quarta-feira, 30 de novembro de 2016

(Continuação 12)

PATRIMÓNIO MONUMENTAL E RELIGIOSO

A azulejaria do Porto, recebe elevada expressão nos templos desta freguesia.
Existem nesta freguesia, além da Igreja Paroquial de Santo Ildefonso, as igrejas dos Congregados, Trindade e do Recolhimento das Meninas Órfãs de Nossa Senhora da Esperança.
Na área desta freguesia há ainda as capelas seguintes: Capela das Almas, Senhora da Boa Hora de Fradelos, Divino Coração (Capela dos Pestanas) e do Hospital de Santa Maria.



Capela Nossa Senhora da Boa Hora de Fradelos actualmente


Historicamente data de 1283 a mais antiga referência a este lugar de Fradelos. Naquela época, Fradelos, então considerado como um arrabalde do Porto, era um lugar muito acidentado e pedregoso, repleto de terras férteis por entre as quais corria um pequeno ribeiro, o chamado Ribeiro de Fradelos, que ia desaguar um pouco mais à frente, no Rio da Vila, junto da Porta dos Carros, ou seja, na actual Praça de Almeida Garrett.
Fradelos confrontava a Norte, com o alto monte de Santo António do Bonjardim, uma enorme pedreira que foi totalmente arrasada aquando da abertura da Rua de Gonçalo Cristóvão.

“No largo de Fradelos (na actual Rua Sá da Bandeira), em frente da antiga fonte de Fradelos e lavadouros públicos, próximo da Rua de Santa Catarina está a Capela de Fradelos. É um bonito templo e faz-se à sua padroeira uma boa festividade no dia próprio, em 9 de Julho.
Em Fradelos existia uma fonte, em cujo frontispício figurava a imagem de Nossa Senhora da Boa Hora … e um hospício de monges beneditinos, e daqui a razão de ser do nome de fradelos ou fradinhos. Aquela fonte ficava situada à beira do caminho, muito próximo da rua e em local demasiado baixo, motivo pelo qual a imagem de Nossa Senhora da Boa Hora, “era facilmente exposta a várias indecências".
É assim que, não contentes com esta revoltante realidade, e no sentido de evitarem tais “indecências” os devotos de Nossa Senhora da Boa Hora (padroeira dos doentes e moribundos), entenderam ser necessário e urgente construir uma pequena ermida, junto da fonte de Fradelos, na qual com a “desejada decência” a imagem de Nossa Senhora continuasse a ser venerada e objecto de culto.
Foi a capela, construída (ou reedificada) no princípio do Século XIX, em 1804.
A 3 de Setembro de 1804, foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Hora, que recebeu o título de "Irmandade Pia"”.
De autor desconhecido

“Portanto em 1804, por iniciativa do padre Manuel Pinto Barbosa, um grande devoto de Nossa Senhora da Boa Hora, foi inaugurada junto à fonte de Fradelos uma capela, para "com a desejada decência", recolher no seu inte­rior a imagem da padroeira, a fim de aí lhe ser prestada "a devida veneração e, em seu louvor, serem celebrados os ofícios divinos". 
Com a devida vénia  a Germano Silva

Como é óbvio a fonte de Fradelos já não existe.


Capela de Nossa Senhora da Boa Hora de Fradelos em 1808

Capela de Fradelos com um acrescento à esquerda, talvez uma sacristia. 



Posteriormente, em 1849, por iniciativa de Manuel Ramos Chaves Lameiro, secretário da Irmandade que entretanto se constituíra, o primitivo tem­plo foi objecto de obras de remodelação e ampliação, que só terminaram em 1851.
No último quartel de século XIX, em 1877, a capela viria a ser removida do seu local primitivo, junto da Fonte de Fradelos, para o lugar onde se encontra nos dias de hoje, tendo sido inaugurada pelo bispo do Porto, a 9 de Julho de 1893.
Para a recuperação da capela foi essencial a doação de verba importante do capitalista João Guedes de Azevedo.
É uma construção rectangular de uma só nave, de arquitectura religiosa neoclássica.
À Rua de Fradelos que ia da capela à Rua do Bonjardim e que estava por concluir, seria dado o nome do benemérito João Guedes de Azevedo, após a sua conclusão.

Capela de Fradelos e Rua Guedes Azevedo ainda incompleta



Capela de Fradelos




Olhando com atenção vemos na foto acima, a cúpula da torre da capela da Senhora da Boa Hora, também conhecida por capela de Fradelos e, em plano recuado a torre da casa esqueleto, para exercício dos bombeiros quando os Sapadores tinham o seu quartel na Rua de Gonçalo Cristóvão.
A foto é anterior a 1929, pois, a capela, já na Rua Guedes de Azevedo, ainda não tem azulejos na frontaria.
A azulejaria interior desta capela que representa sobretudo, cenas da vida de Santa Teresinha é da autoria de Jorge Colaço.


Capela dos Pestanas

A Capela dos Pestanas anexa ao palacete do mesmo nome na Praça da República dedicada ao Divino Coração de Jesus, foi mandada executar pelo engenheiro José Joaquim Guimarães e é um curioso exemplar do estilo neogótico (1878-1888). Na frontaria, ladeando a torre, estão colocadas as esculturas de S. José e S. Joaquim (pai da virgem Maria), de Soares dos Reis.



Palacete dos Pestanas


Capela das Almas


Encravada mesmo na baixa da cidade, onde palpita febril o coração duma urbe plena de movimento e de vida, situa-se a Capela das Almas ex-libris da velha e gloriosa cidade do Porto. É um pequeno-grande templo com traça de estilo neoclássico do século XVIII (fins). Correia de Azevedo na sua "Enciclopédia da Arte Portuguesa" escreve assim, resumidamente, mas com uma apreciação muito equilibrada, a Capela das Almas. "Situa-se no ângulo das ruas de Santa Catarina e Fernandes Tomás. Tanto a fachada como a nave são muito equilibradas e sóbrias.
Mas o que neste templo interessa distinguir é o seu completo revestimento exterior a azulejos da fachada e parede lateral Sul. Tais azulejos são da autoria de Eduardo Leite. A fama dos painéis de azulejo da Capela das Almas atravessou fronteiras e espalhou-se pela Europa e pelas Américas. Para confirmar esta asserção citam-se apenas dois casos. A revista de maior tiragem do mundo a "National Geographic", órgão oficial da National Geographic Society, com sede em Washington (Estados Unidos) chamou a atenção do mundo culto para os azulejos em causa, reproduzindo a cores, de toda a parede do lado Sul da Capela das Almas. Esta reportagem vem no volume 158, n.º 6, de Dezembro de 1980. A Televisão Francesa já estabeleceu contactos para filmar um documentário dos azulejos da Capela das Almas. Pois os preciosos azulejos da Capela das Almas correram o sério risco de se degradarem, de se perderem para sempre. Foi uma preocupação séria a sua recuperação, que felizmente se fez. Trabalho moroso, difícil, dispendioso, mas que está feito. O restauro começou no dia 1 de Setembro de 1982. Foram levantados e recolocados 2 400 azulejos. Foram feitos de novo, na Fábrica Viúva Lamego, em Lisboa,28 azulejos que se tinham partido quando caíram no pavimento da Rua Fernandes Tomás. No dia 17 de Dezembro de 1982 terminava esta obra delicada e difícil da recuperação dos azulejos.
Para se fazer uma pequena ideia da importância destes painéis, basta ter em conta que, no conjunto, foram empregues pintados e cozidos) 15 947 azulejos que cobrem cerca de 360 metros quadrados de parede. Na fachada (do lado da Rua de St., Catarina) são de realçar a imaginação de cenas das "Almas do Purgatório", decorações e quadros alusivos à Eucaristia e composições sobre a vida de Santa Catarina. O painel da parede lateral voltado para a Rua de Fernandes Tomas, tem várias cenas da vida de Santa Catarina e S. Francisco de Assis. Dedicados a Santa Catarina, virgem egípcia de sangue real, martirizada no Monte Sinai, os azulejos apresentam as seguintes cenas:
"Coroação de Santa Catarina", "Santa Catarina discute com os sábios de Alexandria" (18 dos quais conseguiu converter), "a vitória de Santa Catarina anunciada por um anjo" e "súplica de Santa Catarina no acto de ser degolada". Dedicado a S. Francisco de Assis, que antes de se entregar ao apostolado de Deus e dos pobres foi guerreiro, filho insubmisso, extravagante, gozador da vida, impulsivo, rebelde, mas sempre generoso, merecem ser admirados com especial atenção as composições: "Cristo solta-se da Cruz para abraçar S. Francisco", "S. Francisco a pregar na presença do Papa Honório III", "S. Francisco faz um milagre" (o da água a brotar duma pedra), "A morte de S. Francisco" e "S. Francisco a ser levado pelos anjos". Tamanha grandeza e beleza que quer queiram quer não faz parte da história da nossa azulejaria e é uma preciosa jóia da azulejaria portuguesa - esteve em perigo de se perder para sempre. Os malefícios do tempo fizeram-se sentir com agressividade ameaçando drasticamente, perigosamente, os magníficos painéis de azulejo da Capela das Almas. O perigo passou, a recuperação foi possível e os azulejos ali estão patentes em toda a sua frescura e beleza.
Para se avaliar quanto os azulejos enriqueceram a Capela das Almas basta ver, com atenção, e interesse uma das últimas gravuras deste templo, em reboco, sem os azulejos que hoje possui. É um desenho, por sinal muito bem executado, de Victoria Vila Nova, pseudónimo de Joaquim Carvalho, existente na Biblioteca Municipal do Porto. Por esta gravura se pode verificar que a Capela das Almas sem os seus painéis, parece não ultrapassar a dimensão artística duma vulgar e humilde igreja das nossas aldeias. Mas com os azulejos a Capela das Almas situa-se, sem favor, ao nível dos ex-libris que possui a nossa cidade. E na verdade um pequeno-grande templo.
Nesta Igreja (Capela das Almas) além dos azulejos há ainda valores artísticos que convém não esquecer ou subestimar. O painel do altar-mor é digno de ser admirado pela sua beleza, pelo seu equilíbrio, pela suavidade e leveza das figuras que nele aparecem, Nossa Senhora e os Apóstolos. O painel que representa a Ascensão do Senhor é obra do pintor Joaquim Rafael. Mede 5,61 m x 2,13 m. Foi pintado em 1815. Joaquim Rafael nasceu no Porto em 1783 e faleceu em 1864. Foi discípulo de Vieira Portuense e professor de desenho da Academia de Belas-Artes de Lisboa. Pintou também os painéis de Santa Clara, dos Clérigos e da Lapa.
O vitral da fachada também merece uma referência. Está assinado pelo pintor e professor da Escola de Belas--Artes do Porto, Amândio Silva. Tem uma simbologia perfeitamente enquadrada no dogma da redenção dos homens pelo sangue de Cristo. Representa um braço de Cristo, pregado na cruz, brotando da chaga da mão várias gotas de sangue que caem sobre as almas do purgatório. É um vitral no qual o artista pôs um carinho e interesse especiais (eu acompanhei a obra e a sua feitura) e que resultou muito bem. Para além destes motivos artísticos enumerados julgo dever assinalar duas imagens de Nossa Senhora: Nossa Senhora da Hora e Nossa Senhora das Almas.
Esta imagem de Nossa Senhora das Almas, é obra do século XVIII, tem muita beleza e sobriedade. É curioso que esta representação icnográfica, bastante usada na época, aparece-nos na imagem de Nossa Senhora da Lapa, muito semelhante a esta e numa imagem que existe na igreja paroquial de Castro Laboreiro que é perfeitamente igual à da Capela das Almas, excepto na peanha que não tem qualquer representação das almas do purgatório. O documento mais antigo que se encontra no arquivo da Capela das Almas é uma referência ao Breve Pontifício do Papa Pio VI, datado de 26 de Agosto de 1795, com Beneplácito Régio da Senhora D. Maria l em que se concede "uma indulgência plenária a todos os fiéis de ambos os sexos, que com as devidas disposições receberam o Santíssimo Sacramento da Eucaristia no dia em que entrarem para Irmãos da Venerável Irmandade das Almas do purgatório, erecta na Capela de Santa Catarina desta cidade".
A entidade que superintende na Capela das Almas é a Venerável Irmandade das Almas e Chagas de S. Francisco. Erecta na igreja de Santa Clara, nos fins do século XVIII, passou para a Capela de Santa Catarina. A festa principal é a do aniversário da Instituição do Sagrado Lausperene no dia da Ascensão do Senhor. O Lausperene era (e é ainda) em todas as Quintas Feiras do ano e foi autorizado por Breve Pontifício de 1804. A Festa principal desta Igreja é a Ascensão do Senhor, motivo pictórico do painel do artista Joaquim Rafael”.
Com a devida vénia à memória do Reitor da capela das Almas, Padre Alexandrino Brochado (1920-2016)


Capela das Almas em 1833 – Desenho de J. Villanova; Fonte - sabercultural.com 




Igreja de Santo Ildefonso


“Edificada sobre os alicerces da vetusta Ermida de Santo Alifon, nos princípios do século XVIII, tem a fachada, barroca, dividida em três corpos por pilastras, sendo a parte central ligeiramente avançada. Os corpos laterais ostentam em linha vertical, duas janelas sobrepujadas por frontões e terminam em torres sineiras rematadas, em cada face, por esferas e frontões, erguendo-se a meio pirâmides ornamentais. No corpo central rasga-se a porta, rematada por um frontão triangular. O tímpano ostenta uma inscrição e é encimado por um entablamento denticulado. Sobre ele rasga-se um nicho com uma escultura do padroeiro.
Nas paredes admiram-se alguns painéis de azulejos com cenas da vida de Santo Ildefonso e alegorias à Eucaristia, da autoria de Jorge Colaço com data de 1932.
O interior é de uma só nave, coberta por um tecto de masseira com estuques. Suspensos ao centro figuram dois grandes quadros, atribuídos a Domingos Teixeira. Nos lados menores rasgam-se nichos com esculturas de gesso. Os altares laterais são neoclássicos, e os colaterais, de talha rococó.
A capela-mor tem o tecto e paredes cobertos por estuques e é rematada superiormente em lanterna. O retábulo, de talha barroca e rococó, data, provavelmente, de 1730. Nele se enquadra um painel representando o padroeiro adorando a Custódia, pintura da autoria de João António Correia (Paris, 1858).
A fachada, embora correcta de linhas, é desgraciosa. Pertence ao barroco rígido, sóbrio, próximo do classicismo de Herera, pelo que a sua construção em 1724-30 representa uma singular anomalia. Haupt achou-a interessante pela profusão de trechos barrocos do tipo da época de D. Filipe III. Pilastras incaracterísticas dividem-na em três partes, das quais um tanto sobressai a do meio. Sobre o entablamento ergue-se o nicho do padroeiro, ladeado por pirâmides.
Aos lados, as torres sineiras, com dentilhões nas cornijas, rematadas em cada face por esferas e frontão de fantasia; do meio delas rompem pirâmides ornamentais.
Guarnecem as paredes uns 11.000 azulejos de Jorge Colaço, com passos da vida de Santo Ildefonso e alegorias da Eucaristia. Acentuada é a singelez da nave, octogonal, de tecto em masseira com estuques ornamentais, repetidos nas paredes. Nestas se fixam dois grandes quadros, emoldurados pomposamente em rocócó; atribuem-se a Domingos Teixeira e representam O Triunfo da Eucaristia e O Antigo Sacrifício. Em 1925 habilmente os restauraram Joaquim Lopes e Victorino Ribeiro. Nos lados menores, nichos com estátuas de gesso. São recentes os altares da entrada. Os laterais, obras do neó-clássico e de talha rocócó os colaterais, todos modestos; nos da esquerda dois painéis fracos - uma Crucifixão e uma Piedade. O painel do baptismo, um Baptismo de Cristo, é de Domingos Teixeira.
A capela-mor dispõe de algum aparato, embora pesado. Bons estuques ornamentais cobrem as paredes e o tecto, aberto em lanterna. A meio das paredes, em nichos emoldurados com estuques abrigam-se as estátuas de gesso, em tamanho avultado, dos evangelistas e de S. Pedro e S. Paulo. No alto, duas tribunas com grades entalhadas e doiradas. Excelente é o retábulo, de talha barroca e rocócó (séc. XVIII, 2º quartel), com anjos, serafins e emblemas no frontão. O painel, apreciável, representa o padroeiro adorando a custódia, segura por uma alegoria de anjos. Foi pintado em Paris e em 1858 por João António Correia. Dos paramentos distinguem-se: véo de hombros de lhama, bordado a oiro, com minas novas; sete pluviais de cetim bordado a oiro. Frontal de lhama de bordado a oiro, em relevo. Jogo de sacras de boa talha.
Peças de ourivesaria, das melhores: custódia de prata, rocócó, interessante pelo desenho da haste; cálice de prata doirada, relevada, com os instrumentos da Paixão na copa e na base - em medalhões, a fénix, o cordeiro, o pelicano e a arca da aliança, obra de Francisco Moreira, séc. XIX, princípios; píxide do mesmo género, com serafins, o pelicano e a arca de aliança, em medalhões, no bojo, e uvas, espigas do trigo e flores na base, do dito ourives, decerto; bacia e gomil de prata de esbelto desenho de princípios do séc. XIX”.
Fonte - site: j-f.org/jf-stildefonso



Destaca-se, em relação a esta Igreja, onde foi baptizado Almeida Garrett, o que se escreveu em "Guia Histórico e Artística do Porto", obra de autoria de Carlos de Passos:
"De fundação ignorada e remota é a ermida de Santo Alifon, que, no juízo do Padre Novais (autor do Episcopológico, escripto próximo de 1690), ascendia ao tempo dos godos, cuja opinião formulou por na sua juventude ter visto no cemitério contíguo sepulturas com emblemas dos mesmos. Exagerou, de boa- fé, talvez”.

“Ildefonso, forma original de Afonso, é nome de um bispo que terá nascido, no ano de 605, em Toledo, originário de uma família de sangue real.
Santo Ildefonso nasceu, então numa família ilustre, no ano de 605 e morreu a 23 de Janeiro de 667. Sobrinho de Santo Eugénio, a quem sucedeu na Sé de Toledo, Santo Ildefonso escolheu a vida religiosa muito cedo, apesar da oposição do seu pai. Estudou no mosteiro de Agali, perto de Toledo, e depois em Sevilha, onde teve como mestre Santo Isidoro. Quando era ainda um simples monge fundou um mosteiro de monjas em Deibiensi villula. Em 630 foi ordenado diácono por Heládio, abade de Agali, e posteriormente nomeado arcebispo de Toledo. Santo Ildefonso tornou-se abade de Agali e nessa qualidade foi um dos signatários do VIII (653) e IX (655) Concílios de Toledo. Nomeado arcebispo de Toledo em 657, pelo rei Recesvindo, ocupou este cargo eclesiástico até à sua morte, em 23 de Janeiro de 667, tendo sido enterrado na Basílica de Santa Leocádia”.
Fonte: infopedia.pt

No local onde está agora a igreja paro­quial existia já no século XII uma capela de remota origem e da invocação de Santo Il­defonso. A referência à existência do pe­queno templo naquele século assenta num documento em que se alude à sua consagração pelo bispo D. Pedro Pitões que governou a diocese entre 1146 e 1152. 
Um documento dos começos do século XV localiza "o pequenino templo fora das portas de Cima de Vila, junto ao Lugar do Pinheiro, antes chamado de João de Ramalde". Anexa ao pequeno templo funcionava a albergaria ou “Hospício das Entrevadas de Santo Alifon”.
Em princípios do séc. XVI estava na posse da confraria do Senhor Jesus. Rodeava-a, então, um vasto souto de carvalhos, no qual, debaixo de um dos maiores, se expunha o SS. Sacramento à adoração dos fiéis na procissão de Corpus Christi.
Constituía esse lugar o burgo de Santo Alifon, como o registam as vereações da época. Em 1727, "a capela de Santo Alifon" es­tava em ruínas e volvidos três anos, tinha mesmo desaparecido, tendo-se construí­do no mesmo local o templo que ainda hoje existe. 
A actual Igreja de Santo Ildefonso (numa primeira fase, sem torres sineiras) começou a ser edificada em 1709 e acabou em 1730. Desde esse ano até 1739, a comunidade paroquial e as suas instituições ganharam fôlego para a construção das torres sineiras e transpôs-se o pórtico de 1730 para a frontaria da Igreja, criando-se um nártex.
Portanto, a leitura de 1730 (em numeração romana) na porta principal da Igreja corresponde à primeira fase que se completou em 1739. Daí a razão da Igreja ter no fecho do seu telhado fronteiriço uma cruz atrás da outra, correspondendo às datas 1730 e 1739 – o que se pode constatar a partir da Praça da Batalha.
Durante a reconstrução, em 1724, o S.S. mudou-se para a capela de Nossa Senhora da Batalha, já pertencente à Câmara.

Igreja de Santo Ildefonso em 1833 por J. Villanova


“Todavia, houve necessidade, em 1857, de ampliar a capela-mor, à custa da confraria do SS. Sacramento, instituída em 1634 e logo fundida com a do Senhor Jesus. Então se renovou todo o interior: as paredes foram pintadas com várias figurações pelo cenógrafo Paulo Pizzi, douraram-se os altares, fizeram-se os altares laterais, os estuques ornamentais e as estátuas, de gesso, dos evangelistas e S. Pedro e S. Paulo da capela-mor. Consta que a abóbada fora pintada por Joaquim Rafael (fins do séc. XVIII a princípios do XIX)”.
Carlos de Passos In "Guia Histórico e Artística do Porto"



Igreja de Santo Ildefonso e Largo de Santo Ildefonso - Ed. Photo Guedes

Na foto acima se observa que a fachada da igreja ainda está despida de azulejos e à direita, vemos parte da fachada do cinema High Life.

Igreja de Santo Ildefonso - Ed. Alvão

Na foto acima se vê que precede a igreja, ainda sem azulejos, uma larga escadaria, em cujo patamar fronteiro à Rua de Santo António, se ergueu um obelisco em 24-12-1794, de significado ignoto e que está recolhido em pátio interior, constituindo, talvez uma memória, da abertura daquela rua e onde imponente cascata nela se montou no dia 24 de Junho de 1810.
O obelisco seria removido para pátio interior contíguo à igreja no ano 20 do século passado.
Em 14 de Outubro de 1869 recolheram-se no seu cemitério treze cruzeiros pintados com a Crucifixão, de várias invocações, os quais a Câmara retirou das ruas do Bonjardim e Calvário, não sem vivos clamores dos devotos. No local se benzeram no dia 1 de Novembro, motivo de gáudio e rija festa com iluminação, fogo, embandeiramentos e filarmónicas.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

(Continuação 11)


“É a freguesia de Santo Ildefonso caracterizada por aspectos típicos de uma grande cidade, situada, que está, no coração dela. Uma grande área, uma área onde acontece a maior parte da fenomenologia urbana, onde os habitantes são de fluxo dinâmico e onde residem as maiores actividades comerciais, um número soberbo de serviços, os centros culturais predominantes, a tradição da difusão informativa, nomeadamente através dos jornais diários do Porto, prestigiados e prestigiosos”.
Fonte – site: j-f.org/jf-stildefonso

Em 1 de Dezembro de 1909, em "O Tripeiro" n.º 52, um texto assinado por Ricardo Jorge estabelecia:
"... Até 1836 consta o Porto propriamente de sete freguesias, Sé, Vitória, S. Nicolau, Santo Ildefonso, Miragaia, Massarelos e Cedofeita. Pelo decreto de 26/11/1836 foram-lhe anexadas Lordelo do Ouro, Campanhã e S. João da Foz; e por carta de lei de 27/8/1837, nova anexação, a de Paranhos.
A desigual distribuição destas freguesias pedia reforma das suas circunscrições; deste plano tomou a iniciativa o bispo eleito, e aprovado superiormente o seu projecto de portaria de 13/2/1838, procedeu-se a nova demarcação, fixada por uma comissão onde entrava o bispo, a câmara e delegados das juntas de paróquia.
Santo Ildefonso de uma área enorme, foi desmembrada, criando-se à sua custa uma nova freguesia, a do Senhor do Bonfim. O arredondamento paroquial de 1838 só foi sancionado pelo decreto de 11/12/1841, sob o referendo de Costa Cabral.”
Importante será salientar a data de 1623, em que há uma referência a Santo Ildefonso - D. Rodrigo da Cunha avançava nessa data um quantitativo da que chamou "Santo Ildefonso": 1150 habitantes, sendo 1000 de maioridade e 150 menores".
Um estudo de Domingos A. Moreira, sobre as "Freguesias da Diocese do Porto" diz, que a freguesia de Santo Ildefonso, nasceu entre o ano de 1623 e o ano de 1687.

Entretanto, uma Pública Forma datada de 6 de Maio de 1828, em certidão atestada pela Câmara diz:

"À vista dos respectivos títulos ou documentos haija de attestar-lhes ou certificar-lhes de narrativa se consta ou existe memória que designe o tempo em que havia huma só freguesia nesta cidade".

Trata-se de uma certidão da Câmara a pedido do Juiz e Mesários da Confraria do Santíssimo Sacramento e Senhor Jesus da freguesia de Santo Ildefonso, solicitando a precisão, que a certidão da Câmara apontava para o ano de 1551.
Transcreve-se o texto (a data de 1584 é citada, no entanto, como desdobramento de freguesias na cidade):

" Rodrigo Freire de Andrade Pinto de Sousa, escrivão da illustrissima câmara desta cidade do porto e seu termo por sua magestade fidelissima que deos guarde, faço certo que do livro das vereaçoens do anno de mil e quinhentos e sincoenta e hum, a folhas sete verso, consta ser a parrochia da sé a unica em toda a cidade dando motivo a esta declaração tomada em camara em congresso de povo se sim ou não deverião haver confrarias do santissimo sacramento nos conventos de sam francisco e sam domingos para o povo poder assistir as procissoens dos domingos terceiros, visto que não cabia na sé nesses dias e não havia outra parrochia ou confraria no anno de mil e quinhentos e secenta e hum em huma sentença no livro segundo dellas a folhas cento e quarenta consta haver freguezia em santo ildefonço arrabalde da cidade assim como o haverem já as novas igrejas na cidade no anno de mil e quinhentos e oitenta e quatro e nellas estabellecidas as confrarias do santissimo sacramento para as quaes pertendia o senhor bispo concorresse a confraria do santissimo sacramento da sé com quatro tochas para cada huma ao que se opozerão em camara negando-se aquella requezição".

Estes dados dispersos não podem, com rigor, dizer-nos muito sobre a formação da freguesia de Santo Ildefonso e os circunstancialismos que a determinaram. Um ou outro aspecto são, no entanto, irrefutáveis. Por exemplo, a sua vasta extensão, que a tem vindo a caracterizar desde sempre. E a fundamental importância de que alguns dados apontam.
Em 12 de Setembro de 1983, o Presidente da Junta de Freguesia de Santo Ildefonso, Albino Alves Teixeira, endereçou um ofício ao Chefe de Divisão do Arquivo Histórico da Câmara Municipal do Porto. Nesse ofício foi salientado:
"Sabemos que nos fins do século passado, um prédio onde estavam instaladas as Escolas Paroquiais de Santo Ildefonso e a respectiva secretaria da Junta, prédio esse que pertencia ao Conselheiro Miguel Dantas Gonçalves Pereira, ardeu numa noite de Santo António, não existindo portanto livros de actas ou outros documentos que nos certifiquem da formação legal da Junta de Freguesia".

Assim e a partir das informações disponíveis, inquiria-se da possibilidade de confirmar-se aquela data de 24 de Junho de 1634 através dessa via. 
A resposta pouco avançou: ao ofício da Junta seguiu-se o ofício do Chefe da Divisão do Arquivo Histórico que referia:
"1. Não parece existir neste Arquivo Histórico qualquer documento alusivo à criação da paróquia de Santo Ildefonso;
2. Foi percorrida vária bibliografia, mas as informações encontradas continuam a ser muito vagas. Por exemplo, do estudo de Domingos A. Moreira, sobre as "Freguesias da Diocese do Porto" (pág. 126) apenas se pode confirmar que o seu nascimento se deu entre 1623 e 1687;
3. Todavia, num livro editado em 1869, da autoria de J. M. Pinto, e sob o título "Apontamentos para a História da Cidade do Porto" (pág. 104) volta-se a indicar que "no anno de 1634, a confraria do Senhor Jesus juntou-se à do Santíssimo Sacramento. Foi elevada a freguesia em 1634, contando então 1790 almas". Num outro estudo encontramos a indicação que isso se deu por desmembramento da freguesia da Sé";
4. É provável que esteja correcta a informação do nº 52 de "O Tripeiro".
Na página 104 de "Apontamentos para a Cidade do Porto" pode pois, ler-se:
“ Data de grande antiguidade a fundação da sua primeira Igreja. Consta que já em 1519 existia uma Igreja com a invocação de Santo Ildefonso, a qual era extramuros, próximo da Porta de Cima da Vila e aonde era também venerada a imagem do Senhor Jesus, que tinha a sua respectiva Confraria. Já em tempos imemoráveis se sepultavam no Adro desta Igreja as entravadas e em 1592 a confraria concedeu sepultura aos pobres da Freguesia. No ano de 1634 a Confraria do Senhor Jesus juntou-se à do SS. Sacramento. Foi elevada a Freguesia em 1634, contando então 1790 almas.”

Estes são, grosso modo, os únicos pontos em que podemos assentar. O arrabalde de Santo Ildefonso, extramuros, é portanto antiquíssimo. Como paróquia sub-urbana era a mais extensa, ladeando sempre a muralha Fernandina, principiava no Senhor do Bonfim e ia terminar nos assentos das Virtudes, limitando com Campanhã, Paranhos, Cedofeita e Miragaia. Incluía já no seu âmbito as ruas de Santo Ildefonso e de Santa Catarina, a Neta, o Bonjardim, as Hortas, a Natividade e a Rua do Almada, até à Igreja de Nossa Senhora da Lapa. Voltando pelo lado poente do Largo de Santo Ovídio dividia com Cedofeita e Miragaia pela Rua da Sovela, Ferradores, Cordoaria e Virtudes.
Deambulando pela freguesia partamos junto à Igreja de Santo Ildefonso, que se encontra mencionada em documento do século 13 e onde ainda em 1560 se erguia no meio de um campo junto de um souto de Carvalheiras, "fora da Porta de Cima da Vila".
Era templo pequeno e estava, nos princípios de setecentos, muito arruinado; foi mandado reedificar em 1730.
Próximo ficava um casal, que antes de 1443 se chamava Casal de João Ramalde e depois, Lugar do Pinheiro. Logo adiante, na actual Praça da Batalha, junto da Porta de Cima de Vila, o devoto Baltasar Guedes mandou edificar, em 1590, a capela de Nossa Senhora da Batalha.
Mais abaixo, ficava o Lugar dos Carvalhos do Monte; quase encostada ao Postigo do Penedo (que João de Almada transforma, em 1768, na Porta do Sol) erguia-se a ermida de Santo António do Penedo, com seu adro de galilé, e ao lado, a casa solarenga dos Brandões. Era um dos mais pitorescos recantos do velho Porto, infeliz e inutilmente destruído em 1887. Ficava em frente do palácio do visconde de Azevedo.
A Rua das Fontainhas chamou-se em algum tempo Rua do Regato. Por aqui estiveram o Recolhimento das Entrevadas (já existente em 1498), o Hospital dos Lázaros e Lázaras (1558), e o Recolhimento de Nossa Senhora das Dores (Velhas do Camarão) fundada em  data anterior a 1804, e localizado na Viela de Nossa Senhora das Dores, ao Largo do Camarão por detrás do Recolhimento das Órfãs, em S. Lázaro.
O Recolhimento de Viúvas Pobres de Nossa Senhora das Dores, vulgarmente chamado do Camarão, foi ali fundado c. de 1804 por Francisco António Rebelier, confirmada a doação das casas de recolhimento e capela de Nossa Senhora das Dores, em seu testamento de 2 de Maio de 1819. Foi depois mudado para as Fontainhas, sob a administração da Santa Casa da Misericórdia do Porto”.
Fonte – site: j-f.org/jf-stildefonso


“Porque se chamava ao largo do Camarão? Porque ali morava, em 1698, um tal Manuel Gonçalves, o "camarão" casado com Maria Nogueira, pais de uma moça Antónia, recebida nesse ano, à face da igreja, com o pedreiro João de Sousa”.
Toponímia Portuense de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas

A Alameda das Fontainhas deve-se a Francisco de Almada (1790).
Entre as Ruas das Fontainhas e do Sol, onde funcionaram os matadouros, chamava-se outrora Vale de Donas, e existia uma quinta, depois denominada das Fontainhas, que pertenceu sucessivamente às famílias Pereira de Melo (capitães-mores de Penafiel), Fontana, Vanzeller e Alpenduradas.
A Rua de Alexandre Herculano, que liga as Fontainhas à Batalha, começou a ser aberta em 1877: chamou-se primeiro Rua Nova da Batalha.
Foi rua de teatros e cinemas. Aí, no chamado Parque das Camélias passavam filmes em sessões contínuas no século XX. Na esquina com a Rua Duque de Loulé abriu no início do séc. XX o Metropolitano que era constituído por uma carruagem do caminho-de-ferro, onde pelas janelas se observavam paisagens de viagens a Paris, Londres, Berlim e outras paragens.


Abertura da Rua Alexandre Herculano, 1880 - Museu Nacional de Soares dos Reis, Henrique Pousão (1859 –1884)

Na Rua Alexandre Herculano ao nº 356 em tempos existiu o Teatro D. Afonso.
O Eden-Teatro substituiria o Teatro D. Afonso no mesmo local, cujas instalações foram usadas em 1919 pelos partidários da ”Monarquia do Norte”, saída de um golpe monárquico e onde, funcionou um tribunal de tortura dos opositores republicanos.

A fachada do Eden


Junto da capela de Sant'llafom e de uma velhíssima Albergaria dos Peregrinos de Cima de Vila", havia, em 1590, o Campo do Pombal, que entestava com "a estrada que vai entre as paredes", para S. Lázaro.
Deve ser esta, uma remota referência à Rua de Entreparedes, à qual se seguia a Rua do Reimão, hoje Avenida Rodrigues de Freitas e que também foi, Rua de S. Lázaro.
O Campo de S. Lázaro estava antigamente plantado de frondosos carvalhos e castanheiros.
Lá esteve, desde o séc. XIV e vindo da Ribeira, o Hospital dos Gafos "de Cima de Vila de Mijavelhas", aos quais el-rei D. João I confirmou os antigos privilégios por c. de 28-IX-1423 (A. D. 1385).
Ainda existem por aqui dois edifícios que merecem especial menção: a igreja e Recolhimento das Órfãs, fundado em 1724 pelo padre Manuel de Passos e Castro, e o convento de Santo António da Cidade (1783), hoje Biblioteca Municipal.
Num breve périplo por esta zona, em tempos idos, próximo de S. Lázaro, deparávamo-nos no que é hoje o moderno Largo dos Poveiros, com a capela de Santo André e de Santo Estêvão, demolida em 1863, quando a Câmara decidiu prolongar a Rua da Alegria até àquele largo.
À Rua de Santo André encontramos referências em 1692.
Adiante ficava o Padrão das Almas, ainda agora recordado no Largo do Padrão.
Mijavelhas era todo o espaço que hoje compreende a Rua do Morgado de Mateus (José Maria de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos ), que se chamou primeiro Rua do Mede Vinagre e depois da Murta e o Poço das Patas (hoje Campo 24 de Agosto). Esteve aqui a forca até 1714, ano em que o Senado deliberou mudá-la para a Ribeira.
O regato de Mijavelhas, que desaguava no Douro, fazia mover no seu percurso numerosas azenhas, antes de alcançar o Monte do Seminário, junto do Prado do Repouso.
Mais longe, em direcção a Campanhã, encontramos a igreja do Senhor do Bonfim, edificada em 1760 e depois tornada em paroquial, independente de Santo Ildefonso. Em redor, a Alameda do Bonfim, obra, como a das Fontainhas e a das Virtudes, do grande corregedor Almada, era um dos aprazíveis lugares da cidade.
Mas voltemos à igreja de Santo Ildefonso, ponto de partida de duas das principais artérias da cidade moderna: as Ruas de Santa Catarina e de Santo António.
A Rua Nova de Santa Catarina é uma das grandes obras que o Porto deve aos dois Almadas e há documentos de 1748 em que ela já é referida por aquele topónimo.
Em 1771 tratava-se do seu alinhamento que sofreria sucessivas reedificações e alterações até 1780.
 À Rua Bela da Princesa se chamou o seu prolongamento até à Alameda da Aguardente (praça Marquês de Pombal) por decisão de 1784 de João Almada e Melo.
A Rua da Duquesa de Bragança (hoje de D. João IV) rasgou-se por volta de 1855.

Outras artérias que são paralelas ou transversais à Rua de Santa Catarina datam quase todas de época posterior e pertencem já a outras freguesias:

Em 1838, um edital determinava que a Travessa da Alegria e a Travessa de S. Jerónimo formassem uma só, com o nome de Rua Firmeza;
O troço que actualmente liga a Praça do Marquês de Pombal a Fernão de Magalhães, passando pela actual Rua Carlos Malheiro Dias, começaria a abrir-se em 1858;
Em 1858 projectava-se uma outra rua que substituísse a Viela das Doze Casas, ou seja, a Rua do Príncipe Real (agora de Latino Coelho), que se abriu primeiro até à Rua da Alegria e depois de 1866 se prolongou até ao Largo da Póvoa e Rua de S. Jerónimo (hoje de Santos Pousada).
Este Largo da Póvoa recorda antigos casais rústicos, que constituíam pequenas aldeias (Póvoa de Baixo e de Cima).
A Póvoa de Cima chegou a pertencer a Paranhos.
Na Aguardente por onde passava em continuação do Bonjardim, a estrada de Guimarães, edificou-se em 1875 a capela de Santo António. Em volta da alameda, ainda em 1858 existiam estreitas e tortuosas vielas.
A Rua 27 de Janeiro partia do Largo da Aguardente (Praça Marquês de Pombal) até à Rua da Rainha (Rua de Antero Quental). Aí terminava em 1843.
O nome de 27 de Janeiro foi-lhe dado, em 27/1/1842, quando Costa Cabral aclamou, no Porto, a Carta Constitucional. 
Previsto desde 1840, em 1843 já existia o projecto de prolongamento da Rua 27 de Janeiro (a actual Rua da Constituição) para poente da Rua da Rainha, até à Estrada do Matadouro (hoje Rua de Serpa Pinto) mas, só começaria a via a ser aberta, em 1890.
A área dos terrenos, subjacente e contígua às vias referidas, faz hoje em certa medida parte também da freguesia de Paranhos, e passa rente ao Monte Pedral, mas, antes disso, em 1875, pertencia à freguesia de Cedofeita, como nos diz Pinho Leal:

"era muito mais vasta do que actualmente, pois comprehendia no seu âmbito o seguinte— principiando no fim da actual rua da Rainha (antiga estrada do Sério) onde havia um marco, corria a medição pelo Monte Pedral até ao Carvalhido (actual rua da Natária) tudo da parte do N., confrontando com Paranhos. (…) E pela rua da Sovélla (hoje dos Martyres da Liberdade) até ao campo de Santo Ovídio (hoje da Regeneração) pelo lado esquerdo da rua da Lapa (antigamente Germalde) e d'ahi pela rua da Rainha, lado esquerdo (O.)"

O Monte Pedral, tal como o nome indica, era a maior pedreira do Porto e fornecia pedra a grande número de construções na cidade. 
Tem-se notícia em 23 de Setembro de 1858 no jornal “Diabo a Quatro” que era no Monte Pedral que costumavam ser enterrados os cavalos e os burros, no Porto.
Este monte só em 1890 estava suficientemente desbastado de forma a ser possível abrir a continuação da Rua da Constituição. 
Durante largo tempo, nesse local, só existiu uma estreita passagem para peões e carros de bois. 

O desbaste do monte Pedral para prolongamento da Rua 27 de Janeiro


Voltando ao coração da freguesia de Santo Ildefonso.
Em 1822, prevê-se o melhoramento do tortuoso Caminho de Malmerendas (Rua Dr. Alves da Veiga), por duas maneiras: em linha recta, da actual Rua de Fernandes Tomás até próximo do encontro da Rua Formosa com a Rua Direita (Rua Santo Ildefonso), ou, por linha quebrada, em direcção à mesma Rua Direita, na saída da travessa para S. Lázaro.
Tem-se desses tempos também conhecimento, de uma grande quinta chamada Quinta de Lamelas, que está hoje representada por alguns quintais de casas das ruas Formosa e de Santo Ildefonso e parte do leito da Rua Passos Manuel.
Há poucos séculos todo este bairro de Santa Catarina, Santo António, Fernandes Tomás e Sá da Bandeira constituíam vasto terreno bravio, matagais, almoinhas (hortas), alguns quintalejos irrigados por cursos de água que desciam para o rio da Vila ou para o Douro.
A urbanização deste trato citadino, por esforço dos Almadas, designadamente a abertura da Rua de Santo António, em fins do séc. XVIII, foi obra notabilíssima, como tal, já na própria época reconhecida e proclamada. Escrevia em 1879 o inglês Thomas Modessan:
"O rompimento da Rua de Santo Ildefonso, a unir com o largo da Porta de Carros e Calçada dos Clérigos é outra das majestosas obras que em outro tempo apenas se poderia conceber e efectuar no decurso de um século".

Refere-se o anterior texto, como se vê, à Rua de Santo António, que em sentido descendente vai dar à Praça (da Liberdade), que foi sempre um centro de toda a vida citadina.
Fora da Porta de Carros, e junto da muralha fernandina, estendia-se pelos anos de 1430, um casal chamado de Paio de Nabais; note-se a circunstância curiosa de em Lisboa existir, por esse tempo, topónimo semelhante.
Próximo ficava o Casal da Torre, vinculado à capela de João Anes Gordo, coutador de el-rei. Estes e outros casais ficavam onde então se chamava, As Hortas.
Em 1711 "O Rev. do Cabido tomou a si para fundar a Praça Nova, fora da Porta de Carros", terrenos que eram seus e outros que obteve por troca. Assim começou a urbanizar-se o local, principalmente depois que, dez anos mais tarde, em 1721, o mesmo Cabido e a Câmara se entenderam para esse objectivo.

E para terminar esta digressão pela freguesia de Santo Ildefonso, diremos ainda que em 1623 ela contava 1.150 almas; em 1706, 589 fogos com 2.134 habitantes; em 1732, D. Luís Caetano de Lima conta 4.747 almas; e em 1788, o padre Rebelo da Costa, 4.390 fogos, com 18.814 habitantes. Repare-se neste extraordinário incremento de população, devido aos esforços urbanizadores dos Almadas.
Sendo em 1787, dez as freguesias do Porto, a de maior envergadura era já a de Santo Ildefonso.
Depois disso foi alterado o espectro das freguesias portuenses, sempre de uma forma algo confusa. E de tal forma que os limites delas foram de uma maneira ou doutra sempre postas em causa, com toda a série de inconvenientes daí decorrentes, tendo em vista a necessidade de fazer avançar a cidade no campo do progresso o qual acabava por se estrangular nesta ou naquela circunstância nomeadamente no respeitante ao desenvolvimento urbanístico da cidade.
Daí ter surgido, com data de 8 de Fevereiro de 1956 um Decreto proveniente do então Ministério do Interior, da Direcção-Geral de Administração Política e Civil. Assinado por Francisco Higino Craveiro Lopes (Presidente da República), António de Oliveira Salazar (Presidente do Conselho de Ministros) e por Joaquim Trigo de Negreiros (Ministro do Interior) e com o número 40 526 o Decreto foi publicado nesse dia no então "Diário do Governo" (1 Série - Número 30) e estabelecia a nova delimitação das freguesias do concelho do Porto.
O Decreto tinha artigo único e citava as seguintes freguesias:
Aldoar, Bonfim, Campanhã, Cedofeita, Foz do Douro, Lordelo do Ouro, Massarelos, Miragaia, Nevogilde, Paranhos, Ramalde, São Nicolau, Santo Ildefonso, Sé, e Vitória.
No que a Santo Ildefonso diz respeito, o texto da sua delimitação era o seguinte:

Santo Ildefonso - Com início na Avenida de Rodrigues de Freitas, no cruzamento com a Rua de S. Vítor (vértice comum às três freguesias: Santo Ildefonso, Bonfim e Sé), segue pela Rua de D. João IV até à Rua da Firmeza, Rua da Firmeza, para poente, até à Rua da Alegria, Rua da Alegria, para norte, até à Rua da Escola Normal. Rua da Escola Normal, Rua de Santa Catarina para norte, arruamento nascente da Praça do Marquês de Pombal. Rua da Constituição, para poente, até à Rua de S. Brás e por esta rua, para sul, até à Rua do Paraíso, Rua da Regeneração, arruamento nascente da Praça da República. Rua do Almada até à Rua de Ricardo Jorge, onde fica o vértice comum às três freguesias: Cedofeita, Santo Ildefonso e Vitória. Rua do Almada, para sul, até à Rua dos Clérigos, onde fica o vértice comum às três freguesias: Vitória, Santo Ildefonso e Sé, seguindo, para nascente, pelo arruamento sul da Praça da Liberdade. Praça de Almeida Garrett, Rua da Madeira até à Praça da Batalha e deste ponto até à parede divisória dos prédios n.os 19 e 20 da Praça da Batalha e daqui, contornando a propriedade do Teatro Águia de Ouro, até junto ao cunha sudoeste do prédio n.º 1 da Rua de Entreparedes. Rua de Entreparedes, para nordeste, e Avenida de Rodrigues de Freitas até à Rua de S. Vítor.
Fonte – Site: freguesias.pt

A seguir se faz referência às artérias a que o Decreto atrás mencionado se refere:


- Avenidas: Aliados e Rodrigues de Freitas (n.º 250 ao 370, pares).

- Becos: Pedregulho e S. Marçal. 
- Largos: Fontinha, Padrão (n.º 8 ao 20 e do n.º 313 ao 321), Ramadinha e Dr. Tito Fontes.
- Passeios: São Lázaro. Pátios: Bolhão e Bonjardim. 
- Praças: Batalha (n.º 1 ao 19 e do n.º 117, até ao fim), D. João 1, General Humberto Delgado, Liberdade (n.º 40 ao 142, pares e ímpares), Marquês do Pombal (n.º 1 ao 205, ímpares), Poveiros, República (n.º 138 a 210, pares e ímpares) e Trindade.
- Ruas: Alegria (n.º 2 ao 296 e do n.º 1 a 417 até à Escola Normal), Alexandre Braga, Alferes Malheiro, Almada (n.º 2 ao 614, pares e até ao Palacete dos Pestanas), Dr. Alfredo Magalhães, Alto da Fontinha, Dr. Alves da Veiga, António Pedro, António Sardinha, Dr. Artur de Magalhães Bastos, Ateneu Comercial do Porto, Bela da Fontinha, Bolhão, Bonjardim, Camões, Campinho, Carvalheiras, Clube dos Fenianos, Constituição (n.º 545 ao 913, ímpares), D. João IV (n.º 1 ao 493, ímpares), Elísio de Meio, Entreparedes (n.º 1 ao 63, ímpares), Escola Normal (n.º 1 ao 61, ímpares), Estêvão, Fábrica Social, Faria Guimarães (n.º 2 ao 550 e do n.º 1 ao 551), Fernandes Tomás (n.º 288 e 335, até ao fim), Firmeza (n.º 93 e 358, até ao fim), Fonseca Cardoso, Fontinha, Formosa (todos os números, excepto os n.ºs 2 ao 6, pares),Gonçalo Cristóvão, Guedes de Azevedo, Guilherme da Costa Carvalho, Ramalho Ortigão, Heróis e dos Mártires de Angola, João de Oliveira Ramos, João Pedro Ribeiro, João das Regras, Madeira (n.º 2 a 246, pares), Dr. Magalhães Lemos, Moreira de Assunção, Musas, Olivença, Paraíso, Passos Manuel, Raul Dória, Regeneração (n.º 1 ao 146, pares e ímpares), Régulo Magauanha, Dr. Ricardo Jorge (n.º 2 a 36 e n.º 3 a 23), Rodrigues Sampaio, São Brás (n.º 2 ao 606, pares), Sá da Bandeira, Sampaio Bruno, Santa Catarina (n.º 1 ao 1787 e do n.º 2 ao 966), Santa Helena, Santo André, Santo António, Santo Ildefonso (n.º 1 ao 311 e do n.º 2 ao 320) e Trindade. 
- Travessas: Alferes Malheiro, Almas, Antero de Quental (n.º 2 ao 218 e do n.º 1 ao 259), Bonjardim, Campos, Congregados, Fontinha, da Rua Formosa, Liceiras, Regeneração, São Brás (do n.º 1 ao 47 e do n.º 2 ao 46), São Marcos, Sá da Bandeira e Senhora da Conceição.

Esta relação, mais ou menos exaustiva, serve para demonstrar a extensão desta freguesia do Porto. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

(Continuação 10)

Sem história edificada, a freguesia de Paranhos tem a sua Igreja Paroquial como referência, da qual se desconhece o ano, mas que deve ser anterior ao séc. XVIII e alvo de diversas beneficiações ao longo dos séculos.
A primitiva igreja de Paranhos devia remontar à época da reconquista século IX a XII. Como se sabe em 1123 já existiam os padroados, que no caso do de Paio Mendes, já se dizia que vinham de pais e avós.
Inicialmente a igreja, que antecedeu a actual não tinha torres, ou melhor, possuía uma pequena torre sineira com o respectivo sino que assentava no ressalto do telhado sobre a parede da frontaria.
Sabe-se assim, que a igreja foi reconstruída em 1845 por se encontrar em ruínas e que, posteriormente, foi alvo de sucessivos benefícios e melhoramentos.
Em 1851 já existia nas traseiras da igreja uma casa prestes a desabar onde se encontrava a sacristia e a casa da Fábrica.
Nesse ano seria reerguida e acrescentada de um andar que foi cedido à Junta de freguesia para realizar as suas sessões, ficando a casa da Fábrica e a sacristia nos baixos.
Passados 28 anos o prédio encontrava-se outra vez degradado, pelo que foi demolido e a capela-mor prolongada e feita uma sacristia decente e um corredor que ligava à torre dos sinos onde foram instalados o escritório e o arquivo paroquial.
Em 1945 foi levantada nova torre do lado norte.
A fachada tem o corpo central ladeado por duas torres sineiras, uma do século XIX e outra construída em 1946 e dois relógios, um de sol, de 1878, e outro mecânico, de 1857.
No seu interior, a Igreja Paroquial de Paranhos tem uma só nave separada da capela-mor por um arco cruzeiro. Possui oito altares e um coro definido por gradeamento de ferro e bronze assente em três arcos sobre quatro colunas de pedra que formam o pórtico.
Junto da igreja paroquial está situado o cemitério da freguesia, “cemitério das Bouças do Agrelo”, inaugurado em 3 de Agosto de 1879, no lugar do Agrelo. Foi alargado para o dobro em 1910. Nele esteve sepultada a «Santa de Paranhos», irmã Maria do Divino Coração, a secular alemã condessa de Droste Vischering, falecida em 8 de junho de 1899 e cujo corpo estava incorrupto em 1936, quando foi colocado numa urna de vidro, até 1944, e novamente enterrada.
A irmã do Divino Coração foi madre superiora do convento do Bom Pastor na Rua Vale Formoso, que, mais tarde, passaria a ser o Quartel de Transmissões do Bom Pastor e, que, nos dias de hoje, voltou a receber uma pequena comunidade de irmãs, numa parte das suas imensas instalações.
O corpo da irmã encontra-se hoje em exposição na Igreja de Ermesinde.
Junto à igreja paroquial de Paranhos, existe também, desde 1916, a capela do Senhor do Socorro, após a demolição de uma outra do Largo da Cruz das Regateiras (de traça completamente distinta), conhecida pela capela do Se­nhor da Cruz das Regateiras. Esse largo era onde antes havia também um cruzeiro da invocação do Senhor da Cruz, hoje encostado à capela- mor da igreja paroquial.

Cruzeiro da Cruz das Regateiras actualmente

A grande festa, no entanto, que se fazia na capela do Se­nhor da Cruz das Regateiras era em louvor de Nossa Senhora das Dores no último domingo de Julho.

Capela do Senhor do Socorro actualmente

Do Largo da Cruz das Regateiras parte a Rua da Cruz que antes se prolongava pela actual Rua Nau Vitória, antes da abertura da Avenida Fernão de Magalhães o que só acontece na segunda metade do século XX.
Sobre o Largo da Cruz das Regateiras diz-nos Germano Silva:

“A Cruz das Regateiras deu nome a um largo, a uma estrada, a uma capela e a uma quinta.
A cruz ainda existe. As regateiras é que não. O cruzeiro, da invo­cação do Senhor da Cruz, está, atualmente, nas traseiras da igreja paroquial de Paranhos, encostado à parede exterior da capela-mor. 
Estamos a falar do mais antigo cruzeiro da freguesia de Paranhos. É de granito e tinha pintada na pedra a imagem de Cris­to crucificado. Escrevemos, tinha, porque a chuva, o vento e outras contingências do tempo, quase fizeram desaparecer os traços da imagem do Senhor. 
Durante anos e anos, a cruz esteve arvo­rada num largo que depois veio a chamar-se da Cruz das Regateiras. O sítio, naque­le tempo, ficava longe da cidade, na parte arrabaldina, onde, em 1883, se inaugurou o hospital do Conde de Ferreira e onde, também, se situava um posto municipal de cobrança de impostos. 
As mulheres que vinham vender pro­dutos à cidade, tinham, obrigatoriamen­te, de parar para pagar o imposto devido sobre os géneros que transportavam. E, como sempre, regateavam com os fiscais o preço a pagar. Daí o epíteto de "regateiras”.
No mesmo largo havia uma pequena ca­pela, "pertença dos moradores da fregue­sia", lê-se nas "Memórias paroquiais" de 1758, que tinha anexa uma Confraria do Santíssimo Sacramento e que passou a ser conhecida, também, pela capela do Se­nhor da Cruz das Regateiras. 
Era bem curiosa esta ermida. Na parte de cima da fachada, sobre a padieira da porta principal, ostentava esta legenda: "Obra de caridade do ano de 1732". No interior, jun­to ao altar-mor, do lado da Epístola, havia uma porta e por cima estava esta inscrição: "Entrada para beijar o Senhor morto". 
No altar-mor, em lugar de destaque fi­gurava uma belíssima imagem de Nossa Senhora das Dores em louvor da qual to­dos os anos se fazia uma festa no último domingo de julho. 
Diz um panfleto dos começos do século XIX que no dia da festa "havia animado arraial com embandeiramentos, orna­mentações, danças ao som gemebundo de violas chuleiras". Consta do mesmo do­cumento que "ao declinar do dia saía uma procissão com o andor da virgem, em mi­niatura, sobre uma simulada nuvem fei­ta de algodão em rama e ladeado por ho­mens empunhando lanternas e cruzes que eram precedidos de um reduzido gru­po de zés-pereiras". 
Durante o Cerco do Porto (1832/1833) as tropas miguelistas montaram um re­duto na Cruz das Regateiras. No dia 25 de março de 1833, os soldados do exército de D. Pedro IV lançaram um duro ataque contra este reduto pondo os soldados mi­guelistas em fuga. Quando a guerra civil acabou, foi dado ao lugar da Cruz das Regateiras o nome de lugar de 25 de Março, evocativo do combate referido. Mas esta denominação durou muito pouco tempo. 
Em 1900, ainda se fazia a grande festa de julho. Nesse ano, conta Horácio Marçal na sua obra "S. Veríssimo de Paranhos", um tal Francisco dos Santos Fonseca e sua mu­lher, Sofia Ermelinda Braga da Fonseca, ofereceram "para adornar as imagens de Nossa senhora das Dores e do Senhor do Socorro da capela da Cruz das Regateiras, uns brincos e um broche (sic) cravejados de pedras finas para a primeira imagem; e para o Senhor do Socorro um artístico resplen­dor de prata com o competente dístico". 
Dezasseis anos depois, em 12 de setem­bro de 1916, a Câmara Municipal do Por­to, com o pretexto de que necessitava de proceder ao alinhamento da Rua de Cos­ta Cabral, expropriou a capela que, logo a seguir, mandou demolir, providenciando, ao mesmo tempo, no sentido de que o cru­zeiro fosse removido do local onde esta­va, sendo então colocado onde agora se encontra: atrás da igreja paroquial. 
O topónimo Cruz das Regateiras foi dado também à estrada que passava ao lado do cruzeiro e circundava, se assim se pode dizer, o casal do Vale que pertencia à antiquíssima quinta do Paço, já referida com esta designação em documentos de 1673, mas que, pela proximidade com o cruzeiro, também se chamou quinta da Cruz das Regateiras.
No século XIX, a freguesia de Paranhos ainda mantinha as caraterísticas de uma terra arrabaldina, com suas quintas e ca­sais alguns com denominações bem pito­rescas, como era o caso, por exemplo, da agra de Coalhães, cujos campos de rega­dio eram regados com a água da fonte do Vale; o campo da Canada, que ficava en­tre as terras do casal de Lamas e a congosta da fonte do Outeiro; o campo do Lou­reiro que partindo desta congosta se es­tendia até à Póvoa de Cima; o campo do Estêvão Rodrigues do Laranjal, "com seus carvalhos ao redor da parede", encravado entre a congosta da fonte do Outeiro, o monte da aldeia do Vale e a estrada da Cruz das Regateiras; o campo das Leiras; o campo das Sardinheiras e mais quatro campos na Póvoa de Cima.”

A Cruz das Regateiras antes da demolição da capela (com telhado visível na foto), assinalada pela seta


Mas a capela que verdadeiramente dá colorido às festas da freguesia é a Capela da Senhora da Saúde no Campo Lindo.
Foi construída em 1871 na continuidade de uma outra de madeira, de 1864. Teve como padroeiros até 1873 Nossa Senhora da Soledade e depois o Senhor dos Passos. A partir de 1887 realiza-se nas imediações da capela a romaria da Senhora da Saúde.
Durante décadas num local central da aldeia, próximo da Capela de Nossa Senhora da Saúde e junto a um palanque, tinha lugar a Procissão do Encontro, na qual, se encontravam, vindos de lados opostos o andor do Senhor dos Passos e o de Nossa Senhora das Dores, iniciando aí o pregador, no denominado “Encontro”, o sermão, findo o qual se dirigiam ambos para a igreja paroquial.
Ficou famoso nos sermões o abade de Gondalães.
Ainda hoje existe uma Rua do Encontro na freguesia, que seria um local próximo daquela cerimónia e aquela capela foi também conhecida por Capela do Encontro até fins do século XIX.
Naquela procissão as crianças, filhas dos lavradores mais abastados da terra, transformadas em anjos, disputavam entre si a posse de mais ouro ostentando-o em diversos adereços, cujo peso era suportado com a oferta às mesmas, de cavacas de Paranhos.

“Jornal do Porto” em 1872

Capela da Senhora da Saúde - Ed. Fernando Pedro

Na foto acima, a capela no Largo do Campo Lindo com a Rua do Encontro à sua direita.

“Por falar em romarias, diga-se que “O doce de Paranhos” era a mais afamada iguaria de quantas se vendiam nas romarias nortenhas e nunca faltava num arraial. Chamava-se o "doce de Paranhos", por a sua confecção ser originária desta freguesia do Porto. Eram de tal modo vulgares e apareciam com tanta frequência em festa populares e romarias, que das raparigas que andavam por todo o lado se diziam que eram "como o doce de Paranhos, estão em toda a parte…" O doce de Paranhos ainda hoje mantém a configuração que apresentava há cinquenta, setenta anos semelhantes a tijolos, até na cor. Inicialmente, na sua confecção, além da farinha de trigo entrava, também, a de centeio de mais fraca qualidade. Além das indispensáveis gemas de ovos juntava-se-lhes açúcar amarelo que ajudava muito a dar ao produto aquele tom de grés que ainda hoje apresenta. Eram as raparigas de Paranhos que vinham vender "ao Porto", como se dizia antigamente, os doces de Paranhos e também os tremoços que os rapazes acondicionavam no lenço de assoar a que atavam as pontas… Costumes antigos.”
Texto de autor desconhecido.

Segundo o site da freguesia de Paranhos segue a receita dos doces da Paranhos:
Ingredientes: Farinha: 2Kg; Açúcar: 500g; Manteiga: 250g; Ovos: 8; Leite: 2 dl; Fermento de Padeiro: 50g; Raspa de limão; Canela: qb; Erva-doce: qb; Açafrão: qb; Sal.
Juntam-se todos os ingredientes secos e a raspa de limão num recipiente. Quando os ingredientes formarem uma massa homogénea, faz-se um buraco no centro onde se desfaz o fermento de padeiro com um pouco de água tépida, adicionando o açafrão e o leite. Volta-se a juntar e misturar todos os ingredientes, adicionando aos poucos os ovos batidos, amassando-se muito bem. Aguarda-se que a massa levede. Quando a massa levedar fazem-se bolinhos e leva-se ao forno que já deve estar bem quente. Quando estiverem cozidos, deixa-se arrefecer e envolvem-se na calda de açúcar. A calda de açúcar deve ser feita em lume brando.
Estes doces eram vendidos pela cidade, pelas doceiras de Paranhos no início do século XX. Eram em tempos os doces mais populares da cidade e eram oferecidos como presente às pessoas que não podiam ir assistir às festas de Paranhos. Estavam presentes em qualquer romaria ou festa que houvesse entre o Minho e o Douro do País.

A Capela mais antiga de Paranhos do Século XIV é a do Tronco ou de Nossa Senhora da Assunção integrada no Colégio dos Capuchinhos.
Esta Capela era privativa da Quinta do Tronco. Em 1941 os Franciscanos Capuchinhos adquiriram a Quinta e a Casa do Tronco.
O preço da aquisição seria 290 contos pagos em prestações no prazo máximo de três anos. A palavra Tronco tem origem num acontecimento antigo, pois era nesta zona que havia um tronco onde se prendiam os cavalos para serem ferrados. Estes cavalos é que puxavam as carroças e as diligências que se dirigiam de Coimbra para Braga e de Braga para Coimbra, através das antigas estradas ou calçadas. Também se aproveitava esta paragem no Tronco para alimentar e dar de beber aos cavalos. Fazem parte desta zona do tronco a Rua do Tronco, a Rua Nova do Tronco e parte da Rua do Amial e da Circunvalação. A Quinta do tronco era um solar com jardins e uma pequena capela dedicada à Imaculada Conceição, cuja imagem do século XVIII ainda se encontra na capela do convento. Nesta Quinta do Tronco, antes da chegada dos Capuchinhos, costumavam fazer retiro muitos sacerdotes da diocese do Porto, visto ser um lugar sossegado, convidativo para o recolhimento e a oração.

Capela da Quinta do Tronco


Pertencente à Ordem dos Frades Franciscanos, a Igreja do Amial ou Igreja dos Capuchinhos, foi inaugurada em 8 de dezembro 1958, e é actualmente a sede da Paróquia do Amial e a maior Igreja da freguesia, com capacidade para aproximadamente para mil pessoas.
Desde 1974, os Capuchinhos são párocos da Paróquia do Amial que foi erigida em terrenos da quinta do Tronco e é dedicada a Nossa Senhora da Conceição.
Uma outra capela existe no bairro do Amial, à face da Rua Engº Carlos Amarante, tendo sido para aí transladada em 1938, vinda da Quinta das Areias ou Quinta de Furamontes, quando a quinta foi comprada aos seus proprietários para aí fazer um horto municipal.

A Capela reconstruída no Bairro do Amial


Uma outra capela, denominada Ermida de S. Roque, já desaparecida, ficava no Lugar da Igreja no Largo da Pontinha e pertencia aos moradores.
No ano de 1647, ou pelo menos em 1724 já existia esta ermida que foi erecta pela confraria de S. Roque e S. Sebastião.
Foi sucessivamente abandonada, as suas chaves entregues, reedificada por estar danificada em 1885 e demolida em Janeiro de 1887 em virtude de profanações continuadas.


Dados históricos da freguesia por datas

1588 – A 25 de Junho realiza-se o primeiro assento de casamento entre Thomas Annes e Catarina Annes
1588 – A 20 de Novembro realiza-se o primeiro assento de óbito com o funeral de João da aldeia de Lamas
1597 – Realiza-se o primeiro baptismo com assento a 29 de Novembro, com o nome de André.
1689 – A localidade de Paramio passa a chamar-se, oficialmente, e pela primeira, vez Paranhos
1835 – É criada uma Junta de Freguesia que até 1910 se chamou Junta de Paróquia
1837 – A freguesia de Paranhos é integrada na cidade do Porto
1873 – É estabelecido o primeiro serviço público de transportes da Carris para Paranhos, feito por tracção animal com os “carros americanos” puxados por uma ou duas parelhas de mulas
1883 - O benemérito Conde de Ferreira (Joaquim Ferreira dos Santos) deixa no seu testamento a edificação de um hospital, no antigo Largo das Regateiras, para “alienados” na freguesia
1891 – Chega pela primeira vez a iluminação pública à freguesia, a gás
1895 - Os carros de tracção animal começam a ser substituídos por veículos de tracção eléctrica
1900 – Há 13 848 residentes na freguesia
1905 - Ano em que se registou o maior número de óbitos: 420
1922 – Chega a iluminação eléctrica à freguesia
1926 – Ano em que se registou o maior número de baptismos: 678
1947 – Ano com o maior número de casamentos: 194 uniões
1948 – Os Serviços de Transportes Colectivos do Porto realizam o seu primeiro serviço na freguesia