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domingo, 12 de junho de 2022

25.160 O Mundo Elegante

Na primeira metade do século XIX, o mundo da moda estava, na cidade do Porto, na mão de estrangeiros, nomeadamente, franceses e ingleses.
Na realidade, a moda era francesa, quer no comportamento, quer na etiqueta. Contra o domínio dos estrangeiros lutavam como podiam os portuenses desse sector de actividade.
 
 
“As reações à invasão de todos estes comerciantes e prestadores de serviços, como modistas, alfaiates e cabeleireiros, levou a que, em 1821, uma modista portuguesa, muito aborrecida e revoltada com o sucesso das suas congéneres não nacionais, enviasse para o periódico portuense A Borboleta Constitucional, um veemente repúdio e protesto contra as “Modistas Francesas, Inglesas, italianas e hespanholas; que entre nós habitão, não só se naturalizão, mas desnaturalizão o nosso dinheiro”.
A vinda do Alfaiate de fato feito, o inglês Diogo Randall, com loja na rua das Taipas, anunciada no Correio do Porto, em 1822, também desencadeou uma reação pública, ao ponto de um assinante do periódico, apelidado de “O Carrapato”, se manifestar contra esta incursão, de uma forma bastante contundente e peculiar, chegando a afirmar que o dito Armazém, ao prometer “commodidade nos preços” só demonstrava a sua lábia de “armar ao dinheiro”.
As estratégias publicitárias e técnicas comerciais, já adotadas em Lisboa e no Rio de Janeiro, foram introduzidas na Invicta por estes recém-chegados agentes de moda, que logo aproveitaram os periódicos da época para se propagandearem de uma forma extremamente eficaz, através de anúncios no Periódico dos Pobres no Porto, O Gratuito, O Athleta, O Artilheiro, O Nacional, etc., ou nos almanaques da cidade”.
Cortesia de Maria Antonieta Lopes Vilão Vaz de Morais; In: II Congresso – O Porto Romântico
 
 
“Muitos cabeleireiros e modistas estrangeiros contratavam os serviços dos seus compatriotas. Depois de alguma aprendizagem, muitos destes profissionais emancipavam-se e montavam o seu próprio negócio. Anunciavam-se fazendo sempre referência ao seu antigo empregador, geralmente já com uma boa reputação. É o caso da modista Madame Bernardina Suére, sucessora de Madame Vignon, ou o cabeleireiro Domingos Sebastião Sanches, discípulo de Mr. Andrilliat, Cabeleireiro da Família Real que, estabelecido na rua de Santo António em agosto de 1835, abriu uma sucursal na Vila da Foz. Ou mesmo o cabeleireiro Leopoldo, representante do lisboeta Mr.Baron.
As contramestras das modistas com mais renome, depois de alguma experiência profissional, autonomizavam-se e também usavam esta estratégia, como Mademoiselle Carolina, sucessora de Madame Villaret”.
Autor Desconhecido


Ultrapassado o ponto médio do século XIX, dando resposta ao desenvolvimento e à modernização que a sociedade portuense vinha experimentando surge, em 1858, para satisfação das jovens, a revista “O Mundo Elegante”.
Aquele novo período começara, de facto, em 1851, com o ciclo político chamado de Regeneração que terá como motor principal a figura de Fontes Pereira de Melo, primeiro, com a pasta de ministro das Obras Públicas e, depois, em 1861, na Chefia do Governo.
 
 


Fontes Pereira de Melo, em 1883
 
 
O progresso atravessou, então, transversalmente, toda a actividade económica e, sobretudo, com um desenvolvimento enorme nas vias de comunicação.
No que ao Porto concerne, a cidade começa a ligar-se por uma rede viária que permitirá uma circulação mais eficaz.
Assim, em 5 de Maio de 1852, já se ia na carreira de diligência até Famalicão, com a viagem inaugural de ligação até Braga, a acontecer em 4 de Maio de 1853, num traçado cujo perfil corresponderá à conhecida N14.
Naquele percurso inicial, os passageiros apeavam-se para a travessia do rio Ave. Só, mais tarde, em 1858, foi possível fazer a travessia através da ponte pênsil da Trofa.
Antes, a travessia do rio Ave, entre Ribeirão (Vila Nova de Famalicão) e São Martinho do Bougado (Trofa), era feita com recurso à utilização de barcas. 

 
 

Ponte Pênsil da Trofa – Pintura a óleo de Alcino Costa
 
 
 
Enquanto a ligação integral do Porto a Braga, no que se tornaria a Estrada Real Porto/Braga, não ficou concluída, os passageiros tinham que se apear na freguesia de Arnoso, para que, aí, fosse construído um viaduto.
Esse local, na fronteira dos concelhos de Famalicão e Braga, ficou para sempre identificado por um obelisco, que ainda hoje pode ser observado.
Assim, os 31 Km da ligação do Porto a Famalicão passariam a fazer parte da Estrada Real 3.
 
 
 
 

Obelisco de Arnoso, na N14, alusivo à construção pela Companhia de Viação Portuense, da ligação entre Porto e Braga
 
 
 
Então, a diligência partia às 6 horas do Porto e chegava a Braga ao meio dia. Na volta, saía da cidade dos arcebispos às 15 horas e chegava à Invicta às 21 horas.
Em 1859, já era possível ir de diligência à Vila da Feira, com partidas às 2ªs, 4ªs e 6ªs feiras e regresso, às 3ªs, 5ªs feiras e Sábados.
Em meados da década de 1860, já se viajava diariamente para Braga, Famalicão, Guimarães, Barcelos, Viana do Castelo e Amarante.
E, a rede de itinerários não deixou de crescer, inclusive a referente às ligações ferroviárias.
Mas voltando ao lançamento da revista “O Mundo Elegante”, o seu aparecimento vinha dar resposta a um sector da sociedade, mais jovem, e que começava a virar as suas atenções para o que se passava na Europa, principalmente nas grandes capitais europeias.
“O Mundo Elegante”, que se publicaria no Porto de 1858 até 1860, dizia ser um periódico semanal de modas, litteratura, teatros, bellas artes, &c,.
Seria fundador da publicação o veronês Jacopo Carli que seria, também, o seu Compositor Musical, sendo Camilo Castelo Branco o seu Redactor literário.
Para além de muitas outras figuras de vulto, Francisco Marques Sousa Vitervo colaboraria assiduamente com a sua poesia.
 
 
“Jacopo Carli era natural de Verona tendo permanecido no Porto entre 1840 e 1861. Inspirado pelo ambiente musical que se vivia na cidade decidiu prestar também o seu contributo propondo à Câmara Municipal a criação de uma escola de canto que proporcionasse um ensino completo, de qualidade e gratuito. Desta forma, estudar canto estaria acessível a todos, aproveitando os talentos que, de outro modo, ficariam por desenvolver.
Carli ofereceu os seus serviços de forma gratuita. A proposta do cantor foi rapidamente acolhida pela Câmara Municipal do Porto, que desde 1846, durante o mandato do então presidente José Passos, tinha em mente a criação de uma aula de canto na cidade. Consequentemente, em 13 de junho de 1855, o jornal Eco Popular publicou um documento no qual se anunciava a inauguração de uma Escola Popular de Música Vocal da Câmara Municipal do Porto, gratuita e destinada a rapazes maiores de onze anos de idade, sendo seu professor e diretor Jacopo Carli.
O método aplicado seria o mesmo que se utilizava no Conservatório de Música de Milão por considerá-lo o mais adequado. A Escola Popular de Música Vocal estava instalada na Câmara Municipal e no primeiro dia de aulas contava com 53 alunos matriculados. O sucesso desta instituição durante os primeiros anos de funcionamento viria a ser recolhido, de forma pormenorizada, pelo jornal O Comércio do Porto. No primeiro ano o número de alunos era de 342, no ano seguinte 132 e, em 1857, 113 alunos. Um ano depois aumentara para 132 ficando com 96 alunos em 1859. Quando Jacopo Carli abandonou Portugal, por circunstâncias familiares que o obrigaram a regressar a Itália, a Escola de Canto não sobreviveu ao seu afastamento”.
Cortesia de Rosa Maria Sánchez Sánchez – In “Dissertação de Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes”
 
 
Durante a sua permanência na cidade, Jacopo Carli para além de dar aulas a alunos (as) em privado, também teve a seu cargo as aulas de piano e canto do Liceu da Ordem Terceira da Santíssima Trindade, que abriu portas em 1857, tendo sido substituído nessa tarefa, quando regressou a Itália, por Estanislau Delgado Canedo.
 
 
“Para além da sua atividade como professor, Carli foi editor da revista O Mundo Elegante, que publicava em cada número uma peça inédita de um compositor portuense. O próprio Carli chegou a publicar uma basta obra de peças para piano e para canto e piano; no entanto, as suas capacidades como compositor estavam muito longe de igualar o seu talento como professor. Na opinião de Ernesto Vieira eram «tudo cantilenas banais e outras composições publicadas, a maior parte delas para piano, também nada valem.» [VIEIRA, 1900: vol. I, p. 220]”
Cortesia de Rosa Maria Sánchez Sánchez – In “Dissertação de Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes”
 
 
 

Jacopo Carli (1820-1890)

 
 
O primeiro número de “O Mundo Elegante” foi para as bancas, em 24 de Novembro de 1858, terminando a sua publicação em Fevereiro de 1860.
“O Mundo Elegante” será pioneiro, no que à moda dizia respeito, por permitir a escrita da sua crónica de modas a modistas, embora elas fossem todas francesas. Tratava-se de duas irmãs, Mesdames Ferins, modistas com atelier na cidade e com elevados créditos.
“O Mundo Elegante” oferecia, inicialmente, estampas de moda coloridas, assinadas por Emygdio, do qual se sabe que trabalhava na Oficina Litográfica de Villa Nova f.º & C.ª, na Rua de Santa Teresa, n.º 26, no Porto.
A oficina litográfica, atrás referida, pertencia a herdeiros do conhecido litógrafo Joaquim Cardoso Victória Vilanova, falecido em 1850 e com estabelecimento primitivo na Rua do Campo Pequeno (ao Largo da Maternidade).
Teria nascido, no Porto, em 1792 ou 1793. Assinava as suas litografias da seguinte forma: "J.C. Vilanova".
Em 1850, após a morte de Joaquim Cardoso Victoria Vilanova, a oficina primitiva encerrou, aparecendo, anos mais tarde, sob a firma “Vilanova, Filhos & C.a”, na Rua de Santa Tereza, n.° 26 e, depois, na Rua Formosa, n.° 331, com a designação “Vilanova & Filhos”.
Quanto a Emygdio será, por certo, o célebre Emídio Amatucci, o proprietário de uma conceituada litografia da Rua de Santa Catarina, n.°s 19 e 20.
Em 1859, as gravuras de moda de “O Mundo Elegante” passam a ser monocromáticas, talvez com o intuito de embaratecer a publicação.
 
 
“O número de modistas na cidade do Porto era muito mais reduzido que na capital, e estas só começariam a aumentar após o Cerco, no fim das Guerras Liberais. Aproveitaram a oportunidade de negócio modistas como Madame Villaret, que se estabeleceu nesta cidade. Mas muitas destas modistas optavam por aí se estabelecer em períodos sazonais, provavelmente na época de bailes no inverno, e no início da primavera, quando as damas se ocupavam pela encomenda de novas toilettes para a estação. Era o caso da modista Eliza Gautir que sem estabelecimento nesta cidade, aí comercializava, voltando para Lisboa após o escoamento do stock”.
Cortesia de Ricardo Braga, In “A Moda no Periodismo Português Oitocentista”
 
 
 

Cabeçalho do frontispício da revista “O Mundo Elegante”, Nº 1 (24 de Novembro de 1858) - Fonte: Biblioteca Pública Municipal do Porto
 
 
 
A gravura, acima, representa uma reunião ou uma soirée, onde figuram vinte e duas personagens, evidenciando-se uma senhora que toca piano, outra que canta, as demais assistindo, todas elas rodeadas por cavalheiros.
Aquelas soirées realizavam-se frequentemente nas casas dos burgueses do Porto. Para além dessas reuniões, a Sociedade Filarmónica Portuense e a Assembleia Portuense promoviam-nas da forma mais apetecível para os mais jovens – os bailes – que decorriam durante o Inverno e Primavera.
As jovens, filhas dos burgueses portuenses, para além daquelas reuniões musicais/dançantes experimentavam a sedução do mundo exterior, fora da cerca da residência familiar, com idas regulares à igreja e, por vezes, nos fins-de-semana, acompanhadas de perto pela presença atenta dos pais, ao Jardim de S. Lázaro, normalmente para um passeio sem destino ou para ouvir uma qualquer banda actuando no seu coreto.
Assim, era, em 1858, já que os Jardins do Palácio de Cristal só apareceriam em 1865, e o Jardim da Cordoaria só abriu ao público em 1867.
Quanto aos jovens burgueses era a estúrdia completa.
Pois, é neste caldo de cultura, que a revista “O Mundo Elegante” é lançada.
Em 1858, no mundo próximo da vida de Camilo Castelo Branco, sabe-se que, em Maio de 1858, na qualidade de redactor literário de "O Mundo Elegante", às voltas com a preparação do seu lançamento, tratou e conseguiu convencer Ana Plácido, a grávida esposa de Manuel Pinheiro Alves, que daria à luz, em 11 de Agosto, o seu filho Manuel Pinheiro, a colaborar na inovadora revista.
Manuel Pinheiro Alves não concordaria com a incursão de sua esposa, como poetisa, pelo mundo da moda.
Em Outubro, falece José Plácido e Maria José, ambos irmãos de Ana Plácido.
Aliás, o desenlace de Maria José acontece quando as duas irmãs passavam mais uma temporada no Bom-Jesus de Braga, a ares, para que a jovem tentasse debelar a tísica. Por essa altura, também Camilo Castelo Branco dava o saltinho ao santuário para se encontrar com Ana Plácido e, na volta, já após a morte de Maria José, escrevia ao seu amigo, protector e confidente, José Barbosa da Silva:
 
 
“Meu caro Barbosa
(...)
A Ana está cada vez pior. Da morte da M. J., já tu sabes. Eu não posso, sem lágrimas, deter-me na triste previsão do que vai ser a minha vida. Creio que se não for um cadáver, serei um ‘cadáver moral’, um padre”.

 
Em 1858, no ano de lançamento de “O Mundo Elegante”, vários outros acontecimentos foram notícia. 
Em termos mundanos, a 7 de Novembro daquele ano, o Porto assistiria à inauguração do novo Teatro-Circo (actual Sá da Bandeira).
No balanço do ano de 1858, no que diz respeito à actividade económica, ele seria marcante, pois, em virtude de uma crise, acabariam por falir cerca de 100 empresas.
Entretanto, continuavam a chegar ao Porto e ao norte do país, os brasileiros de torna-viagem procurando, muitos deles, as jovens casadoiras da burguesia portuense.
À frente da Câmara do Porto, começaria neste ano o seu mandato, que se estenderia até 1865, o conde de Lagoaça.
 
 
 

Ilustração In revista “O Mundo Elegante”, Nº 1 (24 de Novembro de 1858) – Fonte: Biblioteca Pública Municipal do Porto
 
 
 
Naquele primeiro número de “O Mundo Elegante”, como artigo de fundo, podia ler-se:
 
 
“O Mundo Elegante será o mundo-patarata? Suspeita damninha que entra a inguiçar-me logo no principio! O mundo elegante é a sociedade polida, lustrosa, invernizada no corpo e no pensamento, na acção e na palavra, na intenção e na obra. Patarata quer dizer ostentação van. Elegamcia quer dizer escôlha. Poderão imparceirara-se as duas coisas n’um mesmo individuo, n’uma mesma classe? (…) O Mundo-Elegante faz-se para todas as caras possiveis, desde a botocuda até á georgiana; Para todas as intelligencias imaginaveis: Para todas as progenies admissiveis na ordem da propagação; Para todos as virtudes ainda as mais hypotheticas. (…) Um mundo assim elegante póde e deve ter um jornal, um como archivo dos seus fastos, uma especie de acta em que se vão escrevendo as phases da civilisação portuense. De hoje a cem annos, quando o Porto attingir o seu destino de maxima perfectibilidade, os nossos netos mostrarão este jornal como testemunho de uma civilisação remota. (…) Falta saber que este jornal abomina a sciencia. Aqui só se escrevem coisas que o leitor póde esquecer uma hora depois, com tranquilla consciencia de que não perdeu coisa alguma. Abjura-se tambem a satyra, e a critica. Cada qual póde fazer o que quizer, e viver como quizer. Respeita-se a ignorancia e o vicio: respeita-se tudo.”
Camilo Castelo Branco
 
 
Sobre o lançamento do 1º número de “O Mundo Elegante” dava nota o jornal “O Comércio do Porto”, em 25 de Novembro de 1858, e no dia seguinte, curiosamente, sempre pela pena do omnipresente Camilo Castelo Branco e que, seguidamente, se destaca.




In jornal “O Comércio do Porto” de 25 de Novembro de 1858


 
Na notícia, anterior, é possível também observar que a Sociedade Filarmónica Portuense anunciava a abertura das suas reuniões dançantes e musicais da nova época.
 
 
 

In jornal “O Comércio do Porto” de 26 de Novembro de 1858
 
 
A Lisboa, a notícia chega, no dia 26 de Novembro, através do jornal “A Revolução de Setembro”, de António Rodrigues Sampaio.
Assim:
 
“No Porto vai publicar-se um novo jornal de modas, teatros e literatura, de que será principal redator o distinto escritor Camilo Castelo Branco, e que se denominará o “Mundo Elegante”. Parece que o sr. Evaristo Basto também colaborará no mesmo jornal.”
“A Revolução de Setembro” de 26 de Novembro de 1858
 
Mais tarde, “A Revolução de Setembro” sobre o primeiro número de “O Mundo Elegante” diria:
 
“Já se publicou no Porto o 1º número do ‘Mundo Elegante’, semanário de modas, literatura, teatros, belas–artes e romances, e que é redigido pelo sr. Camilo Castelo Branco. Neste número, além da introdução, obra da pena do sr. Camilo Castelo Branco, aparece um esboço da vida de Adriana Lecouvreur, da Laura de Petrarca, e de Margarida de Valois. Todos os jornais são concordes em declarar que esta publicação será muito importante, se o sr. Camilo continuar à sua frente.”
 
 
Em 1 de Janeiro de 1859, no nº6 da revista “O Mundo Elegante”, Camilo Castelo Branco informava os seus leitores da homenagem prestada pela Câmara do Porto ao compositor Jacopo Carli, com a atribuição de uma medalha de ouro alusiva ao seu trabalho à frente da Escola Popular de Música Vocal da Câmara Municipal do Porto.
 
 

“O Mundo Elegante”, Nº 6, de 1 de Janeiro de 1859, dando conta de homenagem a Jacopo Carli com atribuição de uma medalha de ouro




Ilustração In revista “O Mundo Elegante”, Nº 10 (Fevereiro de 1859) – Fonte: Biblioteca Pública Municipal do Porto




Entre 1864 e 1866, em mais uma tentativa de incursão pelo mundo da moda, publicou-se o periódico quinzenal “Porto Elegante”.
Os seus escritórios localizavam-se na Litografia Comercial, na Rua Formosa, n.º 76, no Porto, sendo impresso na Tipografia de António José da Silva Teixeira, na Rua da Cancela Velha, n.º 62.
Eram proprietários do “Porto Elegante” F. J. Carlos Amatucci e M. A. F. de Sousa Campos e o periódico dizia ser “Jornal de literatura, ciências, belas-artes e modas”.


 
 

 
 

Estampa de moda da revista “Porto Elegante”
 
 
 
 

Anúncio no “Jornal do Porto” de 2 de Setembro de 1865 


terça-feira, 6 de julho de 2021

25.129 Estradas antigas de ligação ao Porto

 
O Porto teve várias estradas de saída da cidade que faziam ligações a vários destinos do norte do País.
Assim, saía-se para Campanhã pela Porta da Batalha em direcção ao Arrabalde (S. Lázaro) palmilhando Entreparedes.


 
Porta da Batalha – Desenho de Gouvêa Portuense
 
 
Tomava-se o Caminho do Padrão de Campanhã (Reimão, Heroísmo, Freixo), passava-se pelo Sítio do Reguinho, Cruzeiro do Senhor de Campanhã e pela aldeia da Formiga, e alcançava-se Campanhã e, mais à frente, Gondomar.
Pela Porta da Batalha, também se encetava a viagem para Trás-os-Montes, entrando na Rua Direita (Santo Ildefonso), avançando pelos Sítios do Campinho e do Pocinho, Largo de Santo André (Poveiros), Largo do Padrão das Almas (Padrão), Mijavelhas (Poço das Patas, Campo 24 de Agosto), Monte do Bonfim, S. Roque, Rio Tinto, Valongo, Paredes, Penafiel e, por aí, fora.
Pela Porta de Carros, vencida a Rua do Bonjardim, até ao Bairro Alto (Gonçalo Cristovão), a ligação ao Largo da Aguardente era feita pela rua com o mesmo nome desse largo.


 
À direita, esteve a Porta de Carros. A Rua do Bonjardim tinha o seu começo, pela esquerda, junto da igreja dos Congregados
 
 
 
Enveredando pela Rua do Lindo Vale (antiga Estrada Velha) até próximo, do que, mais tarde, seria a Rua do Cunha, passar-se-ia pelo Lugar de Aval e com uma contínua inflecção, chegaríamos ao Largo da Cruz das Regateiras (Hospital do Conde de Ferreira), seguindo-se depois as aldeias das Barrocas e Patusca, Sítio da Areosa, Lugar de Ermesinde (freguesia de S. Lourenço de Asnes do Concelho de Valongo) e com o destino a Santo Tirso e Guimarães.
A decisão da construção da estrada para Guimarães foi tomada em 1789, tendo para esse efeito sido José Champalimaud de Nussane, director das Obras Públicas da cidade do Porto, deslocado para executar essa tarefa, quando procedia ao levantamento do cais da Mosqueira ou cais das Pedras, junto da capela do Corpo Santo de Massarelos.
Pela Porta do Olival o primeiro ponto de passagem era a Praça dos Ferradores (Praça Carlos Alberto).



 
Porta do Olival – Desenho de Gouvêa Portuense
 
 
Depois, podíamos seguir a Travessa dos Ferradores (Rua das Oliveiras) e alcançar a Rua Direita de Santo Ovídio (Sovela, 16 de Maio, Mártires da Liberdade), para chegarmos ao Campo de Santo Ovídio (Campo da Regeneração, Praça da República).
Com Braga como destino, entrado o século XIX, seria percorrido um troço da “Via Romana do Itinerário de Antonino” (entre a cidade de Olisipo, actual Lisboa, à capital da região da Callaecia, a cidade de Bracara Augusta, actual Braga, passando por Portuscale, actualmente, o Porto) e ultrapassado o Campo de Santo Ovídio, seguir-se-ia a Lapa e a Capela do Senhor do Socorro, a Rua da Rainha (Rua Antero Quental), o Lugar do Sério (50 metros após o cruzamento com a Rua da Constituição).
Depois, apareceria no horizonte a Arca d’Água, S. Mamede de Infesta, Ponte da Pedra, sobre o Rio Leça e, finalmente, a Maia e mais alguns quilómetros ainda pela frente até chegar a Braga.
Entre a Arca d’Água e S. Mamede de Infesta, a partir de 1786, data da sua inauguração, passava-se pela capela de Santo António do Telheiro. 
Seguia-se a milenar Ponte da Pedra cuja construção remonta ao século II d.C. e, embora, no decorrer dos séculos, tenha sofrido diversas reparações e reconstruções, ainda são visíveis, na sua parte inferior, diversas “pedras almofadadas” características da arquitectura romana.
Pela Porta Nobre e Miragaia, seguindo pela Rua de Sobre-o-Douro, desde de tempos bem distantes, saíam duas estradas, a «Karraria Antíqua» e a «Via Veteris».
Mais tarde, nos primórdios do século XVI, surgiria a «Estrada dos Nove Irmãos», que aproveitaria o trajecto da “Via Veteris” até Modivas e passaria a servir-se, no seu início, da Rua de Cedofeita, após este arruamento ter sido aberto, c. 1800.
Então, chegados ao Largo dos Ferradores, vindos da Porta do Olival, seguiríamos pela Rua da Estrada (Rua de Cedofeita), subíamos à Ramada Alta e, daí, depois, pela Rua da Falperra (Rua 9 de Julho) e Largo do Carvalhido, podíamos:
ir à Aldeia de Francos e deambulando por Ramalde do Meio, passar ao Lugar do Moinho e seguir pelo Viso até alcançarmos a Senhora da Hora e, mais à frente, o Cruzeiro de Santiago de Custóias (próximo da igreja no Largo do Souto);
ou chegar ao Cruzeiro do Padrão da Légua depois de passar por Monte do Burgos e percorrer a Rua de Recarei.
Os dois cruzeiros, atrás referidos, eram pontos importantes para os viajantes.
 
 

Padrão da Légua. Cruzeiro na confluência da Rua de Recarei com a Rua do Senhor
 
 
 

Padrão da Légua, actualmente. Cruzeiro na confluência da Rua de Recarei com a Rua do Senhor – Ed. Manuela Campos


 

Placa quilométrica junto do cruzeiro do Padrão da Légua – Ed. Manuela Campos


Sobre a Via Veteris, Estrada Velha e a Estrada dos 9 Irmãos se referia Horácio Marçal na sua obra "S. Veríssimo de Paranhos".







A partir de determinado momento, era também possível percorrer a Rua de Cedofeita e, ganhando o Carvalhido, pela Falperra (Ramalda Alta) e pelo chão da actual Rua 9 de Julho, percorrer a Rua do Monte dos Burgos e atingir, passando pelo lugar do Seixo, o Padrão da Légua.
Algum tempo depois, o acesso ao Carvalhido era feito pela actual Rua de Oliveira Monteiro que, à época (1868), começaria a ser aberta e denominada Estrada da Boavista ao Carvalhido.
A Rua do Monte dos Burgos, cujo topónimo só aparece já em pleno século XIX deverá, na opinião do historiador Joel Cleto, associar-se a Bulgos (um género de seixos marinhos) e, esta palavra, no seu entender, teria evoluído para Burgos, por uso popular. É já plenamente aceite pelos entendidos na matéria, que os terrenos em apreço, em tempos que já lá vão, estariam debaixo do mar.
Acontece que, para lá da actual Estrada da Circunvalação, encontramos o lugar do Seixo e tudo começará a fazer sentido.
Por outro lado, há quem entenda que o topónimo Monte dos Burgos estará ligado a uma pequena posição fortificada ou torre de vigia, denominada de Burgus, que geralmente controlava uma rota principal e que se tornou uma realidade no período posterior do Império Romano e, particularmente, nas províncias germânicas. Por cá, há boas hipóteses de ter havido uma intervenção dos Suevos, muito ligados ao desabrochar da cidade do Porto.
Como os terrenos a que se refere o topónimo, em causa, integravam o velho caminho entre Calle (Gaia)/Porto e Braga, do Itinerário de Antonino, parece ser esta uma boa hipótese para o topónimo em apreço.

 

Desenho de um “Burgus” – Cortesia de Richard Mayer, In “en.wikipedia.org/”


Antes da abertura da Rua do Monte dos Burgos, de traçado actual bem rectilíneo, seria um caminho por entre propriedades agrícolas, mas integrado numa via a que era dado o nome, em toda a sua extensão, de Estrada Real do Porto à Póvoa de Varzim.
Esta importante via era referida no anúncio seguinte:

In "Jornal do Porto", em 12 de Abril de 1891



Karraria Antíqua
 
 
A “Karraria Antíqua” (actual caminho jacobeu Central Português), citada na documentação medieval, seria uma estrada secundária de origem romana que derivava do Itinerário XVI e, dessa altura, conservaria o lajeado em partes consideráveis do seu percurso, sendo larga, o suficiente, para a “passagem de carros”.
O Caminho Português Central, também conhecido por Caminho Real é o nome com que se designa a rota que segue a antiga Estrada Real, nº 30, que ligava Porto, Barcelos, Ponte de Lima e Valença.
 
 
 
 

Caminho inicial da Karraria Antíqua até Gemunde
 
 
A Karraria Antíqua chegada ao Padrão da Légua seguia em frente por Gondivai e Araújo, atravessando o rio Leça na Ponte dos Ronfes.
Por isso, imediatamente a seguir ao cruzeiro situado bem perto da Igreja do Araújo, por um caminho estreito alcançava-se, após vencer uma descida acentuada, à direita, a ponte dos Ronfes que já foi a ponte de Barreiros ou da Azenha, resquício certamente da velha estrada.

 
 
Igreja do Araújo
 
 
 

Cruzeiro do Largo do Araújo – Ed. Manuela Campos

 
 
Atravessada a ponte e, actualmente, mais à frente a Via Norte, a Karraria Antíqua passando ao lado da Quinta dos Cónegos, subia para Moreira da Maia, onde cruzava com a estrada Olisipo - Bracara Augusta (Itinerário XVI de Antonino).
Enquanto a Karraria Antíqua atravessava o rio Leça na Ponte de Barreiro ou Ponte de Ronfes, a via romana do Itinerário XVI fazia aquele atravessamento na Ponte da Pedra.

 
 

Ponte de Ronfes ou Ponte da Azenha – Ed. Manuela Campos
 
 
Aqui, na Maia, passando por Barreiros e Gemunde, embrenhava-se no concelho de Vila do Conde através da freguesia de Vilar do Pinheiro, Igreja de São Gonçalo de Mosteiró, Malta, Igreja de São Gião, Castelo medieval de Castro Boi, Mosteiro de São Bento de Vairão e continuava o seu percurso, atingindo o rio Lima, onde entroncava noutra via romana estruturante que ligava Bracara a Asturica Augusta (Astorga).
 
 

Karraria Antíqua entre Gemunde e Vairão – Fonte Google maps

 
 
Na origem, primitivamente, a chegada a Ponte de Lima fazia-se junto à margem do rio, na gafaria de São Vicente. Mais tarde, a chegada era pela Porta do Souto (actual recinto da feira).
 
 

 
Via Veteris (Estrada Velha)
 
A "Via Veteris", ou seja, "Estrada Velha" era uma antiga estrada de origem romana que ligava o Porto a Vila do Conde.
Durante o reinado D. Afonso III (1210-1279), em meados do século XIII, passaria a ser conhecida como Via Veteris (Estrada Velha).
Primitivamente tinha o seu início junto ao rio Douro, percorreria a Rua de Sobre-o-Douro e pela zona da Arrábida, entre o Couto de Lordelo e Cedofeita, alcançava, por fim, o Cruzeiro de Santiago de Custóias (Largo do Souto, referido em 1258, como “ad crucem Sancti Iacobii Costoyas”, a Cruz de Santiago de Custóias).
Atravessando o rio Leça na ponte de D. Goimil, daqui, rumava-se por Pedras Rubras, Aveleda, Modivas, Vairão e atravessava-se o rio Ave.
Alcançando Rates, flectindo para a costa atingia-se a Barca do Lago e continuava-se para Viana do Castelo.
Em Rates, rumando para Norte, chegaríamos a Barcelos.

 
 

Percurso inicial da Via Veteris até Mosteiro de Vairão
 
 
 
O seu traçado era comum ao da Karraria Antíqua, até ao Padrão da Légua.
Um pouco antes do lugar onde, mais tarde, foi implantado aquele padrão, pendia para a esquerda, em direcção a Santiago de Custóias, passando não muito longe da igreja paroquial.
Seguia então, pela ponte medieval de D. Goimil (ou de Esposade), para Petras Veyras (Pedras Rubras).
 
 
 

Ponte de D. Goimil – Ed. Manuela Campos
 
 
 
Esta via apenas faz fronteira no Padrão da Légua e em Goimil, com a freguesia de Custóias.
Foi este percurso calcorreado, em sentido inverso, por D. Pedro IV, após ter desembarcado nas praias de Pampelido para alcançar a cidade do Porto.
 
 

Estrada dos Nove Irmãos
 
 
O traçado desta estrada construída nos princípios de século XVI seguia, até ao Araújo, o traçado da «karraria», que retomava na margem direita do rio Ave.  
Foi também chamada de Estrada Velha depois da construção da estrada nacional (Porto – Viana do Castelo) em 1867.
Partia da Rua de Cedofeita, após esta ter sido aberta, passava pela Ramada Alta, Carvalhido, Padrão-da-Légua, Araújo.
Aí, passou a derivar para a ponte de Moreira, então construída, atravessando o lugar de Custió, lançada sobre o Rio Leça, hoje, exactamente ao lado de uma mais moderna.
Daí subia-se ao Mosteiro de Moreira (Padrão de Moreira).

 
 

Ponte de Moreira sobre o rio Leça, em Custió, lado a lado com outra mais moderna – Ed. Graça Correia

 
 
No ano de 1867, foi inaugurada a Estrada Nacional do Porto a Valença, para a qual se aproveitou, até ao Padrão de Moreira, o leito da Estrada dos Nove Irmãos.
Em 1 de Setembro de 1865, era dado como concluído o trajecto entre o Porto e a Póvoa de Varzim, como dava conta a notícia abaixo.
 


In "Jornal do Porto" de 1 de Setembro de 1865


 

Padrão de Moreira, junto à Estrada Nacional nº 13 – Ed. Manuela Campos
 
 
Seguia depois pelo leito actual da estrada nacional, para o território da freguesia de Modivas, onde passava pelos lugares de Sete, Arada, Padinhos, Nove Irmãos, Revilhões, prosseguia na direcção da freguesia de Gião, onde passava nas imediações da sua igreja. Mais adiante, circula entre as freguesias de Fajozes e de Vairão, onde passa ao largo do Mosteiro com o mesmo nome e do Castro Boi, atingindo a margem sul do rio Ave, na freguesia de Macieira da Maia, atravessando-o sobre a ponte de D. Zameiro.
Segue-se a Junqueira e, com muitos mais quilómetros percorridos, chegaríamos a Barcelos.

 
 

Estrada dos Nove irmãos até à Junqueira
 
 
 
 

Ponte D. Zameiro



Ligação a Famalicão (Estrada Real 3) e Estrada Real Porto/Braga

 
A ligação entre o Porto e Braga era estabelecida no tempo da ocupação romana vencendo parte do Itinerário de Antonino que ligava Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga) passando por Cale (Gaia) e Portus (Miragaia-Porto).
Seguindo para Norte, passar-se-ia pela conhecida Ponte da Pedra (para vencer o rio Leça), Maia, Peça Má e S. Martinho do Bougado.
O importante acidente topográfico que representava o atravessamento do rio Ave era vencido por uma ponte romana.
Esta ponte ficaria situada, segundo alguns especialistas, na chamada “Barca da Esprela”, junto da confluência do rio Pelhe com o rio Ave.
A viagem seguia por Lousado, Cabeçudos e Portela de Baixo (V. N. de Famalicão)
O atravessamento do Ave, durante muitos anos, na ligação do Porto a Braga passou a fazer-se pela medieval ponte da Lagoncinha que se localiza no Lugar da Garrida, na freguesia de Lousado, município de Vila Nova de Famalicão.
Construída no século XII, desde 1943 foi considerada monumento nacional e, em 1952/53, teve obras importantes de consolidação estrutural e, mais recentemente, em 2018, obras de conservação.


 

Ponte da Lagoncinha
 
 
Há muito que a ponte da Lagoncinha deixou de ser usada como leito da ligação do Porto a Braga.
A via, que viria a ser a N14, foi levantada, a partir de 1851 pela Companhia de Viação Portuense e, em 1852, estava vencido o percurso até Famalicão.
Em 1852, já chegava a Braga e, em 1855, estava completamente pronta, com a execução de um viaduto, em Arnoso, com excepção do atravessamento do rio Ave.
Em 1858, finalmente, era inaugurada a ponte pênsil da Trofa, em Ribeirão e os viajantes tinham a Estrada Real 3 ao seu dispôr.


 

Ponte da Trofa – Ed. Alberto Ferreira, Série: Série Geral, Postal: n.º 233

 
 
Enquanto esta ponte não entrou ao serviço o atravessamento do rio Ave era feito, naquele ponto, pela famosa “Barca da Trofa”.



A Ponte Pênsil da Trofa ligava S. Martinho de Bougado (concelho da Trofa) e Ribeirão (concelho de Famalicão





A antiquíssima ponte da Lagoncinha ficava mais a montante e, a ainda mais antiga “Barca da Esprela” (ponte romana), situada entre elas, também.
A notícia que se segue supõe-se que se referirá à ponte da Lagoncinha.



"Desordens na Trofa: janotas aldeões (com égua para fazerem figura nas feiras) tentam passar nas pontes sem pagar".
“Periódico dos Pobres no Porto” de 3 de Agosto de 1849, pág. 729


Actualmente, a autoestrada A 28, assegura a ligação rápida entre o Porto e Espanha e a velha N14 funciona, hoje, em muitos troços, apenas como via urbana.
Mais recentemente, desde 2015, partindo do Chiolo (Maia) junto da velhinha N14, está ser levantada, paralelamente a ela, a EN14 que está chegando a Famalicão e seguirá para Braga num futuro que se espera breve, de modo a descongestionar o trânsito intenso sobre a N14.
Aliás, desde a década de 1960, que um novo troço viário de ligação da chamada Via-Norte ao Chiolo (Maia), substituiria o traçado da N14, dentro da então Vila da Maia, sendo identificado como EN14. 
O itinerário entre as cidades do Porto e de Braga teve sempre a importância complementar de ser, também, uma das alternativas possíveis de ligação à Galiza.
A descrição do Professor Doutor Hernâni Monteiro, catedrático de Anatomia Topográfica, lida numa conferência na sede do Centro Universitário do Porto da Mocidade Portuguesa, na noite de 21 de Abril de 1947, a propósito de uma excursão a Pontevedra dos quintanistas de Medicina, dá-nos uma ideia do seu traçado.

 
 
“Deixaremos o Porto de manhãzinha, metendo pela estrada de Monte dos Burgos. Se o dia estiver de feição — alegre e de sol — rápida vai parecer a viagem, tanta é a beleza da paisagem que se desdobra até à fronteira, sempre pela beirinha do mar. Ao sossego de Vila do Conde sucede o movimento, enorme no verão, da praia da Póvoa, com seu casino de perdição. Depois dos lendários cavalos de Fão e do mar de Espozende, atravessaremos a ponte sobre o bucólico Rio Lima, cortaremos Viana do Castelo, mal tendo tempo de erguer os olhos para o alto de Santa Luzia, que nos acena com a tentação de um dos mais deslumbrantes e variados panoramas do mundo, e depressa veremos a praia de Âncora, mais além um fechado túnel de verdura, ensombrado como nave de velha catedral, e, chegando a Caminha, logo se mostrará, do lado oposto do largo estuário do rio Minho, a costa espanhola, donde se levanta a perfilada sentinela do monte aguçado de Santa Tecla, com a sua citânia, à semelhança da nossa de Briteiros. E, agora, é já Valença... e a ponte internacional... e Tuy.
Duas paragens forçadas —a Polícia, a Guarda Fiscal. Ver documentos, revistar a caminheta e as malas. Para quê, se não são homens de negócios que escondem contrabando, mas sim um grupo de moços estudantes, de olhos perdidos nos longes da paisagem, nesse desejo louco de avistar na linha do horizonte qualquer coisa dos sonhos que levam nos corações? E que melhor tesoiro hão-de querer, se
«A riqueza
Não é dispor de dinheiro,
Mas abrir a alma à Beleza,
Sentindo-a no mundo inteiro» (!) ?
Ao deixarmos Tuy e a sua pesada Catedral, nascida há oito séculos, não esqueceremos que a antiquíssima cidade foi dada como berço do célebre médico e filósofo de seiscentos, o braca- rense Francisco Sánchez, mestre em Mompilher e Tolosa, precursor, com o seu «Quod nihil scitur», das doutrinas de Bacon, Descartes e Pascal.
Agora, se houver paciência para suportar um troço mau de estrada, dentro de uma hora já poderemos poisar os olhos curiosos nas águas brilhantes da formosa baía de Vigo e nas colinas verdes que a cercam, e passear, despreocupados, nas ruas desafogadas da cidade onde nasceu, em 1824, o glorioso almirante Méndez Núnez, intrépido marinheiro, cujo nome célebre se topa a cada passo em terras de Espanha a baptizar praças, ruas e hotéis. Havemos de descer à câmara do barco que o levava por sobre as ondas do mar, quando visitarmos, na passagem por Pontevedra, o curioso e bem cuidado Museu, e teremos ocasião de ver a sua estátua em Vigo e Compostela”.
 
 
Pelo perfil da EN 13, assentava a icónica ponte Eiffel, em Viana do Castelo.
 
“Feita em ferro e desenhada no gabinete de Gustave Eiffel, a ponte que liga as duas margens do Lima, entre a cidade de Viana do Castelo e a vila de Darque, foi inaugurada a 30 de junho de 1878, tendo sido construída para substituir a antiga e precária ponte de madeira.
A ponte Eiffel de Viana do Castelo foi a primeira ponte rodoferroviária (de dois tabuleiros sobrepostos) construída em Portugal, tem 645 metros de comprimento e dois tabuleiros metálicos, sendo o superior rodoviário, para trânsito automóvel e pedestre, e o inferior ferroviário”.
Fonte: “olharvianadocastelo.pt”
 
 
 


Ponte Gustave Eiffel, em Viana do Castelo