quinta-feira, 18 de junho de 2026

25.308 Deambulando pelo lugar do Eirado e pela aldeia da Mouteira

 
Igreja Paroquial de Lordelo do Ouro
 
 
A igreja paroquial de Lordelo do Ouro, que esteve integrada no Padroado Real, situada no lugar de Eirado, actualmente marginal à Rua das Condominhas, começou a ser edificada em 1764, sobre um templo mais pequeno.
Do anterior templo aí existente, em 1278, há referências à existência de uma "Igreja de Lordello", nas inquirições de D. Afonso III e no Livro de Originais registado sob o nº 755 (livro XXIV, de 1564).
Nesses tempos já tinha sido extinto um eremitério situado no Monte de Santa Eulália (local da implantação da igreja de Nossa Senhora da Ajuda), cujos monges pagavam a dízima à “Igreja de S. Martinho de Ouredo”.
Em 1788, são reedificadas a capela-mor e a sacristia, tendo recebido a sua primeira torre sineira em 1867.
Aliás, todas as intervenções na área geográfica daquele templo foram atrasadas, compreensivelmente, pela ocorrência quer das Invasões Francesas, quer pelo drama do Cerco do Porto.
O orago do templo religioso é S. Martinho e, em 1758, de acordo com as Memórias Paroquiais, já por lá existia uma Confraria do Santíssimo Sacramento do Senhor do Bonfim e Almas e, mesmo antes, em 20 de Fevereiro de 1721, é feito um contrato entre a Confraria do Santíssimo Sacramento e o organeiro Padre Frei Gabriel de São Teotónio, para a execução de um órgão, por 81$600 réis.
Aliás, a existência da confraria é atestada, também, em 1745, quando Frutuoso de Faria, emigrado no Brasil, fez testamento de uma fortuna considerável à Confraria do Santíssimo Sacramento do Senhor do Bonfim e Almas.
Deste acto, decorreu uma contenda com a Colegiada de Cedofeita que teve a intervenção de Bento XIV a pedido do Bispo do Porto e cuja decisão beneficiava a colegiada, pela simples razão de que a paróquia "… Lordelo do Ouro ficar no campo, longe da cidade…".
Com este artifício, se beneficiava a Insigne (Colegiada de Cedofeita), transferindo-lhe as capelanias, que tinham associado um valor monetário importante e que o testamento atribuía à confraria.
Decorridos treze anos, o caso continuava sem uma resolução.
Porém, em 20 de Junho de 1869, o Governador Civil dá como extinta a Confraria do Senhor do Bonfim e Almas, na Igreja de Lordelo do Ouro, por já não ter irmãos que tomassem conta da sua administração.
Em 1888, a frontaria e as torres sineiras da igreja foram cobertas de azulejos, obra da já desaparecida Fábrica de Cerâmica de Massarelos. O corpo da igreja só viria a ser igualmente revestido em 1949, tendo sido ainda remodelado em 1982.
Até 1836, Lordelo do Ouro fazia parte do Julgado de Bouças, Comarca da Maia, Bispado do Porto e ficava "no campo, longe da cidade".
Antes, todo aquele território, fazia parte do couto de Santa Eulália ou Santa Ovala, doado por D. Afonso Henriques ao Mosteiro de Tarouca.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, Lordelo do Ouro é apresentada como uma freguesia do Julgado de Bouças, com quatro lugares (Ouro, Monte da Carreira, Eirado e Arrábida) e sete aldeias (Granja, Sobreira, Mazorra, Mouteira, Montideira, Serralves e Pinheiro).
Por sua vez, Lordelo do Ouro, no mesmo documento, apresentava-se com quatro capelas.
 
 
 

Descrição das capelas de Lordelo do Ouro nas Memórias Paroquiais de 1758
 
 

Os padroados particulares foram extintos após a revolução liberal durante o século XIX e os padroados estatais em Abril de 1911.


 

Igreja de São Martinho de Lordelo do Ouro, c. 1950

 
 
 
Capela de S. Francisco Xavier
 
 
A primeira capela de Lordelo do Ouro, referida nas Memórias Paroquiais de 1758 dizia-se, ficava situada no sopé do Monte da Carreira, junto da ponte que fazia parte do traçado da Estrada de Matosinhos, e era propriedade particular do padre Manuel Pereira Godins.
Nos nossos dias, situar-se-ia, no início (a sul) da actual Rua de Serralves e a ponte referida, de cantaria e respectivo arco, permitia o atravessamento da ribeira da Granja, vinda dos lados da Prelada e que desagua, no Ouro, no Largo António Calém.
Actualmente, em grande parte do seu trajecto, a ponte está entubada.
A Rua de Serralves, antes, era um antigo caminho rústico que ligava a igreja de S. Martinho de Lordelo do Ouro à Fonte da Moura, onde um padrão assinalava o termo de Lordelo e o começo de Aldoar (ambas pertencentes, então, ao concelho de Bouças, hoje, Matosinhos) e, continuando pela Rua da Vilarinha se chegava ao Lugar de Matosinhos.
 
 
 
 
Hospício (Brévia) e Capela de S. Francisco de Paula
 
 
Junto da capela do padre Godins, quem se vai instalar, em 1780, são os membros de uma ordem religiosa, conhecida como os Mínimos.
Ainda antes do século XVIII, o local faria parte da Quinta de Cima ou Quinta de Cima da Ponte ou, ainda, Quinta da Ponte. 
A Ordem dos Mínimos é uma ordem religiosa mendicante católica fundada no século XV por São Francisco de Paula (italiano, canonizado em 1519).
Os Mínimos, que passaram a mendigar pela cidade, tinham a sua sede na Pampulha, na actual freguesia da Estrela, em Lisboa e por cá se instalaram num hospício que funcionava como brévia, isto é, local de repouso e a capela existente ficou a servir a ordem, mas tendo por orago São Francisco de Paula.
Julga-se que a ordem abandonou as instalações no Monte da Carreira, a quando da 2.ª invasão napoleónica, em 1809.
Assim, quando o local foi, durante as lutas do Cerco do Porto, em 1833/34, um palco importante, os mínimos há muito que tinham abandonado o local.
Após as destruições provenientes das vicissitudes da guerra civil, em 1834, a Fazenda Nacional vendeu a propriedade a João Eduardo de Brito e Cunha.
Entre 1878 e 1880, nas instalações referidas funcionou a Associação Lusitana e, posteriormente, tomou posse delas, José da Silva Monteiro, um negociante e capitalista, dono de uma fábrica de moagem.
A partir de 1901, aparece como proprietário José Joaquim Gouveia, armador de navios bacalhoeiros e dono de uma seca de bacalhau.
Aí viveu, durante anos, a família Gouveia num palacete pegado à antiga brévia.
Por isso, a capela também passou a ser designada por Capela do Gouveia.
 
 
 

Ruínas da Capela do Gouveia e Hospício anexo, na Rua de Serralves, em 2014 – Fonte: Google maps
 
 
 
 
Fábrica de Lanifícios de Lordelo ou Fábrica de Serralves
 
 
 
No lado poente da Estrada de Matosinhos, precisamente no mesmo local, desde 1803, passou a funcionar uma fábrica têxtil.
Rua de Serralves que, antes, era um antigo caminho rústico que ligava a igreja de S. Martinho de Lordelo do Ouro à Fonte da Moura, onde um padrão assinalava o termo de Lordelo e o começo de Aldoar (ambas pertencentes, então, ao concelho de Bouças) e, continuando pela Rua da Vilarinha se chegava ao Lugar de Matosinhos.
A unidade fabril foi edificada, na aldeia da Mouteira, em terrenos da serventia dos vizinhos frades Minímos, por Plácido Lino dos Santos Teixeira, que vivia nas próprias instalações da fábrica, no 1.º andar.
O convento ter-se-á situado, portanto, no lado nascente da rua.
Em 1832, durante o cerco do Porto, a fábrica encerra, sendo ocupada pelas tropas de D. Miguel, após serem desalojadas do seu reduto na vizinha Pasteleira.
Tudo aponta para que o célebre Forte de Serralves tenha ocupado o seu lugar junto do reservatório de água da fábrica.
No fim do conflito fratricida, a Fábrica de Lanifícios de Lordelo estava destruída e seria tomada por um incêndio
A sua actividade industrial viria, apenas, a ser retomada em 1852, numa nova unidade industrial, que nasceu sobre os escombros da anterior, com a sociedade Garcia & Barbedo e, em 1853, passou a ser uma sociedade anónima com o nome “Companhia de Lanifícios de Lordelo”.
Durante todo o século XIX, a unidade industrial era popularmente conhecida por Fábrica dos Panos.
Em 1918, já sob o comando do industrial e capitalista Thomaz José Rosas, a fábrica é ampliada, com a introdução de novos teares e as instalações beneficiadas com refeitório e balneários.
A fachada foi toda alterada e, ao centro, foi dotada com um relógio.
 
 
 

Fábrica de Lanifícios de Lordelo, c. 1918
 
 
 
A Fábrica de Lanifícios de Lordelo funcionou durante grande parte do século XX, mas a sua actividade industrial principal cessou definitivamente durante meados da década de 1980.

 
 

Entrada da Fábrica de Lanifícios de Lordelo e o seu relógio – Cortesia de Joaquim Morais Oliveira

 
 
 

Interior da Fábrica de Lanifícios de Lordelo
 
 
 
Durante a década de 2010, as instalações fabris, há muito abandonadas e em ruínas, começaram a ser reabilitadas e convertidas num empreendimento residencial.
 
 
 

Instalações recuperadas da Fábrica de Lanifícios de Lordelo e complexo habitacional adjacente – Cortesia de José Magalhães

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