sexta-feira, 1 de maio de 2020

25.90 A azáfama da cidade


O texto que se segue, em itálico, é um poema dedicado à cidade do Porto, da autoria da professora e poetisa Maria de Lourdes Anjos, nascida na Rua do Bonfim, 125, no 1º de Maio de 1950.



A Voz da Cidade


Era ali. Exactamente ali, naquele largo enorme que tudo acontecia
Era ali, o lugar mágico onde a cidade, cheia de vida, nunca adormecia
Era ali, que se cruzavam os operários da Tabaqueira
De Villares, da Calandra do Bonfim, da Serração de madeira
Da fábrica de prata e dos pregos e ranchos de mulherio
Que aumentavam o caudal e eram o cantar cristalino deste rio
Que, alimentado por longínquas fontes de sofridas gentes
Faziam do Campo 24 de Agosto, o Jardim colorido
Por flores tão diferentes.



Fábrica Villares – Sociedade Aliança, na Rua de Santos Pousada



Junta de Freguesia do Bonfim e Escola Primária masculina. Encostada a esta, a Serração de Madeiras que por ali esteve muitos anos



Junta de Freguesia do Bonfim com a paragem dos transportes colectivos à sua porta




Na Rua do Bonfim, 266, esteve a unidade fabril de "acabamentos têxteis", a Calandra do Bonfim, desde 1859




Na madrugada, acordavam as ruas burguesas das redondezas
Com a mistura deliciosa do pregão brejeiro com sotaque tripeiro
E a canção ritmada das soletas batendo no trilho do eléctrico.
De repente havia um brusco travar do guarda-freio
E saltava do estribo o ardina apregoando e metendo jornais
Nas caixas do correio.
Olha o Janeiro, Comércio do Porto
Olha o Notícias!
Ao domingo à tarde, era a Emilinha que entrava e saía
Da “Pacense” e do “Jota”
E ouvia-se então o hino do seu ganha-pão:
Olha o Norte Desportivo!
Olha o Norte!
Fala do Eusébio e do Pedroto
Oh senhor! Veja se tem trocadinho! Obrigadinho!
Olha o Norte Desportivo! Olha o “Norte”!



Ardinas



Ardina, em 1910



As galinheiras, ai as galinheiras
As pontas do lenço traçadas no alto da cabeça presa à rodilha
Pela mão, com uma cesta de ovos, uma Rosinha, a sua filha
No braçado, um galo careca pedrês de pescoço vermelho
E uma galinha de crista romã de patas amarradas com um cordel velho
Os frangos espreitavam pela rede do cesto que carregava
E iam-se atropelando enquanto ela ligeira, quase correndo, apregoava:
Frangos e frangas!
Ovos galados p’ra chocar!
Oh riqueza! Ofereça, ofereça pr’a gente se ajeitar
Das terras pacenses, trazendo um vira dançado e batido
Com os protectores dos tamancos, vinham as parolas:
Merca cruzetas
Cadeira ou bancos, tamancos, colheres de pau!
Ai Senhor, o negócio está tão mau!
Oh Senhor! Aqui não há pregos!
É tudo coladinho. Tudo feito com segureza.
Veja as pernas desta mesa!




Galinheiras da Areosa



Galinheira



Do eléctrico, do 16, que passava no Largo do Padrão
Chegava do mar, um outro cantar, um outro pregão
Olha a faneca da linha
Sardinha Biba! Bibinha
Carapau do nosso mar
Ainda o trago a saltar
Oh freguesa! Olhe o meu, tão lindo
"Beinha-me estrear."
Era a voz das peixeiras. Ouradas, coloridas e atrevidas.




O carro eléctrico da linha 16 (Batalha – Leixões, via Praça da República, encerrada no fim do mês de Julho de 1977), passando no Jardim de São Lázaro



E as farrapeiras de Campanhã, da Sé, das Fontainhas e da Corujeira...
Farrapo Velho, Papel. Olha a Farrapeira!
Das Eirinhas e das ilhas da Lomba e de Justino Teixeira
Vinha a mais castiça e jovem vendedeira
Apregoava alho-porro, manjerico e erva cidreira no S. João.
É pró novo, pró velho e pró rapioqueiro
É pra ter o ano inteiro
Quem quer alho?!
Olha o manjerico! Não meta o nariz que ele seca. Passe a mãozinha e cheire
Assim, filhinho, assim!
E um raminho de cidreira para fazer um chazinho? Acalma tudo que tem nervos
À noitinha é uma maravilha! Dá muito descanso! Põe tudo manso!



Rua de Santo António, c.1905, observando-se algumas mulheres carregando cestos à cabeça



E no primeiro domingo de Setembro era a Santa Clara do Bonfim
Com barracas por Pinto Bessa, António Carneiro e Barros Lima
Vendendo melancia, cebola nova e Doce da Teixeira.
Olhem que vermelhinha, doce e sumarenta
Oh freguesa! Olhe a bela melancia!
Menina cheire o cu a este melão
É uma categoria! É de Almeirim!
Doce como o mel! Acredite em mim…
Cebolas encabadas! Em trança, ou ao quilo
Vinde ver gentinha! porra...
Santa Clara vos dê falinha!




Em 1798, chegaram a Portugal as relíquias de Santa Clara, doadas ao ex-donato beneditino José Teixeira Barreto (1782-1810), que na altura se encontrava a estudar pintura em Roma, que foram depositadas na Igreja Nossa Senhora do Terço e Caridade do Porto. Em 4 de Setembro de 1803 (1º Domingo do mês), realizou-se solenemente a trasladação das referidas relíquias para a capela do Bonfim.

 
 

Relíquias de Santa Clara na igreja do Bonfim


 

In jornal “O Comércio do Porto” de 5 de Setembro de 1859







Santa Clara, em 1903, com o sino por colocar numa das torres sineiras



Igreja do Bonfim, em 1905, com ausência de um sino numa torre sineira



Festa da Santa Clara, em 1916



Rua do Bonfim (1951)



É pra acabar! É pra acabar
Mas, nem só as mulheres davam vida à minha cidade.
Também os homens de voz roufenha
Entoavam e davam força a este Hino à Liberdade.
De boina basca vendia ilusões de porta em porta.
Entrava e saía na loja do Soleiro e na Leitaria
No talho da Beatrizinha e na chapelaria
Na Padaria Industrial e no Sucateiro
Era o homem da Sorte. Sem sorte na vida. Era o cauteleiro.
É sorte grande!
É o treze. Anda à roda hoje!
Quem não arrisca não petisca!
Olha a cautela com sorte! Anda hoje! É hoje que ela sai...
De calças de cotim, remendadas nos joelhos e nos fundilhos
Lenço tabaqueiro no pescoço para travar o suor
A bilha ao ombro, coberta de heras para enganar o calor
Vinha o aguadeiro de Nova Sintra e da Quinta da China
Com um pequeno púcaro de esmalte vendia água da nascente da mina
Água fresquinha a dois tostões



Cauteleiro



O homem das miudezas, engravatado e de voz adocicada
Passeava entre a paragem das camionetas e o velho urinol
Segurava o pequeno tabuleiro preso ao pescoço
Com a alça de couro e ia anunciando:
Agulhas grossas e fininhas! Linhas. Fita de nastro… elástico
O estica e encolhe a dois tostões o metro.
Cordões para corpetes
Esticadores prós colarinhos.
Alfinetes. Botões. Colchetes!



Vendedor de passamanarias, com o tabuleiro pendurado no pescoço



Em frente à junta de Bonfim,
Encostado à velha cabina telefónica
Outra voz se ouvia:
Graxa. É o engraxa
Pé na caixa. Olha o engraxa!
"Bamos à bida." Ouça o meu conselho
Duas croas e as botas fazem d' espelho.
Era o Fortinho engraxador
Homem pequenino, pouco sacana mas bom bailarino
Sempre que podia… engatatão e bebedor.



Cabine telefónica, no extremo do jardim, defronte da Junta de Freguesia. O engraxador tem a “oficina” em reboliço



No Inverno, chegava o castanheiro de sotaque beirão
Vendia castanhas em cartuxo de jornal ou papel grosso e cinzentão
Onde trazia embrulhado o toucinho cozido e o naco de pão
Com um cesto a tiracolo abafado por grossa serapilheira
Que guardava e apurava o sabor e o calor das castanhas
Cantava desta maneira:
Quentes e boas!
A dúzia são cinco croas!
Castanhas quentinhas a escaldar!
De Santo Ildefonso ou da Travessa das Patas



Castanheiro



Chega uma outra melodia
É o som da gaita de beiços do fulineiro.
Homem velho, de poucas falas, olhar triste e solteiro
Dá ao pedal, a roda gira e na pedra de esmeril
Afia as tesouras das modistas e das chapeleiras
As facas do talhante e as das peixeiras
Solda o funil das pipas e as asas de zinco
Enxertadas nas canecas de porcelana que têm de resistir às pancadas
No tampo de mármore das velhas mesas das tascas das redondezas.
Ouve-se, de novo, o bucólico pregão musical
A Tininha abre a porta e desaperta o avental
Já vai, senhor Oliveira?
Espere, que eu vou já à sua beira
É só este tachinho… está furado!
Faz-me tanta falta. Ponha-lhe um pinguinho.
Quando eu receber a féria há-de levar um fundo novo.
Ai senhor! Que triste a vida do povo!
Compõe a boina, pega na padiola e parte
Passa as costas de mão nos lábios e a música, renascendo,
espalha-se e lá vai anunciando a sua arte.



Amolador, na desaparecida Rua de Montebelo (hoje, seria um troço da Avenida Fernão de Magalhães, próximo ao Campo 24 de Agosto) 



Flauta usada pelos amoladores



Ao fundo da rua, na esquina da Avenida Camilo
Sentado num caixote que à noite levava na mão
Estava o cego com a mulher que cantava enquanto ele tocava acordeão.
Entre duas canções de sangue, saudade e dor, ouvia-se baixinho:
Pela alma de quem lá tem, dê uma esmola ao ceguinho!
De Ermesinde, Valongo, Valbom, S. Cosme ou Jovim
De pés descalços, alma de luto e voz silenciada
De porta em porta, ganhando a ceia azeda e suada
Vinham as lavadeiras, as carrejonas, e as leiteiras
E eram mulheres, mães, às vezes amantes, mas sempre guerreiras!
Eram o Sol, o Hino, a Alma e a vida das madrugadas tripeiras.
Neste cruzamento de ruas da freguesia do Bonfim
Morava a minha cidade perfumada de maresia e alecrim.
Pulsava forte o sangue do meu Porto de antigamente.
Ai como tenho orgulho deste Nobre Povo
Com quem cresci e aprendi a ser gente.



Lavadeira do Porto, em 1910


Leiteira

1 comentário: