatuária religiosa.
O Santuário de Santa Rita em Ermesinde é um dos santuários do Norte de Portugal mais visitados e alvo de peregrinação. Esta santa é alvo de grande devoção na cidade e também em todo o país.
A romaria de Santa Rita realiza-se no segundo Domingo de Junho. A imagem de Santa Rita localiza-se no interior da igreja do lado direito. O dia de Santa Rita celebra-se a 22 de Maio. Santa Rita é conhecida como a santa dos casos impossíveis”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”



Igreja de Santa Rita em Ermesinde



Colégio da Formiga - Convento dos Eremitas de Santo Agostinho

«Data dos princípios do Sec. XVIII a primeira referência à “Quinta da Mão Poderosa”, em S. Lourenço de Asmes, hoje Ermesinde. Era pertença de Francisco da Silva Guimarães, negociante do Porto, e o conjunto mais notável seria a casa e ermida dedicada a N.ª S.ª do Bom Despacho, provavelmente situada no local onde se ergue o convento.
 Em 1745, Francisco da Silva Guimarães e a sua mulher fazem doação da propriedade aos Eremitas Descalços de St.º Agostinho para fundarem uma igreja e convento ou hospício com a denominação de N.ª S.ª do Bom Despacho da Mão Poderosa. A escritura fora lavrada no Porto a 6 de Julho no mesmo ano, tendo como outorgantes os doadores e Dr. Frei José do Nascimento, como procurador do Rev. Pe. Mestre Dr. Frei António da Anunciação, Vigário Geral da Congregação.
 A doação fora impugnada por parte do senhorio direto, Francisco Aranha Ferreira, que se recusava a vender-lhes os seus “direitos dominicais”. Foi preciso recorrer a D. João V, de quem doadores e religiosos alcançaram a necessária provisão em 19-4-1747. Não esqueceram os religiosos o favor do Rei, alcançado certamente por sua esposa D. Maria Ana, filha do Imperador Leopoldo I, mandando colocar na frontaria da Igreja e noutros locais do Convento a águia bicéfala e as armas imperiais da casa da Áustria.
Em 1842 foi arrematado em hasta pública por José Joaquim da Silva Pinto. Nesta data funciona no antigo convento um colégio para as famílias Miguelistas que não puderam emigrar. Diz-se que os alunos usavam um emblema com uma formiga, recordando o provérbio da Sagrada Escritura “Vade ad formicam, piger, et disce sapientiam”, e daí a designação do Colégio da Formiga. Este Colégio terá encerrado em 1848, ficando o edifício vago durante vários anos.
 Em 1867 é arrematado em hasta pública por Manuel Francisco Cidade. Por seu falecimento em 1875, ficou a pertencer a sua filha D. Margarida Duarte Cidade, que veio a casar com José Joaquim Ribeiro Teles.
 Em 1877, Frei João de Santana Gertrudes transfere para o antigo convento a secção masculina do Colégio de Paço de Sousa.
Em 1878, o Pe. José Rodrigues Cosgaya, emigrado político de Espanha em 1868, toma conta do Colégio.
Em 1886, o mesmo Dr. Cosgaya renova o contrato de arrendamento do antigo convento com validade até 1900.
No entanto, em 1894 instalou-se no antigo convento a Congregação do Espírito Santo. Nesta altura o Colégio do Dr. Cosgaya, denominado Colégio da Formiga, passaria a funcionar num edifício próximo: “Colégio do Rego de Água”
Cortesia: “colegiodeermesinde.com/”


O primeiro proprietário da quinta da “Mão Poderosa” foi o negociante Francisco da Silva Guimarães, morador às Hortas, e falecido em 1756.
Entre outros, tinha negócios de exportação de vinhos para o Brasil.
Aquando da doação, o casal doador deixou expresso que eles e seus descendentes, seriam sepultados na Igreja, a erguer e na qual seriam rezadas duas missas diárias, enquanto “o mundo for mundo” pelas suas almas.
Os Eremitas Descalços de Santo Agostinho (Grilos), à data da doação, estavam no Porto, pelo campo de Santo Ovídio, pois ainda não se tinham instalado na Sé, na Igreja de S. Lourenço que, poucos anos mais tarde (1780), seria por eles ocupada pelo abandono forçado dos jesuítas e pela sua compra à Universidade de Coimbra.


“Primeiro seriam construídos os Dormitórios do Convento, sendo posteriormente erguida a Igreja (1749), sobre as ordens do Frei António da Anunciação, doutor de Teologia e professor da Rainha D. Vitoria. Não admirando por isso que entre as várias doações e legados que permitiram a construção desta Igreja, se destaque, o real patrocínio desta rainha, cujas armas para sempre ficaram gravadas no templo.
A Igreja seria dedicada à Beata Virgem Maria, mas com invocação à Nossa Senhora do Bom Despacho. Aparece também desde o início a referência da Santa Rita de Cássia, que desde sempre foi venerada por esta Congregação e cujo nome sobrepôs o da invocação.
Nas lutas liberais, entre D. Pedro IV e seu irmão D. Miguel, quando ocorreu o cerco à cidade do Porto (1832-33), este Convento serviu de Hospital de sangue, para o exército absolutista. O próprio D Miguel esteve aqui várias vezes, em visita às suas tropas. No Adro da Igreja foram depositados, em vala comum, inúmeros soldados de mortos durante esta guerra civil.
O volumoso imóvel de Santa Rita, surge flanqueado por duas torres sineiras, bem proporcionadas e discretas, enquadrando um frontispício marcado pela sobriedade de linhas. O pórtico rematado por frontão triangular interrompido, é encimado por um nicho barroco, onde está uma imagem pétrea representando a Padroeira.
Adossada à esquerda do templo surge a antiga estrutura monástica, de planta quadrangular. Temos acesso à outrora conventual Igreja, por uma bem delineada escadaria fronteira.
Importante centro de culto, esta Igreja, ainda hoje, como no passado, é local onde convergem todos os domingos centenas de peregrinos, a prestar culto à Santa Rita e a cumprir as suas promessas.”
Fonte: “www.jf-ermesinde.pt”



Colégio da Formiga - Cortesia: “colegiodeermesinde.com/”



Texto de Júlio César Machado, da obra “Scenas da Minha Terra” (1861)



Colégio da Formiga - Cortesia: “colegiodeermesinde.com/”



«Em 1910, com a implantação da República, encerrou o Colégio do Espírito Santo iniciado em 1894 pelos padres dessa Congregação.
Em 1911, no opúsculo “Educação e Instrução”, à laia de propaganda política, é apresentado o antigo convento e ilustrado com diversas fotografias, como “Futuro Instituto Grandella - Escola Guerreiro”.
Em 12-09-1912, Pe. Manuel da Silva Pontes e Pe António Luís Moreira concluem com o seu legítimo proprietário, José Joaquim Ribeiro Teles, o contrato de arrendamento do antigo Convento.
Em 28-12-1912, por despacho do então Presidente da República, Manuel de Arriaga, é deferida a petição de José Joaquim Ribeiro Teles e Pe Manuel Moreira Reimão de criar “um instituto particular de ensino secundário em Ermesinde, sob a denominação de COLÉGIO DE ERMEZINDE” – Alvará N.º 712.
No ano letivo de 1913-14 figuram como diretores Manuel Moreira da Silva Pontes, Dr. António de Castro Meireles, Dr. Gaspar Augusto Pinto da Silva e Manuel Moreira Reimão.  
Em 8-12-1932, José Joaquim Ribeiro Teles faz testamento dos seus bens. Depois de contemplar diversos herdeiros, assim declara na parte final: “Instituo meu único e universal herdeiro de todo o remanescente da minha herança o Exmo. Senhor D. António de Castro Meireles, Bispo do Porto... É meu desejo... que minha propriedade do convento da Formiga seja utilizada em qualquer Seminário ou Colégio, sob a dependência do Exmo. Senhor D. António Meireles, a fim destes bens poderem assim prestar alguma utilidade à Igreja Católica, de quem me prezo de ser filho, pois dela já vieram, e assim úteis à causa de Deus... “.Faleceu o testador em 22-5-1933.
Por escritura de 29-5-1941 são transferidos os referidos bens para a posse do “Seminário Maior de N.ª S.ª da Conceição do Porto” e assim se cumpria a vontade de José Joaquim Ribeiro Teles: da Igreja vieram, para Ela voltam.
Em 1948, Dr. Gaspar Pinto da Silva vende à Diocese os bens mobiliários do Colégio e é indemnizado pela renúncia dos direitos que lhe advinham como arrendatário e como Diretor do Colégio. Da mesma forma foi indemnizado o Diretor Adjunto e professor Dr. Francisco da Silva Pinto.
A partir de 1948 o Colégio passa, assim, a ser propriedade da Diocese do Porto. A entidade Titular é o Seminário Maior de Nª. Sª. da Conceição, da Diocese do Porto. Os seus Diretores são nomeados pelo Bispo da Diocese, seus mandatários e representantes nesta Comunidade Educativa.
Tem como lema Ciência e Disciplina, Liberdade e Responsabilidade, princípios basilares da formação pessoal e integração na sociedade.»
Cortesia: “colegiodeermesinde.com/”


Sobre o texto anterior e sobre a referência ao “Instituto Grandella - Escola Guerreiro”, em 1912, um colégio Guerreiro acaba por ocupar, de facto, o Palacete Sandeman na Rua de Cedofeita.


(Continua)








quinta-feira, 28 de novembro de 2019

(Conclusão)


Comemorações do Centenário da Fundação da Nacionalidade (1140) e do Centenário da Restauração da Independência (1640)


No Porto, em 1940, as festividades alusivas àquelas duas comemorações, centrar-se-iam em volta da Sé Catedral, com uma remodelação geral do espaço existente.
Em frente à Sé, viria a nascer um largo, que é o que hoje existe, e pode ser apreciado. Para isso, foi necessário eliminar algumas ruas e ruelas de um aglomerado habitacional de cariz medieval, e demolir as habitações que impediam essa tarefa. Foi, assim, intervencionada uma área dentro do perímetro do chamado Castelo.
Desapareceram, em sequência, para sempre, a Rua da Senhora de Agosto, a Rua do Paço, a Rua das Tendas e o Largo do Paço Episcopal.
A própria Rua de S. Sebastião viu-se um pouco amputada no seu tamanho.
Pretendeu-se, com a intervenção levada a cabo, a monumentalização do conjunto dos edifícios episcopais, tornando-os mais visíveis.
O facto saliente é que, se aquele objectivo foi atingido, por outro lado, a raiz histórica do lugar perdeu-se, em parte.
Salvou-se a Capela dos Alfaiates, mas num cenário completamente diferente.



Na foto, a placa toponímica que indica o Largo do Paço Episcopal. Ao fundo a Sé – Fonte: AHMP



Largo fronteiro à Sé do Porto (à esquerda) antes de 1940. Ao fundo, o Paço Episcopal e, à direita, a Capela de Nossa Senhora de Agosto (conhecida por Capela dos Alfaiates) que foi transferida, pedra a pedra, para o gaveto entra a Rua do Sol e a Rua de São Luís



Aspeto das demolições no Largo do Paço Episcopal (actual Largo Dr. Pedro Vitorino), para o alargamento do Terreiro da Sé – Fonte: AHMP



Capela dos Alfaiates, na Sé, em 1935



Capela dos Alfaiates no seu lugar actual – Ed. “visitporto.travel”


Alguns anos antes, nas imediações daquele local, e dentro ainda dos limites da muralha sueva, se tinha procedido a uma outra demolição, com a qual, alguns portuenses não concordaram.
Tratou-se do derrube do “Arco de Sant’Ana” e, quem mais se fez, então, ouvir, foi Almeida Garrett.
Assim, em 2 de Junho de 1821, começa a ser demolido, por ordem da Câmara, o velho “Arco de Sant’Ana”, junto à Sé, resultante de um pedido de Manuel Luiz da Silva Leça e António Joaquim de Carvalho.
Tal facto, deixaria indignado Almeida Garrett que se manifesta nos seguintes termos:


“Cahiste pois tu, ó arco de Sant’Anna, como em nossos tristes e minguados dias, vae cahindo quanto ha nobre e antigo ás mãos de innovadores plebeus, para quem nobiliarchias são chimeras, e os veneráveis caracteres heráldicos de rei d’armas Portugal lingua morta, e esquecida que nossa ignorância despreza, hieroglyphicos da terra dos Pharaós antes de descoberta a inscripção de Damieta!
Assentaram os miseráveis reformadores que uma pouca de luz mais e uma pouca de immundicie menos, em rua já de si tam escura e mal enchuta, era preferível á conservação d'aquelle monumento em todos os sentidos respeitável!
Com que desapontamento deste meu coração, depois de tantos annos de ausência, não andei procurando, em vão!... Na rua de Sant’Anna, uma das primeiras que a minha infancia conheceu, as gothicas feições d’aquellé arco? e a alampada que lhe ardia continua, e os milagres de cera que lhe pendiam á roda, e toda aquella associação de cousas, que me trazia á memória os felizes dias de minha descuidada meninice!”
Almeida Garrett


O arco de Sant’Anna estava localizado na rua do mesmo nome, que o adquiriu a partir do século XVIII. Antes, durante a idade média, foi Rua das Aldas e, depois da construção do colégio de S. Lourenço (Grilos), foi Rua do Colégio e amputada de uma porção, na sua extensão.



Arco de Sant’Ana, In revista” O Tripeiro”



Do velho arco de Sant'Ana, actualmente, apenas sobrevive a porta que permitia o acesso ao nicho onde estava a imagem de Sant’Ana com a Virgem e o Menino que, depois da demolição de 1821, foi recolhida na capela de São Crispim.



Local actual do Arco de Sant’Ana – Fonte: “visao.sapo.pt/”



Interior da Sé, em 1910, antes do restauro dos anos 30 do século XX – Ed. Foto Guedes



Sé em 1934 – Ed. Alvão


Entrada da Sé em 1934 – Ed. Alvão



Castelo da Sé e Sé catedral


Durante a nossa 1ª dinastia até ao reinado do D. João I, o Bispo e a Sé, como centros de poder, pontificaram no governo da cidade. A partir daí, com a ajuda do rei, os burgueses puderam, aos poucos, determinar o seu destino.


«Fomos à procura e, no "Corpus Códice", importante documento de leitura obrigatória para quem quiser conhecer a história do Porto, do tempo em que ela era feudo dos senhores bispos, num trecho datado de 1339, em que a Igreja determinava as coimas, ou seja, as multas, a aplicar a quem não cumprisse determinadas regras, nomeadamente as que diziam respeito aos privilégios dos portuenses, lá aparece o seguinte:
"nenhum rico homem, nem rica-dona, nem cavaleiro, não pousará dentro na cerca do castelo e se aí for pousar o dito Senhoria da Igreja lhe fechará "as portas do dito castelo e terá dele as chaves o bispo ou seu mandado".
Também no "Catálogo dos bispos do Porto", escrito em 1623 pelo prelado D. Rodrigo da Cunha (bispo da diocese portucalense entre 1619 e 1627), se abordam as questões que aconteceram entre o austero bispo D. Vasco Martins e os homens do Senado (leia-se Câmara) que tanto agitaram a cidade aí por 1341. Escreveu D. Rodrigo:
"chegou o negócio (os acontecimentos) a termos tais, que em certo alvoroço se juntaram alguns do povo e com mão armada se foram ao paço do bispo apostados em o afrontarem e maltratarem, mas ele, que soube do motim primeiro que os conjurados chegassem à Sé em que assistia a um ofício fúnebre de certa pessoa nobre, se recolheu ao castelo que era a fortaleza da Igreja do Porto".
“Numa das pedras da torre virada a norte, existem dois curiosos elementos escultóricos: um "signum salomonis" (sino saimão) que fica junto ao primeiro gigante; e a figura de uma barca, que os especialistas dizem ser a mais antiga representação iconográfica de uma embarcação que é por vezes identificada como sendo uma coca (esta, de origem nórdica, era utilizada no tráfego costeiro).
Mas há também quem considere aquela figura esculpida no granito como sendo o navio de S. Vicente e ligue a sua existência na referida torre da catedral à lenda de S. Vicente mártir, que é o padroeiro de Lisboa e foi o primeiro padroeiro da cidade do Porto.
A lendária história é conhecida: o diácono Vicente foi martirizado por Daciano, governador de Saragoça e Valência, por ordem expressa do imperador Maximiano. O corpo de S. Vicente, continua a lenda, foi recolhido num barco que, sob a proteção de dois corvos, aportou ao rio Tejo. D. Afonso Henriques trouxe um braço do mártir para o Porto, e S. Vicente foi padroeiro desta cidade de 1173 a 1453.
Foi grande, no Porto, o culto de S. Vicente cuja imagem esteve na capela de Nossa Senhora da Encarnação, também conhecida por capela de S. Tiago, que ficava nos claustros da Sé. A festa a S. Vicente era no dia 22 de Janeiro e tinha como promotores os correeiros, peleiros, caldeireiros e douradores que tomaram o mártir como patrono.
(…) A imagem de S. Vicente está na Sé, no altar de Sant' Ana, no transepto, perto da porta que dá acesso à sacristia, onde antigamente esteve a capela da família dos Alões.
Durante muitos anos, em frente à imagem de S. Vicente, na catedral, esteve sempre acesa, de dia e de noite, a chama de uma lamparina de azeite. Em 1600, foi criado um prazo, segundo o qual um tal Francisco de Carvalho, morador no lugar de Melres, então do extinto concelho de Aguiar de Sousa, que ali tinha um olival, era obrigado a oferecer, anualmente, dois almudes de azeite, que à sua custa tinha a obrigação de trazer a esta cidade do Porto, para que nunca se apagasse a chama votiva no altar de S. Vicente.”»
Cortesia de Germano Silva


A área à volta da Sé, desde sempre, foi a residência das personagens importantes do clero e da burguesia do Porto.
Na rua, que pode dizer-se ficava por trás da Sé e, por isso mesmo, se chamava Rua de Trás da Sé e que a partir de 11 de Outubro de 1919, a Câmara determinou que seria a Rua da Catedral e hoje é a Rua D. Hugo, as casas daqueles burgueses e clérigos de elevado estatuto eram porta com porta, como se vê pela identificação respectiva nas plantas seguintes.



Ocupação dos prédios da Rua de Trás da Sé, para Norte da Capela de Nossa Senhora das Verdades (1) – Planta de Telles Ferreira de 1892



Ocupação dos prédios do troço da Rua de Trás da Sé mais a Norte – Planta de Telles Ferreira de 1892



No fim da década de 30 do século passado, a área fronteira à Sé, onde vivia sobretudo o povo, foi arrasada para dar outro enquadramento à catedral.



Vista aérea do casario fronteiro à Sé, antes das demolições – Crédito a “Estrela Vermelha”



Sé e Paço Episcopal com demolições já a decorrer para abertura do largo em frente à Sé




A meio, a calçada de Vandoma de acesso à Sé. À direita, o Solar dos Correia Montenegro (demolido poucos anos depois)



Uma outra perspectiva da Calçada de Vandoma e da Sé



Rua de Nossa senhora de Agosto (1933), desaparecida com as demolições – Ed. Bomfim Barreiros (AHMP)



Demolições à entrada da Calçada de Vandoma



As demolições efectuadas na Sé com o objectivo de ganhar um largo


Após o arranjo urbanístico acontecido em volta da catedral, a inauguração oficial do Terreiro da Sé seria levada a cabo, a 7 de Junho de 1940, pelo Ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco, Presidente Comissão Administrativa da C.M.P., Mendes Correia e outras individualidades.



Cerimónia de inauguração da nova zona envolvente à Sé Catedral, que seria baptizada como Terreiro D. Afonso Henriques e que, hoje, é o Terreiro da Sé



Na foto acima observa-se a chegada das individualidades, subindo a Calçada de Vandoma, para procederem à inauguração, que ficaria conhecida como o “Acto Medieval”, do novo Largo da Sé, em 1940.
As casas que se veem atrás da comitiva seriam, mais tarde, também demolidas, para abertura da Avenida Afonso Henriques, de acesso ao tabuleiro superior da ponte Luíz I, entre 1947 e 1949.



Inauguração do Terreiro D. Afonso Henriques, hoje, Terreiro da Sé



Perspectiva obtida a partir do Terreiro da Sé, em que se vêm a Torre dos Clérigos, a antiga Torre dos Alões (a meio), a Câmara Municipal do Porto e o falso Pelourinho


E, assim, na cidade do Porto, se comemoraram, de uma vez só, dois centenários.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

(Continuação 2)


Comemorações no Porto do Centenário da morte do Infante D. Henrique


Em 1960, o Porto assistiu às comemorações do 5º centenário da morte do Infante D. Henrique (4 de Março de 1394, Porto - 13 de Novembro de 1460, Sagres), que se realizaram por todo o País.
O ponto alto das comemorações, na cidade invicta, prendeu-se com a inauguração da remodelada Casa do Infante e de outros edifícios a ela anexos e de uma outra inauguração, ocorrida no Largo António Calém, de um monumento dedicado ao esforço que os portuenses desenvolveram na expansão marítima, no tempo do Infante D. Henrique.



Monumento ao “Tripeiro”, de Lagoa Henriques, inaugurado em 1960, no Largo António Calém – Ed. AHM do Porto



Placa colocada no pedestal do grupo escultórico do Monumento ao “Tripeiro”


Aquele monumento, até à sua implantação, teve uma história um pouco atribulada.
Ele teria sido o resultado de um concurso ganho, em parceria, por Lagoa Henriques, Siza Vieira, Augusto Amaral e Alcino Soutinho.
Diz-se que, devido a ser o betão o material proposto para ser utilizado na escultura, a obra teria sido vetada por Oliveira Salazar.
Mais tarde, seria contactado apenas Lagoa Henriques, que foi incumbido para que projectasse e executasse uma obra, mas individualmente.
O escultor começaria de início por recusar a missão, mas por pressão dos seus parceiros, em reunião ocorrida no café Majestic, acabaria por aceitar a tarefa, fazendo uso de um material mais tradicional.
Assim, nasceria a obra “Memória em Louvor da Grei”.
O acto inaugural da «Memória em Louvor da Grei», no Largo de António Calém, com benção do monumento pelo Administrador Apostólico da Diocese do Porto, D. Florentino de Andrade e Silva, ocorre em 27 de Agosto de 1960.
Quanto à denominada Casa do Infante (actual), ela irá surgir da doação pelo Estado, em 1958, de uns armazéns e anexos, à chamada Casa do Infante D. Henrique, sitos na Rua da Alfândega Velha, à Câmara Municipal do Porto, com o objectivo de aí se instalar um museu, e duma outra doação, dos antigos armazéns da Fazenda Nacional, propriedade do Banco Nacional Ultramarino.
É, por essa ocasião que, nomeada uma Comissão, ela se associa à Comissão das Comemorações Henriquinas, e depois de analisarem a situação, é decidido avançar com uma intervenção para as construções anexas e incorporá-las na Casa do Infante.
O arquitecto Rogério de Azevedo, já com o cargo de delegado da “Comissão das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante”, é o escolhido para intervencionar em todo o conjunto arquitectónico.
Até ao início de 1960, estão concluídas as coberturas e feita a consolidação de paredes.
Até ao fim desse ano, a obra vai ganhar contornos definitivos.
Em 20 de Dezembro, são adquiridos os candeeiros.



Casa do Infante, actualmente


Construção da Nau no Cais do Ouro para as comemorações dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique – Ed. Teófilo Rego (1960)



A Nau que foi construída para as “Comemorações do V Centenário da Morte do Infante” (1960), em 2º plano, durante as cheias de 1962



Lançamento à água, no estaleiro do Ouro, em 1960, de uma nau similar às usadas na expedição a Ceuta (1415)



Cortejo Fluvial. Chegada à Ribeira das réplicas de naus construídas no estaleiro do Ouro para as “Comemorações do V Centenário da Morte do Infante” (1960) – Fonte: “portoarc.blogspot.com”



Cortejo presidencial (Portugal e Brasil) nas comemorações “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”, em 1960, de passagem pela Praça de Almeida Garrett, em frente à estação de São Bento



Subindo a Avenida dos Aliados, o cortejo dos presidentes Américo Tomás, de Portugal, e Juscelino Kubitschek de Oliveira, do Brasil, aquando das comemorações do “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”, em 1960




Vista obtida sobre a Avenida dos Aliados e Praça da Liberdade, a partir da Praça do Município (hoje, Praça do General Humberto Delgado), durante uma cerimónia, com a presença dos presidentes de Portugal e Brasil, integrada nas Comemorações do “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”, em 1960




Envelope e selo (comemorativo do 1.º dia de circulação - 26 de Junho de 1960) do Centenário da Morte do Infante D. Henrique



Moeda comemorativa do V centenário da Morte do Infante (1960)



(Continua)