sábado, 17 de fevereiro de 2024

25.224 “O Porto” continua em bolandas

 
Após a compra pela Câmara do Porto, no início do século XIX, do edifício de Monteiro Moreira, na Praça Nova, foi decidido dotar a fachada do mesmo com um frontão ornamentado com uma pedra de armas com o brasão da cidade.
Mais tarde, coroando o frontão, foi colocada uma estátua de um guerreiro, representando o Porto, com um elmo encimado de um dragão, o que remete para as Armas concebidas por Almeida Garrett em 1837.
No escudo, um brasão, possivelmente, dos inícios do século XIX, com uma cidade rodeada de muralhas, que encosta ao rio. 
 
 
 
 
 

“O Porto” encimando o antigo palacete que tinha sido morada de Monteiro Moreira
 
 
 
 

O “Porto” a quem o povo chamava “Malhão”
 
 
 
Já vem de 1293 a existência de uma estátua “Porto” ou “Pedra do Porto” que estava na Rua das Eiras e, segundo o Dr. Artur de Magalhães Basto terá passado, em 1503, para a Rua Francisca, perto dos Açougues. Sousa Reis refere-se-lhe da forma seguinte: 

 
“…e sobre uma padieira se levantava em meio relevo e muito mal trabalhado e até monstruoso homem feito de pedra…e numa mão tinha uma haste, talvez figurando a lança de um guerreiro; a esta figura chamavam O Porto”. 

 
Desconhece-se onde este “Porto Velho” foi parar. É possível que a estátua “O Porto”, hoje colocada, depois de muitas bolandas, na Sé, onde já tinha estado em dois locais distintos, tenha sido baseada pelos seus autores, naquele “Porto Velho”
Envolvida em polémica está a autoria da estátua do Porto, de 1815. Porém, parece ter ficado definitivamente aceite que tenha sido o Mestre João da Silva, que cobrou pelo trabalho trezentos e quarenta réis que a Câmara lhe pagou em três prestações.
A estátua é de João Silva como o atesta o documento referido por Magalhães Basto:


"... e por ele, João da Silva Mestre Pedreiro, morador na freguesia de Pedrozo, foi dito se obrigava a fazer hua figura de pedra, representado o Porto, para ser prostada (sic) no cume da caza do Passo do Concelho, sito na Praça Nova, pela quantia de tresentos quarenta e três mil e duzentos reis, em metal, pagos em três pagamentos iguais sendo o primeiro adiantado e os demais consecutivos no principio de cada um dos três meses da data em que se obriga a dar a dita figura pronta e posta no dito logar, mandando esta ilustríssima Câmara dar-lhe madeira para as pranchas e xaciamento para xaciar a figura quando houver de s guindar e para maior sigurança desta sua obrigação apresentoi como fiador e principal pagador a Francisco José de Moura Almeida Coutinho, morador aos Lavadouros..."
 
 
 
A estátua de “O Porto”, feita em pedra, representa a figura de um guerreiro, e esteve cerca de 100 anos na frontaria da Câmara do Porto, na Praça Nova até 1915.
Demolida que foi a Câmara Municipal do Porto situada na Praça D. Pedro, para a abertura da Avenida dos Aliados, a estátua do “O Porto”, foi sucessivamente deslocada para vários locais. 
Primeiro, para o Largo da Sé, quando em 1916 a C. M. Porto passou para o Paço Episcopal. Daqui, passou para a Avenida das Tílias no Palácio de Cristal; mudada, a partir de 16 de Novembro de 1951, para o Largo Arnaldo Gama, na parte exterior da Muralha Fernandina, onde existiu a Porta do Sol; foi depois “despachada” de novo para o Palácio de Cristal, a “olhar” o Roseiral. Há uns anos, foi posta atrás da falsa torre da Casa dos Vinte e Quatro, virada de costas para a cidade que a deveria apreciar. Já, em 2013, regressou à Praça da Liberdade, local para onde foi criada.
Por pouco tempo aqui esteve. No começo de 2024, voltou para a Sé, para junto da antiga Câmara.
A essa estátua, que representa “O Porto “, o povo chamava “ O Malhão “, e dedicou-lhe uma quadra:
“O Malhão da Praça nova / tem uma lança na mão /para matar os traidores que são falsos à Nação…”.

 
Germano Silva, em seu livro “Caminhos e Memórias” descreve-a da seguinte forma: 

 
“Há na estátua um pormenor para o qual pretendemos chamar à atenção do leitor por estas coisas do passado. Referimo-nos ao escudo que a figura segura na mão esquerda. Nele está gravado um brasão de armas da cidade que Armando de Matos, um especialista da matéria, considerou deveras curioso e diz porquê: “…primeiramente tem a incorrecção do elmo e timbre num brasão de domínio; em segundo lugar… não o encontro senão desta data (1802) em diante. E a notícia de que estas armas eram as do antigo Condado Portucalense não tem a menor consistência histórica…”. Outra curiosidade está nas roupagens e nos adereços. Alberto Pimentel escreveu que “a clâmide”, a lança e o escudo são gregos; o saio de correias e as grevas são romanos; o capacete não é grego nem romano, antes será um elmo de cimeira datando dos fins da idade média ou princípios da Renascença”.

 
 
O elmo, acima referido, ostenta um dragão. 
Assim, em 1818, o "artista" colocou o símbolo adoptado, definitivamente, pela dinastia dos Braganças que, a espaços, era utilizado pela realeza - o dragão.
Este ser mitológico viria, mais tarde, em 1837, a encimar o brasão portuense da autoria de Almeida Garrett, saindo de uma coroa ducal, pois, a partir daí, a cidade do Porto tinha passado a ter um duque (segundo filho da casal real).
Desde 1940, por deliberação da governação do Estado Novo, o dragão, muito associado às lutas dos portuenses pela liberdade, seria retirado das armas da cidade. No entanto, algumas agremiações, caso da Associação Comercial do Porto e do F. C. do Porto, sempre continuaram a ostentá-lo.


 

Entre 1916 e 1935, “O Porto” esteve junto da Câmara a funcionar no Paço Episcopal
 
 
 
 

“O Porto” no Palácio de Cristal
 
 
 

“O Porto” junto das muralhas. Actualmente, está lá a estátua de Arnaldo Gama

 
 

“O Porto”, na Sé, na sua primeira passagem pelas imediações da antiga Câmara recriada por Fernando Távora – Ed. portoantigo.org

 
 

 
“O Porto “ junto das instalações do Banco de Portugal – Ed. MAC

 
 
No início do ano de 2024, o guerreiro voltou para junto do edifício que recria a antiga Câmara do Porto, na Sé, onde já tinha estado.
 
 
 
 


 

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