sexta-feira, 20 de julho de 2018

(Continuação 15)


Revolta contra as tropas de Napoleão


“Na sequência da primeira invasão francesa (1807/1808), comandada por Junot, a cidade do Porto foi ocupada no dia 13 de Dezembro de 1807 e o seu governo foi confiado, pelos franceses, ao general galego D. Francisco de Taranco e Llano. Lembramos que naquele tempo a Espanha já estava sob a dominação napoleónica e os militares do exército espanhol deviam estar, em princípio, ao serviço da França. Daí a entrega do governo da cidade do Porto a um militar espanhol.
Uma das mais ignóbeis tropelias dos franceses foi a de ordenar que se apagassem todos os símbolos da nossa nacionalidade: bandeiras, que foram queimadas; brasões mandados picar, uns, cobrir de cal, outros, etc, etc.
A primeira manifestação, aqui no Porto, contra os símbolos portugueses aconteceu no Teatro de S. João, logo no dia 15 de fevereiro de 1807. Os franceses mandaram apear e destruir o escudo português que ornamentava o camarim real daquela casa de espetáculos.
No mês seguinte, a 3 de março, o governador da cidade, Luís de Oliveira, nomeado pelos franceses, claro, deu ordens ao comandante da fortaleza da Foz (o castelo da Foz) para que mandasse retirar as armas portuguesas que encimavam a entrada principal do castelo e que, uma vez apeadas, fossem destruídas. Aquele governador haveria de mais tarde ser preso.”
Com o devido crédito a Germano Silva

Castelo da Foz ou Forte de S. João Baptista – Ed. Marisa Pinheiro

quinta-feira, 19 de julho de 2018

(Continuação 14)


Revolta dos Taberneiros


Esta revolução teve lugar em 1757 contra a decisão do Marquês do Pombal de proibição de venda de vinho “avulso” e, pretendia evitar, assim, a degradação da qualidade do vinho do Porto, que era alvo de muitas mixórdias, quando era um produto que permitia a entrada de largas divisas no País, após a assinatura com os ingleses, em 1707, do tratado de Methuen.
A Coroa passaria, a partir de então, a controlar através da Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro, todo o circuito comercial do vinho, inclusive os locais de consumo e venda – As Tavernas.
Na manhã do dia 23 de Fevereiro de 1857, uma Quarta- Feira de cinzas, estalaria a revolta, mas, quando pelas três horas da tarde saía à rua a procissão das Cinzas da igreja dos Terceiros de S. Francisco, a mesma, pareceu acalmar.
Pretendia o povo que fosse revogada a criação da Companhia e que se restabelecesse o comércio do vinho a retalho da forma que estava antes.


“Não eram cumpridos cinco meses após a instituição da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 10-9-1756, quando eclodiu na cidade do Porto uma revolta popular contra a Companhia que o romancista histórico Arnaldo Gama memorou em Um Motim Há Cem Anos. Serviu também de tema na dissertação de licenciatura de Fernando de Oliveira, na antiga Faculdade de Letras da Universidade do Porto, publicada sob o título O Motim Popular de 1757.
Camilo Castelo Branco relata o acontecimento em Como Deus Castiga – Crónica Portuense, mas despreocupado com a exactidão dos factos, na irreprimível expansão da sua imaginação criadora. No decorrer da reconstituição do motim, vão-se comentando as apontadas versões.
Tudo aconteceu na manhã de quarta-feira de Cinzas, dia 23 de Fevereiro de 1757. Nas igrejas cumpria-se a liturgia da penitência e à tarde, como de costume, saía a procissão de S. Francisco. Gente dos arredores veio à cidade.
Camilo, na obra citada, erra ao escrever que a procissão de Cinza recolhia pela uma hora e três quarto, quando os sinos da Catedral e da Misericórdia picaram a rebate, pois a verdade histórica é que a procissão saiu da Igreja de S. Francisco às quatro horas da tarde depois de acalmada a cidade. O acórdão proferido em Relação pelos juízes da Alçada em 12-10-1757, publicado em livro no ano de 1758, sob o título Sentença da Alçada que El-Rei Nosso Senhor mandou conhecer da Rebellião na cidade do Porto em 1757, e da qual Sua Magestade Fidelíssima nomeou presidente João Pacheco Pereira de Vasconcelos «…» refere expressamente que os vendeiros se juntaram na manhã do dia 23 de Fevereiro.



Livro editado em 1758 com a sentença da Alçada e narrativa do julgamento


(…) Arnaldo Gama, sempre escrupuloso, também indica as 10 horas e meia da manhã para o começo da rebelião.
O local da concentração dos amotinados foi na Porta do Olival, à Cordoaria. A sentença o confirma:
«Mostra-se mais, que José Rodrigues de alcunha o Grande, João Francisco chamado o Mourão, e António de Sousa de alcunha o Negres ou o Negro, Soldado do Regimento de Infantaria da Guarnição desta Cidade, foram dos principais Amotinadores do Povo; de tal sorte que o dito Soldado, sendo persuadido pelo Réu António de Sequeira Teixeira a ir ao Tumulto, foi dos primeiros, que se acharam na Porta do Olival, aonde ele principiou» (pág. 35, ver também pág. 42).
As mulheres que faziam parte daquele grupo principiaram, em altos gritos, «as vozes sediciosas de Ah que de Povo, Viva o Povo, e morra a Companhia» e para concitarem todo o povo da cidade, os amotinadores planearam mandar tocar a rebate os sinos da Igreja da Misericórdia e da Sé Catedral, logo que principiasse o tumulto, o que veio a acontecer.
Continua a descrição no relatório da sentença: «Mostra-se mais que os Amotinadores para melhor concitarem a Plebe, e fazerem mais pública e formal a sua manifesta rebelião, determinaram que alguns rapazes levassem umas bandeirinhas encarnadas, com ramos de oliveira, para o Povo as seguir» (págs. 53 e 54).
Desta forma, os amotinados foram pela Rua de S. Bento, desceram as Escadas da Esnoga e tomaram a Rua de Belomonte a caminho do Largo de S. Domingos. Levavam o propósito previamente combinado, de se dirigirem à casa do juiz do povo, José da Silva por alcunha o Lisboa, um alfaiate e taberneiro que morava defronte do chafariz, interpelando-o para que tomasse a direcção do protesto.
Camilo cometeu um erro palmar neste ponto. Afirma que José da Silva, o tal juiz do povo, morava à entrada da Rua do Loureiro, para quem sai da Rua Chã: Ao toque de rebate, ergueu-se medonho alarido na Rua Chã, à entrada da Rua do Loureiro, onde morava o Juiz do Povo, José da Silva, justamente na casa onde hoje está aberta uma loja de barbeiro (pág. 253)”.
(…) quem morava na primeira casa da Rua do Loureiro, do lado esquerdo no sentido de quem desce, e que actualmente tem os números de polícia 166-168, depois da última casa da Rua Chã - esta tem os números 133-137 -, era o Dr. Luís Beleza de Andrade.


Casa de Beleza de Andrade na Rua Chã, após recuperação

(…) Tudo se tinha combinado previamente no sentido de que o juiz do povo, o tal Lisboa, pretextaria o estado de doente por ter tomado uma purga e que fora violentado ao tumulto (sentença, pág. 23), de forma a não cair nas malhas da justiça inculpado por comparticipação no motim.
A multidão reclamava a sua presença, e escutado pretexto, rolou-se ameaçadora contra a porta da casa pois o povo não sabia a prévia combinação com os dirigentes do movimento. Ele apareceu e continuou a invocar a sua doença: “Viva o povo! Eu sou do povo! Mas, senhores, eu estou muito mal…estou muito doente. Tomei uma purga… não posso ter-me em pé”. Assim reconstrói Arnaldo Gama os seus dizeres.

Os amotinados José Rodrigues, João Francisco e o soldado José Pinto de Azevedo foram à vizinha Rua Nova, buscar uma cadeirinha de mãos em que, segundo o plano ajustado, devia nela ser transportado o juiz do povo (como consta do relatório da sentença (pág. 36 - § XVI), a fim de ser o cabecel da revolta.
(…) Assomada a Rua Chã, a multidão já calculada em 5.000 pessoas, dirigiu-se à casa de morada do desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo, corregedor do crime e chanceler das justiças, «insultando, e violentando o dito Ministro com atrevidas vozes, e ameaças, para que desse por extinta a Companhia, como consta da sentença, o que ele formalizou assinando os documentos, coacto, e violentando-o a que os mandasse afixar e publicar a som de caixas, e que nomeasse para o caso as ausências do Juiz do Povo actual, Joseph Fernandes da Silva, de alcunha o Lisboa, outro também da sua facção, chamado Thomaz Pinto, determinando, que se fechassem as Tavernas da mesma Companhia, e se devassassem os seus Armazéns (pág. 7 da sentença - § 1º)».
A referida casa de morada do desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo fica sobre o arco da antiga Viela da Cadeia, actualmente designada Travessa da Rua Chã, e tem na dita Rua Chã o número de polícia 92 .


Casa onde morava o Corregedor  Dr. Bernardo Duarte de Figueiredo


A mole imensa, galvanizada pelo êxito, propôs-se continuar a cumprir o programa preestabelecido de queimar a documentação da instituição e ajustar contas com o provedor Luís Beleza de Andrade que morava a escassos metros do corregedor da justiça, ao fundo da Rua Chã, ou mais precisamente, na última casa da Rua do Loureiro, do lado esquerdo quem desce, junto da qual os amotinados ainda há pouco tinham passado quando subiram este arruamento”.
Com o devido crédito ao Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra, adm. blogue “ruisaeguerra.blogspot.com”



“Em 1757 o Porto foi palco de duas revoltas populares contra a Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro, instituída em 1756 por Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal.
O descontentamento motivado pela formação desta companhia monopolista não só se fez sentir entre os agentes ligados à produção e comercialização de vinho do Porto, nomeadamente os comerciantes ingleses e seus colaboradores, mas também entre os numerosos taberneiros, tanoeiros e pequenos armazenistas da cidade.
O primeiro e principal motim aconteceu na manhã do dia 23 de Fevereiro ao som dos sinos da Sé e da Misericórdia. Os amotinados, reunidos na Cordoaria e gritando palavras de ordem, avançaram até à casa do juiz do povo, sita no Largo de S. Domingos, que foi arrastado pela turba e conduzido numa cadeirinha por, alegadamente, se encontrar indisposto.
O numeroso e exaltado cortejo seguiu até à Rua Chã, ao encontro das residências do regedor das justiças, a quem foi exigida a extinção da Companhia, e do provedor Luís Beleza de Andrade. O escritório da Companhia, a habitação do seu provedor - de onde um criado disparou sobre os revoltosos - e as casas vizinhas de Manuel Barroso (secretário da Companhia) e de Custódio dos Santos (seu deputado) foram vandalizadas.
Depois destes episódios violentos os ânimos serenaram e pelas três da tarde a cidade já assistia à Procissão das Cinzas. Porém, esta afronta ao poder central estava longe de ser esquecida, pois, apesar da aparente passividade das autoridades, a notícia do motim chegara rapidamente a Lisboa através da relação enviada pelo Desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo.
Cinco dias mais tarde, a 28 de Fevereiro, D. José I ordenou a João Pacheco Pereira de Vasconcelos que abrisse no Porto uma devassa.
A 15 de Março, pouco depois da chegada do enviado régio, rebentou segundo motim.
Destes levantamentos populares resultou o apuramento de 462 suspeitos, 26 dos quais foram condenados à pena capital (21 homens e 5 mulheres), a ocupação militar da cidade por vários regimentos da Beira, do Minho e de Trás-os-Montes, a responsabilização dos portuenses pelo aboletamento das tropas, o lançamento de um imposto para pagar os soldos e munições de guerra, a mudança da vereação, a extinção da "Casa dos 24" e, ainda, a nomeação de João de Almada e Melo para Governador do Partido Militar do Porto.
No final, oito condenados conseguiram fugir, uma mulher escapou à forca por se encontrar grávida e os restantes 17 sentenciados à pena capital foram enforcados ou decapitados no dia 14 de Outubro de 1757. As suas cabeças foram colocadas nos patíbulos e os corpos, esquartejados, expostos no Largo de S. Domingos, nas ruas Chã e de Cimo de Vila e no terreiro de Miragaia”.
Fonte: “sigarra.up.pt”

quarta-feira, 18 de julho de 2018

(Continuação 13)


Revolta da vereação no tempo dos Filipes

Esta revolta aconteceu no século XVII, sendo rei Filipe II, quando foram presos e encarcerados os membros da vereação da cidade, por defenderem antigos privilégios da mesma e dos seus cidadãos.
A prisão, na altura, funcionava num edifício da actual Travessa da Rua Chã que, anteriormente, se chamava Viela da Cadeia, em memória, precisamente, desse mesmo cárcere que aí existiu.

“Vejamos como tudo se passou: era costume antigo dos vereadores da cidade do Porto, com confirmação do rei, naturalmente, que o cargo de capitão-mor do Porto fosse desempenhado, em comum, pelos vereadores do concelho.
Sempre assim acontecera. Mas, ainda no século XVI, em 1568, o rei D. Sebastião pôs termo ao antigo privilégio da cidade e, alegando que se tornava necessário defender o Porto da ameaça de incursões corsárias que pairavam no ar, nomeou para capitão-mor do Porto João Rodrigues de Sá e Meneses, primeiro conde de Penaguião.
O Senado, que é como quem diz a Câmara e os seus cidadãos, é que não gostou da atitude do rei, por considerar que constituía uma grave ofensa aos direitos do concelho.
Numa tentativa de se desagravarem, enviaram à Corte dois vereadores, Jorge de Babo Ribeiro e Jerónimo de Crasto, para "requererem a sua alteza" que respeitasse as regalias e honras da cidade mantendo o privilégio de serem os vereadores do concelho a exercer o cargo de capitão-mor da cidade.
A missão, porém, não resultou e o conde de Penaguião, em julho daquele mesmo ano, preparou-se para tomar posse oficialmente do cargo. Mas os juízes, vereadores, procuradores da cidade e procuradores do povo primaram pela ausência e não sancionaram o ato de posse.
Nos tempos que se seguiram, o Senado manteve uma atitude de intransigência, disposto a não reconhecer João Rodrigues de Sá e Meneses no cargo de capitão-mor da cidade.
Houve uma exceção. Em 1570, chegaram ao Porto notícias de que "os luteranos se andavam a armar para virem sobre os lugares da costa do reino". Então, a Câmara prontificou-se a colaborar, mas sob protesto.
Com a morte do conde de Penaguião, vagou o cargo de capitão-mor e o rei nomeou para esse posto o conde de Tarouca, cunhado do anterior. Estávamos já em 1602, no reinado de Filipe II. Os vereadores recusaram-se a entregar as chaves da cidade ao novo capitão-mor e este apressou-se a mandar mensageiros a Valhadolid, onde estava a Corte, a comunicar o caso ao rei.
A resposta chegou rápida e sem deixar margens para dúvidas: "conformem-se (os do Porto) com o que tenho mandado". Ou seja, "não discutam as ordens reais e entreguem as chaves da cidade ao novo capitão-mor".
Procurados na Câmara, os vereadores foram informados pelo desembargador da Casa da Relação do Porto, dr. Belchior Martins de Carvalho, de que "convinha ao serviço d'El-Rei estarem presos na cadeia pública desta cidade sem lhe guardar menagem nem qualidade de suas pessoas, conforme a uma carta do dito Senhor".
Perante este implacável mandado, os vereadores apenas contestaram que, uma vez que iam ser presos "e não lhes era dada a possibilidade de gozarem dos privilégios, ali estavam prestes para obedecer a tal mandado mas não sem protestação".
A entrada dos vereadores na cadeia verificou-se nos primeiros meses de 1602 e a prisão manteve-se até dezembro seguinte. Nessa altura, o rei, tendo em atenção "ao bom modo com que se ouverão (os vereadores) na prisão" e atendendo a que "a ocasião é passado", tinha morrido o conde de Tarouca e as chaves da cidade voltavam à posse da vereação, o rei, dizíamos, mandou soltar os vereadores.
A cidade triunfara, mais uma vez, na defesa dos seus antigos privilégios”.
Com o devido crédito a Germano Silva

Viela da Cadeia – Ed. Teo Dias, administrador do blogue “ruasdoporto.blogspot.com”


“A Viela da Cadeia, que hoje se chama Travessa da Rua Chã é referida em prazos de 1449 e de 1555...”
Fonte: "Toponímia Portuense" de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas 

terça-feira, 17 de julho de 2018

(Continuação 12)


Revolta do Papel Selado


“Tudo aconteceu no dia 4 de maio de 1661, quando a esta cidade chegou a ordem régia em que se ordenava que a partir daquela data os oficias da justiça só podiam lavrar despachos forenses, de qualquer tipo, fossem de negócios ou de causas, em papel selado.
O povo do Porto não gostou de ser tributado com mais esta imposição e protestou. Pacificamente, de início. Procuradores do povo, em representação de vários ofícios, assim como artesãos e feirantes, dirigiram-se à Câmara, que funcionava naquele edifício quinhentista de que ainda existem vestígios à entrada da Rua de S. Sebastião, e solicitaram aos vereadores eleitos que instassem junto do rei para que anulasse a decisão de aplicar mais aquele tributo ao povo.
Não se sabe bem o que é que se passou no interior do edifício. Mas cá fora, à rua, onde se havia juntado muita gente que apoiava a petição dos procuradores do povo e dos ofícios, chegou a notícia de que a Câmara não só não iria pedir o que quer que fosse ao rei, como queria obrigar os procuradores a assinar um documento em que se comprometiam a res-peitar a ordem do rei. Os representantes do povo recusaram assinar fosse o que fosse e a Câmara deu-lhes ordem de prisão.
Entretanto, alguém, do interior do edifício, fechou a porta da Câmara, que até aí havia estado escancarada. Foi a prova de que ficavam mesmo presos os procuradores do povo. E o motim rebentou logo ali.
Aos gritos de "abram a porta" e de "soltem os procuradores do povo", os amotinados, que eram já umas centenas, muniram-se de machados com os quais, num ápice, fizeram voar a porta em estilhas. Entraram no edifício, libertaram os procuradores e, com eles à frente da multidão, internaram-se no populoso bairro da Sé.
Pelas ruas Escura, do Souto e da Bainharia, passaram rapidamente ao Largo da Penaventosa, desceram por S. Crispim e chegaram ao Largo de S. Domingos, onde morava o tesoureiro da cidade, que, transido de medo e sobraçando resmas e resmas de papel selado, apareceu a uma janela arremessando todo o papel para a rua.
Do meio da multidão, ainda houve quem gritasse "queime-se a casa" e logo alguém foi à procura de carqueja. Prevaleceu no entanto o bom senso. Dois frades do Mosteiro de S. Domingos, que ficava ali ao lado, intervieram com palavras apaziguadoras junto da turba enfurecida e o perigo de incêndio passou.
O que não passou foi a ira dos revoltosos que, descendo as Congostas, se dirigiram à então chamada Rua Nova, hoje Rua do Infante D. Henrique, onde vivia Ascenso Dias, recoveiro, responsável pela distribuição do papel selado. Aos gritos de "viva o rei, morram os traidores, abaixo o papel selado", a multidão arrombou-lhe a porta, entrou na casa, trouxe todo o papel selado que lá encontrou, fez com ele um auto de fé e chegou o fogo à casa do pobre recoveiro.
Da Rua Nova, os amotinados subiram pelas Congostas à Ponte de S. Domingos e internaram-se na Rua das Flores, dirigindo-se diretamente para a casa de Gaspar Abreu, juiz da Alfândega, sobre quem pendia a acusação de ser o "autor da obra". São arremessadas pedras contra as vidraças das janelas, também aqui se arromba a porta e aos gritos de "morra o traidor! morra o traidor", entram de roldão na casa, mas o morador, previamente avisado, fugira a tempo. Do interior, consta de uma crónica do tempo, "voaram para a rua cadeiras, bufetes, escritórios, e, com o mais que (os revoltosos) acharam, tudo veio das janelas abaixo".
Faltava ainda "visitar" o governador da Relação e com essa intenção se dirigiram os sublevados na direção do Largo de S. Bento das Freiras. É então que acontece o inesperado; ao chegar junto do convento das beneditinas, onde agora está a estação ferroviária de S. Bento, a multidão enfurecida e em permanente gritaria, estacou de súbito. E logo a seguir, inesperadamente, retrocedeu, pela Rua das Flores, cabisbaixa, de cabeça descoberta. Que milagre teria acontecido?
O milagre operara-se com o aparecimento súbito do Santíssimo Sacramento, que alguns cónegos da Sé tinham ido buscar à catedral e transportavam numa rica custódia de cristal e ouro. À vista do Santíssimo, a multidão enfurecida amansou, abriu alas, os homens descobriram-se, toda a gente dobrou o joelho à passagem da custódia.
E as coisas ficaram por aí? É claro que não. Quatro meses depois destes acontecimentos, escoltados por 4000 soldados de infantaria, entraram no Porto os condes do Prado e de S. João, governadores do Minho, a fim de procederem a uma devassa sobre os acontecimentos de 4 de maio.
Com a devida vénia a Germano Silva

Entrada da Igreja do Convento de S. Bento da Ave-Maria voltada para a Rua do Loureiro

segunda-feira, 16 de julho de 2018

(Continuação 11)


Revolta dos marceneiros

“Em 1836 o convento de S. Domingos, segundo Artur Magalhães Basto, servia para armazém de diversos produtos da Alfândega. Estas instalações seriam invadidas quando naquele ano ocorreu a revolta dos marceneiros, que visou a destruição de mercadoria estrangeira importada. Durante aquela revolta vários estabelecimentos que comercializavam foram assaltados e a mercadoria destruída, tendo-se salvado os armazéns principais da Alfândega porque alguns funcionários da mesma as defenderam até à chegada de reforços policiais.
Vamos primeiro contextualizar: estamos em meados de 1836. O país vai ainda no início da sua caminhada pela monarquia liberal, que só estabilizara realmente cerca de quinze anos depois. A cidade passa por um período de grande aperto alimentar com a falta do cereal, matéria-prima do pão, ao mesmo tempo que o comércio nesta secular cidade comercial se vai abrindo aos bens comprados no estrangeiro. Ora, se eu tenho fome mas não consigo vender os bens que produzo por não conseguir competir com a concorrência... (isto sou eu a colocar-me na pele de um artesão português da época); Entram agora os tumultuários (que não se lhes pode chamar revoltosos)…
Com o devido crédito A Nuno Cruz Adm. do Blogue “A Porta Nobre”



 “Houveram ontem sérios tumultos nesta cidade, mas nenhuma cor política os acompanhava – era a miséria e a fome a guerrear a indolência do Governo. É este o caso.
Souberam os sambladores que estavam desembarcando de um brigue hamburgês muitos trastes, como mesas, cómodas, relojos (sic), pianos, e outras cousas de mão-de-obra estrangeira. Foram ter-se com o Exmo. Governador Civil, representando-lhe que desse as providências necessárias para cessar o desembarque de similhantes móveis que vinham fazer a sua miséria, por virem empatar a venda dos nacionais, e sujeitar por conseguinte milhares de pessoas há morte. Sossegou-os o Exmo. Governador Civil dizendo-lhes que não podia violar a Lei suspendendo o desembarque, mas que estivessem certos que iria representar a S. M., e que havia de obter o remédio para os seus males. Partiu o povo, mas este que não atende à lei quando a necessidade urge, foi fazer ao Ilmo. Administrador da Alfândega a mesma petição que ao Exmo. Governador Civil tinha feito, no que também não foi atendido.
Exasperaram-se então os pretendentes, e determinaram fazer-se justiça por suas próprias mãos. Foram às barcas que conduziam os móveis, e quebraram toda aquela quinquilharia, não deixando um cavaco direito. - Não contentes com isto foram ao armazém da igreja velha de S. Domingos, e fizeram outro tanto aos que aí se tinham já recolhido. - Quiseram ir também a casa de Mr. Guichard, mas o Exmo. Governador Civil que aí se achava presente, pode conseguir que se retirassem sem barulho algum. - Dizem que alguns pequenos grupos quiseram fazer o mesmo por diversas partes. Na Alfândega quiseram também entrar por fim, mas aparecendo o Exmo. Governador Civil, e uma patrulha da Guarda Municipal lançando fora o grupo e fechando as portas, pôs fim àquela pertenção.
Tanto na igreja velha de S. Domingos, como na Alfândega, apareceu o Exmo. Governador das Armas, sossegando o povo, e dando com ele vivas à rainha e à Carta.
Na calçada dos Clérigos foi aonde os tumultos duraram até à noite, defronte das lojas de Guichard e Tallone.
Chegada que foi a noite tudo se retirou a suas casas sossegadamente, isto é – sem força alguma que a isso os obrigasse.
Diga-se uma vez em abono do povo – não consta que alguém fosse ofendido em sua pessoa, nem que se cometesse roubo nem ainda do mais pequeno valor – era uma multidão inerme que não usou de outras armas além das que lhe deu o furor desatinado.
E diga-se também em justo louvor do Exmo. Governador das Armas, que só a sua prudência salvou o Porto ontem dos horrores da anarquia. Nenhuma violência usou para com o povo – e a sua presença – a persuasão e o bom modo, foram as únicas armas que empregou para com a multidão que lhe pedia pão, ou meios honestos de o ganhar. Uma autoridade que carregasse o povo, ou que ousasse contra ele arrancar a espada, faria correr rios de sangue, e não conseguiria talvez o desejado fim.
(...) “
In “A Vedeta da Liberdade”; Fonte: “aportanobre.blogs.sapo.pt”


Revolta dos marceneiros – Ed. In O Tripeiro, Série V, Ano II; Fonte: “portoarc.blogspot.pt”

quinta-feira, 12 de julho de 2018

(Continuação 10)


Revolta durante o funeral do bispo D. Manuel de Santa Inês


“Em 24 de janeiro de 1840 faleceu D. Manoel de Santa Ignez, governador do Porto e seu bispo desde 1832. Separava-o dos outros bispos a forma como chegara ao cargo: por escolha régia. Na verdade, este bispo nunca foi confirmado pelo papa e, claro, foi eleito por D. Pedro IV por ser um caso raro: um eclesiástico afecto à causa liberal! Data de 18 de Julho a sua nomeação, assinada por José Xavier Mouzinho da Silveira que refere: «Tendo-se verificado por inquirição de testemunhas que o bispo do Porto desertara daquele rebanho de Jesus Cristo, que tinha sido confiado ao seu ministério (...): Hei por bem, em nome da rainha, nomear para fazer as vezes de bispo, na qualidade de Governador do mesmo bispado, a Frei Manuel de Santa Inês, da Ordem dos Religiosos de Santo Agostinho Descalços (...)». Assim vem publicado na Cronica Constitucional do Porto de 19 de Julho de 1832. Diga-se de passagem, que ao mesmo prelado foi entregue o arcebispado de Braga, que se encontrava em Sede Vacante pelo mesmo motivo: fuga.
O bispo ausente era D. João de Magalhães e Avelar, que sempre se mostrara contra o liberalismo (ironia das ironias, falecido logo em 1833, a sua valiosa biblioteca pessoal veio a constituir o núcleo inicial da Biblioteca Pública Municipal do Porto, fundada por D. Pedro IV no mesmo ano!).”
Com o devido crédito a Nuno Cruz, Adm. do Blogue “A Porta Nobre”


Busto do bispo D. Manuel Santa Inês no Largo de S. Brás, Baguim do Monte – Fonte: Wikipédia


Dom Manuel de Santa Inês, que teve por secretário, Henrique Duarte e Sousa Reis, mais conhecido por ter escrito os Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, parece ter sido um bispo algo proscrito pelo Cabido, dado que, a sua nomeação nunca teve confirmação papal.
O bispado portuense, só ganharia uma nova cabeça passível de ostentar a mitra episcopal três anos depois da morte deste prelado, que fora - não se pode negar - escolhido pelo "regente em nome da rainha"...
A imprensa da época, aquando da sua morte, referia que, logo no dia 25, teve lugar na Sé «o ofício solene de defuntos, pelo repouso da alma do Exmo. bispo eleito». A missa foi cantada pelo Chantre Tomás da Rocha Pinho «e tanto este senhor como os seus companheiros, que estava no seu coro baixo, de batina e capa, só figuravam como particulares, e não como cabido.»
Um jornal prosseguia com uma pequena descrição das autoridades e militares presentes, dizendo também que o General Barão de Alcobaça «tinha mandado dar tiros de artilharia de espaço a espaço, e ele mesmo se postou à testa de toda a tropa de pret e voluntários móveis, fixos, e provisórios, tanto da cidade, como dos subúrbios, que chegava desde a porta da Sé até ao meio da rua Chã».
Quando o finado bispo eleito se sacramentou, tinha pedido ao cabido que o sepultassem numa sepultura do claustro, por ser naquele lugar, que por norma se sepultavam os cónegos.
O cabido mandou, no entanto, abrir a campa, não no claustro, debaixo dos arcos, mas sim num lugar descoberto, que fica circundado pelo claustro.
Acabado o ofício, na continuação das cerimónias fúnebres,
“quando se tirava da eça o caixão para se conduzir à sepultura, principiou um grande alarido, pedindo uns que o cadáver fosse conduzido para a real capela da Lapa, e outros, que fosse sepultado no jazigo dos Srs. bispos; crescia cada vez mais o tumulto, e o povo ameaçava os cónegos, e lhes exprobrava não fazerem as devidas honras ao bispo (…).
Estando as cousas nesta desordem o Exmo. Sr. Barão de Alcobaça e o Exmo. Sr. Administrador Geral trataram de acomodar o túmulo (sic), do melhor modo possível: o Ilmo. cabido assustado já oferecia, que o cadáver fosse sepultado na capela de S. Vicente, jazigo dos Srs. bispos; um momento pareceu o povo deliberar, mas as vozes se ouviram: à Lapa à Lapa, porque podem desenterrar o corpo e leva-lo para outra parte: estas vozes foram seguidas, e o caixão tornou-se a por na eça, havendo a circunstância, que algum cuidado deu, de se queimar um bocado do bambolim, que servia de ornato à eça.
Decidido, que o cadáver fosse sepultar à Lapa, deram-se todas as providências para esse fim.
 A irmandade da Lapa, mandou à pressa armar de preto os altares, da sua ampla, e majestosa igreja. O concurso foi imenso à porta da Sé, e ruas contiguas; e apesar de estar uma noite escura, e chuvosa, o acompanhamento, e concurso das ruas do trânsito, era grande.
Seriam 8 horas quando chegou à Lapa o carro da morte, puxado a duas parelhas.
O caixão foi recebido à porta da igreja, aonde se lhe entoou um responso, cantando a oração o Ilmo. Sr. Cónego Luís de Santa Rita Araújo, especial amigo de sua Ex.ª.
Com o devido crédito a Nuno Cruz, adm. do blogue “A Porta Nobre”

Mais tarde a 31 de Janeiro de 1840, o governo que era à data chefiado por Costa Cabral, incubiu o Conselheiro Presidente da Relação do Porto que o informasse «do modo porque teve lugar aquela desagradável ocorrência; declarando se ela foi puramente fortuita, ou se foi provocada, por quem, com que motivos, e para que fins prováveis», dado ter informações de que, por alturas do funeral do bispo, o sossego público da cidade do Porto estivera por momentos a ser seriamente alterado.  



Mausoléu no cemitério da Lapa do bispo Santa Inês – Ed. Nuno Cruz


No túmulo de D. Manoel de Sancta Ignez, no cemitério da Lapa, pode ler-se gravado na pedra:





Sobre a vida deste bispo existe um manuscrito inédito na Biblioteca Pública Municipal do Porto, de Henrique Duarte e Sousa Reis que foi seu secretário (conhecido ainda por ter escrito os Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto).

terça-feira, 10 de julho de 2018

(Continuação 9)



Revolta contra o bispo Martinho Rodrigues

Em 1209 os cidadãos do Porto revoltaram-se contra o seu bispo Martinho Rodrigues que os sufocava com impostos.

“Vale a pena recordar esta contenda que a cidade travou com o seu bispo. Foi há quase 800 anos. Completam-se em 2009. E o palco dessa luta foi o bairro da Sé. Onde, como escreveu Firmino Pereira, " em cada uma das suas pedras se inscreve uma façanha heróica, porque foi precisamente nessa parte do burgo que mais energicamente se afirmaram as energias da raça na defesa dos seus direitos e dos seus foros tantas vezes afrontados pela cobiça dos bispos".
Um desses bispos foi D. Martinho Rodrigues que governou a diocese do Porto de 1191 a 1235. Por esse tempo o burgo portucalense não ia além do morro da Pena Ventosa em cujo cume se situava a Catedral e a residência do prelado. O senhorio da cidade, como tantas vezes aqui se tem dito, pertencia ao bispo da diocese desde os remotos tempos de D. Hugo. Os cidadãos do Porto, em especial, mas os moradores da cidade, em geral, eram considerados vassalos do bispo. E D. Martinho Rodrigues, especialmente este, era um prelado ambicioso. Como senhor da cidade, arrecadava os impostos sobre todos os géneros e mercadorias que entravam ou saíam no burgo. E lançava cada vez mais impostos sobre o povo que, naturalmente descontente, protestava. Pinho Leal escreveu no seu "Portugal Antigo e Moderno" que a certa altura, o povo, cansado de protestar baldadamente contra as prepotências do bispo, "… amotinou-se e, furioso, acometeu contra o paço episcopal arrombando as suas portas e invadindo-o; e chegados aos aposentos do bispo lançaram-lhe em rosto os vexames de que eram vitimas após o que o prenderam no próprio paço onde ficou pelo espaço de cinco meses..." Passou-se isto em 1209. Há quase 800 anos. É da história que D. Martinho Rodrigues conseguiu, ao fim de cinco meses de encarceramento, fugir da prisão, de noite, e dirigir-se a Roma onde "chegou em miserável estado". Na cadeira de S. Pedro sentava-se por essa altura Inocêncio III a quem o bispo pediu que fulminasse com a pena de excomunhão os chefes do levantamento popular indicando especialmente dois cidadãos João Alvo e Pedro Feudo Tirou (tirou o feudo ou vassalagem). Mas foram apenas dois os burgueses do Porto que participaram no levantamento? Claro que não. 
Os cabeças do motim, se assim se pode dizer, eram ao todo vinte. E estão devidamente identificados João Alvo e seu irmão, Mendo Guilherme; Vicente Mendes, genro de João Alvo; Afonso Gondom das Eiras; Tirou Martins Pires e Vicente, ambos genros de Pedro Feio (Petri Fedi) ; Pedro Soares, filho de Soeiro Monis; João Vai-Vai; Fernando Monis; Gonçalo Godinho; Pedro Mouro; Pirro das Eiras; Pedro Feio (Petrum Fedum); Paio Martins; Mendo Bicas; Soeiro Gulherme; João Ferreira do Monte; João Surdo; Reinaldo Agulheiro; e Miguel Meigenga. Todos estes "cidadãos portucalenses" ficaram sujeitos à sentença canónica que os considerou "infames" e por isso foram excomungados. Só que, quando a sentença chegou ao Porto os cidadãos do burgo, incluindo os directamente atingidos, encolheram os ombros e "altivamente afrontaram a censura eclesiástica" com um simples desabafo: "excomunhão não brita osso" que é como quem diz, "não interessa…" ou seja não é para levar a sério. Sabe-se que os "condenados" se alhearam por completo da sentença e da causa que lhe deu origem. Foram, por isso, julgados à revelia pelos juízes apostólicos e a pena que lhes foi aplicada só podia ser levantada se eles dessem "uma satisfação conveniente" ao bispo e implorassem a Roma a absolvição. Nada disso aconteceu e foi o próprio D. Martinho Rodrigues, anos mais tarde, quando regressou ao Porto, que solicitou de Inocêncio III a absolvição dos excomungados. Consta do "Censual do Cabido da Sé do Porto" que o bispo D. Pedro Salvadores, que sucedeu a Martinho Rodrigues, quando morreu, em 24 de Junho de 1247, contemplou, no seu testamento, Pedro Feio com quatro morabitinos e João Alvo com dois. O que pode significar que havia então bom entendimento entre a Mitra e os homens da cidade”. 
In JN, 31 Dezembro 2006



Os arcos que se veem agora na Rua de S. Sebastião, na Sé, foram encontrados bem perto na Calçada de Vandoma



Revolta contra D. Vasco Martins


Uma outra revolta que ficou contada aconteceu quando os burgueses da cidade afrontaram D. Vasco Martins, 18.º Bispo do Porto (1327/1342).
Este bispo nunca foi do agrado do rei D. Afonso IV.
A situação agudizava-se pelo facto do prelado viver praticamente na Curia Romana junto do Papa João XXII, razão pela qual a sua igreja se encontrava na opinião do monarca ao abandono.
Quando no ano de Cristo de 1334, Benedito XII substitui João XXII, por morte deste, foi dada ordem para que todos os bispos que o apoiavam voltassem às suas igrejas.
Chegou o bispo e viu que todos os réditos do bispado tinham sido embargados pelo rei.
Exigências daqui e, dali, invasões de exércitos galegos, disputas por coutos e pedaços de territórios, a paz tardava a reinar entre este bispo, os burgueses da cidade e o rei.
Numa dada ocasião, em consequência do exercício de certos privilégios que o bispo dizia possuir sobre coutos, caso de Crestuma, por exemplo, que lhe permitiriam a nomeação de juízes, para administração da justiça, e que não tinham a anuência da Câmara da cidade, o conflito agudizou-se.

«Também no "Catálogo dos bispos do Porto", escrito em 1623 pelo prelado D. Rodrigo da Cunha (bispo da diocese portucalense entre 1619 e 1627), se abordam as questões que aconteceram entre o austero bispo D. Vasco Martins e os homens do Senado (leia-se Câmara) que tanto agitaram a cidade aí por 1341. Escreveu D. Rodrigo:
"chegou o negócio (os acontecimentos) a termos tais, que em certo alvoroço se juntaram alguns do povo e com mão armada se foram ao paço do bispo apostados em o afrontarem e maltratarem, mas ele, que soube do motim primeiro que os conjurados chegassem à Sé em que assistia a um ofício fúnebre de certa pessoa nobre, se recolheu ao castelo que era a fortaleza da Igreja do Porto".»
Fonte: Germano Silva