quinta-feira, 22 de junho de 2017

(Continuação 14) - Actualização em 26/06/2018

Os prédios existentes entre a cadeia e o Jardim da Cordoaria

Entre os prédios (visíveis no desenho acima) existentes entre a Cadeia da Relação e o Jardim da Cordoaria ficava a Muralha Fernandina.
Essa série de casas situava-se entre o actual prédio onde funciona a farmácia Antiga da Porta do Olival, no alto da Rua da Assunção, e a Igreja de S. José das Taipas, e apenas era interrompida pela Porta do Olival, que ficava fronteira à Rua de S. Bento da Vitória e por uma curta ladeira ou rampa que dava acesso à Cadeia da Relação.
No desenho acima é possível ver essa série de casas, que eram intervaladas por uma rampa de acesso à cadeia.
Decidido que foi alargar a Praça da Cordoaria, a muralha foi destruída e, com ela, os prédios que tapavam a Cadeia. Foram demolidos 16 prédios em 11/10/1853, tendo outros dois, anexos ao chamado Palacete Sandeman só sido derrubados, já no século XX .
Desta forma, ficaram unidos os largos do Olival e da Cordoaria, e a cadeia mais desafogada.
Foram portanto, naquele ano de 1853, destruídos 16 prédios (bem como um outro no cunhal da Rua das Taipas, que estava adossado pelas traseiras, ao último situado mais no extremo a poente).
Todas essas casas, bastante velhas, estavam arrendadas a vários comerciantes e industriais, que, nos baixos, tinham as suas lojas ou as oficinas.
Contudo, aos restantes místeres, sobrelevavam-se as vendedeiras de louça de barro amarelo, vermelho ou preto, que ali estavam representadas em larga escala."
Num extremo da fiada de casas salvaram-se da demolição as duas primeiras, assentes num patamar de pedra com três degraus e que têm presentemente os números 123 a 128 da Rua campo dos Mártires da Pátria. Isto porque todo este correr se encontrava um pouco acima do nível da rua. Curioso será que o motivo desses patamares era não fazer as casas se conspurcarem de lamas e sujidades, normais da cidade de XVIII e XIX.
Numa funciona uma barbearia e noutra, na que contorna para a Rua de Trás, permanece, o velho café Porta do Olival.
Quando a Casa da Fábrica da Rua da Picaria foi desmontada, pensava-se reconstruí-la no local destes prédios, o que nunca veio a acontecer.



Planta da zona da Cordoaria

A planta acima com origem numa de 1844 está actualizada a 1865, da autoria de Perry Vidal, e seria publicada para apoio aos visitantes da Exposição do Palácio de Cristal.
Na planta anterior de Perry Vidal, a fileira de prédios já não se encontra junto ao nº 13, que identifica a Cadeia da Relação.



À direita ainda de pé, um edifício – Fonte: JN


“Portanto todos aqueles prédios fronteiriços à Cadeia da Relação, num total de 16 e com a numeração – da época, entenda-se – de 70 a 107, começaram a ser demolidos em 11 de Outubro de 1853.
A primeira casa das arrasadas, que ficava entre a Porta do Olival – para onde também fazia frente – e o actual e já aludido prédio do Café Porta  do Olival, tinha os nºs 70 e 71. Na loja exercia a sua actividade uma louceira; e, nos andares superiores, viviam os descendentes de um Domingos Vitória, que era pintor e fabricante de polimento e de lamparinas.
A face voltada à Porta do Olival, com três portas e três janelas, do meio para baixo, era parte do antigo muro da cidade.
Do outro ângulo da Porta do Olival, para o poente, seguiam-se quatro prédios de três andares, tendo os dois últimos varandas de madeira. Todos elas possuíam loja com duas portas, à excepção do segundo que mostrava uma janela além das portas, e neles comerciavam várias louceiras.
Entre o 3º e 4º prédio, havia um vão ou pequena viela tapada comportas nos extremos, onde os soldados da Guarda da Cadeia, tinham uma cloaca (ou instalações sanitárias, como agora se diz e escreve) para a qual subiam, pelo lado da Cadeia, por uma escada de madeira.
O sexto prédio, igualmente de três andares e com estabelecimento, de três portas ocupado também por uma louceira, era dos melhores deste correr, porquanto era o único que ostentava varandas de ferro – um luxo nesse tempo.
Na altura da destruição rendiam anualmente, 19 moedas (91$200 réis) e antes chegara a render 25. A Câmara, aquando da expropriação, deu pelo prédio à sua proprietária - uma senhora D. Joana viúva de um cirurgião que lá chegara a viver – a quantia de 1.200$00 réis.
Desta casa até à rampa de comunicação à Cadeia, seguiam-se mais cinco moradias de dois andares, todas elas com estabelecimentos ao rés-do-chão.
Daqui para baixo, seguiam-se mais sete moradas de casas.
A primeira fazia ângulo com a tal rampa de acesso à Cadeia, para onde se abria uma porta – nº 97 – e uma janela de sacada com varandas de madeira e nela habitava uma toucinheira.
Para este lado, devido ao acentuado declive da rua, só tinha um andar; e, para a banda da Cordoaria, apresentava dois.
As três casas seguintes, com varandas de madeira nos primeiros andares e janelas de peitoril nos segundos, de igual modo tinham lojas ao rés-do-chão e todas elas se mostravam sobremaneira arruinadas. A quinta casa, em estado ruinoso, só tinha um andar e loja, e as suas traseiras, correspondiam exactamente às traseiras de uma outra casa que de igual forma fora demolida (em Dezembro de 1853) à esquina da Rua das Taipas, frente À Travessa de São Bento.
As duas restantes, que eram as duas últimas desta carreira não chegaram a ser demolidas por estarem em bom estado de conservação e por não implicarem em nada, como o projectado alargamento da Praça da Cordoaria, nem com o desafogo que pretendiam dar ao severo edifício da Cadeia da Relação.
Como é notório, estas duas casas de aparência modesta para a actualidade e que na altura haviam sido, ambas elas, avaliadas em 6.000$00 réis, ainda existem relativamente bem conservadas”.
Texto de Horácio Marçal publicado n' O TRIPEIRO, volume 2, Série VI (1962); Fonte: “aportanobre.blogspot”


Sobre as duas únicas casas que sobreviveram até ao fim do século XX e que seriam demolidas apenas em 2001 que estavam juntas ao conhecido palacete Sandeman, começado a levantar em 1839, se refere o texto seguinte.

“Hoje, em 2009, as duas casas do lado das Taipas já não existem. No seu local ergue-se duas fiadas de árvores bem como o arruamento que foi puxado um pouco mais a sul, depois da granitização do Campo Mártires da Pátria.
Numa dessas casas, existia nos anos 80/90 uma tabacaria, onde cheguei a comprar algumas revistas ou doces quando vinha da Escola.
Subia-se para essa loja precisamente por uns degraus de pedra, tal como na outra banda - única que agora existe - onde se encontra o café Porta do Olival”.
Com a devida vénia a Nuno Cruz admin. de “aportanobre.blogspot” 


Cadeia da Relação c. 1900


Igreja dos Clérigos e à direita já não existem prédios em frente à Cadeia da Relação

Fachada da cadeia voltada para a Cordoaria em meados do século XX


Jardim João Chagas


Nova placa toponímica

“Vamos apenas informar quais as designações que, pelos anos fora, teve este pitoresco sítio. Foram as seguintes: Campo do Olival, desde os seus primórdios até ao ano de 1613. Após esta data até 1661, foi Alameda do Olival. Depois, desde que para ali foram os cordoeiros de Miragaia, passou a denominar-se Campo ou Praça da Cordoaria Nova. Mais tarde, subtraíram-lhe a sobreposição “Nova” e começou o local a ser conhecido apenas por Cordoaria. Em 1835, finalmente, fixou-se em Campo dos Mártires da Pátria, nome que, até ver subsiste. O jardim, propriamente, por resolução camarária de 7/10/1852, começou a chamar-se Passeio Público, topónimo que no ano de 1924 foi substituído por Jardim João Chagas e que prevalece oficialmente. No entanto, a despeito de todas essas andanças toponímicas, ainda hoje – para bem da história local – é simplesmente conhecido por Cordoaria.”
In portoarc.blogspot.com




 O jardim no início do século XX


“… Esta arborização constituída por ulmeiros ou negrilhos (umus campestres), conservou-se pelo decorrer de dois séculos. Durante o memorável cerco do Porto, porém, com a falta de combustíveis que se verificou, tiveram os olmos (assim como outras árvores) de ser sacrificados, o que não obstou, felizmente, a que tivesse ficado um para lembrança, e desde 15 de Fevereiro de 1938 declarado de interesse público. Esse robusto negrilho a que o povo sem justificação plausível pôs o nome de Árvore da Forca…”
In portoarc.blogspot.com


Árvore da Forca – Ed. Foto Alvão

A antiga árvore da forca (só de nome pois, ninguém lá morreu enforcado), na foto anterior. Deram-lhe este nome, pelo feitio do braço, que foi arrancado num temporal do Inverno de 1963. 

“…Há na Cordoaria cuidado com todo o amor, os restos de um dos corpulentos negrilhos da antiga Alameda da Porta do Olival, plantado em 1612, por ordem de Filipe II, a única árvore que resistiu ao decorrer dos séculos e do Cerco do Porto…”
Fonte: portoarc.blogspot.com


Jardim da Cordoaria - Photo Guedes; CMP, Arquivo Histórico Municipal

Na foto de c. 1900, observam-se os negrilhos e, à esquerda, uma elegante balança.

Foto após temporal, inserida em O Tripeiro


Até abrir o Palácio de Cristal (1865) a Cordoaria era o local de eleição


O Jardim no século XIX

Na foto acima, o Jardim da Cordoaria, desenhado por Emílio David, podendo ver-se ao fundo à esquerda a Escola Médica e o Hospital de Santo António. Á direita ainda se vê o antigo colégio dos órfãos, fundado no séc. XVII pelo Padre Baltasar Guedes e a Capela de Nossa Senhora da Graça pegado à construção da Academia Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto.


“Com a saída dos cordoeiros, novo arranjo se deu, passados uns anos, à Alameda da Cordoaria, feliz iniciativa do 1º Visconde de Vilar d’Allen( Alfredo Allen)…que em 1866, propôs ao Município a transformação da Cordoaria num lindo jardim. Em 10/12/1866 reuniu a Edilidade para discutir a proposta apresentada, que se fazia acompanhar da respectiva planta traçada pelo arquitecto-paisagista alemão Emílio David (autor dos jardins do Palácio de Cristal), resolvendo, depois da aprovação unânime da vereação, autorizar o Visconde de Vilar d’Allen a dispor, para o efeito, da quantia de um conto de reis”.
In portoarc.blogspot.com

 Firmino Pereira diz que: 
”em 1867 aberto o jardim que se destinava ao povo, logo dele se apossaram as elegantes do burgo, que o preferiram aos do Palácio, mais distantes e onde só se entrava, pagando. Aos domingos e dias festivos e às quintas-feiras à noite, o alegre recinto era tomado de assalto pela burguesia tripeira, que se apossava da avenida fronteira ao coreto. Os arruamentos abertos em volta do lago ficavam à disposição das costureiras, das criadas de servir, dos oficiais de ofício, dos soldados da municipal. Eram territórios separados. E o que é deveras curioso é que, à entrada, cada um tomava o seu lugar, como no teatro…”

Cordoaria após o ciclone de 1941, com café Chaves ao centro



Fachada do interior do jardim do Café Chaves no chalet na Cordoaria


No início dos anos 90 do séc. XIX foi construído o chalet da Cordoaria; deu lugar, em 1917, ao Café Chaves que fechou na década de 40 do passado século.
O Café Chaves já tinha aberto as portas ao público para as bandas da Cordoaria e em 1900, mudou para o rés-do-chão do Hotel Francfort, na rua D. Pedro (Rua Elias Garcia após a República), até 1917, aquando da demolição do edifício que ocupava, para a abertura da Avenida dos Aliados. Voltou para a Cordoaria até 1947, altura da sua extinção, primeiro para os baixos da Academia Politécnica, a actual Reitoria e depois para um chalé situado no jardim da Cordoaria.



Café Chaves e fachada no interior do jardim da Cordoaria



Os centenários plátanos

O floricultor João Moreira da Silva diz que: 
"os plátanos que todos os tripeiros conhecem há muitíssimos anos na avenida do coreto do Jardim da Cordoaria e que, deformados pela moléstia que os atacou, se assemelham a verdadeiros monstros, devem ter setenta a oitenta anos” (actualmente 140 a 150 anos).




A Flora na Cordoaria


“A Flora”, de Teixeira Lopes é uma homenagem ao jardineiro, que fundou e administrou o Horto das Virtudes, José Marques Loureiro (1830-1898) inaugurada em 20/8/1904.

Escultura "O rapto de Ganímedes" de António Fernandes de Sá (1874-1958)

A escultura na foto acima, como se vê, esteve inicialmente implantada no jardim de Teófilo Braga (na Praça da República) encontrando-se agora, no jardim de João Pinheiro Chagas (vulgo, Cordoaria).
Esta personalidade foi um dos mais activos oponentes da ditadura de João Franco, entre 1906 e 1908 e com o triunfo da República, em 1910, João Chagas foi nomeado representante diplomático português em Paris, cargo do qual acabou por se demitir, em duas ocasiões, por discordar do modelo político seguido pelos governantes.
Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros Interino entre 3 de setembro de 1911 e 12 de outubro de 1911 (interino) e duas vezes Primeiro-Ministro (chefe de governo), a primeira das quais de 3 de setembro a 12 de novembro de 1911.

“O Rapto de Ganímedes” actualmente no Jardim da Cordoaria



Lago do Jardim da Cordoaria em 1910

Eduardo Sequeira conta-nos, em 1895, que: 
“Tal foi o início do Jardim da Cordoaria tratado ao presente com todo o esmero e onde estão reunidas uma série de plantas notáveis, principalmente à volta do lago, que é opulentado com belos fetos arbóreos Alsophilas e Balantiums, e soberbas palmeiras, cocos etc…”


Lago actualmente 


Vista aérea da Cordoaria onde ainda é visível o chalet do café Chaves no canto inferior direito e o recinto interior do edifício da reitoria



O parque infantil do Jardim da Cordoaria identificado pela letra A, em planta de 1949


Na planta acima, no ângulo formado pelas duas alamedas identificado com a letra A, está cartografado o recinto infantil criado nos anos 40 do século XX, dando uma outra finalidade ao jardim.
O parque infantil ficou com o nome de D. Maria do Carmo (Ferreira da Silva) Carmona (1879-1956), a esposa do então Presidente da República, Óscar Carmona.


O recinto infantil com as suas pérgulas – Fonte: “doportoenaoso”





A Torre dos Clérigos observada a partir da pérgula do Jardim da Cordoaria c. 1950 – Fonte: “doportoenaoso”



Ramalho Ortigão no Jardim da Cordoaria - Ed. Portojo

António Nobre


Na foto acima, no Jardim da Cordoaria, é possível, ainda, observar um busto de António Nobre, em bronze da autoria de Tomás Costa, inaugurado em 1926e que em 2017 foi roubado a exemplo de outros e ainda não foi substituído.

Cordoaria em 1950 


Mais recentemente o vasto espaço a que corresponde a Cordoaria recebeu mais algumas obras de arte.


Amor de Perdição



Da autoria do Mestre Francisco Simões, a estátua é uma homenagem a um dos maiores e mais prolíficos escritores da Literatura Portuguesa, Camilo Castelo Branco, autor do romance 'Amor de Perdição', de 1862, ele próprio um homem de arrebatadoras paixões.


Treze a Rir – Ed. JPortojo



No conjunto de fotos acima, Treze a rir uns dos outros, do madrileno Juan Muñoz (1953/2001). O último trabalho do artista, homenageando o Porto, capital da cultura, 2001.


O bispo D. António Ferreira Gomes em obra do escultor Arlindo Rocha



Revolta dos Taberneiros

A Praça da Cordoaria tem uma história verdadeiramente trágica a enevoar-lhe o ambiente poético, pois foi aqui que, em seis forcas erguidas sob os frondosos álamos, pagaram com a vida os 18 indivíduos (13 homens e 5 mulheres) implicados no tumulto contra a criação, pelo Marquês de Pombal, da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Foi em 14 de Outubro de 1757. Instigados, imagina-se por algumas personalidades negociantes de vinho ingleses, os amotinados no dia 4 de Fevereiro de 1757, respondendo à ordem pombalina que dava à Companhia Geral de agricultura e Comércio das Vinhas do Alto Douro, o privilégio da comercialização, na cidade e em 4 léguas em redor, de todo o vinho maduro, invadiram a casa do Procurador da Companhia, da qual tinham partido dois tiros, partiram e incendiaram móveis, tocaram a rebate os sinos da Sé e da Igreja da Misericórdia. O chanceler da Relação temendo o pior, acabou por declarar que voltava a ficar livre a venda do vinho.
A resposta a tudo isto do Marquês do Pombal foi a que se conhece.
Por estes factos estranha-se a adesão da população às comemorações do centenário da morte do Marquês de Pombal, efectuadas durante o mês de Maio de 1882, que representaram, talvez, um pretexto de afirmação da liberdade.


Capa do romance “Um Motim há 100 anos”


O célebre romance “Um Motim há 100 anos” de Arnaldo Gama tem como tema principal a Revolta dos Taberneiros de Fevereiro de 1757.

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