sexta-feira, 11 de setembro de 2026

25.317 Mais perguntas que respostas

 
Sobre o palacete, situado na Rua Formosa, n.ºs 108-116, paira um certo mistério nas suas origens e os dados e informações, que se podem recolher nos arquivos, não permitem obter respostas concisas.
Por isso, apresentar-se-ão as investigações efectuadas e as conclusões ficarão ao critério de cada um.
 
 
 

Palacete, na Rua Formosa, n.ºs 108-116, onde esteve o Liceu Nacional – Ed. Graça Correia



 
Primeiro proprietário do palacete
 
 
Fazendo uma busca, segundo os moldes habituais, no Arquivo Histórico Municipal do Porto (AHMP), chegámos à conclusão de que o respectivo processo de licenciamento poderá ter-se perdido.
Existe um Documento/Processo referente a um pedido de licenciamento, perante a Junta de Obras Públicas, feita pelo juiz João Pereira Baptista Vieira Soares (1776-1852) e que consta de um desenho de uma fachada de um prédio, na Rua Formosa, com data de 26 de Abril de 1824.
Faz parte do mesmo processo, um outro desenho com despacho de 22 de Julho de 1825, que constitui um pedido de rectificação ao desenho da fachada inicialmente apresentada, o que foi autorizado por Joaquim da Costa Lima e Sampaio.
Sobre os desenhos das fachadas vem, em ambos os casos, expresso que o proprietário e requerente da autorização é aquele juiz.
De notar que, à data, se viviam tempos de pré guerra civil e que, a reorganização municipal dela decorrente ainda estava para vir, como é óbvio.
Não é fácil encontrar factos históricos para caracterizar a personagem do juiz, mas sabe-se que seria um fervoroso liberal, tendo estado exilado no Brasil entre 1828 e 1834, período durante o qual D. Miguel esteve à frente dos destinos do reino.
Conseguimos também saber que, em 23 de Janeiro de 1851, Camilo Castelo Branco e o jornalista do jornal “A Pátria”, João Augusto Novaes Vieira, o “Novais dos óculos”, envolveram-se numa acesa polémica pública. O conflito teve como cerne “negócios de saias” e escalou para agressões físicas no Teatro de São João, no Porto, resultando numa queixa-crime formal por injúrias e agressões.
Foi perante João Pereira Baptista Vieira Soares, que exercia as funções de Juiz de Direito Criminal Substituto, na cidade do Porto, que Novaes Vieira apresentou a petição e a querela criminal contra Camilo Castelo Branco e D. Luís da Câmara, presente no referido teatro no momento da ocorrência dos factos.
 
 
   

Desenho da fachada apresentado em 1824
 
 
 
 

Desenho da fachada apresentado em 1825


 
João Pereira Baptista Vieira Soares terá sido, proprietário e, por certo, também, morador num outro prédio, situado na Rua Formosa, n.ºs 201-203, pois, para aqui, em 2 de Novembro de 1857, o banqueiro Joaquim Pinto da Fonseca solicitava à Câmara do Porto uma autorização de obras, para um prédio da Rua Formosa.
Do requerimento respectivo constava o desenho da fachada (que a seguir se apresenta) e cujo processo, obteve a licença n.º 373/1857 de 2 de Novembro.
 
 
 

Desenho da fachada de prédio referente à licença n.º 373/1857


 
No pedido de obras, solicitado pelo banqueiro à Câmara do Porto, é especificado que se pretendia, numa casa que tinha sido adquirida aos herdeiros do juiz João Pereira Baptista Vieira Soares, intervir no mesmo com o acrescento de mais um andar.
Comparando o desenho das fachadas de 1825 e 1857, não há dúvidas.
Pela observação da arquitectura da casa do Juiz João Pereira Baptista Vieira Soares e daquela que é o nosso alvo, apenas se poderá concluir que têm fachadas parecidas e, talvez da mesma época.
 
 
 

Rua Formosa, n.ºs 201-203
 
 
   
Aqui chegados, importa fazer uma pausa e fazer algumas perguntas:
 
1) Quem construiu a casa sita à Rua Formosa, n.ºs 108-116?
2) Quando foi concluída a sua construção e quem a ocupou até 1862?
 
 
De qualquer das perguntas anteriores não temos respostas e, só para além do período temporal da última pergunta, começámos a conhecer alguns factos históricos.
 

 
Ocupação do Palacete
 
 
Assim, a partir de 1862, o Liceu Nacional do Porto vai nele instalar-se, vindo do edifício da Escola Politécnica (à Praça dos Voluntários da Rainha ou Praça dos Leões) e por lá fica até 1866.

 
 

In “Jornal do Porto” de 26 de Junho de 1866

 
 
Sabe-se que o inquilino seguinte foi o “Colégio Francês/Escola Comercial”, de J. R. Mesnier.
Em 1871, já aquele colégio tinha tomado o nome de “Colégio Lusitano” e, por aí, continuaria até que, vindo do Jardim de S. Lázaro, lá se instalou o Colégio de S. Lázaro, a partir de 1877.
 
 
 

Publicidade ao Colégio de S. Lázaro, no “Jornal do Porto”, de 24 de Setembro de 1876, com a indicação de José Maria Guedes de Azevedo, como seu director. No ano seguinte, o colégio romaria até à Rua Formosa
 
 
 
Em 28 de Agosto de 1883, numa época em que o prédio era ocupado pelo Colégio São Lázaro, apresentava-se como proprietário do edifício, em requerimento dirigido à Câmara do Porto, para obtenção de licença de obras e substituição de canalizações, José Maria Guedes de Azevedo (director do estabelecimento de ensino).
Em data ignota, que reportará já ao início do século XX, a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, fundada em 1864, pelo político e jornalista Anselmo de Morais, com a sua primitiva sede, na Rua do Bonjardim, muda-se para a Rua Formosa, nºs 108-116.
Em 1922, já era proprietário do prédio, Domingos Carlos de Oliveira, que em requerimento solicitava à Câmara do Porto, licença para  “substituir soalhos, capear escadas, reparar tapamentos, etc”.
Em 1975, a Tipografia “Imprensa Portuguesa” por lá continuava, dividindo instalações com entrada pelo n.º 112, no 1.º andar, a firma Soares de Mendonça, Lda. – Agência de Leilões e, no 2.º andar, Confecções Invicta (Agostinho & Freitas, Lda.) e, ao longo dos anos, distintas firmas de diversos sectores de actividade foram alocadas nas mesmas áreas.
Em 1981, Domingos Dias da Silva, que era sócio, desde 1954, duma tipografia de referência na cidade, com firma “Manuel Ferreira & Silva”, localizada na Praça Coronel Pacheco, adquire a Tipografia “Imprensa Portuguesa” e junta, aí, aquelas duas firmas, de que passa a ser o sócio principal.
O edifício, onde esteve alocada, durante anos, a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, foi recuperado para funções habitacionais, há pouco tempo, com projecto do atelier “Garcia & Albuquerque”, que a propósito do edificado sobre o qual interveio, diz:
 
 
“ (…) espelhando no espaço hoje mantido como garagem e aparcamento automóvel, o local onde outrora as máquinas tipográficas e de impressão funcionavam em plena actividade durante a sua época áurea, nesta nave industrial”.
 
 
 
Ocupação do Palacete no período da transição de séculos
 
 
Entre o longo período de tempo que passou desde a ocupação pelo Liceu Nacional do Porto e a actualidade, duas perguntas se impõem:
 
3) Em que ano se mudou a Tipografia “Imprensa Portuguesa” para a Rua Formosa?
4) Quem foi o visconde S. Carlos e qual a sua ligação ao palacete e à Rua Formosa?
 
 

Quanto à primeira questão apenas se pode dizer, que a firma "Imprensa Portugueza - Anselmo Morais (sucessores)" já por lá estava, em 1908, pois é feita a respectiva referência no "Annuario do Commercio do Porto e seu Distrito" daquele ano.
As restantes interrogações poderão ser respondidas ou não, se conseguirmos solucionar as dúvidas seguintes, que resultam de um texto de Luís Manuel Dias Borges Cabral (1953–2024), um proeminente bibliotecário, arquivista e docente português, natural do Porto.
Sobre a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, dizia:
 
“Esta firma havia sido fundada por Anselmo de Morais em 1864, constituindo um espaço que recorda a figura de Camilo Castelo Branco, sendo uma tipografia ligada ao republicanismo e que teve relevante atividade editorial. No mesmo local – o palacete do Visconde de São Carlos, na Rua Formosa, nºs 108-116 – ficaram assim juntas as duas firmas de que Domingos Silva é hoje sócio principal, a da tipografia (Imprensa Portuguesa) e a de encadernação (Manuel Ferreira & Silva).
A evolução tecnológica conduziu à encadernação mecânica ou industrial, área em que a empresa também singrou, localizando-se atualmente em Lavra, Matosinhos. Nessas novas instalações tem sido desenvolvido trabalho de qualidade tanto para o mercado nacional como para o estrangeiro.”
Cortesia de Luís Manuel Dias Borges Cabral, In revista “As Artes Entre as Letras”, nº 126 de 16 de Julho de 2014
 

 
Ao edifício alvo de todas estas divagações, Luís Cabral vai chamá-lo, no texto acima, de Palacete do Visconde S. Carlos.
O título de visconde de São Carlos foi atribuído por D. Carlos, por Decreto de 09-07-1904, a Carlos Fernandes Vieira, nascido em 3 de Fevereiro de 1887, na freguesia de Santo Ildefonso  e enviuvado em 1907, após um breve casamento.
Carlos Fernandes Vieira foi casado com Amélia Guimarães Alves Quintela Vieira, nascida em 19 de Agosto de 1885 e falecida, apenas, com 21 anos, em 9 de Março de 1907, conforme anúncios que se seguem.



In jornal "A Voz Pública" de 10 de Março de 1907



In jornal "O Comércio do Porto" de 10 de Março de 1907




Amélia Vieira era filha do Conselheiro José Luciano Alves Quintela, médico (falecido a 21-03-1909) e de Amélia Ermelinda Guimarães Alves Quintela.
José Luciano fez testamento a 02-08-1882, no qual declarou residir na Rua Gonçalo Cristóvão, nº 314, e ter um filho ainda vivo, Eduardo Alves Quintela, nascido em  05-12-1876.
À data do seu falecimento, em 3 de Abril de 1909, já a sua filha Amélia tinha falecido e a sua outra filha, Maria Beatriz Quintela Lopes de Carvalho tinha casado com Gaspar Xavier da Cunha Lima Sousa e Melo, um rico proprietário oriundo de Alpendorada, conde de Vale de Rica e que, com ela fazia um segundo casamento.
Em Abril de 1903, aquando da elaboração do testamento da viscondessa de S. Carlos, Amélia Guimarães Alves Quintela Vieira dizia ser casada, sem filhos e viver na Rua Formosa, n.º 90.
Portanto, Amélia Vieira, nascida em 1885, já estava casada em 1903 e viria a falecer em 1907.
Deste enlace houve uma filha de seu nome Noémia Fernandes Guimarães Alves Quintela Vieira, que virá a casar com António Ventura Forbes de Bessa.
Por esta razão e por que no testamento, Amélia Vieira se diz sem filhos, talvez tenha falecido durante o parto, ou em consequência do mesmo, ou não tenha sido possível fazer um testamento de substituição.
Carlos Fernandes Vieira era filho de António dos Santos Vieira e Ana Fernandes de cujo casamento houve ainda uma irmã, de seu nome Maria Fernandes Vieira.
António dos Santos Vieira faleceu em 24 de Junho de 1902 e o testamento foi elaborado em 18 de Junho de 1900.
Nele, António dos Santos Vieira era tido como um grande proprietário e capitalista, já se dizia viúvo e ter dois filhos, Carlos e Maria.
Nomeava, ainda, Florinda Fernandes Vieira como sua sobrinha e Maria Fernandes Vieira (com o mesmo nome de sua filha) como sua cunhada, como pequenas beneficiadas.
Entretanto, um tal José de Oliveira Guedes casa com Maria Fernandes Vieira e de cujo enlace houve Manuel António Vieira Guedes (2.º visconde S. Carlos, nascido em 12/06/1922 e falecido em 2016 e de Maria José e Maria Isabel Vieira Guedes.
José Oliveira Guedes vinha de um primeiro casamento com Florinda Fernandes Vieira de cujo casamento houve filhos, José Carlos Vieira Guedes e Maria do Loreto Vieira Guedes.
Tudo indica que nos casamentos de José de Oliveira Guedes, as consortes são primas: Florinda será a tal sobrinha de António Santos Vieira e Maria Fernandes Vieira a sua própria filha.
O 2.º visconde de S. Carlos será, então, sobrinho de Carlos Fernandes Vieira, o 1.º visconde de S. Carlos.
Pela notícia seguinte, sobre o velório da viscondessa de S. Carlos, se pode fazer uma ideia do tipo de pessoas que, em vida, a rodeavam.



In jornal "O Comércio do Porto" de 12 de Março de 1907



Na notícia anterior, Maria Cupertino seria, por certo, Maria Neves Cupertino de Miranda, e o seu marido A. Cupertino de Miranda seria Augusto Cupertino de Miranda (1876-1934), com quem tinha casado em 27 de Junho de 1903. Os irmãos de Augusto, António Cupertino de Miranda e Artur Cupertino de Miranda tinham, apenas, à data, 17 e 11 anos, respectivamente.
Augusto Cupertino de Miranda acabaria, mais tarde, por ser banqueiro, actividade que abandonou para exercer a advocacia.
Sabe-se que, após o falecimento da viscondessa de S. Carlos, o visconde já se correspondia, no final desse ano trágico de 1907, com uma tal Maria F. Vieira, com o envio de postais ilustrados.
Do facto nos dá conta Américo de Castro Freitas, em 23 de Novembro de 2016, no seu blogue Matosinhos Antigo.

 
 
“Numa das minhas incessantes buscas de postais de Matosinhos, ou por aqui circulados, encontrei um grupo deles que, em parte, eram endereçados a uma Maria F. Vieira, então moradora na Rua Juncal de Cima (usava ainda a denominação antiga) n.º 127. Eram enviados, na maioria, por um tal Carlos. Porém, e nos postais posteriores á data do decreto de criação do título, passa a assinar visconde de S. Carlos (título criado por D. Carlos por Decreto de 09-07-1904 e foi seu primeiro titular Carlos Fernandes Vieira, nasc. Santo Ildefonso, 03.02-1887)”.
Cortesia de Américo Castro Freitas

 
 

Postal assinado pelo Visconde de S. Carlos, em 29 de Novembro de 1907 – Colecção de Américo Castro Freitas



Certamente, Maria F. Vieira, a destinatária do postal, moradora em Matosinhos, seria a cunhada de António dos Santos Vieira e, portanto, tia do visconde S. Carlos.
Entretanto, no início do século XX, Maria Fernandes Vieira, a irmã do visconde S. Carlos, era dada como proprietária do prédio na Rua Formosa, nº 98-102, vizinho daquele a que o visconde deu o seu nome.
Em 1906 e 1907, solicitava à Câmara licença para a realização de obras e, numa delas, o acrescento de mais um andar ao prédio.
Acresce que, em 21 de Outubro de 1901, tinha sido solicitada uma licença de obras, que obteria o n.º 2237/1901, para a morada da Rua Formosa, n.ºs 94-96, pelo proprietário António Vieira dos Santos (possivelmente e, por lapso do empreiteiro, seria António dos Santos Vieira), contígua à anteriormente referida.
Tudo indica que António dos Santos Vieira seria, então, à data do seu falecimento, o proprietário de um correr de moradas na Rua Formosa e que uma delas será herdada por sua filha.
Continua, no entanto, a desconhecer-se em que qualidade o visconde de S. Carlos emprestou o seu título nobiliárquico à identificação do palacete sito na Rua Formosa, n.ºs 108-116.
Por isso, as últimas perguntas ficam sem a devida resposta.

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