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domingo, 30 de julho de 2017

(Continuação 20)



A Rua de Santos Pousada, que homenageia um distinto professor, chamou-se, antigamente, Rua de São Jerónimo.
Este topónimo tinha a sua raiz numa capelinha de invocação daquele santo, situada no local em que hoje faz esquina (lado Norte) as ruas Firmeza e de Santos Pousada.



Planta (1853) de Costa Lima Júnior. Legenda: 1 - Rua Firmeza; 2 - Rua de São Jerónimo; 3 - Capela de S. Jerónimo



A Rua de São Jerónimo começou por ser traçada, na década de 1830, entre o Poço das Patas e a Rua Firmeza, até ao adro da capela de São Jerónimo.
Quem primeiro aí construiu foi o Dr. Francisco Luís Correia que, para tal, solicita a respectiva licença camarária em 1835.
A partir de meados do século XIX, começa a rasgar-se a continuação do arruamento até à Póvoa de Cima. Em fins da década de 1870, ainda se procedia a expropriações para conclusão da empreitada.



“Santos Pousada, de seu nome completo António José Santos Pousada (1854-1912), foi professor na Escola Industrial de Vila Nova de Gaia e tornou-se paladino de uma causa nobre: tornar acessível a toda a gente a instrução pública, que, nos finais do século XIX, ainda parecia algo utópico.
Envolveu-se também nos ideais republicanos, apesar de só ter vivido 2 anos sob o signo da República. Foi este envolvimento que fez com que, em 1913, o regime recém-vencedor quisesse perpetuar o seu nome na toponímia do Porto.
Num guia da cidade de 1896, podemos ver que esta artéria nascia na Rua do Poço das Patas que foi também Rua do Meio (actual Rua de Coelho Neto) e ia até ao Largo da Póvoa (actual Praça da Rainha D. Amélia), vindo só posteriormente a ser prolongada até à Praça Teixeira de Pascoais”.
Fonte: “manueljosecunha.blogspot.pt”




Santos Pousada “(…) considerado um homem culto e trabalhador, que muito se empenhou na causa da implantação da República, em especial na região do Porto. Em 1904, Santos Pousada pertencia à comissão municipal republicana do Porto. Participou de forma activa nas campanhas contra a Monarquia e na organização do movimento republicano.
Foi ainda um dos propagandistas da mutualidade no norte de Portugal, tendo participado em inúmeras realizações. Foi relator de teses que abordavam a contabilidade e a escrituração das associações de socorros mútuos, no Congresso Regional que se realizou no Porto em 1904. Participou também de forma activa no Congresso Nacional da Mutualidade que se realizou em 1911, na Sociedade de Geografia de Lisboa. Neste congresso foi eleito vogal do Conselho Central da Federação Nacional das Associações de Socorros Mútuos e foi vice-presidente da Comissão Oficial de Reforma do Mutualismo, competindo-lhe a organização dos modelos de escrita que deviam acompanhar o novo modelo de reforma. 
António José dos Santos Pousada destacou-se como jornalista. Colaborou em diversos órgãos da imprensa republicana como Vanguarda, Voz da Beira, Voz da Justiça, Voz de Angola, O Alarme e A Democracia. Era correspondente do jornal República, em Espinho, terra onde vivia e era muito respeitado pela população. Foi ainda o fundador da obra beneficência O Vintém das Escolas.
Pertenceu à Maçonaria, desde 1885(…)”.
In Almanaque Republicano; Fonte: ruasdoporto.blogspot.pt




A antiga Rua de S. Crispim, junto à Ponte de S. Domingos, nas proximidades do ainda hoje, Largo de S. Domingos, desapareceu, quando na década de 1870, andava a ser aberta a Rua de Mouzinho da Silveira.
Na sequência desse arranjo urbanístico, foi demolida também a bonita capela de S. Crispim e S. Crispiniano onde a Confraria dos Sapateiros tinha a sua sede, bem como o anexo hospital e albergue de peregrinos existentes desde o século XIV e que se situavam na Rua das Congostas (actual Rua Mouzinho da Silveira, demolidos por ocasião (1874) para abertura daquela artéria. Assim, no ano de 1307, os irmãos, e cidadãos do Por­to, Martim Vicente Barreiros e João Anes Pal­meiro fundaram, "num largo acima da Rua das Congostas, junto ao rio da Vila", uma alberga­ria para peregrinos a que chamaram "dos Pal­meiras".




“A Capela de São Crispim e São Crispiniano, foi transferida e situa-se, desde então, ao cimo da Rua de Santos Pousada, no Bonfim, na cidade do Porto, pertença da mesma Confraria. Está dedicada a São Crispim e São Crispiniano e foi inaugurada em 1878 na Rua de S. Jerónimo, tendo esta, desde 1913, mudado para Rua de Santos Pousada.
S. Jerónimo deve a sua fama ao facto de, a pedido do Papa Dâmaso I, ter traduzido a Bíblia para latim, tradução essa que ainda hoje se usa, a chamada “Vulgata”. S. Jerónimo nasceu no norte de Itália em 374 e, ao longo da sua vida, foi um polemista notável e um opositor às diversas heterodoxias que iam surgindo.
O largo que fica diante da capela e que, na actualidade, tem a designação de Praça da Rainha D. Amélia, chamava-se, naquele tempo, Largo da Póvoa.
A palavra Póvoa, "popula" do latim, significa pequeno povoado. Como havia outra Póvoa, bem perto do actual Largo do Padrão, nas proximidades da Rua das Oliveirinhas, que antes se chamou Rua das Oliveiras, "junto à Póvoa de Baixo", lê-se num documento da paróquia de Santo Ildefonso do ano de 1757, a outra era designada por Póvoa de Cima para se diferenciar, naturalmente, da de baixo.
Quando se reconstruiu a capela de S. Crispim e S. Crispiniano no antiquíssimo Largo da Póvoa, a Municipalidade desse tempo resolveu mudar o nome ao largo que passou a chamar-se Largo de S. Crispim.
Recentemente, já nos nossos dias, voltaram a alterar a denominação ao dar ao largo em questão ao darem-lhe o nome da rainha D. Amélia de Orleães que foi a esposa de D. Carlos I.
A Rua Nova de S. Crispim anda, também, ligada à mudança da capela de junto de S. Domingos para o sítio onde agora está. Evoca o topónimo antigo que o urbanismo ribeirinho fez desaparecer.
Acerca deste assunto resta dizer que o topónimo Póvoa ainda subsiste naquela zona alta da cidade designando uma rua, uma travessa e uma calçada.
Uma confusão frequente é a que diz respeito à Rua da "Bateria", que por vezes é referida como "Rua da Bateria do Cativo". Essa Rua da Bateria, ou Bataria, como o povo diz, evoca uma bateria de artilharia que as tropas Liberais ali instalaram durante o Cerco do Porto (1832-1833).
Na planta das linhas (defensivas) elaborada pelo coronel de Engenharia, F.P.A. Moreira, mais conhecida pela "Planta de Arbués Moreira", esse local vem, efectivamente, designado como "Bateria do Cativo".
Ao contrário do que se chegou a pensar, esta designação nada tinha a ver com o sítio do Monte Cativo situado a uma considerável distância daquele local.
Aconteceu que a bateria foi colocada no ponto mais alto de uma quinta que, em tempos distantes, fora emprazada pela Câmara ao fidalgo Francisco de Sousa Cirne, cuja residência era o edifício onde hoje está a Junta de Freguesia do Bonfim. Este, por sua vez, em 30 de Agosto de 1730, sub emprazou a propriedade mais "uma parcela do prazo do Monte da Forca de Mijavelhas" a José Pereira e mulher.
Quando o terreno em causa começou a ser urbanizado estava na posse de Vicente Francisco Guimarães, por alcunha "o Cativo". Daí o nome dado à bateria da artilharia liberal que ali foi instalada durante o Cerco do Porto”.
Com a devida vénia a Germano Silva




Ao cimo da Rua de S. João e, à entrada da Rua da Bainharia, pegado à capela, ficava o Hospital de S. Crispim, fundado em 1307 por Martim Vicente Barreiros e seu irmão João Anes Palmeiro, ambos cidadãos do Porto.
Funcionou, primeiro como albergaria para peregrinos e por isso se chamou dos Palmeiras, passando mais tarde a ser administrado pelos sapateiros, ficando depois disso a ser conhecido por Hospital de S. Crispim e S. Crispiniano, padroeiros dos fabricantes de calçado. Aliás, junto ao hospital havia uma capela dedicada aos santos protetores dos sapateiros.
Quando se abriu a Rua de Mouzinho da Silveira (1875), o templo foi demolido e a irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano reconstruiu-a no local onde agora se encontra.





Capela de S. Crispim, actualmente




Hoje, a capela está na Rua de Santos Pousada, paredes meias com a Praça Rainha D. Amélia.
Em parte da área afecta ao jardim da praça, seria construído e inaugurado, em 21 de Fevereiro de 1937, o “Dispensário Conde de Lumbrales”, da Assistência Nacional aos Tuberculosos, no Largo da Póvoa de Cima (Praça Rainha D. Amélia).
O actual topónimo daquela praça é mais uma memória daquela real personalidade.
Após a implantação da República, a família real exilou-se no estrangeiro, e depois do casamento de D. Manuel II com Augusta Vitória Hohenzollern-Sigmaringen, D. Amélia, viúva de D. Carlos I, passou a viver no castelo de Bellevue perto de Versalhes. No fim da 2ª Grande Guerra, Salazar ofereceu-lhe asilo político em Portugal, mas ela permaneceu em França, embora com algumas visitas a Portugal.
Em 25 de Outubro de 1951 faleceu em França com 86 anos, mas, o seu corpo seria transladado para Portugal e, com funeral com Honras de Estado, seria sepultado na Igreja de S. Vicente de Fora no “Panteão Real da Dinastia de Bragança”.




D. Amélia em 1945 – Fonte: restosdecoleccao.blogspot.pt




Na foto acima D. Amélia numa visita ao Dispensário de Alcântara.
Para Norte e contíguo à Praça Rainha D. Amélia desenvolvia-se o sítio do Seixal, de que hoje resta o topónimo Rua do Seixal.




Praça Rainha D. Amélia, em 1960, no gaveto da Rua de S. Crispim com a Rua Coutinho de Azevedo

sexta-feira, 21 de julho de 2017

(Continuação 11) - Actualizado em 22/02/2020

O Hospital dos Palmeiros ou de S. Crispim pertencente à Confraria dos Sapateiros, Surradores e Tamanqueiros, está já documentado em 1398.
A irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano é das mais antigas de Portugal, tendo sido criada no século XIII e, cedo se tornou uma das mais ricas do Porto, dada a importância do seu ofício.
A confraria construiu a capela de S. Crispim, de arquitectura medieval e administrou um hospício/hospital (junto à antiga Ponte de S. Domingos), que se destinava a acolher os romeiros pobres que se dirigiam a S. Tiago de Compostela.
Também era chamado de Hospital dos Palmeiros e foi ainda chamado de Hospital dos Sapateiros. Segundo o Prof. Ribeiro da Silva, nos séculos XVI/XVII era a irmandade mais numerosa e que pagava mais licenças à Câmara.
Palmeiros era o nome dado aos peregrinos da Terra Santa que se deslocavam acompanhados de uma palma.
Naqueles tempos, a denominação de hospital era dada a uma casa onde se dava abrigo a peregrinos e, em sequência, se procedia à cura de alguns pequenos ferimentos.
Esta capela de S. Crispim e as estruturas adjacentes mantiveram-se até meados do século XVIII quando, em virtude da necessidade de traçar a nova Rua de S. João, a capela foi intervencionada de forma importante, pelo que, alguns se lhe referem, como a segunda capela de S. Crispim.
Tudo apontará para que o chão dos dois templos tenha sido o mesmo, havendo, ainda, por interpretação de alguns textos da época, a possibilidade de o hospital ter sido sujeito a uma intervenção importante, em 1733.
Foram recentemente descobertas pedras das fundações da capela de S. Crispim por baixo da Rua de Mouzinho da Silveira.
Após a demolição deste segundo templo, para a abertura da Rua Mouzinho da Silveira, em 1875, a capela acabaria por ser reerguida ao cimo da Rua de S. Jerónimo, futura Rua de Santos Pousada, para onde transitou também a confraria dos Sapateiros.



Capela de S. Crispim na década de setenta do século XIX - Ed. “aportanobre.blogspot”



O edifício na extremidade direita da foto anterior, ainda existe e está lá, à entrada da Travessa da Bainharia e faz esquina com a Rua de São João. Como podemos verificar, o que foi construído na outra margem da rua, pegado à capela, que mantinha a mesma arquitectura foi demolido.
Este edifício pertencente à congregação esteve, em todo ou em parte, arrendado ainda a inquilinos, e dava para a Travessa de S. Crispim.
Em tempos, foi ocupado pelo Hospital dos Palmeiros.
A capela ficava à saída da Rua da Biquinha e era a segunda capela de S. Crispim, que a confraria teve, tendo resultado do reordenamento, que o rasgar da Rua de São João obrigou, naquela área, e que determinou o seu alargamento, dada a estreiteza da passagem da Rua da Ponte de S. Domingos para a Rua das Congostas, Bainharia e a nova Rua de S. João.
A seguir, é apresentada uma descrição da primeira capela da confraria de S. Crispim que existiu para aquelas bandas.



“Ficava na rua da Ponte de S. Domingos indo do convento de S. Domingos para baixo fazendo frente por um lado à rua das Congostas. A casa de S. Crispim e S. Crispiniano era composta de capela, sacristia e hospital.
A capela dividia-se da casa do hospital por umas grades de ferro e um arco e tinha a mesma largura da do hospital medindo 22m comprimento (medidas por dentro e pelo meio da parede) e de largura cerca de 8m. Havia nesta um retábulo dourado em que estavam as imagens de vulto: no meio a de Nossa Senhora da Natividade, dos lados a dos Santos Crispim e Crispiniano e no cimo as de S. João Batista e S. Pedro Gonçalves. Tinha também um coro e por trás deste havia uma sala com alcova e cozinha em que viviam os enfermeiros. A porta principal media 7,7m e dava acesso tanto à capela como ao hospital. Ficava no alçado poente e tinha umas escadas de pedra lavrada com grades de ferro que dava descida, de um lado, para a rua da Biquinha e do outro lado, para a rua que vem dos arcos de S. Domingos para as Congostas. As escadas e o pátio mediam de largura 1,65m (entrando na medição as guardas) e ocupavam toda a largura da casa do hospital.
A sacristia ficava pegada à capela na parte norte e tinha uma janela virada a norte. Media de comprimento de nascente a poente cerca de 4m e de largura pelo lado nascente 2,2m e pelo poente o mesmo (refere o documento que esta medição é feita livre das paredes e fica fora das medidas da capela).
O hospital tinha sete alcovas com sete camas e por cima mais três perfazendo dez. Por baixo do hospital capela e sacristia ficavam cinco lojas pertencentes ao hospital que tinham de comprimento a largura dos mesmos; alugadas a mercadores. Na empena sul tinha uma porta sobre a qual tinha um nicho com a imagem de S. João Batista e também na mesma empena, de frente da rua das Congostas, um nicho e varanda de ferro em que está a imagem de Nossa Senhora da Natividade. Tinha ainda nesta parede umas armas em pedra com três flores de lis que se dizem ser as armas dos instituidores do hospital. Confrontava a sul com a rua que vem de São Domingos para as Congostas e Pé-das-Aldas. Na empena norte, tem a casa do hospital uma chaminé que vem de baixo até meio da parede defumando para um chipre ou saída das casas vizinhas (...) para onde também tem duas janelas com grades de ferro e mais a da sacristia como já se referiu. O alçado principal ficava virado a poente com a rua da Ponte de S. Domingos e serventia da Biquinha”.
Texto extraído de “aportanobre.blogs.sapo.pt”



Quando ainda não existia a Rua de S. João, o aspecto do local em questão era o mostrado nas plantas abaixo.



Planta editada, em parte, ao tempo da existência da primeira capela de S. Crispim. A área a amarelo é o Hospital dos Palmeiros – Fonte: AHMP



Legenda:

1. Largo de S. Domingos
3. Rua de S. Crispim (actual Travessa da Bainharia)
4. Rua da Biquinha
5. Capela de Nossa Senhora das Neves, junto da anterior capela dos Dominicanos
6. Rua da Ponte de S. Domingos




Na planta (editada) pode verificar-se que foi necessário proceder à expropriação do terreno de forma triangular delimitado a amarelo e que, aquele novo arruamento pretendia ser uma ligação à Rua das Flores, desembocando frente à Igreja da Misericórdia – Fonte: AHMP



Na planta (editada) abaixo, já está traçada a continuação da Rua de S. João até à Rua das Flores.




O triângulo a amarelo, com o nº 7, indica a área que foi necessário expropriar para rasgar a Rua de S. João, até à Rua das Flores, o que não se viria a concretizar – Fonte: AHMP


No texto seguinte, é feita uma referência à “nova” capela de S. Crispim depois de ter sido alvo de obras, bem características da época, a exemplo das intervenções a que muitos outros templos foram sujeitos e, neste caso, a tal não será alheio também, os melhoramentos decorrentes da abertura da nova Rua de S. João, da autoria dos “Almadas”.




“É assente no cimo da rua nova de S. João em face da calçada de S. Crispim e vulgarmente conhecida de S. Domingos, à entrada da rua da Biquinha, aonde corre o rio da Vila, por isso mesmo que atravessa nesta parte a cidade, e sobre o qual estava uma ponte para servidão da passagem pública, do santuário e do hospital. Nada tem digno de reparo o frontispício desta capela, que mostra uma porta com proporções bem talhadas, e uma janela igualmente rasgada com elegância logo na parte superior da mesma porta, sendo seus mainéis guarnecidos de frisos nos seus vivos para lhe dar melhor aparência, sendo necessário para a entrada transpor alguns degraus de pedra talhados em meia laranja, que estão cercados de gradaria e cancela de ferro; finaliza o prospeto deste templo um triângulo acompanhado de pequena cornigem e assim formar a corrente das duas águas no telhado deste edifício; a torre fica-lhe pelo lado do norte, e ainda não se acha concluída mas isso não obsta a ter já montado, um sino no seu improvisado campanário, a fim de convocar os fiéis à oração. Junto desta torre ainda mais ao lado do Norte e faceando com a rua da Biquinha mostra umas casas, que indicam velhice, bastante desaprumadas, o que prova menos cuidado pelo passado assento do Hospital dos Palmeiros, que nelas em outro tempo permaneceu (…)”
Texto extraído de “aportanobre.blogs.sapo.pt”




Capela de S. Crispim e Hospital dos Palmeiros, em 1833 – Ed. Joaquim Villanova




Na gravura anterior, é-nos mostrada a fachada corrida do edifício da congregação dos sapateiros voltada para a Rua de S. Crispim.



Capela de S. Crispim e irmandade na Rua de Santos Pousada


A propósito da Ponte de S. Domingos, Arnaldo Gama na sua obra “ A última Dona de S. Nicolau”, diz que era:
“…uma espécie de passadiço de pedra, que, à laia do que ainda hoje se vê na Rua da Ponte Nova, comunicava por sobre o rio da Vila, a Rua das Congostas com a Rua de S. Crispim.”


Esta ponte é muito antiga e é referida num documento de 1307, como a morada de Martim Vicente Barreiros e sua mulher Joana Martins, à Rua da Ponte de S. Domingos. Aquelas personagens, juntamente com o irmão do primeiro, João Anes Palmeira, ofereceram o Hospital dos Palmeiros à confraria de S. Crispim e S. Crispiniano, que tinham antes construído, pelo que, no ano de 1398 (ano de Cristo 1350) solicitaram a respectiva autorização ao rei D. Afonso IV.
Há quem argumente que o nome de Palmeiros, atribuído ao hospital, poderá derivar do apelido da família doadora dele, e quando a Santa Casa da Misericórdia passou, por decisão régia, a administrar na cidade uma série de hospitais, o hospital dos Palmeiros manteve-se na gestão da Confraria dos Sapateiros.
O sítio onde naquele tempo estava a ponte de S. Domingos, devia ser bem curioso. Lê-se, com efeito, num documento relativo à alberga­ria de Santa Clara, da Rua dos Mercadores, ali muito perto, que junto à tal ponte de S. Domingos, a que também chamavam Cruz de S. Domingos, "havia umas estalagens boas e grandes e muitas casas novas". 


“O projecto apresentado abaixo e aprovado pela Câmara Municipal do Porto a 17 de Junho de 1872, assinado por Luís António Nogueira, Director geral da Secretaria, intitulado «Planta do Projecto da Rua da Biquinha paralela à rua das Flores, a qual a Exª Câmara pretende mandar abrir para ligar o Largo da Feira de S. Bento com a Rua de S. João».
Na mesma altura foi apresentado um projecto de alargamento e alinhamento da Rua das Congostas entre a Rua de S. João e a Rua dos Ingleses. Em 1875, foi apresentando novo projecto, praticamente igual, mas em que a nova Rua da Biquinha passava de 16 metros para 19 de largura, passando também a ser designada por Mousinho da Silveira. Em 1882, por proposta do presidente da CMP viu a Rua das Congostas alterado o nome para Mousinho da Silveira, por se entender ser continuação da mesma”.




Projecto da Rua da Biquinha – Fonte: Arquivo Histórico Municipal




No desenho acima pode ver-se o projecto inicial para a Rua da Biquinha, que mais tarde se chamaria, projecto para a Rua Mouzinho da Silveira, e perante o qual, é possível observar, também, o leito da futura Rua de Mouzinho da Silveira e a Praça de S. Roque.
A construção da Rua de Mouzinho da Silveira não se fez sem sacrifício de preciosos testemunhos do passado, que pereceram sem ser devidamente estudados.
Um deles foi o desaparecimento de várias artérias, entre elas, o Beco do Cadavai  ou Cadaval ou Beco dos Cadavais, que ficava mais ou menos nas imediações do que é hoje a Rua Afonso Martins Alho.
O Beco do Cadaval ou Cadavais que passaria a viela era uma artéria estreita e imunda que começava nas imediações dos aloques, ou anoques da Biquinha, e terminava na Rua do Souto, sensivelmente na parte desta rua que fica entre a Rua de Mouzinho da Silveira e a Rua das Flores, e que agora é, a Rua Afonso Martins Alho.
A Viela do Cadaval foi toda demolida para abertura da Rua de Mouzinho da Silveira.
Os aloques ou anoques da Biquinha, atrás referidos, eram uns depósitos de lixo, que se acumulavam ao ar livre, num local que se pode situar nas traseiras das casas da Rua das Flores.
De notar que no troço da Rua do Souto, que agora é a Rua Afonso Martins Alho, ainda restam quatro prédios que se situavam na Praça de S. Roque, sendo que um deles possui uma porta de arco abatido e tem o nº 107. Este arco chegou a ser a entrada de um túnel onde vinha dar a Viela dos Cadavais, e que terminava no rio da Vila no seu trajecto a céu aberto.


O prédio com o sinal amarelo (com porta em arco) e os outros 3 numerados, ainda subsistem

De um outro desaparecimento nesta zona, deu eco Pedro Vitorino:

"Quando em 1880 se procedeu ao encanamento do Rio do Vila, assentando em parte do seu trajecto ampla rua, surgiu um documento arqueológico sem dúvida notável. Eis como se lhe refere, num livro de desenhos e notas sobre o "Porto Antigo", em meu poder, organizado em 1884, o professor de desenho Joaquim Manuel Teixeira Marinho: "Em uma casa demolida (para se abrir a rua nova de Mouzinho da Silveira, no Porto), foi visto no interior da dita casa, por cimo de um arco, um Phallo feito de pedra, sendo testemunho Manuel António de Mouro, retratista e pintor restaurador, d'esta cidade, dizendo que não só elle viu este vestígio do antigo culto entre nós, como também António Soares dos Reis, estatuário, e o professor de archictetura civil da Academia portuense de Bellas-Artes, o Sr. Sardinha, os quais alli encontrou, ignorando qual o destino que a camara mandou dar a esta pedra".

O curiosíssimo achado atrás referido, sugeria o caminho remoto que do rio-portus, pelas Congostas, conduzia ao povoado, através do vale, direito ao sítio da Cividade, onde séculos depois se abria a Porta de Carros na muralha fernandina. O Porto foi desde época distante ponto forçado do caminho para o norte, passando por ele (Portucale), a principal estrada romana que da Lusitânia Ocidental conduzia à Galécia, constituindo assim o limiar da entrada desta importante província do império romano. Ainda na Idade Média essa passagem se mantinha: aos dois principais caminhos medievais que do sul da península levam a Santiago de Compostela, e do Oriente passava por Astorga e do Ocidente pelo Porto.


Largo do Souto, Capela de S. Roque e Fonte do Souto

Ainda se podem ver, na confluência da Rua do Souto com a Rua Mouzinho da Silveira, vestígios do velho Largo de Sant’Ana, Largo do Souto ou Largo de S. Roque, onde se erguia a Capela de S. Roque, de planta hexagonal.
Os trabalhos de regularização e alargamento do que viria a ser o Largo de S. Roque, ordenados a partir de 1776, aproveitaram a zona dos aloques e dos pelames que se desenvolvia, nas penedias, no triângulo formado pelo Rio da Vila, Rua do Souto e Rua dos Pelames.
Tratava-se de uma zona degradada, nunca devidamente urbanizada, onde se localizaram as estruturas de curtimento de peles, e que João de Almada e Melo aproveitou para regularizar. Houve, no entanto, e mesmo assim, necessidade de demolir alguns prédios. Sabemos que em 4 de Abril de 1767 foi ordenada a demolição de um prédio para se poder vir a construir a "Praça do Souto", mais tarde designada Largo de S. Roque.
A indústria dos pelames atrás referida foi obrigada a transferir-se para as Fontainhas (à época lugar praticamente ermo) e os aloques que por séculos haviam curtido peles e couros para a cidade, desativados e destruídos. No seu lugar foi construída uma bonita, ainda que pequena, praça denominada Praça de Santa Ana ou Largo de S. Roque e mais tarde, já no século XIX, Largo do Souto.
Em 6 de Fevereiro de 1768 foi adquirida mais uma casa para possibilitar a abertura da referida Praça do Souto e, finalmente, em 9 de Dezembro de 1769 seria adquirida uma casa para "alinhamento e formusura" do largo e para nela se fazer uma Capela (sem dúvida a futura Capela de S. Roque).
O traçado da praça e o desenho da capela deve-se a Francisco Pinheiro da Cunha, tendo os trabalhos tido início em 1767, prolongando-se até 1773.
Sobre o mesmo assunto encontram-se novas referências em 20 de Dezembro de 1769 e em 24 de Fevereiro de 1772.
O pedreiro Joaquim da Silva Mata, receberia da Junta das Obras Públicas do Porto a quantia de 59$575, em 4 de Julho de 1786, "Pela despesa da Capela de S. Roque", por obras efectuadas.
Nesse ano, em Outubro, morreria João de Almada e Melo, o principal impulsionador do levantamento da Praça de S. Roque.
Sobre este desaparecido largo, há diversas plantas de pormenor, algumas já publicadas, bem como, a descrição de Sousa Reis:


"Até ao anno de 1755 houve no Largo da Sé, defronte da porta travessa da Cathedral huma Capelinha aonde se venerava a imagem de S. Roque, porem o terramoto de 1 de Novembro desse anno arruinou a de tal forma, que ficou inteiramente inutil era com tudo tal a devoção dos habitantes da Cidade com este Santo, que não tardou muito que os principaes cidadãos della requererão ao Senado a reedificação da Capella visto S. Roque os ter preservado por diversos vezes da Peste, attendendo pois a Câmara a estas rogativas, e vendo o estado rumo (sic) della resolveo funda-la de novo, e escolhendo o lugar do Souto, por ter capacidade para formar huma praça, ahi mandou levantar sobre as boas escadarias de pedra a linda Capella de S. Roque de forma oitavada, e deo aos edificios lateraes della a aparencia de sumptuoza architectura regular, que o não ser tão estreito o local, não deixaria de ser vistozo ...".
Fonte:  In Bairro da Sé do Porto – Monografias; 



Um documento de 2 de Julho de 1753 revela-nos que se planeava então fazer umas escadas na Sé que "além de tomar terreno público prejudicava a Capela de S. Roque que estava situada no Largo da Sé e que ao tempo fi­cava, voltada a norte, mais ou menos onde agora está a célebre galilé atri­buída a Nicolau Nasoni. A obra não se realizaria de imediato, talvez devido aos entraves acima apontados, mas a Capela de S. Roque, que tanta devoção suscitava aos portuenses seria duramente afectada pelo terramoto de 1 Novembro de 1755, a ponto de ter sido decidida a sua demolição. Foi um pedreiro de nome António Francisco quem arrematou a demolição da "Capela de S. Roque, ao pé da Sé, em preço e quantia de 16 Mil e 500 Reis", quantia que lhe foi paga em 20 de Novembro de 1756.
Anteriormente houve uma outra ca­pela na cidade dedicada a S. Roque, na rua que chegou a chamar-se de Rua de S. Roque e que agora se chama Rua da Vitória. Ainda hoje, os mo­radores desta rua, que habitam na parte compreendida entre as escadas da Vitó­ria e a Rua das Taipas, fazem a festa a S. Roque, cuja imagem se venera numa pe­quena edícula existente na frontaria de uma casa, provavelmente a evocação da capela que por ali terá existido.
Voltando à nova Capela de S. Roque, ela foi fundada em 9 de Novembro de 1776 e demolida em 1877.
A capela era da Câ­mara. Foi esta, aliás, que, em 1787, autori­zou a Confraria de S. José e S. Brás dos Carpinteiros a instalar a sua sede na ca­pela, de onde viria a sair, pouco depois, para a Capela do Senhor da Boa Nova, na Rua de D. Manuel II, em frente ao Palácio de Cristal.
Na capela de S. Roque, ficou também a Irmandade de S. Gonçalo dos Latoeiros e Picheleiros. 
Anualmente e até 1850 fazia-se junto a ela, a festa a São Gonçalo. Além desta, houve durante anos festejos a São Vicente, mas São Roque foi sempre o seu patrono.
Nas obras realizadas pela Câmara Municipal do Porto ao longo do 2º semestre de 1857, restaurou-se a escadaria da Praça de S. Roque, que ameaçava ruína. Poucos anos mais tarde, em 1877, o largo desapareceria para dar lugar à Rua de Mouzinho da Silveira.
Nas palavras de Sousa Reis,

"He pois a Praça do Souto pelo lado do nascente semicircular e encostada perfeitamente ao rochedo que forma o alto chamado dos Pelames (...) de forma tão agradável esta praça, que peno é estar abafada por casas particulares de habitação mais citas que o regularíssima fachada principal do lado do nascente".

Acrescenta Sousa Reis que:

"A Fonte de S. Roque do Souto tem duas bicas, sendo huma d'ellas alimentada pela agoa proveniente da arca de Paranhos e Salgueiros, a outra de huma mina antiga pertencente ao Senado da Camara e Religiozos Franciscanos, que por isso fornece o chafariz interno da Bolsa do Commercio. Chama-se de S. Roque porque lhe fica nas costas a pequena Capella erecta á imagem d'esse Santo, a pedido do Portuenses como advogado contra a Peste; foi por essa ocasião que o dito João d'Almada e Mello uniformizou o limitado Praça, que ainda está muito regular no risco e pedraria. A fonte tem hum grande tanque para deposito das agoas…"
E concluía Sousa Reis: 

"…no meio da curvo está um amplo tanque cujas águas nele se alimentão pelo boca de um golfinho em que se vê montado hum Génio nú do tamanho de huma criança".

Por sua vez o padre Rebelo da Costa, que escrevia em 1788, exprimia-se assim:

"... a praça de S. Roque é formada em semi-circulo, lageada de pedra larga e fina, cercada de casas regulares com três andares, de janelas todas iguais e envidraçadas, uma capela feita à romana, que lhe serve de remate; duas bem repartidas escadas com balaústres da mesma pedra fina, vão formar diante dela um largo pátio, debaixo do qual aparece um lindo génio, cavalgado sobre um golfinho, que lança borbotões de água em uma bacia de pedra lavrada em forma de concha, merece alguma estimação do público apaixonado por similhantes obras."


Ao centro a Capela de S. Roque e em baixo a Fonte do Souto - Desenho de J. Villanova




“Mesmo com a ajuda das plantas, não fica tão explicito assim onde se situava esta praça, porque nada dela resta. E ao contrário do que já vi escrito por aí, o paredão à entrada da rampa que sobe para a rua do Souto não é o que resta desta praça.
Não me apoio em documentos para afirmar isto tão categoricamente; mas apenas na comparação das plantas do antes e depois. Na realidade ele está, relativamente a esta imagem, no seu canto direito e quanto muito poderia ser a parede traseira das casas da escadaria desse mesmo lado.
Ainda assim nem tudo o que no desenho de J. Villanova se vê desapareceu... Ainda algo existe que nos pode ajudar a situá-la. A Rua dos Pelames ainda lá se encontra; estando a atual fonte monumental (localizada onde por séculos num penedo ali existente persistiu a tal indústria nauseabunda de curtumes) a sustentar essa mesma rua e umas casas que desde algum tempo se me afiguraram "suspeitas".
Mas creio que não há que enganar. As fotos abaixo ajudam, sem recorrer a plantas e à nossa imaginação, a situar aquela pequena mas bela praça, que um dia (1877) cedeu o seu espaço para que o progresso chamado Mouzinho da Silveira chegasse em toda a força”.
Com a devida vénia a: Nuno Cruz, administrador de “aportanobre.blogspot.”



Comparação de imagens – Fonte: Nuno Cruz; In: “aportanobre.blogspot”



Notar que o plano da fachada frontal da capela faz um ângulo obtuso com o plano frontal da actual fonte (a azul), como se vê na planta abaixo.




Largo de S. Roque

A linha azul na planta acima pretende representar o plano do frontispício da actual fonte e o tracejado, o leito da Rua Mouzinho da Silveira.
Pela planta anterior pode ver-se como surgiu a actual Rua Afonso Martins Alho.
Também o chafariz da Praça do Souto em frente da capela de S. Roque, seria destruído.
O que hoje se pode ver em seu lugar na Rua de Mouzinho da Silveira, enquadrado dentro de grande arco, remonta a 1966, depois de, desde 1920 o espaço ter sido ocupado por estabelecimentos comerciais e, desde a abertura da Rua Mouzinho da Silveira, até àquela data, ter o aspecto e as funções que hoje desempenha de chafariz.
Sobre a Praça de S. Roque é interessante o texto seguinte:

«... Ora, a escadaria era ornamentada com uns magníficos vasos de granito, muito bem trabalhados, os quais - por arte de berliques e berloques,  apareceram, depois, a embelezar, exteriormente, o restaurante "Sentieiro", na rotunda da Boavista. E ainda lá estão expostos à veneração dos fiéis. É o que sei dos despojos do, para mim, saudosissimo largo do Souto.
O largo do Souto!... Parece-me que estou a vê-lo: todo lageado, com a imponente escadaria, a capelinha lá no alto e a fonte ao centro da meia laranja; era mais - em meia tigela; mas era bonitinho, lá isso era!
E a fonte? Que linda! Estou bem certo dela: era formada por uma grande concha de argamassa, que tinha dentro um fedelho de barro, montado num golfinho de pedra com uma bica de ferro na boca, por onde saía melhor água do que a que hoje se vende a dez réis o copo.
Ainda hoje se vê, formando beco, na rua do Souto, uma nesga , com cunhal, que sobejou do que foi preciso gastar, do largo, para talhar a rua do Mouzinho da Silveira.
Fronteira àquele beco, está uma porta (n.º 103) com a padieira em arco, que era a entrada de um túnel, por onde se ia ter ao "Rio da Vila", e aos "Aloques da Biquinha", e por onde passou, muitas noites, o ex-traquinas que isto escreve...»
Fonte: C. L., Revista “O Tripeiro”, 1ª Série (1908-1911) p.124 do vol. 2; In “aportanobre.blogspot.pt”


A tal nesga referida no texto acima


“A nesga referida acima (pertenceriam aqueles parcos degraus ao arranque da escadaria que subia para a capela?) Mesmo por baixo passa o rio da Vila que na verdade só passa por baixo do leito da rua Mouzinho da Silveira no seu percurso mais inferior, num troço antes da rua da Ponte Nova”.
Fonte: “aportanobre.blogspot.pt”


Após a demolição da capela a imagem de São Roque recolheu à igreja da Irmandade do Terço, juntamente com o São Vicente e, a de São Gonçalo para a igreja de São Francisco. Uma outra de Nossa Senhora das Dores desapareceria e o altar da capela e o sino foram para a Capela de Santo António da Aguardente, também já desaparecida.
Aquando da demolição da capela uma comissão de influentes religiosos e políticos, ainda pensaram reconstruí-la, com autorização da Câmara, na Rua da Bainharia, lado do sul, no lugar onde depois se construíram dois prédios que naquela rua têm os n.º 40 a 52; mas o terreno tinha de ir à praça, e por essa razão a Câmara não o podia ceder, embora cedesse de boa vontade os materiais da demolição e lhe prestasse todo o auxílio em outro lugar que se escolhesse. Em via das dificuldades o projecto acabou por ser abandonado.


Urbanização da Rua Mouzinho da Silveira

Antes do encanamento do Rio da Vila, para quem entrasse no burgo, ao tempo contido dentro da muralha fernandina, pela porta de Carros, que ficava em frente à igreja dos Congregados, topava logo à esquerda, no sopé da colina da Pena Vento­sa, com a Fonte da Cividade. Ficava onde mais tarde se abriu a Calçada de Canos ou Calçada da Relação e que é hoje a Rua do Corpo da Guarda. 
Um pouco mais abaixo e do mesmo lado existia outra fonte junto ao rio da Vila cha­mada Fonte dos Sapateiros, mas que, mais tarde, tomou o nome da rua junto da qual se en­contrava: Fonte do Souto
Do outro lado do rio da Vila, quase em frente à fonte do Souto, estava a Fonte dos Ferreiros. Este nome anda associado à an­tiga designação da Rua da Bainharia, que ainda hoje fica ali muito perto e que se cha­mava Rua de Ferraris por estarem nela se­diadas muitas oficinas onde se moldava o ferro para confecção de espadas e das respetivas bainhas. 
Foi para junto da Fonte dos Ferreiros que em 1556 se projetou a construção de uma nova rua, "pública e larga" ao longo " da Tra­vessa da Fonte dos Ferreiros que era muito estreita e fragosa". 
A nova artéria era considerada como uma "obra muito necessária" para a ligação da Rua da Bainharia com a Rua das Flores. 
A abertura da nova artéria implicou a ex­propriação de várias casas e "a construção de uma ponte sobre o ribeiro que vai pelo meio da cidade", ou seja o rio da Vila. Trata-se do projeto da Rua da Ponte Nova ain­da existente, mas já sem ponte devido, também, à ausência do rio. 
Com a construção da ponte, a fonte dos Ferreiros ficou debaixo dela: "debaixo da ponte nova há uma bica de água que tem no arco ao seu redor, suas rosas e serafins, tudo obra muito antiga". 
A fonte devia ficar num plano inferior ao solo porque se ia a ela por "seus degraus de pedra muito bem- feitos”. 
De entre as casas erguidas desde o último quartel do Séc. XIX salientemos o lote Nº 182, na esquina da Rua de Mouzinho da Silveira com a Rua da Ponte Nova, um edifício Arte Nova, que apresenta molduras de janelas cuidadas e ferros dessa época.
O processo de licenciamento da sua construção foi submetido pelo seu proprietário, Anastácio Dias da Cunha, morador no Muro de Ribeira, à Câmara Municipal do Porto em 4 de Fevereiro de 1905.


À esquina da Rua da Ponte Nova


Os alçados revelam-nos a traça Arte Nova do edifício. Poucos anos mais tarde, a firma Rocha e Francesi, que detinha o prédio, submete um pedido de autorização para alterar a entrada principal do edifício e transformar a janela, na esquina chanfrada da Rua de Mouzinho da Silveira com a Rua da Ponte Nova.
Um pouco acima deste edifício, ocupando o Nº 228 da Rua de Mouzinho da Silveira e tendo comunicação com a Viela do Anjo seria edificado o prédio do Banco Alliança, uma construção, com influências neoclássicas, cujo pedido de autorização, seria submetido à Câmara em 24 de Março de 1884. Antes tinha estado no Palacete de Belomonte dos Pacheco Pereira e no século XX passaria para a Avenida dos Aliados.
Fundado em 1863, o Aliança uniu-se ao Banco José Henriques Totta, de Lisboa, em 1962, dando origem ao Banco Totta-Aliança que, 7 anos mais tarde, se juntou ao Banco Lisboa & Açores, constituindo o Totta & Açores. Mais recentemente o Totta foi adquirido pelo Santander, passando a Santander Totta.
Presentemente, desde Fevereiro de 2019, o grupo hoteleiro da Torel Boutiques abriu neste edifício, depois da correspondente remodelação, para os fins a que se destina, o “Torel 1884”, cuja denominação é alusiva ao ano de construção do prédio.

 “ (…) Composto por dois edifícios distintos, o conceito de ambos os espaços tem por base as rotas marítimas e comerciais portuguesas na época dos descobrimentos. O objetivo passa por transportá-lo para o mundo dos nossos navegadores na descoberta de novas terras e com elas as novas especiarias, comidas e materiais exóticos. 
O nosso Wine Bistro “Bartolomeu” apresenta-se como uma solução gastronómica relaxada, subtil e elegante.”
Fonte: “torelboutiques.com”




O nº 228 da Rua Mouzinho da Silveira

O estereograma abaixo foi obtido em 30 de Janeiro de 1916, aquando da visita ao Porto do Presidente da República Bernardino Machado e mostra a Rua Mouzinho da Silveira junto da confluência com a Rua da Ponte Nova.

Estereograma da Rua Mouzinho da Silveira - Ed. Irineu de Vasconcelos


Vista actual do estereograma anterior - Fonte Google Maps

Rua Mouzinho da Silveira na década de 80 do século XIX - Fonte: aportanobre.blogspot

Na foto acima é visível o convento de São Bento da Ave Maria a fonte de Mouzinho da Silveira já existe e o prédio actual de esquina desta rua com a Rua Afonso Martins Alho está por construir.

Mesma perspectiva actual de foto anterior - Fonte: Google Maps


Rua Mouzinho da Silveira à esquerda


 Rua de Mouzinho da Silveira perspectiva ascendente