sexta-feira, 30 de março de 2018

(Continuação 9)


A demolição do Palácio de Cristal


“Somando sucessivos prejuízos, não foi vendido á C. M. do Porto em 1915 por forte influência do Conde de Samodães. Até que em 9 de Fevereiro de 1934 esta o comprou por 2.000 contos, na esperança de o dinamizar e fazer mais exposições importantes, o que nunca aconteceu. Continuavam-se a fazer bailes de Carnaval e S. João e festas várias. Era então Presidente o Dr. Alfredo de Magalhães. Até que se anunciou o Campeonato Mundial de Hóquei em Patins de Junho de 1952. Por insistência do Delegado no Norte da Direcção Geral dos Desportos, Mário de Carvalho, logo se pensou realiza-lo no Porto. Mas cá não havia recinto e em Lisboa o que havia só continha 5.200 lugares, o que era considerado muito pouco. Após uma acesa luta política entre Porto e Lisboa e mesmo dentro na nossa CMP, presidida por Licínio Presa, foi decidido deitar abaixo o Palácio de Cristal, na reunião de 18/12/1951, embora a votação e aprovação final só tivesse sido conseguida em 9/1/1952. Porém, o antigo palácio já estava a ser demolido desde as 8 h da manhã do Domingo (?) 16/12/1951 e estava completamente desfeito, excepto a frontaria, em 6 de Janeiro seguinte!”
Engº. Francisco de Almeida e Sousa, In O Tripeiro, 7ª. Série, Ano XX, Nº. 12; Fonte: “portoarc.blogspot.pt

As polémicas que precederam a demolição do Palácio de Cristal foram muitas.
Mário de Carvalho (Delegado no Norte da Direcção Geral dos Desportos) diz que os tempos que se viviam eram de modernidade e avaliza a demolição e há quem tente que a “Mama”, como ficaria conhecida à época o actual pavilhão, fosse construído noutro local, como advogavam o Prof. Hernâni Monteiro e o vereador Pinheiro Torres.
Acontece que, já alguns anos antes quando se começou a colocar a hipótese de deitar por terra o Palácio de Cristal, o arquitecto Artur Andrade apresentou dois projectos que não tiveram aceitação, dizia-se por razões políticas, em 1946 e 1948.

Projecto para o Pavilhão dos Desportos de 1946 de Artur Andrade

Projecto para o Pavilhão dos Desportos de 1948 de Artur Andrade


O Pavilhão dos Desportos que depois seria baptizado como Pavilhão Rosa Mota, é um projecto do arquitecto José Carlos Loureiro que nele tinha previsto levantar outras construções, que por derrapagem do orçamento, ficaram para sempre no papel.
Entretanto a demolição do Palácio de Cristal iria decorrer em ritmo acelarado para que tivesse lugar o campeonato do mundo de hóquei em patins.
O campeonato começaria em 29/6/1952, mas o novo pavilhão ainda estava por acabar. Foi disputado a céu aberto. A frontaria do Palácio de Cristal ainda estava de pé!
Portugal sagrou-se Campeão do Mundo ao ganhar à Itália na final por 4-0.


Pavilhão ainda sem abóboda em 1952 e visível ainda de pé (à esquerda) a fachada do antigo Palácio de Cristal



Selos comemorativos do campeonato de Hóquei em Patins de 1952


Selecção  de hóquei em patins: Emídio Pinto, Raio, José Dias, Correia dos Santos e Cruzeiro

quarta-feira, 28 de março de 2018

(Continuação 8)


Especulação camiliana

Um portuense, um verdadeiro tripeiro, não pode deixar de se interessar pela história da cidade do Porto. A transmissão aos mais novos das origens, lutas, sofrimentos, catástrofes e muitas vitórias e alegrias, é uma missão de todos para que a nossa identidade de portuenses jamais se perca.
Esta argumentação decorre de um facto histórico conhecido, que foi a condecoração atribuída a Camilo Castelo Branco em 1872 pelo Imperador do Brasil que, para o efeito, se deslocou à casa do escritor, que à data vivia em S. Lázaro.
Um dos biógrafos de Camilo foi Alberto Pimentel que, para a posteridade, deixou o percurso do escritor por este mundo, exarado na obra “O Romance do Romancista”.
Neste livro são expostas algumas gravuras, que na época já da existência da fotografia, eram elaboradas de modo a apresentar a realidade com todo o pormenor.

Gravura da casa em que morou Camilo ao Jardim de S. Lázaro

Na gravura acima extraída daquele romance, está a casa (1ª à esquerda) onde Camilo Castelo Branco foi condecorado em 1872, pelo imperador do Brasil.


Perspectiva que se assemelha à da gravura anterior – Fonte: Google maps

Comparando a perspectiva e gravura anteriores, demos connosco a especular, que o prédio mais à esquerda onde hoje está o café S. Paulo, pode ter sido a casa onde Camilo recebeu o imperador Pedro II do Brasil.
Que interesse terá isto, se dirá?
Se isso se confirmasse, haveria que preservar essa memória a exemplo de outros locais.
Tal atitude de preservação já foi tomada no prédio onde o escritor casou na Rua de Santa Catarina, ou também dirigida a outro vulto das letras, a casa onde morreu o poeta António Nobre na Avenida Brasil, locais que se encontram, porém, esquecidos e em degradação contínua, e que urge ser estancada.
Se não tratarmos de preservar estas memórias para os vindouros, vamos acabar sem a identidade que sempre nos caracterizou.


No 2º andar do prédio na Rua de Santa Catarina casou Camilo com Ana Plácido – Ed. Graça Correia


Casa onde faleceu António Nobre em 18 Março de 1900 no nº 531 da Avenida Brasil, actualmente em ruínas – Foto: últimos anos do século XX

segunda-feira, 26 de março de 2018

(Continuação 7)




Perspectiva aérea do percurso da ribeira de Aldoar

Legenda:

Troço fluvial com nascente junto ao antigo Estádio do INATEL, em Ramalde, correspondente ao percurso 4-5-6-2-3;
Troço fluvial com nascente junto ao actual hospital da CUF, na estrada da Circunvalação, em Aldoar, correspondente ao percurso 1-2-3.
Como se vê, os 2 ramos da ribeira de Aldoar no seu trajecto final reúnem-se num só, e as águas da ribeira desaguam no oceano junto do Castelo do Queijo.


A ribeira de Aldoar é a maior linha de água da orla costeira e localiza-se na zona ocidental da cidade. Os seus 2 afluentes (troços) juntam-se num só ribeiro que desagua junto do Castelo do Queijo. No total a bacia hidrográfica respectiva é de 4,2 km2, correspondente a 8,5 km. Aproximadamente 93% do seu traçado encontra-se entubado.
Os lagos do Parque da Cidade são abastecidos por aquelas águas.

“Considerando a necessidade de substituir as infraestruturas da ribeira de Aldoar na Av. Boavista a jusante da Av. Dr. Antunes Guimarães, encontra-se em fase de desenvolvimento o projeto de desvio e desentubamento da ribeira de Aldoar, tentando com a nova solução retratar, ainda que em meios urbanos e numa área confinada, uma linha de água meandrizada, aproximando-a do seu estado natural.”
Fonte: CMP

Em 2020, o troço fluvial da ribeira de Aldoar com origem em Ramalde vai ser desentubado e correr livremente entre a Fonte da Moura e o Parque da Cidade. O percurso mais a montante será recuperado depois.


Visão futurista do percurso da ribeira de Aldoar pela Avenida da Boavista

quinta-feira, 22 de março de 2018

(Continuação 6)



Bernardo de Clamouse Browne foi um importante negociante e industrial e cônsul dos E.U.A. O seu irmão, Manuel de Clamouse Browne, foi reputado comerciante no ramo dos vinhos e virá a ser sócio fundador da Associação Comercial do Porto. Estes dois irmãos eram bisnetos de Bernardo de Clamouse, que se dedicou ao comércio por grosso, com seu negócio centrado nas mercadorias vindas de França, e que assumiu o cargo de cônsul da França em 1720, com cerca de 25 anos.
Aquele Bernardo Clamouse Browne, na transição do século XVIII para o século XIX tinha a funcionar na “zona de Vilar” uma fábrica de fiação, que utilizava a melhor tecnologia existente à época. A localização precisa não é consensual entre os historiadores, mas pode mesmo ser aquela que albergou sucessivamente, A Fábrica Têxtil de Bernardo Clamouse Brown, a Fábrica de Curtumes de Bernardo Clamouse Brown e, mais recentemente, a Fábrica de Curtumes do Bessa. É esta a teoria que mais abaixo desenvolve Manuel Lopes Cordeiro, um exímio estudioso destas matérias. Aliás, essa localização poderá ser considerada situada praticamente na referida por alguns como a “zona de Vilar”.
Devido a um incêndio, às invasões francesas e aos acordos de comércio com a Inglaterra, que para promover os nossos vinhos, tiveram como contrapartida uma entrada maciça dos têxteis provenientes do outro lado da Mancha, a fábrica têxtil de Bernardo Clamouse Brown, durante a 2ª década do século XIX foi obrigada a encerrar, tendo os seus proprietários passando a dedicar-se a outro negócio - os curtumes.
Segundo alguns estudiosos, esta actividade começaria a ser desenvolvida no local em que, até há poucos anos, funcionou a Fábrica de Curtumes do Bessa, à Rua António Bessa Leite, e de que hoje, apenas resta, uma alta chaminé.



“Foi recentemente demolida - com excepção da chaminé, que ainda subsiste, mas que provavelmente irá conhecer o mesmo destino - a Fábrica de Curtumes do Bessa, uma das mais antigas unidades industriais portuenses, situada na Rua de Bessa Leite, em Lordelo do Ouro. Como já por diversas ocasiões referimos nesta rubrica, parece ser este o irremediável destino que aguarda o património industrial da cidade. Como também já salientámos, não é possível - nem desejável - salvaguardar todos os testemunhos do nosso passado histórico, apenas se justificando proceder desse modo em relação àqueles que apresentam um efectivo valor histórico e patrimonial, à luz dos critérios universalmente reconhecidos para esse efeito. O que se impõe, nestes casos, é a aplicação das mais elementares normas de arqueologia preventiva e de salvamento, ou seja, a conservação pelo registo, e, tanto no caso do património industrial como no de outras épocas, todas as demolições deveriam ser acompanhadas por arqueólogos, a fim de se efectuarem os registos necessários para que esta herança possa vir a ser explorada do ponto de vista científico. É algo que se afigura extremamente simples, pois não constitui nenhum obstáculo intransponível englobar este tipo de trabalhos arqueológicos como parte integrante das obras de demolição, sem a garantia da realização dos quais não seria concedida a necessária autorização. Recordamos, uma vez mais, o caso da primitiva instalação hidráulica da Fábrica de Lanifícios de Lordelo (na Rua de Serralves) - da qual subsiste uma turbina que se encontra soterrada -, que irá ser possivelmente destruída aquando do revolvimento de terras que acompanhará a prevista demolição das suas instalações, e que se reveste de grande importância para o conhecimento do sistema energético daquela histórica unidade industrial portuense e da própria produção daquele tipo de equipamentos. A manter-se este ritmo de destruição não selectiva e "não organizada", num futuro próximo não restará um só edifício industrial dos passados séculos XIX ou XX que possa constituir um testemunho de como, na cidade do Porto, se desenrolou uma das maiores transformações experimentadas pela humanidade, como foi o período da industrialização, e nem sequer se poderão extrair os conhecimentos que essas demolições proporcionariam, se fossem devidamente acompanhadas. A demolição da Fábrica de Curtumes do Bessa constituía, precisamente, uma das cada vez mais raras oportunidades existentes na cidade do Porto para pôr em prática os princípios metodológicos a que acima aludimos. O acompanhamento arqueológico dos trabalhos de demolição desta unidade fabril poderia proporcionar um maior conhecimento daquela que foi a primeira unidade industrial moderna do sector de fiação de algodão fundada no Noroeste do país - a Fábrica de Fiação de Bernardo de Clamouse Browne -, que ali terá sido instalada nos finais do século XVIII, e da qual se conhece muito pouco, existindo, inclusivamente, dados contraditórios sobre a sua localização. De facto, são escassos os elementos precisos sobre a história daquela fábrica que chegaram até aos nossos dias. Sabe-se que pertencia a Bernardo de Clamouse Browne, então cônsul de França nesta cidade. Em 1799, de acordo com T. Lecussan Verdier, já fiava algodão com "jennies", e, segundo a informação do corregedor da Comarca do Porto, de 28 de Maio de 1813, publicada no Mapa Geral Estatístico de Acúrsio das Neves, naquela data encontrava-se em decadência. A principal razão desse estado de decadência é muito claramente explicada pelo próprio Bernardo de Clamouse Browne, na resposta ao Inquérito Industrial da Comarca do Porto, de 30 de Outubro de 1813, ao afirmar "que, em consequência do último Tratado de Comércio entre este Reino e o de Inglaterra [Tratado de 1810], que permitiu a introdução de todas as fazendas inglesas, como se tem verificado, cessou de todo a laboração da nossa fábrica enquanto à fiação, tecidos e estamparia, resultando-nos um gravíssimo prejuízo, como é a perda de todos os preparos e edifícios, utensílios e máquinas que tanto dinheiro custaram". Encerrada a actividade têxtil, Clamouse Browne e o seu sócio Rodrigo António Leite de Morais ver-se-ão obrigados a mudar de ramo, no caso para o da indústria de curtumes. Segundo as suas próprias palavras: "Em consequência da aniquilação das referidas laborações é que temos erigido a nossa fábrica de curtume no mesmo sítio, a fim de aproveitar o local e ocupar parte dos edifícios e oficinas". Deste modo, seria extremamente importante acompanhar o processo de demolição das instalações da Fábrica de Curtumes do Bessa, sucessora daquela que ali foi instalada por volta de 1813, a qual, aliás, contava com uma outra unidade, entretanto demolida para dar lugar a uma urbanização, e onde também poderia ter laborado a fábrica de fiação. Tal acompanhamento poderia proporcionar a descoberta dos vestígios da anterior unidade de fiação têxtil, identificar o seu espaço de laboração e, eventualmente, recuperar alguns materiais de enorme interesse para um seu maior conhecimento. Resta-nos lamentar, para além da destruição do património, a perda de mais uma oportunidade única para salvaguardar a memória industrial portuense”.
Com o devido crédito a José Manuel Lopes Cordeiro, In Jornal Público de 21 de Janeiro de 2001

Da Fábrica de Curtumes do Bessa, na Rua António Bessa Leite, resta a chaminé – Fonte: Google maps

terça-feira, 20 de março de 2018

(Continuação 5)



Dois acrobatas espanhóis, José e Miguel Puertollano, pai e filho, escalaram num Domingo, a 15 de Julho de 1917, a Torre dos Clérigos.
Quando chegaram ao topo, e após fazerem umas acrobacias na cruz, tomaram chá acompanhado por bolachas Invicta, uma marca recente que estava a ser promovida na altura. Depois lançaram panfletos para as 150 mil pessoas que estavam na rua a assistir.
Este feito ficou gravado num filme publicitário chamado “Chá nas Nuvens”, produzido por Raul de Caldevilla.
À época as bolachas Invictas esgotaram rapidamente.


“...Houve ainda a escalada da Torre, desde a base até ao vértice, pelos Puertollanos ocorrida, se a memória nos é fiel, em 1917. Também assistimos de ânimo inquieto, ao escalamento feito pelos dois sujeitinhos, de moldura em moldura, sem nenhuma batota, sem nenhuma ajuda, atidos apenas às suas boas unhas, que dir-se-iam garras aduncas e firmes. 
Quando chegaram à bola cimeira (que Camilo diz “ser menos dura e menos tapada que a cabeça de Basílio Fernandes Enxertado”), já tinham sido providos através da última “ventana”, das vitualhas que iriam saborear nos braços da cruz de ferro, que é remate da Torre. E, atónitos, todos assistimos àquele chazinho das 5, gostosamente beberricando a setenta e tantos metros de altura, isto, muitos anos antes do chá que é servido agora pelas hospedeiras aeronautas. Depois da chazada, vagarosamente libada nos braços da cruz, os acrobatas despediram, para os espectadores, miríades de papelinhos onde se enalteciam as excelência das bolachas, com que os ginastas estavam a acompanhar o seu chá nas nuvens. Os papelinhos diziam o nome das bolachas do seu fabricante, mas nós não o repetiremos agora, para não fazermos graciosa, uma vez que o Puertollanos também a não fizeram…
In O Tripeiro Série VI, Ano IX

“Meu pai contava-me que assistiu à escalada, em 15/7/1917, muito ansioso com o receio de ver a queda do trepador. E digo-o no singular, pois o atleta foi só o Pertollano (pai), tendo o seu filho subido pelo interior e só ter escalado a bola e a cruz.
Também, segundo meu pai, e já li algures, a escalada a que ele assistiu foi patrocinada por um comerciante do Porto”.
Rui Cunha In portoarc.blogspot


Publicidade às bolachas “Invicta” – Fonte: portoarc.blogspot

Convite feito à população para subir à Torre dos Clérigos - Fonte: portoarc.blogspot

Na gravura acima um folheto de publicidade lançado do alto da Torre dos Clérigos em Julho de 1917.

Publicidade do Cinema Águia d’Ouro ao filme da escalada


Notícia da escalada na Ilustração Portuguesa de 26 de Novembro de 1917

Torre dos Clérigos vista da Cordoaria no 1º quartel do século XX

sexta-feira, 16 de março de 2018

(Continuação 4)



No jornal “A Columna” de cariz revolucionário e Setembrista, que era editado na desaparecida há muito, Rua dos Lavadouros, seria publicado um artigo entre 29 de Novembro e 2 de Dezembro de 1847 pela pena do escritor e capitão-tenente da Armada, de seu nome Francisco Maria Bordalo (1821 Lisboa, 1861 Lisboa).

Embarco-me no vapor, deixo o meu pátrio Tejo, - vejo sumir-se a Pena, bela coroa da romântica Sintra; à noite enxergo o farol das Berlengas, confundindo a sua luz com a das estrelas; depois durmo, que é uma excelente maneira de encurtar as viagens; e ao romper do dia diviso a Foz, a sua povoação, o seu castelo, e lá por entre montanhas a erguer-se um como cipreste gigante.
Silêncio! - eio!... caluda, que vamos a investir com a barra - e não é ela para graças. O Joaquim Luís e o Turíbio gritam - a bombordo - a estibordo. - E o Cabedelo está aqui agarrado a proa do barco, e o mar rebenta com fúria - parece um lençol de escuma.
Bravo! Passamos adiante - mas cá está a maldita Cruz de ferro - Deus me perdoe a heresia!... Heresia, não, porque a chamada Cruz de ferro não é mais do que uma torrezinha de pedra, que teve em outro tempo o sinal da redenção, dizem.
E com esta conversa safamos de todos os baixos, e eis-nos aqui a largar o ferro em frente a Massarelos.
Namorei-me de uma casa na margem do sul do rio - disseram-me pertencer ao Sr. Antero [que não tive a honra de conhecer] - bonita! isolada à beira do rio, assombrada de arvoredo, - é capaz de fazer poetas. Por mim declaro que se ali passasse um mês, compunha romance de trinta volumes, coisa a desbancar Suee Dumas, - muito maior que o Judeu e que o Monte Cristo.
As construções navais que aparecem na outra margem, começam a dar ideia da vida que anima o Porto: uma corveta de guerra, várias embarcações mercantes, de belos cascos... de elegante mastreação... desenho, obra e madeiras portuguesas - são objectos que devem notar-se... E aqui podia eu fazer largo discurso sobre a decadência da nossa Marinha - falar em Vasco da Gama e Pero de Alenquer e Pero Nunes e... nada, isso já está muito repisado, e eu trato de escrever uma obra inteiramente original, ou para me servir de uma expressão moderna - não quero vasar em nenhum molde o metal da minha eloquência. Agora sim, que ninguém me entendeu.
Vamos, largo do Ouro [o sítio dos estaleiros] - rema avante; aguenta contra a corrente, que quero ir desembarcar à Ribeira.
Gosto mais do Douro, do que do meu pátrio Tejo. Não tem a majestade deste - é verdade - não pode acomodar a um cantinho todas as naus da Inglaterra, da França, da Rússia e da Turquia - é o mesmo; quem quer ver mar largo - bem largo - vai viajar no oceano - e eu que já o estou farto de o ver! - O Douro é estreito - bem sei - mas por isso é que eu gosto dele; tortuoso, assim é que me agrada, apraz-me o subir a qualquer eminência das suas ribas, e ver como se enrosca por entre as montanhas que lhe talharam o leito; como esbraveja às vezes contra essas margens alcantiladas... Tenho pena de não ter nascido à beira do Douro!
Que caras de vender saúde tem os barqueiros - comparai-os com os infesados do Cais do Sodré e da Ribeira Nova. Pois as mulheres de Valongo e Avintes, com aqueles elegantes tamanquinhos - sim senhor elegantes... - Ai que toquei na tecla - isto é tentação - abre nuntio!
A minha catraia vai passando em frente de Miragaia. Lembrou-me o romance do Sr. Garret - eu tenho queda para a poesia! - perguntei aonde era o castelo de Gaia, e mostraram-me na riba oposta umas ruínas - olhei com entusiasmo para elas! Depois espraiando de novo a vista pela extensão de Miragaia, dizia comigo mesmo: - Por aqui devia de ir passando a cavalgada de moiros, quando a bela Gaia mirou pela última vez ao seu Real amante. - E fiquei sério ao contemplar alternadamente as duas margens do rio, recordando-me também do Espetro, belo poema-romance do Sr. José Maria da Costa e Silva.
Não tardei porém em ser distraído. Mostraram-me a Serra do Pilar, que parecia fechar uma pequena baía, olhando da posição em que eu estava; porque o Douro torce-se aqui e acolá, como um avaro que procura esconder os seus tesouros. As ideias mudaram logo de norte; veio-me à lembrança o cerco, aquela memorável defesa; - e D. Pedro, e o General Torres, e os Polacos da Serra passaram em continência diante da minha imaginação; - porque tem isso consigo os poetas e mesmo os prosadores, vêm ante si cada vez que querem os grandes homens de todos os tempos; dos pequenos não fazem eles caso…
…Desçamos à Praça Nova, ou mais modernamente - praça de D. Pedro. Eis-nos aqui na parte mais regular da cidade. As duas calçadas que partem deste lugar em direções opostas - a de Santo António e a dos Clérigos - são espaçosas, e orladas de muitos bons prédios: a primeira coroada pela bela paróquia de Santo Ildefonso; a segunda pela igreja e Torre dos Clérigos (que amizade com que eu fiquei a esta torre!) - A praça é quadrada; cercada de gradarias e assentos de ferro, assombrada de arvoredo em roda, e ornada com o palacete da Câmara Municipal; um chafariz; e o único café e bilhar decente do Porto, único cabeleireiro, e armazém de modas - tudo propriedade de Mr. Guichard.
…A fachada da igreja dos Clérigos pobres - ou de S. Pedro de Alcântara - também prende a atenção como a torre, e como ela pertence a um género de arquitetura inclassificável.
… Baixemos à calçada, e vamos à Câmara Municipal; é necessário não perder tempo.
O palacete é pintado de azul; a gradaria das janelas doirada. No topo tem um guerreiro que sustenta as armas da cidade, e empunha uma lança.
Entremos o portão; no vestíbulo há uma fonte que refresca aquele ambiente. - Subamos a escadaria, penetremos na sala das sessões - lá está a espada de D. Pedro adornando uma das paredes - ao lado do retrato de sua filha.
Confesso que me comoveu aquela vista - aquele largo sabre de bainha de ferro que guiou à vitória os 7500 bravos de Arnósa!... Aí temos outra recordação intempestiva - esquecimento é que se quer.
Passamos à secretaria, e ao arquivo da Municipalidade: o curioso de antiguidades tem aí com que se entreter. Mostrar-lhe-ão um livro em que estão pregadas algumas folhas de papel de algodão, meio dilaceradas porém cobertas de carateres antiquíssimos - é o primeiro auto de Vereação - século XIII ou XIV. O foral da cidade e o de vários lugares do distrito, adornados de belas iluminuras, aonde se conserva o brilhantismo das cores, fruto de uma arte perdida para nós; são obra do tempo de el-rei D. Manuel; e outras preciosidades. Antes de abandonar o palácio da Câmara vede a pequenina capela, e gostareis por certo dos seus adornos, posto que sejam de madeira…”
…Não me resta a visitar nenhum lugar da cidade, passei mesmo um dia no seu arrabalde - a Foz; - templos, palácio, torres, teatro, cemitérios, ruas, praças e vielas, hospícios; o rio e a sua ponte e os seus barcos; homens, mulheres, carruagens; Associações, biblioteca e museu, telégrafos, jardins, passeios, academia e prisão, - tudo procurei ver - de tudo contei um pouco, sem que todavia me passasse pela ideia o ser guia de viajantes no Porto. Agora só me resta visitar as quatro estradas novas que partem da cidade para Braga, Guimarães, Penafiel, e Lisboa; - depois regressar à casa paterna, e recordar, saudoso, estes dias passados nas ribas do Douro. Vamos - monta a cavalo - o Sr. C. Júnior é o meu guia; - trota pela rua da Rainha - eis-nos na estrada de Braga.
Lá está a casa da barreira meia derrocada - foi o povo que a destruiu porque queria ser livre, e todos sabem que as estradas são um tropeço para a liberdade; além de que nossos pais andaram sempre bem pelos antigos atalhos, tortuosos, perigosos, imundos. Devo sempre fazer aqui uma observação - os homens e mulheres do Minho não transitam senão pelas estradas novas, agora o que fazem é danifica-las quanto podem.
Cá está em baixo uma povoaçãozita, com seu templozinho humilde, - é S. Mamede de Infesta.
Avante, pararemos em Leça do Balio.
Chegamos; uma ponte pênsil, pequena mas mui bonita, lançada sobre o rio Leça, aformoseia este lugar; a povoação fica mais longe.
Não iremos adiante; retrocederemos para passar a outra estrada. Voltamos à rua da Rainha, dobramos à esquerda para a rua de 27 Janeiro; no fim desta ainda volvemos à esquerda para a rua de Costa Cabral: ao cabo dela está o começo da estrada de Guimarães.
Galopa até à Cruz das Regateiras.
Um templo, uma cruz de pedra, algumas casas humildes - eis aí o lugar. Sigamos a passo para desfrutar a beleza desses campos que nos cercam, miremos essas soberbas quintas que orlam o caminho, essas colónias verdejantes, e lá ao longe os severos cabeços de várias serras recortando-se no fundo azul do céu.
Passamos por Águas Santas, e antes de chegar à Maia, cortamos à direita; por estreitas devesas, perguntando a que lado fica a estrada de Valongo, vamos sair a Rio Tinto; estamos no caminho que procurávamos, e que se prolonga até Penafiel. Nós seguimos em sentido oposto, e vimos por S. Roque da Lameira entrar na cidade.
Estou fatigado da cavalgata, a tarde vai descaindo... não importa: ainda vou à estrada de Lisboa, e á Serra do Pilar.
Passamos o Douro na ponte pênsil; sopeu o cavalo sobre o abismo para lançar um olhar ao rio e ás águas margens... avante; estamos em Vila Nova de Gaia.
É preciso subir essa calçada íngreme e imunda para chegar ao histórico alto da Bandeira (aonde perdeu um braço o Sr. Visconde de Sá - para quê?) - Aí começa a estrada dos Carvalhos, que devia prolongar-se até Lisboa.
Há pois vinte e duas léguas de boa estrada; construídas nos arredores do Porto; vi meia dúzia delas, então me desenganei de que as companhias monstros não eram tanto ilusão como me tinham dito em Lisboa alguns meses depois da revolução do Minho, quando eu voltava de uma larga viagem ao sul da América.
Subimos à serra - que religioso respeito me infunde este lugar! Aqui estão as baterias, precedidas de fossos - além o convento cravejado de balas, - os ferros das janelas torcidos ou quebrados, - as pedras amassadas pelo choque dos projeteis... mas sobre a porta incólume em seu nicho esse santinho que afugentou de si as bombas!
O sol abismava-se no oceano, - era essa hora a mais solene do dia em que os objetos começam a descorar, os vultos reais a tornarem-se fantásticos. Em volta de mim reinava o silêncio e a solidão. O meu amigo C. apartara-se por alguns momentos; só restava uma sentinela à porta do convento, marchando compassadamente em um espaço determinado como um autómato bem fabricado.
E lá em baixo, do outro lado do rio, pendurava-se a cidade por suas majestosas colinas, expraiava-se pela beira do Douro, e unia a si com um cinto de madeira e ferro Vila Nova de Gaia.
Era um quadro sublime de grandeza!
A quem visitar o Porto recomendo-lhe este ponto de vista, e o das Fontainhas na outra margem: - não sei por qual me decida - ambos são maravilhosos.
À noite voltamos à cidade.
No dia seguinte embarquei no vapor para Lisboa.
Ao passar pela Foz, algumas senhoras que passeavam na praia agitaram os seus lenços a despedir-se de nós - a dar-nos a boa viagem... e Deus escutou os votos daqueles anjinhos, tivemos um tempo divino até Lisboa. Um desses Serafins conheci eu bem - tinha-me prometido vir ali despedir-se de mim, - e não olvidou a promessa. O céu te pague, mulher, o bem que me fizeste: - os desgraçados contentam-se com tão pouco!
Adeus, Porto, adeus, volto a Lisboa, e já agora não passarei sem celebrar as belezas da minha terra natal; sim, hei-de escrever um livro das minhas viagens à roda da cidade aonde nasci; porque não - quando Xavier des Maistres viajou em roda do seu quarto; o meu trabalho é muito mais amplo; vou tratar disso, e até que se publique - adeus leitor! Desculpe a maçada.
Lisboa, 22 de Novembro de 1847
Autor: Francisco Maria Bordalo; Fonte:  “aportanobre.blogspot”


A seguir, numa panorâmica obtida cerca de 13 anos após a visita do lisboeta Francisco Maria Bordalo, em que a paisagem não seria muito diferente daquela que ele encontrou, podemos observar que a capela de Carlos Alberto na Torre da Marca já estava edificada, mas, ainda ter-se-ia que esperar 5 anos, para que o Palácio de Cristal viesse a ser inaugurado.


Vista de Massarelos c. 1860 – Ed. Archivo Pitoresco

quarta-feira, 14 de março de 2018

(Continuação 3)



O Jornal “O Comércio do Porto” noticiava no dia 6 de Março de 1879, que tinha sido presa no dia anterior a cidadã Antónia Custódio das Neves, que até àquele momento se tinha apresentado sempre como António e sempre tinha sido conhecida como tal, pois vestiu-se sempre como homem e assim era conhecida. Essa personagem haveria de ter um fim trágico ao morrer durante o incêndio do Teatro Baquet, que se situava então, na Rua de Santo António.

«Chamou-se, no baptismo, Maria da Trindade e era filha de Maria das Neves ou Maria Coroada. Nascida em Quintela (Sernancelhe), foi, ainda criança, para Granja do Tedo (1851). Vestiu-se como rapaz e adoptou o nome de António das Neves, estatuto que manteve pela vida fora, na escola, no trabalho à jorna pelo Douro e como empregado de comércio, no Porto, mais tarde. Cultivou a amizade de uma rapariga da Granja do Tedo, mas adiou sempre o casamento. Correndo o ano de 1879, certo dia, no Porto, a polícia suspeitou da estranha situação de António das Neves, que não trazia consigo documentos militares. Foi levado a Tribunal mas logo libertado devido às boas referências de toda a gente. Readquirindo um estatuto de mulher casou nesse mesmo ano com o filho de um antigo patrão.
Morreu tragicamente no incêndio que, em 20 de Março de 1888, deflagrou no Teatro Baquet.»
Fonte: Site da Câmara Municipal de Tabuaço


Teatro Baquet na Rua de Santo António
  


Maria Coroada e o Cisma da Granja do Tedo

«Entre os anos de 1840 e 1847, não se sabe bem por que caminhos, a família dos Custódios (José Custódio, mestre escola, e Cristina Gaspar), pais de doze filhos, entregaram-se a um estranho culto para o qual arregimentaram numerosos adeptos. Presidia uma das filhas, Maria das Neves, que se intitulou Maria Coroada, espécie de sacerdotisa herética e devassa que reinventou uma torpe liturgia a partir de uma catequese antiga e cristã. Diz-se, para mais, que era mãe da Mulher-Homem de Granja do Tedo.
Finalmente o administrador do antigo concelho de S. Cosmado pôs fim, através de ameaças, àquelas práticas. Uma velha casa, no Povo de Baixo, voltada para o rio Tedo, é lembrada ainda como a Casa das Coroadas.»
Fonte: Site da Câmara Municipal de Tabuaço


«Sendo este um culto popular, liderado por uma mística popular, em pleno século XIX, desde logo reflecte valores e opiniões, visões e expectativas, próprias do seu tempo e respectivo espaço sócio-cultural. E uma das mais marcantes é a sua concepção entrópica do mundo».
A Nova Eva era o catalisador de um Novo Mundo porque o velho estava esgotado, eivado de injustiça e corrupção. Maria das Neves representa a expressão de «uma ruralidade novecentista» além de «uma natureza prosaica e simplória embora expedita e confiante». Daí a sua ideia de que «os padres pouco fazem e muito comem», daí a «desconfiança face à Justiça» e a constatação do «poder discricionário e autoritário de reis e nobres». Este culto foi selvaticamente destruído em 1847 por ordem do administrador do concelho de São Cosmado tendo a sua «guerrinha» confiscado todos os livros, estandartes e alfaias cerimoniais. Trinta anos depois houve foguetes e vivas quando António das Neves, filha de Maria Coroada, veio do Porto em 1877 visitar a família na Granja do Tedo e chegou de comboio à Régua”.
Fonte: Editora “Apenas Livros”, Direcção de Ana Paula Guimarães e Revisão de Luís Filipe Coelho

“Freguesia do concelho de Tabuaço desde 1855, tendo pertencido anteriormente ao concelho de S. Cosmado integrado na comarca de Armamar, distrito de Viseu, bispado de Lamego, a Granja do Tedo que, segundo um recenseamento, de 1828, possuía 106 fogos e 380 indivíduos, gozou até 1836 das liberdades municipais inerentes ao estatuto de concelho.
O facto explicará porventura a relativa proeminência de que terá gozado e que parece poder deduzir-se da presença de um mestre-régio de primeiras letras no local, pelo menos desde os anos 30 do século passado.
Tal como a cosmogonia pregada pela profetiza, nos rituais do movimento conjugam-se influências cristãs e católicas com práticas de difícil identificação.
Mais do que na cosmogonia, essas práticas parecem ser muitas vezes uma paródia dos rituais católicos.
De notar primeiramente o papel central desempenhado pela casa da profetiza. Lugar privilegiado que é aliás visto como um cometimento divino. De facto, segundo Maria Coroada, a sua casa seria "a nova arca da Aliança" donde haveria de sair "a luz do novo mundo".
Espaço de representação da transformação do mundo, a casa tinha diferentes espaços atribuídos a este fim: a sala principal era o lugar onde decorriam todas as cerimónias religiosas e uma outra sala, onde estava pintado o rio Jordão, um local de iniciação onde os adeptos eram baptizados.
Na sala principal era oficiada a missa com os ouvintes voltados de costas para o oficiante e a comunhão ministrada sob a forma de gomos de laranja. Orações como o Pai-Nosso, a Avé-Maria e as ladainhas eram mantidas, mas o seu conteúdo transformado. No caso das ladainhas, por exemplo, a invocação dos nomes dos santos era substituída pela invocação de nomes de plantas.
A música e a dança acompanhavam todos os rituais do movimento. As autoridades que o reprimiram acusaram ainda os seus adeptos de se entregarem a práticas imorais, nomeadamente ao nudismo.
Maria Coroada chamou também a si o ministério de outros sacramentos. O casamento e o baptismo eram oficiados por ela e, tudo indica que, durante os anos que o movimento durou, ela tenha realmente destronado o padre da freguesia nas suas actividades paroquiais.
Uma das acusações que contra ela proferiram Pinho Leal e o Abade de Miragaia tem a ver com o facto de se ter permitido anular muitos casamentos canónicos celebrados, instituindo novas alianças matrimoniais. Esta "desordem nas famílias" teria atingido também a sua própria.
Descritos sinteticamente as crenças e rituais do movimento, resta-nos agora caracterizar o conteúdo da sua mensagem político-social. Se pensarmos nos numerosos exemplos de movimentos messiânicos medievais, modernos e contemporâneos, a existência duma mensagem deste tipo não constitui surpresa. De realçar, porém, porque parece ser menos habitual, pelo menos na época contemporânea, o facto de o movimento ter expressado uma mensagem político-social progressiva que nunca em nenhum momento se confunde com a defesa de referências tradicionais ou com qualquer forma de idealização do passado.
De facto, a crítica às hierarquias sociais tradicionais e à própria monarquia são contundentes.
A preconização do ensino feminino gratuito constitui um dos múltiplos aspectos em que no discurso do movimento se valoriza a imagem da mulher.
As pregações de Maria Coroada revelam ainda uma preocupação fundamental com os desvalidos da sociedade, os pobres, os inválidos, os velhos, os órfãos e as viúvas.
O relevo que é dado a esta questão parece indicar a crise de assistência pública resultante da extinção recente das ordens religiosas. À sua resolução se liga o essencial das propostas utópicas do movimento.
Neste sentido, preconiza-se a edificação duma espécie de asilos, primeiro custeados pelos membros de direito da Comunidade que são os lavradores e, mais tarde, auto-subsistentes. A fundação destes estabelecimentos iria permitir ainda aos lavradores expiarem o único crime que lhes era atribuível; o crime de "tirar marcos".
Fonte: Maria Fátima Sá e Melo Ferreira

segunda-feira, 12 de março de 2018

(Continuação 2)



O eclipse de 1912 no Porto foi apenas parcial, mas, em Milhundos, Penafiel, ele foi total. A comunidade científica escolheria, como num outro eclipse ocorrido anos antes em 1900, para a sua observação, a vila de Ovar.

“O eclipse solar de 17 de Abril de 1912 podia ser visto no norte do País pelo que acorreram ao Porto vários astrónomos estrangeiros como Ross, Blackline e James Wortvington. O fenómeno, que na cidade do Porto foi apenas parcial, iniciou-se às 10:00h, atingiu o máximo às 11:25h e terminou às 13h. O eclipse total pôde ser observado em Milhundos, concelho de Penafiel, onde se concentraram muitos curiosos e astrónomos amadores e profissionais. O astrónomo Francisco Miranda da Costa Lobo, professor da Faculdade de Ciências de Coimbra, preferiu fazer as suas observações em Ovar e usou um registo fotográfico (com uma câmara especial colocada à sua disposição pelo Sr. Sallet) e outro cinematográfico (com um cinematógrafo emprestado por Carlos Ferrão e operado pelo tenente Negrão de Lima, “distinto amador portuense”). Depois desta façanha, Costa Lobo passou a ter um lugar de vanguarda do cinema astronómico a nível internacional...Conforme se pode ler no Tripeiro, de Abril de 1962, ao recordar acontecimentos ocorridos 50 anos antes, “os vidreiros portuenses fizeram grande negócio com a venda de milhares de vidros fumados, e, mau grado todas as fases do eclipse terem sido previamente anunciadas e explicadas, muita gente se assustou até ao pânico no momento em que, tendo o fenómeno atingido o seu zénite, a luz começou a desaparecer gradualmente e, já a cidade envolta em crepúsculo, a própria passarada começou a recolher aos ninhos…”
Fonte: oholoscopio.blogspot

“No dia 17 de abril de 1912 três expedições estrangeiras – uma russa, uma francesa e uma inglesa – e uma nacional, a da Universidade de Coimbra, encontravam-se em Ovar, ou na sua vizinhança, para observar o invulgar eclipse solar que iria ocorrer naquele dia. Este acontecimento não gerou, no entanto, o entusiasmo provocado pelo eclipse solar observado em 28 de maio de 1900. Nessa altura, muitos curiosos, entre os quais se contavam os príncipes reais D. Luís Filipe e D. Manuel, deslocaram-se a Ovar para assistir ao fenómeno. Um resultado devido, na nossa opinião, às diferentes características dos dois eclipses…
Segundo o Comércio do Porto no dia 17 de Abril de 1912:
“ [...] .o tenente snr. Nogueira Ferrão, habilissimo photographo-amador e que ultimamente se tem dedicado, com muito exito, á cinematographia, socio da União Cinematographica Limitada de que faz parte o Jardim Passos Manoel, esteve hontem em Ovar, adaptando o apparelho cinematographico ao telescopio da Universidade, com a auctorização e de combinação com o illustre dr. Costa Lobo. Assim, cinematographou todas as phases do eclipse.”

 Filmagem durante o eclipse de 1912



A câmara de filmar pode ser vista do lado esquerdo da fotografia. Costa Lobo encontra-se por detrás do teodolito com um chapéu de coco…Costa Lobo concluiu então que o eclipse foi total na direção do movimento da Lua, e anular na direção perpendicular, ou seja, que a Lua possuía um achatamento similar ao da Terra. Estimou ainda uma diferença de alguns quilómetros entre os raios equatorial e polar da Lua. Este resultado foi, na altura, completamente inesperado, e Costa Lobo apressou-se a comunicá-lo à Academia de Ciências de Paris. Inicialmente a interpretação de Costa Lobo foi apoiada por outros observadores, entre os quais o padre Fernand Willaert, que tinha igualmente cinematografado o eclipse em Namur, na Bélgica. No entanto, após alguns meses, a comunidade internacional preteriu-a a favor da explicação de que a assimetria observada era um resultado da irregularidade do limbo lunar. Apesar de, na altura, os dados disponíveis não terem permitido optar categoricamente entre ambas as hipóteses, hoje sabe-se que a Lua possui um pequeno achatamento”.
Fonte: artigosjornaljoaosemana.blogspot

Eclipse de 1912 em Ovar

Eclipse de 1912 em Ovar - Ed. Aurélio da Paz dos Reis

quinta-feira, 8 de março de 2018

(Continuação 1)


Balonismo - Viagem aerostática em 1820 e lenda do Menino de Ouro


Em 25 de Junho de 1820 Eugénio Robertson, fez uma subida em balão, “uma geringonça movida a fogo” com 21 pés de diâmetro, na Quinta do Prado, pertencente ao Bispo do Porto, onde mais tarde surgiria o cemitério do Prado do Repouso. A data foi escolhida para comemorar o S. João, em honra de D. João VI.
Mr. Robertson, filho, relatava essa viagem aerostática.

“… principiou às três horas o trabalho necessário para a formação do gás hidrogénio, e às 5 horas a máquina, inteiramente cheia esperava o Aeronauta.
Tendo o Professor Robertson pai, recebido em Lisboa as mais lisonjeiras provas de geral satisfação em todas as suas experiências, que tiveram um feliz sucesso, julgou que não devia deixar Portugal sem oferecer à cidade do Porto o raro espectáculo de uma viagem aerostática. Todas as pessoas eruditas, que se achavam na mesma cidade empenhar-se-ão em favorecer uma subscrição para este objecto: anunciando-se esta experiência para o domingo 25 de Junho, e sendo destinada para celebrar-se a festa do nome de S.M. Fidelíssima Rei do Reino Unido foi desempenhada felizmente no dia referido na bela Quinta do Prado, que pertence ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo do Porto.
A chuva, que desde as dez horas até ao meio dia caiu repetidas vezes, fez recear que a experiência fosse diferida; mas ao depois, serenando a atmosfera, Mr. Robertson principiou às três horas o trabalho necessário para a formação do gás hidrogénio, e às 5 horas a máquina, inteiramente cheia esperava o Aeronauta.
O Professor Robertson tinha prometido a sua sobrinha, a esposa do jovem Malabar, o prazer de a deixar elevar-se, estando a barquinha presa por uma corda; por isso antes da partida de Mr. Eugénio Robertson, ela subiu a certa altura. Esta jovem, desejando há muito tempo fazer uma viagem aerostática, tinha escondido um canivete, e uma carta no seu lenço, e intentava cortar as prisões, que a retinham: apenas o seu intento foi descoberto por Mr. Eugénio Robertson, que se assustou, e não queria ceder o seu lugar a pessoa alguma, lançou mão rapidamente da corda principal e conduziu o balão até ao recinto. Então esta Dama cheia de coragem saiu da barquinha e Mr. Eugénio Robertson, substituindo o seu lugar, sustentando-se em pé, e tendo na mão a bandeira portuguesa elevou-se majestosamente às 5 horas e meia bradando: ”Viva El-Rei; Viva D. João VI”; e, lançando várias peças de versos em honra da Nação Portuguesa, análogas a tão brilhante circunstância.
Elevando-se o balão, o quadro que se desenvolvia debaixo dos pés do aeronauta tornava-se mais interessante; pois que o Douro, correndo ao longe, já parecia esconder-se por entre as montanhas, já descobrir-se de momentos a momentos. O viajante por uma parte via o Porto como num pequeno quadro; mas sem perder a menor circunstância, por outra parte divisava ao longe verdes florestas, deliciosos jardins, e campos cercados de parreiras que atraíam e encantavam seus olhos, e qual uma serpente, que dá tortuosas voltas para entrar na sua cova, assim o Rio Ave parecia dirigir-se para o mar.
O objecto mais tocante, que o aeronauta observou nesta viagem, foi a vista de mar, que brilhava debaixo de seus pés, e lhe parecia incendiado por todos os lados, efeito da reflexão do Sol que se ocultava no horizonte, e que sem dúvida foi a causa do viajante não sentir na altura a que se remontou o frio activo, que de ordinário se experimenta.
Mr. Eugénio Robertson viu certa poeira, que se levantava da terra, e julgando serem cavaleiros, que vinham ao seu encontro, tomou o óculo para melhor observar; mas era simplesmente o declive de alguns montes de terra argilosa, feridos pelos raios do sol que já declinava.
O Aeronauta, depois de ter subido em meia hora a uma grande altura, e achando-se por cima de uma floresta, escolheu um sítio sem árvores, e apto para findar a sua viagem; ele o conseguiu descendo tranquilamente perto da freguesia de Ferreiro um lugar além do Rio Ave, distante uma légua de Vila do Conde, e 5 léguas do Porto. As primeiras pessoas que apareceram no momento em que tocou a terra o nosso viajante, foram dois caçadores, que presenciaram as duas ascensões, que fez em Lisboa; depois chegou a cavalo o Ajudante das Milícias de Vila do Conde, Lima, que tendo descoberto o aeróstato da varanda da casa do seu Tenente Coronel se dirigiu com ele para o sítio, em que lhes parecia cair o balão.
O Viajante recebeu dos mesmos Senhores todos os socorros possíveis, e os maiores testemunhos de estima; e, depois de ter pernoitado em casa do Ilustríssimo Major das Ordenanças em Bagunte, para onde o conduziu seu Filho o Ilustríssimo Tenente Coronel António Luiz, entrou no Porto no dia 26 quase ao meio dia, recebendo em todos os lugares por onde passou imensas provas de grande satisfação, e os aplausos que sempre costuma excitar em toda a parte esta rara e maravilhosa experiência.
Reinou por toda a parte a maior ordem e harmonia em tão imenso concurso, efeito das sábias ordens que foram dadas pelo Ilustríssimo Desembargador Encarregado da Polícia, e pelo Ilustríssimo e Excelentíssimo Tenente General, Governador das Armas.
– A tranquilidade, o contentamento, e a boa ordem que resplandeciam por toda a parte, e esta experiência feita em tais circunstâncias, parecia terem tornado este espectáculo uma verdadeira festa.
No mesmo dia da viagem o público à noite deu provas da afeição que tinha ao jovem aeronauta, mostrando apenas acabou o teatro a sua impaciência, e o desejo de tornar a vê-lo; porém, não lhe foi possível voltar na referida noite ao mesmo teatro, como tencionava, para cumprimentar a tão respeitável reunião, e mostrar-lhe a sua eterna gratidão.
NOTA: Mr. Eugénio Robertson pela observação do barómetro avaliou a sua altura num quarto de légua no momento da maior elevação."
In Gazeta de Lisboa n.º 161, 10/Julho/1820

As subidas aos ares continuaram durante o século XIX.
Em 1884, Emile Castenet, balonista já conhecido no Porto por anteriores ascensões, decidiu subir no seu balão “Portuense” com um burro amarrado à barquinha.


“O Portuense”

O Primeiro de Janeiro de 25 de Março trazia um testemunho desta aventura contada pelo próprio Emile Castenet:

“Aproximadamente à altura de 800 metros fendi as nuvens e por cima d'ellas me conservei, subindo à altura de 1.400 metros. Emergindo das nuvens, deparei com um espectáculo surprehendente - um sol esplêndido, brilhante, quente, irradiante, dando às nuvens a configuração de um mar de prata, accidentado de vagas. Por de cima d’esse mar a sombra do balão, contornando-se nitidamente. 
Obra ahi de 1.600 metros d'altura, mudou o balão de rumo, em direcção a Espinho. O aeróstato subia sempre, rapidamente chegando a attingir uma altura de 2.000 metros. Tentei descer por três vezes, mas inutilmente. O balão não obedecia porque o gaz que eu expellia pela válvula, era substituído pela dilatação que ficava. Subindo a uma altura de 2.000 metros, forcejei descer pela quarta vez, o que consegui abrindo de todo a válvula. A 2.000 metros d'altura tomei a direcção 0 e a 1.500 o primitivo rumo.
A 700 metros avistei terra. A descida operava-se com uma extraordinária velocidade quando me encontrei sobre um extenso pinheiral. A fim de evitar a queda na matta, descarreguei o ultimo sacco de areia e assim pude manter-me á mesma altura. Pouco depois d'alguns minutos de marcha, avistei uma ampla campina. N'estes comenos icei o burrico paro a barquinha e procurei arpoar a terra, lançando ancora mas não dava em terra firme. N'isto o balão a poucos metros d'altura do solo, esbarrou n'um pinheiral e a barquinha ficou ahi presa. O aeróstato estacou, inclinou-se sobre a franja dos pinheiros, mas súbito levantou-se, rompeu para o alto chegando a barquinha a despedaçar os ramos a que se tinha enleado. 
Por effeito do impulso violento do balão, a cesta tombou e eu encontrei-me de cabeça para baixo agarrado ás cordas. N'esta situação o burro cahiu na mesma posição que levava quando sahiu do Palácio. O balão com o impulso do vento foi bater n'outro pinheiral. A barquinha ia batendo d’árvore em árvore, e eu para evitar qualquer desastre conservava-me de cócaras, agarrado às cordas. A corda da ancora despedaçava os ramos das árvores, o gaz evadia-se e a corda a que ia ligado o burro prendeu-se a um ramo, e como as forças do balão se extinguissem, foi bastante a demora para que acudissem os lavradores, puxando a corda da ancora e conseguindo por ultimo suspender o balão. 
Desci às quatro horas e meia em Cavadas, freguezia de Pijeiros, concelho de Villa da Feira. Recebi os máximos cuidados das pessoas que me cercaram. Ahi me foi servido este petisco "um tracanaz de broa e vinho" que me soube extraordinariamente, pela muita fome que me devorava. O balão ficou um tanto estragado. Metti-me n'um carro de bois e cheguei às duas horas da manhã ao Alto da Bandeira. Querendo vir para a cidade, oppoz-se a isso um conductor de carros, dizendo que áquella hora não podia atravessar a ponte. Fiquei pois, dentro do carro, debaixo d'um alpendre, vestido apenas com a roupa com que subi. Ás cinco da manhã, encaminhei-me para a cidade, chegando aqui (ao Porto) ás 6 horas. Penaliza-me a sorte do burro”.

O sucesso, o entusiasmo e a moda da subida em balão apossou-se do Porto e alguns corajosos e extravagantes decidiram também entrar nessa “corrida”. Os lugares preferidos para as subidas eram o Palácio de Cristal, e as praças de touros da Serra do Pilar e da Rua da Alegria.

Placa comemorativa afixada numa parede dos jardins do Palácio de Cristal

Em 1903 o francês Emile Carton acedeu a levar consigo, no seu balão Mariposa, um entusiasta do balonismo, tendo-lhe dado noções de como dirigir o balão. Era o farmacêutico gaiense Belchior Fernandes da Fonseca. A “paixão” foi tal que convenceu o seu amigo a vender-lho, tendo tido a contribuição dos seus parceiros César Marques dos Santos e engº. José António de Almeida. Deram-lhe o nome de “Lusitano”.


O balão Lusitano no Palácio de Cristal junto da Concha Acústica

Com a presença de multidões subiram 3 vezes, tendo terminado o voo em diferentes lugares. O Belchior, muito senhor de si, afirmava já ter conhecimentos suficientes para mais ascensões. 
Tendo sido prevenido por Franz Burmester do perigo de ser levado, por ventos em altitude, para o mar, não levou em consideração tais avisos, afirmando mesmo “considero estes ares como meus”. Marcou uma nova ascensão para 21 de Novembro de 1903 em que embarcaram os seus sócios. Tendo subido muito correctamente, dirigiu-se para Sul. Sobre Vila Nova de Gaia, repentinamente virou a oeste, desaparecendo sobre o Atlântico. Ainda foram enviados vários barcos em seu socorro, mas nunca mais os seus corpos foram encontrados.

Os 3 tripulantes do Lusitano-Ed. Semanário ilustrado, nº 49, de 29 de Novembro de 1903


Esta tragédia foi, durante muito tempo, motivo de conversa e de notícias nos jornais do Porto. Havia quem comparasse os três desaparecidos a D. Sebastião, pois muitas vezes corria o boato que alguém os tinha visto ou sabia onde se encontravam. Os ceguinhos, à porta do mercado do Anjo, cantavam, em voz triste, as quadras do Fado do Belchior!
Entretanto, o pai de César Marques dos Santos estipularia um prémio equivalente ao peso em ouro do seu filho, a atribuir a alguém que lhe trouxesse notícias dele, advindo daí a lenda do menino de ouro, nome que seria dado também à quinta da família em V. N. de Gaia, que passou a ser conhecida por Quinta do Menino de Ouro, antes chamada Quinta da Chamorra na freguesia de Vilar do Paraíso e que, ficou também conhecida, por ter uma alta torre de estilo gótico, levantada na transição dos século XIX para XX.


“Ainda a terra gaiense estava mergulhada na maior dor, pela perda no mar de três dos seus filhos aeronautas, em 21 de Novembro de 1903, e já outro gaiense, nascido no Candal e serralheiro de profissão, se preparava para o seu “baptismo” de voo em aeróstato. Trata-se de António Bernardes, conhecido pela alcunha de “Ferramenta”, o homem que acompanhou as ascensões de Emilie Carton, no Porto e que era assíduo frequentador das tertúlias aeronáuticas na farmácia do Belchior, na Rua Direita de Vila Nova de Gaia. 
Também o “Ferramenta” aspirava construir um balão e ascender nele e nem a tragédia do desaparecimento do “Lusitano” o demoveu da sua paixão. António Bernardes construiu o seu balão que denominou de “O Português”, com uma capacidade para 1 200 metros cúbicos, que poderia elevar-se com o peso bruto de 800 Kg e marcou a sua primeira ascensão para o dia 3 de Abril de 1904 nos jardins do palácio de Cristal. No dia aprazado o balão foi conduzido ao Palácio, em dois carros de bois, com a filarmónica a abrir caminho. Quando se ensaiava a ascensão o governador civil, temendo o pior, proibiu a subida. No entanto o “Ferramenta” cortou as cordas e o balão depois de roçar nas tílias subiu mesmo, perante os aplausos do público. Andou quatro horas pelo ar e foi pousar num campo, em S. Cosme, no concelho de Gondomar. 
Em Setembro de 1904 o governador civil do Porto negou aos aeronautas “Ferramenta” e Magalhães Costa autorização para nova ascensão. 
Entretanto Ferramenta construiu um novo balão, o “Nacional”, com 22 metros de comprimento e capacidade para 800 m3 de gás o qual foi exposto na Praça de Touros da Serra do Pilar. Nele fez uma primeira ascensão em Lisboa, na Praça de Algés, com uma subida pouco feliz. Repetiu depois no Jardim Zoológico de Lisboa, perante a assistência entusiástica de milhares de pessoas e foi pousar próximo de Santo António da Charneca, depois de ter subido a grande altura e de ter pairado no ar durante bastante tempo. 
Transcrevemos a notícia dada pelo jornal “A Defesa”, do Candal, na sua edição de 5 de Abril de 1905, que seguia de perto o percurso do seu conterrâneo. 
De seguida partiu para o Brasil onde fez subidas em S. Paulo, Pernambuco, Pará e Rio de Janeiro mobilizando grande entusiasmo junto da comunidade portuguesa que o aplaudiu como um herói. 
Depois deste périplo regressou a Gaia, em 1906, cheio de dinheiro e fama. Reuniu enormes apoios para a construção de um aparelho mais sofisticado tendo partido para Paris onde desenvolveu um balão que baptizou com o nome de “Internacional”. Com ele fez uma série de ascensões, com o maior êxito, no Porto, em Lisboa e na Figueira da Foz. 
Em Julho de 1906 realizou na Praça de Toiros da Rua da Alegria, perante uma multidão de mais de 15 000 pessoas, a 24ª. ascensão.
…Em Julho de 1907 quando o “Ferramenta” juntamente com os barqueiros Alfredo “Bóia” e Augusto “Intruja” e auxiliado pelos seus amigos Alfredo Pinheiro da Rocha, Carlos Saraiva e Manuel Fonseca “Carne Seca”, procediam ao enchimento do seu “Aero-Móvel”, deu-se uma inesperada fuga de gás que provocou uma intoxicação que os deixou a todos em estado grave. Este acidente foi fatal para António Bernardes “Ferramenta” que não resistiu aos gases mortíferos e sucumbiu, depois de ter efectuado, com êxito, nada menos que 31 ascensões”. 
In blogue Memórias Gaienses 


Anúncio de espectáculo de balonismo