segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

25.31 Taça de Portugal (futebol)


O que é que terá a ver com a cidade do Porto a Taça de Portugal todos os anos entregue a uma equipa de futebol, após um jogo realizado, normalmente, no Jamor?
A prova nos moldes em que actualmente é disputada foi instituída na época 1938/39.


Taça de Portugal (peça executada em 1939) - Fonte: “Leitão & Irmão”


A conexão é antiga tendo o seu início cerca de 100 anos antes da data em que foi executado o troféu que premeia o vencedor. Vamos à história.
José Pinto Leitão (1798-1866) com 24 anos, em 1822, registou o punção (marca pessoal de fabrico) “JPL” e abriu o seu negócio na Rua das Flores, o clássico arruamento dos ourives do ouro no Porto.
Bem perto na Confraria de Santo Elói, onde hoje é a Praça do Infante, junto ao Palácio da Bolsa, se faziam à época os exames e as provas para os ourives do ouro.
Em 1837, José Pinto Leitão lança-se definitivamente e em grande escala na actividade que vinha já exercendo (após o seu casamento com Maria Delfina), com a ajuda do seu sogro, um abastado comerciante, de seu nome, José Teixeira da Trindade.
José Pinto Leitão dedica-se, a partir de então, ao trabalho do ouro que vinha do Brasil, com uma loja-oficina aberta na Rua das Flores, dando assim continuidade nesse local ao negócio do seu sogro, destacado cidadão ligado ao comércio com o Brasil e ao negócio do ouro.
Diga-se que José Teixeira da Trindade tinha estabelecido relações particulares com D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, desde o Cerco do Porto em 1832.
Em 1862 são os filhos de José Pinto Leitão, Thomaz Pinto Leitão e Olindo José Pinto Leitão, que tomam conta do negócio e fundam a firma “Leitão & Irmão”.
Em 1872, “Leitão & Irmão” recebe o título de “Ourives da Casa Imperial do Brasil”.
Em 1877, a firma sita na Rua das Flores, começa a dar corpo ao projecto de mudança de instalações para a Praça D. Pedro.
Entretanto naquele mesmo ano de 1877, a firma abre em Lisboa, no Largo do Loreto ou Largo das Duas Egrejas, hoje, Largo do Chiado, uma sumptuosa loja.
No dia 1 de Dezembro de 1877, D. Luís atribuiu à casa Leitão & Irmão o título de “Joalheiros da Coroa” que adquire um novo punção, com número de ordem 33, sendo actualmente a mais antiga ourivesaria portuguesa com punção próprio.


Punção de “Leitão & Irmão”




Projecto de montra da loja da “Leitão & Irmão” para a Praça D. Pedro – Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”


Publicidade à Ourivesaria “Leitão & Irmão” já na Praça D. Pedro, 42-44, e com instalações também em Lisboa



Publicidade a ourivesarias da cidade do Porto – Fonte “O Illustrado da Tarde” – 28/08/1880; Cortesia de José Leite administrador de “restosdecoleccao.blogspot.com”


Contemporâneas com “Leitão & Irmão”, sita na Praça D. Pedro, são as ourivesarias citadas no quadro publicitário anterior, em 1880.
Nos dias de hoje, a “Leitão & Irmão” continua, apoiada em várias lojas, a exercer a sua actividade na capital.
Entretanto, no Porto, a firma encerrou a actividade há muitos anos (em data que não é possível precisar) transferindo-se integralmente para Lisboa.
São inúmeras as obras célebres e requintadas da “Leitão & Irmão” que ficaram para a história.


Peças célebres executadas por “Leitão & Irmão”


-1888- Cálice oferecido por D. Luís ao Papa Leão XIII, para a comemoração do Seu Jubileu em 1888. Com particular demonstração de agrado, o Papa Leão XIII celebrou a missa do Jubileu com o cálice oferecido pelo Rei de Portugal.


Cálice – Fonte: “Leitão & Irmão”


-1898- Medalha comemorativa dos 400 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia.


Medalha - Fonte: “Leitão & Irmão”


-1900- Baixela Barahona, considerada uma obra-maior da ourivesaria portuguesa. O desenho e a modelação foram confiados a Columbano Bordalo Pinheiro, um dos grandes artistas da época.


Baixela Barahona - Fonte: “Leitão & Irmão”


-1907 – Cofre da Cidadania, oferecido ao príncipe D. Luís Filipe durante a viagem real às colónias portuguesas de África em 1907. Foi manufaturado nas oficinas do Bairro Alto pelas mãos de dois mestres prateiros portugueses: João da Silva, um jovem e promissor cinzelador, aprendiz nas oficinas do Bairro Alto e posteriormente formado em Paris e Genéve, e Júlio Rodrigues Pinto, chefe da oficina. Em prata cinzelada e com quatro presas de marfim aplicadas sobre a tampa, assenta em quatro rinocerontes e ostenta nas arestas figuras de nativos.


Cofre da Cidadania - Fonte: “Leitão & Irmão”



- 1939- Taça de Portugal (futebol) em prata cinzelada. A taça remete para os Descobrimentos, com caravelas cinzeladas em diferentes locais do troféu. Sobre as caravelas destacam-se as cinco quinas. Por cima das asas está a esfera armilar, encimada pela cruz de Cristo, referências da portugalidade.



-1942 – Coroa de Nossa Senhora de Fátima, uma das mais divulgadas joias portuguesa. Oferta dos portugueses em sinal de gratidão pelos seus filhos terem sido poupados aos dramas da 2ª Grande Guerra. A coroa, em ouro e pedras preciosas, resultado de uma campanha nacional de ofertas confiadas à casa Leitão, foi trabalhada durante três meses por doze artífices e tem cravadas em ouro 313 pérolas e 2679 pedras preciosas. Quase meio século depois, em 1984, esta obra ganhou outro relevo quando o Papa João Paulo II ofereceu a Nossa Senhora de Fátima a bala que o atingiu no atentado de 13 de maio de 1981 no Vaticano. A bala encontrou o encaixe perfeito no espaço vazio, deixado em 1942 na união das oito hastes que constituem a coroa de Rainha.



Coroa de Nossa Senhora de Fátima - Fonte: “Leitão & Irmão”

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

25.30 “Por-fi-ri-os”


Porfírio Augusto de Araújo começaria por abrir uma loja na Rua de Santa Catarina, nº 137 (quase em frente ao Café Majestic), a denominada  “Loja das Gravatas”, na década de 40 do século XX.


Loja das Gravatas, na Rua de Santa Catarina, nº 137


A “Loja das Gravatas” acabaria por mudar para a Rua de Santa Catarina, nº 39, agora com a nova denominação de Porfírios, uma loja que seria a coqueluche dos anos 60 e 70.
“Por-fí-ri-os”, vulgarmente conhecida por “Porfírios”, e também por “Porfírios das Meias”, foi uma loja fundada na Rua de Santa Catarina, por Porfírio Augusto de Araújo, cujo principal artigo era, como se adivinha, as meias.
No filme “A costureirinha da Sé”, um dos 2ºs prémios do concurso “O Vestido de Chita” era oferecido pela “Porfírios das Meias” (Um par de sapatos de nylon).


“Por-fi-ri-os”, à esquerda, na Rua de Santa Catarina, nº 39 (próximo da Praça da Batalha) – 1956


Publicidade distribuída no cinema “Monumental”, em Lisboa, em 1956 – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”; Colecção de Carlos Caria


Pelo panfleto acima se pode observar que à data, a “Por-fi-ri-os”, já tinha também uma loja em Lisboa. Na capital, a “Por-fi-ri-os”, teve um sucesso enorme, promovendo e realizando grandes passagens de modelos e os concursos das Mini-saias.
A loja na capital era gerida por dois irmãos de Augusto, António e Luís Porfírio.


Logo da “”Por-fi-ri-os”


Finalistas do concurso de Mini-saias da “Por-fi-ri-os”, em 1967, em Lisboa (ganhava quem tivesse mais aplausos)

“Qual o Portuense que não entrou ou comprou alguma coisa nos "gandas malucos": 
Quem diz jardim diz flores; Quem diz praia diz areias; Quem diz paixão diz amores; Quem diz Porfírios diz meias”. 
Fonte: JPortojo


Drugstore da “Por-fi-ri-os” na Rua de Santa Catarina


Ao entrar na loja do Porto, deparávamos-nos com uma secção de peças mais pequenas, cintos, meias e outras bugigangas, seguindo-se um corredor escuro que tentava recrear o ambiente das “boîtes” da altura, que terminava numa secção de homem/senhora, em moldes de “Drugstore”.
Este espaço era composto por barracas de madeira, comercializando cada qual, determinados produtos, onde eram expostos desenhos de clientes, sujeitos mensalmente a um concurso.
As calças à “boca-de-sino”, as famosas mini-saias, as camisas floridas, os collants coloridos, pulseiras, colares, óculos escuros (de aros enormes), cintos (tipo Texas), blusões estampados, etc, tinham venda assegurada.
Os jovens mais politizados, com simpatia por ideologias de esquerda, sobre os artigos da “Por-fi-rios” tinham uma opinião bem definida – “eram artigos pró foleiro”.


O atendimento pelas empregadas da “Porfirios”- Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”


Publicidade da “Por-fi-ri-os”


Com a abertura do mercado nacional aos produtos estrangeiros, após o 25 de Abril e a instalação entre nós de marcas consagradas, como a Zara, Berska, Stradivarius, etc, a “Por-fi-ri-os” não teve possibilidade de concorrer com elas e as lojas de Lisboa e Porto acabariam por fechar, em 2001.


Concurso dos Vestidos de Chita


A propósito dos Concursos do Vestido de Chita, referido anteriormente, diga-se que foram patrocinados durante várias décadas, pelo Jornal de Notícias e as respectivas finais decorriam com grandes audiências, nos Jardins do Palácio de Cristal, sendo que o texto seguinte nos faz uma descrição do certame.


“Chita é um tecido de algodão barato e de pouca qualidade, estampado com cores fortes, geralmente florais, e tramas simples. As estamparia é feita sobre o tecido conhecido como morim. 
As características principais são cores primárias e secundárias em massas chapadas que cobrem totalmente a trama, tons vivos, grafite delineando os desenhos, e a predominância de uma cor. As cores intensas servem, não só para embelezar o tecido, mas também para disfarçar irregularidades, como eventuais aberturas e imperfeições.
O nome chita vem do sânscrito chintz, surgiu na Índia medieval e conquistou europeus, antes de se implantar no Brasil. Com o fim da guerra, a chita continuava a vestir os trabalhadores braçais e os moradores das regiões rurais, sendo o pano característico das festas populares.
Recordo com alguma nostalgia o tempo dos concursos de vestidos de chita que via frequentemente no teatro ao ar livre do Palácio de Cristal, em noites de verão, em que o calor imperava e muita gente acorria ao evento. As revistas femininas da época ditavam a moda que nos chegava de Paris e ensinavam o comportamento feminino ideal; a mulher era a fada do lar com aptidões para se tornar a submissa dona de casa, como era suposto acontecer naquela época.
O concurso era patrocinado por um jornal da cidade e com toda a projeção que este evento alcançava, as costureiras que nele participavam com modelos muito originais e de grande criatividade, viam o resultado do seu trabalho completamente recompensado ao ser mostrado a milhares de pessoas que adoravam o desfile. Os modelos iam de trajes de passeio até vestidos de cerimónia e de noiva.
Tempos felizes, esses, em que passávamos horas agradáveis sem despender muito dinheiro e a alegria era nota dominante”.
Com o devido crédito “palavrasesentidos.blogs.sapo.pt”


A assistência à final do Concurso do Vestido de Chita no Palácio de Cristal, em 1968


As finalistas ao Concurso do Vestido de Chita no Palácio de Cristal em 1968


À data, os Jardins do Palácio de Cristal, tinham um recinto com bancadas, onde se realizavam sessões de variedades, na área hoje ocupada pela Biblioteca Almeida Garrett.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

(Conclusão)


Na sua visita ao Porto, Madame Rattazi hospedou-se no Hotel Francfort que ocupava o local onde está hoje, a estátua conhecida como a “Menina Nua” ou “Juventude”, na Avenida dos Aliados.
No terreno em que estava implantado o hotel (construído em 1851, em pleno Romantismo, por iniciativa do rico negociante da praça do Porto, Luís Domingos da Silva Araújo) tinha existido antes, durante alguns  anos, um cemitério para cães da municipalidade, 
Sobre o hotel Francfort e sobre a sua proprietária, dizia a escritora.





A meio, no gaveto, o Hotel Francfort


Sobre o carácter dos portuenses e a sua relação com a capital, opinava madame Rattazi.




Aliás, a visão de madame Rattazi é muito próxima da de Ramalho Ortigão expressa nas “FARPAS”.

“Quando o príncipe reinante e a sua augusta família iam às províncias do Norte, o Porto recebia-os de azul e branco, num grande rasgo de júbilo sublinhadamente plebeu, que entocava a nobreza de pura humilhação perante as magnificências da burguesia dinheirosa e bizarra.
(…) Aqui mora o Faz-Tudo! Solda, gruda, parafusa, martela, arrebita, bota abaixo, reconstitui, engonça, retesa, dá corda, regula, acerta e garante — sempre de lança em punho, feito de pedra, velando potente na fachada dos Paços do Concelho à Praça Nova, por cima da arrecadação das luminárias e das chaves do baluarte feitas de pasta pelo Alba dourador da Rua de Santo António. 
Ramalho Ortigão - As Farpas

Ainda sobre a relação entre Lisboa e o Porto, diga-se que a rivalidade hoje presente, já vem de longe.
Sobre uma visita de um lisboeta ao Porto é o texto seguinte (com uma boa dose de humor), que saiu no “Comércio”, antigo nome de “O Comércio do Porto”, de 14 de Setembro de 1855, anterior, por isso, cerca de 25 anos, às visitas da madame Ratazzi.

“As festas da aclamação em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.
É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciam-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.
Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretensioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.
Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale nesta retrógrada terra.
Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.
A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense traz-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital. O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilização da capital, porque, seja dito entre parêntesis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.
O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo. Vanitasvanitatumalfaciaalfaciarum.”
Fonte: “aportanobre.blogs.sapo.pt”

Ainda sobre a relação dos portuenses com os lisboetas escrevia Ramalho Ortigão.


“O portuense não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade vinga-se, desprezando-a. Da Polícia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria.”


Na época das visitas de Madame Ratazzi, a sala de espectáculos de eleição da cidade do Porto era o teatro S. João, que não teve oportunidade de visitar por se encontrar encerrado. No entanto, não deixou de fazer uma breve referência às outras salas de espectáculos.





E acrescentava sobre a actividade artística e modo de a encarar dos portuenses, nomeadamente a independência de pensamento face à capital, na sequência do qual, êxito alcançado por uma companhia em Lisboa, não significava um salvo-conduto para o sucesso no Porto.






Teatro de S. João em 1900 antes do incêndio


Sobre o Palácio da Bolsa disse Madame Rattazi.




E sobre o imponente Hospital do Conde de Ferreira.



E sobre a disponibilidade dos portuenses para a prática da caridade.




Tendo visitado a Foz do Douro, faz referência a diversas ruas da cidade do Porto, nomeadamente a Rua de S. João e a Rua das Flores, descreve a casa da Quinta da Macieirinha e o seu encontro com o proprietário, Pinto Basto, e anota alguns dos costumes dos portuenses.




Sobre a estadia no Porto da princesa Solms, escreve Artur Magalhães Basto, a propósito de um baile dado em sua honra, no Palacete do Conde de Samodães, na Rua dos Sol, que durante anos foi o local onde funcionou a Escola Comercial Oliveira Martins.




E sobre a visita de madame Rattazi ao Porto, o caricaturista nascido em Ponte de Lima, Sebastião Sanhudo, fazia publicar no humorístico “O Sorvete” (2º ano, nº 88 – Porto, 1880) um desenho de crítica aos escritos de madame Rattazi, em que ela era apresentada como um pássaro, por analogia com o título da obra.


Madame Rattazi com o apôdo “a pássara”, como passou a ser conhecida


A legenda (impressa) da gravura acima diz:
O sábio doutor Costa mostra à Pássara – que viu Portugal d’um golpe – o lindo rio da Viella (nome que lhe dava), os penitentes vermelhos descendo a collina com velas acesas etc”.

Naqueles tempos Rafael Bordalo Pinheiro, já publicava o “António Maria” e o caricaturista apresentava a sua visão de madame Rattazi.


Princesa Rattazi em Litografia Colorida de Rafael Bordalo Pinheiro


Por outro lado Guerra Junqueiro na revista “Viagem à Roda da Parvónia”, chama-lhe “Princesa ratazana”.
Mais tarde, veio a público que foi um secretário da princesa que escreveu a obra polémica.

“De resto, quem escreveu o “Portugal à vol d'oiseau» não foi a princeza, mas sim um francez expatriado, que á epoca se achava residindo em Lisboa e era muito da intimidade da suposta-autora, mr. Stenacker”.
Fonte: Ilustração Portuguesa II Série – Nº 808, Lisboa, 13 de Agosto de 1921

Quando a 7 de Fevereiro de 1902, faleceu em Paris, com 71 anos de idade, os portugueses já não se lembravam quem tinha sido madame Rattazi.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

25.29 Madame Rattazi – “A Questão Rattazi”


Madame Rattazzi visitou Portugal em 1876, 1878 e 1879, e sobre essas viagens escreveu um livro que em Paris foi publicado com o título de  "Le Portugal A Vol D’Oiseau" e que entre nós se chamou, "Portugal de Relance".


Le Portugal A Vol D’Oiseau, 1880 – Madame Rattazi


“Poucos personagens terão sido mais polémicos do que esta escritora, Madame Rattazzi (1831/1902). Nascida na Inglaterra, filha de Sir Thomas Wyse e da mãe francesa, Letícia Bonaparte, era de naturalidade francesa e sobrinha neta de Napoleão I. 
Casou em 1849 com um alemão, Frederico de Solms de quem enviuvou em 1863. Nove dias depois casou com um italiano, Conde Urbano Rattazzi, que faleceu em 1873. Sete anos mais tarde casou com um espanhol, D. Luis de Rute de quem também enviuvou em 1889.
Por causa dos seus livros deu tantos problemas aos seus dois últimos maridos, que várias vezes se tiveram de bater em duelo, que não encontrou um quarto que a quisesse. Pode dizer-se que foi uma cidadã europeia”.
Fonte: “portoarc.blogspot.com”



“Em 20 de Janeiro de 1876, madame Rattazi chegou a Lisboa indo hospedar-se no hotel Braganza. Era uma mulher dos seus quarenta e tal anos, muito frescalhota ainda, alta, desempenada, de uma notavel distinção de maneiras, cabelo todo preto, palida como uma andalusa e com uns impressionantes olhos languidos cheios duma grande expressão apaixonada.
(…) Em março de 1878, a princeza Rattazzi efectuou a segunda visita a Portugal. Como da primeira vez, assistiu a diferentes sessões no Parlamento, a varios espetaculos e deu algumas festas e jantares aos literatos e aos políticos dessa epoca que, por fim, lhe ofereceram, tam- bem, um explendido banquete no salão nobre do teatro de D. Maria. Em 17 de Junho do ano seguinte chegou, novamente, a Lisboa. Desta vez, porem, não deu festas nem jantares, limitando-se a visitar varias localidades e o Porto. Demorou, apenas, um mez entre nós, tendo assistido em 16 de Julho - vespera da sua partida para a Espanha – á corrida por curiosos na praça do Campo de Santa Ana(…)
(…) Em 1886- por ocasião do casamento do príncipe D. Carlos com a prin· ceza D. Amelia de Orleans, veio assistir aos festejos, chegando a Lisboa a 20 de maio, e retirando para Madrid em 2 de Junho. Foi esta a quinta visita a Portugal (…)”
Fonte: Ilustração Portuguesa II Série – Nº 808, Lisboa, 13 de Agosto de 1921


Ainda antes de 1881, em que a obra que descrevia Portugal seria publicada, por cá, com o título Portugal de Relance, já, em 1880, Antero de Quental se referira ao texto publicado em França, em carta para João Lobo de Moura, nestes termos: 

“A Rattazzi, que passou dois Invernos a desfrutar os literatos de Lisboa, publicou agora um livro sobre Portugal, delicioso. Imagine uma parisiense descrevendo ao vivo, estes mirmidões. Não se fala noutra coisa e está tudo furioso”.


Portugal de Relance


A propósito do olhar de Marie Solms (condessa de Solms) ou Senhora Rattazi sobre o nosso país e, nomeadamente, sobre a cidade do Porto, onde se demorou 8 dias, Camilo Castelo Branco criticou a sua obra, violentamente. A polémica na qual se envolveu a intelectualidade nacional ficou conhecida como a “Questão Ratazzi”.

“Depois de estudar os portugueses e as portuguesas com frequentes visitas celebradas por “menus” económicos e risos de ironia larga, a Sra. Rattazzi concebeu das suas impressões viris e másculas um livro que deu à luz em Janeiro, e denominou Portugal à vol d'oiseau. Portugais et portugaises.
Eu, criado no velho noticiário, tendo de anunciar o produto d'uma dama dado à luz, antes quisera, em vez d'um livro bom, anunciar um menino robusto. Acho muito mais simpática a feminilidade das mães pálidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recém-nascida. Não me comove nem alvoroça o espetáculo d'uma autora que se remira e envaidece na brochura que deu à luz, obra entre cinco e sete tostões- 740 reis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um “oitavo” compacto.” – A Senhora Rattazzi – Camilo Castelo Branco.

Camilo haveria, em sequência, de escrever um livro de desafronta.


“A Senhora Rattazi” de Camilo Castelo Branco – Fonte: “tertuliabibliofila.blogspot.com”


Madame Rattazi haveria de responder a Camilo com o opúsculo seguinte.


Carta a Camilo Castelo Branco de Madame Rattazi – Fonte: “tertuliabibliofila.blogspot.com”



Marie Solms em retrato de  André Adolphe Eugène Disdéri


A publicação da obra entre nós, denominada Portugal de Relance, provocou algum desconforto no meio intelectual da época, pelo retrato que nela era feito do país e dos portugueses.
Pelos excertos que se seguem, será fácil ajuizar-se da razão desta polémica:

"A mais activa occupação da realeza em Portugal é a instituição dos títulos." (I, pg. 12) "Exceptuando a Belgica, Portugal tem sobre todos os paízes catholicos a primazia do carrilhão." (I, pg. 28) "O portuguez é hispanophogo, e se de tempos a tempos não trinca, sob a fórma de costelleta, o hespanhol que lhe cahe nas unhas, é simplesmente por timidez, e não porque lhe escasseie o appetite." (I, pg. 69) "Os usos e costumes theatraes em Portugal estão ainda em estado primitivo." (I, pg. 106) "As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente, de verão por um enxame de baratas (...) Disseram-me que todos acabavam por habituar-se." (II, pg. 19).


(Continua)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

25.28 O Quiosque do Sebastião


Na Praça D. Pedro, actual Praça da Liberdade e antigamente a Praça Nova, existiu, até à entrada da década de 30 do século XX, um quiosque que convivia bem de perto com a estátua do rei-soldado.

Em primeiro plano o Quiosque do Sebastião


Quem explorava o quiosque era o Sebastião, conhecido como o Correligionário, pois fosse de que partido político fosse o freguês que lhe comprava o jornal, ele cumprimentava-o da seguinte forma: Então como passa o correligionário?
Diga-se em abono da verdade que o quiosque não era propriedade do Sebastião que, de facto, o tinha arrendado à Câmara.
Naquele espaço o Sebastião fazia o comércio de jornais, tabacos, lotarias, postais ilustrados e outras bugigangas e tinha como clientes os lojistas do sítio, os jornalistas que trabalhavam na redacção dos jornais, por ali instalados, os frequentadores dos cafés e restaurantes próximos e outros passantes.
Um dos jornais que se destacavam naqueles tempos, ficava bem próximo e em frente, no palacete das Cardosas, num primeiro andar, mesmo por cima do arco da entrada para o espaço da anterior cerca do antigo convento. Era o Diário da Tarde.
Bem junto, no mesmo edifício, tinha existência a “Laporte” que comercializava artigos para a caça e onde esteve em exposição, em 1894, uma bicicleta fabricada na oficina de Figueiredo Júnior, à Rua do Campo Pequeno (já desaparecida e ficava para as bandas, do que é hoje, o Largo da Maternidade Júlio Dinis).
A Nascente da praça pontificava o Café Central, hoje o MacDonalds e os restaurantes “Porto Clube” e  “O Camanho”.
A Poente, ficava “A Flora Portuense” onde Aurélio da Paz dos Reis tinha a sua casa de venda de sementes, flores e outros artigos similiares e, ainda, algo que estivesse ligado à sua grande paixão - a fotografia e o cinema.
Ao lado a Cervejaria Sá Reis que duraria até 2017 com as portas abertas.


Sebastião Vieira de Magalhães no seu quiosque


Vista para a Praça da Liberdade no início do século XX – Fonte: “Porto – Os Recantos do Passado” de Germano Silva, Porto Editora


Na foto acima é visível, à esquerda, na Praça da Liberdade, o quiosque do Sebastião, nessa época e fruto de intervenções urbanísticas, situado isoladamente numa placa da dita praça.
Sobre a revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 o Sebastião conhecia todos os pormenores. Aliás, a Polícia Municipal assentou baterias junto ao seu quiosque para metralhar os revoltosos entrincheirados na Câmara.
Sobre o Sebastião Vieira de Magalhães conta-nos o comediante Arnaldo Leite a seguinte história:






O Sebastião na sua pileca – caricatura de Manuel Monterroso



O Pirolito, semanário humorístico de Arnaldo Leite e Carvalho Barbosa, caricaturava em 7 de Março de 1931, a propósito da demolição do célebre Quiosque do Sebastião (Sebastião Vieira de Magalhães usava o típico barrete judaico e barba e faleceu nos anos 20 do século passado).





Àcerca do famigerado quiosque dizia Alberto Pimentel: “…ali está e há de estar, através dos tempos, o quiosque de ferro que resistiu à revolução de Janeiro”.
Esta profecia teve termo em 1927 quando a Câmara em virtude de um arranjo urbanístico o demoliu.