sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

(Continuação 52)


Este edifício fica na Rua da Boavista nº158, aí funcionando o Grande Colégio Universal desde 1910.
Pertenceu a uns tios de Almeida Garrett que recebiam a visita dele de vez em quando.
Numa dessas visitas Almeida Garrett teve um acidente na Carvalhosa, tendo caído do cavalo e sido arrastado vários metros, do que resultaram alguns ferimentos no escritor.
Ostenta na sua fachada um brasão dos Silvas, Almeidas e Leitões.

Grande Colégio Universal na Rua da Boavista nº 158

O Colégio Universal actualmente – Fonte: Google maps 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

(Continuação 51)


Foi morada do banqueiro Manoel Pinto da Fonseca na esquina da Avenida da Boavista com a Rua de Belos Ares, e destruído por um incêndio no dia 14 de Outubro de 1926. 
Nesse incêndio pareceram 5 bombeiros municipais, cujos funerais emocionaram e consternaram toda a cidade.
O palacete, à data, pertencia ao capitalista portuense, Manuel Joaquim de Oliveira.



Ataque ao incêndio no palacete em 1926 – Ed. Foto Alvão – CPF; Fonte: portoarc.blogspot.pt




Combate ao incêndio no Palacete Manoel Pinto da Fonseca na Avenida da Boavista - Fonte: Revista Ilustração



Fonte: Revista Ilustração em 1 de Novembro de 1926


Na mesma rua na esquina oposta fica o palacete da viscondessa de S. Tiago de Lobão.
Na planta de Teles Ferreira de 1892 é possível observar que o palacete já existia nessa data e será bem anterior.


Com o nº 1 o Palacete Manoel Pinto da Fonseca



Manoel Pinto da Fonseca foi um banqueiro, que, em conjunto com o seu irmão abriria a casa Pinto da Fonseca & Irmão que viria a falir em 1933.
Manuel Pinto da Fonseca nasceu em 10 de Outubro de 1804 em Divino Salvador de Moure, Felgueiras. Era filho de Francisco Pinto Lemos e Violante Ribeiro da Fonseca e irmão de Joaquim Pinto da Fonseca e António Pinto da Fonseca.
Sabe-se que em 1872 Camilo Castelo Branco mandou inutilizar toda a edição de um romance que então tinha a imprimir: - "A Infanta Capelista"; e que, nesse mesmo ano, alguns meses passados, fazia publicar, editado pela editora de Ernesto Chardron, "O Carrasco de Vítor Hugo José Alves", cuja acção e personagens são inteiramente iguais aos do livro condenado.
Nele são referidos os grandes negreiros Fonsecas, Manuel e Joaquim.
O primeiro, Manuel Pinto da Fonseca, foi porventura o único grande negreiro invocado, até então, pelo nome próprio, na ficção portuguesa e assim classificado, nos anos quarenta, no Rio de Janeiro, pelos comissários ingleses ali destacados para fiscalizarem o tráfico de escravos, como o maior deles. Regressado a Portugal em 1851, Camilo Castelo Branco faz-lhe referência e ainda ao seu cognome de “o Conde de Monte Cristo”, pela ligação que tinha tido ao tráfico de escravos no Brasil, onde fez uma fortuna colossal.



Palacete Manoel Pinto da Fonseca


Palacete Manoel Pinto da Fonseca na Avenida da Boavista - Ed. Estrela Vermelha

Vista actual da foto anterior-Fonte: Google Maps


Remodelação feita em 1898, acrescentando a fachada poente voltada para a Rua dos Belos Ares



terça-feira, 19 de dezembro de 2017

(Continuação 50)


Esta "Casa" foi uma das primeiras construções da cidade influenciada pela Exposição Internacional de Artes Decorativas de Paris, de 1925.
Em estilo Art-Deco, localiza-se na Rotunda da Boavista nº 151, desde 1927, em projecto do arquitecto Júlio de Brito (1896-1965). 

Júlio Brito apoiou-se na colaboração “do arquitecto gaiense Manuel Marques que tem obra bem marcante na cidade do Porto e que, em 1930, era um dos (únicos) 5 arquitectos portugueses com diploma passado pelo Governo Francês, sendo discípulo de Marques da Silva. Manuel Marques estudou em Paris no final da década de 10 e década de 20, tendo visito a exposição de Artes Decorativas de 1925 onde colheu influências Art-Deco que aplicou nos seus primeiros trabalhos no Porto. E este é um dos primeiros trabalhos que fez em co-autoria com o "consagrado" arqt.º e engº Júlio de Brito, que assinou o projecto como engenheiro.”
Com os nossos agradecimentos a  António Alves

Situada a cerca de uma dezena de metros da Rua Caldas Xavier, é de notar na sua fachada a aplicação de diferentes tipos de mármores e o requinte do trabalho dos metais do gradeamento e os motivos dos relevos impressos bem no alto. 
Na época a que se referem as datas acima citadas, tinha existência na cidade, na Rua dos Vanzeleres, a fábrica de malhas "Domingos Fernandes & CIA" uma referência importante no sector industrial têxtil.
O arquitecto Júlio de Brito obteve o diploma de arquitectura em 1926, foi professor no Liceu Rodrigues de Freitas e foi o projectista, entre outros: do Edifício da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe, no gaveto da Avenida dos Aliados e da Rua Rodrigues Sampaio; da Confeitaria Ateneia, na Praça da Liberdade; do Edifício do Café Aviz, na Rua de Aviz; da Livraria Figueirinhas, no gaveto da Rua de Ceuta e da Rua José Falcão; do Edifício da CIFA, na Rua de Ceuta e do Edifício de gaveto das Ruas Duque de Loulé e Alexandre Herculano.
A sua obra mais emblemática é, porém, o Teatro Rivoli.


Casa Domingos Fernandes - Ed. MAC 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

(Continuação 49)


Moradia no gaveto da Rua D. João IV e Rua Fernandes Tomás


“Esta moradia, procurando imitar alguns dos modelos existentes, mas ainda assim original em vários aspectos, foi erguida segundo vontade do proprietário Joaquim Soares da Silva Moreira, comerciante de torna-viagem original de Moreira da Maia, que não só foi vereador da Câmara Municipal do Porto e comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, como se destacou enquanto administrador do Banco Aliança e como accionista da Companhia Aurífica. Marques da Silva projectou-a em 1904 para o seu cliente, mantendo alguma fidelidade para com a arquitectura portuense da época, mas ainda assim conjugando-a com as linhas das Beaux-Arts de Paris, tendo escolhido os melhores materiais através de uma notória ausência de restrinções orçamentais.
Mais tarde a moradia sofrerá novas alterações. Em 1914 é acrescentada uma varanda virada para o jardim e em 1925 uma garagem no quintal, dispondo de arrecadações no piso superior. Ainda hoje se distingue pelo seu jardim, que cobre uma área situada num estreito entre a Rua D. João IV e a Rua Comandante Rodolfo de Araújo, ambas com ligação à Rua de Fernandes Tomás. Os gradeamentos de linhas sinuosas e os jarrões em granito que ladeiam os portões são um exemplo de outros detalhes interessantes”.
In Blog Porto Sombrio 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

(Continuação 48) - Actualização em 09/03/2018

Vivenda na Rua Honório de Lima

Construída em 1940 foi demolida em 1971 e constituiu uma referência na arquitectura da cidade da autoria do arquitecto Viana de Lima (1913-1991) que revolucionou a prática arquitectónica nacional no período do pós-guerra, tendo sido foi colega de Januário Godinho, Agostinho Ricca e Mário Bonito.
Esta vivenda é para alguns, uma deliberada aproximação a Le Corbusier.
Na sua extensa obra nas áreas do planeamento e da arquitetura assinalem-se ainda o plano de urbanização para a cidade de Bragança (início em 1960), o Bloco Habitacional de Costa Cabral no Porto e a Faculdade de Economia da Universidade do Porto.


Vivenda na Rua Honório de Lima


Eduardo Honório da Lima (1856-1939), que viria a ver o seu nome dado a esta rua, foi um rico empresário portuense, coleccionador de arte e grande amador de música, foi, em 1881, um dos fundadores da sociedade de concertos «Orfeon Portuense», de cujo conselho de administração fez parte durante 57 anos. Possuidor de uma notável galeria de pinturas de artistas contemporâneos, manifestou em vida o desejo de que os seus 21 quadros de Silva Porto fossem doados ao Museu Nacional de Soares dos Reis, o que a sua viúva cumpriu, reservando-se ali uma sala para o grande paisagista, com a legenda «Doação de Eduardo Honório de Lima».
É avô de Jorge Nuno Pinto da Costa, o presidente do Futebol Clube do Porto.

Prédio de Viana de Lima


O prédio icónico da foto acima fica na Rua Costa Cabral, próximo da Rua Silva Tapada.




Edifício da Faculdade de Farmácia na Rua de Aníbal Cunha

O imóvel que faz gaveto com as ruas de Aníbal Cunha e de Álvares Cabral foi construído especificamente para acolher a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto. Durante os primeiros anos de funcionamento, esta Faculdade ocupou um edifício na Rua do Rosário. Porém, a insuficiência das instalações levou o Conselho Escolar e, logo a seguir, o Senado Universitário, a equacionar a necessidade de construção de um edifício próprio. O terreno foi doado pela Câmara Municipal do Porto e a Faculdade apenas teve de recorrer a empréstimos para a edificação.
A 1 de Fevereiro de 1916 deu-se o lançamento da primeira pedra na presença do Presidente da República e o início das obras teve lugar no mês seguinte. Em 1918 já decorreram aulas na ala construída do lado sul. A construção, de planta rectangular e com a frente voltada para a Rua de Aníbal Cunha (na época, Rua da Carvalhosa), foi projectada pelo engenheiro Arnaldo Casimiro Barbosa.


Desenho do Projecto de reconstrução do Edifício da Rua de Aníbal Cunha (Alçado lateral norte)


Fachada principal a Poente da Faculdade de Farmácia em 1939 – Ed. SIPA

“No início de 1927, o edifício ainda não se encontrava concluído. Por incumbência do Conselho Escolar da Faculdade, o arquitecto Aucíndio dos Santos ficou responsável pela execução do projeto. Durante os dois anos seguintes tiveram lugar obras de beneficiação da fachada voltada para a Rua da Carvalhosa, construiu-se uma varanda no corpo principal e modificaram-se as guarnições das janelas.
A inauguração oficial ocorre em 13 de Abril de 1937 nas comemorações do centenário da Academia Politécnica da Escola Médico-Cirúrgica do Porto.
 Com o passar dos anos e o envelhecimento natural do edifício, houve lugar para mais obras de recuperação, para a construção de um pavilhão situado nas suas traseiras, inaugurado em 1966 e até para a construção de mais um andar para fazer face à insuficiência das instalações. Com dois pavimentos, o corpo central albergou o Salão Nobre e a escadaria.
Em 1975, um violento incêndio destruiu a quase totalidade do edifício.
A Faculdade de Farmácia partilha actualmente as instalações com o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, na Rua Jorge de Viterbo Ferreira”.
Fonte: “sigarra.up.pt/up”

A Faculdade de Farmácia nas suas novas instalações na Rua Jorge de Viterbo Ferreira, desde 2012, veria, entretanto, ser inaugurado a 10 de Maio de 2013, o seu novo museu - um espaço que reúne um espólio alargado e de grande valor científico de objectos emblemáticos da história da farmácia e da ciência em geral.
Com previsão de conclusão para 2019, irá ser feito um aproveitamento para habitação, do antigo edifício da Faculdade de Farmácia do Porto, distribuída por 25 apartamentos. É um projecto da autoria de Armando Rui, de reabilitação do edifício pré-existente, que manterá a sua traça e estilo originais, mas, terá a si geminado uma nova construção com uma linguagem arquitectónica contemporânea, que marca um propositado contraste entre ambos. Nesta data a obra ainda não arrancou.
Sobre o topónimo de Aníbal Cunha, diz-nos Teo Dias em ruasdoporto.blogspot.pt

“ANÍBAL AUGUSTO CARDOSO FERNANDES LEITE DA CUNHA, nasceu no Porto em 1868. Como sargento, tomou parte na revolta de 31 de Janeiro. Exilou-se para Espanha e para o Brasil, amnistiado, regressou em Julho de 1894; habilitou-se com o Curso Superior de Farmácia, a cujo corpo docente veio depois a pertencer, contribuindo sempre para o engrandecimento desta profissão, designadamente na transformação das Escolas de Farmácia em Faculdades, e na, construção do edifício actual nesta cidade. Foi desta Faculdade muitos anos professor, director, e ainda internamente, vice-reitor da Universidade. Morreu em São Mamede, em 1931, no posto de tenente-coronel farmacêutico, deixando impressos alguns trabalhos sob química e farmácia”.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

(Continuação 47)


Situado na Praça de Almeida Garrett em frente à Estação Ferroviária de S. Bento este edifício foi a sede da Casa Bancária José Augusto Dias, Filho & C.ª, fundada em 1886 e extinta na década de 30 do século XX.
O edifício seria, mais tarde, ocupado pela Companhia Portuguesa de Rádio Marconi, o que contribuiu para a designação mais usual pela qual é conhecido.
Entretanto devoluto, o prédio sofreu obras profundas para o adaptar a "Welcome Center" do Turismo do Porto e Norte.




Edifício da Casa Bancária de José Augusto Dias, na 2ª década do século XIX – Ed. Emílio Biel e Companhia; Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt” 

Na foto acima é também observável o escritório da empresa “Minas de Carvão de S. Pedro da Cova”.


Cheque da agência em Lisboa da Casa Bancária de José Augusto Dias


Publicidade à Marconi em 1962 – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.pt”

Fachada actual do Edifício da Marconi – Fonte: Google maps

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

(Continuação 46)


(Nota prévia: o presente texto tem por apoio principal o blogue “doportoenaoso” de que é administrador o Professor Ricardo Figueiredo, que no tratamento da história do Porto é para nós uma referência importante, salvaguardadas algumas opiniões que temos sobre esta matéria e outras investigações pessoais.)


Palacete do Visconde de Veiros em 1833 – Ed. Joaquim Cardoso Villanova (1792-1850)

Na década de 50 do século XIX a quinta é descrita na "Necrologia de José de Sousa e Melo", como:

“(…) a magnífica Quinta de Santo António da Boavista, chamada das Águas Férreas, por ter uma fonte desta água junto aos seus muros [a S., no topo da R. das Águas Férreas], pertence aos Sousas e Melos, e principia em um sítio alto fronteiro à Igreja da Lapa, em cujo cume tem um mirante donde se descobre a cidade, Foz do Douro, e grande extensão de mar; corta esta parte da quinta a rua chamada do Melo onde está o seu palácio e capela de Santo António; tem bonitos jardins, e hortas ajardinadas, e um anfiteatro, com estátuas, e bela escadaria por onde se desce para uma planície, que se dilata até à Estrada de Cedofeita [actual R. Barão de Forrester], aonde há uma meia-laranja com dois mirantes, que se comunicam por uma varanda de pedra, com um gradão de ferro por baixo: tem uma excelente cascata, e muitos tanques e chafarizes com grande abundância de água; bosques, pomares, e diversidade de ruas com paredes formadas de limoeiros, aveleiros, e outras árvores floridas, que a tornam sumamente recreativa, sendo por isso muito frequentada.”

A publicação da "Necrologia de José de Sousa e Melo" atrás referida é acompanhada de uma "Planta das Quintas dos Melos de Santo António das Águas Férreas, na cidade do Porto", que apresenta a quinta dividida, pela Rua do Melo, em duas partes: a Quinta de Cima, a Este daquele arruamento, de reduzida área e cujo limite Sul, alinhado com a fachada Sul do palácio, confina com a "Quinta de José Vieira de Carvalho e outras terras confinantes com os quintais das casas da R. da Boavista"; e a Quinta de Baixo, a Oeste do arruamento, correspondente aos terrenos envolventes ao palácio.
Por sua vez Pinho Leal, In “Portugal Antigo e Moderno” refere-se à quinta nos seguintes termos:

“Palacio e quinta de Santo Antonio da Bôa-Vista, ou das Aguas-Férreas — do sr. José Leite de Sousa Mello da Cunha Sotto-Maior, filho do fallecido visconde de Veiros. 
A sr.ª D. Maria Rita Leite de Sousa Freire Salema de Saldanha e Noronha foi feita viscondessa de Veiros, em 8 de agosto de 1810. O sr. João de Mello e Sousa da Cunha Sotto-Maior foi feito visconde do mesmo título, em 7 de dezembro de 1842. (Vide Veiros.) 
E' uma aprazível vivenda, próximo às Aguas-Férreas, e à rua da Boa-Vista. Pertence a esta familia, desde 1760, sendo seu primeiro dono, José de Sousa Mello. Em 1809, foi quartel general do governador das armas do Porto, o general inglez, Nicolau Trant. Quando Trant sahiu do Porto, tornou para este palácio José de Sousa Mello, e n'elle residiu até julho de 1832, em que sahiu da cidade, e foi para a sua casa da Régua. Os liberaes tomaram conta da propriedade, fazendo do edificio, paiol da pólvora. Mudado este, para o palácio da quinta do Bispo (contigua à quinta da China, que lhe fica a E., e ao antigo seminário, que lhe fica a 0.) se estabeleceu no palácio das Aguas- Férreas o asylo da mendicidade, até 1845, em cujo anno tomou conta da propriedade e a veio habitar o visconde de Veiros. Em 1855, se estabeleceu aqui o hospital dos atacados do cholera-morbus. Em 1857, estabeleceu- se n'este palácio, o collegio de Nossa Senhora da Guia. Desde 1861 até 1869, esteve aqui o hospital militar, transferido de S. João Novo; até que se mudou para o novo hospital militar, de D. Pedro V, que fica a uns 400 metros a 0., na rua da Boa-Vista”.
Fonte ”doportoenaoso”

No texto anterior Pinho Leal errou na referência que fez ao Asilo de Mendicidade, pois, esta instituição ocupou o palacete após o ano de 1845.


Asilo de Mendicidade no Porto na Revista Popular, n.º 24 de 12 de Agosto de 1848

Acompanhando a gravura acima, em texto anexo, explicitava-se que dois anos antes, em 1846, o Porto ainda não tinha aquela obra assistencial, o que viria a ocorrer naquele ano.


“Palacete do visconde de Beire, às Aguas Ferreas. Aqui estiveram o Asylo de Mendicidade, antes de mudar-se para as Fontainhas, e o hospital dos colericos durante a epidemia de 1855”.
Alberto Pimentel no Guia do Viajante no Porto; Fonte ”doportoenaoso”


No texto anterior Alberto Pimentel deveria querer referir-se ao visconde de Veiros.
O visconde de Beire é outra personagem proprietário da chamada Quinta dos Pamplonas, bem perto desta, com implantação em parte, no solo do que é hoje a Rua de Álvares Cabral.


“A. S. Dias (?) Vista do Palacio dos S.as e Mellos, situada na rua chamada do Mello, junto as Aguas-Ferreas na Freg.a de Cedofeita do Porto tirada da meia laranja junto a Escada do Jardim principal para a Quinta de Baixo” – Fonte: blogue “doportoenaoso”


Na gravura acima a escadaria está lançada para a fachada virada a Sul e com o seu eixo longitudinal com orientação Oeste-Este.


Solar dos Sousa e Melo na Planta de Balck em 1813

Legenda:
1. Solar dos Sousa e Melo
2. Actual Travessa das Águas Férreas
3. Actual Rua das Águas Férreas


“Planta das Quintas dos Mello de Santo António das Agoas Ferreas no Porto, Lith. de J. C. Lemos e A. S. Dias. Para melhor compreensão a planta foi reorientada no sentido norte-sul” – Fonte: blogue “doportoenaoso”


Na planta anterior o palacete está implantado na zona colorida.


Quinta assinalada como Souza Mello e a fonte de Agoas Ferreas em 1839,  e J. Costa Lima Júnior, AHMP – Fonte: “doportoenaoso”


Na planta acima é visível o Aqueduto de Salgueiros e a meio a planta do palacete.


Cronologia da ocupação do Palacete da Quinta das Águas Férreas


Em 1741, António da Costa Cardozo, Sargento–Mor do Concelho de Gondomar por Patente Regia de 30 de Maio de 1741, é Senhor com a sua mulher D. Marianna Thereza Pereira, da dita Quinta e Prazos.
Joze de Souza e Mello ao casar, em 1760, com a filha de António da Costa Cardoso, D. Rita Miquelina Victoria da Costa Cardoso, Senhora da Quinta e Prazos de Santo António das Agoas Férreas, torna-se o proprietário da Quinta.
João de Mello e Sousa da Cunha Sotto Mayor, 2º Visconde de Veiros (1793-1854) herdou a quinta de seu tio José de Souza e Mello, em 1839.
O título nobiliárquico, recebê-lo-ia pelo casamento com D. Maria Rita Leite, filha primogénita de Francisco de Paula Leite de Souza (1747-1833) Comandante da Armada, 1º Visconde de Veiros em 1822, herdando por isso o título.
Em 1809, foi a Quinta das Águas Férreas, quartel-general do governador das armas do Porto, o general inglês, Nicolau Trant. Quando Trant saiu do Porto, tornou para o seu palácio José de Sousa Mello, e nele residiu até Julho de 1832.
Na sequência dos acontecimentos do Cerco do Porto e, após José de Souza e Mello, em 1832 ter saído do Porto para ir primeiro para a Régua e depois para Braga, onde veio a falecer (como se disse em 1839), a Quinta das Águas Férreas, seria utilizada como paiol até 1836, pelos liberais.
Cerca do ano 1845 a quinta teria passado, por decisão Régia à posse plena do seu herdeiro, o 2º visconde de Veiros, João de Melo e Sousa da Cunha Souto-Maior e, em 1846, aí seria instalado o Asilo Portuense de Mendicidade, oficialmente inaugurado em 8 de Julho de 1848.
Pela morte em 1854 do 2º visconde de Veiros passa a ser proprietário da Quinta das Águas Férreas, o seu filho José Leite de Sousa Mello da Cunha Souto-Maior, 3º Visconde de Veiros.
Segundo o 2º visconde de Veiros, João de Mello e Sousa da Cunha Souto Maior, sobrinho e herdeiro, seu tio, José Sousa Melo era:

“Joze de Souza e Mello foi Cavalleiro professo na Ordem de Christo, e Commendador da Commenda de Lourenço Marques na mesma Ordem : Fidalgo Cavalleiro da Caia Real.
Vereador prepetuo, e o Decano do Illm.º Senado da Camara, e como tal servio de Capitão Mor da Cidade e seu Destricto, no tempo da Guerra Peninsular. 1.° Administrador Geral do Correio, e Creador deste Lugar por conta da Real Fazenda. Proprietário do importante Officio de Thezoureiro e Recebedor do Consulado daquela Alfandega, e anexas. Vice-Provedor da Illm.ª Junta d' Administração da Companhia Geral d’agricultura das Vinhas do alto Douro. Inspector das Obras dos Edeficios dos Paços do Conselho; e da Real Academia da Marinha e Commercio. Administrador do Real Colégio de Nossa Senhora da Graça e Órfãos. Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
Deputado da Junta do Subsidio Militar; Membro da das Obras Publicas; e Encarregado dos arranjos para o utilíssimo estabelecimento da Illuminação publica, que promoveo assim como outros muitos de geral interesse: tudo na referida Cidade do Porto. E no Algarve Edeficador da undécima parte de Villa Real de St.º Antonio, na Fundação desta Villa.
Joze de Souza e Mello durante muitos annos, e quasi sem intervalo desde o de 1803, foi o Decano dos Vereadores da Camara do Porto, procurando sempre assiduamente fazer manter o decoro daquelle Município.”
Fonte: “doportoenaoso”


Em 1854 faleceu o 2º visconde de Veiros.
Entre 1855 e 1857, a propriedade devido à epidemia de cólera, foi utilizada também como Hospital de coléricos.
Em 1857 ter-se-á instalado na Casa das Águas Férreas o Colégio de Nossa Senhora da Guia.
Em 1858 o Asilo de Mendicidade abandona estas instalações.
Entre 1861 e 1869, a Quinta é ocupada pelo Hospital Militar até à construção do seu novo edifício na Avenida da Boavista.
Em 1869 a quinta, segundo Pinho Leal, foi arrendada por Oswald Crawfurd, (1834-1909) cônsul de Inglaterra no Porto.


Estampa de "Portugal old and new by Oswald Crawfurd", 1880 (pág. 145) - Fonte: “doportoenaoso”


Acima observa-se uma estampa com o título de Country House, que é uma vista do pátio (virado a Norte) da Quinta das Águas Férreas do livro “Portugal old and new” da autoria do cônsul Oswald Crawfurd.
Esta personagem a propósito da descrição da propriedade referia-se à existência de uma bela capela privada no piso térreo, dedicada a Santo António.
Em 1880 a Congregação das Franciscanas de Calais adquire a Quinta das Águas Férreas para instalação de um segundo estabelecimento de ensino na cidade.
Após a implantação da República, em 8 de Outubro de 1910 é publicado o decreto que extingue as ordens e as congregações em Portugal, passando os seus bens para a guarda e posse do Estado e, em Maio de 1911, é publicada a Lei de Protecção à Infância, no âmbito da qual são criados os tribunais de menores, designados tutorias da infância.


“(…) 1880 - a Congregação das Franciscanas de Calais, cuja primeira fundação em Portugal data de 1876, com a abertura do Asilo-Colégio de Nossa Senhora do Pranto, em Ílhavo, inicia a sua expansão no núcleo urbano do Porto, adquirindo a Quinta das Águas Férreas para a instalação do segundo estabelecimento de ensino que detém na cidade; 1901 - com a legislação de Hintze Ribeiro, e na tentativa de regularizar a acção das congregações entradas progressivamente em Portugal na segunda metade do séc. 19, as Franciscanas organizam-se na Associação de Santo António das Águas Férreas, com estatutos aprovados pelo Governo; 1910 - à data da extinção das congregações, com a implantação da República, as Franciscanas de Calais detinham 19 casas, entre colégios, asilos e hospitais, asseguradas por 204 religiosas (VILLARES: p. 175); só a casa de Santo António das Águas Férreas dispunha de 33 religiosas, colégio "sempre pronto a acudir às filhas de gente pouco abonada, mas desejosa de dar-lhes educação esmerada e bases sólidas para uma vida moral e sã" (Um pouco de história, f. 14); 1910, 8 Out. - publicação do decreto que extingue as ordens e as congregações em Portugal, passando os seus bens para a guarda e posse do Estado; 1911, Maio - publicação da Lei de Protecção à Infância, no âmbito da qual são criados os tribunais de menores, designados tutorias da infância, e introduzida em Portugal uma jurisdição especialmente aplicada a crianças e jovens com menos de 16 de idade que estejam nas situações de perigo moral, de desamparo ou de delinquência; para a prossecução dos objectivos consignados na lei, o governo republicano destina bens e rendimentos das congregações extintas para possibilitar a instalação das novas estruturas judiciárias de protecção à infância, quer os novos tribunais e refúgios anexos, quer para proceder à remodelação, quando não criação, de estabelecimentos de internamento para reeducação dos menores por decisão judicial; 1912, 24 Abril - decorrido quase um ano sobre a experiência singular da Tutoria de Lisboa, é instituído no Porto o segundo tribunal central de menores que a justiça portuguesa conhece, acompanhado do respectivo Refúgio, estabelecimento anexo ao tribunal para detenção e observação médico-psicológica e social dos menores em situações que exigem internamento enquanto aguardam julgamento; para a instalação desta estrutura a Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas cede ao Ministério da Justiça a Quinta das Águas Férreas; 1912, Maio - o Vice-Reitor do Seminário do Porto propõe-se adquirir a quinta por 200 000$00 para ali instalar o Seminário dos Preparatórios, mas tal transacção não veio a ocorrer por determinação do Ministério da Justiça em estabelecer naquela propriedade a Tutoria do Porto (Um pouco de história, ...); 1912, Novembro - o tribunal começa a funcionar, tendo registado até ao fim do ano a abertura de 61 processos (Um pouco de história..., f.35); 1912, 6 Dezembro - data do orçamento e memória descritiva para as obras de reparação, conservação e modificação a efectuar no conjunto ocupado pela Tutoria Central da Infância do Porto, promovidas pela Direcção das Obras Públicas no Distrito do Porto”.
Com a devida vénia a Filomena Bandeira e Ricardo Agarez 2005/ Ricardo Agarez 2008; In “monumentos.gov.pt”

O Palacete dos Sousa Melo, visto de outro ângulo na primeira metade do século XX – Ed. Teófilo Rego, AHMP


Aqui viria então, a funcionar, a Tutoria do Porto.
Esta tutoria foi instalada aqui na sequência da lei 24 de Abril de 1912, em 24 de Novembro do mesmo ano.
A secção masculina e a secção feminina do refúgio ficaram no mesmo complexo arquitectónico, mas em alas separadas.
No interior da mesma propriedade o Ministério da Justiça construiu um novo edifício para o Tribunal de Família e Menores do Porto inaugurado em 22 de Outubro de 1988.


Nos dias de hoje, à direita, a fachada Sul do antigo Palácio das Águas Férreas. A área delimitada pelo polígono a azul, à esquerda, indica o local donde era lançada a antiga escadaria de acesso aos jardins e aos campos – Fonte: Google maps

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

(Continuação 45)


Edifício situado na Rua do Rosário nº 125/129, com projecto do arquitecto Marques da Silva.

“c. 1905 - Fundação de uma primeira oficina pelos irmãos António e Joaquim Enes Baganha, na R. de Vilar, nº 136; 1919 - construção de um prédio na R. do Rosário, integrando espaço destinado à instalação da oficina Baganha, pelo Arq. José Marques da Silva; 1920 - mudança para a nova oficina; 1934 - António Baganha morre num acidente de viação, quando se dirigia para Viseu; a partir de então a oficina passa a designar-se "Viúva de António Baganha (Casa Baganha)", nome que conservará até que os dois filhos de António, Domingos e António Baganha, se dedicam à mesma actividade do pai e tio; 1930, final da década - a oficina toma o nome de "Baganha & Irmão"; 1964, Jul. - dissolução da sociedade entre os irmãos, pelo que a oficina se passa a designar "Oficina de Escultura Decorativa Domingos Enes Baganha"; 1974 - com as mudanças políticas e sociais, a oficina entra em declínio; 1975, Out. - encerramento por motivo de falência; 1976, 27 Fev. - Domingos Baganha alerta o Secretário de Estado do Trabalho para o "variado e grandioso património artístico único no seu género no País e que está em risco de se perder se as entidades responsáveis não lhe lançarem protecção"; posteriormente deve ter manifestado ao Museu Soares dos Reis e ao IPPC a sua vontade de doar o espólio; 1978, Dez. - sob ordens do IPPC, desloca-se à oficina uma comissão formada pelo Dr. Florido Vasconcelos e Drª Clementina Quaresma; 1979 - o edifício pertencia a diversos herdeiros, não dispondo nenhum deles de meios para o adquirir na totalidade; a sua avaliação foi feita pelo Eng. Joaquim Vieira Mendes Jorge; 1982, 30 Jul. - oficializa-se a doação da colecção por Domingos Enes Baganha ao Museu Nacional Soares dos Reis; 1983, 5 Jan. - doação oficialmente aceite pelo Estado; 1994, Fev. - morte do doador.”
Fonte: “monumentos.gov.pt/”



Pérgola da Foz


Uma das obras mais visíveis de António Enes Baganha data de 1931. É a Pérgola da Foz, em frente à Praia do Molhe. Custou 53.000$00.
Sobre o edifício da rua do Rosário é o texto seguinte.

“Paredes exteriores em alvenaria de granito rebocado; Fachada principal rebocada; Pavimentos interiores em soalho de madeira e mosaico cerâmico; Paredes interioes com acabamento a rebocado estanhado; Cobertura em estrutura de madeira e revestida a telha de barro; Revestimento da mansarda das traseiras a placas de ardósia; Caixilharias de madeira pintadas; Guardas em ferro; Figuras decorativas em reboco.
(…) Este edifício confronta a N. com o nº 135, que foi em tempos adquirido pelo Domingos Enes Baganha, onde se julga ter funcionado um armazém de peças. Neste é ainda visível no logradouro um pequeno forno ligado à actividade do Baganha. No momento actual encontra-se em avançado estado de degradação, mas é onde se encontra grande parte do espólio a ser inventariado e armazenado. O sobrinho e afilhado de Domingos Enes Baganha continua a trabalhar em estuques na firma QUERELLE. Domingos Baganha trabalhou em muitas obras na cidade do Porto com o Arq. Marques da Silva. A sua oficina elaborou ao longo da sua existência propostas para concurso de obras de restauro e conservação para a DGEMN e IPPAR, onde as executou na sua grande maioria: Igreja de Serzedelo, restauro dos frescos das paredes das naves da Igreja de S. Sebastião da Ilha Terceira, Casa do Infante, Castelo de Chaves, Convento de Arouca, Igreja de Santa Clara, Igreja de Vilar de Frades, Igreja de S. Francisco, Igreja de S. Cláudio de Nogueira, Igreja de Longos Vales, Igreja Matriz de Vimioso, Impermeabilização do Castelo do Queijo, Matriz de Caminha, Matriz de Viana do Castelo, Muralha de D. Fernando, Muralha de Valença do Minho, Muralha de Chaves, Museu Alberto Sampaio, Paço dos Duques de Bragança, Repartição Pública de Valença, Castelo de Melgaço, Igreja de Paderne, Igreja de S. João dos Calvos, Mosteiro de Sº. André de Rendufe, S. Domingos de Guimarães, Sé de Miranda do Douro, Sé de Braga, Igreja de Santa Clara de Vila do Conde, Centro Universitário da Mocidade Portuguesa, Igreja e Torre dos Clérigos, Matriz de Torre de Moncorvo, Palácio das Carrancas, etc.”
Com a devida vénia a Isabel Sereno, 1994; In “monumentos.gov.pt/”


Edifício Oficina de Enes Baganha



A partir de 1995 a firma CRERE ficou a ser o fiel depositário da colecção deixada por Domingos Enes Baganha. A CRERE é uma empresa na área das indústrias culturais, com actividade centrada na conservação e restauro de património imóvel, integrado e móvel. Teve uma ligação estreita com a Oficina Baganha, e foi incumbida pela viúva de Domingos Baganha, por vontade manifesta deste último, da missão de perpectuar a sua obra.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

(Continuação 44)



Na Quinta de Vale de Amores, na margem esquerda do rio Douro em frente a Massarelos, ainda hoje é possível observar nas imediações do edifício em tempos ocupado pelos monges menores da regra de S. Francisco, um outro em ruínas, que já foi um palacete pertencente a Primo Monteiro Madeira, um antigo proprietário de uma casa da Rua do Campo Alegre onde está, actualmente, o Clube Universitário do Porto.



Palacete da Quinta de Vale de Amores – Ed. Luís A. Sá; Fonte – “portoarc.blogspot.pt”

Muro da Quinta de Vale de Amores – Fonte: “portoarc.blogspot.pt”

Parte de projecto de obras de 1925 do palacete da Quinta de Vale de Amores – Fonte: “arquivo.cm-gaia.pt”


No pedido de licenciamento de 1925, o requerente Primo Monteiro Madeira, pretendia a reforma e ampliação do prédio, sito na Quinta de Vale de Amores, Lugar do Cavaco, Freguesia de Santa Marinha, com o arquitecto J. Pinto de Oliveira como Técnico Responsável.
Nos anos 60 do século passado a quinta de Vale de Amores pertencia à família do Dr. Leopoldo Mourão.