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quinta-feira, 22 de junho de 2017

(Continuação 14) - Actualização em 26/06/2018 e 25/11/2020

Os prédios existentes entre a cadeia e o Jardim da Cordoaria



Entre os prédios (visíveis no desenho acima) existentes entre a Cadeia da Relação e o Jardim da Cordoaria ficava a Muralha Fernandina.
Essa série de casas situava-se entre o actual prédio onde funciona a farmácia Antiga da Porta do Olival, no alto da Rua da Assunção, e a Igreja de S. José das Taipas, e apenas era interrompida pela Porta do Olival, que ficava fronteira à Rua de S. Bento da Vitória e por uma curta ladeira ou rampa que dava acesso à Cadeia da Relação.
No desenho acima é possível ver essa série de casas, que eram intervaladas por uma rampa de acesso à cadeia.
Decidido que foi alargar a Praça da Cordoaria, a muralha foi destruída e, com ela, os prédios que tapavam a Cadeia. Foram demolidos 16 prédios em 11/10/1853, tendo outros dois, anexos ao chamado Palacete Sandeman só sido derrubados, já no século XX .
Desta forma, ficaram unidos os largos do Olival e da Cordoaria, e a cadeia mais desafogada.
Foram portanto, naquele ano de 1853, destruídos 16 prédios (bem como um outro no cunhal da Rua das Taipas, que estava adossado pelas traseiras, ao último situado mais no extremo a poente).
Todas essas casas, bastante velhas, estavam arrendadas a vários comerciantes e industriais, que, nos baixos, tinham as suas lojas ou as oficinas.
Contudo, aos restantes místeres, sobrelevavam-se as vendedeiras de louça de barro amarelo, vermelho ou preto, que ali estavam representadas em larga escala."
Num extremo da fiada de casas salvaram-se da demolição as duas primeiras, assentes num patamar de pedra com três degraus e que têm presentemente os números 123 a 128 da Rua campo dos Mártires da Pátria. Isto porque todo este correr se encontrava um pouco acima do nível da rua. Curioso será que o motivo desses patamares era não fazer as casas se conspurcarem de lamas e sujidades, normais da cidade de XVIII e XIX.
Numa funciona uma barbearia e noutra, na que contorna para a Rua de Trás, permanece, o velho café Porta do Olival.
Quando a Casa da Fábrica da Rua da Picaria foi desmontada, pensava-se reconstruí-la no local destes prédios, o que nunca veio a acontecer.




Planta da zona da Cordoaria




A planta acima com origem numa de 1844 está actualizada a 1865, da autoria de Perry Vidal, e seria publicada para apoio aos visitantes da Exposição do Palácio de Cristal.
Na planta anterior de Perry Vidal, a fileira de prédios já não se encontra junto ao nº 13, que identifica a Cadeia da Relação.





À direita ainda de pé, um edifício – Fonte: JN





“Portanto todos aqueles prédios fronteiriços à Cadeia da Relação, num total de 16 e com a numeração – da época, entenda-se – de 70 a 107, começaram a ser demolidos em 11 de Outubro de 1853.
A primeira casa das arrasadas, que ficava entre a Porta do Olival – para onde também fazia frente – e o actual e já aludido prédio do Café Porta  do Olival, tinha os nºs 70 e 71. Na loja exercia a sua actividade uma louceira; e, nos andares superiores, viviam os descendentes de um Domingos Vitória, que era pintor e fabricante de polimento e de lamparinas.
A face voltada à Porta do Olival, com três portas e três janelas, do meio para baixo, era parte do antigo muro da cidade.
Do outro ângulo da Porta do Olival, para o poente, seguiam-se quatro prédios de três andares, tendo os dois últimos varandas de madeira. Todos elas possuíam loja com duas portas, à excepção do segundo que mostrava uma janela além das portas, e neles comerciavam várias louceiras.
Entre o 3º e 4º prédio, havia um vão ou pequena viela tapada comportas nos extremos, onde os soldados da Guarda da Cadeia, tinham uma cloaca (ou instalações sanitárias, como agora se diz e escreve) para a qual subiam, pelo lado da Cadeia, por uma escada de madeira.
O sexto prédio, igualmente de três andares e com estabelecimento, de três portas ocupado também por uma louceira, era dos melhores deste correr, porquanto era o único que ostentava varandas de ferro – um luxo nesse tempo.
Na altura da destruição rendiam anualmente, 19 moedas (91$200 réis) e antes chegara a render 25. A Câmara, aquando da expropriação, deu pelo prédio à sua proprietária - uma senhora D. Joana viúva de um cirurgião que lá chegara a viver – a quantia de 1.200$00 réis.
Desta casa até à rampa de comunicação à Cadeia, seguiam-se mais cinco moradias de dois andares, todas elas com estabelecimentos ao rés-do-chão.
Daqui para baixo, seguiam-se mais sete moradas de casas.
A primeira fazia ângulo com a tal rampa de acesso à Cadeia, para onde se abria uma porta – nº 97 – e uma janela de sacada com varandas de madeira e nela habitava uma toucinheira.
Para este lado, devido ao acentuado declive da rua, só tinha um andar; e, para a banda da Cordoaria, apresentava dois.
As três casas seguintes, com varandas de madeira nos primeiros andares e janelas de peitoril nos segundos, de igual modo tinham lojas ao rés-do-chão e todas elas se mostravam sobremaneira arruinadas. A quinta casa, em estado ruinoso, só tinha um andar e loja, e as suas traseiras, correspondiam exactamente às traseiras de uma outra casa que de igual forma fora demolida (em Dezembro de 1853) à esquina da Rua das Taipas, frente À Travessa de São Bento.
As duas restantes, que eram as duas últimas desta carreira não chegaram a ser demolidas por estarem em bom estado de conservação e por não implicarem em nada, como o projectado alargamento da Praça da Cordoaria, nem com o desafogo que pretendiam dar ao severo edifício da Cadeia da Relação.
Como é notório, estas duas casas de aparência modesta para a actualidade e que na altura haviam sido, ambas elas, avaliadas em 6.000$00 réis, ainda existem relativamente bem conservadas”.
Texto de Horácio Marçal publicado n' O TRIPEIRO, volume 2, Série VI (1962); Fonte: “aportanobre.blogspot”




Sobre as duas únicas casas que sobreviveram até ao fim do século XX e que seriam demolidas apenas em 2001 que estavam juntas ao conhecido palacete Sandeman, começado a levantar em 1839, se refere o texto seguinte.



“Hoje, em 2009, as duas casas do lado das Taipas já não existem. No seu local ergue-se duas fiadas de árvores bem como o arruamento que foi puxado um pouco mais a sul, depois da granitização do Campo Mártires da Pátria.
Numa dessas casas, existia nos anos 80/90 uma tabacaria, onde cheguei a comprar algumas revistas ou doces quando vinha da Escola.
Subia-se para essa loja precisamente por uns degraus de pedra, tal como na outra banda - única que agora existe - onde se encontra o café Porta do Olival”.
Com a devida vénia a Nuno Cruz admin. de “aportanobre.blogspot”

 


Cadeia da Relação c. 1900



Igreja dos Clérigos e à direita já não existem prédios em frente à Cadeia da Relação



Fachada da cadeia voltada para a Cordoaria em meados do século XX




Jardim João Chagas




João Chagas foi um dos mais activos oponentes da ditadura de João Franco, entre 1906 e 1908 e com o triunfo da República, em 1910, João Chagas foi nomeado representante diplomático português em Paris, cargo do qual acabou por se demitir, em duas ocasiões, por discordar do modelo político seguido pelos governantes.
Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros (interino) entre 3 de Setembro de 1911 e 12 de Outubro de 1911 e duas vezes Primeiro-Ministro (chefe de governo), a primeira das quais de 3 de Setembro a 12 de Novembro de 1911.





Nova placa toponímica



“Vamos apenas informar quais as designações que, pelos anos fora, teve este pitoresco sítio. Foram as seguintes: Campo do Olival, desde os seus primórdios até ao ano de 1613. Após esta data até 1661, foi Alameda do Olival. Depois, desde que para ali foram os cordoeiros de Miragaia, passou a denominar-se Campo ou Praça da Cordoaria Nova. Mais tarde, subtraíram-lhe a sobreposição “Nova” e começou o local a ser conhecido apenas por Cordoaria. Em 1835, finalmente, fixou-se em Campo dos Mártires da Pátria, nome que, até ver subsiste. O jardim, propriamente, por resolução camarária de 7/10/1852, começou a chamar-se Passeio Público, topónimo que no ano de 1924 foi substituído por Jardim João Chagas e que prevalece oficialmente. No entanto, a despeito de todas essas andanças toponímicas, ainda hoje – para bem da história local – é simplesmente conhecido por Cordoaria.”
In portoarc.blogspot.com



Tendo a edilidade decidido, em 1852, levantar na Cordoaria um jardim público, a que seria dado o nome de Passeio Público, em 1856, foi encomendado ao arquitecto inglês Edward Buckton Lamb (1806-1869).



Desenho de projecto de Lamb para Passeio Público para a Cordoaria - Fonte: AHMP



A propósito da encomenda daquele projecto se referia a notícia do jornal "O Comércio do Porto" de 12 de Maio de 1856, na qual era criticada a implantação na Torre da Marca da capela que homenageava Carlos Alberto.













Até abrir o Palácio de Cristal (1865) a Cordoaria era o local de eleição




Alguns anos depois, em 1866, o Passeio Público foi intervencionado pelo arquitecto paisagista Emílio David, por deliberação camarária.




“Com a saída dos cordoeiros, novo arranjo se deu, passados uns anos, à Alameda da Cordoaria, feliz iniciativa do 1º Visconde de Vilar d’Allen( Alfredo Allen)…que em 1866, propôs ao Município a transformação da Cordoaria num lindo jardim. Em 10/12/1866 reuniu a Edilidade para discutir a proposta apresentada, que se fazia acompanhar da respectiva planta traçada pelo arquitecto-paisagista alemão Emílio David (autor dos jardins do Palácio de Cristal), resolvendo, depois da aprovação unânime da vereação, autorizar o Visconde de Vilar d’Allen a dispor, para o efeito, da quantia de um conto de reis”.
In portoarc.blogspot.com





O Jardim no século XIX



Na foto acima, o Jardim da Cordoaria, desenhado por Emílio David, podendo ver-se ao fundo à esquerda a Escola Médica e o Hospital de Santo António. Á direita ainda se vê o antigo colégio dos órfãos, fundado no séc. XVII pelo Padre Baltasar Guedes e a Capela de Nossa Senhora da Graça pegado à construção da Academia Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto.
Actualmente, uma árvore com cerca de 150 anos, plantada aquando da intervenção do visconde Vilar d’Allen, parece ainda existir.


João Moreira da Silva, In revista “O Tripeiro”, Vª série, Ano VI, Nº 2, Junho 1950

 

 


Wellingtonia Gigantea, no Jardim da Cordoaria, em 1950




Wellingtonia Gigantea, no Jardim da Cordoaria, actualmente


 

Firmino Pereira diz que: 


”em 1867 aberto o jardim que se destinava ao povo, logo dele se apossaram as elegantes do burgo, que o preferiram aos do Palácio, mais distantes e onde só se entrava, pagando. Aos domingos e dias festivos e às quintas-feiras à noite, o alegre recinto era tomado de assalto pela burguesia tripeira, que se apossava da avenida fronteira ao coreto. Os arruamentos abertos em volta do lago ficavam à disposição das costureiras, das criadas de servir, dos oficiais de ofício, dos soldados da municipal. Eram territórios separados. E o que é deveras curioso é que, à entrada, cada um tomava o seu lugar, como no teatro…”




 O jardim no início do século XX




“… Esta arborização constituída por ulmeiros ou negrilhos (umus campestres), conservou-se pelo decorrer de dois séculos. Durante o memorável cerco do Porto, porém, com a falta de combustíveis que se verificou, tiveram os olmos (assim como outras árvores) de ser sacrificados, o que não obstou, felizmente, a que tivesse ficado um para lembrança, e desde 15 de Fevereiro de 1938 declarado de interesse público. Esse robusto negrilho a que o povo sem justificação plausível pôs o nome de Árvore da Forca…”
In portoarc.blogspot.com




Árvore da Forca – Ed. Foto Alvão



A antiga árvore da forca (só de nome pois, ninguém lá morreu enforcado), na foto anterior. Deram-lhe este nome, pelo feitio do braço, que foi arrancado num temporal do Inverno de 1963. 


“…Há na Cordoaria cuidado com todo o amor, os restos de um dos corpulentos negrilhos da antiga Alameda da Porta do Olival, plantado em 1612, por ordem de Filipe II, a única árvore que resistiu ao decorrer dos séculos e do Cerco do Porto…”
Fonte: portoarc.blogspot.com




Jardim da Cordoaria - Photo Guedes; CMP, Arquivo Histórico Municipal




Na foto de c. 1900, observam-se os negrilhos e, à esquerda, uma elegante balança.



Foto após temporal, inserida em O Tripeiro





Cordoaria após o ciclone de 1941, com café Chaves ao centro





Fachada do interior do jardim do Café Chaves no chalet na Cordoaria




No início dos anos 90 do séc. XIX foi construído o chalet da Cordoaria; deu lugar, em 1917, ao Café Chaves que fechou na década de 40 do passado século.
O Café Chaves já tinha aberto as portas ao público para as bandas da Cordoaria e, em 1900, mudou para o rés-do-chão do Hotel Francfort, na Rua D. Pedro (Rua Elias Garcia após a República), até 1917, aquando da demolição do edifício que ocupava, para a abertura da Avenida dos Aliados. Voltou para a Cordoaria até 1947, altura da sua extinção, primeiro para os baixos da Academia Politécnica, a actual Reitoria e depois para um chalé situado no jardim da Cordoaria.





Café Chaves e fachada no interior do jardim da Cordoaria




Os centenários plátanos



O floricultor João Moreira da Silva diz que: 
"os plátanos que todos os tripeiros conhecem há muitíssimos anos na avenida do coreto do Jardim da Cordoaria e que, deformados pela moléstia que os atacou, se assemelham a verdadeiros monstros, devem ter setenta a oitenta anos” (actualmente 140 a 150 anos).




A Flora na Cordoaria



“A Flora”, de Teixeira Lopes é uma homenagem ao jardineiro, que fundou e administrou o Horto das Virtudes, José Marques Loureiro (1830-1898) inaugurada em 20/8/1904.





Lago do Jardim da Cordoaria em 1910



Eduardo Sequeira conta-nos, em 1895, que: 

“Tal foi o início do Jardim da Cordoaria tratado ao presente com todo o esmero e onde estão reunidas uma série de plantas notáveis, principalmente à volta do lago, que é opulentado com belos fetos arbóreos Alsophilas e Balantiums, e soberbas palmeiras, cocos etc…”




Lago actualmente 



Vista aérea da Cordoaria onde ainda é visível o chalet do café Chaves no canto inferior direito e o recinto interior do edifício da reitoria




O parque infantil do Jardim da Cordoaria identificado pela letra A, em planta de 1949



Na planta acima, no ângulo formado pelas duas alamedas identificado com a letra A, está cartografado o recinto infantil criado nos anos 40 do século XX, dando uma outra finalidade ao jardim.
O parque infantil ficou com o nome de D. Maria do Carmo (Ferreira da Silva) Carmona (1879-1956), a esposa do então Presidente da República, Óscar Carmona.




O recinto infantil com as suas pérgulas – Fonte: “doportoenaoso”





A Torre dos Clérigos observada a partir da pérgula do Jardim da Cordoaria c. 1950 – Fonte: “doportoenaoso”




Ramalho Ortigão no Jardim da Cordoaria - Ed. Portojo



António Nobre



Na foto acima, no Jardim da Cordoaria, é possível, ainda, observar um busto em bronze, de António Nobre, da autoria de Tomás Costa, inaugurado em 1926 e que, em 2017, foi roubado a exemplo de outros espalhados pela cidade e tardou a ser substituído, por um outro, que deixa muito a desejar.



Cordoaria em 1950 


Mais recentemente o vasto espaço a que corresponde a Cordoaria recebeu mais algumas obras de arte.




Amor de Perdição



Da autoria do Mestre Francisco Simões, a estátua é uma homenagem a um dos maiores e mais prolíficos escritores da Literatura Portuguesa, Camilo Castelo Branco, autor do romance 'Amor de Perdição', de 1862, ele próprio um homem de arrebatadoras paixões.




Treze a Rir – Ed. JPortojo



No conjunto de fotos acima, Treze a rir uns dos outros, do madrileno Juan Muñoz (1953/2001). O último trabalho do artista, homenageando o Porto, capital da cultura, 2001.




O bispo D. António Ferreira Gomes em obra do escultor Arlindo Rocha



Revolta dos Taberneiros

A Praça da Cordoaria tem uma história verdadeiramente trágica a enevoar-lhe o ambiente poético, pois foi aqui que, em seis forcas erguidas sob os frondosos álamos, pagaram com a vida os 18 indivíduos (13 homens e 5 mulheres) implicados no tumulto contra a criação, pelo Marquês de Pombal, da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Foi em 14 de Outubro de 1757. Instigados, imagina-se por algumas personalidades negociantes de vinho ingleses, os amotinados no dia 4 de Fevereiro de 1757, respondendo à ordem pombalina que dava à Companhia Geral de agricultura e Comércio das Vinhas do Alto Douro, o privilégio da comercialização, na cidade e em 4 léguas em redor, de todo o vinho maduro, invadiram a casa do Procurador da Companhia, da qual tinham partido dois tiros, partiram e incendiaram móveis, tocaram a rebate os sinos da Sé e da Igreja da Misericórdia. O chanceler da Relação temendo o pior, acabou por declarar que voltava a ficar livre a venda do vinho.
A resposta a tudo isto do Marquês do Pombal foi a que se conhece.
Por estes factos estranha-se a adesão da população às comemorações do centenário da morte do Marquês de Pombal, efectuadas durante o mês de Maio de 1882, que representaram, talvez, um pretexto de afirmação da liberdade.




Capa do romance “Um Motim há 100 anos”



O célebre romance “Um Motim há 100 anos” de Arnaldo Gama tem como tema principal a Revolta dos Taberneiros de Fevereiro de 1757.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

(Continuação 13)

18.10 Campo do Olival ou Campo dos Mártires da Pátria - Jardim da Cordoaria ou Jardim João Chagas

O Campo do Olival ou Monte do Olival era vasto terreno aplanado, tendo já menção no documento de cedência da cidade, por parte de D. Teresa ao bispo portuense D. Hugo, em 1120.
Abrangia um enorme es­paço que, tomando como comparação a to­ponímia actual, compreenderia, hoje, o Cam­po dos Mártires da Pátria, o Carmo, a Praça de Carlos Alberto, o Largo do Moinho de Vento e a Rua das Oliveiras.
Todo este grande espaço foi, através dos séculos, um lugar da maior importância para a cidade.
Na descrição abaixo estão trechos do historiador Horácio Marçal, publicados em O Tripeiro Série VI, Ano II. 

“ Deu origem ao topónimo “Olival” o facto de, no local nas imediações, ter florescido durante larguíssimo período, um frondoso olivedo que, como é notório, deu também o nome à R. das Oliveiras e ao sítio onde permaneceu o Mercado do Anjo, que antes – mas muito antes – se chamou Lugar das Oliveiras. O Campo do Olival, inicialmente, pertencia à Igreja do Porto (Bispo e Cabido). Porém, em 25/6/1331 após amigável composição entre o Bispo D. Vasco Martins e o Concelho da Cidade, foi por este adquirido com o fim de o transformarem em rossio ou praça pública…Somente lhe era permitido construir prédios em volta do campo, desde que pagasse o devido imposto à Mitra. As casas, de facto, pouco a pouco e com autorização da Câmara foram-se construindo em torno do Olival. Com o decorrer moroso dos anos e contra o estipulado, até Igrejas e Capelas se ergueram, feiras e mercados se inauguraram e cordoeiros se consentiram.”

Por ser zona privilegiada de expansão da cidade, um dos sucessores de D. Hugo em 1331, na Concórdia celebrada entre o concelho e o prelado, este cedeu-o ao povo do Porto «para rocio e prol do comum da dita cidade».
Ali existia, ao lado do actual «Café do Olival», (última referência existente do antigo toponímico) uma das portas da cidade, a Porta do Olival, derrubada juntamente com grande parte da muralha, durante o século XVIII, e uma cordoaria.
Por Praça do Oli­val devemos entender aquele pe­queno logradouro existente, a nascente, entre o edifício da antiga cadeia da Relação, hoje sede do Cen­tro Nacional de Fotografia, e a confluência das ruas de Trás, de S. Bento da Vitória, antiga­mente chamada de S. Miguel, e a dos Caldei­reiros que, em tempos muito antigos dava pelo nome de Ferraria de Cima e tinha, na par­te cimeira, o nome de Rua da Laje.
A dita Praça do Oli­val era limitada por outro lado, pelo pano da muralha fernan­dina e pela imponente porta do Olival.  


Zona da Judiaria do Olival – reprodução de carta de 1523 


Legenda da gravura anterior:

Porta do Olival (52), Muralha Fernandina (37), Largo do Olival (53), Rua de Trás (51), Rua da Ferraria de Cima (Caldeireiros – 48).

De notar que o Campo do Olival viria a ser atravessado pela muralha Fernandina, tendo ficado a maior parte dele, fora dessas muralhas.
O vasto Campo do Olival mais extenso que a Cordoaria que lhe sucedeu, com o nome de Campo dos Mártires da Pátria em 1835, espraiava-se para sul até entestar com Miragaia.

Porta do Olival segundo Gouvea Portuense

“Meio século depois, da Câmara ter tomado posse do Campo do Olival, ou seja no longínquo ano de 1386, veio para ele, transferida de Miragaia a Comuna dos Judeus, que se instalou do lado Sul, entre as Ruas das Taipas, Belomonte, Vitória e Caldeireiros. A Judiaria do Olival era fechada por duas portas de ferro maciço com vários motivos alegóricos. Passados poucos anos (1336 a 1376) foi o referido campo cortado em sentido Nascente-Poente pela muralha fernandina, que neste ponto ficou com uma porta – a Porta do Olival – e duas torres. Ficou assim, com a erecção da muralha, o aludido rossio ou praça pública fora do âmbito citadino e, portanto, talvez a monte durante muito tempo, visto que o território extramuros, por essa época, era considerado arrabaldino.”
In “portoarc.blogspot”


Fachada lateral do Café do Olival - Foto de Carlos Silva no blogue Porto Sentido.


Na cave do Café Porta do Olival, ao lado da Torre dos Clérigos, ainda se podem ver restos da Porta do Olival. Esta abria para a Cordoaria e era a saída da cidade para Norte que, seguindo a Rua de Cedofeita, conduzia a Vila do Conde, Póvoa, e mais para Norte.
Restos da muralha podem ser também vistos, bem perto, na Rua Dr. Barbosa de Castro.

Trecho da muralha na Rua Dr. Barbosa de Castro


“Dois séculos e meio depois, em 1611 mais um postigo se abriu na muralha, para dar acesso fácil ao edifício da Relação e Cadeia que então se andava a construir intramuros da cidade e de cuja obra se encarregou, por determinação de D. Filipe II, o corregedor Manuel de Sequeira Novais. Simultaneamente ordenou ainda D. Filipe II (alvará de 28/9/1611), com a superintendência do mesmo corregedor, que se transformasse o Campo do Olival numa formosa alameda por lhe parecer que a dita seria de muito ornato e comum benefício da cidade... Perante tão firme intimativa tratou logo o Corregedor Manuel de Sequeira Novais de dar andamento à plantação de árvores na vasta alameda, árvores, essas, que até ao seu perfeito crescimento, foram guardadas de dia e de noite por 4 homens… que recebiam, cada um, 8.000 reis por ano…”
In “portoarc.blogspot”

Pelo Campo do Olival começou, a expansão da cidade extra-muros, nos últimos anos do séc. XVI, com a sucessiva construção de notáveis templos e edifícios públicos e particulares.
No Campo do Olival ao longo dos séculos foram-se, portanto, construindo diversos dos mais majestosos edifícios públicos da cidade, sobretudo a partir do século XVI, como sejam: a Torre e Igreja dos Clérigos (em 1754, por parte da Irmandade dos Clérigos Pobres); Tribunal e Cadeia da Relação (em 1606 por ordem de Filipe I de Portugal, funcionando a Cadeia até ao dia 29 de Abril de 1974, e que hoje alberga a sede do Centro Português de Fotografia); Colégio dos Meninos Orfãos de Nª Senhora da Graça (em 1651, no local onde está a Reitoria da Universidade); Igreja e Convento do Carmo (1619) e posteriormente a gémea Igreja dos Terceiros do Carmo (1776); Recolhimento do Anjo (1672), onde mais tarde veio a funcionar o mercado do mesmo nome e foi também a Praça de Lisboa, mercado e galeria comercial, e hoje é um espaço devidamente recuperado; Igreja de S. José das Taipas (1666) e ainda, já nas cercas do Olival, o Convento de S. José e Santa Teresa de carmelitas descalças (1702).
Em 1770 a Santa Casa da Misericórdia do Porto dá início à construção neste local, do monumental Hospital de Santo António.
Assim utilizando uma breve discrição e começando pelas realizações mais antigas, refira-se uma capela da invocação de Nossa Senhora da Graça, fundada pela Rainha Mafalda de Sabóia, mulher do rei D. Afonso Henriques que ao sofrer no local um acidente, quis agradecer ao divino o ter sobrevivido e mandou construir uma capela no local, e uma outra, dedicada a S. Sebastião. Ambas existiriam ainda em 1514.
No próprio lugar onde se erguia a primeira destas ermidas, edificou-se em 1651, graças aos esforços do benemérito padre Baltasar Guedes, a igreja e o colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça, tendo em 1804 as suas instalações começado a ser transformadas, no edifício onde hoje se acha instalada a Faculdade de Ciências.
Um dos primeiros templos que se cons­truíram no antiquíssimo Campo do Olival foi uma capela da invocação do Bom Jesus de Bouças (Senhor de Matosinhos) ou do senhor do Calvário Novo. Por esta designa­ção é que a capela era geralmente conheci­da.
Foi a irmanda­de do Senhor Jesus do Calvário Novo, que promovia o culto duma via-sacra neste sítio, que fundou uma ermida, em data que não é pos­sível averiguar, mas que se julga ser ante­rior a 1660.
Com entrada pela Rua das Taipas existiu uma outra capela da irmandade de S. José das Taipas, mandada erigir em 1666, pelos Pachecos Pereira e que antecedeu no local a Igreja de S. José das Taipas.
Em 1619, à custa também do Senado e do Povo, construíram-se a igreja e o convento do Carmo; o templo dos Terceiros, que lhe fica anexo, data de 1756.
O Recolhimento do Anjo, para meninas órfãs e nobres, foi instituído em 1672 por D. Helena Pereira da Maia, no lugar onde esteve, mais tarde e por muitos anos, o mercado, e agora a Praça de Lisboa, completamente recuperada e alindada.
Em 1730, construíram os franciscanos de Santo António do Vale da Piedade um hospício. Nesta casa, sobranceira às Virtudes, fronteira à Igreja de S. José das Taipas e pegado à capela do Senhor Jesus do Calvário Novo instalou-se, posteriormente, a Roda dos Expostos.
O Mercado do Peixe, paredes meias com a Roda, data de 1874, edificado sobre os antigos celeiros da cidade e que foi também, quartel da polícia da cidade, e onde hoje está o Palácio da Justiça.
No ano de 1770, no chão onde existiam dois meios casais chamados do Robalo, começou a Misericórdia a construção do seu Hospital de Santo António. Ainda nos limites do Olival, no campo chamado da Via Sacra ou Calvário Velho, fez-se o convento de S. José e Santa Teresa de Carmelitas Descalças. Deu esta casa, hoje desaparecida, o nome à Rua das Carmelitas e ocupava o terreno delimitado por esta rua, pela Praça de Santa Teresa (Praça Guilherme Gomes Fernandes), Rua Cândido dos Reis e Rua de Santa Teresa.
Na zona central do Olival, foi construída, por ordem de Filipe II de Portugal, em 1613, a Alameda do Olival, sendo posteriormente toda a zona ajardinada nos finais do século XVIII e transformado em Passeio Público em 1853. Em 1865, a instâncias e patrocinado por Alfredo Allen, Visconde de Vilar d'Allen, o paisagista alemão Emílio David desenha o denominado «Jardim da Cordoaria» (oficialmente e desde 1924: Jardim João Chagas), espaço de características românticas que foi um dos locais de eleição de passeio e recreio dos portuenses por longas décadas, vindo, a ser totalmente descaracterizado por intervenção do arquitecto Camilo Cortesão, aquando da Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura.
Logo que foi inaugurado, o jardim que se destinava a servir o povo, e a substituir o do Palácio de Cristal que era pago e mais distante do centro, acaba por ser tomado pela burguesia da cidade.
“Enquanto esta se passeia na avenida fronteira ao coreto, as criadas de servir, os soldados e outros passeiam-se em volta do lago”.
Em Julho de 1869 dá-se o início da iluminação a petróleo do Campo dos Mártires da Pátria, com candeeiros reaproveitados da Exposição Internacional de 1865.
Foi, nos meados do século passado, a Cordoaria, o jardim "do bom-tom" no Porto.

Texto sobre a Cordoaria de 1870 de cronista anónimo

A designação de Cordoaria deve-se ao facto de nessa área terem estado, por muito tempo, os cordoeiros, mais precisamente até 1864.
Já em 1331, quando o bispo cedeu este campo à cidade, ali existiam.
Mais tarde estabelecidos também em Miragaia, foram crescendo em número, estendendo-se até às Virtudes. Em 1661 estavam de novo na Porta do Olival, onde D. José mandou edificar a fábrica, que continuou até 1862. Nesse ano ainda viviam cordoeiros junto da Viela do Assis.
Não houve apenas uma cordoaria, mas cinco!
Anteriormente a 1661 sabe-se que os cordoeiros exerciam a sua função nos areais de Miragaia, no local dos estaleiros onde se construíram algumas das caravelas da expedição de Vasco da Gama à Índia. Era um enorme areal, hoje tapado pela construção da Alfândega.
Em altura não definida e que deve ter sido gradual, em processo de expansão, passaram os cordoeiros a ocupar a denominada Cordoaria Velha, local que se estendia pela actual Rua Francisco da Rocha Soares e Rua de Tomás Gonzaga, ruas longas e próprias para a actividade.
Foi nesta rua, exterior às Muralhas, que funcionou a Cordoaria Velha.
Sabe-se que os cordoeiros já ocupavam o Olival desde os princípios do século XVI pois rapidamente perceberam que o imenso largo era ideal para a tarefa.
Foi a partir de 1661 que, para aí, se mudaram definitivamente, dado ser um excelente e espaçoso local para fabricar as cordas, cujo volume, considerando o incremento da navegação, aumentou drasticamente, passando este local a ser, então conhecido como a Cordoaria e, por aqui se mantiveram, inclusive quando o Marquês do Pombal decidiu que fosse levantada uma fábrica de cordoaria encostada ao local onde mais tarde surgiria o mercado do Anjo.
Firmino Pereira no “O Porto d’Outros Tempos” a propósito dizia:
“Passavam de cem as rodas que trabalhavam diariamente produzindo cordagem, massame, amarras, cabos que rivalizavam com o que de mais perfeito se fabricava no estrangeiro”.

A verdade é que este mester por aqui ficou e apenas no século XIX, mais concretamente em 1862, daqui saiu no seguimento de uma verdadeira ordem de despejo formulada pela Câmara, com ameaça de confiscação para queima, dos apetrechos usados, se os cordoeiros não cumprissem.
Assim aconteceu e os cordoeiros deslocaram-se para outro espaço livre, no então Campo de Santo Ovídio (hoje Praça da República), ocupando a área do denominado hoje, Palacete das Águias, no cruzamento da Rua de Gonçalo Cristóvão e a Praça da República, local com muito espaço para armar os equipamentos.
Mas já então a actividade das cordas havia esmorecido, chegada que era a época do vapor e do aço.
Em Lordelo do Ouro existiu, ainda, a quinta cordoaria e de que hoje sobra, como único vestígio, a Rua da Cordoaria Velha, que parte em direcção ao Ouro, local onde existiu um importante estaleiro e onde foram feitas, por exemplo, as naus que partiram em 1413, para tomar Ceuta, comandadas pelo Infante D. Henrique.
Apetece dizer que a cordoaria na cidade do Porto veio subindo, desde os areais de Miragaia até à Praça da República. De facto, à medida que o tamanho dos navios ia aumentando, também o tamanho das cordas ia crescendo e a actividade necessitava, assim, de mais espaço.
Na Porta do Olival esteve também a forca, transferida da Ribeira em 1822, sendo ainda, teatro de alguns outros acontecimentos históricos. Neste campo começou, em 1757, o famoso motim contra a Companhia dos Vinhos, e ali mesmo terminou com a morte na forca dos supostos cabecilhas. Aqui também, em 1809, o povo trucidou o brigadeiro Luís de Oliveira da Costa, sob a acusação de jacobino. A par destas tragédias, viu o luzido cortejo da rainha D. Filipa quando ao Porto veio casar com D. João I e assistiu à passagem do senhor D. Gaspar, a caminho do seu arcebispado de Braga.
No Olival, mais tarde Cordoaria, se realizava a animada feira de S. Miguel, criada em 1682.