quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

25.225 Rua D. João IV

 
O traçado da actual Rua de D. João IV foi executado em vários momentos.
Assim, a ligação entre o Largo do Padrão das Almas (Largo do Padrão) e o convento dos Capuchos (Biblioteca Municipal) correspondia à Viela dos Capuchos, que desapareceria quando, em 1843, começou a ser aberta a Rua D. João IV em direcção ao Monte de Santa Catarina, onde se encontraria com a Rua da Alegria e a Calçada do Luciano (Rua da Escola Normal).
No fim da década de 1880, a rua ficaria concluída.
Seria, até aos nossos dias, a Rua de D. João IV identificada por outros topónimos, tendo começado por se chamar Rua da Duquesa de Bragança, em honra de D. Amélia de Beaucharnais, da Baviera, que foi a segunda mulher de D. Pedro, primeiro imperador do Brasil, o nosso D. Pedro IV, duque de Bragança.
Em 16 de Julho de 1912, já na Repú­blica, a comissão municipal republicana sugeriu à Câmara do Porto que à Rua da Duquesa de Bragança se desse o nome de D. Rodrigo Soriano, deputado espanhol que os nossos republicanos consideravam como "um dos maiores amigos de Portu­gal". O pedido não foi aceite. E, em Setem­bro do mesmo ano, foi feita nova suges­tão: pedia-se à Câmara que mudasse o nome de Duquesa de Bragança para Rua dos Heróis de Chaves.
Queria-se com esta mudança lembrar o combate que naque­la cidade transmontana se travou, em 1912, durante as denominadas "Incursões do Norte". Desta vez a sugestão foi aceite. Só muito mais tarde a denominação da rua voltou a mudar. Desta vez deram-lhe o nome do rei restaurador, D. João IV.  
 
 
 
“A Rua de D. João IV tem menos de duzentos anos. Pois, mas neste espaço de tempo, relativamente curto, já mudou de nome três vezes. Não figura ainda, por exemplo, na chama­da planta de Costa Lima, elaborada em 1839. Mas, cinco anos depois, numa outra planta topográfica, a de Perry Vidal (1844) já aparece, embora apenas em esboço, seguindo o traçado de um antigo e tortuoso caminho rústico que já lá existia desde tempos muito antigos. O projeto inicial desta nova artéria previa que ela fosse de S. Lázaro à Cruz das Regateiras, na Rua de Costa Cabral, junto ao hospital do Conde de Ferreira. Tem, efetivamente, o seu início junto ao jardim de S. Lázaro, mas acaba na Rua da Alegria, junto ao monumental edifício da Cooperativa dos Pedreiros. Logo no início, ou seja, junto ao jardim de S. Lázaro, as obras só começaram depois da expropriação dos pardieiros da antiquíssima viela dos Capuchos e do alargamento desta (…).
Quando a nova rua começou a ser cons­truída, do lado nascente havia campos de cul­tivo; quintas muradas "com suas vinhas e po­mares"; e extensos terrenos alagadiços, de que nos ficou na memória a travessa do Poço das Patas (alusão a zonas alagadas onde predomi­navam aquelas aves). 
Do lado poente começava a nascer, por essa altura, uma cidade nova. Atente-se, por exemplo, no traçado assimétrico das ruas des­te bairro, em flagrante contraste com as rue­las tortuosas do Porto medieval. Era a cidade do liberalismo que despontava e que viria a ser procurada, especialmente, por brasileiros "de torna-viagem" para aí construírem as suas residências apalaçadas muitas das quais per­sistem na Rua de D. João IV. 
A rua só ficou concluída em 1875. 
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 
Antes e depois, um troço da Rua D. João IV junto à Rua das Oliveirinhas, à direita
 
 
 
A Rua das Oliveirinhas da foto anterior está inserida num quarteirão habitacio­nal dos mais curiosos e tí­picos desta zona da cidade. Todos estes arruamentos ao redor foram rasgados em terrenos que outrora pertenceram a uma enorme quinta de que era proprie­tário um tal Brás de Abreu Guimarães, rico negociante portuense que nestes sítios montou uma fábrica de seda que chegou a dar nome a uma das ruas des­te bairro que hoje não é possível identificar e que nos fins do século XVIII ainda tinha existência: Rua da Seda; Rua da Fábrica da Seda; Rua Direita da Fábrica da Seda, Rua da Fábrica da Seda de Brás de Abreu; Rua da Fábrica das Almas.
 
 
 

Planta de Perry Vidal
 
 
 
O tortuoso caminho a amarelo no seu início, coincidia com o traçado da futura Rua Duquesa de Bragança, a azul. O restante traçado a amarelo daria origem à Rua Dr. Alves da Veiga que antes se chamou de Malmerendas.
 
 
 
 

O local actual, na Rua D. João IV, nº 369, que foi ocupado pela "Auto-Motora"
 
 
 
No local da foto acima esteve, desde 1907, a “Auto-Motora” que no dia da sua inauguração teve milhares de visitantes a apreciar as novidades auto.
A Rua D. João IV termina, praticamente, próximo do cume do antigamente conhecido como Monte de Santa Catarina, onde se junta à Rua da Alegria que, vinda da Praça dos Poveiros, continua até encontrar a Rua de Costa Cabral, constituindo o acesso ao cabeço pela vertente sul.
O acesso pela vertente a poente é proporcionado pelas ruas Firmeza (conectando com a Rua da Alegria) e Rampa da Escola Normal (antiga Calçada do Luciano).
O alto do Monte de Santa Catarina, Monte dos Congregados ou Monte do Tadeu é o ponto mais alto, geograficamente, da cidade do Porto.
Em 1680, uns frades, da ordem de S. Filipe Nery, construíram na cidade a sua casa, no local onde hoje está a Igreja dos Congregados, em frente à Estação de S. Bento.
Em 1715, obtiveram para seu recreio um vasto espaço com casa que também servia de hospital no Monte de Santa Catarina.
Este topónimo radica numa capela de Santa Catarina situada na base do monte, em Fradelos, na margem esquerda da ribeira de Fradelos, e que viria a dar origem à Capela das Almas.
Em 1834, com a vitória dos liberais, como epílogo do Cerco do Porto, foram dadas como extintas as ordens religiosas.
Um tal de Moreira, que ainda hoje tem nome de rua nas imediações, licitou a antiga propriedade dos frades. Mais tarde, é adquirida por uma tal Tadeu (daí o topónimo).
Por lá, funcionou uma pedreira, mas no início do século XX, no cume do monte foram instalados os depósitos que iriam abastecer de água a cidade com a sua distribuição ao domicílio.

 
 

À direita, os depósitos de água que abastecem a cidade e, à esquerda, o alto edifício da Cooperativa dos Pedreiros
 
 
 

Depósito primitivo de água – Ed. Jportojo
 


 
In revista “O Tripeiro”, Série VI, Ano XI

 

 

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