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quarta-feira, 27 de março de 2024

25.234 Bairro do Laranjal, Rua do Laranjal e área periférica

 
O Bairro do Laranjal era constituído por um conjunto edificado que, grosso modo, estava contido pelas actuais ruas (a nascente) do Bonjardim e Almada e zona da Picaria (poente), e pelas praças da Liberdade (sul) e Trindade (Norte).
A quase totalidade daquele edificado foi demolido, a partir de 1916, para abertura da Avenida da Cidade chamada, por fim, Avenida da Liberdade.
 
 
 

Planta de Perry Vidal, actualizada a 1865, em que a linha azul representa a Rua do Laranjal, o nº 8 o Palacete Ferreirinha e a elipse amarela o Largo do Laranjal (onde se encontrava o Chafariz do Laranjal)


 
 

Bairro do Laranjal na planta de Telles Ferreira de 1892
 
 
Legenda:
 
Oservações respeitantes às linhas coloridas: A preto, a Rua do Almada; a azul, a Rua do Laranjal; a amarelo, a Rua D. Pedro.
A elipse branca contém o Bairro do Laranjal.
 
1 – Praça da Trindade
2 - Prédio do Hotel Francfort
3 – Câmara Municipal
4 – Rua da Cancela Velha
5 – Praça D. Pedro (Praça da Liberdade)
6 – Palacete Ferreirinha
7 – Travessa da Trindade
8 – Chafariz do Laranjal
 
 
 
À Praça da Trindade vinha dar a Rua do Laranjal, que partindo das traseiras da antiga Câmara Municipal, situada na Praça D. Pedro, cruzava a Rua dos Lavadouros, por onde hoje está o chamado edifício do “Comércio do Porto”.
Sobre esta Rua do Laranjal, que começaria a desaparecer, após 1916, para a abertura da Avenida dos Aliados, transcrevem-se alguns textos que o blogue “aportanobre.blogs.sapo.pt” extraiu da Revista “O Tripeiro”.
 
 
 
 
«Ainda estou a ver o velho José Galiza, alquilador, com as suíças grisalhas e com os seus carros e carroças, a mandar o seu pessoal lavar os rodados.
Ao lado, quasi em frente, havia umas oficinas de louzeiros (sic) e ao fundo os fabricantes de cadeiras e outras mobílias de madeira de pinho, que, no engraçado dizer do saudoso Guedes de Oliveira, era mogno do laranjal!!! - e mais ao fundo a velha cervejaria Bastos, que nas noites calmosas, oferecia aos seus frequentadores cerveja de pipa, muito fresca.»
Fonte: João Moreira da Silva, In “O Tripeiro”, Vol. 1 da 5.ª Série




Hotel Francfort, em frente, no gaveto e, pela esquerda, o início da Rua do Laranjal. Em frente, era a Rua D. Pedro, depois, Elias Garcia – Ed. Alberto Ferreira-Batalha-Porto
 
 
 
 
«Lembro-me muito bem que era nesse largo que existia a afamada casa de vinhos e destilações "O Alambique" (fundada em 1860), bem como o alquilador José Galiza, que no mesmo largo fazia, diariamente, grande estendal de cavalos, muares, carros e carroças; e ainda o Café Primavera, com um pequeno palco, música e bailarinas.
A casa de três andares que se vê na gravura, do lado direito, ao cimo da calçada, creio que era a que fazia esquina para a rua de D. Pedro IV, desaparecida na mesma época em que foram demolidos os prédios das ruas dos Lavadouros, Laranjal, e Viela do Cirne, passeios favoritos da rapaziada de então e as de Adriano Machado e Cancela Velha.»
Outras memórias avulsas se colhe, por exemplo o Sr. J. Gonçalves: «Aquele chafariz estava situado no centro dum terreno que marginava a rua do Laranjal e em frente à rampa da Cancela Velha. Ao fundo havia um bom prédio, onde estava instalado "O Alambique", armazém de vinhos que ainda hoje existe. Dos prédios contíguos, da parte de cima, saia um cheiro terrível a amoníaco e outras perfumarias das grandes lojas iluminadas a candeias de petróleo e habitadas pelas chamadas mulas do Galiza. Ou a de Augusto Coelho Pereira de Araújo, que refere: «A fonte, antes de transformada em chafariz, existiu mais abaixo, constando de uma fonte rasa, para a qual se descia por degraus abertos no pavimento da rua, a qual era conhecida pela fonte do Olho do c., e para que o povo perdesse o hábito do chamadoiro, a Câmara mudou-a para o local agora mostrado na gravura, transformando-a num artístico chafariz».
Fonte: V. Alves Moreira, In “O Tripeiro”, Vol. 1 da 5.ª Série
 
 
 
 

A Rua do Laranjal, já a montante do chafariz do Laranjal, com a Igreja da Trindade em fundo, c. 1900


Nessa Rua do Laranjal, nº 101 (abaixo do Chafariz do Laranjal, no Largo do Laranjal), em 1905, num prédio onde tinha estado, durante muitos anos, o Hotel Central, instalou-se, em 28 de Novembro, o “Centro Regenerador do Porto”, vindo de um pouco mais acima dessa mesma rua, do nº 185, que estava a poucos metros do ginásio Lauret, entre o Largo do Laranjal e esta sala de armas, quase em frente à entrada da Viela do Cirne, e já próximo do Largo da Trindade.
 
 

Morada, em 1889, do Partido Regenerador, In “Jornal do Porto” de 19 de Setembro de 1889

 
 
O Dr. António Teixeira de Sousa (Sabrosa, Celeirós, 5 de Maio de 1857 — Porto, 5 de Junho de 1917) era o chefe do partido Regenerador e chefe do Governo, à altura da queda da monarquia, tendo vivido amargurado, parte dos seus últimos dias de vida, bem perto daquele “Centro Regenerador do Porto”, no Hotel de Francfort, devido aos acontecimentos de 1910.

 
 

Igreja da Trindade
 
 
 
Na gravura de cima, baseada num cliché de Emílio Biel, vemos o antigo Largo do Laranjal, depois, Praça da Trindade, num ângulo obtido do local onde hoje se situa a fachada traseira da Câmara Municipal do Porto. Repare-se no conjunto de casas que existia (esquerda na imagem) no local que, mais tarde, passou a ser conhecido por "Pedreira da Trindade" e que, actualmente, é um edifício de grandes dimensões. No espaço da pedreira existiu, até à década de sessenta do século XX, a Rua de Cima do Muro, hoje, a Rua dos Heróis e Mártires de Angola.
No quarteirão definido pelas Ruas Ricardo Jorge, Rua Heróis dos Mártires de Angola (antiga Rua de Cima do Muro da Trindade), Rua Alferes Malheiro e Rua do Almada existiu uma elevação de terreno conhecida por Monte da Doida.
A Travessa da Doida era o arruamento que ladeava a elevação correspondente à Rua de Alferes Malheiro e Heróis dos Mártires de Angola e tomou depois o nome de Rua de Liceiras.
A parte desta artéria que ligava à Rua do Bonjardim, foi Rua do Visconde de Almeida Garrett.
 
 
 
“Foi na reunião da Câmara de 13 de Outubro de 1835 que a Vereação portuense tomou a resolução de homenagear personalidades que participaram no Cerco do Porto e que, por actos de bravura, se distinguiram nessa heróica epopeia, dando o seu nome a várias artérias do Porto. Alguns nomes foram dados a arruamentos novos. Outros substituíram antigos topónimos.
Almeida Garrett foi um dos 7500 Bravos do Mindelo. Integrou o Batalhão Académico que esteve aquartelado no antigo convento dos Jesuítas, onde agora funciona o seminário diocesano. O seu nome figurou em duas artérias. Por exemplo a actual Rua do Alferes Malheiro chamou-se, em tempos idos, Rua de Liceiras, desde a Rua do Almada até à esquina da Rua de Camões. Daqui até à Rua do Bonjardim chamava-se Rua do Visconde de Almeida Garrett.
Outra artéria que evocava o nome do autor de "O Arco de Sant'Ana" era a actual Rua do Padre António Vieira, em Campanhã que se chamou noutros tempos Rua Garrett”.
In ruasdoporto.blogspot.
 
 
 
 
Rua de Cima do Muro da Trindade




Rua de Cima do Muro da Trindade
 
 
 

Rua de Cima do Muro da Trindade



Nas fotos acima, tirada da Rua de Cima do Muro da Trindade, em Novembro de 1960, procede-se ao desalojamento dos habitantes para arranjo e alargamento da rua. Como é óbvio, a Igreja da Trindade está à esquerda.

 
 

Café Primavera, à direita
 
 
 
Na foto anterior, observa-se o Café Primavera, na esquina da Rua do Alferes Malheiro e a Rua do Muro da Trindade, nas traseiras da Igreja da Trindade.



 

Mesmo local da foto anterior


 

Estes tegúrios ocupavam a actual entrada do Hospital da Ordem da Trindade – Fonte: JN
 
 
 

Pedreira da Trindade, na encosta do Monte da Doida

 
 
No local onde, durante décadas, se observou a Pedreira da Trindade, foi construído e inaugurado, em 2006, o centro comercial “Trindade Domus” que, com a mudança de proprietários, em 2022, passou a ser “Trinity Porto”.



Trinity Porto



Em fotos anteriores, pode ver-se o derrube do casario para alargamento da via, que originou aquilo que, por muitos anos, foi chamada a "Pedreira da Trindade", que foi finalmente preenchida pelo edifício que, actualmente, lá se encontra.
Para poente, o Bairro do Laranjal estendia-se até à Rua do Almada, pela ligação da Travessa da Trindade à Picaria.
 
 
 
“A folha 14 do Livro de Plantas da Cidade do Porto (número 2), que se guarda no nosso Arquivo Histórico Municipal, representa a planta, de um projecto urbanístico de 1761 denominada Planta do Bairro dos Laranjais, da autoria do sargento-mor de Infantaria, com o exercício de engenheiro, Francisco Xavier do Rego.
Aí estão delineadas algumas artérias. Umas que já existiam, caso das ruas do Bonjardim e de Santo Ovídio, esta agora denominada dos Mártires da Liberdade; outras em projecto, que são as ruas do Almada e da Conceição; e uma que desapareceu. Chamava-se, na altura, Rua de Santo António dos Lavadouros depois ficou só dos Lavadouros e desapareceu com a abertura da Avenida dos Aliados. 
Na mesma planta está prevista a abertura de mais duas novas artérias a que ainda não havia sido dada qualquer denominação. Uma delas nunca chegou a ser rasgada. Ligaria em linha recta a actual Rua dos Mártires da Liberdade a Liceiras. A outra unia duas praças também em projecto a Praça da Conceição, depois Largo da Picaria e que é hoje o Largo de Mompilher, com a Praça da Trindade, assim chamada por ficar diante da igreja da Ordem Trinitária, que substituiu a Ordem Terceira de S. Domingos, extinta em 1755, na sequência de um conflito com os dominicanos. Neste mesmo espaço, onde se ergue a igreja daquela Ordem, riscada pelo arquitecto Carlos Amarante, faziam-se, antes, duas importantes feiras: uma de erva e de palha e outra de carneiros. Por isso também se deu a este largo o nome de Praça da Erva. 
Voltemos à rua projectada para ligar o Largo de Mompilher à Praça da Trindade a actual Rua do dr. Ricardo Jorge. Mas nem sempre teve esta nomenclatura. Inicialmente teve duas designações. Entre a Praça da Conceição e a Rua do Almada chamou-se Travessa do Pinheiro por causa da sua proximidade à rua deste nome. Da Rua do Almada até à Praça da Trindade começou por se chamar Travessa do Laranjal, o que se compreende se tivermos em conta que o largo em frente à igreja antes de se chamar Praça da Trindade foi Largo do Laranjal. A partir de 1776, aparece denominada de Travessa da Rua do Almada.
Mas numa planta da autoria do arquitecto Teodoro de Sousa Maldonado, datada de 1787, é designada como a Travessa da Chancelaria. Só a partir de 1846 é que aparece como a Travessa da Trindade e, posteriormente, como Travessa da Praça da Trindade. 
A actual designação da Rua Ricardo Jorge homenageia a memória de uma figura ilustre do Porto que toda a gente conhece como médico higienista. Mas Ricardo Jorge foi também um eminente escritor, historiador, crítico de arte e um purista da língua portuguesa. O seu estudo sobre as origens e o desenvolvimento do Porto é a melhor obra que até hoje se escreveu sobre esse complexo assunto”.
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 
 
“É em 15 de Fevereiro de 1798 aprovada a planta definitiva da Praça do Laranjal (hoje Praça da Trindade), de Teodoro de Sousa Maldonado, pela Junta das Obras Públicas. De notar que a ideia da praça data de 1760 (a urbanização das Quintas do Laranjal de Cima e de Baixo foi ideia de João de Almada), datando as plantas de Maldonado de 1787 e as de D. José Champalimaud (dos aquedutos) de 1788”.
Eugénio Andrea da Cunha Freitas, In “Toponímia Portuense”, p. 333
 
 
 

Planta de George Balck de 1813, onde se vê o Laranjal e a Travessa da Doida
 
 
 

Travessa da Praça da Trindade com as suas casas de comércio
 
 
 
 
As Escadas do Pinheiro lançadas a partir do Largo Mompilher começaram a ser construídas em 1775 e destinavam-se a ligar esse largo à Rua da Misericórdia, actual Rua do Pinheiro.
 
 
 
“…Neste local existia uma vasta propriedade, a Quinta do Pinheiro, que compreendia muitos campos de cultivo, laranjais, hortas e pomares. Começou a ser urbanizada no século XVIII incluída no chamado plano de urbanização do Bairro dos Laranjais promovido por João de Almada e Melo e no qual se incluía a abertura, por exemplo, da Rua do Almada, assim denominada em homenagem ao promotor do projecto, bem como outras artérias adjacentes como as actuais ruas da Conceição, de Ricardo Jorge e outras.
Uma das artérias que também se abriu por esse tempo foi a actual Rua do Pinheiro onde se encontra a pequena capela da invocação de Nossa Senhora da Conceição.
A primeira referência documental que existe relativa a esta propriedade é do ano de 1508.
Trata-se de uma escritura que nos dá conta, de que, um tal João Rodrigues de Avelar e, sua mulher, Grácia Luís, venderam o seu campo do Casal do Pinheiro, "que fica junto aos Carvalhos do Monte, junto da ci­dade e da estrada pública..." 
Dava-se o nome de Carvalhos do Monte ao sítio onde esteve a Quinta do Mirante e agora está a Faculdade de Direito, entre a Rua dos Bragas e a Praça do Coronel Pache­co. A estrada pública é a antiga Rua de San­to Ovídio, hoje dos Mártires da Liberdade, que ficava, dizem documentos antigos, "ar­riba dos Ferradores, "ou seja acima da an­tiga Praça dos Ferradores, que hoje tem o nome de Praça de Carlos Alberto. 
Antes de ter a denominação que evoca a existência da Quinta do Pinheiro, esta artéria chamou-se da Misericórdia.
Em 1725, o Casal do Pinheiro, com os seus "campos da Porta Fronha e dos Carvalhos" es­tava na posse da Santa Casa da Misericórdia do Porto que o emprazou (deu de aluguer) a um Manuel Monteiro do qual passou para um seu descendente de nome João António Mon­teiro de Azevedo, cidadão do Porto e celebra­do autor de uma interessante e, para quem se interessa pela história de Vila Nova de Gaia, ainda hoje, muito útil" Descrição Topográfi­ca de Vila Nova de Gaia", que também con­tém muitas e importantes referências histó­ricas à cidade do Porto. 
Pois foi este João Monteiro de Azevedo que mandou fazer a casa que ainda existe na Quin­ta do Pinheiro e a capela da invocação de Nos­sa Senhora da Conceição, atribuída a Nicolau Nasoni e que, embora esteja no exterior da quinta, dela faz parte integrante. 
Esta enormíssima propriedade, que com­preendia, além das já mencionadas glebas da Porta Fronha e dos Carvalhos, os campos do Pinheiro e da Pena de Arca, começou a ser re­talhada, para urbanização, nos começos do ano de 1747, nomeadamente para a abertura da parte superior da Rua do Almada e de outras artérias como a Rua de Ricardo Jorge, que an­tes se chamara Travessa do Pinheiro, e a cria­ção do chamado Bairro dos Laranjais, um am­bicioso processo urbanístico da autoria de João de Almada e Melo.
O emblema do antigo Largo do Laranjal, depois Praça da Trindade, foi o chafariz que passou à história, exactamente, com o nome do largo. Inicialmente era uma fonte, a Fonte da Trindade, que funcionou desde 22 de Junho de 1844 até Maio de 1853. Neste ano fizeram-se obras na já então denominada Praça da Trindade para rebaixamento do leito e a fonte foi demolida. As suas pedras, provenientes da demolição, foram recolhidas num terreno de Liceiras, para uma eventual reconstituição. Que nunca chegou a fazer-se. Com efeito havia sido demolido, também, um chafariz que, desde o século XVI, pelo menos, estava no meio do Largo de S. Domingos. Foi este que acabou por ser reconstruído na Praça da Trindade. A sua inauguração ocorreu no dia 11 de Março de 1854. Mas não ficou ali definitivamente.
Novas obras na praça em 1911 e, o chafariz, foi transferido para os jardins dos SMAS sendo substituído por um simples fontanário "com água da Companhia". Só há relativamente poucos anos (1960) é que voltou para a Praça da Trindade, agora como mero objecto de decorativo. Gravada no bordo de uma das suas taças tem uma legenda em latim "REIP - VSIV - DICATVM - COMMUNI". Que significa: "Ao uso do povo".
Com a devida vénia a Germano Silva


 

Rua do Pinheiro

 


 

Capela de Nossa Senhora da Conceição, junto às Escadas do Pinheiro



A Capela de Nossa Senhora da Conceição, no final do século XIX, pertencia à baronesa de Sanhoane.
Sobre as festas que se faziam no átrio da capela, o professor Germano Silva a elas faz referência no texto seguinte.
 
 


 
In revista "O Tripeiro", 7.ª Série, Novembro de 2006





Capela de Nossa Senhora da Conceição e Largo de Mompilher, na década de 50, do século XX
 
 
 

Quiosque junto às Escadas do Pinheiro (visíveis atrás) – Fonte: pt.wikipedia.org



 
O quiosque de Mompilher foi construído nos anos trinta do século XX, em substituição de um outro de ferro que existia nesse largo desde 1910.
As últimas décadas do século XIX e as primeiras do século seguinte, foram pródigas na construção de quiosques na cidade do Porto. Uma situação que se compreende à luz da vida social e urbana da época, em que estas micro-arquitecturas eram ponto de encontro preferencial para escritores, poetas, intelectuais ou aristocratas.
A função comercial, que desde sempre lhes foi inerente, mantém-se nos dias de hoje, embora as bebidas, as frutas e as flores, tendam a ser substituídas essencialmente por revistas e jornais.
 
 
 
 
Estação Ferroviária da Trindade
 
 
 
A Estação Ferroviária da Trindade, na foto acima, que se situava nas traseiras da Igreja da Trindade, viria a dar origem à actual estação de Metro da Trindade. 
 
 
 

Estação Ferroviária da Trindade, em 1977
 
 
 

Estação Ferroviária da Trindade, em 1985 – Cortesia de Paulinho da Viola

 
 

Perspectiva actual da estação de metro da Trindade

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

25.106 Residências no Porto dos familiares dos Barões de Mogofores e de Sanhoane, no século XIX

 
Nota: O texto que se segue teve como fonte principal, entre outras, o “4º Congresso Internacional Casa Nobre – Um património para o futuro (2017)”.
Com a cortesia de Jorge Ricardo Pinto e outros
 
A Rua Mártires da Liberdade, a partir de 1837, a Rua 16 de Maio e, antes, Rua de Santo Ovídio, e que, para os portuenses, foi durante muitos anos, a Rua da Sovela, era uma via importante de saída da cidade e de ligação a Braga.
No início do século XIX, a zona a ela envolvente, começava a ser alvo de urbanização e de crescimento urbanístico.
Na parte da rua, mais a norte, próxima já da Praça da República, surgem, então, prédios com um certo porte e afectos a uma burguesia em expansão.
O correr de quatro prédios de 3 pisos, entre os números de polícia 300 e 320, pertenceu, em tempos, aos senhores da Casa da Fábrica, da Rua da Fábrica.
 
 
 
Prédios na Rua Mártires da Liberdade que foram dos senhores da “Casa da Fábrica” – Fonte: Google maps
 
 
 
Construídos, possivelmente, a partir de 1847, um deles foi ocupado intermitentemente pela família e, os restantes três, sucessivamente arrendados.
Foi o caso, em 1848, pois a senhora da Casa da Fábrica, Maria Vitória de Meneses e Vasconcelos, já aí habitava.
Entre 1857 e 1863, uma destas moradas, a que tem o nº 304, foi ocupada pelo Barão de Mogofores.
O Barão de Mogofores (1786-1872), conselheiro Manuel Ferreira de Seabra da Motta e Silva, foi um dos que acompanhando D. Pedro IV, desembarcaram na praia da Memória, em 1832.
Foi casado com Ana Felícia de Seabra e Sousa.
Alguns desses bravos, muitos deles oriundos de outras localidades, terminado o cerco, acabaram por fixar residência, com a sua família, no Porto.
 
 
 
Barão de Mogofores e a sua prole masculina – Fonte: Reis, J. M. (1998) – Genealogia da Família Seabra de Mogofores
 
 
 
 
Barão de Mogofores, as suas noras e a filha Júlia, estando ausente a filha mais velha, Dulce – Fonte: Reis, J. M. (1998) – Genealogia da Família Seabra de Mogofores
 
 
 
 
 
 
Do outro lado da rua, um outro edifício com algum realce, mais antigo, pois já estava edificado em 1833, pertencia a Nicolau Clamouse Browne, casado com Emília Cristina Ribeiro Braga, com filhos, o primogénito, Nicolau e ainda, um outro, de nome Roberto e, cujos descendentes, por lá se mantiveram, até que, em 1900, o último morreu sem descendentes.
O filho mais novo casaria com Joana Guedes da Silva e morreu sem descendência em 1868. O mais velho, Nicolau, nunca casou e sem descendentes deixou a herança que tinha recebido por morte de sua mãe, a Olívia Correia Gonçalves Telles, que no testamento era descrita como se fosse sua filha e por si criada desde tenra idade, que era casada com António Ribeiro Telles.
O patriarca deste ramo dos Clamouse Browne, Nicolau, era irmão de Manuel Clamouse Browne, sócio fundador da Associação Comercial do Porto, casado com Maria da Felicidade do Couto, conhecida como Soror Dolores, poetisa, e de quem se diz que teve um envolvimento amoroso com Camilo Castelo Branco e, por isso, os filhos da senhora se terão batido em duelo com o escritor.
Emília Cristina, acima referenciada, pertencia à família dos Ribeiro Braga que eram proprietários de todos os terrenos anexos ao Largo do Mirante (Praça Coronel Pacheco), integrando a Quinta dos Carvalhos do Monte ou Quinta do Mirante, de que fazia parte a área ocupada pela Faculdade de Engenharia hoje, a Faculdade de Direito.

 
 
Casa dos Clamouse Browne – Fonte: Google maps
 
 
 
O conjunto habitacional da Rua Mártires da Liberdade, nº 144-150, constituía, inicialmente, um único conjunto.
Em 1833, nele, era dado como morador, um tal Smith, negociante e, em 1837, Alípio Antero da Silveira Pinto, juiz do Tribunal da Relação do Porto, que foi também um dos resistentes do Cerco do Porto e, cuja família, era dona do Palacete de São Paio, na Afurada, em V. N. de Gaia.
Na última metade do século XIX, pertenceu ao segundo filho do Barão de Mogofores, Acácio Alfredo de Seabra, que nele habitou entre 1866 e 1874 e que aqui viveu com a sua mulher Emília Ermelinda de Sousa Pimentel.
Então, retirou-se para Mogofores, para a Quinta do Caneiro, que herdou do seu pai.
O lote mais a sul, com o nº 146, encontrava-se dividido em quatro partes, tendo três delas transitado para Domingos Gonçalves de Araújo, residente no Largo de São Domingos e, uma quarta parte sido, por si, também comprada, a Júlia Guedes de Sousa Pimentel, viúva de Carlos Pimentel, residente em Lisboa e familiar de Emília Ermelinda de Sousa Pimentel.
O lote com o nº 148 é o que mais se destaca, constituindo o núcleo central do conjunto, ladeado pelos outros dois anexos.
À morte dos seus proprietários ficou na posse de Ana Augusta de Sousa Pimentel, também familiar de Emília Ermelinda de Sousa Pimentel.
A casa foi comprada, em 1919, pelo Dr. Joaquim da Costa Carvalho Júnior, comerciante e residente na Rua de Entre-Quintas.


 
 
Rua Mártires da Liberdade, 144-150. Em primeiro plano o lote principal
 
 
 
 
O edifício que tinha o nº 152, mais a norte, já não existe. Pertencia também a Acácio Alfredo e Emília Ermelinda de Sousa Pimentel, e à morte de ambos, foi herdado por uma sobrinha, Hermínia Augusta Seabra, que morreria solteira. Em 1953, passou para as mãos da Santa Casa da Misericórdia do Porto.
 
 
 
O edifício, mais a norte, na Rua Mártires da Liberdade, nº 150 e que foi demolido



 
Edifício que substituiu o anterior, construído na década de 1960
 
 
 
 
 
Quinta do Pinheiro
 

O palacete da Quinta do Pinheiro é aquele que muitos dos portuenses reconhecem, ainda, como o prédio onde funcionou a Escola Académica, a partir de 1882, até ao último quartel do século XX.
Antes da abertura da Rua do Pinheiro e de outras, envolvendo o Bairro do Laranjal, a Quinta do Pinheiro era muito mais extensa, tendo sido retalhada, em meados do século XVIII, para urbanização.
 
 
“Em 1508, João Rodrigues de Avelar e sua mulher Grácia Luís, venderam o seu campo no Casal do Pinheiro «junto aos Carvalhos do Monte, prez da cidade» e um par da estrada pública. Em 1533, nova venda do «Lugar ou Casal do Pinheiro, situado entre a estrada que vem de Guimarães (actual Rua Mártires da Liberdade) para a Porta do Olival (actual Cordoaria) e o caminho de Liceiras (ainda existe a Rua de Liceiras, junto à Trindade, cerca de duas centenas de metros abaixo). Tinha, então, esta propriedade, um pombal e várias árvores de fruto, entre as quais se mencionam laranjeiras que, mais tarde, com outras por ali existentes, dariam ao Casal do Pinheiro o nome de Quinta do Laranjal de Cima, que já tinha em 1661. A Quinta do Pinheiro foi alienada há poucos anos pelos últimos sucessores dos Monteiros, na posse desta bela propriedade desde princípios do século XVIII.”
Fonte: Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas
 
 
Desde o início do século XVIII, a quinta do Pinheiro esteve na posse da família Monteiro.
Em 1789, teria sido João António Monteiro de Azevedo que, segundo o padre Agostinho Rebelo da Costa, na Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, teria mandado construir o edifício no meio da quinta e que, hoje, está com entrada localizada próximo das Escadas do Pinheiro.

 
 
Aqui funcionou a Escola Académica
 
 
 
Aqui, iria viver a filha mais velha do Barão de Mogofores, Dulce Augusta de Ferreira Seabra e Sousa, casada com Albino Raimundo de Sousa Pimentel, irmão de Emília Ermelinda de Sousa Pimentel, ambos filhos do Barão de Sanhoane e, de cujo casamento, houve uma filha, Maria Joana Gramaxo.
O Barão de Sanhoane, José de Sousa Pimentel de Faria, foi também um lutador, desde 1820, da causa liberal, tendo sido ainda, deputado, Marechal de Campo e portador de várias condecorações. Era casado com Joana Perpétua de Sousa, senhora da Quinta do Pinheiro e Baronesa de Sanhoane.
Por morte do Barão de Sanhoane, foi concedido por despacho régio, em Diário do Governo, de 9 de Agosto de 1848, um soldo por inteiro correspondente à patente de Marechal de Campo, metade à viúva e a outra metade a dividir pelas três filhas, Teresa Ludovina de Sousa Pimentel, Joana Carolina de Sousa Pimentel e Emília Ermelinda de Sousa Pimentel, sem supervivência de umas para outras.
Albino Raimundo (1805-1866) foi, assim, senhor da Quinta do Pinheiro e conhecido, por ter sido um dos que participaram na compra do Museu Allen, em representação da Câmara Municipal e por ser um amigo de Camilo que, por isso, frequentava de vez em quando a quinta.
Maria Joana Gramaxo casaria, em 1885, com Cristovão Almeida Azevedo de Vasconcelos Gramaxo, cujo pai era, também, proprietário de vários terrenos, na Rua dos Mártires da Liberdade.
A família Gramaxo, da qual se destacou o lente da Escola Médico- Cirúrgica do Porto, José Andrade Gramaxo, tinha residência na Rua Mártires da Liberdade, nº 122.
Diz-se que a Quinta do Pinheiro estava ligada com uma casa localizada na Rua dos Mártires da Liberdade, e que seria aquela onde viveu Acácio Alfredo Seabra, filho do Barão de Mogofores.
 
 
 
 
Palacete do Largo Moinho de Vento
 
 
Desconhecendo-se a data do lançamento dos seus alicerces e de quem o ordenou, sabe-se que, durante o Cerco do Porto, ali vivia um ramo da família Morais Sarmento e que, mais tarde, em 1837, ali residiam Miguel Joaquim Gomes Cardoso e o seu filho Miguel Joaquim Gomes Cardoso Júnior, ambos advogados, tendo este, sido Presidente da Câmara do Porto, em 1839.
Depois, a casa foi habitada pelo Presidente da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, o segundo visconde da Várzea, João da Silveira Pinto da Fonseca.
Em 1843, o foro da casa apalaçada, pertencia a António Barbosa de Albuquerque, casado com Maria Augusta Soares Barbosa, já falecida naquela data, de cujo casamento houve uma filha, única herdeira, Amélia Augusta.
A Casa do Moinho de Vento constaria da herança de Amélia Augusta, bem como, a determinação de que o seu tutor e administrador dos bens, seria Francisco Diogo de Sousa Cyrne, senhor da Casa do Poço das Patas, e irmão de Maria Isabel de Sousa Cyrne, casada com o senhor da Casa da Fábrica, Diogo Francisco.
Destinada por seu pai, para casar quando atingisse a idade conveniente com o seu tio, Amélia Augusta não cumpriria esta vontade do progenitor e acabou por casar, sim, com Armando Artur Ferreira de Seabra da Motta e Silva, filho mais novo do Barão de Mogofores.
Deste casamento resultaram três filhos, uma menina que morreu na infância, Artur Augusto Albuquerque e Seabra, que foi escritor e jornalista e Laura Augusta de Albuquerque Seabra.
Na década de 1880, a casa do Moinho de Vento foi dada como garantia de uma dívida, entretanto resgatada por Laura Augusta, filha de Amélia.
Por morte de Laura Augusta herda a propriedade o seu marido, o General Francisco Leite Arriscado.
Por ausência de descendência, herdam então a propriedade, os filhos naturais do seu já falecido cunhado, mantendo-se nesta família, a propriedade, até 1998.


Palacete no Largo Moinho de Vento


 
 
Rua Miguel Bombarda - Conclusão
 
Sobre as várias residências de parentes das famílias referenciadas, poder-se-ia ainda, apontar, entre muitos outras situações, a do quarto filho do Barão de Mogofores, Aloísio Augusto Seabra, que foi administrador do Bairro de Cedofeita e casado com Maria da Graça Barros Lima, filha de José Pedro Barros Lima, senhor da Quinta da Ramada Alta.
Aloísio foi amigo de Camilo Castelo Branco e aquela personagem envolvida com o escritor numa cena de pancadaria, muito conhecida, de homenagem à cantora Dabedeille, acontecida na Estalagem da Ponte da Pedra.
Aloísio Augusto teve o seu escritório de advogado num prédio de dois pisos, que adquiriu na Rua do Príncipe (Rua Miguel Bombarda), a um dos seus irmãos e cunhada, em 1850, ficando, ainda, proprietário de uma área anexa de terrenos sem edificado, que passaria, mais tarde, a comportar com aquele prédio inicial, um conjunto de três, instalados em quatro lotes.
Em 1850, ano também do seu casamento, Aloísio Seabra requereu à Câmara o acréscimo de um terceiro piso ao prédio adquirido.
O prazo do terreno, constituído por dois lotes, onde nasceria o prédio, mais a poente, seria adquirido, em 1857, pelo negociante de vinhos do Porto, António de Ferreira Menères, casado com Emília dos Santos Menères.
O negócio subjacente teve lugar no Palácio das Sereias, dos Portocarrero, em Miragaia, já que eram o senhorio do terreno referido.
Antes o prazo tinha pertencido a domingos Rosário do Nascimento Almeida, tio de Almeida Garrett, que foi quem emprestou o nome à Rua do Rosário.
O lote do meio em 1880 ainda estava vago, o prazo pertencia a Maria da Glória Pizarro da Cunha Portcarrero e quem pagava foro era Aloísio Augusto e a sua mulher.
Em 1876, André Michon adquiriu o prédio de escritórios e respectivo terreno anexo a Maria da Graça Barros Lima Seabra e ao seu filho e nora, Aloísio Augusto Seabra e Almira Silva de Seabra, tendo, em 1880, solicitado uma autorização de construção à Câmara, do prédio ainda hoje no local.
Esse edifício central, com o nº de polícia (actual), 208, está identificado na foto abaixo, bem como, o situado mais a nascente (escritório).
 
 
Em primeiro plano, o prédio do conjunto localizado ao centro e, em segundo plano, o situado a nascente, já desaparecido e que teria sido o escritório de Aloísio Seabra – Fonte: Google maps (2009)
 
 
 
Em primeiro plano o prédio do conjunto situado mais a poente – Fonte: Google maps

sábado, 21 de janeiro de 2017

(Continuação 4)


Quando em 29 de Março de 1809, o exército francês, sob o comando do Marechal Soult, invadiu pela segunda vez o país e chegou ao Porto, deu-se a tragédia da Ponte das Barcas, em que milhares de portuenses ficaram sepultados nas águas do Douro.
Sensibilizado, o Padre José de Oliveira fundou, em 1814, o Seminário dos Meninos Desamparados, com o intuito de recolher crianças e jovens que haviam perdido os pais.
Inicialmente, o padre acolheu algumas crianças na sua casa e, outras, em casa do seu amigo João Manuel Rodrigues Barbosa. Mais tarde, com a fundação do seminário, juntou-as, numa casa da Rua das Hortas, hoje do Almada, mas, como o número ia crescendo à medida que a Obra se tornava conhecida, viu-se forçado a fixar-se numa casa da Rua S. Dinis e, depois, num edifício junto da Torre da Marca, contíguo à capela do Senhor Jesus da Boa Nova.
Depois de ter conhecido várias instalações na cidade, a instituição transfere-se em 30 de Abril de 1863 para a Quinta do Pinheiro em Campanhã, doada juntamente com outros bens, pelo ilustre proprietário e benfeitor Luís António Gonçalves Lima com a condição determinante de que, em caso de apropriação governamental ou extinção por qualquer outro motivo, passariam a propriedade e o edifício para a posse da Santa Casa da Misericórdia do Porto.
A instituição que começou por recolher as crianças órfãs, cujos pais morreram na tragédia, acolhe hoje, em regime de internato, crianças e jovens do sexo masculino, de risco, encaminhadas pelo Tribunal de Menores e Família e Comissões de Proteção de Menores, bem como, actua em algumas áreas voltadas para acolher crianças e jovens em risco e de meios desfavorecidos, visando o desenvolvimento da formação intelectual integral.
Começando por ser Seminário dos Meninos Desamparados passou a Internato Juvenil Padre José de Oliveira (homenageado sob a forma de um busto existente no jardim), designando-se actualmente por Centro Juvenil de Campanhã. 
Em 20 de Novembro de 1986, por escritura pública, esta instituição passou a denominar-se Centro Juvenil de Campanhã.
Desde 1998 a Assembleia Geral aprovou novos Estatutos e uma nova denominação: Centro Juvenil de Campanhã - Seminário dos Meninos Desamparados e que actualmente é uma Instituição Particular de Solidariedade Social.
No actual edifício funcionam uma Creche e Jardim de Infância com 150 crianças, um Internato com 80 crianças e, ocupando parte das instalações, a Universidade Lusófona.
Estão também aqui instalados algumas dezenas de alunos oriundos dos países Africanos de expressão oficial portuguesa, sob a égide da Fundação Afro-Lusitana.

Seminário dos Meninos Desamparados com capela dedicada a S. José (ao centro)