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quinta-feira, 6 de julho de 2017

(Continuação 27) - Actualização em 28/12/2017 e 12/11/2020

Lado Nascente


No lado nascente da Praça D. Pedro, apresentava-se o antigo Convento dos Congregados, totalmente modificado (após a vitória dos liberais na guerra civil, na qual o usurpador D. Miguel foi derrotado) e também adaptado a comércio, e uma série de estabelecimentos, cafés e restaurantes, que se foram revezando ao longo dos anos.
Assim, foram ocupando parte das antigas instalações convertidas do convento dos Congregados, o café Portuense que depois seria o café Suisso, o café Central e o restaurante Camanho entre outros, que ficariam na memória da cidade.
O café Porto-Club, com ambiente requintado e um excelente serviço de restaurante, existia, por aqui, em 1904, junto do restaurante Camanho.
A partir de 6 de Fevereiro de 1910, abriria o Café-Restaurante Paris no mesmo edifício onde esteve instalado o Restaurante Porto-Clube, e de que foi proprietário António Machado da Silva, que também o fora do extinto estabelecimento. 
As fotos seguintes mostram a evolução da confluência (esquina) da Praça D. Pedro com a Rua de Sá da Bandeira (actual Rua Sampaio Bruno) na transição de séculos.
 


O prédio da esquina, a norte, apresenta três andares


O prédio referenciado na foto acima foi mandado edificar por Florindo José Teixeira de Carvalho e obteve a Licença de Obra nº 52/1856.
Depois de um incêndio que sofreu em 1860, seria dotado de mais um andar no fim do século XIX.



O prédio da esquina, a norte, já apresenta quatro andares

 
 

Outra perspectiva da confluência das ruas referenciadas


Outra perspectiva, em 1907, da confluência das ruas referenciadas - Fonte: HC White Co., Library of Congress, Cortesia de Porto Desaparecido


 
 
 

Praça D. Pedro
 
 
Na fotografia acima, o Eléctrico passa em frente ao Café Central que esteve neste local, entre 1897 e 1933, ocupado, depois, pelo café Imperial. 
Para lá, na esquina da Rua Sá da Bandeira (agora Sampaio Bruno), ficava o Café Suisso  que, antes, tinha sido o café Portuense, que aí tomou o lugar da Hospedaria Resende e, na esquina, em frente, da antiga Rua do Bispo, depois D. Pedro e, finalmente, Elias Garcia, o Crédit Franco-Portugais, ocupando parte de um prédio, no local em que, um outro foi alvo de um incêndio, em 11 de Outubro de 1860. 
Em 1860, aí estava um armazenista de açúcar, Florindo José Teixeira, dono do prédio, com depósito de géneros alimentícios, nos baixos.
Sobre aquele incêndio diz Alberto Pimentel na “Praça Nova”:



Texto de Alberto Pimentel



Sobre o café Suisso diz Firmino Pereira:
“Subia-se para a sala, esguia como uma fita, por três apertados degraus. Ao fundo, sob o arco, eram os bilhares. E duas grandes jarras de porcelana, sobre dois aparatosos plínios, davam a esse corredor sombrio um aspecto janota de casa abastada.”
Firmino Pereira O Porto D’ Outros Tempos Liv. Chardron Porto 1914



Em 1906, Alberto Pimentel escrevia, que podia observar-se no quarteirão dos Congregados virado para a Praça D. Pedro, os cafés Suisso, Camanho e o Central e ainda a Tabacaria do Arnaldo Soares que à mistura com caixas de charutos se armazenavam brochuras francesas e portuguesa, de colecções baratas, com o Quiosque (de ferro) do Sebastião, de alcunha “O Correligionário” a Sul da praça, a controlar.
Pelos meados do século XIX por aí tinha existido o célebre Café Guichard e os relojoeiros Girod e Courrege, e Azevedo & Cardoso, substituídos pelos cafés mencionados.




Café Camanho em 1910



Na foto acima vê-se, na Praça D. Pedro, no sentido da esquerda para a direita, o prédio do Café Camanho e a porta de entrada (à direita) para o 1º andar do «Atelier de alfaiate Old England, Duarte & Raymundo»; o prédio onde esteve o café/cervejaria "Porto-Club" e, mais tarde, o restaurante Paris; a Tabacaria de Arnaldo Soares, já no prédio que a Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão habitou.
Dos mais antigos estabelecimentos que ainda funcionam na actual Praça da Liberdade, e situados a nascente da praça, temos a Farmácia Birra & Irmão (ao lado do antigo café Central, depois, café Imperial e, hoje, uma loja McDonald’s), que veio para aquele sítio transferida do Largo dos Lóios.
De notar que, a Farmácia Albano, situada no lado poente da Praça D. Pedro, era mais antiga do que a Farmácia Birra & Irmão, pois, quando a Birra chegou à praça, vinda dos Lóios, já há muito tempo, tinha encerrado portas.




A poucos metros da esquina era o Camanho – Ed. Arnaldo Soares



Sobre a foto anterior e tendo como referência a esquina, a partir de 1901, o «Restaurante Camanho», era antecedido pela «Cervejaria Porto-Club» (3º toldo) e pela «Tabacaria Arnaldo Soares» (2º toldo).


Engraxador exercendo a sua profissão, na Praça D. Pedro, com o lado nascente da praça em fundo






Vista para nascente da Praça D. Pedro em 1897



Pela esquina representada na foto acima, pegado à Igreja dos Congregados, esteve a Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão e, mais tarde, durante dezenas de anos, o Banco Nacional Ultramarino.
A Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão, teve origem em 1896, tendo terminado em virtude de falência, em 1934, quando já desenvolvia a sua actividade no palacete das Cardosas, na Praça da Liberdade, 35-37.
Entretanto, as suas  instalações primitivas, na Praça da Liberdade, viriam a ser adquiridas, em 1917, pelo Banco Nacional Ultramarino, para instalação da sua filial no Porto.
 
Por esta razão, a Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão mudaria, na sequência, para novas instalações, no Edifício das Cardosas.



“Construído em finais do século XIX, o edifício do Banco Nacional Ultramarino, no gaveto sudeste da Praça, apresentava uma linguagem mais eclética do que os restantes edifícios da mesma frente poente da Praça, cujos alçados herdavam ainda a estrutura compositiva do extinto convento dos Congregados. O edifício possuía as duas fachadas idênticas e três níveis, tendo o primeiro destes os vãos rematados por arco abatido, sendo o central mais estreito. No segundo nível, com varanda central, os vãos eram sobrepujados por frontão curvo no vão central a por frontões curvos interrompidos nas laterais. O último nível repetia os vãos do nível imediatamente inferior, ostentando apenas um frontão triangular acima do vão central. Sobre o edifício, platibanda balaustrada com espaldares centrais.
Com o rasgamento da Praça pela avenida, os interesses do Banco seriam de expansão física do edifício, adquirindo para tal dois lotes vizinhos para realizar o intento. Este, traria ao edifício, a par da sua expansão para norte, mais um nível e uma mansarda (adulterada posteriormente) ao longo da cobertura que completava a obra. A intervenção colonizaria todo o novo edificado sob a linguagem arquitectónica do antigo edifício, de tal modo que se viria a tornar difícil a identificação do antigo edifício na nova massa aglutinadora que a intervenção de forma monumentalizante havia criado”.
Fonte: Rafael Santos Silva, In Tese de Mestrado (“Praça da Liberdade: 1700-1932”)



Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão e Igreja dos Congregados, na década de 1910, seguramente, após 1913, pois a entrada da igreja já é feita à face da rua







Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão Banco, substituído depois, no local, pelo Nacional Ultramarino – Fonte: Centro Português de Fotografia, Cliché 420





Nos dias de hoje, o Edifício do Banco Nacional Ultramarino, muitos anos após a ampliação 



Instalações da Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão, em 1920 – Ed. Photo Guedes



Acima observa-se que as novas instalações da Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão, no Edifício das Cardosas, estão a ser alvo de remodelação, encontrando-se a fachada tapada por painéis produzidos pelas Propagandas Caldevilla fazendo publicidade à «revista semanal ABC». Mais tarde, esse local, seria ocupado pela Farmácia Vitália, que já por aí estava.





Praça D. Pedro em 1904



Fotograma da Praça da Liberdade, em 1928 - Ed. Cinemateca Portuguesa



Vista actual da perspectiva da foto anterior - Ed. Google Maps



Pela comparação do fotograma com a foto acima, se vê que, em 1928, os edifícios da tabacaria “Deus dá Sorte”, do café Imperial e do café Suisso, ainda não tinham sido construídos, mas o edifício “Joaquim Emílio Pinto Leite”, onde esteve o Banco Pinto Leite, já estava em pé. No início da década de 30, o Bank of London & South America comprou o edifício, transformou-o e ampliou-o.
Em 1936, já todos os edifícios referidos estavam levantados, tendo-se mantido o edifício onde está hoje o Café Embaixador, que viu adossado a si, o Edifício “Joaquim Pinto Leite”.
O café Imperial será inaugurado em 27 de Maio de 1936, com projecto de Ernesto Korrodi e seu filho Ernesto Camilo.
O projecto é submetido por Manuel da Silva Braga à aprovação da Câmara Municipal do Porto em 4 de Julho de 1933, para obtenção da respectiva licença, a que se seguiram algumas alterações, obtendo a licença nº 910/1934.



Edifício do Café Imperial, em 1944, agora, um McDonald’s

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

(Continuação 4) - Actualização em 02/04/2019 e 19/01/2021

Na zona do Carmo, o conhecido Botequim do Martinho manteve-se aberto entre fins do século XIX até 1915.


“No ângulo da Praça Parada Leitão, onde está presentemente (em 1964) a mercearia e confeitaria Flor do Carmo. Foi fundador deste botequim, Martinho José Matias, empregou-se no botequim da Porta do Olival… O botequim do Martinho, cujo proprietário era detentor de umas venerandas e bem penteadas barbas, mantinha no seu estabelecimento, pequeno mas acolhedor, uma frequência muito escolhida, de entre a qual, cumpre-nos evidenciar as figuras do grande lírico Guerra Junqueiro e do Professor Doutor Alexandre Alberto de Sousa Pinto (1880/1982), que foi ilustre Ministro da Instrução Pública e Reitor da Universidade do Porto. Em 1915 foi o Botequim do Martinho substituído pela Casa da Índia que mais tarde, cedeu o lugar à actual Flor do Carmo.”
In O Tripeiro – Série VI – Ano IV.


A Norte da Estação de S. Bento ostentando, numa das paredes, o seu desenho original, O Café Brasil existe desde 1859 até hoje. Ao tempo, tinha duas mesas exclusivas para jogar dominó.




Café Brasil



Pela então chamada Praça D. Pedro, o célebre Café Guichard existiu até 1857, quase na esquina do antigo edifício do convento dos Padres da Congregação de S. Filipe de Nery, onde esteve o Banco Nacional Ultramarino, e que hoje pertence à Caixa Geral de Depósitos.




Café Guichard na 3ª, 4ª e 5ª porta, a contar da esquina




Após ter encerrado a 5 de Fevereiro de 1857, apareceram nos anos seguintes mais três cafés no mesmo quarteirão, o Portuense, o Central e o Camanho.
Sobre o Guichard, onde Camilo parava, bem como Sousa Viterbo, Arnaldo Gama, Faustino Xavier de Novais, Alexandre Braga, Soares de Passos e outros intelectuais, escreve Firmino Pereira:


” (…) às noites, no Guichard, esses moços da Távola Redonda, escorropichavam copinhos de hortelã-pimenta, declamando Lamartine, Soares de Passos e João de Lemos. Era o botequim dos Alfredos e dos Manricos, de melena revolta e alma ardente de labaredas românticas. Aí se reuniam habitualmente os literatos, os poetas e os românticos que vinham das agitações do cerco e da Patuleia e que, entre um cálice de licor e uma fumaça de charuto, decidiam dos destinos e da arte da política. No Guichard os poetas suspiravam, mas também batiam... e levavam. Nestes tempos de balada e murro, o botequim era o centro de toda a vida portuense. À volta de uma mesa compunham-se odes, combinavam-se raptos e planeavam-se conjuras.
(…) De resto no Guichard (onde o italiano Trucco iniciara o tripeiro nas delícias do sorvete) muitas vezes sucediam-se casos trágicos de murros vingadores”.


Paredes meias com o local onde esteve o Guichard, mas posterior a ele, a meia dúzia de metros, a Norte, esteve entre 1870 e 1917, O Camanho, propriedade de um cidadão de origem espanhola de nome José Camanho.
Manuel José Camanho chegou ao Porto nos meados do século XIX e aqui acabou por montar um pequeno bar, "de uma porta só", voltado para a Praça D. Pedro, nas imediações do célebre Café Baviera,  onde abriu o café Camanho. Antes, tinha sido empregado numa cervejaria que havia sido fundada por Frederico Clavel, na Rua do Bonjardim, n.ºs 148-150. Deste, o estabelecimento passou, em 1868, para um seu empregado, o espanhol Manuel José Camanho que, passados dois anos, o transferiu para a Praça D. Pedro e volvidos oito anos o ampliou.
Frederico Clavel estava bem estabelecido no ramo cervejeiro, possuindo uma fábrica de cerveja nas Escadas do Codeçal, que em 1865, transferiu para a Rua de Camões, n.º 91.
Por descrições feitas por quem conheceu bem “O Camanho”, a sua sala não era muito ampla mas era arejada e bastante iluminada (uma característica pouco comum aos cafés daquele tempo que, por regra, ocupavam salas pequenas e pouco ventiladas), e que rapidamente se transformou no centro de cavaqueira e de reunião preferido dos literatos, professores, políti­cos e negociantes do Porto desse tempo.
O estabelecimento começou por servir quase que exclusivamente bebidas, principalmente as bebidas tradicionais daqueles tempos:
“ (…) o porto, e havia-o da colheita de 1815; a genebra Fockink, nas suas tradicionais botijas de grés; o então muito apreciado gim; várias marcas de uísques escoceses; e, claro, o alucinante absinto”. 
Mas não tardou que começasse a ter um esmerado serviço de restaurante sendo especialmente apreciados os pratos de peixe, as costeletas e onde se almoçava, jantava ou ceava, lampreia à bordalesa e bifes de caçarola, por pouco mais de cinco tostões.
Lá, se reuniam Guerra Junqueiro com a sua inseparável bengala, Rodrigo Salgado Zenha, Camilo, o pintor Francisco José de Rezende e tantos outros famosos artistas, políticos, literatos e cientistas do tempo.
Guerra Junqueiro ia frequentemente e era conhecido por sair às 11 horas em ponto, quando ouvia as badaladas da torre da Lapa.
O café Camanho haveria de receber, em Novembro de 1908, o rei D. Manuel II, durante uma sua visita ao Porto. O convite, para o efeito, partiria do Dr. Júlio da Fonseca Araújo (presidente da Associação Comercial do Porto entre 1906 e 1911).
Guido Severo ( Francisco Guimarães), cronista da época, escreveu, que por lá passaram:


" (…) as melhores rodas do Porto" e especificou: "jornalistas e poetas; mundanos e "noceurs"; comerciantes, industriais, professores, banqueiros, enfim, tudo o que tinha um nome na política, na ciência, na literatura, na arte, na esfera dos negócios e no âmbito das ideias, ou mesmo qualquer pessoa que começasse a afirmar-se em radiosas esperanças, dentro do minúsculo mas curioso caleidoscópio da vida portuense daquele tempo, não desdenhava de abancar, de forma transitória ou diariamente, ao redor das mesas de mármore branco do Camanho". 


O sítio da sala mais ruidoso, onde as conversas decorriam num tom mais acalorado era aquele em que se juntavam os jornalistas. Quase todos, os daquele tempo, por lá passavam. Citamos apenas os mais conhecidos: João Grave que dirigia o "Diário da Tarde"; Pai Ramos, de "O Primeiro de Janeiro"; Marcos Guedes, correspondente no Porto de "O Século"; Guedes de Oliveira; e o caricaturista Manuel Monterroso.


Sobre os meados do século XIX Luís Ramos escreve:

“Era esta a cidade dos janotas que, na Praça de D. Pedro, esperavam as meninas, eventuais herdeiras de dotes de 80 contos em apólices, que saíam da missa dos Congregados. Desfeiteados, podiam ir namorar as pensionistas temporárias do Convento de Ave-Maria, punindo-se por pecados sociais, atendidas pelas criadas, rodeadas de baús de roupa, de joias, licores e pastéis de ovos. Enquanto os chefes de família jogavam dominó nos cafés, bebendo copinhos de cana e comendo figos secos – ou tomando chá à inglesa –, a família, se dispunha de 2 mil réis ou mesmo 4 mil, podia ir até à Praça, ou à Rua do Almada, tirar o retrato daguerreotipado, em tom de ouro e azul, ao gosto inglês.”



Em 1917, a Avenida dos Aliados já andava a ser aberta a bom ritmo.
Nesse ano, o Banco Nacional Ultramarino comprou, na Praça da Liberdade, o edifício onde funcionava a casa bancária Pinto Fonseca & Ir­mão. Ficava mesmo pegado àquele em que funcionava o Camanho, que também foi adquirido. E assim acabou um dos míticos locais de reunião da intelectualidade portuense, na transição do século XIX para o século XX.
Depois da compra daqueles edifícios pelo Banco Nacional Ultramarino, o filho do fundador do Camanho, Carlos, mudou, só com a secção de restaurante, para a Rua de Sá da Bandeira nºs 31-39, onde ainda se conservava em 1936, quando, nesse mesmo local, abre o Café Cabo Verde.
Por cima do balcão na foto abaixo, vê-se uma escada de acesso às prateleiras cheias do Camanho, das mais variadas bebidas.



Café Camanho



Na foto acima está o velho Manuel José Camanho ladeado pelo moço da copa e pelos criados Pedro e Tomás.
Para se fazer uma ideia de como no Porto daquele tempo se apreciava a boa mesa, para além do Camanho, ficaram célebres muitos outros restaurantes: Porto Clube, com serviço de gabinetes; Café Suisso, com serviço de restaurante no primeiro andar, com salas e gabinetes; Café Central que daria lugar, anos mais tarde, em 1936, ao Café Imperial (hoje McDonald´s), tendo sido fundado no local onde depois se levantou o Café Embaixador dos nossos dias.



No 2º prédio a contar da esquerda é o Camanho, na Praça D. Pedro



Publicidade ao Camanho, já na Rua Sá da Bandeira em 1923



Cafés importantes instalados a partir da 2ª metade do século XIX foram entretanto desaparecendo da actual Praça da Liberdade, de que são exemplo O Lusitano, mais tarde passou a O Portuense e depois a O Suisso, O Camanho, O Ventura, O Central que cederia mais tarde o espaço ao Imperial e situado na Rua do Bonjardim O Lisbonense.
Em 1860, o café da moda era O Portuense que ocupava o mesmo espaço inicialmente ocupado pela Hospedaria Resende e, desde 1853, pelo Café Lusitano.
O Café Lusitano abriu as suas portas ao público em 17 de Abril de 1853 e funcionou, algum tempo, na esquina da Praça D. Pedro e a Rua de Sá da Bandeira, hoje Sampaio Bruno, sendo que, o seu proprietário foi obrigado a fazer profundas obras de remodelação, para adequar o espaço à actividade, de café, pretendida. Em 1854, é concedido alvará de licença a António José Ribeiro, para que o seu café tivesse jogo de bilhar.


“Na esquina da Praça de D. Pedro e Sá da Bandeira (actualmente Sampaio Bruno), O Lusitano abriu em 17/4/1853, ocupando 2 portas para a praça e 5 para Sá da Bandeira. Um tal Ribeiro, que tinha tido um botequim em cima do muro, fez obras muito avultosas, gastando mais de dois contos de reis, para transformar uma alquilaria e um forno de pão num dos mais requintados botequins do Porto. Segundo José Fernandes Ribeiro pois "precisava de muitos preparos a fim de servir para o que agora serve: soalhos, estuque, pinturas, guarnições, douraduras, escadas, cozinha interior, etc. etc."
Fonte: portoarc.blogspot



“O então proprietário do café não conseguiu aguentar, as despesas da remodelação, tendo sido obrigado, em 15 de janeiro de 1860 a ceder o estabelecimento ao velho Chaves, que passou a ser o seu proprietário, tendo-lhe alterado o nome para Café Portuense”.
Horácio Marçal- Os Antigos Botequins do Porto


Então, vindo da Rua de Santo António, o empresário João José Lopes Chaves, dono do Café Portuense, com portas abertas desde 1851, vai na Praça D. Pedro, ocupar o lugar do Café Lusitano.


"Ontem abriu-se o novo Café Portuense da Rua Nova de Santo António. Todos admiraram o luxo deste belo estabelecimento. A concorrência foi extraordinária."
In jornal "Periódico dos Pobres" de 13 de Janeiro de 1851


"João José Lopes Chaves previne o respeitável público desta cidade que a abertura do seu estabelecimento, que se mudou da rua de Santo António para a Praça D. Prdro, nºs 105 e 106 e rua de Sá da Bandeira, nº 8 a 12, terá lugar no dia 16 do corrente.
O proprietário, tendo feito uma viagem a Paris, aonde se forneceu de tudo quanto era mister, parece-lhe que o Café Portuense está o primeiro café de Portugal  e poderá competir com os primeiros de França."
In jornal "O Boletim" de 17 de Janeiro de 1860



«Na segunda feira é a abertura do "Café Portuense", situado na Praça de D.Pedro. Não é um estabelecimento asseado e decente, é rico em todo o sentido, sendo o primeiro Café que há em Portugal.
O sr. Chaves não calculou despesas para apresentar um Café que pode competir em riqueza e gosto com os primeiros Cafés do País.»
In jornal "O Boletim" de 14 de Janeiro de 1860 (Sábado)



Muito luxuoso, dos mais notáveis da época, com muitos espelhos e candelabros, o café Portuense, “Possuía uma sala especial para as senhoras tomarem os sorvetes que ali eram servidos com apurado requinte. Para se avaliar do luxo desta casa de bebidas basta saber-se que as cadeiras – coisa inobservável no tempo presente se mostravam estofadas a veludo cor de carmesim. Este concorrido botequim, que durante o dia mantinha as mesas sempre ocupadas com os jogos do dominó, do Bóston e do voltarete e á noite era muito frequentado por comerciantes.”


Em 1868, o Café Portuense era vendido e fechava portas.




In jornal "O Comércio do Porto" de 10 de Novembro de 1868



Anos mais tarde, na década de 1870, abriu o Café Suisso, de Pozzi Cª, que sucedeu ao Café Portuense. Em 1873, já estava de portas abertas de acordo com anúncio seguinte.


In "Jornal do Porto" de 29 de Maio de 1873



Tinha pastelaria no rés–do-chão e restaurante e bilhares no 1º Andar.
Foi primeiro café concerto do Porto, proporcionando à sua clientela boa música executada por um terceto de piano, violoncelo e contrabaixo, muito apreciado no Porto.
Em 1887, junto ao Café Suisso abriria o Café-Restaurante Áurea, como se pode ler no anúncio seguinte:


“Café Áurea-Restaurante: abre hoje o Café Áurea, sito na praça de D. Pedro, junto ao Café Suíço. É uma nova instalação elegante, propriedade do Sr. Nogueira.
Pintura e decoração do Sr. Marques”
In jornal “O Primeiro de Janeiro”, de 1 Fevereiro de 1887; Cortesia de Guido de Monterey (“O Porto 2”)


Entretanto, um outro Café Portuense abriria na esquina da Rua do Bonjardim com a Rua Sá da Bandeira no edifício onde esteve no seu cunhal, uma fonte.



Publicidade ao Café Portuense (na esquina da Rua de Sá da Bandeira e Rua do Bonjardim)



Praça D. Pedro junto à Câmara



Em frente, à direita, o Café Suisso em 1900



Na foto acima, à direita, vemos o Café Suisso na esquina do que é agora a Rua Sampaio Bruno e a Praça da Liberdade, e com os antigos Paços do Concelho, ainda de pé, à esquerda.
O Café Suisso teve grande notoriedade no espaço urbano da cidade portuense.
Nos finais do século XIX, foi considerado o melhor da cidade, atendendo ao luxo da sua decoração interior, recheada de espelhos e candelabros, após uma grande remodelação que sofreu, passando, inclusivamente, a ser frequentado por grandes personalidades da literatura e da política da cidade.

 
 

Publicidade ao Café Suisso – In jornal “A Voz Pública” de 1 Fevereiro de 1902


 
Inauguração das instalações remodeladas do Café Suisso - In jornal “A Voz Pública” de 1 Fevereiro de 1902
 
 

Em 6 de Fevereiro de 1902, o Jornal “O Primeiro de Janeiro” anunciava que nessa noite se iria realizar um primeiro concerto no café Suisso.
Aquando da remodelação da Praça da Liberdade, após a mudança dos Paços do Concelho ocupou, no mesmo local, um outro edifício completamente novo.
O café Suiço vindo do século XIX, como Suisso, atravessou mais de metade do século XX, tendo encerrado as suas portas em 1958.
Foi ainda uma referência para os portuenses que gostavam de bilhar, pois viram no seu salão mostrar as suas capacidades, aquele que viria a ser um vice-campeão mundial de Bilhar às 3 Tabelas, em 1961, quando representava o Leixões Sport Club, o portuense Egídio Vieira que, por vezes, também se exibia no vizinho café Imperial.
Aquela prova do calendário mundial realizou-se em Amesterdão (Holanda), mais concretamente no histórico Grand Hotel Krasnopolsky.
 
 
 

Egídio Vieira (Portugal), à esquerda, Adolfo Suarez (Peru), à direita, no Campeonato Mundial de Três Tabelas de 1961- foto: Wim van Rossem (1929-2000), fotógrafo holandês 




Interior do Café Suisso em meados do século XX




Café Suisso, em 1932. em novo edifício


À esquerda, o Café Suiço, em 1937, segue-se a Farmácia Birra e o Café Imperial que, em 1936, tinha sido inaugurado, em novo edifício, substituindo o Café Central






O Café Lisbonense no 3º quartel do séc. XIX ficava na Rua do Bonjardim, onde mais tarde foi a sede do Banco Borges.
Este café apresentava uma orquestra de Inverno (quarteto dirigido pelo violoncelista Júlio Caggiardi).
O Café Ventura foi inaugurado em frente ao Café Suisso, em 1891, na Rua Sampaio Bruno, que se chamou outrora, Rua de Sá da Bandeira, no local em que esteve o Café Embaixador.
Proporcionava concertos musicais com assiduidade.
O Grande Café Central, preferido dos estudantes, situou-se onde está o actual Imperial vindo, em 1897, do local onde esteve o Café Embaixador, dos nossos dias.
O denominado “Grande Café Central” tinha ocupado este espaço desde 15 de Novembro de 1885, onde, anteriormente, estava a chamada “Antiga Casa do Florindo”.

“Inaugura-se amanhã o Grande Café Central, estabelecido na esquina das ruas de D. Pedro e Sá da Bandeira, defronte do café Suisso.”
In jornal “Primeiro de Janeiro”, de 14 de Novembro de 1885 – Sábado


“Ruas de D. Pedro e Sá da Bandeira. Antiga casa do Florindo. Abertura amanhã, Domingo, 15 de Novembro.
A vastidão do estabelecimento, a sua excelente situação e a forma por que se acha decorado, fazem supor que merecerá na concorrência do público. Bilhares magníficos.”
In jornal “O Primeiro de Janeiro”, 14 de Novembro de 1885 – Sábado



Em 2 de Agosto de 1888, era inaugurado o Café Central, na Foz, na Rua Senhora da Luz, n.º 246, quase à esquina com a Rua de Cadouços.

“Na rua Senhora da Luz, da praia da Luz, acaba de ser aberta uma sucursal do Café Central do Porto, com restaurante anexo”
In jornal “O Primeiro de Janeiro”, cit. Guido de Monterey, “Porto”, v. 2, p. 636


Em 1908, o Café Central da Foz tinha gerência de António José Borges.
Sobre o Grande Café Central, na Praça D. Pedro, dizia o jornal “O Primeiro de Janeiro” em 8 de Outubro de 1896:

“Nesta excelente casa há todas as noites concertos.”

E em 16 de Dezembro de 1897, dizia o mesmo jornal, sobre o Grande Café Central:

“Mudou para a praça D. Pedro, 127, visto ter passado as anteriores instalações para o Credit Franco Portugais.
Reabrirá na Praça D. Pedro a 1 de Janeiro de 1898.”


Após as obras de fundo a que foi sujeito, em 30 de Dezembro de 1900, seria feita a reabertura do Grande Café Central em instalações totalmente remodeladas.
Com firma de “Basílio de Sá Carneiro & Sobrinho”, a fachada do Grande Café Central destacava-se pelo cristal e ferro bronzeado, tinha ao serviço 10 mesas de bilhar e a decoração, ao estilo Luís XV, da autoria de José da Silva Carvalho.
Neste capítulo, sobressaíam os espelhos da Saint Gobain, tendo uma grande diversidade dos equipamentos sido fornecidos pela “Aurifícia”. Como dizia o jornal “A Voz Pública” em 30 de Dezembro de 1900, o “Water Closet” (Sanitários ou Lavabos) era completamente inodoro e a iluminação em bico de gás, o denominado “Bico Moderno”, apresentava candeeiros da Casa Navarro.
Por outro lado, a gerência foi entregue ao sócio, o jovem Augusto da Costa Carneiro.

 

 

 

 

Publicidade ao “Grande Café Central”, in Jornal “A Voz Pública”, em 30 de Dezembro de 1900







O Café Central (1897/ 1933) depois Café Imperial, à direita da foto



O Café Imperial foi inaugurado pelo empreendedor e homem de negócios Manuel da Silva Braga, no dia 27 de Maio de 1936, com a presença do presidente da Comissão Administrativa da Câmara, professor Mendes Correia.



Café Imperial, antigo Café Central



Café Imperial - Cortesia Manuel Ermengol


Interior do Café Imperial - Cortesia Carlos Romão



No dia 16 de Outubro de 1937, foi inaugurado o moderno salão de bilhares do Café Imperial.