segunda-feira, 15 de julho de 2019

25.57 O Porto teve um Tivoli


Poucos portuenses saberão que o Porto já teve o seu Tivoli. Aliás, parece ter tido dois.
Alberto Pimentel na sua obra “O Porto há 30 anos”, fala num Tivoli situado para as bandas da Rua Formosa, onde, em rapaz, teria assistido ao lançamento de um balão.
Essas ascensões aerostáticas ocorreriam nas tardes de Domingo.
Este Tivoli, era propriedade ou, pelo menos, tinha por gerente, Bernardo Morelli Chaves.


“Por volta da década de 50 do século XIX existiu, não muito longe do local onde o Jardim Passos Manuel foi construído e localizado nuns terrenos que pertenciam à antiga Quinta das Lamelas e com ligação pelas ruas Formosa e da Alegria, um Teatro denominado Tivoli, sobre o qual encontramos escassas referências mas que, das que existem serviram para aguçar a nossa curiosidade, que foi acentuada por uma alusão encontrada na revista O Tripeiro (Série 1, Ano III, Nº 77, p. 79). Na revista, numa secção onde havia a troca de correspondência entre o público leitor, referem que o Tivoli era perto do Palácio Pereira Machado e que ocupava parte da rua Formosa, da rua de Santo Ildefonso (…) sendo inspirado no Tivoli de Copenhaga, um famoso parque de diversões, considerado um dos mais antigos do mundo.”
Cortesia de Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte


Pelo texto anterior, poder-se-á concluir que, aquele Tivoli, ocuparia um terreno que, indo da Rua Formosa à Rua de Santo Ildefonso (terrenos da antiga Quinta das Lamelas), corresponderia a uma área separada pelo aparecimento da Rua de Passos Manuel e, mais tarde, ocupada pelo Grémio Recreativo e pelo Jardim Passos Manuel.
Diga-se que, este troço superior da Rua de Passos Manuel, só começaria a ser rasgado em 1881, pelo que, a entrada para o Tivoli, teria que ser feita pela Rua Formosa, como conta Alberto Pimentel.
Um outro local de divertimento do género, denominado “Tivoli Portuense”, esteve situado, uns anos antes, nos terrenos que acabaram por ser jardins do “Palacete Braguinha”, com uma das serventias a fazer-se pelo Largo de S. Vítor (Praça da Alegria).


Grémio Recreativo e Salão Jardim Passos Manuel


Em 1875, seria rasgada a Rua de Passos Manuel, cujo primeiro troço foi aberto entre as ruas de Sá da Bandeira e Santa Catarina.
O segundo troço, entre as ruas de Santa Catarina e o Largo de Santo André, foi começado a abrir, em 1881.
Já em pleno século XX, por aqui, iriam surgir o Grémio Recreativo, o Salão-Jardim Passos Manuel, o Teatro Cinema Olympia e o Coliseu do Porto.


“Em 1903 surge a primeira referência a um novo estabelecimento denominado Grémio Recreativo que se situava entre o nº 2 da Praça da Batalha e o nº 176 da rua de Passos Manuel. A referência mais antiga que encontramos foi uma licença de espetáculo de junho de 1903 requerida por Manuel Monteiro de Souza para dar espetáculos de canto, declamação, concertos musicais e outros divertimentos próprios de café-concerto ao ar livre, nos jardins da sua casa. No ano seguinte, surge um auto de vistoria de 9 de julho de 1904, feito ao palco-coreto do Grémio Recreativo. Por este documento ficamos a saber que este teria entrada pelo nº 2 da Praça da Batalha e pela rua de Passos Manuel, sendo o seu proprietário Manuel Monteiro de Souza. Na descrição percebemos que este encontrava-se por detrás da Igreja de Sto. Ildefonso. Em abril de 1907 surge nesse lugar um cinematógrafo com o nome de Salão Popular que funcionaria até março de 1908. Em agosto de 1909 começa a surgir nos periódicos, publicidades referentes a um Circo de Variedades naquela rua que, pelas licenças de espetáculos, percebe-se que seriam no antigo Grémio Recreativo mas a sua inauguração só se concretizou em abril do ano seguinte. Em 1911 ele é denominado como Novo Teatro-Circo de Variedades e no ano seguinte o seu nome é alterado para Colyseu de Variedades. Este espaço terá funcionado consistentemente até finais da década de 10 e, a partir daí, ficamos alguns anos sem informação até que em 1934 surge novamente referência a ele como «Circo de Variedades da Empresa António Castro, onde estiveram as encomendas postais». Não sabemos até quando terá funcionado um cinematógrafo no local já que na maior parte das referências apenas nos dizem que havia espetáculos de variedades. Sabe-se que naquele local foi construído no final da década de 30, a partir do ano de 1937, a Garagem Passos Manuel, que seria propriedade de Rocha Brito e das irmãs Chambers”.
Com a devida vénia a Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte, In Mestrado em História da Arte Portuguesa (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Setembro de 2017


Área ocupada pelo Grémio Recreativo – Fonte: Planta de Telles Ferreira de 1892


Na planta acima, é possível localizar o Grémio Recreativo, entre a Rua de Passos Manuel e a igreja de Santo Ildefonso, em local, mais tarde, ocupado pela Garagem Passos Manuel.
Em Abril de 1907, pela mão de António Hipólito d’Aguiar, surgirá um barracão, nos jardins do Grémio Recreativo, onde funcionará um cinematógrafo, denominado – Salão Popular.


Pelo canto, à esquerda (ao lado da igreja de Santo Ildefonso), se fazia a entrada, pela Praça da Batalha, para o Grémio Recreativo



Peça de processo de licenciamento de um barracão, para funcionamento de um cinematógrafo (Salão Popular), aprovado pela CMP, em 27 de Abril de 1907



Publicidade ao Novo Teatro-Circo Variedades, em 1911, funcionando no Grémio Recreativo


Em Março de 1908, mais concretamente, no dia 25, houve um Comício do Partido Republicano, no Porto, que aparece frequentemente associado ao Jardim Passos Manuel, o que não é verdade.


Comício Republicano realizado em 25 de Março de 1908, no Grémio Recreativo (O Jardim Passos Manuel, na foto, tinha sido inaugurado, há uma semana) – Fonte: “Illustração Portuguesa” (06/04/1908); Cliché de Carlos Pereira Cardoso



Acima, observa-se uma força de infantaria da Guarda Municipal do Porto, em formação, e o desfazer do comício.
É frequente referir, como local da realização daquele comício, o Jardim Passos Manuel, o que o texto de um artigo alusivo ao facto, publicado na revista Illustração Portuguesa, de 6 de Abril de 1908, desmente, e as conclusões de Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte, na sua tese de mestrado, confirmam. O comício realizou-se, sim, no Grémio Recreativo.
Quanto aos antecedentes do Jardim Passos Manuel, inaugurado em 17 de Março de 1908, para a imprensa e, no dia seguinte, para o público, não há certezas sobre qual o seu embrião.
À data, estava em moda o lançamento de cinematógrafos e, pode ter sido, esse, o caso a que alude um documento, datado de 24 de Agosto de 1907, onde é feito um pedido de vistoria aos terrenos que ficam por detrás da fotografia Alvão, pois, o requerente Alberto Joaquim, pretendia ali construir um cinematógrafo.
Em janeiro de 1908 um artigo no jornal “O Comércio do Porto” dava conta, de que a construção, do que viria a ser o Jardim Passos Manuel, estava em marcha.

“N’um vasto terreno da rua de Passos Manuel está sendo construído um amphiteatro, medindo 10 metros de raio e 20 de diâmetro e para as galerias do qual dão ingresso duas amplas escadas lateraes, sendo aquellas formadas por pilastras, columnas e balaustres, imitando granito
e mármore, e a cornija revestida de azulejos (arte nova).
Ao centro do amphiteatro ficará uma fonte luminosa, encimada por elegante torre, d’onde um holophote, collocado n’uma altura de 12 metros acima do sólo, projectará luz a grande distancia. Por debaixo d’essa fonte será formado um pequeno lago.
A galeria do lado esquerdo dá entrada para o jardim e a do lado direito também para aquelle recinto e para um grande salão...”
In jornal “O Comércio do Porto” de 28 de Janeiro de 1908


A 17 de Março de 1908, era então inaugurado o espaço de diversão que, durante as próximas décadas, seria uma referência na cidade do Porto

“O publico, que enchia literalmente o salão, aplaudiu enthusiasmado vários dos quadros apresentados. Não podia, pois, ser mais auspiciosa a experiencia.”
In jornal “O Comércio do Porto” de 18 de Março de 1908 – 4ª Feira


Luiz Alberto de Faria Guimarães surge, em Maio de 1908, em requerimento de pedido de licenciamento para construção de uma bilheteira (Licença de obra nº: 385/1908), como proprietário do Jardim Passos Manuel.
Nos anos seguintes, os melhoramentos e os sucessos sucederam-se, até que surgiria uma outra sala icónica para os portuenses – O Coliseu do Porto.


“A partir de 1911 e, provavelmente, com o constante aumento do público e de forma a visar a comodidade do mesmo, a empresa que o geria sentiu necessidade de o expandir e, a partir daí, aparecem associadas ao Jardim Passos Manuel as seguintes dependências: uma bilheteira voltada para a rua Formosa; a criação de mais dois palcos-coreto, um próximo do salão de inverno/hall e o outro construído também para os lados das casas da rua Formosa; os camarins que ficavam ao lado poente do salão teatro/cinematográfico; a casa das máquinas, construída próximo dos terrenos adjacentes às casas da rua de Sta. Catarina; o ringue de patinagem/salão de festas que, até aos nossos dias, se encontra atrás do Olympia; a escola de tiro que se localizaria imediatamente ao lado da casa das máquinas; um novo WC, construído próximo dos terrenos das casas da
rua de Sta. Catarina; a tipografia, os escritórios e o Club Português que se encontravam também, para os lados da rua Formosa; um pequeno teatro no jardim; um chalet, que foi construído mais tarde no lugar da escola de tiro e, por fim, uma sala de espelhos, sobre a qual não temos praticamente nenhuma informação”.
Com a devida vénia a Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte, In Mestrado em História da Arte Portuguesa (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Setembro de 2017)



Pavilhão da Escola de Tiro pertencente ao "Jardim Passos Manuel", em 1923 – Ed. Foto Guedes


Entre muitas outras diversões, uma das mais famosas, era denominada de “Pim Pam Pum”, nome que era dado, naquela época, a todas as actividades relacionadas com jogos de perícia, pontaria ou força, tais como aqueles jogos, que ainda hoje se encontram nas barracas das feiras populares.
A Escola de Tiro, em 1923, seria alvo duma intervenção e apareceria como a “Nova Escola de Tiro” (junto da nova Casa das Máquinas) e, antes (1910), teria estado ao lado do palco-coreto.


Lago e Gruta do Jardim Passos Manuel (1914) – Fotograma extraído de filme da Cinemateca Portuguesa, O debute de um patinador”, realizado pela Invicta Film


No fotograma acima, um dos figurantes acaba por cair ao lago.




Ringue de Patinagem do Jardim Passos Manuel (1914) – Fotograma extraído de filme da Cinemateca Portuguesa, O debute de um patinador”, realizado pela Invicta Film


Central Eléctrica do Jardim Passos Manuel (1923) – Fonte: “gisaweb”


Hall de entrada no Salão Jardim Passos Manuel


Aspecto do Salão de Festas, Sala de Concertos e Teatro – Ed. Alvão



Aspecto do Salão de Festas, Sala de Concertos e Teatro


Pátio do Jardim Passos Manuel


Vista geral da fachada principal do "Jardim Passos Manuel", voltada para a Rua de Passos Manuel, 1923 – Ed. Foto Guedes


A parceria entre o Jardim Passos Manuel e a produtora cinematográfica “Invicta Film”


Num campo entre o Castelo do Queijo e o final da Estrada da Circunvalação, coincidente com terrenos hoje pertencentes ao Parque da Cidade e devidamente vedado (nele, só se podia entrar mediante o pagamento de 200 réis que revertiam a favor da organização do evento) decorreriam, em Setembro de 1912, várias demonstrações de voos em aeronaves, às quais assistiram, na primeira sessão, cerca de 60 000 pessoas, que se deliciaram com os voos dos consagrados pilotos aviadores franceses Leopold Trescartes, Isidore Auguste Marie Louis Paulhan (Pézenas, 19/07/1883 - Saint-Jean-de-Luz, 10/02/1963) e Roland Garros (Saint-Denis, Reunião, 06/10/1888 - Ardenas, 05/10/1918).
O Jornal de Notícias foi um dos que registaram, aquele que estava anunciado como o primeiro voo de avião, em Portugal, feito a partir de um aeródromo improvisado junto ao Castelo do Queijo, no Sábado 7 de Setembro de 1912.
Pretendiam aqueles voos de demonstração, angariar dinheiro para a construção da obra social das “Creches do Comércio do Porto", o que refira-se, desde já, foi um êxito.
Foi o industrial e proprietário António da Silva Marinho, em 1909, residente na Rua da Piedade e, em 1920, na Rua da Índia, que adquiriu o aparelho, em Paris.
Um MF-4, construído pelo francês Maurice Farman, o qual seria, depois de transportado por barco, desembarcado em Leixões.
Tratava-se de um biplano militar de reconhecimento aéreo.
Entre 7 e 15 de Setembro de 1912, no Porto, o piloto francês Leopold Trescartes, sempre acompanhado pelo mecânico montador M. Bouvier, efectuou diversos voos naquele avião, após ter estado desde o dia 1 de Setembro, em exposição, na nave central do Palácio de Cristal.


Maurice Farman 4 (MF 4 -1) em exposição no Palácio de Cristal


Realizaram-se 12 espectáculos até ao dia 15.
Assistiram mais de 60.000 pessoas ao primeiro voo no campo do Castelo do Queijo. O aeroplano fez evoluções sobre a cidade do Porto, Foz e Matosinhos, chegando a elevar-se a 300 metros de altura.
As imagens do histórico evento ficaram registadas, em filme realizado pela Invicta Film, o qual se encontra, hoje, nos arquivos da Cinemateca Portuguesa com o título “1ª SEMANA DE AVIAÇÃO”.


Maurice Farman 4 (MF 4 -1) voando sobre o Porto


“O aparelho ficou em exposição na nave central do Palácio de Cristal. A concorrência foi muito numerosa, pois a receita proveniente da venda de bilhetes e diversos emblemas atingiu a bonita cifra de 625$165 reis. A angariação dos fundos destinava-se à creche Comércio do Porto. A subida do avião ia ser feita no terreno em frente ao Castelo do Queijo entre a estrada da Circunvalação e a estação transformadora que a Cª. Carris ali possuía… O único automóvel de aluguer que então existia no Porto também não ficou inactivo, fazendo frequentes carreiras. Calculou-se em 60.000 o número de pessoas que no local se juntaram… Perante aquele público, verdadeiramente emocionado, o aparelho descolou lentamente às quatro e meia da tarde, para realizar o seu primeiro voo; ergueu-se até à altura de 250 metros evolucionando sobre a Foz e Matosinhos. Às cinco horas realizou-se então o chamado voo oficial… depois de subir à altura de 300 metros seguiu em direcção ao Porto, à velocidade horária de 90 Kms, passando por cima do Rio Douro, Praça da Liberdade, Marquês de Pombal e Torre dos Clérigos. Tinha permanecido 16 minutos no ar… o aparelho seguiu depois para Lisboa… o Porto pode ufanamente orgulhar-se de ter sido a primeira terra do país donde descolou um avião.” 
O brigadeiro Luís Nunes da Ponte, In "Recordando o Velho Porto" (1949);
Cortesia de Rui Cunha do “portoarc.blogspot.com”


Na Rua Oliveira Monteiro existiu um “Hipódromo- aeródromo”


No mês seguinte, o Porto voltaria a assistir a mais algumas evoluções aéreas que ficaram também registadas em filme.


“A partir de 11 de Outubro, no Porto, num hipódromo que existia então na rua Oliveira Monteiro, iniciaram-se uma série de voos num aparelho «Borel», aos comandos de um piloto francês de seu nome Poumet.
Cortesia de “portadembarque04.blogspot.com”


O produtor portuense Alfredo Nunes de Matos tinha a sede de uma modesta empresa, fundada em 1910, no nº 135 da Rua de Santo Ildefonso, no Porto.
Em 1912 muda-se para uma dependência do Jardim Passos Manuel, dando à firma o nome de "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)".
Um trecho publicitário do jornal “O Comércio do Porto” de 17 de Outubro de 1912, dava conta da exibição, no cinematógrafo do Jardim Passos Manuel, de um filme/documentário intitulado: “Aviação e corridas de cavallos no aerodromo-hippodromo Oliveira Monteiro”.
Registe-se, então, que na Rua Oliveira Monteiro, existia, em 1912, um hipódromo que, por vezes, serviu de aeródromo para exibição de acrobacias aéreas.

terça-feira, 9 de julho de 2019

25.56 Antigos lugares da cidade do Porto


Pretende-se com a apresentação do que resta de alguns lugares e aldeias do Porto, sensibilizar, quem de direito, mas sobretudo os portuenses, para a defesa de um património que está quase a desaparecer.
Há que estudar, de conluio com os arquitectos e paisagistas, formas de, sem entravar o progresso, preservar também o passado.



Lugares do Porto


1. Nevogilde


“Nevogilde surge como Lovygildus nas Inquirições de 1258, composto por uma igreja ou freguesia do Julgado de Bouças, com casais povoados ou não: 4 regalengos, 5 do mosteiro de Santo Tirso, 2 da Ordem dos Hospitalários, 1 da Igreja de Vermoim (Maia), 2 do mosteiro de S. João de Tarouca e 2 do mosteiro de Macieira de Sarnes.
Através da doação de D. João I em 1399, o primeiro alcaide-mor do Porto, João Rodrigues de Sá, o “Sá das Galés”, fica com o senhorio direto de prazos em Nevogilde, que foram passando para os seus descendentes. Estes casais ou quintas foram emprazadas e subemprazadas a famílias que as mantinham produtivas, germinando à sua volta aldeias e lugares.
O lugar de Nevogilde cresceu junto ao Casal da Igreja, que no século XVIII foi sendo emprazado parcelarmente, originando a Quinta do Padrão, prazo que passou para os descendentes de Tomás Pereira Morais, que por casamento ficaram unidos aos Andrade Vilares e depois aos Lacerda Lobo.
Da existência de uma igreja primitiva apenas se tem a informação que seria noutro local, a pouca distância e talvez românica. A atual construção (barroca) foi obra impulsionada pelo abade Pedro de Barros Ribeiro e atribuída ao mestre Domingos da Costa. Foi construída entre 1729 e 1750 e sofreu uns acrescentos entre 1934 e 1935. Está classificada como monumento de interesse público.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Lugar de Nevogilde e ocupação habitacional, em 1892, na planta de Telles Ferreira. A igreja de Nevogilde está identificada com o nº 1



 Traseiras da Igreja de S. Miguel de Nevogilde e adro



Largo de Nevogilde



2. Passos


“O lugar de Passos está ligado à passagem dos mouros pela zona, pois apesar de surgir como uma das quatro aldeias das Memórias Paroquiais (1758), poderá ser bem mais antigo. Até ao século XX, no meio da aldeia ou lugar, existia uma capela dedicada a S. Paio (ou Pelágio), mártir do século X, menino de 10 anos, sobrinho do bispo de Tui que é aprisionado pelo emir de Córdova. O culto a este mártir é introduzido em Leão e Oviedo pelos moçárabes.
Seria um dos 20 casais que os Hospitalários detinham em 1258, comprovado por um dos marcos divisórios existentes na rua de Fez.
A capela desaparece com o arranjo da rua de Passos (depois rua de Fez), mas não a total ruralidade da área, sobejam alguns imóveis com características típicas de quintas de produção. Neste lugar nasceu o lavrador Manoel da Silva Passos e seus pais casaram na capela de S. Paio, a 5 de abril de 1761. Este lavrador é o pai de dois vultos da política nacional: José da Silva Passos (Passos José) e Manoel da Silva Passos (Passos Manuel)”.
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Lugar de Passos e ocupação habitacional, em 1892, na planta de Telles Ferreira


Passos, também foi, por aqui – Fonte: Google maps



3. Vilarinha


“Aldoar, cuja origem é controversa, está envolto em lendas relacionadas com a ocupação árabe. Surge nas Inquirições de 1258 como igreja do Julgado de Bouças, composto por 3 casais regalengos e 20 dos Hospitalários. Um pequeno templo, com invocação a S. Martinho de Tours (o mata-mouros), foi dotado no século X e consagrado pelo bispo do Porto, D. Godesendo. Nessa altura já existiria um pequeno cenóbio misto e nas imediações o “castro Mafamudi”, identificado pelo Dr. Carlos Alberto Ferreira de Almeida.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, entre as 4 aldeias nomeadas, está a da Vilarinha que poderá corresponder à zona envolvente à igreja e junto à antiga estrada romana, depois caminho para Santiago de Compostela, com passagem pelo Bom Jesus de Bouças.
Durante o Cerco do Porto (1832-1833), nas imediações deste lugar, esteve alocado o “Reduto da Vilarinha”. E a partir de 1990, o núcleo rural é integrado nos 45 hectares que fazem parte do espaço verde, que é hoje o Parque da Cidade, tornando-se a sua entrada oriental.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Lugar da Vilarinha e ocupação habitacional, em 1892, na planta de Telles Ferreira. A velha igreja de Aldoar está identificada com o nº 1


Vilarinha, defronte da antiga igreja de Aldoar – Fonte: Google maps



4. Vila Nova

Situava-se este lugar, na área que, hoje, foi parcialmente ocupada pelo Hospital da CUF.
Ainda existe uma Rua de Vila Nova e um aglomerado habitacional degradado que faz lembrar o antigo lugar.


“Entre os 3 casais regalengos e 20 Hospitalários das Inquirições de 1258 pertencentes à igreja de Aldoar do Julgado de Bouças, está o lugar ou aldeia de Vila Nova.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, surge como uma das quatro aldeias da freguesia, para no século XIX (1892) aparecer já na Carta Topográfica da Cidade do Porto, levantada e dirigida por Augusto Gerardo Telles Ferreira, como lugar de Vila Nova de Cima.
Cercada de campos de produção agrícola, foi perdendo parte da sua feição rural no século XX, embora ainda mantenha um traçado característico.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Lugar da Vila Nova e ocupação habitacional, em 1892, na planta de Telles Ferreira, em que o nº 1, identifica a Estrada da Circunvalação


Por aqui, ficava Vila Nova – Fonte: Google maps



5. Ouro


“O Ouro, lugar com ocupação remota, durante a romanização corresponderia a um ponto de travessia fluvial, utilizada como ponto de passagem para a via romana e mais tarde caminho medieval, que ligava o litoral ao norte.
Junto a esta zona ficava, na época medieval, uma granja cisterciense, em volta da ermida de Santa Eulália (Ovaia). Em 1395, D. João I doa aos marinheiros de Lordelo do Ouro, um terreno para a construção de um orago a Santa Catarina. Pela sua localização no topo do monte, desde sempre serviu de baliza para a navegação.
Zona piscatória, com areal extenso, cedo demonstrou ter as condições propícias para a construção naval, desenvolvida principalmente a partir do século XVI. Os ofícios ligados a esta atividade crescem e agrupam-se, concentrando-se os cordoeiros na Cordoaria, e marinheiros, calafates e mestres no Ouro. Cria-se o Arsenal ou Trem da Fazenda Nacional, mesmo em frente aos estaleiros.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016



Lugar do Ouro e ocupação habitacional, em 1892, na planta de Telles Ferreira


Legenda

1. Companhia Portuense de Iluminação e Gasómetros
2. Rua das Condominhas
3. Nova Companhia da Fundição do Ouro
4. Rua do Aleixo



O que resta da "Companhia Portuense de Iluminação" e Gasómetros – Fonte: Google maps



6. Regado


“Núcleo de proprietários agricultores, a quinta do Regado surge no século XII como pertença de um cavaleiro da Ordem de Malta que a doou à mitra do Porto. Nas Memórias Paroquiais de 1758, o lugar do Regado é mencionado com 23 vizinhos, um núcleo rural bem mais habitado que o central, o da Igreja. Manteve-se essencialmente agrícola no decorrer do século XX, até que a urbanização e construção da Via de Cintura Interna transformou a paisagem.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016

A igreja referida no texto anterior é a Paroquial de São Veríssimo de Paranhos.
Regado, deverá ter constituído um marco identificativo e limitativo do território doado por D. Teresa ao bispo D. Hugo e, que, à data, foi referido como “Mamoa Pedrosa”. Naquele território, estava englobado a cidade do Porto, centrada no Morro da Pena Ventosa.


O Lugar do Regado e a ocupação habitacional em planta de Telles Ferreira, de 1892, em que a Rua Silva Porto está identificada com o nº 1


Aspecto do local da planta anterior, actualmente




7. Campo Lindo


O Campo Lindo surge como um desmembramento do medieval Casal do Couto, foreiro ao Cabido da Sé do Porto, por onde passava a Estrada para Braga (antiga via romana).
Nas Memórias Paroquiais de 1758, Couto, surge como um dos quinze lugares da freguesia e um dos mais habitados, a saber, Couto, Agueto, Igreja, Lamas, Tronco, Carvalhido, Vale (ou da Valle), Regado, Cruz da Regateira, Antas, Travessa, Amial, Azenha, Bouça e Cabo.


Em 1892, na planta de Telles Ferreira, era aqui o Largo do Couto, no Lugar do Couto, hoje, a Rua Carvalho Araújo


Em 1864, nos terrenos da família Loureiro, é construída uma capela em madeira, com altar dedicado a Nossa Senhora da Soledade, imagem doada por Manuel Alves de Oliveira Paranhos. Em 1871, é substituída por uma capela em pedra e, em 1873, passa a orago do Senhor dos Passos, passando a ser conhecida como a Capela do Encontro. Em 1887, tem lugar a primeira festa de Nossa Senhora da Saúde, passando a realizar-se anualmente.
Junto à capela, fica a Casa do Campo Lindo que, em 1862, pertence a Aniceto Pinto Monteiro e, que, mais tarde, entra para a família Almeida Garrett, através dos descendentes do irmão do escritor, Alexandre José.
A casa ficou conhecida pelo seu jardim romântico, o Jardim das Camélias.


Campo Lindo e capela da Senhora da Saúde, à esquerda – Fonte: Google maps



Planta do piso 1, da Casa do Campo Lindo – Cortesia da Arquitecta Susana Azevedo Oliveira Santos, Atelier Sucrre


Na gravura anterior está representada, em planta, a Casa do Campo Lindo. Nela, pode ver-se, que a capela da Senhora da Saúde está em cima, no canto esquerdo.


Alçado principal, a Nascente (observável a fonte e o brasão)




8. Lugar da Igreja de Paranhos


“Entre as muitas vilas que pertenciam às Terras da Maia, estava a “villa de paramus”. Terrenos de lavradio, organizados em núcleos de agricultores e senhores (“domini”), que ergueram as suas quintas e casais em redor de uma capela ou igreja também de sua obra, elegendo o santo padroeiro e dando origem a Paranhos, no século X.
As primeiras referências documentais surgem no século XI e XII, entre elas, a carta de doação do couto do Porto, pela condessa D. Teresa ao bispo D. Hugo, que refere a “ecclesia de paramios”. No século XIV, D. Afonso IV confirma à mitra do Porto como sendo couto dos bispos.
Desconhece-se a data de construção da primitiva igreja matriz, podendo já existir no século XI, época em que o culto a São Veríssimo se propaga. Em 1758, é referida como tendo 5 altares, mas em 1845 está em estado de ruína, sucedendo-se uma série de benefícios e acrescentos que percorreram o século XIX até meados do século XX.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Ocupação habitacional, no Lugar da Igreja, em 1892, na planta de Telles Ferreira


Legenda

1. Igreja paroquial
2. Rua do Cemitério
3. Rua da Igreja de Paranhos



Largo da Igreja de Paranhos



9. Lamas


Deste lugar, ainda se pode ter um pequeno vislumbre, numa visita à área das traseiras das faculdades de Economia e de Engenharia.

“A aldeia de Lamas vem referida no primeiro assento de óbito registado na freguesia (20 de novembro de 1588), embora a quinta de Lamas (ou da Viscondessa, no século XIX), próximo do centro do lugar, tenha sido doada pelo bispo do Porto no século XII, em conjunto com a Fonte do Outeiro, ao mosteiro de Águas Santas.
O lugar de Lamas surge nas Memórias Paroquiais de 1758 com 35 vizinhos, um dos mais habitados da paróquia, o que demonstra o seu crescimento. Em 1834, o coronel Arbués Moreira, na sua Carta Topográfica das Linhas do Porto (Cerco do Porto), indica a existência do forte de Lamas.
Até aos dias de hoje, conseguiu manter o seu aspeto rural, apesar das construções universitárias que o invadem e a autoestrada que lhe retirou a ligação com a Fonte do Outeiro.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Lugar de Lamas – Fonte: Google maps


Planta com posições relativas de alguns lugares de Paranhos

Legenda

1. Lugar de Lamas
2. Lugar da Bouça
3. Lugar de Telheiras
4. Lugar da Azenha
5. Rua do Ameal
6. Lugar do Tronco



10. Vila Cova


“No século XI existe a referência a um convento de Agostinhas, na povoação de Rio Tinto. Já no século XII surge como vizinha de “castrum amai”, pertença do rico-homem de Gondomar, o alcaide Mendo Estrema.
D. Afonso Henriques, em 1141, dá foro de couto ao mosteiro (agora da regra beneditina) e à abadessa de Rio Tinto, que englobava entre as diversas aldeias, Vila Cova. Este lugar tinha caseiros foreiros ao Cabido da Sé do Porto, que teve relações tensas com a abadessa no século XIV, por causa das áreas de mato, pasto e cultivo de que dependiam estes caseiros. Este facto demonstra que os limites de Campanhã tinham-se expandido.
Lugar com grande componente rural, ainda nos dias correntes, apresenta alguns exemplares arquitetónicos dos séculos XVII/XVIII.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Rua de Vila Cova – Fonte: Google maps



11. Pêgo Negro


“Tal como outros lugares da freguesia de Campanhã, também a aldeia de Pego Negro surge entre as que foram englobadas no foro de couto de D. Afonso Henriques, doado em 1141 ao mosteiro e abadessa de Rio Tinto. Mais tarde, este lugar surge como pertença de Campanhã.
Esta denominação é uma das marcas remotas de atividades artesanais associadas aos cultivos das margens dos rios Tinto e Torto. Pego derivado de “pelagus” designa ribeiro, rio, riacho, lagoa, qualquer agrupamento de água. No entanto, o cónego Arlindo da Cunha associa-o à tarefa de curtir o linho que foi metido na água depois de ripado.
Neste lugar ainda permanecem intactos alguns dos moinhos/azenhas que laboravam nas margens dos dois rios já referidos.”
Fonte: Jornadas Europeias do Património — 2016


Ocupação habitacional, no lugar de Pêgo Negro, na planta de Telles Ferreira, de 1892


Legenda

1. Lugar de Pêgo Negro
2. Estrada da Circunvalação (começada em 1889)
3. Rio Tinto


Pêgo Negro, junto da ponte sobre o rio Tinto – Postal de 1917


Pego Negro – Ed. “cidadedoporto.pcp.pt”


“Na toponímia da Câmara Municipal, lê-se que a mais antiga referência que se conhece ao Pêgo Negro é de 1591, num registo de óbito da Freguesia de Campanhã. Outra referência é de 1785 como Ribeiro do Pêgo Negro.”
Fonte: JPortojo


Os moinhos do Lugar de Pego Negro situavam-se, junto da ponte, sobre o rio Tinto – Ed. JPortojo


A Rua do Pêgo Negro, que herda o topónimo do antigo lugar, começa na Rua das Areias, é interrompida pela moderna Alameda de Azevedo, contorna o Parque Oriental, afunda-se no vale do rio Tinto, faz um gancho apertado, passa sobre o rio e sobe até à Circunvalação.