sexta-feira, 30 de junho de 2017

(Continuação 22)


O Jardim de Arca d’Água, na Praça 9 de Abril, foi projectado por Jerónimo Monteiro da Costa e inaugurado em 1928. Apresentava então um lago e uma imponente gruta, bem ao gosto romântico da época. Na altura da sua inauguração, plantaram-se uma centena de plátanos a delimitar as largas alamedas laterais. Aquele projectista também desenhou outros jardins do Porto, tais como o da Boavista, do Infante, da Praça da República, do Carregal e de Carlos Alberto.
O jardim deve o seu nome às 3 nascentes de Paranhos (Arca d’Água ou Mãe d’Água) que foram o sustento de muitas fontes e chafarizes do Porto, até finais do século XIX.


Praça 9 de Abril em 1939 numa vista aérea


“Em 1919 o jornal O Primeiro de Janeiro lança uma campanha para que se faça uma piscina naqueles terrenos. Argumentava que a passagem de um manancial de água e, também se sugeria, que tal permitia fazer desaparecer um campo de futebol, mais ou menos improvisado, que ali existia.
Mas em 1921 nada se fizera, e o jornal “Sporting” retoma o problema, e faz uma resenha daquela iniciativa. Cita uma acta da reunião da Câmara, onde se diz que aquela construção teria valores elevados que a autarquia não dispunha, e que por isso iria ser apresentado um projecto de ajardinamento do local, tirando-o do aspecto de baldio que apresentava, incluindo nele um lago, que posteriormente poderia ser adaptado a piscina”.
Fonte: futebolsaudade-victor.blogspot.pt


Antiga gruta do lago da Arca d’Água

Gruta actual


Lago do jardim

Neste local, ainda um descampado, desenrolou-se a 7 de Fevereiro de 1866, no sítio da Mãe d’Água, um célebre duelo que ficou nos anais da história da cidade.
Luís Miguel Queiroz descreve-o da forma seguinte: 

“Em 1865, a imprensa da Universidade de Coimbra dava a lume um opúsculo intitulado "Bom-senso e Bom-gosto: Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho". Antero de Quental, o autor da missiva respondia a dobrar às ironias que o patriarca das hostes ultra-românticas, o velho Castilho, ousara endereçar-lhe num posfácio que redigira para o "Poema da Mocidade", do então jovem escritor Pinheiro Chagas. Esta inofensiva troca de sarcasmos serviu de faúlha para acender uma violenta polémica, que envolveu boa parte das principais figuras literárias da segunda metade do século XIX. Camilo foi um dos saiu a terreiro a defender o poeta cego. E Ramalho Ortigão, que mais tarde se integraria plenamente na chamada Geração de 70, talvez influenciado pelo facto de ter tido Castilho como professor de Grego e Humanidades, não lhe regateou também a sua pena - e o seu braço, como veremos...-, repreendendo duramente Antero no seu "Literatura de Hoje". A ramalhal figura foi mesmo ao ponto de publicamente crismar de covarde o poeta das "Odes Modernas". Antero não gostou. E a coisa esteve para se resolver numa trivial pancadaria de rua. Mas chegado ao Porto para se esclarecer com Ramalho, Antero deu de caras com Camilo, que o persuadiu a desistir da cena de rua em favor de um duelo "comme il faut". Ramalho foi pois convidado a escolher as armas e optou pela espada, que manejava com reconhecida destreza. Antero, por seu turno, dirigiu-se a uma sala de esgrima para se inteirar das regras básicas da modalidade. Na manhã de 6 de Fevereiro 1866, paravam dois coches no largo da Arca d'Água. Apearam-se contendores e testemunhas e logo se deu início ao duelo. Foi uma coisa rápida, e pouco depois as viaturas voltavam a partir, levando, uma delas, um Ramalho combalido e de braço ao peito, a outra o impetuoso Antero, que não sofrera a mínima beliscadura”. 

Entre 1903 e 1916 realizava-se neste largo a grande feira de S. Miguel, vinda do Largo da Boavista.
Em 6/4/1922 o jardim passou a chamar-se “9 de Abril”, lembrando a terrível batalha de La Lys travada nos campos da Flandres, na Bélgica, em 1918 onde morreram muitos portugueses. Mas de tão antigo e entranhado é o nome de Arca d’Água que os portuenses é assim que lhe chamam.
Lembremos os nomes da Praça da República (Jardim Teófilo Braga), Cordoaria (Jardim João Chagas), S. Lázaro (Jardim Marques Oliveira) e outros de que ninguém se lembra do verdadeiro e actual, nome do jardim.
Segundo J. B. Correia Pinto (Toponímia Republicana), em 24 de Julho de 1924 por proposta dos moradores, a Rua da Bica Velha, em Paranhos, passa a designar-se por Rua Nove de Abril. 



Neste jardim encontra-se a escultura de Charters d’Almeida intitulada “A Família”, inaugurada em 1972.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

(Continuação 21) - Actualização em 18/09/2018


18.16 Praça da República e lugar de Germalde

Esta praça que já foi de Santo Ovídio por no local existir uma capela desta invocação, nem sempre teve a configuração actual. O jardim, por exemplo é recente, e após a implantação da República, foi denominado de Teófilo Braga.
Na Praça dos Ferradores (Praça Carlos Alberto) existiam umas estalagens, e o caminho que daí seguia por Arriba dos Ferradores (depois Campo de Santo Ovídio) e pelo Monte de Germalde (actual Lapa), levava os peregrinos no Caminho de Santiago de Compostela, passando ao lado de uma enor­me propriedade conhecida, nessa época, pela designação de "Casal do Padrão"


“Essa quinta, que era foreira à colegiada de Cedofeita foi emprazada, ou seja, alugada, em 1605, a uma tal Margarida de Carvalho.
Sessenta anos depois (1665), já se chamava Quinta da Boa Vista e pertencia ao Dr. João Carneiro de Morais, desembargador da Relação do Porto, que nela vivia e onde "instituíra e dotara de paramentos e alfaias" uma ermida da invocação de Santo Ovídio, perto do local onde desemboca hoje a Rua de Álvares Cabral, que antes se chamou Rua dos Pamplonas.
Ao lado esquerdo da capela, dizem-nos os documentos existentes no Ar-quivo Distrital, o dito desembargador "mandou fazer umas casas com seu quintal" para residência de um capelão.
Ora, foi nestas casas e capela de Santo Ovídio que, em data que se desconhece, se instalaram os religiosos descalços de Santo Agostinho”.
Fonte: Germano Silva


Na propriedade “Casal do Padrão” havia, então, uma capela dedicada a S. Bento e Santo Ovídio. Devido à sua situação privilegiada, num ponto alto, que proporcionava a apreciação de um extenso panorama que se estendia até ao mar, a propriedade passou a chamar-se Quinta da Boavista. Mas também era designada como a Quinta de Santo Ovídio, por causa de um dos padroeiros da capela. E foi com este nome que passou à posteridade.
A capela referida tinha adstrito um pequeno hospício dos frades Eremitas Descalços de Santo Agostinho (grilos) que em 1780 se mudariam para a Igreja de S. Lourenço (fora da Companhia de Jesus) e que a compraram em prestações à Universidade de Coimbra por 30 mil cruzados, e nela viveram até à extinção das ordens religiosas em 1834. A compra foi feita à Universidade porque foi a esta entidade que o Marquês de Pombal, após a expulsão dos jesuítas, em 1759, doou o antigo colégio dos padres da companhia.
A capela de Santo Ovídio ficaria, segundo a maioria dos entendidos nestas matérias, no lado poente da actual Praça da República, alguns metros antes do términos nesta praça da actual Rua de Álvares Cabral, que por esses tempos ainda não tinha sido aberta, sendo o seu leito, ainda terreno da quinta dos Pamplonas.

Imagem de Santo Ovídio


“Segundo as hagiografias do século XVI, Ovídio era cidadão romano de origem siciliana. A tradição afirma que foi enviado para Braga, Portugal, pelo papa Clemente I, onde foi o terceiro bispo no ano 95. Foi mártir pela sua fé cristã no ano 135. Está sepultado na Sé de Braga. É considerado o advogado das dores de ouvidos e dos maridos infiéis”.
A capela existente em Germalde e conhecida por capela de S. Bento e de Santo Ovídio, por ter estes dois santos como padroei­ros, fazia parte da enorme quinta da Boavista que em 1665 pertencia a João Carneiro de Morais e sua mulher, Helena de Araújo.
Ficava segundo alguns, na parte poente da actual Praça da República, mais ou menos onde agora começa a Rua de Álvares Cabral. 
Viria a pertencer aos Padres Agostinhos Descalços até 1787, onde terão construído um hospício.
Em 1787 a família Figueiroa comprou a referida capela, que seria demolida nos anos 90 do séc. XVIII.
A lógica obriga a pensar, que os Figueiroa ao destruir a capela, muito degradada, não o  tivessem feito senão para a reconstruir. 
Porém, em O Tripeiro Série V, Ano V, Vasco Valente mostra-se surpreendido com o facto, da capela ter sido destruída para a construção do quartel. (O texto está mais abaixo).
Como se pode concluir haverá duas versões da localização da capela. De acordo com o assento de casamento de Eça de Queiroz é referido: “Aos dez dias do mês de Fevereiro do anno de 1886….no oratório particular da Exmº. nubente…”.
Sobre aquele casamento, Artur de Magalhães Basto (O Tripeiro, Série V, Ano X escreve: “O casamento foi celebrado na capela particular da velha casa ou solar da grande e frondosa Quinta de Santo Ovídio”.
Poder-se-á perguntar: Será este “oratório” ou “capela” dentro da casa da quinta? Ou será a tal capela de Santo Ovídio?
Fica a dúvida…”
Com a devida vénia a Rui Cunha - portoarc.blogspot


Vasco Valente em Tripeiro, série V, ano V

No texto anterior, publicado pela Revista “O Tripeiro”, dá-se conta de uma outra teoria de localização para a capela de Santo Ovídio.
A demanda explicitada no texto anterior de “O Tripeiro” tendo terminado só em 1804, e tendo o quartel sido começado a construir em 1790, leva-nos a que nos inclinemos mais para a 1ª hipótese de localização da capela junto da entrada da Quinta dos Pamplonas e, se assim for, o Dr. Carlos de Passos não terá razão.

Com um X está então assinalado o local onde teria estado a capela de Santo Ovídio, segundo a maioria das opiniões


Na planta acima: 1- é o Campo de Santo Ovídio; 2- a Rua da Boavista; Y- é a quinta dos Pamplonas.
A partir de 1761 a ampliação do largo começou a ser feita e este daria lugar à praça respectiva que, foi, em tempos, Arriba dos Ferradores.
Em 1766, sabe-se que no dia 20 de Março desse ano, o dom abade da Colegiada de Cedo­feita fez emprazamento a Manuel de Fi­gueiroa, da "Quinta da Boa Vista, sita na Rua de Santo Ovídio, extra-muros da ci­dade do Porto, pegada ao hospício dos re­ligiosos descalços de Santo Agostinho". 
A quinta da Boa Vista passou, a partir daí, a denominar-se quinta do Figueiroa, ou da Figueiroa, e, mais tarde, quando, por he­rança, passou à posse dos Pamplonas, to­mou o nome destes proprietários.
Um dos primeiros grandes espectáculos que teve por palco a nova Praça de Santo Ovídio aconteceu, em 2 de Junho de 1793, para cele­brar o nascimento de uma nova princesa, Maria Teresa. A iniciativa foi do próprio João de Almada e Melo, que mandou mon­tar uma praça de touros no novo logradouro, "a mais bela e magnífica até então vista no reino", escreveu-se na época, e aí realizou uma deslum­brante tourada de gala. Com a construção da pra­ça e os honorários aos toureiros gastaram-se 240$000 réis.
Vizinho do Campo de Santo Ovídio existia uma elevação de terreno que hoje é o Monte da Lapa.
A este monte, desde tempos muito antigos, andava associado o topónimo Germalde, que hoje é completamente ignorado e que no passado era atribuído à tal elevação de terreno.

O nome de Germalde, teve origem na designação que, desde remotas eras, era dada a uma herdade ou casal que por ali existia. Para se avaliar da antiguidade dessa herdade ou quinta, basta dizer que o seu nome já em 1120 vem referido no documento de doação do couto do Porto, pela rainha D. Teresa, ao bispo D. Hugo. 
O Monte de Germalde era um lugar ermo e de muitos assaltos aos caminhantes e uma capela aí existente, no alto da elevação, era conhecida por capela do Senhor do Olho Vivo, esta denominação devida aos assaltos aí produzidos.
Segundo a tradição, a curiosa denominação do Senhor do Olho Vivo derivava de se recomendar aos caminhantes que tivessem “olho vivo”, para se defenderem dos ladrões que se acoitavam nas traseiras da capela, nesse lugar então solitário,“… lá em cima olho vivo…”.
O Dr. Eugénio Andrea da Cunha Freitas em seu livro “Toponímia Portuense” escreve que:
A capela do Senhor do Olho Vivo já existia junto do padrão velho de Santo Ovídio em 1755, quando se começou a edificar a igreja da Lapa. Sob o altar desta capela está ou esteve um cruzeiro datado de 1622 com as imagens de Cristo e de Santiago que dizem ter sido levantado por peregrinos indo a Compostela. Seria talvez o referido padrão velho de Santo Ovídio”.
O Engº. Monteiro de Andrade atribuía ao topónimo, outra origem:
“existia aqui uma casa onde esteve instalado um telégrafo óptico e, por tal motivo, chamavam-lhe sugestivamente o lugar do ”olho vivo”.
Hoje, numa elevação de terreno mesmo atrás da capela num cabeço, estão os restos de um moinho de vento que serviu de telégrafo, que foi posto importante de combate durante as lutas liberais devido ao seu posicionamento estratégico.
Em meados do século XIX, o moinho, situava-se numa quinta denominada de Salgueiros, por onde corria uma rua com o mesmo nome da referida quinta, no chamado lugar da Cova do Lobo, junto ao campo da Mó, "por detrás do Senhor do Olho Vivo".
Em toda aquela zona, o subsolo era sulcado por um abundante manancial cuja água, se­gundo um relatório da Câmara do Porto, de 1860, tinha origem "numa nascente localiza­da na Rua da Rainha" (a actual Rua de Antero de Quental) e que dali seguia, devidamente encanada, até ao sítio de Salgueiros, "por de­baixo da alameda da Lapa", onde se juntava ao manancial vindo de Paranhos.
A água de Salgueiros alimentava, entre outras, as fon­tes de Salgueiros, da Boavista, de Cedofeita, do Campo Pequeno, da Torre da Marca, das Oliveiras, de Santa Teresa e da Rua da Fábri­ca. 




Gravura do moinho que serviu de telégrafo - Desenho de Gouveia Portuense

Em 3 de Dezembro de 1859 deixou de funcionar o telégrafo óptico instalado na pequena casa junto ao moinho de vento, junto à capela do Olho Vivo, ao monte da Lapa.
Antes da invenção do telégrafo eléctrico, a transmissão das informações era feita por bandeiras de 3 panos, cuja posição relativa indicava uma letra, e que estavam colocadas na Sé, na Porta do Olival (ou no Palácio de Cristal), no monte de Santa Catarina e no farol da Senhora da Luz, conforme se vê na foto abaixo. Estes telégrafos ópticos de 3 bandeiras eram também chamados de 3 persianas ou de palhetas.
Habitualmente, alguns destes serviam para informar do nome do navio avistado, para que os respectivos agentes e comerciantes preparassem as mercadorias a exportar e estivessem aptos a receber as importações.

As três bandeiras à esquerda, junto do Farol da Senhora da Luz em 1858 - Ed. Frederick William Flower (prova actual em papel salgado a partir de calótipo)


Embora entre nós já houvesse conhecimento da telegrafia visual, foi com Wellington (1810/1811) que se estabeleceram as transmissões telegráficas visuais, entre as fortificações das Linhas de Torres e os seus flancos laterais, durante as Invasões Francesas. Teve esta tecnologia o seu apogeu na primeira metade do século XIX, com a invenção dos telégrafos ópticos ou semafóricos de Chappe (França), Murray (Inglaterra), Ciera (Portugal), entre outros, baseados em códigos próprios. 



Telégrafo Óptico de Chappe - Fonte: "doportoenaoso"



"Este sistema consiste na criação de uma rede de torres espalhadas pelos campos, sendo as mensagens transmitidas por um sistema de braços articulados pelo responsável pelo posto de manobra, graças a um conjunto de cabos e roldanas".
Fonte: doportoenaoso

Esta tecnologia seria maioritariamente substituída pela telegrafia eléctrica mas, com o aparecimento do código Morse foi de alguma forma reanimada com novos equipamentos: heliógrafos e lanternas de sinais, que transmitiam o código Morse. Na 1ª Guerra Mundial, funcionou como um importante meio de comunicações de reserva, sobretudo quando as linhas telefónicas e telegráficas eram cortadas pelos bombardeamentos. 
Para além do “Telégrafo de Bolas”, assim se denominava o sistema Inglês , os militares lusos sentindo a necessidade das tropas nacionais terem o seu próprio sistema, inventaram o “Telégrafo Óptico Português”: Francisco António Ciera e Pedro Folque, dois dos engenheiros militares portugueses desta época, desenvolveram os seus próprios sistemas nacionais. De menor alcance, mais baratos, mas mais eficientes, mais fáceis de usar e que imprimiam maior rapidez às comunicações . O sistema de Ciera utilizava um dicionário de 60.000 palavras ou frases.


Torre do Telégrafo da Lapa actualmente - Fonte: "doportoenaoso"



A capela do Senhor do Olho Vivo ainda lá está, na actual Rua de Antero Quental. Nela ainda se pode ver dentro de portas o cruzeiro que encimava essa elevação de terreno e assinalava justamente o Caminho de Santiago e se chamava Padrão Velho de Santo Ovídio.
No princípio do século XX passou a denominar-se “Capela do Senhor do Socorro”.

Capela do Senhor do Olho Vivo

Padrão do Senhor do Olho Vivo

O padrão da foto acima, exibe na traseira a data de 1622 mas deve ser mais antigo. Erguia-se no Alto da Lapa, junto da primitiva capela para servir os peregrinos de Santiago.
Aquando da abertura em 1842/43 da Calçada da Lapa e com o abaixamento do terreno, para tornar a inclinação do mesmo menos acentuada, a dita capela que ocupava o cimo do monte, veio ocupar o nível mais baixo do novo arruamento.
No Campo de Santo Ovídio, bem no meio, podia ver-se em tempos, um poço que matava a sede a peregrinos e viajantes, pois, era esse caminho importante para rumar ao norte e nomeadamente a Braga.
Para cuidar do poço e para “o fabricar de todo o necessário” a Câmara pagava a um ferreiro 4$000 réis por ano, pelo S. Miguel, de Setembro. Porque a Câmara não pagou em 1783 ao então zelador de nome António Pinho, este protestou, e tendo visto o pagamento feito, viu também que a câmara, a partir daí, decidiu que aquela despesa não se justificava de futuro, pois, logo mais acima junto à Igreja de Nossa Senhora da Lapa existiam copiosas fontes para que os transeuntes se abastecessem.
Um dos primeiros edifícios construídos no Campo de Santo Ovídio foi o Quartel, que foi Regimento de Infantaria 18, começado a levantar em 1790.
O Quartel de Santo Ovídio foi construído por Aviso Régio de 20 de Fevereiro de 1790 da Rainha D. Maria I para albergar o 2º Regimento de Infantaria do Porto, que fora criado em 1762 e instalado nos celeiros da Cordoaria.
O referido quartel foi executado segundo um projecto do tenente-coronel engenheiro, Reinaldo Oudinot (1744-1807) e, a sua execução atribuída a Theodoro de Souza Maldonado (1759-1799) um arquitecto das Obras Públicas.
Sabe-se que pela morte de Souza Maldonado foi José Francisco de Paiva (1744-1824) nomeado “Architecto do Real Quartel de Santo Ovídio”, e que passou a acompanhar a construção do quartel até à sua conclusão por volta de 1805 ou 1806.
Até 1820 o espaço do largo foi Campo de Santo Ovídio. A partir daí, passou a Campo da Regeneração, após o golpe de 24 de Agosto (em 1820, foi instalada a sede da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino saída da revolução liberal de 24 de Agosto, no Paço Episcopal).
Em 1823, por ter desaparecido a constituição foi outra vez campo de Santo Ovídio. Em 1826, tendo sido reposta a Carta voltou a Regeneração. Em 1828 por estabelecimento do regime absolutista, volta a ser de Santo Ovídio e finalmente em 1835 após a vitória dos liberais passa a Regeneração até à implantação da República que lhe dá o nome.


Campo da Regeneração e festas do Centenário do Infante D. Henrique – In: Occidente 1 Abril de 1894  


Quartel de Infantaria 18 na Praça da República


Nas traseiras do quartel, no Largo da Lapa encontramos a Igreja da Lapa.
Antes do majestoso templo ser construído, existiu no sopé do Monte de Germalde no sítio do Padrão Velho de Santo Ovídio a Capela de Nossa Senhora da Lapa das Confissões.
A devoção à Senhora da Lapa, que significa Senhora da Gruta, começou nesse local pela adoração de uma imagem da virgem colocada numa gruta onde existia uma nascente de água.
Um poço dessa nascente de água está hoje ao fundo da sacristia da actual igreja assinalado por um painel de azulejos que evoca a cena evangélica da Samaritana.
Essa nascente abastecia uma fonte situada junto ao quartel e que acabou por ser transferida para junto de um muro exterior do hospital da Lapa.

“O culto a Nossa Senhora da Lapa, aqui, no Porto foi introduzido entre nós, no sécu­lo XVIII, por Ângelo de Sequeira, cónego da catedral de S. Paulo, no Brasil. 
Nos começos de 1754, Ângelo de Sequei­ra encontrava-se em Lisboa onde ganhara fama de grande pregador. Trouxe-o para o Porto o governador das armas da cidade, D. Diogo de Sousa. Chegou nos primeiros me­ses de 1754 e uma das primeiras iniciativas que tomou foi a de mandar fazer uma ima­gem de Nossa Senhora da Lapa, de quem era fervoroso devoto. 
Depois de benzer a imagem, Ângelo de Sequeira pediu ao fidalgo D. Lourenço de Amorim, morador na Rua Chã, que a guar­dasse no oratório da sua casa, mas, logo a seguir, levou-a para a igreja do Convento de Santa Clara, onde ficou exposta à veneração popular, enquanto Sequeira diligenciava no sentido de conseguir construir templo pró­prio para a imagem de Nossa Senhora da Lapa. 
O sonho do missionário de S. Paulo come­çou a concretizar-se logo em janeiro do ano seguinte (1755), com o início das obras para a construção de uma capela exclusivamen­te dedicada a Nossa Senhora da Lapa. Os tra­balhos decorreram muito rapidamente, por­que foi grande o entusiasmo que se gerou em torno do projeto. 
Gente de todas as classes sociais - fidal­gos, comerciantes, sacerdotes, titulares, juí­zes, militares de alta patente e simples ho­mens e mulheres do povo - juntaram-se e, com o seu contributo pessoal, trabalhando nas obras ou dando esmolas, conseguiram, em menos de um mês, construir o essencial da nova capela. Em fevereiro de 1755, Ânge­lo de Sequeira já pôde celebrar missa no al­tar-mor do templo e, em março seguinte, organizou-se uma imponente procissão para a mudança da imagem da padroeira da Igreja de Santa Clara para o seu novo templo, que ficou conhecido por capela de Nossa Senhora da Lapa das Confissões. E aqui começou, verdadei­ramente, o culto a Nossa Senhora da Lapa. 
Um ano depois, o templo tornara-se pe­queno de mais para o número cada vez maior de fiéis que todos os dias aderiam ao novo culto. Pensou-se, de imediato, na construção de uma igreja e, em julho de 1756, iniciaram-se as obras. 
O novo templo começou a ser construí­do nas abas do monte de Germalde, tam­bém conhecido por monte de Santo Oví­dio, junto de uma fonte, num lugar ermo, considerado, então, arrabalde da cidade. O primeiro projeto foi riscado pelo arquiteto João Strobeíe e a primeira pedra foi colo­cada no dia 17 de julho de 1756. Mas as obras não avançaram. Esteve tudo parado durante três anos. Com efeito, foi só em 2 de julho de 1759 que as obras arrancaram, agora comum novo projeto do arquiteto José de Figueiredo Seixas. 
Vejam agora o que aconteceu em 1765, quando ainda se andava a construir a nova igreja, mas numa altura em que o número de devotos em torno do culto de Nossa Se­nhora da Lapa não parava de aumentar. 
Foi o caso que o pároco de Santo Ilde­fonso desse tempo, sob a alegação de que o novo templo estava a ser construído na área da jurisdição eclesiástica da sua paró­quia, reclamava o direito à administração do culto à Nossa Senhora da Lapa. O caso transformou-se numa demanda que du­rou anos. Acabou, no entanto, por ser fa­vorável à Irmandade da Lapa. 
Curiosamente, este pároco de Santo Il­defonso deve ter sido o mesmo que, por aquela mesma época, tentou embargar as obras de construção da Igreja dos Clérigos com o argumento de que, havendo já a de Santo Ildefonso, não fazia sentido cons­truir nova igreja na colina oposta àquela em que estava o templo paroquial. Ques­tão de concorrência? Vá lá a gente saber... 
No século XVIII, todo o espaço envol­vente da Igreja da Lapa foi urbanizado, mas a festa a Nossa Senhora da Lapa manteve-se inalterável pelo tempo fora, sempre no primeiro domingo do mês de maio”.
Com a devida vénia a Germano Silva

Em 1754, o Padre Ângelo Sequeira que pregava pela cidade do Porto com a intenção de construir uma capela em honra de Nossa Senhora da Lapa, veio concretizar esse desejo, ao construir a Capela de Nossa Senhora da Lapa das Confissões.
A Irmandade de Nossa Senhora da Lapa das Confissões foi instituída em 1755, a 29 de Julho, por bula papal do Santo Padre Bento XIV e, fruto das generosas esmolas dos fiéis, começou a construir-se a capela.
Dois anos mais tarde, a Mesa Administrativa da irmandade entretanto constituída, decidiu-se pela construção de uma nova igreja, segundo traça do arquiteto José de Figueiredo Seixas.
No dia 17 de Julho de 1756 foi começada a sua construção, arrastando-se a mesma, por mais de 100 anos, devido à escassez de recursos e às invasões napoleónicas.
A fachada da antiga capela ainda existe actualmente, "escondida" e "esquecida" nas traseiras do actual templo que a faz parecer minúscula.


Fachada da capela primitiva transladada para as traseiras da actual igreja

Capela primitiva no seu local inicial de instalação


Na foto acima pode ver-se a primeira Capela de Nossa Senhora da Lapa e das Confissões, no local do funcionamento do colégio da Lapa.
Ao lado da Igreja da Lapa, e no local onde esteve instalada a primitiva Capela de Nossa Senhora da Lapa, funcionou por autorização de 12 de Junho de 1792, uma escola precursora da instrução pública, que se transformou no Liceu de Nossa Senhora da Lapa ou Colégio da Lapa, e onde o escritor Ramalho Ortigão leccionou a disciplina de Francês.
Aliás, o escritor nasceu neste local na chamada Casa de Germalde.

“Na parte a nascente da igreja da Lapa, mandou a Irmandade construir um edifício para servir de seminário, onde se passaria a ministrar instrução gratuita aos filhos dos ir­mãos pobres. Durante guerra civil (1832/1834), mais propriamente durante o Cerco do Porto, os liberais de D. Pedro IV utilizaram as instalações do seminário para al­bergar soldados.
Os prejuízos causados por essa ocupação foram enormes. E como a Irmandade não ti­nha capacidade económica para fazer as obras de reabilitação, resolveu alugar as ins­talações para um colégio particular destina­do a rapazes, ao pai de Ramalho Ortigão”.
Com o devido crédito a Germano Silva


Nesta escola estudou Eça de Queiroz desde os seus 10 anos e, aí conheceu os seus futuros cunhados, que habitavam na Quinta de Santo Ovídio, bem perto do local.
O edifício do colégio acabaria, mais tarde, por ser demolido.


Aguarela da primitiva capela da Lapa e frontaria adjacente do colégio da Lapa


Voltando à igreja da Lapa de arquitectura ao estilo rococó e neoclássico, no seu coro-alto foi colocado, em 1995, um órgão de tubos da autoria do mestre-organeiro alemão Georg Jann. Trata-se do maior órgão da Península Ibérica. A 12 de abril de 2013, foi publicada em Diário da República a classificação da igreja da Lapa e do cemitério anexo como Monumentos de Interesse Público. Com a publicação do despacho do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, ficou definida também a área de salvaguarda deste monumento que abrange as ruas adjacentes e condiciona intervenções no respetivo casario à aprovação do Igespar.
No cemitério contíguo à igreja encontram-se sepultados os escritores Camilo Castelo Branco e Soares de Passos.
Voltando de novo à igreja da Lapa, na capela-mor, por trás duma pesada porta de bronze, está o coração de D. Pedro IV oferecido à cidade pela viúva a Imperatriz D. Amélia de Beauharnais, cumprindo o desejo do marido.
Sabe-se que o rei D. Pedro IV, horas antes de morrer, a 24 de Setembro de 1834, no palácio de Queluz, onde nascera, trinta e seis anos antes, chamou para junto de si a imperatriz, D. Amélia, a quem manifestou o desejo de que o seu coração, embalsamado, fosse entregue à cidade do Porto, em testemunho de reconhecimento pelos devotados sacrifícios com que os portuenses lhe haviam afirmado a sua dedicação durante o Cerco do Porto (1832 – 1833).
Como D. Pedro IV ia assistir à missa dominical e a outros actos religiosos na igreja da Irmandade da Lapa, foi aí que ficou depositado o coração, num sarcófago cuja chave está na gaveta da secretária do presidente da Câmara.
De 4 em 4 anos a porta é aberta, por funcionários da Câmara Municipal do Porto, de modo a poder substituir o líquido na jarra em que o coração está imerso.
D. Amélia de Beauharnais foi a quarta filha do general Eugênio de Beauharnais, e de sua esposa, a princesa Augusta da Baviera. Seu pai, Eugênio, era filho de Josefina de Beauharnais e do primeiro marido desta, o visconde Alexandre de Beauharnais. Quando Josefina se casou novamente com Napoleão Bonaparte, Eugênio foi adoptado como filho e feito Vice-Rei da Itália.
A princesa Augusta da Baviera, a mãe de Amélia, era filha do rei Maximiliano I, José da Baviera e de sua primeira consorte, a princesa Augusta Guilhermina de Hesse-Darmstadt.


Igreja da Lapa com uma só torre sineira


Com o quartel da Lapa em primeiro plano temos na gravura anterior, à esquerda, o Monte de Germalde. A gravura será anterior a 1867,pois, pelo menos a partir desta data, já possui duas torres sineiras, como se pode observar na gravura abaixo.


In Archivo Pittoresco, nº 4, 1867


Igreja da Lapa


Igreja da Lapa – Ed. Photo Guedes

A antiga Calçada da Lapa que se pode observar à esquerda da foto anterior, teve que ser em tempos rebaixada. Por essa razão, as casas que agora têm entrada pela Travessa de S. Brás tinham as portas de entrada para aquela calçada. Hoje em dia, essas portas devido ao rebaixamento da via, são janelas.
Por outro lado, à direita da igreja, ainda se podem ver os edifícios que faziam parte do colégio da Lapa, onde estudou Eça de Queiroz.
Numa casa contígua ao Colégio da Lapa e conhecida por Casa de Germalde, nasceu Ramalho Ortigão em 24 de Outubro de 1836.


Alameda da Lapa em 1881


A Alameda da Lapa visível na foto acima, seria franqueada ao público no alvorejar do século XIX.
Nela, durante longos anos, em despique com os festejos do Bonfim e de Cedofeita, se efectuaram animadas festas ao S. João, com grande arraial e fulgurantes iluminações.
No leito da Alameda da Lapa, assenta hoje o edifício do Hospital da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, a quem pertence, desde 1925, o antigo terreno da alameda, parte dele ainda ajardinado como nos tempos primitivos.
A construção de um hospital foi uma das primeiras ambições da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, a qual, contudo, só foi possível materializar em 1902.
Foi no ano de 1900 que D. Luzia Joaquina Bruce fez saber à Mesa Administrativa a sua vontade de legar um prédio destinado a ser vendido, de forma a permitir a construção do edifício. A primeira pedra do hospital, edifício de inspiração neoclássica desenhado por Joaquim Pinto Basto, foi lançada em 18 de Agosto de 1902, aniversário do falecimento de João António Lima, em memória de quem, D. Luzia Joaquina Bruce quis que ele fosse erigido, e que foi inaugurado, com grande pompa, em 28 de Setembro de 1904. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

(Continuação 20)

18.15 Bom Sucesso

Aldeia do Bom Sucesso


Quando se planeou a construção do Mercado do Bom Sucesso, a fonte que se vê na foto anterior ao lado da capela, foi removida para o interior da quinta em meados do século XX, para se proceder a arranjo urbanístico da zona e, em 1982, o novo proprietário da quinta, Oswaldo Lopes Cardoso Rocha Ferreira, transfere-a para uma propriedade em Barcelos, encontrando-se actualmente numa quinta que pertenceu à família Rocha Ferreira, na freguesia de Martim em Barcelos, local onde foi recolhida junto com mais algum património escultórico, que a Quinta do Bom Sucesso possuía.  


Quinta do Bom Sucesso casa, capela e fonte


Fonte de Nossa senhora do Bom Sucesso em 1950 - Ed. Teófilo Rego; CMP, Arquivo Histórico Municipal


Vista actual do Bom Sucesso - Fonte: Google Maps


Traseiras da casa da Quinta do Bom Sucesso em meados do século XX


A Rua de S. Paulo ao Bom Sucesso em 1941


Casa e Capela na actualidade

O conjunto da Casa da Quinta do Bom Sucesso e Capela é um dos poucos exemplares de casas agrícolas do século XVIII, ainda existentes no Porto, em vias de classificação como Imóvel de Interesse Público pelo IGESPAR. localizando-se na proximidade da Rotunda da Boavista.
Esta quinta ia da Rua do Campo Alegre ao Cemitério de Agramonte e do Largo do Bom Sucesso à Viela do Friagem a actual Rua Arquitecto Marques da Silva e que foi também Viela do Friage.
A Quinta de Bom Sucesso era uma antiga propriedade rural dos arredores do Porto. No século XVIII e XIX, a cidade era ainda relativamente pequena (em comparação ao seu tamanho actual), e estava rodeada por propriedades rurais, pertencentes às grandes famílias do Porto. A maioria dos seus donos vivia em permanência em grandes mansões e palacetes na cidade. Eram fidalgos, burgueses e mercadores abastados que compravam essas quintas para veraneio e recreio. Por outro lado, era de muitas destas quintas que vinham os mantimentos para a cidade, as frutas e hortaliças vendidas nos seus mercados.
Esta quinta foi construída na primeira metade do século XVIII, por António de Almeida Saraiva.
A mais antiga referência à quinta é um registo, de meados do século XVIII, relativo a uma fonte, mandada fazer pelo proprietário, António de Almeida Saraiva, negociante, residente no Largo de São Domingos, que usava a quinta como casa de veraneio. Mandou erguer uma fonte de acesso público, que esteve junto da casa e que, hoje, já não se encontra nesse local. Sabe-se que tinha uma inscrição que nos chegou até hoje registada em papel:
“Esta fonte mandou-a fazer à sua custa no ano de 1748 António de Almeida Saraiva, senhor desta quinta, e cuja água dará ele e seus sucessores quando e na quantidade que muito lhes parecer. 1748, Nossa Senhora do Bom Sucesso.”
Uma imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso estava colocada num nicho que existia na frontaria dessa fonte que fi­cava ao lado da capela. Aquela personagem,

“ (…) era um dos muitos comerciantes e burgueses abastados da cidade, que utilizava a propriedade campestre para lazer.
Construiu uma boa casa, de desenho e linhas simples e levemente rurais, e ao lado, formando um L com a habitação, uma capela barroca, de desenho mais elaborado, que dedicou a Nossa Senhora do Bom Sucesso. E baptizou a quinta como Quinta do Bom Sucesso”.
Fonte: pt.wikipedia.org

“A capela, provavelmente, já existia no ano de 1704, porque num registo paro­quial de Cedofeita desse ano vem referi­do "o lugar da Areosa, junto à Senhora do Bom Sucesso". Lugar da Areosa que no re­ferido inquérito de 1758 é indicado pelo padre Manuel Brandão como a "aldeia da Arioza". A capela ganhou fiéis, e segundo as "Memórias Paroquiais de 1758", já tinha alguns devotos que vinham desde a cidade do Porto até à capela para orar e dirigir preces à imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso.
A quinta do Bom Sucesso passou, depois, da posse de António Saraiva, para a posse de D. Maria Angélica, filha de António Saraiva; a seguir, para um neto do primeiro dono, o desembargador António Pedro de Alcântara e Sá Lopes; e, posterior­mente pertenceria a um bisneto, António de Sá Lopes, também desembargador de profissão, que a habitava em 1840. 
Depois, foi vendida a um súbdito inglês chamado Diogo Franklim que, provavel­mente, por ser anglicano, descurou o cul­to da capela e a "romaria" dos devotos foi esmorecendo. Os últimos ocupantes da quinta foram o coronel Francisco Rocha Ferreira Júnior e suas filhas. Por esta altu­ra, já a propriedade fazia parte da fregue­sia de Massarelos. 
A Quinta do Bom Sucesso era enorme. Estendia-se por toda aquela vasta área que hoje fica entre as ruas do Campo Alegre, Bom Sucesso, Marques da Silva e Largo do Bom Sucesso. Além de terrenos de cultivo, pomares e hortas, a propriedade possuía também um belo jardim feito à moda francesa”. 
Com a devida vénia a Germano Silva


Mas o avançar da cidade não poupou a propriedade. Os tempos ditaram a sua venda e urbanização. Hoje, as terras ocupadas pela quinta, outrora cultivadas, estão sob o alcatrão e o cimento das ruas e edifícios do Porto urbano do nosso tempo, e da antiga propriedade restou a casa da quinta, e a capela pegada. Estas foram por sua vez incorporadas no arranha-céus de vidro do Shopping Cidade do Porto. Estão restauradas, mantiveram a sua traça original no exterior. A casa é hoje um restaurante-bar.
A capela onde era muito venerada a imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso era procurada para patrocinar todo o tipo de sucessos: suces­so num negócio; numa viagem; no casa­mento; ao jogo; na passa­gem para a outra vida. Era costume antigo os cortejos fúnebres, que se dirigiam para o cemitério de Agramonte, ali perto, para­rem junto da fonte a urna colocada diante da imagem de Nossa Senhora. 
A capela hoje foi reaberta ao culto, ao cuidado dos Missionários da Fraternidade Missionária Verbum Dei.
Em terrenos desta quinta do Bom Sucesso haveria de nascer em 1951 o Mercado do Bom Sucesso, que até aos dias de hoje passou por algumas modificações importantes.

Mercado do Bom Sucesso a dois passos da capela

terça-feira, 27 de junho de 2017

(Continuação 19)


No início da década de 40 do século XX, começam as demolições do casario existente no local que viria a ser conhecido, como Praça de D. Filipa de Lencastre.


Casa do tribunal da Picaria

Na foto acima na actual Praça Filipa de Lencastre, esquina com a Rua da Picaria, está ainda a casa onde existiu o tribunal em que Camilo foi julgado e absolvido pela sua ligação com Ana Plácido, numa tarde de tal tempestade, que o povo dizia que “era Deus que não queria a sua condenação”. Esta casa foi de pessoas que tinham parentesco com os viscondes de Balsemão, que viviam na Praça dos Ferradores, a actual Praça Carlos Alberto.
No correr de casas baixas do século XVIII contíguas ao antigo tribunal esteve em tempos, também, o Cabaret Primavera e na esquina com a Rua da Picaria o cabaret Trianon.
À rua que se desenvolve ainda hoje à esquerda do edifício da foto acima era, como hoje, a Rua da Picaria e o sítio onde se encontra aquele friso de moradias era a Travessa da Picaria que ia até à Rua do Almada.
Desembocando na Rua da Picaria, atravessando o cruzamento da Rua do Almada e Rua das Hortas e continuando para o Laranjal, vê-se na planta abaixo a Rua dos Lavadouros que antes foi Rua de S. António dos Lavadouros.
Esta Rua de Santo António dos Lavadouros incluía portanto a posterior Rua dos Lavadouros e desenvolvia-se à época para poente e a sul do que é hoje a Praça D. Filipa de Lencastre.
Naquela Rua dos Lavadouros predominavam os vendedores de mobílias de pinho que, após a extinção da artéria se passaram para a Rua da Picaria.
Na confluência da Rua dos Lavadouros com a Rua do Almada existiu uma fonte concluída no ano de 1795.


Planta de George Balck de 1813 onde se vê a Rua dos Lavadouros (entre o trajecto AB) no término da Rua das Hortas

Na planta acima observa-se ainda que a Rua da Picaria (M) corre paralela à Rua do Almada e que esta, no seu troço inicial, partia da Rua das Hortas.


 Ao fundo da Rua da Picaria

Na foto acima vê-se o antigo entroncamento da actual Rua da Picaria com a antiga Travessa da Picaria (segue pela esquerda) com a antiga Travessa da Fábrica (segue pela direita). Ambas as travessas desapareceram e fazem hoje parte da praça de D. Filipa de Lencastre. No entanto, as casas do lado esquerdo da Travessa da Picaria (na imagem) nunca chegaram a ser demolidas e constituem hoje a frente norte da praça. Ao fundo da travessa, vê-se a garagem de "O Comércio do Porto", na Rua do Almada. O conjunto de edifícios frontais foram todos demolidos e agora está aí o miolo da praça.

Ao fundo da Rua da Picaria. Em frente a Travessa da Fábrica


Na foto acima, com exclusão do edifício dos telefones - do qual se vê um pouco, do lado direito da imagem - tudo o que é apresentado nesta foto foi demolido. Os espaços ocupados pelas antigas Travessa da Fábrica (em frente) e Travessa da Picaria (invisível pela esquerda) fazem hoje parte da Praça Dona Filipa de Lencastre.

Publicidade em 1934


Acima um folheto publicitário da Anglo Portuguese Telephone Cª Ltd antecessora dos TLP (Telefones de Lisboas e Porto) sita na Rua da Picaria.
Era num dos edifícios da Travessa da Picaria, que estavam instaladas a redacção, administração e oficinas do célebre jornal "Diário da Tarde" que era dirigido pelo insigne jornalista Eduardo de Sousa.
Por aqui e pela Rua dos Lavadouros, que ligava a Travessa da Picaria ao Laranjal, vendiam-se as caixas feitas de madeira de pinho muito utilizadas pelos emigrantes que iam para o Brasil para o transporte dos parcos trastes que com eles levavam. Não apenas as caixas, mas também a mo­bília de madeira de pinho era feita e ven­dida em oficinas e estabelecimentos dos La­vadouros e da Picaria.
Desapareceu há pouco tempo o último estabelecimento deste género que funcionava num prédio da antiga Travessa da Picaria, já muito per­to da Rua do Almada.
Outra pequena indústria fixada nos Lavadouros era a das lousas, onde se confeccionavam: lava-louças para cozinhas; lousas para escolas (o quadro negro); depósitos caseiros para reservatórios de água; cabe­ceiras para sepulturas; e placas para uso na construção de prédios. 


O antigo tribunal está lá ao fundo à esquerda da foto


No século XXI. Vista descendente da Rua do Almada no ponto onde acabava a Travessa da Picaria



Vista descendente da Rua do Almada início do século XX, no mesmo local da foto anterior. À direita era a Travessa da Picaria


Foto tirada da Rua Elísio de Melo. Os prédios frontais seriam demolidos para levantar a praça


Aspecto das demolições


A abertura da Praça D. Filipa de Lencastre

Nas fotos acima pode observar-se a abertura da praça. A Avenida dos Aliados lá ao fundo já estava traçada e com os novos edifícios.
A actual Rua de Avis era à altura Travessa da Rua da Fábrica. Na esquina dessa travessa com a Rua da Fábrica ficava a Casa da Fábrica.

Casa da Fábrica na esquina da Travessa da Fábrica com a Rua da Fábrica


Foto do fim da década de 40 do século XX

Na foto acima ainda não tinha sido aberta a Rua de Ceuta.
Ao cimo da Rua de Ceuta ligando a Rua da Conceição com a Praça Guilherme Gomes Fernandes está a Rua José Falcão que foi aberta há mais de 100 anos e que começou por se chamar Rua de D. Carlos I.
A partir da implantação da República passou a ser a Rua José Falcão.
Esta personagem foi um republicano nascido em Miranda do Corvo, doutorado em Matemática, e conhecido ainda por ter sido pai do 1º governador civil do Porto após a república.
Depois do malogrado golpe de 31 de Janeiro de 1891, para o qual muito contribuiu a sua obra “Cartilha do Povo”, José Falcão foi incumbido de reestruturar o Partido Republicano.
A rua foi aberta em terrenos da quinta da Conceição, à data nas mãos de Henrique Kendall, que os cedeu à edilidade.