domingo, 13 de agosto de 2017

(Conclusão) - Actualização em 15/10/2017



“O Porto está cercado, em grande parte (excepto na parte oriental) por uma estrada dupla, a Estrada da Circunvalação (N12). Esta estrada tem uma origem e traçado militar: a placa central era originalmente um fosso, com 2 a 3 metros de profundidade, e com postos de sentinela a cada 150 metros.
Construída entre 1889 e 1896, servia como barreira alfandegária, para taxação dos bens de consumo que entravam no Porto. Existiam ao longo dela, nas estradas de acesso à cidade, 13 edifícios onde os funcionários da Coroa, do Bispado e do Município estavam instalados e cobravam as taxas. Apenas 7 existem hoje, pois todas foram vendidas ou demolidas após a extinção, em 1922, do "Real de Água", imposto real que se destinava a financiar as obras de abastecimento de água às cidades. O Real de Água é um Imposto de consumo sobre a carne, bebidas alcoólicas e fermentadas, arroz descascado, vinagre e azeite de oliveira expostos à venda. Este imposto primitivamente foi lançado exclusivamente sobre o vinho, e depois sobre a carne, vinho, etc., e, sendo este tributo de um real por cada canada, arrátel ou outra unidade, com destino ao arranjo de canos, fontes, aquedutos, para abastecimento de água das povoações, se ficou chamando real de água. Em Lisboa era também aplicado à limpeza e concerto das calçadas, com um adicional, que se denominava realete da limpeza ou simplesmente realete.
Em 1943 findou então um sistema tributário com cerca de 800 anos, progressivamente substituído por um tipo de imposto que se vai vulgarizando universalmente: o IVA. Aqueles edifícios são as testemunhas silenciosas desse período.
Este tipo de portagens, ou cobrança de imposto, faziam-se por Portugal inteiro, a que chamavam o Real de Água: esta designação foi aplicada pela primeira vez a um tributo pago pelos moradores da cidade de Elvas, para a construção da grande arcaria por onde levaram a água à cidade. Mais tarde, idêntica denominação generalizou-se ao imposto sobre a carne, peixe e o vinho, a que em ocasiões de crise se recorreu em diversas terras do País”.
In Dicionário de História de Portugal


“A Estrada da Circunvalação, surge assim por projecto submetido ao parecer da Câmara em Maio de 1889 e iniciada a sua construção vai estender-se por uma extensão de quase 17 Km, desde Campanhã até à costa Oceânica (...) e foi aberta com o fim único de servir de barreira à cidade para o efeito de fiscalização do real de água (do Estado) e cobrança dos chamados impostos indirectos municipais, que foram, afinal, os descendente directos dos antiquíssimos tributos, que sob a denominação inicial de portagem e posteriormente de sisas e imposições, se cobraram no Porto durante séculos e desde tempos anteriores à fundação da nacionalidade. (...)
Ficou portanto, a cobrança do imposto municipal, em 1897, a fazer-se as seguintes barreiras de fiscalização do Estado: Esteiro, Freixo, Campanhã, São Roque, Rebordões, Areosa, Azenha, Amial, Monte dos Burgos, Senhora da Hora, Pereiró, Vilarinha e Castelo do Queijo. No que respeita à linha marginal, havia ainda os seguintes postos: Cantareira, Ouro, Massarelos, Banhos, Ribeira, ponte inferior, ponte superior, Guindais e Pinheiro.
Em 21 de Setembro de 1922, foi extinto o velho imposto do real de água; e, assim o estado desguarnecendo as barreiras estabelecidas em 1836, tomou a Câmara, automaticamente, a posse delas, para o que substituiu e guarneceu com pessoal da casa dos postos que acabavam de ser extintos. Ficou, por consequência, o Município, a partir de 1922, a usufruir, em exclusivo, a linha de barreiras estabelecidas pelo Estado, 86 anos antes. Decorridos 21 anos, em Dezembro de 1943, surge, inesperadamente, um decreto, que suprimiu a cobrança dos impostos indirectos municipais, veio finalmente pôr termo a uma justa campanha de longos anos por parte dos organismos económicos da nossa terra e dar cabal satisfação aos desejos de todos os munícipes. Desapareceu assim, um sistema tributário com mais de oito séculos de existência; e, com ele, desapareceu também uma organização fiscal, que há cento e tantos anos cingia a cidade do Porto com uma oprimida e anacrónica cintura de barreiras”.
Horácio Marçal - Estrada da Circunvalação: antiga linha de fiscalização e cobrança do denominado imposto do «real de água».
In "O Tripeiro", Porto, 6ª série, ano 11, n.º 7 (Julho de 1971), p. 193-195


Antigo posto alfandegário junto à Rua da Vilarinha


Antigo posto alfandegário junto à Rua da Preciosa


Antigo posto alfandegário junto ao Viso


Posto Fiscal da Azenha em 1923 – Cliché Alvão, In Jornal “O Século”; Fonte: portoarc.blogspot.pt


A foto acima do Posto Fiscal da Azenha, situado entre o Posto da Areosa e o Posto do Amial, era acompanhada da notícia do despiste da viatura que se vê no cliché, após uma colisão de veículos na Estrada da Circunvalação, de que resultou o derrube dum pilar que sustentava o alpendre do prédio.
Também se dizia, que do desastre referido, resultou a morte de um dos passageiros da viatura, tendo ficado feridos outros dois e um transeunte.

Antigo posto alfandegário na Areosa no términos da Rua de Costa Cabral – Fonte: Google maps


Antigo posto alfandegário junto à Rua de Vila Cova – Fonte: Google maps


A estrada da Circunvalação foi projectada dupla, em que o caminho interior tem 12 m de largo e era asfaltada e o exterior 12 metros, a macadame.
Entre os dois caminhos tinha um fosso.
Em 1958 como se vê na foto abaixo, ainda a via da faixa exterior, na aproximação à Praça Gonçalves Zarco, estava por asfaltar.


Stirling Moss no Grande Prémio de Fórmula 1 – Fonte: PortoDesaparecido


Demolição do antigo posto alfandegário na Ponte Luís I (no lado do Porto)


Até à Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820, a cobrança de impostos na cidade do Porto fazia-se junto das portas de entrada do burgo. Com a vigência do regime liberal os antigos costumes são alterados e os impostos também, ficando de pé apenas o sistema de sisas aplicadas nas vendas ou troca de bens de raiz. Com a cidade a crescer, foi então necessário transferir os postos de cobrança para longe da muralha Fernandina: Alto da calçada de V. N. de Gaia, Senhor do Bonfim onde está a capela de Santo Antoninho da Estrada, sítio da Aguardente e Carvalhido.
Após 15 anos é feita nova restruturação com 13 postos em V. N. de Gaia e vinte e cinco a norte da cidade. O último junto ao rio tinha por referência Massarelos e subia dali por Vilar, Bom Sucesso, Valas (Rua Nossa Senhora de Fátima), Carvalhido, Sério (Senhora da Lapa), Aguardente, Doze Casas, Bonfim e Campanhã. A partir de 1861 foi a Câmara autorizada pelo Governo a cobrar “Contribuições municipais indirectas sobre todos os géneros que dessem entrada na cidade. Esta medida levou à restruturação do sistema de cobranças com o levantamento de uma linha de fiscalização em volta da cidade. Em 1896 já com a Estrada da Circunvalação entram em funcionamento os novos postos. Estes conhecidos como “As Barreiras” passam a formar uma linha imaginária em volta da cidade com perto de 30 km.
A propósito da história do Real d’Água narra-se a Revolta do Manuelinho que ocorreu no domínio filipino.

“A Revolta do Manuelinho, ou Revolta do Manelinho (original), também referida como as Alterações de Évora, foi um movimento de cunho popular ocorrido no Alentejo, no contexto da Dinastia Filipina. Questionava o aumento de impostos e as difíceis condições de vida da população provocadas pela governação Filipina.
As revoltas contra o domínio castelhano tiveram como antecedentes, entre outros, o Motim das Maçarocas, que eclodiu no Porto em 1628 (Segundo a História da Cidade do Porto, coordenada pelo Prof. Damião Peres e publicada pela Portucalense Editora, ter-se-á dado o caso, no ano de 1629) contra o imposto do linho fiado, pelo qual Filipe III (IV de Espanha), pretendia arrecadar grossas quantias de dinheiro para o negócio do socorro da Índia, ou seja, defender as possessões portuguesas.
Foi, no entanto, a Revolta do Manuelinho o antecedente mais importante do golpe de estado, que levou à Restauração da Independência.
O movimento iniciou-se na cidade de Évora, a 21 de agosto de 1637, quando o povo se amotinou contra o aumento de impostos decretado pelo governo em Lisboa. A elevação do imposto do real de água e a sua generalização a todo o Reino de Portugal, bem como o aumento das antigas sisas, fez aumentar a indignação geral, explodindo em protestos e violências. O povo de Évora deixou de obedecer aos fidalgos e desrespeitou o Arcebispo.
Os principais responsáveis pela revolta terão sido o Procurador e o Escrivão do povo. No entanto, as ordens para o movimento apareceram assinadas pelo "Manuelinho", um pobre tolo daquela cidade alentejana. Esta era uma forma de manter o anonimato dos impulsionadores.
Durante o movimento foram queimados os livros dos assentos das contribuições reais e acometidas algumas casas. Nem os nobres, nem os adeptos de Castela, se dispuseram a enfrentar a multidão enfurecida.
O movimento rapidamente se alastrou a outras partes do reino, com a intenção de depôr a Dinastia Filipina e entronizar novamente uma Dinastia portuguesa. Desse modo eclodiram insurreições e motins em localidades como Portel, Sousel, Campo de Ourique, Vila Viçosa, Faro, Loulé, Tavira, Albufeira, Coruche, Montargil, Abrantes, Sardoal, Setúbal, Porto, Vila Real e Viana do Castelo.
O movimento insurreccional não conseguiu destituir o Governo em Lisboa, sucumbindo ao reforço de tropas castelhanas que vieram em seu auxílio para reprimir a revolução.
Ainda assim, o rastilho aqui aceso foi o início daquilo que se tornou a Revolta dos Conjurados e que culminou com a aclamação de João IV de Portugal em 1 de Dezembro de 1640”.
Fonte: ruasdoporto.blogspot.pt 

A Estrada da Circunvalação em 1916 com a igreja de Campanhã ao fundo - Cliché de António Magalhães; In: Ilustração Portuguesa 


Circunvalação em 1964 na confluência com a nova Avenida Fernão de Magalhães - Ed. CMP, Arquivo Histórico Municipal


Vista actual da foto anterior - Ed. Google Maps


Na foto acima ainda é visível à direita a fachada da casa em ruínas, que, nos anos sessenta estava pintada de branco, à entrada da Rua Diamantina.
Curiosamente junto a essa casa não se situa o fim da Rua Diamantina vinda da antiga aldeia de Currais.
A rua atravessa a Avenida Fernão de Magalhães e só termina na Rua de Costa Cabral, seguindo paralela à Circunvalação, tendo de permeio apenas um passeio.

Circunvalação e as casas à direita estão na Rua Diamantina – Fonte: Google maps 



Esta artéria foi aberta em 1922 e começou por se chamar Avenida Epitácio Pessoa (presidente da República do Brasil entre 1919 e 1922), desde a Avenida da Boavista até ao chamado Largo de Pereiró, hoje a Praça Afrânio Peixoto.
Esse arruamento foi rasgado através da Quinta do Raimundo, assim chamada por ter pertencido a um alquilador com aquele nome e com loja na Rua Formosa. Ao tempo da sua abertura ela já pertencia por compra a Manuel Tavares Valente de alcunha “O Viramontes”.
A futura avenida ainda cortaria a Quinta da Telheira, junto da Rua do Revilão, acabando por, o que sobrou dela, ficar a chamar-se Quinta da Pardeja.
Acabou a avenida por receber o nome do médico João Antunes Guimarães (1877 - S. Salvador de Briteiros / Guimarães; 1951) uma personagem que foi ministro do Estado Novo tendo ficado até aos nossos dias a ser conhecida por Avenida Dr. Antunes Guimarães.

sábado, 12 de agosto de 2017

(Continuação 33) - Actualização em 19/04/2019

19.24 Avenida de Rodrigues de Freitas, Rua do Heroísmo e imediações


“Em tempos muito recuados houve por aqui uma vasta propriedade chamada do Vale Formoso de que foram proprietários Pedro Anes de Santa Cruz e seu filho Gonçalo Reimão tendo, anos mais tarde, o sítio tomado o nome deste.
Por herança acabaria mais tarde por passar aos Cirnes e chamou-se, por isso, Campo do Cirne.
Em fins do século XIX, às “Hortas do Reimão”, a meio da actual Avenida Rodrigues de Freitas, iam as famílias merendar aos domingos, no local que era também conhecido pelo Reguinho, talvez por lá existir um qualquer rego de água.
Era neste sítio do Reguinho, à beira da estrada para Gondomar, que ficava o conhecido cruzeiro do Senhor dos Aflitos, actualmente no cemitério paroquial do Bonfim, tendo sido para aqui removido no último quartel do século XIX.
Mas, mesmo já neste seu refúgio nunca deixou de ser venerado, agora, mais especificamente, pelos seus antigos vizinhos. Foi o caso, por exemplo, de um ferreiro chamado Manuel Ribeiro que vivia na antiga Rua da Palma. Tinha pelo Senhor dos Aflitos tão profunda devoção que mesmo quando a cruz foi levada do sítio onde ele a conhecera não deixou de lhe dedicar a sua afeição mandando celebrar, por sua conta, uma festa na Igreja do Bonfim e custeando os enfeites com que, durante a festividade, mandou ornar o cruzeiro que já estava no cemitério.
O cruzeiro do Senhor dos Aflitos ficava, como acima se refere, na margem da antiga estrada real, numa espécie de encruzilhada onde confluíam a antiga Travessa da Nora e a também já desaparecida Rua da Palma.
Este padrão era diferente da maioria dos outros que estavam espalhados pela cidade. A figura de Cristo não era esculpida na pedra mas sim pintada. Nem por isso deixava de ser objecto de grande veneração, não apenas por parte dos vizinhos, mas também pelos lavradores das redondezas, nomeadamente dos de Campanhã, Valbom e S. Cosme que diariamente por ele passavam quando vinham vender produtos das suas terras aos mercados da cidade e, depois, no regresso a suas casas. De entre os devotos da vizinhança havia uma que se destacava especialmente a proprietária do célebre Restaurante do Maneta que a si mesma se obrigara a alimentar de azeite a lamparina que, de dia e de noite, mantinha acesa a chama votiva.
O caminho que ia de S. Lázaro para Campanhã, chamou-se, antes, Caminho do Padrão de Campanhã, ou somente Padrão e Rua do Padrão.
O Senhor do Padrão de Campanhã (...) ficava na antiga estrada para a freguesia mais oriental do Porto, estrada essa, que partia da Praça da Batalha e se subdividia em duas em São Lázaro: uma seguia para Valongo, a "estrada do Pão", por Bonfim e São Roque da Lameira, e a outra seguia para o esteiro de Campanhã (...), a "estrada de Campanhã", por Reimão, Heroísmo e Freixo e seguia depois para Gondomar.
O Cruzeiro do Senhor de Campanhã era um dos cruzeiros que marcava esta segunda estrada e que teria estado, segundo alguns, inicialmente, muito próximo do Largo Soares dos Reis e mais tarde, o cruzeiro seiscentista teria sido dali retirado tendo passado para um alpendre, situado na Aldeia da Formiga que, na altura, seria um pequeno núcleo rural afastado do centro da cidade do Porto, nas proximidades de onde é hoje a estação do Metro e a Rua Nova Sintra e, finalmente, o cruzeiro do Senhor de Campanhã ou Padrão da Aldeia da Formiga como também era conhecido, teria passado para a Capela da Senhora da Saúde e desaparecido da também desaparecida e mencionada capela, situada no Campo 24 de Agosto. Esta capela, não é, por isso, a que hoje existe, à entrada da Rua do Freixo e também denominada de Senhora da Saúde”.
Texto In JN de Germano Silva


Cruzeiro do Reguinho ou Padrão do Senhor dos Aflitos do Reimão


Na foto abaixo está uma imagem do Senhor do Padrão, da capela da Senhora da Saúde ou do Senhor do Padrão, na Rua do Heroísmo.
Na fachada, virada a Norte, ostenta a data de 1810.
Há muito tempo, no sítio onde está agora a capela, existiu um marco que servia para assinalar onde terminava a freguesia de Santo Ildefonso e começava a de Campanhã. Isto, claro, antes da existência da freguesia do Bonfim.
Em sessão camarária de 14 de Outubro de 1869 foi presente um requerimento, em que os administradores da capela solicitavam a cedência do cruzeiro do “Senhor da Piedade”, que estava num “Passo” ou “Oratório” da Rua do Loureiro.

“Requerimento de alguns moradores da rua do Heroísmo, como administradores da capela do Padrão, pedindo o cruzeiro que está na rua do Loureiro. Deferido.”
In jornal “O Comércio do Porto”, 15 de Outubro de 1869 – 6ª Feira

No ano seguinte a imagem que estava na Rua do Loureiro já se encontrava exposta no interior da capela de acordo com a notícia abaixo.

“Na capela do Padrão de Campanhã também houve arraial na quarta-feira, por se festejar ali a imagem da Senhora da Saúde.
Dentro do templo via-se exposta a imagem de Cristo, que estivera em um nicho da rua do Loureiro, hoje demolido.
A capela foi dotada com alguns melhoramentos. Restauração interna do templo e no acrescento de uma sacristia nova, sendo o terreno, em que ela foi edificada, dado por outro devoto.”
In jornal “O Comércio do Porto”, de 1 de Julho de 1870 - 6ª Feira

Dois anos depois foi benzida e passeada uma nova imagem da Senhora da Saúde, oferecida por um devoto.
Fora as intervenções operadas na beneficiação do edifício, a que alude a notícia acima, a capela seria alvo de obras em 1891, 1899, 1907 e outras mais recentes.
Em 1899 arrancariam as obras para edificar uma nova torre a que alude o jornal “A Província”,

“Começaram já as obras para a construção da nova torre na capela do Padrão, na Rua do Heroísmo, melhoramento que, como os outros que há pouco foram concluídos, se deve à iniciativa do actual secretário da mesa da confraria, sr. Maximino Gomes da Fonseca, que tem sido incansável no granjeio de donativos para o engrandecimento daquele templo.”
In jornal “A Província”, de 12 de Julho de 1899 – 4ª Feira

Em 1903 a capela do Senhor do Padrão recebeu uma imagem de Santa Luzia.

“O Sr. Barão do Valado acaba de oferecer à capela da Senhora da Saúde, na rua do Heroísmo, uma imagem de Santa Luzia.
Quase de tamanho natural, é um trabalho primoroso da oficina da rua da Fábrica, donde saiu.”
In jornal “O Primeiro de Janeiro” de 8 de Dezembro de 1903 – 3ª Feira


Estes templos eram construídos, em regra, com esmolas dos fiéis para nelas se celebrarem missas e outros ofícios a que assistiam as populações que viviam longe das igrejas paroquiais. A imagem que encimava o cruzeiro está agora dentro da capela.



Imagem do Senhor do Padrão


A Capela do Senhor do Padrão é referida por Júlio Dinis na obra “ Uma Família Inglesa” ao descrever um passeio da personagem Manuel Quintino, pela margem direita do rio Douro.



Capela da Senhora da Saúde na Rua do Heroísmo


Capela da Senhora da Saúde em 1913 - Ed. ”Ilustração Catholica”



Em 1835 no troço entre o actual Largo Soares dos Reis e a Rua do Freixo, ao Caminho do Padrão de Campanhã, foi-lhe dado o nome de Rua de 29 de Setembro, e já tinha sido Rua do Prado, por se situar nas proximidades da Quinta do Prado.
Durante as lutas liberais, no Cerco do Porto, em 29 de Setembro de 1832, as tropas miguelistas vinham derrotando as defesas liberais desde São Cosme até à Rua do Prado, tendo o coronel João Nepomuceno de Macedo, oposto com uma pequena força de 23 homens, colocados no Largo do Bonfim impedindo, assim, a queda da cidade.
Feito barão de São Cosme, em 1835, deu nome a uma rua perto da Biblioteca Municipal – a Rua Barão de S. Cosme.
Aquele feito heroico deu nome à Rua 29 de Setembro (c.1839).
Em 1877 o nome de Rua 29 de Setembro, no troço entre o Freixo e a entrada do cemitério do Prado do Repouso, foi substituído pelo de Rua do Heroísmo, que evoca, também, a valentia com que os liberais se bateram no recontro que eclodiu naquele sítio, exactamente a 29 de Setembro.
Entretanto, entre o Largo Soares dos Reis e S. Lázaro o Caminho do Padrão de Campanhã chamou-se Rua do Reimão (c. 1853) e, posteriormente, Rua de S. Lázaro e, aquele largo, chamar-se-ia naqueles tempos Largo do Reimão.
Por aqui, existiu em tempos o famoso “Restaurante Reimão” e o apreciado restaurante “Maneta do Reimão”.


Carta militar de 1833


Legenda

1. Largo das Fontainhas
2. Rua do Prado
3. Quinta do Seminário
4. Quinta da China
5. Quinta da Revolta
6. Pinheiro de Campanhã
7. Bonfim
8. Lomba
9. Quinta do Rangel
10. Quinta do Freixo
11. Quinta do Simões
12. Esteiro de Avintes
13. Poço das Patas
14. Pedra Salgada
15. Chão dos Olivais
16. Quinta das Oliveiras
17. Reimão (após 1853)
18. Rua 23 de Julho
19 Rua de Montebelo



Esquina da Rua Rodrigues de Freitas e Rua de S. Vítor em 1910


Avenida Rodrigues de Freitas (antiga Rua do Reimão), próximo a S. Lázaro – Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”


Nesta zona da cidade, era frequente o uso antigamente do topónimo de “Sacais” que, no entanto, desapareceu da toponímia portuense.
Eugénio Andrêa da Cunha e Freitas, na sua "Toponímia Portuense" diz que nuns registos paroquiais de 1781, que compulsou, encontrou referências a uma Viela de Sacais da Rua do Reimão e a uma Rua da Boavista de Sacais,  junto ao Padrão do Reimão. 
É provável que estas designações à volta de Sacais correspondam a uma serventia ou a mais do que uma e uma delas deve corresponder à actual Rua Ferreira Cardoso.
Aquela Viela de Sacais, existente já no século XVII, corresponderá à actual Travessa do Bom Retiro, muito desfigurada com a construção da estação do metro do Heroísmo. Não é despiciendo considerar que a actual Rua Ferreira Cardoso possa em parte do seu trajecto ter tido a ver, também, com algum daqueles topónimos.



“A Travessa do Bom Retiro, mau grado ter hoje casas, apenas do lado poente, ainda começa na Rua do Heroísmo, antiga Rua de 29 de Setembro que sucedeu à Rua do Prado e termina na actual Rua de António Carneiro, antiga Rua de Barros Lima (figura do liberalismo e comerciante).
Muito perto do sítio onde ainda agora confluem a referida travessa com a Rua do Heroísmo ficava um antigo cruzeiro, igual a muitos mais que a fé dos passantes fazia erigir ao longo de ruas, estradas ou simples caminhos.
Fazendo fé no que sobre o assunto escreveu Andrêa da Cunha e Freitas, esse cruzeiro, a que já se referem documentos de 1724, era conhecido como sendo o Padrão da Aldeia da Formiga, nome que lhe veio, naturalmente de alguma propriedade que por ali existiu com aquela designação. A cruz erguia-se do lado norte da rua e estava resguardado de intempérie por um modesto alpendre. De notar que nos dias de hoje existe ainda nas proximidades, uma Rua da Formiga e uma Travessa com o mesmo nome.
Com base ainda em informações colhidas pelo já citado historiador, o cruzeiro, por meados do século XIX foi levado do sítio onde o povo o venerava para o interior de uma Capela da Senhora da Saúde que existiu nas imediações do actual Campo de 24 de Agosto, em frente, mais ou menos, à Rua do Duque de Terceira.
Uma outra capela existiu junto à residência dos Cirnes, era redonda e foi comprada por um brasileiro de torna-viagem, Domingos José Francisco Júnior, sendo nela que os condenados, antes de subir ao patíbulo em Mijavelhas, iam rezar e ouvir missa, antes da execução.
Era conhecida por Capela do Poço das Patas.”
Com a devida vénia a Germano Silva



A capela do Poço das Patas existiu, pelo menos até 1714, que foi o ano de abandono de Mijavelhas como local de execução.

Por sua vez a Rua de Barros Lima,
«… foi aberta à roda de 1845, e recebeu o nome de, Francisco José de Barros Lima, (1763-1843), rico negociante portuense, e um dos homens de Sinédrio de 1820. Destinava-se a ligar as estradas de Valongo e de Campanhã, servindo ao mesmo tempo a vasta quinta que Barros Lima aí possuía.»
"Toponímia Portuense" de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas

«... Barros Lima, que deu o nome à rua, chamava-se Francisco José de Barros Lima e era bisavô materno do Senhor D. Henrique Leite Pereira de Paiva Távora e Cernache, 4º conde de Campo Belo.
Barros Lima foi um dos heróis do Movimento Vintista que eclodiu em 1820, no Porto, e se traduziu na revolta contra a presença dos interesses britânicos em Portugal e contra consequências nefastas sobre o comércio portuense do Tratado de 1810 que abrira as portas do Brasil à navegação do comércio mundial. Esse movimento pretendia o regresso de D. João VI a Portugal e sonhava ainda trazer de volta o Brasil, em vias de separar-se por completo, da sua antiga condição de colónia e retomar a preponderância comercial portuguesa. Barros Lima distinguiu-se nessa luta e no movimento liberal consequente, de que em 1834 saiu vitorioso, inaugurando a monarquia constitucional e o liberalismo político...»
In Escola Secundária Alexandre Herculano 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

(Continuação 32) - Actualização em 09/04/2018


Antiga Rua Ocidental do Bolhão, em 1900 – Fonte: “O Tripeiro”


Na foto anterior vê-se a Rua Ocidental do Bolhão, que seria o futuro prolongamento da Rua de Sá da Bandeira entre a Rua Formosa e a Rua Fernandes Tomás.
À direita, o mercado do Bolhão; à esquerda, casas térreas onde havia uma loja de flanelas e cocheiras dos carros americanos da Companhia de Carris de Ferro do Porto; ao fundo, as casas da Rua de Fernandes Tomás.
Na foto abaixo a mesma perspectiva, alguns anos depois.


Rua de Sá da Bandeira entre a Rua Formosa e a Rua Fernandes Tomás




Na foto acima, possivelmente da década de 30 do século XX, vê-se o que seria uma exposição pública de automóveis, promovida por um “stand” de vendas de viaturas da marca “Citroën”. Entre o Café Madrid (1º à esquerda) e o “stand”, existiam outros três estabelecimentos comerciais:

“Máquinas Eléctricas e Industriais”; “ A Casa da África” (mercearia) e “Nova Mercearia do Bolhão”.

Hoje no lugar do Café Madrid e daquelas duas primeiras casas comerciais, está num novo edifício, a “Casa Chinesa” com abertura em 1938, e no lugar da “Nova Mercearia do Bolhão” a “Casa Ramos”. No lugar do Stand da Citroën é hoje um mercado “Minipreço”.
O prolongamento da Rua de Fernandes Tomás até à Rua de Gonçalo Cristóvão teve início em 1924. Para que tal acontecesse, muito contribuiu uma tragédia que ficou memorável na cidade daquele tempo.
No dia 26 de Julho de 1924 um violento incêndio destruiu totalmente três prédios da Rua de Fernandes Tomás. Foi o pretexto para se dar continuidade ao prolongamento da Rua de Sá da Bandeira para Norte. A demolição do que restou dos imóveis calcinados abriu, por assim dizer, caminho para a nova empreitada.



Rua de Sá da Bandeira antes do prolongamento para a Rua Gonçalo Cristóvão

Perspectiva actual de foto anterior - Fonte Google Maps

Entre a Rua Fernandes Tomás até à Rua Gonçalo Cristóvão, atravessando a Rua da Firmeza - Ed. Alvão e JPortojo



Mais a Norte a Rua de Sá da Bandeira tinha, e continua a ter, a Capela de Fradelos.
O topónimo Fradelos é muito antigo.
Há quem diga que Fradelos é o mesmo que fradinhos, ou seja, uma referência à existência de um pequeno convento, um conventinho, de meia dúzia de frades, e daí a carinhosa alu­são aos fradinhos que viria a dar Fradelos. 
Um documento que atesta a antiguidade do topónimo Fradelos é datado do ano de 1283 do car­tório do cabido da Sé do Porto. Nele se diz que, em data anterior àquele ano, os cida­dãos Pedro Soeiro Castrelo e Mem Mouro haviam deixado, "ao ilustre Cabido, a her­dade que possuíam no lugar de Fradelos, "com a obrigação de um aniversário", ou seja, com o compromisso de a data da mor­te dos doadores ser celebrada pelo cabido com uma missa. 
Ora, os cónegos, que no seu conjunto formam o cabido, deliberaram logo a seguir dividir a propriedade em duas, formando dois casais, que mantiveram cada um de­les o nome de Fradelos.
No século XV, um desses casais pertencia aos antepassados do célebre Brás Cubas, um ilustre portuen­se que, no Brasil, fundou a cidade de San­tos. 
No século XVII, possuía esse mesmo ca­sal o tesoureiro da Sé da Guarda, um tal Dr. João Freire de Melo, que ali tinha a sua re­sidência e, anexa a esta, uma capela da in­vocação de Santa Catarina (de Alexandria) que, muito provavelmente terá dado origem ao nome da actual Rua de Santa Catarina.
A Capela das Almas também dedicada a Catarina de Alexandria situada próxima, na Rua de Santa Catarina é mais recente, pois, só foi começada a levantar no início do século XVIII.
O outro casal, já no século XVIII, pertencia a D. Catarina Luísa Cardoso, casada com Antó­nio de Magalhães e Meneses. 
A zona de Frade­los naquele tempo ficava nos arrabaldes do Porto e estava situada num ponto bastan­te elevado, ou seja no cimo de um peque­no monte, em terreno acidentado, junto do qual corria um ribeiro que tomou o nome do sítio e por isso se chamava de Ribeiro de Fradelos, vindo da zona da Fontinha, e que ia desaguar como ainda hoje acontece, mas agora, devidamente encana­do, em frente à Igreja dos Congregados. É um dos pequenos ribeiros que se juntam no subsolo da Praça de Almeida Garrett e for­mam o célebre rio da Vila.


Capela de Fradelos


Na foto acima, pode observar-se o aspecto da envolvente à capela, antes da abertura do troço da Rua de Sá da Bandeira para ligação a Gonçalo Cristóvão. Pode também observar-se, que a zona frontal à capela teve que ser alvo de aterro importante para obviar ao desnível no terreno, que então se verificava.
Por aqui viveu na sua Quinta das Hortas o padre Manoel de Passos Castro, que desempenhava o alto car­go de tesoureiro-mor da Colegiada de Cedofeita, que deixou após a sua morte uma choruda herança, da qual, uma parte seria utilizada para levantar em S. Lázaro, o Recolhimento das Orfãs.


Abertura da Rua Firmeza em 1926 - Ed. Espólio Fotográfico Português

Na foto acima a abertura do troço da Rua Firmeza entre a Rua de Sá da Bandeira, bem perto de Fradelos e a Rua de Santa Catarina.


Rua de Sá da Bandeira em obras, junto à Rua Firmeza em 1940 – Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal


Rua Sá da Bandeira cruzamento com Rua Guedes de Azevedo em vista descendente – Fonte: Arquivo Histórico da CMP

Em 1955 a Câmara promove um concurso público para remate do troço, da Rua de Sá da Bandeira e a Rua de Gonçalo Cristovão, que é ganho pelos arquitectos Agostinho Rica (1915-2010) e Benjamim do Carmo. A solução é de um edificío-ponte que atravessa a rua e um jardim a poente.
Neste está colocado uma estátua em bronze, a “Maturidade”, de João Charters d'Almeida desde 1965. 


A escultura a “Maturidade” – Ed. JPortojo



Rua de Sá da Bandeira em 1965 com edifício-ponte ao cimo

Na foto acima na esquina, à direita, ficava o café Saba.
No sentido ascendente, à esquerda, acima da capela de Fradelos e com entrada pela Rua de Gonçalo Cristovão, apresenta-se uma construção cilíndrica com 7 pisos - o "Silo-Auto".
Também conhecido, oficialmente, como Parque de Estacionamento de Sá da Bandeira, é o único parque construído de um conjunto de seis que o plano do urbanista Robert Auzelle propunha.
Foi este parque automóvel inaugurado em 1964 e teve como projectistas Alberto Pessoa (1919-1985) e João Abel Manta (1888- 1982).


Silo-Auto - Cortesia blogue "Porto Sombrio"





“Numa passagem do "Santuário Mariano", de Frei Agostinho de Santa Maria, referindo-se aquele às mil e uma invocações que se fazem de Nossa Senhora, e ao aludir à capela onde, no Porto, se venerava a imagem de Nossa Senhora do Ferro, aquele cronista situava-a "nas proximidades da Rua Chã das Eiras" explicando logo a seguir que a rua tinha este nome por ser ali "…que se faziam as eiras em que se debulhava o trigo…"
A Rua Chã é das mais antigas artérias da cidade. Sabe-se que já existia, pelo menos, em 1293 e que inicialmente se compunha de dois troços distintos: um que ia da entrada da Rua do Loureiro até à calçada de Vandoma e se chamava simplesmente Rua Chã; outro que da Calçada de Vandoma ia até ao cimo da Rua do Corpo da Guarda e que se chamava Rua das Eiras. E como uma parte completava a outra chegou a ter a designação de Rua Chã das Eiras, pois, quando toda aquela zona ficava do lado de fora do muro velho, ou seja da parte de fora da muralha romana, muito antes da existência da muralha fernandina, parece que se aproveitava a planura do terreno e a sua privilegiada exposição ao sol para ali se secarem os cereais que eram do Cabido.
Relativamente à Rua Chã, o frade beneditino Pereira de Novais, autor seiscentista de várias obras sobre o Porto, é da opinião que esta designação provém do facto de se tratar de "(…) uma rua plana, grande e espaçosa(…)" acrescentando que "(…) se diz chã por ser plano o seu pavimento(…)".
A partir destas diferentes opiniões, poderemos fazer as nossas opções.
Há 600 anos, exactamente em 1408 aconteceu nesta rua uma grande desgraça. Todo o casario que era, naturalmente, feito de madeira, foi devorado por um pavoroso incêndio. Ainda naquele mesmo ano, a Câmara, então profundamente interessada na efectiva resolução dos verdadeiros problemas do burgo, ordenou que tudo fosse rapidamente reconstruído mas que as casas deviam ser feitas em pedra.
Surgiu, entretanto, um problema que impedia a reconstrução das moradias com a rapidez exigida.
Pouco tempo antes, os "siseiros" (cobradores do imposto da sisa) haviam mandado fechar o Postigo de Carros, aberto na muralha fernandina, em frente à igreja de Santo António dos Congregados, não permitindo que por ali transitassem nem pessoas nem carros. A Câmara protestou juntando o seu clamor aos dos lavradores.
Da parte de fora da cerca, ou seja, onde posteriormente veio a ser aberta a actual Praça da Liberdade, ficavam as melhores hortas e os lavradores que delas cuidavam, viam-se obrigados a dar uma grande volta quando para elas levavam o estrume que vinham buscar à cidade. A Câmara pretendia que se reabrisse o postigo porque era através dele que passavam os carros de bois com a pedra, a madeira e a cal indispensáveis para a reconstrução das moradias que tinham ardido”.
Com a devida vénia a Germano Silva

Calçada de Vandoma em 1940 – Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal


Houve por aqui perto uma rua com a designação de Belomonte.
Uma "Rua de Belomonte que fica detrás da Rua de Cima de Vila" consta de um documento do arquivo do Hospital de Rocamador do ano de 1498. Deve ser a mesma artéria que vem citada noutro do­cumento com a mesma origem: "...Rua de Belomonte, detrás da Rua Chã...".
Como é óbvio a Rua de Belomonte para as bandas do convento dos dominicanos naquela data, ainda não existia.
Em 1503 aqueles frades dominicanos da Ordem dos Pregadores aforaram, ou seja, alugaram para a construção de casas, as primeiras trinta varas dos chãos já urbaniza­dos num caminho conhecido por Calçada de S. Domingos. Uma das primeiras pessoas a cons­truir casa naquele sítio foi o armeiro Álvaro Gonçalves, um dos mais destacados perso­nagens do romance "A última dona de S. Ni­colau", do escritor portuense Arnaldo Gama. 
“(…) Mas voltemos à Rua Chã, que guarda muitos outros pergaminhos e tradições que se não vêm, nem andam muito nas páginas da crónica portuense. Passavam obrigatoriamente por ela as mais imponentes e solenes procissões que se realizavam no Porto.
Tantos anos, passados a subir e descer a Rua Chã que, os alfaiates, tecelões, tecedeiras e mercadores eram obrigados a toldar, ou seja, colocar toldos para protecção contra as ardências do sol, desde a Rua do Loureiro até (à porta de) Vandoma.
A Rua Chã beneficiava de vários privilégios, um dos quais, talvez o mais importante, era o de que os que nela moravam tinham isenção de aposentadoria, isto é ninguém que passasse na cidade, em viagem, ou negócios, podia exigir que nela lhe concedessem aposentadoria. Foi uma das primeiras artérias do burgo a ser contemplada com uma estalagem "grande e boa…"
Em 1757 fizeram-se sentir nesta artéria, de forma bastante violenta, os ecos da Revolta dos Taberneiros quando os revoltosos "erguendo medonho alarido" se juntaram defronte da casa do Juiz do Povo, José Ferreira da Silva, que vivia à entrada da Rua do Loureiro.
Este tipo de protestos e outras revoltas, muito frequentes nos séculos XIV e XV, nomeadamente as que eram encabeçadas por mercadores e mesteirais, em protesto contra a imposição de novos impostos ou as tentativas de cerceamento das liberdades antigas, levaram muitos estrangeiros, que por aqui se haviam instalado, a procurarem paragens menos agitadas e a instalar-se ao longo da margem direita do rio onde predominava o sossego dos campos.
Uma das mais importantes corporações profissionais que nos começos do século XIX funcionava na Rua Chã era a dos chocolateiros - os homens que trabalhavam com chocolate.
António de Freitas, morador na rua, era um dos mais prósperos mas também um dos mais inconformados contra "as pessoas que se haviam intrometido no mester e se dedicavam à manufactura do chocolate sem terem qualquer preparação para o fazer…"
O protesto de António Ferreira, a que aderiram muitos mais profissionais, foi registado no escritório do tabelião Manuel José de Oliveira para depois ser entregue às autoridades e nele se diz, nomeadamente, que procuram defender " a maior perfeição, bondade e asseio das suas manufacturas para evitar que perigue a saúde dos povos…"
A Rua Chã, já nos nossos dias, também era conhecida pela rua dos barbeiros, tão numerosas eram as lojas destes profissionais que por ali havia”.
Com a devida vénia a Germano Silva


Desta rua vai-se hoje para Estação Ferroviária de S. Bento pela Rua do Loureiro. Em 1599 esse topónimo ainda não existia aparecendo mencionada, nos docu­mentos da época, como Rua que vai da Rua Chã para S. Bento, tendo-se chamado ainda, Rua de Carros ou Rua da Porta de Carros, por estar próxi­ma da porta que também tinha este nome. Era assim designada, pelo menos, em 1334.
Mais tarde seria a Rua do Faval, por aí se encontrar o faval do bispo onde seria construído o convento de S. Bento da Ave-Maria.
Pensa-se que a famosa CIVIDADE existiu no alto do Corpo da Guarda e por isso a Travessa do Loureiro era a Viela da Cividade.
Já agora diga-se que a Praça Almeida Garrett chegou a ser também Largo do Faval.


O típico Café Royal

“Na Rua Chã, os simpáticos restos de moradias, com semblante de setecentos, são reminiscências que evocam os tempos em que por ali viveram os Belezas de Andrade, ligados à Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro; altas-dignidades da Igreja Portucalense; ricos comerciantes e artistas, que trabalharam nas obras da Sé e do mosteiro de S. Bento da Ave-Maria.
Nos baixos do melancólico e nobre solar dos Castros, mesmo em frente à antiga Viela da Cadeia, actual Travessa da Rua Chã, funcionou o mais emblemático café do sítio - o célebre Royal, que tantas vezes inspirou as cantigas dos ceguinhos. Não era um café espampanante com luzimento de espelhos, candelabros e outros atavios. Mas era um típico café do Porto, com aquele ambiente esfumado que, na época, caracterizava os estabelecimentos e aquele alegre vozear que não se entendia nem se deixava ouvir, tudo ilustrado pelas conversas dos últimos "graxas" personagens típicos dos cafés portuenses. O Royal finou-se, tal e qual outros cafés, como o Saban na Rua Sá da Bandeira a Fradelos, o Excelsior e o Sport. No seu lugar está agora a loja de um chinês. Foram-se da rua os revoltosos, desapareceram os chocolateiros, levaram sumiço os barbeiros”.
Com a devida vénia a Germano Silva


Solar dos Castros e à esquerda, ao fundo, fica a Sé


Troço da Rua Chã em 1900 demolido para abertura da Avenida da Ponte – Ed. Foto Guedes


Rua Chã em 1936