quarta-feira, 31 de maio de 2017

(Continuação 3) - Actualização em 28/06/2018 e 08/03/2019


“Foi um bis­po que convidou os dominicanos a instalarem-se no Porto mas, menos de um ano depois de os ter convidado, já estava contra a instalação dos frades na cidade, chegando a embargar-lhes as obras para a construção do mosteiro.
No primeiro quartel do século XIII o Porto era uma cidade onde livremente campeava o crime. A população vivia, indiferente à dou­trina da Igreja. Dizem as crónicas que "andavam levantados infinitos salteado­res sem temor de Deus nem respeito pe­los homens". Assaltavam-se casas, roubava-se à luz do dia, "matava-se à espa­da".
Foi, pois, na louvável tentativa de pôr termo a tantos abusos e delinquências que o bispo D. Pedro Salvadores, que che­gara ao Porto em 1236, solicitou aos do­minicanos que se instalassem nesta cida­de.
Os frades da Ordem de S. Domingos eram pregadores, homens da oratória, go­zavam da fama de, com os seus sermões, serem altamente influenciáveis junto das populações. Era exatamente o que pre­tendia D. Pedro Salvadores: que com a sua palavra os dominicanos conseguissem "inflamar no amor de Deus aqueles que a malícia do pecado trazia enregelados e amortecidos ". 
Para a instalação dos frades, o bispo do Porto ofereceu-lhes, ali para as bandas das Congostas, hoje Rua de Sousa Viterbo, uma igreja já sagrada, bem como "uma morada de casas edificadas em quadro a modo de claustro, com terra bastante para oficinas e hortas". 
O mosteiro começou a ser construído em 1238. Em março deste ano, D. Pedro Salvadores publicou uma proclamação à cidade rogando aos seus habitantes no sentido de que, "em remissão dos seus pe­cados", auxiliassem os frades na constru­ção do mosteiro de que tanto careciam. 
Aconteceu, porém, que o clero regular da cidade, ou seja, os párocos, reitores e capelães não aceitaram de boamente os favores dispensados pelo prelado aos do­minicanos. Nesta atitude estaria, suge­rem os cronistas da época, uma pontinha de inveja uma vez que os frades com os seus dotes oratórios estavam a conseguir atrair a maior parte dos fiéis à sua igreja e através dessa adesão, digamos assim, os dominicanos começavam a arrecadar pin­gues rendas, avultadas esmolas e muitos legados. O bichinho da inveja atingiu o próprio bispo que, numa brusca e inespe­rada mudança de atitude, mandou em­bargar as obras da construção do mostei­ro ao mesmo tempo que ordenava aos fra­des que, no seu bispado, "não pregassem, nem confessassem, nem celebrassem missa, nem fizessem outro qualquer ofí­cio divino".
É evidente que os dominicanos reagi­ram à atitude do bispo do Porto, solicitan­do, inclusive, a mediação do Vaticano. Fosse pelo que fosse, a verdade é que pou­co mais de um ano depois da posição des­favorável que havia tomado em relação aos frades, D. Pedro Salvadores repensou a sua atitude, os frades voltaram a ter au­torização para pregar e as obras de cons­trução do mosteiro prosseguiram a bom ritmo. Tanto que em 1245 estava o con­vento concluído. 
Mas que razões terão levado D. Pedro Salvadores a mudar de ideia em relação à presença dos dominicanos no Porto? Di­zem que foi uma inesperada intervenção da rainha Santa Mafalda, que doou ao pre­lado do Porto a igreja de Santa Cruz de Ri­ba Leça, hoje conhecida por Santa Cruz do Bispo, «para o compensar de terrenos cedidos e também de prejuízos eventual­mente suportados». Aquela rainha disse mais: que fazia aquela doação «por remé­dio da minha alma e por fazer favor aos padres pregadores que moram na cidade do Porto, com consentimento do bispo e do cabido da mesma cidade» e ainda «em compensação de algum gravame (ofensa) que a dita igreja tenha recebido dos pa­dres pregadores que aí moram».”
Com a devida vénia a Germano Silva


A Rainha Santa referida no texto anterior é D. Mafalda, a filha preferida de D. Sancho I e uma das irmãs de D. Afonso II.
D. Mafalda teria então conseguido que o bispo libertasse a autorização para que os dominicanos continuassem a construção do seu convento, doando ao prelado a igreja de Santa Cruz de Riba Leça e área anexa, situado em Bouças.
Tendo vivido D. Mafalda no convento de Arouca, veio a morrer no convento de Rio Tinto aos 90 anos por doença, aquando de uma sua visita em peregrinação ao Porto, diz-se em veneração à Nossa Senhora da Silva, com culto na Sé do Porto, onde deixava enormes oferendas.
D. Mafalda Sanches era filha de D. Sancho I de Portugal e de D. Dulce de Aragão, tendo recebido em herança o nome da sua avó, a rainha Mafalda de Sabóia, mulher de D. Afonso Henriques. Não se sabe ao certo o ano do seu nascimento, mas, por se tratar de um dos filhos mais novos de Sancho I e de Dulce de Aragão, aponta-se os anos de 1195 ou 1196. Como local de nascimento é referido Amarante. Como sua mãe morre quando tinha ainda tenra idade, Mafalda foi educada em terras de Penafiel, por D. Urraca Viegas, filha de Egas Moniz e Teresa Afonso.
D. Sancho I conhecia perfeitamente esta família nobre, em virtude de Egas Moniz ter sido o aio de seu pai, D. Afonso Henriques, e a mulher de Egas Moniz, já viúva, ter criado os príncipes do nosso primeiro rei.
Por morte de Sancho I, Mafalda herdaria um imenso património que se encontrava disperso por todo o reino, incluindo-se Marco de Canavezes, Lamego, Arouca, Seia e ainda, a região do Vale do Sousa.
Do seu pai tinha já recebido, ainda recém-nascida, o Mosteiro de Bouças (hoje Matosinhos).


Entrada do Mosteiro de Bouças (em ruínas)

Após a morte do seu progenitor, em Março de 1211, D. Mafalda recebeu o mosteiro de Arouca e quando faleceu a sua mãe, sem ter feito testamento, as propriedades da rainha defunta passaram para três das suas seis filhas: Teresa, Sancha e Mafalda.
Em 1230, D. Mafalda a exemplo do que tinha feito com o mosteiro de Arouca, com a autorização do bispo de Lamego, voltou-se para o mosteiro beneditino de Bouças e transformou-o, também, numa comunidade Cisterciense.
Diga-se que relativamente a Bouças, mais tarde e após litígio (mediado pelo Papa) com o seu irmão D. Afonso II, viria a perder para o reino a posse de Bouças, que entretanto tinha sido dada anteriormente em doação, à Ordem do Hospital.


Convento de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus do Porto e Igreja dos Terceiros - Gravura de Vilanova em 1833

O Convento de S. Domingos, no desenho acima, de Joaquim Villanova, visto do Largo de S. Domingos, foi construído entre 1239 e 1245, em estilo gótico primário, mas esta situação alterou-se devido às sucessivas obras e também reconstruções de que foi alvo na sequência dos quatro incêndios que o atingiram entre 1357, 1523, 1778 e 1832.
A igreja da gravura era da Ordem Terceira de S. Domingos.
Sobre esta igreja o texto seguinte, que é uma peça de alguém ligado certamente à Ordem Terceira e que foi publicado num periódico em 20 de Dezembro de 1821:

“…Nesta cidade, sendo Bispo della D. Pedro Salvador, fundou El-Rei D. Sancho II, no ano de 1243, o convento da Ordem dos Prégadores (vulgo Dominicos): no de 1671 instituio-se, por Bulla Apostolica, huma Ordem Terceira na Igreja destes Religiosos, que designaram aos Irmaõs della um altar no arco cruzeiro para alli mandarem celebrar os officios divinos; do qual se serviram por espaço de alguns annos: mas como o numero de Irmaõs se fosse augmentando, destinaram-se estes apartarem-se daquelles Religiosos, e edificarem huma Capella separada; para o que lhes emprazaram hum pouco de terreno, como consta por escritura publica de 26 de Outubro de 1683; concluindo-se a feitura do edificio no anno seguinte de 1684. Cresceram todavia os fundos da Ordem na razaõ da entrada de mais Irmaõs, pelo que resolveram tornar a Capella em Igreja, tendo já em 25 de Agosto de 1683 emprazado ao Senado da Camara a extensaõ de 85 palmos de comprido e 43 de largo, compraram depois, em 5 de Outubro de 1689, três moradas de casas ao Padre Joaõ dos Anjos, que se demoliram para dar mais ambito ao logar do edificio; e accrescentaram-lhe tambem 14 palmos de terra que Sua Magestade foi servido conceder-lhes por Provisaõ de 5 de Dezembro de 1715. Em todo este espaço de terreno edificaram a Igreja, de cuja posse estiveram desde o anno de 1740 até o 1.º de Outubro de 1755…
…Neste espaçado intervallo de tempo residio a Ordem Terceira na Capella da Senhora da Batalha, desde o 1.º de Outubro de 1755 até 1786, que se mudou para a Capella do Senhor do Calvario, sita na Cordoaria velha. Destinaram fazer ahi huma Igreja; daõ começo á obra, mas logo os Frades Capuchos, que tinham hum Hospicio junto della, a embargam; pretextando que naõ queriam sua casa assombrada! Os Terceiros, enfastiados de tantos empecilhos fradescos, deliberaram-se a edificar a Igreja longe de similhantes pragas. Escolheram o sitio da Praça do Laranjal; e no anno de 1804 se transferiram para alli, onde permanecem n'huma pequena Capella, em quanto se naõ finalisa o magnifico e sumptuoso Templo em que se trabalha”.


Ao lado da Igreja vemos no desenho de Vilanova um edifício que deve ser a famosa "Casa do Patim". 
No extremo esquerdo da imagem situavam-se dois edifícios de habitação, ambos propriedade do mesmo convento e que, por razões talvez de estética, não aparecem na gravura.
Estes edifícios eram conhecidos como as "casas do cantinho" em 1866, altura em que o governo já mandara demolir a parte arruinada do convento mas, ainda não o fizera em relação a estes últimos, atrasando assim a abertura da Rua Nova de S. Domingos (actual Sousa Viterbo). 
A propósito da época do desenho de Villanova em 1833, note-se que, as lojas estavam arrendadas pelos frades a diversos tipos de comércio e eles dormiam no segundo andar (é que naquele tempo, ao contrário da actualidade o edifício estava dividido em mais do que rés-do-chão e primeiro andar, o que aliás se pode constatar olhando com atenção ao desenho).
A entrada para o convento fazia-se pelas 3 primeiras arcadas do lado encostado à Igreja (veja-se o gradeamento de ferro em todas elas). Na do meio ficava a escadaria íngreme que levava ao piso superior.
 Ao lado da Igreja vemos no desenho de Vilanova, um edifício que deve ser a famosa "Casa do Patim". 
No extremo esquerdo da imagem situavam-se dois edifícios de habitação, ambos propriedade do mesmo convento e que, por razões talvez de estética, não aparecem na gravura.
Estes edifícios eram conhecidos como as "casas do cantinho" em 1866, altura em que o governo já mandara demolir a parte arruinada do convento mas, ainda não o fizera em relação a estes últimos, atrasando assim a abertura da Rua Nova de S. Domingos (Sousa Viterbo, após 1913).
Essas casas encontravam-se no local onde existira o lado norte do transepto da igreja dominicana e também a sacristia de uma antiga capela da mesma igreja (pertencente aos Baldaias).
Sobre o largo fronteiro ao convento, escreve Sousa Viterbo no Jornal do Comércio:

“Ao centro ornava-o um chafariz, que foi demolido, construindo-se, em seu lugar, uma fonte ao lado, em arco, sob umas casas do Sr. Araújo, que tem loja de papel, o mais antigo estabelecimento deste local. Na casa que confina com esta, ao canto, havia uma loja de droguista, de que era proprietário um sujeitinho magro, bom homem, Manoel António Figueira, apaixonado amador de livros, que competia com os mais afamados bibliófilos portuenses, o Souza Guimarães, o Vieira Pinto, o Carlos Lopes e o visconde de Azevedo (…).
Contíguo com o extinto convento dos frades, que deram o nome ao largo, havia uns prédios que foram demolidos para abertura de uma rua e que formavam um dos mais afamados recantos do sítio. Era ali a loja do «capitão do cantinho». Às vezes, à porta, em manhãs estivas, sentava-se a tomar o refresco o Lobo da Reboleira, um dos mais curiosos e excêntricos tipos de ricaço portuense. Rico e avaro. Era todavia dotado de certa ilustração e perspicácia natural”.
Fonte: “aportanobre.blogspot.pt”

A Igreja primitiva do convento (que não é a que está na gravura acima) era por trás do edifício que se vê à época, já reduzida a escombros, na foto abaixo c, 1865, depois de no ano anterior as tropas de D. Miguel terem bombardeado o convento e pegado fogo a um armazém de linho alojado dentro da igreja.

Igreja primitiva em ruínas com a sua torre sineira, em primeiro plano – Fonte: “aportanobre.blogspot.pt”


A ÁGUA DO BOM JESUS


No início do século XV, documentos referem que no mosteiro de S. Domingos funcionava uma confraria do “Senhor Jesus da Cidade".
A imagem do Senhor Jesus da Cidade tinha fama de milagreira, bem como uma água que os dominicanos benziam e depois vendiam aos fiéis.
Consta também dos mesmos documentos que a piedade popular atribuía surpreendentes milagres à imagem do Senhor Jesus da Cidade e a uma água que os dominicanos benziam e depois vendiam aos fiéis. Pelos vistos, os devotos da santa imagem encontravam nessa água o remédio para todos os males do corpo. As dádivas e esmolas aumentavam sem cessar e seria com esse dinheiro que, em 1565, sendo mordomos da confraria os cidadãos Pero Jácome de Bettencourt e Pero Afonso, se construiu "o retábulo novo do altar onde está a imagem do Senhor Jesus da Cidade".
Convém agora saber como é que a imagem do Senhor Jesus da Cidade conquistou, se assim se pode dizer, a fidelidade dos devotos.


“ A tradição popular diz que a 17 de maio de 1574, o sacristão da igreja de S. Domingos mandou a toalha que cingia a cintura da imagem do Senhor Jesus da Cidade a casa de um devoto que vivia na Rua de Belomonte, para que a lavassem e perfumassem. Havia nessa casa uma menina, de seis para sete anos, que há muito não saía de casa por ter cegado. Uma escrava dos moradores do prédio, por indicação que recebera de uma freira do convento das Dominicanas de Vila Nova de Gaia (Corpus Christy), colocou a toalha sobre os ombros da menina de modo a que lhe tapassem os olhos, enquanto dizia: 'Senhor, assim como nos alumiastes o Mundo com as vossas preciosas chagas, alumiai e dai vista a esta menina para que vossa ver e servir com toda a devoção'".
A narrativa, que frei Luís de Sousa recorda, na "História de S. Domingos", da sua autoria, diz que o milagre aconteceu e que a menina recuperou a vista. E é aqui que entra a história da água benzida. Os frades, aproveitando-se da fama que o suposto milagre teria proporcionado ao mosteiro, trataram de começar a vender aos fiéis incautos a água por eles benzida, como sendo milagrosa e capaz de curar todos os males do corpo.
O "negócio" prosperou, sobretudo, quando, por meados do século XV, o país foi invadido por uma terrível peste, de que não escapou a cidade do Porto. Mas os exageros devem ter sido de tal monta que originaram a intervenção do próprio cabido, ou seja dos cónegos, que agiram contra o "mercantilismo" dos frades de S. Domingos, aos quais proibiram a venda da tal "água milagrosa". Os frades é que não acataram as ordens do cabido e foi pedida a intervenção de Roma que, por uma bula de Nicolau V
("Ea que judicio"), pôs termo ao negócio.”
Cortesia de Germano Silva


Manuel de Sousa Coutinho, conhecido por Frei Luís de Sousa (nascido em Santarém, em 1555, e falecido em Lisboa em 1632), acima citado, foi um sacerdote católico e escritor.


O Convento de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus do Porto vulgo convento de S. Domingos, foi extinto em 1834, após a vitória dos liberais na guerra civil do cerco do Porto, e sub-sequente extinção das ordens religiosas e, em parte do mesmo, foi então instalada a filial do Banco de Portugal, chamado anteriormente de Banco de Lisboa.
O Banco de Lisboa (futuro Banco de Portugal) começaria por ser alojado no 1º andar do edifício.
Do antigo convento, apenas foi aproveitada a fachada voltada para o Largo de S. Domingos e que tinha sido poupada pelo incêndio que ocorreu em 1832.
Foram então realizadas obras de recuperação e adaptação do edifício, tentando manter a sua forma original, tendo-se aí mantido o Banco de Portugal até 1934, altura em que foi transferido para um novo edifício, situado na Praça da Liberdade. Desde então o prédio foi ocupado pela Companhia de Seguros Douro, fundada em 1875. 
Em 1870 o Banco de Portugal operou bastantes transformações no edifício, mudando com isso a escadaria para o centro do edifício, onde ainda hoje se encontra.


Nesta planta em 1813 no cimo, estão o convento, a cerca e a igreja dos Terceiros


Planta de 1839


Na planta anterior a igreja dos Terceiros já foi sacrificada para abertura da Rua Ferreira Borges.


Planta de 1892 já com a Rua Mouzinho da Silveira

Entre a planta anterior e as que a antecedem se vê que a Rua das Congostas desapareceu para dar lugar à Rua Mouzinho da Silveira, já não existe o Convento e está construído o Mercado Ferreira Borges.
A Praça de S. Domingos tem a traça actual. Aparece a Praça do Infante, ainda sem o monumento ao Infante. A Rua de Sousa Viterbo ainda é Rua de S. Domingos.

Largo de S. Domingos com o seu chafariz - Fonte: “aportanobre.blogspot.pt”



O convento de S. Domingos foi o segundo convento de frades mendicantes a ser construído.
O primeiro foi o de S. Francisco, que de iniciativa particular originou longa contenda com o bispo e foi fundado em 1241 no sítio da Redondela próximo ao qual se abriu depois, um caminho a que foi dado o nome de Rua das Rosas e hoje é a Rua Comércio do Porto. Também já teve o topónimo de Ferraria de Baixo para a distinguir de Ferraria de Cima (Rua dos Caldeireiros).
Aliás a parte superior desta rua chegou a chamar-se Rua da Lagea ou da Lagem e Rua da Caldeiraria. Houve um tempo em que à parte infe­rior da Rua da Caldeiraria se dava o nome de Rua do Souto, provavelmente por ser o prolongamento natural daquela velhíssima rua portuense que faz ligação com a Rua Escura, depois de atravessar o Rio da Vila e passar junto aos Pelames. 



Largo de S. Domingos

Na foto anterior, a Sé ainda tem o relógio entre as torres e à direita temos o convento de S. Domingos.
Pela sua localização, pela amplitude do edifício e do respetivo claustro muitas ve­zes o convento de S. Domingos serviu de logradouro público, para a realização de im­portantes reuniões camarárias, de julga­mentos e onde se fez comércio em larga es­cala.
Era no alpendre ou casa segunda do Mosteiro dos religiosos de S. Domingos, que em tempos remotos se realizavam determinadas sessões.
Uma delas aconteceu no dia 24 do mês de Junho da era de 1428, correspondente aos Anos de Cristo de 1390. 
Atenção à data atrás referida: as reu­niões de Câmara, em que eram tomadas medidas de grande relevo para a cidade, realizavam-se sempre no dia de S. João, a festa mais importante do Porto. 
Naquele ano já a Câmara possuía casa pró­pria onde podia sem qualquer limitação realizar as suas sessões ordinárias. Só recor­ria ao adro ou claustro dos dominicanos para as reuniões plenárias (as assembleias municipais de hoje) em que participavam todos os homens bons do concelho. 
Tanto o adro, com os seus arcos formados em alpendre, situado ao lado do edifício conventual, como a igreja, foram demolidos, nada existindo agora dessas antigas construções.
Não sabemos no entanto com rigor, desde quando "no adro do convento de S. Domingos" os mercadores se concentravam para as ope­rações de comércio e que ali tinham as suas lojas.
Até ao presente, do antigo convento de S. Domingos restou, a arcada virada para o Largo de S. Domingos onde, em tempos remotos se faziam reuniões públicas, da Câmara e de comércio, e também uma bela fonte de mármore que pertenceu à sacristia da igreja e está presentemente no jardim de Marques de Oliveira (Jardim de S. Lázaro).


“Relativamente perto do local onde os mercadores tinham as suas lojas, «encos­tada ao cruzeiro do templo e perto da ca­pela de Jerusalém», num plano superior ("sita no alto") erguia-se a capela de Nos­sa Senhora das Neves, ou capela de Nossa Senhora da Escada porque por uma escada se subia até ela. O templo foi mandado construir em 1556 pelos ho­mens de negócios que operavam no claus­tro do mosteiro e que haviam tomado aquela imagem como padroeira das suas atividades comerciais. 
Os claustros dos dominicanos serviram também, muitas vezes, para reuniões de tribunais «e ali os juízes ouviam e despa­chavam as partes»”. 
Fonte: Germano Silva


Imagem da igreja da Ordem Terceira anexa a S. Domingos 


A igreja da gravura anterior era, nas últimas décadas de vida do Convento Dominicano, a sua Igreja de facto mas não fora construída para eles mas sim para a sua Ordem Terceira.
Seria destruída em 1835 por ordem de Ferreira Borges. Este pretendia alargar a rua, que veio a ter o seu nome, com a finalidade de fazer, no local do Convento de S. Francisco, a sede da Associação Comercial do Porto (Palácio da Bolsa).
Uns anos antes, em 24 de Abril de 1778, tinha sido alvo de um pavoroso incêndio que destruiu por completo o seu telhado. 


Caleches junto à Bolsa em 1880


José Ferreira Borges (Porto, 8 de Junho de 1786 — Porto, 14 de Novembro de 1838), formado em Cânones pela Universidade de Coimbra, foi um jurisconsulto, economista e político português que, entre outras funções, foi secretário da Companhia dos Vinhos do Alto Douro, membro da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino de 1820, advogado na cidade do Porto e deputado às Cortes Constituintes de 1821. Pertenceu ao Sinédrio do Porto. Foi o principal autor do primeiro Código Comercial Português, o Código Comercial Português de 1833, que ficou justamente conhecido pelo Código Ferreira Borges, a vigência do qual se prolongou por 60 anos. Exerceu também o cargo de juiz do Tribunal de Comércio de Lisboa. Foi autor de numerosas obras sobre temas económico-financeiros e políticos, entre as quais Princípios de Syntetologia (1831), Instituições de economia política (1834), Instituições de direito cambial (1844) e Do Banco de Lisboa (1827). Esteve emigrado em Londres de 1823 a 1827 e foi membro activo da Maçonaria.


Cerimónia para lançamento da estátua do Infante


Na foto acima vê-se a cerimónia do lançamento da primeira pedra para o monumento ao Infante D. Henrique em 1894.

Largo de S. Domingos - Ed. Chusseau-Flaviens

Na foto acima os futuros emigrantes com destino ao Brasil à espera de adquirir as passagens nos navios em 1910, junto da agência Orey, Antunes & C.ª, representantes de várias companhias de navegação, entre as quais como se pode ler na placa, a Konninklijke Hollandsche Lloyd e a Compagnie de Navigation Sud-Atlantique.
Ao lado a papelaria de Luiz Gonçalves d’ Araújo & C.ª.

Perspectiva actual de foto anterior - Fonte: Google Maps


Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 1881 e 1930 emigraram para o Brasil 1.070.351 portugueses, um número assombroso se tivermos em consideração que, nesse período, a população total do país andava entre os 4,5 e os 6,8 milhões de habitantes.

No Porto de Leixões, em 1913, prontos para embarcar

Largo de S. Domingos com vista para a Rua de Belomonte - Ed. A.D. Canedo


Foto actual do que foi o antigo convento

Com a extinção das ordens religiosas, os dominicanos só regressam ao Porto em 1937, com a abertura de uma casa.
Os Padres Dominicanos, desde 1937 instalados junto do Jardim do Carregal, vinham então celebrar a Eucaristia e confessar, aos Domingos, dias santos e primeiras Sextas-feiras do mês, na capela da casa do Conde de Vizela, na Rua de Serralves. E pensou-se que estavam naturalmente indicados para se incumbirem de ocorrer em melhores condições às necessidades espirituais dos novos moradores desta zona, edificando-se para tal efeito uma igreja e convento onde se fixassem. 
Em 1949, por insistência do Bispo D. Agostinho de Jesus e Sousa, a comunidade desloca-se para o Bairro Gomes da Costa e começam-se as iniciativas para a construção do actual convento. Convém referir que para a realização deste projecto contribuíram variadíssimas pessoas, onde se destacam o Fr. Estêvão Faria, então superior da comunidade, e o Prof. Dr. Luís de Pina, que obteve da Câmara Municipal o terreno onde estão o Convento, a Igreja e o Centro Paroquial. A dedicação da nova Igreja ocorreu no dia 25 de Maio de 1954, sob a presidência do D. Francisco Rendeiro. Passados pouco mais de 5 anos, no dia 25 de Outubro de 1959, é restaurado oficialmente o Convento do Porto, agora com a invocação de Cristo Rei.
Segundo o testemunho de frei Bernardo Domingues, "o desenvolvimento citadino e a actividade social e religiosa entraram em apreciável dinâmica de integrado crescimento assim como a consciência colectiva de que Cristo Rei era, de facto, uma comunidade social e religiosa com características próprias. Por isso, já em 1963, houve um movimento de leigos para que se tornasse, de facto, uma Paróquia." Facto que só viria a acontecer no dia 02 de Fevereiro de 1979, pela mão do então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Nomeou-se para primeiro pároco desta Paróquia o Fr. Eugénio Boléo, seguindo-se, alguns anos depois, o Fr. Rogério Amorim que levaria a execução o actual Centro Paroquial.

Igreja do Cristo Rei actualmente



Tentativa de abertura de convento dominicano feminino no Porto


No século XVI, uma tal Helena Carnei­ro, viúva do capitão Luís Carneiro, fidalgo da casa real, moradora na Rua Nova, actual Rua do Infante D. Henrique, pensou em mandar construir, no Porto, um mosteiro onde seriam recebidas freiras dominica­nas. 
Havia o Mosteiro de Corpus Christi, fundado em 1345, também chamado Mosteiro de São Domingos das Donas de Vila Nova de Gaia, mas estava na margem esquerda do rio Douro, em Vila Nova. 
Para concretizar o seu projeto, Helena Carneiro comprou "uns quintais" junto da capela da confraria do Espírito Santo, em Miragaia, e mandou vir madeiras da Flan­dres e comprou outros materiais para se­rem utilizados na construção. Morreu, en­tretanto, sem ter podido concretizar o seu sonho. No testamento que fez, em 1595, reco­mendou aos testamenteiros e seus herdei­ros que não descurassem aquele seu dese­jo. Mas o convento para dominicanas nun­ca foi construído no Porto.

terça-feira, 30 de maio de 2017

(Continuação 2) - Actualização em 23/05/2018

17.6 Convento de Santo Elói ou Convento dos Lóios e Casa da Moeda

Este convento foi fundado em 1490 e situava-se, onde temos hoje, o Palácio das Cardosas.
Pertencia à Ordem dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista, cujos religiosos eram reconhecidos pelos seus hábitos de cor roxa-azulada, e conhecidos como os evangelistas ou padres lóios.
No local da sua implantação passavam as muralhas fernandinas e, no interior da cerca, os padres lóios fundaram um convento no último quartel do séc. XV que seria conhecido por Convento Novo de Santa Maria da Consolação e, designado também, como de Nossa Senhora da Consolação do Porto por ter sido edificado junto à ermida com o mesmo nome e, que anos mais tarde, seria substituída por uma sumptuosa igreja com fachada para o Largo dos Lóios.
Segundo o padre Francisco de Santa Maria na sua obra "O céu aberto na terra", localiza a capela de Nossa Senhora da Consolação, que D. Violante Afonso ofereceu aos padres lóios para, a partir dela, fundarem o seu mostei­ro, "junto ao muro des­ta nobilíssima cidade e ao postigo chamado postigo da Fonte da Arca por estar fronteiro à céle­bre fonte deste nome". 
O convento foi fruto de uma doação a pedido do Bispo do Porto, D. João de Azevedo, que se deveu a Dona Violante Afonso, uma "autorizada e virtuosa" (rica e piedosa) dama, viúva de um caldeireiro e rico mercador cha­mado Martim Lourenço. As obras para a sua construção iniciaram-se no ano seguinte ao pedido.
Em 1493, o convento foi agregado à congregação e, em 1496, D. Diogo de Sousa, sucessor de D. João de Azevedo no bispado do Porto e também ele afeiçoado aos lóios, confirmou todas as doações e privilégios anteriormente concedidos à congregação.
Os padres lóios já tinham passado pelo Porto, mais propriamente por Campanhã, onde tiveram um mosteiro em 1420.
A Igreja Matriz daquela paróquia era o templo desse mosteiro. Até 1423 os padres tiveram o apoio do bispo Vasco II, mas quando este foi para arcebispo de Évora, os lóios recolheram a Vilar de Frades, em Barcelos, onde D. João Azevedo os foi buscar para o regresso ao Porto.
Ao convento do Porto foram anexadas numerosas igrejas e as suas principais rendas eram constituídas por dízimos.
Em 14 julho de 1764, em despacho de João de Almada e Melo, é definida a abertura de uma praça em frente do convento e a abertura de uma porta de acesso à mesma e em 1790 é modificada a frontaria do convento, voltada para a Rua da Natividade (actual Rua dos Clérigos), acrescentando-lhe duas pequenas torres.

Planta de José Champalimaud de Nussane do Largo dos Lóios e envolvente em 1790

Legenda:

1. Praça Nova das Hortas
2. Fonte da Natividade
3. Largo dos Lóios
4. Rua dos Clérigos
5. Rua do Almada
6. Rua Mendo Afonso
7. Rua do Correio
8. Postigo de Santo Elói
9. Porta de Carros
10. Complexo conventual (convento, cerca e igreja)
Nota: A linha amarela representa um troço da muralha Fernandina

O convento dava para o Largo dos Lóios. Ocupava o terreno desde este largo até à Porta de Carros, hoje Praça Almeida Garrett. Havia uma pequena passagem entre o convento e a Muralha que foi fechada devido aos perigos, assaltos e prostituição que aí havia. Quando a muralha foi demolida o convento ocupou este espaço até à Praça Nova das Hortas.
Por outro lado em 1794, aproveitando a demolição das muralhas que cercavam a cidade antiga, os frades pediram autorização para alterar a fachada voltada para a antiga Praça das Hortas, actual Praça da Liberdade, autorização que foi concedida e iniciadas as obras de alteração da fachada, em 1798, não tendo, porém, as mesmas sido concluídas pelos religiosos.
As obras do novo convento coexistiam com o primitivo que continuava a albergar a congregação.
Após as invasões Francesas, entre 1810 e 1822 o edifício é ocupado por tropas portuguesas que aí instalaram um hospital militar.
Do convento apenas chegou até hoje, a fachada que os frades começaram a construir já no séc. XIX. Com a abolição das Ordens Religiosas em 1832 (decreto exarado nos Açores) e devido às Lutas Liberais, os frades abandonaram as obras e o País. O edificado do convento entrou em ruínas e a Câmara tratou da sua demolição em 1838.
Em 1838, já após a extinção das ordens monásticas o Largo dos Lóios foi ligado à Rua das Flores por uma rua que começou por se chamar Rua D. Maria II e é a actual Rua Trindade Coelho.
Posteriormente a Câmara tomou posse e colocou à venda o edificado do convento, em hasta pública, sendo o seu comprador Manuel Cardoso dos Santos, um abastado negociante com fortuna feita no Brasil e que se comprometeu em acabar a fachada. Após a sua morte, por herança o edifício passou para a viúva e filhas.

Convento de Santo Elói e Capela de Nossa Senhora da Consolação – Desenho de Joaquim Villanova – 1833 

A partir desse momento passou a ser conhecido como o Palácio das Cardosas (referente às herdeiras) bem assim como o passeio anexo, que tomou o mesmo "apelido" popular.
A partir de 1850, co­meçou o Palácio a ser conhecido como o Pasmatório dos Lóios,  porque era para ali que marcavam encontro os dândis, os peralvilhos e os janotas da época para se mostrarem às meninas que iam à missa ou a "sabat mater", nos Congregados. Para estes ajuntamentos no pasmatório tam­bém contribuíam, e muito, a existência, ali muito perto, do botequim Guichard que fechou portas em 1857 e o botequim do Camanho que as teve abertas a partir de 1870.
Por aqueles dois cafés passou muita da nata da intelectualidade do tempo. Camilo Castelo Branco e o poeta Faustino Xavier de Novais; o célebre advogado Ale­xandre Braga e António de Amorim Girão, professor, eram alguns dos seus frequen­tadores habituais. Mas havia também lo­jistas e mercadores que ali iam para tratar dos seus negócios. 
Já nos começos do século XX, um outro grupo começou a tomar conta do pasma­tório.
Era o "Clube dos Encostados". Eram muitos. Ao findar da tarde, antes da hora do jantar, lá apareciam. Iam chegando, pau­latinamente, um após outro, inconfundí­veis no seu chapéu alto. Agrupavam-se em frente às instalações do antigo Banco Ferreira Alves & Pinto Leite. As conversas abarcavam um amplo leque de assuntos, da política, às novidades artísticas ou lite­rárias, mas os mexericos domésticos não passavam em branco.

“(…) Havia entre "os en­costados" lojistas, mercadores, um alfaia­te, estudantes, médicos, jornalistas, no­meadamente do "Diário da Tarde" que ti­nha a Redação ali mesmo ao lado e cujos redactores frequentavam uma alfaiataria mesmo aí situada a “Alfaiataria Costa Lima” 
Um acontecimento fortuito viria a dar origem à alteração do nome do grupo. Foi o caso que, em 1908, andou de visita ao Porto o rei D. Manuel II. Houve um dia em que o monarca foi assistir ao desfile das tropas em parada na Praça da Liberda­de. O rei presenciou o desfile a cavalo e a montada foi colocada exatamente no lo­cal em que "os encostados" costumavam reunir-se, em frente ao Banco Ferreira Al­ves & Pinto Leite. A partir daí, a denomi­nação passou a ser "Real Clube dos Encos­tados"”. 
Fonte: Germano Silva, In JN


O Convento de Santo Elói confrontava a sul a actual Praça da Liberdade que se designou primitivamente por Casal ou Lugar de Paio de Novais, Sítio ou Fonte da Arca, denominando-se, mais tarde, por Quinta, Campo ou Sítio das Hortas. Foi ainda Lugar ou Praça da Natividade, Praça Nova das Hortas, Praça da Constituição, Praça Nova e de D. Pedro IV e, mais recentemente durante algumas semanas, Praça da República.
Actualmente toda a zona do Largo dos Lóios foi alvo de uma recuperação urbanística a cargo do gabinete de arquitectura, Ferreira de Almeida, no qual, o palacete das Cardosas, foi transformado num hotel de 5 estrelas e, os edifícios de todo o quarteirão, alvo de recuperação.
Sobre esta intervenção urbanística diz Germano Silva:

“Pois é. Vamos aguardar a ver se as obras que aí vêm irão, ou não, ajudar a desvendar o mistério que rodeia umas tantas histórias já lendárias de cadáveres enterrados na cerca do mosteiro e no interior da própria igreja. 
É que, logo a seguir à demolição dos anexos, virão os arqueólogos para pesquisar, entre outros, o sítio onde se vai construir o parque de estacionamento. O que se pede e se espera é que esse trabalho se realize com toda a profundidade de modo a que ajude a esclarecer muitas histórias que ainda permanecem envoltas na névoa do mistério e da dúvida. 
Por exemplo em 1808 o corpo do general D. Francisco Taranco e Lhano, comandante da divisão da Galiza que ocupava o Porto, foi sepultado no jazigo que o visconde de Balsemão (o do palacete da Praça de Carlos Alberto) tinha na igreja dos frades Lóios. Durante a usurpação de D. Miguel também ali terão sido guardados os restos mortais do general Bernardo da Silveira. Em 1838  a igreja foi demolida por estar em ruína e ser uma ameaça pública. Quando se tentava saber o que fora feita do túmulo do Balsemão e dos cadáveres que lá estavam, um cronista da época (Peres Pinto) não teve dúvida em afirmar que essas "ossadas e entulhos estavam a descansar no aterro da praça ou mercado do Bolhão…" 
Mas há notícias de muitas outras sepulturas no corpo da igreja e na cerca do convento dos padres Lóios, muitas delas de difícil localização. Por exemplo, "na casa do Capítulo, junto ao claustro" foi sepultado D. Manuel de Sousa, que foi arcebispo de Braga; Filipe Gonçalves, cidadão do Porto, "morador defronte da Porta do Olival, da parte de dentro" teve sepultura em Santo Elói onde instituiu um morgado a que vinculou as suas casas da "Travessa que vai dos Coronheiros (actual Rua da Vitória) para a Rua das Flores. Ao pé de um altar colateral, do lado do Evangelho, esteve sepultada D. Maria… mulher do dr. Estêvão Monteiro da Costa a qual morreu em Junho de 1693; e "no cruzeiro, junto às grades" ficava a sepultura, coberta com lâmina de latão e com as armas dos Correias de Mariz, de Francisco Correia de Mariz.
António da Costa, barbeiro e sangrador, morador na Rua dos Canos (a parte da Rua das Flores que vai da Praça de Almeida Garrett até à Rua de Trindade Coelho) para ser sepultado em Santo Elói deixou ao convento o seu casal da Quinta, em S. Cosme, Gondomar. 
Enfim, tantas cinzas veneráveis de cujo destino muito pouco se sabe após a venda do mosteiro e a demolição da igreja”.

Já em 1691, a municipalidade do Porto e o Capítulo da Sé-Catedral tinham lançado o projecto de estabelecer no Campo das Hortas, propriedade do Cabido, uma praça pública, entre a Porta de Carros e o Postigo de Santo Elói. O projecto não foi por diante, tendo sido retomado em 1709, pelo então Bispo do Porto, D. Tomás de Almeida, que propõe a abertura de uma praça de formato quadrangular digna de "rivalizar com a Plaza Mayor de Madrid".
Tratava-se do primeiro grande empreendimento urbanístico de Portugal. Chegaram mesmo a efectuar-se os contactos de aforamentos das parcelas a construir e a lançar os alicerces de alguns dos edifícios, contudo, por dificuldades várias também este projecto não teve continuidade.
Em 1718 novo projecto foi lançado, cuja realização teve início quando o cabido da Sé cedeu, a 17 de Fevereiro de 1721 terrenos seus, expressamente para uma praça.
Novas ruas foram então abertas - a Rua do Laranjal das Hortas (futura Rua de Santo António dos Lavadouros e posteriormente, Rua dos Lavadouros, hoje desaparecida) e a Rua da Cruz (actual rua da Fábrica).

“Da concretização deste projecto resultaria a Praça Nova das Hortas (ou só Praça Nova) limitada a Norte por dois palacetes (desaparecidos), onde funcionaram os Paços do Concelho até 1915; a Sul pela muralha fernandina, destruída mais tarde em 1788 e substituída por um conjunto monumental - o convento dos Frades de Santo Elói - cuja fachada sobre a praça constitui o edifício "da Cardosa", só terminado no século XIX, mas obedecendo ao primitivo projecto - a praça "tout-court". O lado oriental era ocupado pelo Convento dos Congregados, e o lado poente só mais tarde foi edificado. 
Durante o século XIX, factores vários - a instalação da Câmara no topo Norte (1819); a inauguração da Ponte de D. Luís (1887); a extensão da via- férrea até S. Bento (1896) - contribuem para tornar a Praça definitivamente num importante centro político, económico e sobretudo social”. 
Fonte, Site: “patrimoniocultural.gov.pt”


Em meados do século XIX, a Praça era já o "ponto predilecto de reunião dos homens graves da política e do jornalismo, da alta mercância tripeira e dos brasileiros". 

Predominavam os botequins: "Guichard", "Porto Clube", "Camanho", "Suíço", "Europa", "Antiga Cascata", "Internacional", etc., aos poucos desaparecidos em consequência da profunda reestruturação daquela área, onde as entidades bancárias, companhias seguradoras ou escritórios conquistaram o seu espaço. 
O Dr. Eugénio de Andréa da Cunha e Freitas, numa interessante monografia que escreveu sobre o Convento dos Lóios, termina um dos capítulos da seguinte maneira:

"… agora, na Casa de Deus, em vez dos honrados frades de Santo Elói, estão os gordos e opulentos senhores da Finança e da Indústria, perturbando, na febre do negócio e do lucro, o eterno descanso de tantas cinzas veneráveis que ali jazem…" 


Por outro lado diga-se que, as obras para levantamento da Avenida dos Aliados, iniciaram-se no dia 1 de Fevereiro de 1916 com a demolição do edifício que serviu de Paços do Concelho, a Norte da Praça da Liberdade, acompanhada do desaparecimento das ruas do Laranjal, de D. Pedro, etc. 
Ao cimo da Avenida foram erguidos os modernos Paços do Concelho, edifício em granito e mármore, levado a cabo pela primeira vereação republicana saída do 5 de Outubro de 1910. Foi um projecto do arquitecto António Correia da Silva (1920).
No seu todo, resultou um conjunto urbano monumental, de particular interesse histórico e artístico, que todos hoje usufruem.

Casa da Moeda

É de referir ainda que no convento dos padres lóios em 1832, durante o cerco do Porto, esteve instalada no edifício a casa da moeda. 


Breve história da Casa da Moeda no Porto


Moedas cunhadas no Porto – Fonte: “portoarc.blogspot.pt”; In História do Porto de Luís Oliveira Dias

Aliás, desde 9 de Junho de 1688 que, por meio de um alvará, o rei D. Pedro II tinha recomendado à Câmara do Porto o restabelecimento nes­ta cidade da Casa da Moeda, que havia sido extinta por volta de 1654, ou seja, nos últimos anos do reinado de D. João IV. 
A padroeira dos moedeiros era Sant'Ana e o altar onde se venerava a sua imagem ficava na Igreja de S. Lourenço (Igreja dos Grilos) e aí, tinha sede a sua confraria.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

(Continuação 1) - Actualização em 01/11/2018


A Igreja de S. Nicolau está localizada na freguesia do mesmo nome.
Com a necessidade de melhorar a administração da cidade do Porto, em finais do século XVI, a única freguesia então existente, a de Santa Maria da Sé, foi dividida em quatro pelo bispo do Porto, Marcos de Lisboa: Sé, Vitória, São Nicolau e S. João Baptista de Belomonte, sendo esta última extinta, poucos anos depois, e repartida entre Vitória e São Nicolau.

“Antes da igreja, existia desde 1247, uma ermida de S. Nicolau, onde estava a Confraria de Nossa Senhora da Boa Nova, que pertencia à Albergaria de Santa Catarina, instituição destinada ao tratamento dos leprosos na Reboleira e, por isso, serviria aquela ermida de oratório do hospital de Santa Catarina.
Nossa Senhora da Boa Nova era padroeira dos homens do comércio, mareantes e negociantes da cidade do Porto.
Tendo a ermida sofrido obras de ampliação em 1656, em 1671 o bispo D. Nicolau Monteiro manda edificar uma nova igreja, que será consagrada em 1676. Esta igreja é destruída por um incêndio em 1758, e no mesmo ano inicia-se a sua reconstrução segundo risco de Frei Manuel de Jesus Maria, e foi executada durante o bispado de D. Frei António de Sousa.
A nova igreja é aberta ao culto em 1762. Os retábulos laterais foram elaborados entre 1762 e 1763, por José Teixeira Guimarães e Francisco Pereira Campanhã e são dedicados a Santo Elói e a Nossa Senhora da Conceição”.
Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”


No alto da fachada, encontra-se um frontão cortado por um nicho, com a imagem do padroeiro, em calcário. O interior do templo, de uma só nave, é coberto com abóbada em tijolo. O retábulo é em talha dourada rococó, e o painel é do pintor João Glama Ströberlle.

“Na sacristia, encontram-se várias obras de arte e valiosas peças de ourivesaria. Os arcazes, que vieram de Hamburgo, em 1817, têm os puxadores em bronze. Das peças de ourivesaria destacam-se um cálice do século XVI, com tintinábulos, uma píxide rococó, de prata, com legenda na base, um cálice em prata dourada, também rococó, e dois gomis com as respectivas salvas, do século XVIII, da autoria do ourives portuense Domingos Sousa Coelho.
Em 1832 foi acrescentado um adro gradeado para a protecção das sepulturas e em 1861 cobriu se a frontaria com azulejos”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”


Igreja de S. Nicolau

Igreja de S. Nicolau em desenho de Joaquim Villanova c. 1833


17.5 Capela de Santo António do Penedo e Igreja dos Congregados.  Congregação do Oratório da Regra de S. Filipe Néry (Padres Congregados)

A Capela de Santo António do Penedo erguia-se no Campo de Santa Clara, tendo sido demolida em 1886, para abrir a actual Rua Saraiva Carvalho, para dar acesso à ponte de Luís I, a construir.
Já agora se diz, que Saraiva Carvalho foi um político e ministro de várias pastas, interveniente na revolta conhecida por Janeirinha por ter tido lugar a 1 de Janeiro de 1868 e que depôs o partido Regenerador à frente de um governo, até aí, com as finanças públicas de rastos e pelo aparecimento do partido Reformador. O jornal portuense “ O 1º de Janeiro” tem tudo a ver com a Janeirinha. O período que se seguiu à revolta foi de grande instabilidade governativa.

Rua Saraiva Carvalho em 1908 - Ed. Aurélio Paz dos Reis

Na foto acima uma manifestação do 1º de Maio em 1908. À esquerda (em cima) o palacete dos Azevedos.


Perspectiva actual da foto anterior

Dispensário Rainha D. Amélia – Ed. Photo Guedes

A imagem acima mostra uma capela que existiu junto do edifício onde funcionou o dispensário Rainha D. Amélia, encostada ao torreão da muralha Fernandina, e embora esteja identificada em várias publicações, como sendo a Capela de Santo António do Penedo, tal não corresponde à verdade, como veremos a seguir.
Voltando à capela de Santo António do Penedo, ela tinha 12 a 15 metros de comprimento e 4 a 5 de largura e o arco bizantino da frontaria era o único na cidade.
Segundo algumas personalidades, supõe-se que esta capela foi construída no séc. XIV, mas “o primeiro documento que tem aparecido a seu respeito é um título do ano de 1504, onde se vê que naquela data estava ela vinculada, ou na posse dum tal Afonso Ferraz, a qual havia já herdado de seus ascendentes”.
Ignora-se, portanto, a data exacta da sua construção inicial, mas sabe-se que no 1º quartel do século XVII, foi alvo de uma séria remodelação.
Assim, em 1671/72 recebeu a capela, um coro e uma galilé executados pelo mestre pedreiro Manuel do Couto, segundo a traça do Padre Pantaleão da Rocha de Magalhães, mestre-capela da Sé do Porto e arquitecto amador que investigações recentes ligam a algumas das obras mais importantes realizadas no Porto na segunda metade do século XVII.
Sabe-se que a capela começou por se chamar de Santo Antão passando mais tarde a Santo António.
Segundo o blogue “Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias”:

“…Note-se que esta capela dedicada a Santo António não se referia ao Santo António de Lisboa, mas sim a Santo António Magno, eremita de Tebaida, conhecido por Santo Antão.
Agostinho Rebelo Costa afirma: “…a de Santo António do Penedo, que foi a primeira que se consagrou a este Santo”.
Ora, foi provado documentalmente que este Santo António era o ermitão que acima referimos.
O documento referido por Carlos das Neves, em O Tripeiro, Volume 1 a páginas 300 e Volume 2 a páginas 25, eram as “Memórias da Congregação do Oratório da Cidade do Porto…de 1741” e pertencia, em 1898, ao ex- Abade de Miragaia, quando foi lido pelo referido Carlos das Neves. Neste documento pode ler-se: 
“…determinaram Gaspar de Abreu de Freitas desembargador dos agravos desta Relação, como Juiz que era da Confraria de Santo António, ele e mais mordomos da mesma Confraria edificar um templo em honra de Santo António; porque não tinha este Santo sendo nosso português igreja alguma na cidade dedicada ao seu nome: pois ainda que a Capela, enquanto a dita Confraria até ali estava assentada, se chamava de Santo António do Penedo, por estar fundada sobre viva Rocha junto ao muro da cidade da parte de dentro; na realidade esta Capela não foi fundada para Santo António Português; mas sim para Santo António Magno que vulgarmente chamamos Santo Antão…”


A capela que existiu até 1886 no meio do Largo 1º de Dezembro


A gravura anterior é uma prova em papel salgado a partir de um calótipo de Frederick William Flower, em 1845, na qual é possível notar a presença de um cruzeiro que, como habitualmente, integraria uma via-sacra.
Abaixo está representada, numa planta do século XIX, a área intramuros do Largo de Santa Clara.
Nela, pode observar-se a Capela de Santo António do Penedo e a sua orientação e, ainda, a casa de habitação a si adossada que acabou por pertencer a Teixeira Pinto.


Planta de Santo António do Penedo antes Carvalhos do Monte





Porta do Sol (vista de intramuros) e Largo de Santo António do Penedo


Na gravura acima pode ver-se, à direita, o cruzeiro do Senhor da Boa Fortuna, (actualmente exposto no cemitério da Lapa junto ao jazigo onde está Camilo Castelo Branco) junto da casa de Teixeira Pinto (exemplificado no desenho abaixo).
A capela adossada à casa era propriedade do morgado Miguel Brandão e Silva.
Em 1860, sendo proprietário da casa adossada à capela, que vinha a apresentar sinais de ruína, desde 1835, Teixeira Pinto (…)

“ (…) num processo trabalhoso, conseguiu também a capela para si. O agora proprietário tratou de a adaptar ao uso que lhe pretendia e daqui adveio o último estágio evolutivo do monumento, poucos anos antes da destruição final: nivelou-a ao seu prédio do lado poente, demolindo o alpendre bem como a escadaria localizada em frente deste. Todo este terreno deixado livre foi à sua custa, ajardinado, e mais algum de que entretanto se apossou... Mais pobre mas ainda com aspeto de capela, o seu interior foi a partir daí usado como dependência de arrumos do proprietário.”
Com o devido crédito a Nuno Cruz, administrador de “aportanobre.blogs.sapo.pt”

Quanto ao arco cruzeiro da capela, que alguns dizem terem ido, as suas pedras, para os jardins o Palácio de Cristal e sido alvo de um projecto de instalação, aí, mas que nunca veria a luz do dia por se terem extraviado alguns dos seus elementos estruturais, outros estudiosos, colocam outras hipóteses.

“O arco cruzeiro desta capela, de primoroso lavor, foi salvo da destruição tendo também ele sido remetido para S. Lázaro. Contudo, como refere Pedro Vitorino (ver aqui) quando o quiseram voltar a erguer na quinta do SMAS, o mesmo já se mostrava incompleto!”
Com o devido crédito a Nuno Cruz, administrador de “aportanobre.blogs.sapo.pt”


Planta do Largo de Santa Clara


A capela de Santo António do Penedo tinha-se tornado exígua e os desembargadores que vinham ocupando a capela por favor, querendo ter templo próprio onde instalar a irmandade, escolheram um terreno perto do medieval Campo das Hortas, mesmo em frente à Porta de Carros que se abria no pano da muralha fernandina, compraram-no e aí começaram a erguer a ermida com a ajuda de esmolas dos fiéis.

“Por escritura de 20 de Dezembro de 1657 em que são outorgantes a Câmara e a Mesa da Confraria de Santo António é feita a oferta condicionada daquela a esta de uns terrenos situados fora da Porta de Carros para a construção da actual Igreja dos Congregados (escritura que viria a ser confirmada por alvará régio de 4 de Abril de 1658”.
In “O Tripeiro” 7ª Série, Ano XXXVI, Nº 03, Março 2017


Poucos meses depois do início das obras, os magistrados abandonaram o projecto e ofereceram o terreno e o que já havia da ermida à Câmara do Porto "para sempre, enquanto o Mundo durar".
A capela da Porta de Carros foi, então, começada a construir no ano de 1660, por iniciativa dos desembargadores do Tribunal da Relação cuja confraria, no século XVII, estava instalada num pequeno templo que existia nos antigos Carvalhos do Monte, actual Largo do 1.º de Dezembro, chamada capela de Santo Antão e que, viria também a ser conhecida por Capela de Santo António do Penedo, segundo alguns historiadores, por ter sido construída sobre uma rocha e segundo outros uma alusão ao culto a Saint Antoine du Rocher, um eremita que no sé­culo VI fundou em Tours, na França, a cé­lebre abadia de S. Juliano.
Quando os magistrados deixaram a ca­pela dos Carvalhos do Monte ela perten­cia ao morgado Miguel Brandão da Sil­va. Mu­dou várias vezes de dono sofrendo pro­fundas alterações de cada vez que muda­va de mãos. Possuía um elegante alpen­dre que um dos últimos proprietários mandou demolir. Com essa mutilação, a capela perdeu toda a graça e pitoresco que a caraterizavam.
Por 1886 a capela estava já em ruínas e foi completamente demolida para a abertu­ra da Rua de Saraiva de Carvalho que iria facilitar o acesso ao tabuleiro superior da ponte de Luís I.


Ligação da Capela de Santo António do Penedo à Igreja dos Congregados

A ligação entre estes dois locais de culto é muito evidente e tal será mostrado a seguir.
Assim, no Porto, o Padre a Baltazar Guedes, fundador do Colégio dos Órfãos tinha erguido, em 1664, na igreja de Nossa Senhora da Graça, contígua ao colégio, um altar em honra de S. Filipe Néry, tendo no ano seguinte criado a Confraria de S. Filipe de Néry, ligada ao seu colégio.
Em Julho de 1680, chegavam ao Porto vindos de Lisboa os Padres Manuel Rodrigues e João Lobo, onde acabava de ser criada a Congregação do Oratório da Regra de S. Filipe Néry, que pretendiam formar um convento, tendo começado por tentar ocupar o Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça, onde era reitor o Padre Baltasar Guedes. Este opôs-se veemente que tal acontecesse e os padres referidos passaram a cobiçar uma capelinha em frente da Porta de Carros.
No ano de 1680, a Câmara Municipal do Porto, aceitando um pedido do rei D. Pedro II, disponibilizou-se para facilitar à Congregação do Oratório de S. Filipe de Nery tudo o que estivesse ao seu alcance para que os padres congregados pudessem instalar-se na cidade e aqui "estabelecer a sua casa".
No rol das facilidades, incluiu-se a cedência, à referida congregação, da capela da Porta de Carros, da invocação de Santo António, que fora começada a construir em 1660 com esmolas dos portuenses, mas cuja administração estava, agora, a cargo da Municipalidade que, por essa razão, era quem organizava e obviamente pagava, a grande festa que todos os anos se realizava no dia do patrono.
No documento que foi lavrado, aquando da cedência do templo, constavam duas alíneas curiosas: primeira, que a ermida era doada à referida congregação na condição de que esta manteria Santo António como padroeiro do templo e que a sua imagem continuaria a figurar em lugar de relevo na fachada ou no altar-mor; segundo que, além da capela, a Câmara também doava aos padres de S. Filipe de Nery "o sítio e campos ao redor della..." a fim de aí construírem um convento.
Para a nova igreja dos padres congregados, foi aproveitada a anti­ga capela que ficou a servir de capela-mor do actual templo.
Ora o tal sítio e campos que havia ao redor da Capela da Porta de Carros, onde viria a surgir a Igreja de Santo António da Porta de Carros ou Igreja dos Congregados, faziam parte do conhecido como o “Campo das Hortas” que o bispo D. Tomás de Almeida, no século XVIII, transformaria na Praça Nova das Hortas antecessora da actual Praça da Liberdade.
Aliás, este bispo, que também exerceu as funções de governador da Relação e de governador das Armas da Cidade, foi quem mandou abrir na muralha Fernandina o Postigo de Santo Elói, junto ao largo do mesmo nome, hoje Largo dos Lóios, e em frente à velhíssima Rua das Hortas, actual Rua do Almada.
Sobre a capela da Porta de Carros escreve Horácio Marçal as notas seguintes retiradas de O Tripeiro, serie V, nº. X de um artigo de 1955:

“Em meados do séc. XVII a Confraria de Santo António, sediada por favor na Capela de Santo António Magno ou do Penedo, propriedade do morgado Miguel Brandão da Silva, decidiu adquirir casa privativa e conseguiu que a Câmara lhes vendesse um terreno perto da Porta dos Carros, onde erigiram uma pequena capela. Poucos anos depois acordaram com a Câmara lhes comprasse o terreno, com a condição de lhes construir a capela-mor, o que aconteceu. Porém, por insistência real e do Bispo do Porto, a capela foi entregue, em 1680, à Congregação da Regra de S. Filipe de Néri, com a condição de manter Santo António como padroeiro. Estes terminaram a construção da parte da Igreja ainda inacabada. Tornando-se pequena, a capela foi demolida em 1694, e em seu lugar erigida uma importante Igreja que, depois de novas ampliações, é a que podemos apreciar no nosso tempo. 
O convento começou a construir-se em 1683.”

Por sua vez, as obras na Igreja de Santo António da Porta de Carros, ficaram prontas em 1703, tendo presidido à cerimónia de inauguração o bispo D. Frei José de Santa Maria Saldanha.
O sucessor deste bispo, D. Tomás de Almeida protegeu muito os padres da Congregação de S. Filipe de Nery contribuindo para o embelezamento do interior da sua igreja, a actual igreja dos Congregados, diante da qual mandou fazer um belíssimo átrio que comportava "três arcarias", varandas de ferro e uma larga escadaria "por baixo da qual havia lojas abobadadas que os padres alugavam".
D. Tomás de Almeida saiu do Porto em 1717 para tomar posse do cargo de cardeal patriarca de Lis­boa. Foi o primeiro a ocupar aquele alto cargo eclesial. 


“Naqueles re­cuados tempos, quem saísse do velho bur­go pela porta de Carros, que ficava mesmo em frente à igreja dos padres da Congrega­ção, os Congregados, entrava numa zona tipicamente rural, composto por caminhos vicinais, semelhantes aos de uma qualquer aldeia do interior; lameiros, dos quais o mais célebre era o do meloal, onde havia uma nascente de água que abastecia o mosteiro dos franciscanos; enormes ex­tensões de terras onde vicejavam hortas, daí o nome da tal praça que foi construída nas hortas que eram do bispo; soutos de carvalheiras, nome que subsiste numa rua ali perto; e odoríferos laranjais que viriam a identificar um sítio, o do Laranjal, topó­nimo que, durante muitos anos, identifi­cou uma rua, um largo e uma quinta, a do La­ranjal ou dos Laranjais. 
A norte da antiga Praça Nova das Hortas, havia também o Casal da Regada, enorme propriedade com terras de cultivo e pomares que em 1759 era foreira do Cabi­do da Sé. Da leitura das suas confrontações ficamos a saber que a norte tinha como li­mite "o ribeiro que vem do Bonjardim"; a poente, "uma terra que pertence aos láza­ros e o caminho público que vai para Liceiras e Santo Ovídio...". 
As terras do Casal da Regada eram irriga­das com a água do referido ribeiro do Bon­jardim, como consta de um emprazamen­to feito à propriedade.
Havia também, a norte da Praça Nova das Hortas, o Casal do Galvão que, em 1677, "ficava junto da Fonte da Neta e do qual fa­zia parte o campo da Cancela que de norte partia com o caminho que ia para a Porta de Carros...". 

Foi nos terrenos desta propriedade que, muitos anos mais tarde, se construiu o largo da Cancela Velha que chegou, praticamen­te, até aos nossos dias, e de que resta a me­mória somente no nome de um café local”. 

Com a devida vénia a Germano Silva


Desenho do Convento e Igreja de Santo António da Porta de Carros de Joaquim Villanova


No desenho anterior de 1834 observa-se que a igreja apresenta a torre quadrada com terraço, que tinha 8 sinos e que existiu até 1842, tendo os sinos sido comprados pela Igreja da Santíssima Trindade. À direita vê-se uma “cadeirinha” do Porto.
Henrique Duarte Sousa Reis, In “Apontamentos para a verdadeira história da cidade do Porto” (Vol. 4), diz sobre a igreja e convento dos congregados, uma narrativa que descreve, em parte, o desenho executado por Joaquim Villanova:

"Tinha este convento a sua principal fachada voltada para a porta de Carros, ficando-lhe o frontispício do seu templo no centro, a qual toda descansava em um largo pátio ladrilhado e de figura quadrilonga, com uma escadaria de mais de dez degraus, que ocupava quase todo o lado fronteiro; à esquerda da porta da igreja e na parte do convento, que ficava até à esquina da Praça Nova [hoje Praça da Liberdade] estava praticada a portaria, sobre ela se via, em formas colossais, metido em um grande nicho a imagem do padroeiro, e logo acima estavam rasgadas duas janelas de sacada com suas varandas de ferro, servindo de remate a torre dos sinos: do outro lado da igreja havia um idêntico edifício, em tudo igual menos na torre que não tinha, e esteve sempre habitado por inquilinos que pagavam o aluguer ao convento, cuja parte habitada pelos frades era esta que ainda se estende pela parte do nascente da Praça de D. Pedro [novamente, a atual Praça de Liberdade], sendo apenas alterada pelos herdeiros de Manuel José de Sousa Guimarães, que comprou ao estado, em lhe rasgarem mais janelas de varanda no primeiro andar do que as que tinha antes, fazendo-lhe ao mesmo tempo, no pavimento térreo portais regulares, sendo antigamente baixos e que davam entrada às lojas soterradas, que os padres costumavam arrendar por bem acrescida quantia.
Tinha este convento uma escolhida livraria, e no seu interior, além da capela-mor, um pátio ou claustro, que no seu centro continha um chafariz com a estátua de S. Filipe deitando água. A sacristia era situada para o lado da praça de D. Pedro, recebia muita luz, possuía bem constituídos caixões cheios de ricos paramentos, e suas paredes eram adornadas com os retratos dos Propósitos da congregação; esta, com a torre foi demolida pelo comprador, e regularizado o risco, para comodidade dos moradores, destas casas, que edificou, mas não conseguiu a demolição sem ter uma forte questão judicial com a irmandade, que pretendia ambas estas peças do edifício por serem pertenças da Igreja que lhe tinha sido dada pela Soberana a Senhora D. Maria II." 

Durante a guerra civil entre o exército de D. Pedro IV e a tropa de D. Miguel, os pa­dres congregados, que eram miguelistas, fugiram da cidade e deixaram a igreja e o convento abandonados. A igreja serviu de hospital de sangue durante o Cerco e nas instalações do mosteiro arrecadaram-se li­vros e outros objetos provenientes de ou­tros conventos. 
Com a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi vendido, em 23 de Abril de 1834, a um brasileiro de torna viagem, Ma­nuel Duarte Guimarães, de alcunha "O Cheira", enquanto a igreja era cedida à confraria de Santo António. A Confraria de Santo António da Porta dos Carros que esteve extinta entre 1680 e 1708, ano em que foi reactivada, manteve na Igreja a sua sede até à saída dos monges em 1832. Em 1834 a Igreja foi-lhe devolvida pela Câmara,  livre de encargos.
Foi a partir da tomada de pos­se do templo pelos homens da irmandade de Santo António que a igreja passou a ser conhecida por igreja de Santo António dos Congregados. 
Infelizmente, aos homens da confraria não foi entregue a igreja na sua totalidade. A torre quadran­gular e a primitiva sacristia já haviam le­vado sumiço. Os herdeiros de Manuel Sousa Guimarães, junto do convento e igreja, mandaram fazer grandes obras, com abertura de novas janelas e portas exteriores.
Demoliram a sacristia, que ficava do lado da Praça das Hortas e a torre (1842). Desta forma poderiam alugar ou vender a diversas pessoas, o que ocasionou a abertura de estabelecimentos e casas de habitação.

Com o nº 9 está identificada a igreja e convento dos Congregados

A planta acima será da 2ª metade do Século XVIII.
O acesso à igreja dos congregados, ao longo dos tempos, foi mudando como se pode ver a seguir.
De notar que na última gravura da autoria de J. Villanova de 1834, a entrada da igreja (como inicialmente), se fazia por escadaria frontal.
Em 1839 o acesso já era feito por dois lanços laterais de escadas amparadas por varandim, como se vê na foto abaixo.
Voltaria a ter novamente, um acesso por escadas frontais envolvidas com balaustrada, como se pode ver em fotos seguintes e, a partir de 1913 o acesso ao templo é à face da rua, passando o desnível a ser vencido por escada interior, colocada à entrada.

A Igreja dos Congregados com escadaria lateral


Entrada da Igreja dos Congregados nos fins do Século XIX

Na foto acima a igreja tem a torre sineira já à direita e está novamente com uma escadaria frontal. 
Em 1911 colocou-se a hipótese, face à abertura de novo troço da rua que ia do fundo da Rua de 31 de Janeiro para a Rua Sampaio Bruno, até aí fazendo parte da Rua do Bonjardim, entre outras alterações, do corte do ângulo nascente da Igreja dos Congregados ao que a respectiva confraria se opunha, como é fácil de imaginar. 

“Uma ajuda importante para a resolução dos problemas das expropriações veio de António da Silva Cunha, deputado pelo Por­to às Constituintes de 1911. Era o proprietá­rio da camisaria Confiança, que funcionava na Rua de Santa Catarina, num prédio pe­gado ao edifício onde está instalado o Gran­de Hotel do Porto. 
Em agosto de 1911, Silva Cunha, que teve de enfrentar complicados problemas de ex­propriações quando andava a construir o edifício para a sua fábrica, fez uma interven­ção no Parlamento, solicitando a publicação urgente de uma lei que facilitasse as expro­priações na zona para onde estava projetada a obra de alargamento da Rua do Bonjar­dim. O Parlamento atendeu o pedido e a lei foi publicada em agosto de 1911. Mas as di­ficuldades para a realização da obra não es­tavam totalmente ultrapassadas. Houve, até, necessidade de esboçar um novo projeto, o que aconteceu em 1915. 
Estava então à frente "das obras da Câ­mara", o dinâmico vereador Elísio de Melo, a quem a cidade deve alguns dos mais im­portantes projetos urbanísticos dos come­ços do século XX, como a Avenida dos Alia­dos, por exemplo. Este segundo projeto foi aprovado em 3 de fevereiro de 1915, dando-se início aos trabalhos logo a seguir. 
O primeiro projeto estimava para a nova artéria uma largura de dezoito metros, tendo em atenção o volumoso trânsito, não apenas de veículos, mas também de pessoas que por ali circulavam. Essa lar­gura, na segunda a versão, foi reduzida para catorze metros e meio, o que evitava que o edifício da Igreja dos Congregados fosse mutilado”.
Germano Silva, In JN



O projecto inicial seria abandonado e o que o substituiu não previa qualquer corte no edifício da igreja. No entanto, a irmandade dos padres da Congregação teve que fazer obras que consistiram em adaptar a entrada no templo ao novo projecto urbanístico. Essa adaptação consistiu na su­pressão de uma elegante escadaria de acesso frontal ao interior do templo. A es­cadaria não sendo suprimida acabaria por  mudar de sítio. Deixou de estar no exterior do templo para passar a estar, ago­ra, na parte de dentro, de modo a que fosse possível vencer o desnível.


À direita é visível a balaustrada da Igreja dos Congregados

Igreja dos Congregados actualmente, com entrada à face da rua - Ed. “asvoltasdovento.blogspot”


Para se poder fazer uma ideia, ainda que aproximada, da extensão dos terrenos na posse da congregação, bastará dizer que a cerca do convento se estendia até à antiga Cancela Velha e corria ao longo de uma estreita e tortuosa viela ainda hoje conhecida por Travessa dos Congregados.
A Congregação de S. Filipe de Nery possuía, ainda, terrenos numa outra zona da cidade, para o cimo da actual Rua da Alegria.
Depois da vitória dos liberais, também parte do chamado Monte dos Congregados, que D. João V havia oferecido aos padres congregados, acabaria nas mãos de um brasileiro de torna viagem de apelido Moreira.
A Câmara reservou o restante terreno para abertura das ruas da Alegria e da Duquesa de Bragança, hoje D. João IV.

“Em 1715, o rei D. João V cedeu aos padres Congregados uma espaçosa quinta, junto à actual Praça do Marquês de Pombal, antigo Largo da Aguardente, para servir de brévia, ou seja de espaço de repouso e de lazer numa vasta propriedade denominada Monte de Santa Catarina mas que, depois de ocupada por aqueles religiosos, passou a ser conhecido por Monte dos Congrega­dos e ainda hoje, está recordada na toponímia através da Rua e Travessa do Monte dos Congregados. Foi em terrenos dessa quinta que se rasgou, nos finais do século XIX, a Rua da Alegria.
Há quem afirme, no entanto, que a congregação, apesar daquela doação, já estava por estas bandas desde 1680.
Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, a propriedade dos padres da Congre­gação do Oratório passou para a posse do Estado que a colocou à venda. Comprou-a, dizem as crónicas da época, por muito baixo preço, um brasileiro de torna via­gem, de apelido Moreira que, logo a seguir, deu à exploração a enorme pedreira em que assentava a brévia dos Congregados. Com a extração da pedra foi-se abrindo na rocha uma espécie de amplo corredor que o próprio Moreira ofereceu à Câmara para continuação duma artéria em projecto.
Segundo este, o caminho rústico que entretanto ligava a Rua do Reimão (actual Avenida Rodrigues de Freitas) e o Monte dos Congregados, seria substituído por uma nova rua que devia ligar a desaparecida Rua do Reimão, junto a São Lá­zaro, com a Cruz das Regateiras, junto ao Hospital do Conde de Ferreira, em Costa Cabral. É claro que o tal Moreira não ofere­ceu o terreno à Câmara, sem mais aquelas! Pôs uma condição: que fosse autorizado a dividir em talhões as faixas laterais para a seguir as vender para a construção de pré­dios.
A esta nova artéria iriam dar duas outras novas ruas: a Rua da igreja de Santa Catarina, em alusão à capela das Almas, que, depois, passou a ter o nome de Fernandes Tomás; e uma outra que é a atual Rua do Moreira, apelido do comprador da quinta dos Con­gregados. Estas duas serventias, naquela altura, não iam além da rua que tem hoje o nome de D. João IV. Só muito mais tarde a primeira teve continuação até ao Campo de 24 de Agosto; e a segunda até à Rua de São Jerónimo, hoje Rua de Santos Pousada.
Era, o Monte dos Congregados, um sítio de tal modo privilegiado, que durante o cerco do Porto os liberais mon­taram lá uma estação telegráfica e uma ba­teria, a célebre bateria dos Congregados que, devido à altura em que estava, prote­gia amplamente outras baterias como era o caso da bateria da Aguardente (Marquês de Pombal); da bateria de D. Pedro e D. Ma­ria II, no sítio do Sério (Rua de Antero de Quental); e ainda outros postos de comba­te instalados na Ramada Alta (reduto das Medalhas); no Vale Formoso; no Monte Pedral e as baterias de São Brás e da Glória, junto à Lapa”. 
Com a devida vénia a Germano Silva


Voltando ao local onde a os padres congregados tinham o igreja e o convento, para se ter uma ideia do tamanho do terreno, notemos que os chamados “Lavadouros” ficavam na esquina, do que é hoje, a Avenida dos Aliados e a Rua de Magalhães Lemos, em pleno “Laranjal” antigo. 

Planta em volta da igreja dos Congregados


Na planta anterior se pode ver os terrenos de uma vasta área que igreja, convento e respectiva cerca ocupavam.
Na planta junto da igreja, encontra-se representada uma fonte que tinha a imagem de S. Filipe de Néri a deitar água.
A actual Travessa dos Congregados em tempos muito antigos, era um caminho co­nhecido como a Viela do Bispo ou a Rua do Bispo, por estar em terrenos que pagavam foros à Mi­tra, ou seja, ao mitrado, isto é, ao bispo. Fa­zia a ligação desde a esquina da Rua do Bon­jardim, onde ainda hoje começa, ao Largo da Cancela Velha, que ficava, sensivelmen­te, onde agora está o edifício dos Correios. Na planta anterior seria o caminho de ABC.
Da Travessa dos Congregados ainda existe uma pequena parte que começa na Rua de Sampaio Bruno onde se encontra a porta da foto abaixo, que, supomos, era a entrada para uma construção no fundo da cerca do convento.


Porta de acesso à antiga cerca


Em tempos, à Cancela Velha tencionava levar a cidade uma rua desde a Câmara Municipal situada na Praça Nova, mas estava vedada, tal intenção, pela oposição dos padres congregados, pois não estavam dispostos a ceder qualquer parcela pertencente ao seu convento.
Ainda 1834, depois da vitória dos liberais no Cerco do Porto, a Câmara solicitou a D. Pedro IV autorização para alargar e moder­nizar a antiga e tortuosa Viela do Bispo.
Depois de obtida a anuência do rei foi rasgada também uma outra nova artéria a que foi dado o nome de D. Pe­dro, em homenagem ao monarca que au­torizara a sua abertura tendo depois sido Rua Elias Garcia e que na planta anterior é o caminho DE.
A Rua Elias Garcia desapareceu com a construção da Avenida dos Aliados.
Nos finais do século XIX, a Rua de D. Pedro era uma das artérias mais centrais da ci­dade e uma das de maior movimento. Por ela passou, primeiro, a linha do "carro ame­ricano" e, mais tarde, a do "carro eléctrico". Foi nela que o "Jornal de Notícias" teve a sua primeira sede, num edifício que tinha traseiras com a Rua do Laranjal, que corria paralela à de D. Pedro e ia terminar mesmo em frente à Igreja da Trindade. Nesta rua funcionava a alquilaria do José Galiza, famosa pelos carros de aluguer.
Esta rua tinha como transversais, a Rua do Laranjal das Hortas, depois chamada Rua dos Lavadouros e Santo António dos Lavadouros, que corria por onde hoje está a Rua Elísio de Melo e ainda uma outra a que se deu o nome de Rua da Cruz, que depois foi Rua da Fábrica e antes disso era Rua da Fábrica do Tabaco.
Para os lados da Cancela Velha, a Rua do Laranjal, derivava para a Viela do Cirne e mesmo em frente desta viela no nº 185 ficava a sede da sociedade de recreio o Grémio Serpa Pinto, que antes foi Clube Progressista e Grémio Comercial do Porto.

Zona da Cancela Velha

À esquerda na foto acima, o Palácio dos Correios ainda não tinha sido construído no antigo local da residência da célebre Ferreirinha.
Tendo como fonte um desenho de Luís Soares Carneiro a partir da Planta Topográfica da Cidade do Porto e de desenhos existentes no ANTT, Ministério do Reino, DGIP, Mç 3680, Lvº 12, Processo nº 301, "Projecto d’um theatro que Benjamins & Moutinho pretendem construir na rua da Cancella-Velha, da Cidade do Porto – Implantação”, mostra-se a seguir, como seria a zona em que foi implantada a actual Câmara do Porto e a extinta Viela do Cirne.


Planta da zona da actual Câmara do Porto em 1883 com projecto para o Teatro Rainha

Legenda:

A- Rua da Cancela velha
B- Rua Elias Garcia
C- Rua do Laranjal
D- Rua do Bonjardim
E- Rua do Estervão
F- Largo da Trindade
G- Viela do Cirne
H- Actuais Paços do Concelho
L – Planta do Projecto do Teatro Rainha
Nota – A tracejado está representado, o projecto de Barry Parker, para a Avenida dos Aliados


Diga-se que, neste local em 1874, após um ano de funcionamento, a cidade tinha visto arder no Largo da Cancela Velha, o primitivo Teatro da Trindade. Um outro, em madeira, no mesmo local teve vida curta e seria substituído por um outro em pedra, de nome Teatro Rainha, que não seria terminado por a Câmara aí pretender abrir um arruamento de nome Rua Adriano Machado. A artéria foi aberta apenas em escassos metros, porque o proprietário duns terrenos não permitiu que o arruamento passasse na sua propriedade.


Foi então que acudiu ao cerebro da ilustre Vereação Camararia d’essa epoca a luminosa ideia de abrir a Rua Adriano Machado para ligar a Rua Formosa á Praça da Trindade (…). Para isso era imprescindivel demolir o theatro em construcção e os predios visinhos. Mãos á obra. Theatro em terra. Rua aberta. Becco sem sahida. Aberta a Rua na extensão de 55,4m, esbarrou com um obstáculo não previsto. Para lhe dar sahimento para a Praça da Trindade seria necessario arrasar parte do jardim do palacete de Antonio Bernardo Ferreira (O Ferreirinha). Poderam tanto as influências d’este fidalgo e a pressão d’ellas sobre a Camara que esta, esquecendo-se do que tanto apregoara em prol das necessidades do publico, pela ligação entre os dois pontos mencionados, deixou ficar a rua sem sahida durante annos consecutivos, até que o arrasamento da Rua do Laranjal e circunvisinhanças para a abertura da Avenida dos Alliados trouxe consigo o palacete e jardim Ferreirinha, que entravava o prolongamento da Rua Adriano Machado, ao mesmo tempo que tambem trazia o d’esta propria rua que, em grande parte já desapareceu, estando para breve o desapparecimento do pouco que d’ella ainda resta”.
Fonte: Faria e Castro


Planta Teles Ferreira de 1892

Legenda:

1- Rua da Cancela Velha
2- Rua do Laranjal
3- Viela do Cirne
4- Rua Dr. Adriano Machado
5- Jardim particular
6- Rua do Bonjardim
7- Rua D. Pedro
8- Rua Formosa


Pela comparação das duas plantas anteriores da zona da Cancela Velha, pode observar-se que no local que esteve previsto para edificação do Teatro Rainha, acabou por surgir envolto em polémica, uma rua chamada Rua Dr. Adrino Machado, professor conceituado que foi Director da Escola Politécnica, e que chegou a ser Reitor da Universidade de Coimbra e Procurador-Geral da Coroa, tendo falecido em 1891, portanto um ano antes da publicação da planta.
Para Sul na Rua do Laranjal, por detrás dos antigos Paços do Concelho, e mesmo em frente do café Chaves, estava a capela dos Três Reis Magos.
O edifício de maior envergadura da Rua de D. Pedro era, sem dúvida, o do Hotel de Frankfurt que ocupava o gaveto das Ruas de D. Pedro e do Laranjal. Tratava-se da mais importante unidade hoteleira da­quela época. Viveu nele, durante vários anos, o conde de Alves Machado que, sen­do dono do belo palacete que ainda existe, embora bastante degradado, na esquina da Rua de Álvares Cabral com a Praça da Re­pública, onde em tempos funcionou o Ins­tituto Francês, preferiu continuar no hotel, a ir ocupar aquela mansão que veio a ser a residência de um banqueiro.
Manuel Joaquim Alves Machado era um brasileiro de torna-viagem feito visconde pelo rei D. Luís, em 1879 e conde, por D. Carlos, em 1896. Depois de muitos anos no Bra­sil, onde granjeou enorme fortuna, Alves Ma­chado regressou a Portugal em 1873 e fixou-se no Porto, hospedando-se no Hotel de Francfort onde ficou durante 40 anos.
Quando o conde Alves Machado morreu, em 1915, com 93 anos de idade, o hotel já pas­sava por grandes dificuldades.