quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

(Conclusão)


Outros factos natalícios

O Natal foi sempre reflectindo as diferentes épocas.
Recuando a épocas que ainda nos são próximas, como sejam as de 30 até 70 do século passado, éramos sempre (um pouco) diferentes a cada Natal.
Antigamente, havia tantas mesas de Natal quantas as zonas do país. No Alentejo comia-se carne de porco ou até cação de coentrada, no Norte, o bacalhau.
Depois, com o tempo e a influência da televisão a ceia de Natal dos portugueses foi ficando cada vez mais parecida.
Hoje, a chamada consoada minhota influencia os hábitos alimentares do país inteiro. Por todo o Portugal começou a comer-se bacalhau, couves, rabanadas (mesmo que em muitos sítios se chamem a estas, "fatias douradas").
"Nós que tínhamos 20 ou 30 consoadas passámos a ter praticamente só uma."
Sobre o costume de jejum na véspera de Natal, passada a Sul e a comparação com o dos portuenses, há mais de 100 anos, escreve um lisboeta:


“Hoje em dia, a ceia da véspera de Natal tem tanta importância como o almoço de dia 25. Mas, há 100 anos, era coisa que existia essencialmente no Norte do País, acima do Porto. Aí, sim, havia uma tradição de jantar em família, com bacalhau – cozido ou em pastéis –, polvo guisado, arroz de polvo ou outros pratos sem carne. Na véspera de Natal, a família reunia-se à mesa para celebrar a festa em conjunto. E Missa do Galo não existia na região.
No Norte, ninguém rezava pelo Menino Jesus à meia-noite. A essa hora toda a gente estava sentada à mesa, à volta de um polvo ou de um bacalhau. Só as famílias da nobreza nortenha fugiam à tradição. Numa investigação sobre "os alimentos nos rituais familiares portugueses", Maria Antónia Lopes, do Centro de História da Sociedade e da Cultura, da Universidade de Coimbra, publicou um menu de uma ceia de Natal de uma família nobre do Norte, em 1891: puré de jardineira, arroz de fantasia caseira, costeletas nacionais e "ervilhas idem" e couve-flor composta. Para sobremesa, bolo experimental, pudim incógnito e broas de Natal, entre outros.
No final da II Guerra Mundial, o bacalhau começou então a espalhar-se por todo o país. Segundo Nuno Miguel Costa, do Museu Marítimo de Ílhavo, o Estado Novo via no bacalhau um prato "simples" e "humilde" que ajudava a educar o povo a ser poupadinho e bem comportadinho. Com a massificação da televisão e a distribuição de bacalhau garantida pelo Estado, a ditadura aproveitou para impor uma propaganda nacional em defesa do bacalhau, tornando-o tradição em todo o país.
Com o devido crédito ao site: “casalmisterio.com”

Nas últimas décadas, fruto, como é óbvio, de conflitos acontecidos e do desenvolvimento tecnológico e social, o Natal foi sofrendo alterações pontuais no modo como foi sendo vivido.

«A década de 30, não permitia grandes euforias e o Natal era sobretudo ocasião de, à boa maneira do Estado Novo, mostrar caridade para com "os pobrezinhos".
Havia, por exemplo, a Campanha de Camaradagem do Natal dos rapazes da Mocidade Portuguesa.
"Merecem particular atenção os filiados mais necessitados", refere o Diário de Lisboa de 19 de Dezembro de 1943, "para o que têm sido recrutados todos os rapazes pobres da rua, como ardinas, engraxadores, etc. Estes rapazes, para além de bens materiais que lhes são concedidos, como refeição diária e fardamento, recebem uma acção educativa, pois são vigiados e acompanhados por dirigentes da Mocidade Portuguesa".
(…) Em 1945, os portugueses - e o mundo - festejam finalmente o primeiro Natal sem guerra. Os anunciantes descontraem. "Quer agradar à sua esposa? Ofereça-lhe um Electrolux. Aspiradores de pó, enceradoras, frigoríficos." E tornam-se mais ousados: "Quer dar uma prenda que nunca seja esquecida? Seja criança ou adulto, se ela gostar de Desenho, é porque tem habilidade. Oferece-lhe um curso de Desenho (método americano de estudo em casa). Será um alegre passatempo que poderá trazer uma bem paga profissão."
(…) Na entrada da década de 50, a situação económica melhora. Aparecem nos jornais anúncios a voos das grandes companhias aéreas internacionais para a Suíça e Alemanha, ou até América do Sul e Próximo Oriente. Faz-se publicidade às máquinas fotográficas Kodak, a aspiradores, rádios, electrodomésticos.
O jornal Mundo Desportivo promove um concurso que tem como primeiro prémio uma Lambretta. E o regime decide eleger a "rapariga modelo".
Noticia o DN: "O aspecto inteiramente inédito, a objectividade e o elevado sentido moral do questionário relativo ao Concurso Internacional da Rapariga Modelo e ainda a circunstância de proporcionar singular oportunidade de exteriorização de opiniões, gostos e formas de ser e sentir despertaram excepcional interesse entre as raparigas portuguesas."
Os bodos aos pobres continuam, as meninas nas escolas competem para fazer o berço mais bonito para oferecer a uma família pobre que esteja à espera de mais um filho. E as grande empresas - a General Motors, a Kodak, a Shell, a Sacor, a Mobil Oil - oferecem festas de Natal aos filhos dos seus funcionários, todas elas com direito a notícia (e em muitos casos fotografia) nos jornais diários. Nas principais cidades do país, o Automóvel Clube de Portugal promove o Natal do Sinaleiro, em que os automobilistas deixam junto aos polícias sinaleiros prendas "traduzindo o reconhecimento pela meritória acção" daqueles.
A revista para rapazes O Cavaleiro Andante promove em grande o seu número especial de Natal com 100 páginas, por dez escudos, e com três prémios, entre os quais uma bicicleta motorizada.
(…) Anos 60 e o mundo acelerou.
O nível de vida dos portugueses ia subindo gradualmente, mas nos anos 60 muitas famílias ainda podiam ser descritas como "remediadas". O dinheiro "ia dando", mas para um dia "um bocadinho melhor" era preciso fazer algumas economias. Não é por acaso que em 1960 surge o Cabaz do Natal, uma iniciativa do Clube das Donas de Casa, que se torna um enorme sucesso.
Nos primeiros meses do ano começava a aparecer nas revistas o anúncio ao cabaz, com o respectivo boletim de inscrição. Uma família sorridente - pai, mãe, avó e neta - olha encantada para o que vai receber no Natal por um custo de 650 escudos (pouco mais de três euros), pago em prestações mensais de 65 escudos: latas de Atum Toneca, Nesquik, tomate Guloso, Nescafé, Puré de Batata Maggi, bolachas Triunfo, vinho do Porto, brandy, espumante, vinho de mesa, uma "maravilhosa boneca", um "brinde para o marido", brinquedos, leite creme, fruta líquida, chocolates, caramelos e drops, e muitas outras coisas.
O mundo começava a mudar e um dos factores dessa mudança era a televisão, que chegou a Portugal em 1957. O Natal dos Hospitais já conta com a colaboração da Radiotelevisão e da Philips portuguesa.
Portugal parece mais aberto a esse mundo que lhe chega agora pela televisão. Em 65, o DN manda um enviado especial a Berlim para relatar, junto do "Muro da Vergonha", o Natal na cidade dividida. Do lado ocidental há repórteres da Europa ocidental, do outro lado há russos, jugoslavos, chineses. No dia de Natal, o jornal noticia, optimista, que "desde o Rio até Saigão a humanidade celebra o espírito de fraternidade e Amor".
(…) O mundo parece girar mais depressa.
E, no entanto, Portugal continua a ser um país pobre e de emigrantes, que no Natal regressam para estar com as famílias. O ano de 1965 ficou marcado por uma enorme tragédia: perto de três dezenas de mortos e mais de uma centena de feridos no descarrilamento do Sud-Express. Os relatos na imprensa são carregados de drama: "Dos destroços impressionantes de uma das locomotivas esmagadas pelo espantoso choque, mãos piedosas e ensanguentadas descem o cadáver desfigurado de um dos ferroviários."»
Fonte: “publico.pt/”, 2009


Como ficou expresso no texto anterior, o “Cabaz do Natal”, na segunda metade do século XX, foi um sucesso enorme.
Apareceu em 1960 como resultado da actividade do “Clube das Donas de Casa”.
O programa do Clube das Donas de Casa começou na Rádio Renascença em 1960, tendo, mais tarde, em 1964, sido emitido pelo Rádio Clube Português.
Nesse programa, com conselhos para o público feminino, era promovido o “Cabaz do Natal”. Era, a venda deste, o seu principal objectivo.
Como o nome indica era um cabaz com os mais variados produtos de uso na quadra natalícia e que tinha associado um concurso de âmbito nacional.
Durante a emissão daqueles programas foram lançados, por exemplo, concursos como a eleição da “Mulher Ideal” e o “Abril em Portugal”.
Henrique Mendes, Júlio isidro, Ana Zanatti, João David Nunes e muitas outras vozes conhecidas da rádio desses tempos passaram por lá.


Maria Emília Trigueiros (pertencente à alta sociedade da época) vencedora em 1973 do concurso “Mulher Ideal”


Publicidade em 1964 ao “Cabaz do Natal” – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”



Publicidade em 1966 ao “Cabaz do Natal” – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”


Publicidade em 1976 ao “Cabaz do Natal” – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”


Agradecimento público e calendário do “Lar do Orfanato” de Ruílhe em 1968 – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”


Publicidade em 1963 ao Atum Toneca


Publicidade de Natal das bolachas “Triunfo”


 Publicidade da Confeitaria Cunha no Natal de 1950


A revista Eva, começada a publicar em 1925, viria, mais tarde, com o seu número de Natal, conhecido como a “Eva do Natal”, a preencher o imaginário de muitos portuenses pelos prémios que sorteava durante aquela quadra festiva.
Quem comprasse a revista habilitava-se a um concurso de âmbito nacional.


Lista de prémios do concurso “Eva do Natal” de 1963


Capa da revista “Eva do Natal” de 1939 – Fonte: “diasquevoam.blogspot.pt”


Capa da revista “Eva do Natal” de 1950


A revista era dirigida ao público feminino e tornar-se-ia um veículo de propaganda do Estado Novo, embora, por vezes, tentasse afrontar o braço tentacular da censura.

“Uma tiragem média de 18 mil exemplares é indicativa de uma expansão considerável, principalmente ao relembrar a existência de somente 25 mil mulheres cujo grau de capital escolar as tornaria aptas à fruição da revista. Por forma a apelar a tão vasto público, a revista focava-se em temáticas muito diversas, com enfoque em modas e sociedade (registo próximo ao da atual imprensa "cor-de-rosa", principalmente a partir de 1935: notícias de Hollywood, alguns eventos sociais nacionais), mas sem desconsiderar as lides domésticas, o cuidado com a cosmética e a literatura leve. Paralelamente, dinamizava sorteios, concursos e outras iniciativas de captação e participação de público. A edição de Natal era o pináculo disto: mais extensa, colorida e oferecendo prémios sorteados de valor avultado, incluindo casas e carros, dependendo da situação financeira. Posteriormente esmiúça-se a iniciativa paralela que mais relevo apresenta para a temática orientadora desta dissertação, que é a dinamização da Escola Técnica de Donas de Casa, uma campanha de sucesso que contou com várias edições”.
Com o devido crédito a Francisco Pereira da Silva Pais Rodrigues – Mestrado em Sociologia, FLUP


Outra actividade que a cidade não dispensa é o circo que se realiza em vários locais e se repete todos os anos.
Um deles, como já é tradição desde 1941, tem lugar no Coliseu Porto.


Coliseu do Porto – Ed. “sapo.pt”


Espectáculo de circo no Coliseu do Porto em 12 de Dezembro de 1996


O espectáculo da foto acima teve lugar decorridos que foram cerca de 3 meses desde o incêndio aí acontecido em 28 de Setembro daquele ano.
A sala só ficaria completamente recuperada 2 anos depois, reabrindo com a ópera Carmen, de Bizet, em 24 de Novembro de 1998.
Hoje, pelo Parque da Cidade do Porto (Queimódromo), outrora pelo Palácio de Cristal, Campo 24 de Agosto, Campo do Luso, Praça das Flores, Covelo (Paranhos), Seca do Bacalhau (junto do antigo Bairro de Xangai), Campo do Lima (antigo estádio do Lima) e Bairro Fernão de Magalhães, levantaram tenda várias companhias de circo que fizeram as delícias de muitos.
Uma realização que perdura nos nossos dias é o Natal dos Hospitais.
O Natal dos Hospitais é, hoje, um programa de televisão e uma festa que se realiza todos os anos.
Em tempos, o evento tinha a parceria da RTP, Diário de Notícias e Philips.


“Este evento foi inaugurado em 1944 pelo jornal Diário de Notícias para trazer um sorriso às pessoas que estão nos hospitais durante o Natal. Começou a ser transmitido na RTP em 1958 com a apresentação de Henrique Mendes e cujo início foi com a artista Beatriz Costa, tornando-se assim no programa de entretenimento mais antigo da RTP.
Tem origem no anterior "Natal das Crianças dos Hospitais", um evento promovido pela poetisa algarvia Lutegarda Guimarães de Caires no início do século XX.
Em 1962 começou a ser transmitido em simultâneo com a antiga Emissora Nacional e tal transmissão se prolongou, de uma maneira bastante irregular, até ao fim do século XX na RDP- Antena 1.
Nos anos 70, o Natal dos Hospitais era transmitido entre as 14 e as 19 horas, e era transmitido às vezes fora dos hospitais, e em lugares públicos conhecidos, como o Casino Estoril e o Coliseu dos Recreios”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”

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