segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

25.28 O Quiosque do Sebastião - Actualização em 26/05 e 09/11/2020


Na Praça D. Pedro, actual Praça da Liberdade e, antigamente, a Praça Nova, existiu, até à entrada da década de 30 do século XX, um quiosque que convivia bem de perto com a estátua do rei-soldado.



Em primeiro plano, o Quiosque do Sebastião



Quem explorava o quiosque era o Sebastião, conhecido como o Correligionário, pois, fosse de que partido político fosse o freguês que lhe comprava o jornal, ele cumprimentava-o da seguinte forma: Então como passa o correligionário?
Diga-se em abono da verdade, que o quiosque não era propriedade do Sebastião que, de facto, o tinha arrendado à Câmara.
Chegada a vez de ser o Sebastião o contemplado com o arrendamento do espaço, por ali passou a fazer o comércio de jornais, tabacos, lotarias, postais ilustrados e outras bugigangas, tendo como clientes os lojistas do sítio, os jornalistas que trabalhavam na redacção dos jornais, por ali instalados, os frequentadores dos cafés e restaurantes próximos e outros passantes.
Antes, o Sebastião teve balcão montado, a nascente da praça, com vistas para a estátua equestre de D. Pedro IV, quase na esquina do edifício com fachadas voltadas para aquela praça e para o Largo da Feira de S. Bento.  Em 1892, ainda o Sebastião estava por aqui.
O negócio era feito através do peitoril de uma janela para o passeio.
O senhorio, o banqueiro Pinto da Fonseca, necessitou de fazer obras no prédio e foi necessário remodelá-lo. 
Foi quando o Sebastião se instalou no quiosque de ferro, propriedade da Câmara.
Um dos jornais que se destacavam naqueles tempos, ficava bem próximo e, em frente, no palacete das Cardosas, num primeiro andar, mesmo por cima do arco da entrada para o espaço da anterior cerca do antigo convento. Era o Diário da Tarde.
O Diário da Tarde teve existência entre 1871 e 1874 e, depois de um interregno, voltou às bancas em 1898 e manteve-se até 1911.
O seu suplemento, um almanak, era muito apreciado.



Em 1900, a redacção do Diário da Tarde, à esquerda, com tabuleta no 1º andar


Fac-simile do cabeçalho do jornal "Diário da Tarde"





Bem junto, no mesmo edifício, tinha existência a “Laporte” que comercializava artigos para a caça e onde esteve em exposição, em 1894, uma bicicleta fabricada na oficina de Figueiredo Júnior, à Rua do Campo Pequeno (já desaparecida e ficava para as bandas, do que é hoje, o Largo da Maternidade Júlio Dinis).
A nascente da praça, pontificava o Café Central, hoje o MacDonalds, o restaurante  “O Camanho” e o café/cervejaria "Porto Club".
A poente, ficava “A Flora Portuense” onde Aurélio da Paz dos Reis tinha a sua casa de venda de sementes, flores e outros artigos similiares e, ainda, algo que estivesse ligado à sua grande paixão - a fotografia e o cinema.
Ao lado, a Cervejaria Sá Reis, que duraria até 2017, com as portas abertas.



Sebastião Vieira de Magalhães no seu quiosque



Vista para a Praça da Liberdade, no início do século XX – Fonte: “Porto – Os Recantos do Passado” de Germano Silva, Porto Editora




Na foto acima, é visível, à esquerda, na Praça da Liberdade, o quiosque do Sebastião, nessa época e fruto de intervenções urbanísticas, situado isoladamente numa placa da dita praça.
Sobre a revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891, o Sebastião conhecia todos os pormenores, pois assistiu de "palanque", ainda na sua primeira morada, à metralha lançada pelas batarias da Polícia Municipal sobre os revoltosos entrincheirados na Câmara.
Sobre o Sebastião Vieira de Magalhães, conta-nos o comediante Arnaldo Leite a seguinte história:








No prédio da esquina, adossado à igreja dos Congregados, esteve, primitivamente, o Sebastião 






A Tabacaria Arnaldo Soares, vinda dos Lóios, havia de ter uma primitiva instalação, na esquina do prédio, com fachadas voltadas para a Praça D. Pedro e Largo da Feira de S. Bento.
A Casa Bancária de Pinto da Fonseca & Irmão era, inicialmente, no 1º andar, com entrada pela praça, entre a Tabacaria de Arnaldo Soares e uma pastelaria, que teve vida efémera.
Esta, seria substituída por uma filial da camisaria de José Melo, dos Clérigos.
Foi, pois, o chão desta loja, que não vingou, o local onde se estabeleceu a Tabacaria Arnaldo Soares, que cedeu o seu primitivo lugar, na esquina do prédio, à casa Pinto da Fonseca que, para aí, estendeu o seu negócio bancário. Porém, com o abandono da Tabacaria Arnaldo Soares, a casa bancária acabou por ocupar todo o rés-do-chão do prédio. Foram feitas obras e lançada uma escada interior para o 1.º andar.
Pouco depois, o prédio foi demolido e um outro foi implantado no mesmo local.



A Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão, em novo prédio




A inauguração das novas instalações ocorreu no dia 7 de Dezembro de 1901.
Mais tarde, no fim da década de 1910, para instalação do Banco Nacional Ultramarino, seria acrescentado mais um andar ao prédio e anexados mais dois, que lhe eram contíguos.






O Sebastião na sua pileca – caricatura de Manuel Monterroso




À esquerda, em 1912, o "Quiosque do Sebastião"



O Pirolito, semanário humorístico de Arnaldo Leite e Carvalho Barbosa, caricaturava em 7 de Março de 1931, a propósito da demolição do célebre Quiosque do Sebastião (Sebastião Vieira de Magalhães usava o típico barrete judaico e barba e faleceu nos anos 20 do século passado).










O mesmo semanário "Pirolito", nº 9, de 21 de Março de 1931, com alusão às estátuas da Menina Nua e do rei D. Pedro IV e à remoção do quiosque, escrevia:

"Havia um tempo já, que a praça era catita, 
E frequentava a mesma, uma rapariguita, 
De risonho perfil, mágico e expressivo, 
Elegante e roliça, olhar esperto e vivo, 
Vestida de mãe Eva, de frio a tiritar. 
Mas uma vez D. Pedro, fitou-a ao passar: 
"diz-me cá, que é isso?... Andas nua, safada?..." 
"É a moda futura", responde a descarada. 
"Ah, sim, bem sei, adiante. Tens ar fino e matreiro, 
Não sabes do quiosque, meu velho companheiro?…"




Àcerca daquele quiosque, que o Sebastião tornou célebre, dizia Alberto Pimentel: “…ali está e há de estar, através dos tempos, o quiosque de ferro que resistiu à revolução de Janeiro”.
Esta profecia teve termo, em 1927, quando a Câmara, em virtude de um arranjo urbanístico, o demoliu.

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