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terça-feira, 25 de julho de 2017

(Continuação 15) - Actualização em 11/05/ e 18/10/2018 e 29/03/2019

Torre de Pedro Sem e Torre da Marca


Nas traseiras do Paço da Mitra pode ver-se a “Torre”, falsamente denominada de “Torre da Marca”, mandada construir entre os anos 1336 e 1341, por Pedro do Sem ou Docém, cavaleiro nobre da rainha Santa Isabel e ouvidor e chanceler-mor de Dom Afonso IV. Daquele fidalgo, descenderam os «Brandões», proprietários da torre e do palacete que lhe está acoplado a Sul.
Quando Luís Brandão de Mello Pereira de Lacerda, construiu a casa junto à Torre, na segunda metade do século XVIII, c. 1758, a torre estaria completamente destruída interiormente.
A torre está classificada como Monumento Nacional.




Torre de Pedro Sem



Junto desta torre e nas imediações do Cemitério dos Ingleses situava-se o Casal do Pombal (segundo um documento de 1805), junto do actual Largo da Maternidade de Júlio Dinis que, ainda há relativamente pouco tempo se chamava, Campo Pequeno.
O referido documento é uma petição do negociante Jerónimo Pereira Leite, no qual solicita autorização Régia para poder "sub-emprazar chãos (alugar terrenos) do seu Casal do Pombal" a fim de neles poderem ser construídas casas. Acontece que do tal casal era senhorio directo a Colegiada de Cedofeita, que se mostrou contrária ao empreendimento. O caso, por isso, teve que ser resolvido nos tribunais.
O Casal do Pombal era atravessado por um tortuoso caminho, espécie de estreita azinhaga que após a urbanização do sítio se transformou em artéria pública tomando o nome da propriedade com a designação de Rua do Pombal. Trata-se da actual Rua de Adolfo Casais Monteiro.
A Rua de Jorge de Viterbo Ferreira, que corre entre os jar­dins do Palácio de Cristal e os terrenos ante­riormente ocupados pelo quartel, só foi aberta em 1865, ano da inauguração no novo palácio e da grande exposição internacional. Por esse motivo, a artéria em causa tomou o nome de Rua do Palácio de Cristal e, mais tarde (1934), deram-lhe nova denominação: Rua Nova do Palácio.
O nome de Viterbo Ferrei­ra, antigo administrador da empresa da Ferreirinha, é já dos nossos dias.
Para servir a Exposição Colonial Portuguesa, aberta nos anos 30 do século XX, e permitir um rá­pido acesso ao Palácio de Cristal, foi aberta desde as imediações da Torre de Pedro Sem, a Rua Júlio Dinis. 
Mas, seria a famosa e verdadeira Torre da Marca, uma baliza para quem navegava no rio Douro, que deu nome a um largo, próximo do quartel e ao Palácio dos Brandões ou dos Terena ou dos Monfalim (Paço Episcopal desde 1919) situado na esquina das ruas de Júlio Dinis e da Boa Nova.
Essa verdadeira Torre da Marca (baliza) era uma referência dos navios que demandavam a barra do Douro e seria construída pela Câmara em 1542, a pedido do rei D. João III, em substituição de um pinheiro que ali existia com as mesmas funções, nos terrenos onde hoje se situa o Palácio de Cristal, ao fundo da Avenida das Tílias, perto de onde está a Capela de Carlos Alberto. Esta torre foi muito danificada pela artilharia miguelista, acantonada no alto do Castelo de Gaia, para atingir os liberais que, à sua sombra, ali tinham instalado uma bateria, durante o Cerco do Porto, e a sua reparação, embora decidida em 1839, nunca chegou a ser levada a efeito.
A evocação da velha Torre da Marca sobrevive, então, também erradamente, no chamadouro popular da Torre de Pedro Sem, que se ergue junto ao antigo Paço Episcopal, como também é ainda hoje conhecido, e foi propriedade dos Brandões que se juntaram aos marqueses de Terena e depois aos marqueses de Monfalim, mas, como já sabemos, nada tem a ver com a torre que servia de baliza à navegação no rio Douro.
Por curiosidade diga-se que, Camilo no romance “O Senhor do Paço de Ninães” escreve que o Sr. Marquês de Monfalim era casado com a Srª Marquesa de Terena, habitando no lugar de Reboredo, no Minho.




A verdadeira Torre da Marca à esquerda, e sobre a direita ao longe, o forte de S. João da Foz - Gravura de Manuel Marques de Aguilar




Torre da Marca



A gravura inglesa acima, talvez do Coronel Betty, tirada do Monte da Arrábida – 1829 – ainda se vê a Torre da Marca, ao fundo, pois só foi destruída no cerco do Porto em 1832.




Paço da Mitra ou Palacete dos Brandões ou Palacete dos Terena ou Palacete dos Monfalim



Em frente à entrada dos jardins do Palácio de Cristal, encontra-se o Paço da Mitra ou Solar dos Terenas, que já foi Paço Episcopal após a implantação da República quando abandonou as instalações na Sé, que foram ocupadas, mais tarde, pela Câmara Municipal depois da demolição das que tinha na Praça D. Pedro, e após breve passagem pelo palacete da quinta de Sacais.
O chamado Palácio da Torre da Marca pertenceu, em tempos idos, a três poderosas e influentes famílias portuenses os Brandões, a que andaram ligados Diogo e Fernão Brandão, poetas do Cancioneiro; os condes e marqueses de Terena; e os primeiros e únicos marqueses de Monfalim, que morreram sem descendência. No brasão ainda existente na fachada do nobre edifício estão representadas, exactamente, as armas dessas três famílias.
Foram os herdeiros dos Monfalim que venderam o imóvel à Diocese do Porto. No edifício funcionou um colégio, esteve instalado o Asilo Profissional do Terço, antes de se transferir para as suas actuais instalações na Praça do Marquês de Pombal e, a partir de 1910, com o surgimento da Lei da Separação e a ocupação, pelo Estado, do antigo Paço Episcopal, junto à Sé, o antigo Palácio da Torre da Marca, que ficava no que chegou a chamar-se, Largo da Torre da Marca, serviu de residência aos bispos do Porto.
Do site do Centro de Cultura Católica retirámos as seguintes passagens: 

“Chamou-se-lhe, em eras campónias que o tempo soterrou, Quinta da Boavista. Ainda o Porto se remetia à Sé e a S. Nicolau e à Vitória, situava-se aquela granja no então Couto e Honra de Cedofeita. É um rosário de gerações até hoje… Diz a lenda que um tal Pedrossen, negociante hamburguês terá vindo para o Porto no último quartel do séc. XVII e se estabeleceu na freguesia de S. Nicolau, e ali enriqueceu. É com este Pedrossen que Pinho Leal relaciona a lenda do negociante rico e orgulhoso, senhor da Torre do mesmo nome, que, ao ver os seus navios entrarem a barra carregados de mercadorias preciosas, desafiou o próprio Deus: Agora nem Deus seria capaz de me fazer pobre. Acto contínuo, uma tempestade destroçou todos os barcos e reduziu-o à miséria, obrigando-se, o pobre, a andar pelas ruas a pedir: dai esmola a Pedro Sem, que já teve e agora não tem… Como quer que seja, sabe-se que, por escritura lavrada no tabelião Pedro Fernandes do Porto, em 26 de Fevereiro de 1492, a Torre e os seus anexos, ali identificados como Quinta da Boa Vista, passou das mãos de um outro Pero do Sem, sobrinho de Martim do Sem, para os seus parentes colaterais João Sanchez, fidalgo castelhano, e sua mulher Isabel Brandoa, da Casa dos Condes da Feira. Esta é a razão por que a Torre aparece depois identificada como de Brandão ou dos Brandões...
…Terá sido um seu descendente, Luís Brandão de Mello Pereira de Lacerda, que construiu a casa junto à Torre, na segunda metade do século XVIII e ali terá nascido, em 1793, o seu filho José Maria Brandão de Mello que casou, em 1814, com D. Maria Emília Correia de Sá, filha do primeiro Marquês de Terena. A neta deste José Maria, D. Eugénia Maria Brandão de Mello, 3ª Marquesa e 4ª Condessa de Terena e 3ª viscondessa de S. Gil de Perre, casou em 29 de Julho de 1861, com o seu tio materno D. Filipe de Sousa Holstein, 1º Marquês de Monfalim e filho dos Duques de Palmela. Deste casamento não houve descendência, pelo que a Casa e a Torre foram deixadas a suas sobrinhas D. Mariana e D. Eugénia de Jesus de Sousa Holstein. Esta, nascida a 7 de Março de 1866, professou na Congregação das Irmãs de Santa Doroteia em 1897 e veio a falecer em 31 de Maio de 1937…” 

Quando, em 1914, o Bispo do Porto, D. António Barroso regressou do exílio em Remelhe, Barcelos, instalou-se, por empréstimo, na Quinta de Sacais. O seu sucessor D. António Barbosa Leão, apoiado por uma subscrição dos fiéis da cidade, adquire, aos herdeiros dos Marqueses de Monfalim, a Casa da Torre da Marca para aí instalar a residência Episcopal. Assim, desde os finais de 1919 até 1964 esta foi ocupada por D. António Barbosa Leão, D. António Augusto de Castro Meireles, D. Agostinho de Jesus e Sousa e D. António Ferreira Gomes, e aqui funcionaram também os serviços da Cúria Episcopal. Foi nos terrenos desta casa que, em 1934 quando se realizou a Exposição Colonial, se abriu a Rua de Júlio Dinis, no troço que liga a Praça da Galiza ao Palácio de Cristal.
A Rua de Júlio Dinis projectada há anos, só em consequência da Exposição Colonial, seria aberta, em terrenos expropriados à Mitra.
Em 1964 o Paço da Sé voltou à posse da Diocese.



Paço da Mitra




Palácio dos Monfalim antes da abertura da Rua de Júlio Dinis (rasgada pela esquerda da foto)



Rua de Júlio Dinis, antes e 70 anos, depois, com a Torre da Marca, ao fundo - Ed. "facebook.com/PortoDesaparecido/"




Desde do cruzamento do actual traçado da Rua de Júlio Dinis com a Rua da Piedade, até à Rotunda da Boavista, o arruamento implantado começou por ter o topónimo de Rua Nova do Palácio, que seria transferido e substituiria o que é hoje a Rua Jorge Viterbo Ferreira.
Um pouco antes, na esquina da Rua de Júlio Dinis com a Rua de S. Paulo, haveria de ser levantado um edifício, icónico, com projecto de 1960, do arquitecto Agostinho Ricca, construído nos anos seguintes e que ficou conhecido por "Edifício Montepio".





Edifício Montepio, em 1968



A Rua Júlio Dinis no local hoje identificado como Praça da Galiza passaria junto de um campo em tempos chamado, Campo do Lagarinho, "na aldeia de Vilar". Ora foi através desse campo que nos meados do século XIX se rasgou uma nova artéria "que ia desembo­car ao sítio do Padrão de Vilar" a que foi dado o nome de Rua da Torrinha.
Na altu­ra, este novo arruamento corresponderia à actual Rua da Piedade, na parte que vai do Largo de Alexandre de Sá Pinto até à Praça da Galiza. A parte que hoje é a Rua da Tor­rinha tinha, naquele tempo, o nome de Rua do Priorado por também pertencerem ao D. Prior da Colegiada os terrenos em que foi aberta.
O topónimo Torrinha designava um casal rústico. 




Capela do Senhor Jesus da Boa Nova



A capela teve origem num padrão que um piloto da carreira da Índia, Pantaleão Gomes, morador em Miragaia, ali mandou erguer, em 1628 no cumprimento a uma promessa ao Senhor Jesus de Bouças (Matosinhos) durante uma tempestade. Para além de mais de um século, o padrão esteve numa encruzilhada de caminhos por onde passavam os romeiros que se dirigiam às romarias a Bouças (Matosinhos) e Senhora da Hora.
Para a Senhora da Hora os romeiros passavam pela torre de Pedro Sem, e rumavam ao seu destino, por Ramalde depois de passar na Falperra (Ramada Alta).
Para Bouças (Matosinhos) seguiam a Rua de Vilar, subiam a actual Rua Rainha D. Estefânia e pelo Campo Alegre rumavam ao Senhor de Bouças.
Devido à quantidade apreciável de esmolas angariadas junto do cruzeiro, foi possível em 1782 construir uma capela nessa encruzilhada de caminhos, para o que contribuiu com a cedência gratuita de um terreno, o grande capitalista João Pacheco Pereira que morava à entrada da Rua de Vilar.



Planta de Balck de 1813



Acima mostra-se o percurso (a azul) que os romeiros faziam, desde a Torre de Pedro Sem em direcção à Ramalda Alta, com destino à Senhora da Hora.



Igreja de Lordelo do Ouro à direita




Na foto anterior, se vê a passagem de Lordelo para a Foz Velha pela nova Rua Diogo Botelho em meados do século XX. Por aqui se ia, anos antes, com destino a Bouças, vindos da zona de Vilar.
À esquerda seria a Rua de Serralves e ao fundo, à direita, a Paroquial de Lordelo.
Aquela capela do Senhor Jesus da Boa Nova erigiu-a a antiga confraria de S. José e S. Brás de carpinteiros, escultores enxambladores, violeiros e torneiros, que haviam estado na capela dos Brandões da Igreja de S. Francisco, no ano de 1782, no mesmo lugar onde, Pantaleão Gomes mandara levantar o citado padrão em honra do Senhor Jesus de Bouças.
Mais tarde juntou-se àquela confraria a irmandade dos Latoeiros e Picheleiros que tinham por patrono S. Gonçalo e sede na desaparecida capela de S. Roque à entrada da Rua do Souto.
Na casa anexa esteve durante anos o Seminário dos Meninos Desamparados, actualmente em Campanhã, na Rua do Pinheiro.
O Padrão inicial está guardado no Museu de Arte Sacra, anexo à Igreja de S. Lourenço (vulgo Grilos).
À entrada da capela, ao nível do degrau superior da pequena escada exterior que dá acesso à porta principal, do lado da Rua da Boa Nova, ainda existe uma pedra com restos de uma inscrição já quase imperceptível que se julga ter pertencido ao referido padrão.
A festa à Senhora da Boa Nova que ficou mais conhecida, tinha lugar em S. Nicolau.



Capela do Senhor Jesus da Boa Nova


segunda-feira, 24 de julho de 2017

(Continuação 14)





Já foi a Rua dos Quartéis e seguidamente Rua do Triunfo (devido às lutas liberais)





Planta com Rua dos Quartéis e Paço do Morais e Castro


Legenda:

1. Rua da Boa Nova
2. Paço do Morais e Castro
3. Rua do Rosário
4. Hospital Santo António
5. Rua dos Carrancas
6. Rua dos Quartéis
7. Rua de Vilar
8. Rua da Bandeirinha
9. Quartéis
10. Largo da Torre da Marca



Na planta anterior verifica-se, imediatamente, que a Rua da Restauração ainda não está aberta e, como é lógico, nem o Palácio de Cristal, nem a Rua de Júlio Dinis existem, e por uma consulta mais atenta a essa famosa Planta Redonda de George Balck (editada em 1813), podemos observar a Rua dos Quartéis e respectivas imediações, nesse primeiro quartel do século XIX, e muitos outros pormenores interessantes.
A primeira coisa que salta à vista, é a ausência de edifícios do Vilar à embocadura da Rua do Rosário, sendo a única construção que o mapa indica, o conhecido quartel.
Em direcção às actuais ruas de Alberto Aires de Gouveia (que, por esta altura, se chamava dos Carrancas ou Carranca, na versão de Balck, por nela viver a família com este apelido, os Morais e Castro) e da Bandeirinha, estendiam-se campos e quintas. E o mesmo cenário rural se prolongava, nas traseiras do edifício militar, até Monchique, já que não fora ainda aberta a Rua da Restauração.
Em sentido oposto, para o lado das ruas do Vilar e de Entre Quintas, rasgava-se o campo, ou largo, da Torre da Marca, rodeado por uma série de quintas, mais tarde, parcialmente sacrificadas à construção do Palácio de Cristal inaugurado, em 1865, com a Exposição Internacional do Porto.
Na carta de Balck, a já citada Rua da Boa Nova prolonga-se pela da Carvalhosa que, por sua vez, se estende até ao Largo do Priorado, englobando as actuais ruas da Maternidade, da Boa Hora e de Aníbal Cunha. E, em frente ao quartel, do lado oposto da então Rua dos Quartéis, abre-se um caminho sinuoso, correspondendo à rua que foi a Rua do Pombal e é, agora, de Adolfo Casais Monteiro.
A actual Rua D. Manuel II foi aberta ao longo de um caminho que, em tempos bastante recuados, saía da porta do Olival, na Cordoaria, prosseguia pelas ruas de Vilar, Rainha D. Estefânia e Campo Alegre, até à Foz e Matosinhos. 




Museu Soares dos Reis e o escultor Soares dos Reis




Palácio dos Carrancas, depois Paço Real e, finalmente, Museu Soares dos Reis



Na foto acima, em destaque, o edifício do que viria a ser o Museu Nacional Soares dos Reis e, ao fundo, à direita, o local onde agora são as novas instalações do hospital de Santo António.
De notar a linha de árvores, a meio da rua, em frente ao palácio. Esse renque de árvores, hoje, já não existe.
Em frente ao palácio, ficava o horto de Alfredo Moreira da Silva, um conhecido botânico da cidade.
António Manuel Soares dos Reis (S. Cristóvão de Mafamude, Vila Nova de Gaia 14 de Outubro 1847-1889) é considerado um dos maiores escultores portugueses do séc. XIX.
Era filho de Manuel Soares Júnior, proprietário de uma mercearia a retalho, e de sua mulher Rita do Nascimento de Jesus.
Com vinte anos, em 1867, partiu para Paris, como pensionista do Estado, onde frequentou o atelier de M. Jouffroy e a École Imperiale et Speciale des Beaux Arts.
Findo o período do pensionato regressou a Portugal, chegando a Vila Nova de Gaia nos primeiros dias de Setembro de 1872. Foi nessa altura que Soares dos Reis apresentou a obra “O Desterrado” como prova documental do aproveitamento dos seus estudos, de modo a justificar a sua permanência no estrangeiro, ao abrigo da bolsa de Estudo.
Ainda nesse ano, a 23 de Dezembro, foi nomeado Académico de Mérito pela Academia do Porto.
A partir de 1881, leccionou a disciplina de Escultura na Escola de Belas-Artes do Porto, a funcionar, à data, no antigo convento de Santo António da Cidade, a S. Lázaro. 
Soares dos Reis é admirado pelos seus contemporâneos, recebe encomendas, participa em concursos e exposições, concebe monumentos públicos. A doença e insatisfação levam-no ao suicídio, em 1889, no seu atelier.
Em 1881, a escultura “A Flor Agreste”, em mármore de Carrara, uma das suas obras mais conhecidas, foi vendida numa exposição-bazar realizada, no Palácio de Cristal, pelo Centro Artístico Portuense, de que Soares dos Reis foi um dos fundadores.



"A Flor Agreste" faz parte do acervo do Museu Soares dos Reis




Supõe-se que o modelo de “A Flor Agreste” era uma filha de uma carvoeira que passava por perto do atelier de Soares dos Reis. A menina foi retratada em 1878, quando Soares dos Reis aguardava a construção da sua casa-oficina na Rua Luís de Camões, em Vila Nova de Gaia.
A escultura em mármore foi vendida numa exposição-bazar do Centro Artístico Portuense, de que Soares dos Reis foi um dos fundadores, realizada em 1881 no Palácio de Cristal. Postumamente, o modelo em gesso de “A Flor Agreste” serviu de matriz para diversos tipos de reprodução, em vários tamanhos e materiais, conferindo à obra uma difusão extraordinária.
Em 29 de Outubro de 1932, no Salão Silva Porto, no decurso de um leilão de objectos de arte, quando o escritor Antero de Figueiredo e Ramos Pinto discutiam os lanços da obra de Soares dos Reis, “A Flor Agreste” e a licitação atingia os oitenta e seis contos, o leilão foi suspenso e a escultura retirada, pois o governo desejava adquiri-la.
Então, em 16 de Fevereiro de 1889, Soares dos Reis suicida-se, no seu “atelier”, onde escreveu na parede: 

“Sou cristão, porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal”.

 
O Palácio dos Carrancas é um edifício construído na segunda metade do século XVIII (1795) para residência da família de Morais e Castro, conhecida como a família dos Carrancas. Nunca foi apurada ao certo a razão do nome, algo grotesco, que o palácio assumiu. Pretendem, alguns, que a designação decorra do facto de os pais dos seus primeiros proprietários terem habitado a Rua dos Carrancas (depois, da Liberdade e, hoje, Rua de Alberto Aires de Gouveia), onde possuíam uma indústria de passamanaria, especializada no fabrico de galões de ouro. Outros acreditam que "Carranca" era a alcunha deste abastado industrial, Luís de Almeida Morais e que, a rua homónima, herdou a designação do seu desagradável sobrenome.
 
 
“O palácio da rua dos Quartéis (hoje do Triunfo) foi construído em 1795, e chamou-se dos Carrancas por naquela rua habitarem os seus fundadores Manoel e Isidoro Mendes de Moraes e Castro, barões de Nevogilde. Por morte destes, o palácio ficou pertencendo a Henrique José Mendes de Moraes e Castro, 3º barão de Nevogilde. Falecendo este, passou a sua sobrinha D. Carlota Rita Borges de Moraes e Castro, casada com seu primo Luiz de Almeida Moraes e Castro, que deste consorcio tiveram um filho, David Augusto Borges de Alvim Moraes e Castro, casado com D. Sibilina da Gloria Pinto da Fonseca Rangel e Castro”.
Firmino Pereira, In “O Porto d’Outros Tempos” (1914)
 
 
 
O conjunto edificado original era constituído por quatro partes: o palácio propriamente dito, com três pisos e águas furtadas, em forma de U; as galerias, com um piso que pro­longa os dois braços e que estão ligadas por uma terceira galeria transversal; o pátio central contido pelo edifício; e, finalmente, um espaço livre, com cerca de um hectare, nas traseiras, que na viragem para o século XX viu aí ser construído, um velódromo.
O arquitecto escolhido para desenhar este palácio é Lima Sampaio que desenhou a Feitoria Inglesa e que acompanhou a construção do Hospital de Santo António, tudo construções de estilo Neo-clássico.
Ao longo das primeiras décadas do século XIX, o Palácio dos Carrancas desempenhou papel de relevo e acolheu hóspedes significativos. Por ocasião das invasões francesas, foi primeiro habitado pelo general Soult e, depois, pelos comandantes ingleses Wellesley e Beresford.
Durante o Cerco do Porto, D. Pedro IV instalou aqui o seu quartel-general, mas viu-se obrigado a abandonar o palácio por este se encontrar demasiado exposto ao fogo dos miguelistas, aquartelados em Vila Nova de Gaia.
Por outro lado, a família real portuguesa não tinha uma residência oficial no Porto, pelo que, quando nos visitava, ficava no Paço Episcopal.
Assim, em 25/6/1861, D. Pedro V comprou o Palácio dos Carrancas por 35 contos de reis que passaria a funcionar como Paço Real. 
Já vivendo neste palácio, o jovem rei, D. Pedro V, esteve no Porto no lançamento da primeira pedra do Palácio de Cristal, em 24/8/1861.
Após a implantação da República, D. Manuel II exilou-se e o palácio esteve provisoriamente encerrado.
A 6 de Março de 1917, foi anunciado que o rei destituído, D. Manuel II, ofereceu ao governo o seu palácio dos Carrancas, para ser usado como hospital de guerra.
O rei deposto haveria de oferecê-lo, mais tarde, à Misericórdia do Porto, para que esta instituição aí instalasse um hospital para crianças, num documento só conhecido em 1932, aquando da morte do rei.
Entretanto, o chamado Museu Portuense ou Ateneu D. Pedro, tinha sido criado em 1833, por Pedro IV de Portugal, para ser instalado no edifício do Convento de Santo António da Cidade actual edifício da Biblioteca Pública Municipal do Porto, em Santo Ildefonso.
Em 12 de Setembro de 1836, seria assegurada definitivamente a existência do Museu, por Decreto do governo de Passos Manuel, com a designação de “Museu de Pinturas, Estampas e outros objectos de Bellas Artes”.
Em 1905, recebeu o contributo das peças vindas do Museu Municipal ou Museu Allen ou Museu da Restauração, fundado em 1836 por João Allen, na Rua da Restauração
Em 1848, morria o seu fundador e, em 1850, o Município comprou as colecções e o edifício do Museu que foi reaberto em 1852 e, aí, se conservou até 1905, quando foi instalado em S. Lázaro juntamente com o Museu Portuense.
Em 1911, o Museu Portuense ganhou o nome de Soares dos Reis, em homenagem aquele escultor portuense. Grande parte do espólio do escultor faz parte da colecção do Museu, sendo, talvez, a obra mais emblemática, a escultura em mármore de nome “O Desterrado”.
Em 1932, o Museu Soares dos Reis passa a ter estatuto de Nacional.
Voltando ao Palácio dos Carrancas, em 1937, o Estado adquiriu-o à Santa Casa de Misericórdia do Porto, vindo a ser inaugurado como museu, cinco anos mais tarde, em 1942.
Na prática, para que a instalação do museu fosse possível na nova casa, Vasco Valente (1883-1950) nomeado, em 1932, director do Museu Nacional Soares dos Reis, ainda nas velhas instalações a S. Lázaro, cargo que manteve durante vários anos, foi quem teve um papel de destaque, iniciando negociações com o Estado e a Misericórdia, para transferência do museu para o Palácio devoluto.
Instalado o museu, desde 1833, em péssimas condições, no edifício de Santo António da Cidade, em S. Lázaro, urgia encontrar instalações condignas.
O Dr. Domingos Braga da Cruz, Provedor da Misericórdia em Julho de 1963, chegou a afirmar que o Estado, pelo Dec. Lei nº. 27878 de 21/7/1937,  tinha expropriado o palácio à S. C. da Misericórdia, para lá instalar o Museu Soares dos Reis.
Como compensação pela transferência da propriedade, a SCMP acabaria, na realidade, por receber 2.264.000$00.
Começadas as obras de adaptação do novo edifício em 1940, com projecto do engenheiro Fernandes Sá, o museu seria inaugurado em 1942.
 
 
 
“À luz da museologia da época, o edifício adequava-se na perfeição à função de museu: qualidade arquitectónica, estilo neoclássico e tradição histórica.
Sob a orientação do Engº Fernandes Sá, iniciam-se as obras de adaptação, a cargo da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
À época, as alterações mais notáveis consistiram na transformação das oficinas da antiga fábrica em galerias com iluminação zenital, destinada à pintura, assim como, a criação de uma galeria de escultura, para alojar a obra de Soares dos Reis”.
Fonte: Site do Museu Nacional Soares dos Reis
 
 
 
Com excepção de algumas intervenções de pormenor, o Museu é apenas alvo de transformação maior a partir de 1992: projecto de remodelação e expansão da autoria do arquitecto Fernando Távora. Decorrendo a um ritmo lento, o projecto é concretizado em Julho de 2001, dentro da realização do Porto, Capital Europeia da Cultura. 
O acervo do museu foi constituído, na sua origem, pelas colecções do Museu Portuense e do Museu Municipal do Porto (antiga colecção Allen - Museu Allen) a que se acrescentaram doações e aquisições posteriores.
O Museu Soares dos Reis seria, assim, o sucessor final do Museu de Pinturas e Estampas, instituído por D. Pedro IV.
 
 
"Com a designação de Museu Portuense de Pinturas e Estampas, instalou-se no Convento de Santo António, na zona oriental da cidade (Jardim de S. Lázaro), sob direcção do pintor João Baptista Ribeiro. Seguia um programa cultural e pedagógico inovador, de apoio aos artistas da Academia Portuense de Belas Artes e divulgação da arte mediante a organização de exposições públicas. Foi confirmado por D. Maria II em 1836, no âmbito das reformas da instrução pública levadas a cabo pelo ministro Passos Manuel.
Em 1839 o acervo do Museu transitou para a direcção da Academia Portuense de Belas-Artes, o que levou a um fortalecimento da relação entre o museu e o ensino artístico no século XIX. O contributo da galeria de S. Lázaro consistia na organização das exposições trienais que tiveram como resultado a reunião de pintura e escultura do Porto oitocentista. Esta colecção forma uma das partes mais consistentes do acervo documentando o retrato, a cena de costumes e a paisagem de influência naturalistaNo âmbito das reformas institucionais da República em 1911, com uma política museológica descentralizada e tendente à especialização, inscreve-se a criação do Museu Soares dos Reis, evocativo do primeiro pensionista do Estado em escultura pela Academia Portuense de Belas Artes: António Soares dos Reis, o célebre autor do Desterrado.
Com o Estado Novo valoriza-se a conservação do património e acentua-se o papel do museu como lugar de memória de toda uma nação que se quer forte e coesa. É neste sentido que em 1932 o museu centenário adquire o estatuto de Museu Nacional, o que lhe vai proporcionar a independência face à tutela académica e a expansão patrimonial”
Site do Museu Nacional Soares dos Reis



Os Quartéis


“Poucos anos após o levantamento do cerco miguelista, mais precisamente em 1838, a Câmara do Porto, evocando a vitória liberal, determinou que a Rua dos Quartéis, hoje de D. Manuel II, passasse a ostentar a designação de Rua do Triunfo. O topónimo então despromovido - Rua dos Quartéis - tivera origem num conjunto de edifícios destinados a aquartelamento militar que ali haviam sido erguidos pelos finais do século XVII.
Em frente do Museu encontra-se, então, o antigo quartel do Regimento de Infantaria 6, que foi também de Metralhadoras 3 e do C.I.C.A.P, actualmente ocupado pelo Hospital de Santo António e pela Universidade do Porto.
À excepção de um portal de granito - cujo estilo tem fundamentado a presunção de que a obra remonta ao século XVII -, pouco resta destes primitivos quartéis, substituídos pelo actual edifício da Reitoria da Universidade do Porto, onde esteve sedeado, desde o início de oitocentos, o Regimento de Infantaria 6.
Nos anos que antecederam o Cerco do Porto, de 1829 a meados de 1832, o governo miguelista instalou aqui o Regimento de Infantaria 19, depois novamente substituído pelo anterior, que só veio a ceder o edifício, já neste século, ao Batalhão de Metralhadoras 3. Quando se deu o 25 de Abril de 1974, o imóvel acolhia o Centro de Instrução de Condução Auto, ou CICAP, como ficou popularmente conhecido no Verão de 1975, quando esta unidade se aliou ao RASP (Regimento de Artilharia da Serra do Pilar) numa revolta contra o Comando da Região Militar Norte, então assegurado por Pires Veloso”.
Fonte: Site “portoxxi.com”


Vindo de Coimbra, onde se encontrava instalado, a partir de Outubro de 1872, o Regimento de Infantaria 10 fixou-se nas instalações da Torre da Marca, tendo vindo a abandoná-las quando foi extinto, por ter participado na malograda revolta do 31 de Janeiro de 1891.
Não se sabe desde quando foram construídos os edifí­cios onde funciona­ram os quartéis da Torre da Marca - nome que se dava aos terrenos que ficavam nas proximidades da baliza de que os navios se ser­viam para orientar a sua entrada no rio Douro.
Hen­rique Duarte e Sousa Reis, um dos maiores historia­dores do Porto que viveu no século XIX, aponta o sé­culo XVII, de cuja época será o portão que ainda está no local que outrora foi a entrada principal dos quartéis. Mas o mais pro­vável é que a fundação da­quelas casernas seja do século XVIII, da altura em que o famoso marquês de Pombal mandou reorgani­zar toda a guarnição militar da cidade. Sabemos que, antes disso, em 1696, por iniciativa de D. Pedro II foi estabelecido no Porto um terço de Infantaria. Mas não se sabe onde ficava esse aquartelamento. 




Quartel



Indirectamente, deve-se ao Palácio dos Carrancas a atribuição do nome de D. Manuel II à Rua do Triunfo, já que foi por este o ter cedido graciosamente, bem como pelo facto de o ter habitado quando se deslocava ao Porto, que a autarquia decidiu prestar-lhe esta homenagem toponímica.



D. Manuel II na varanda do palácio

A foto acima foi tirada durante a visita ao Porto, em Novembro de 1908, de D. Manuel II e de sua mãe D. Amélia e nela, D. Manuel II agradece à multidão, numa varanda do Palácio dos Carrancas. Vêem-se muito bem os armazéns do Hospital de Santo António e a chaminé da caldeira. Mais ao fundo as traseiras da ala frontal e a Torre dos Clérigos.





Palácio de Cristal 



O Palácio de Cristal foi um edifício que existiu no antigo Campo da Torre da Marca, na freguesia de Massarelos. O primeiro Palácio de Cristal foi começado a construir em 1861 e demolido em 1951 e compreendia na sua envolvente uma extensa área ajardinada.


PAVILHÃO ROSA MOTA (construído em 1954) nos jardins do Palácio de Cristal.