O Centro Comercial
do Porto partilhou com a Associação Comercial do Porto, durante algumas
décadas, a representação dos comerciantes da região.
Fundado em 1887, o Centro Comercial do Porto começa por se instalar no Largo dos Lóios, mas, poucos anos depois, passará a ocupar até 1906, o palacete do visconde da Trindade (Palacete Balsemão), na Praça Carlos Alberto.
Fundado em 1887, o Centro Comercial do Porto começa por se instalar no Largo dos Lóios, mas, poucos anos depois, passará a ocupar até 1906, o palacete do visconde da Trindade (Palacete Balsemão), na Praça Carlos Alberto.
Palacete Balsemão
Na primeira década do século XX, em 1906, muda-se para a sua nova morada, na Praça Santa Teresa (onde, décadas depois, esteve a sede da Companhia de Seguros "A Mundial"), na sequência da ocupação das suas instalações que foram arrendadas à Companhia do Gás, vinda da Cancela Velha.
Em novas instalações, era a seguinte a constituição dos corpos gerentes do Centro Comercial do Porto, em 1908.
O universo dos seus associados contemplava, principalmente, os pequenos comerciantes que não se sentiam bem representados pela Associação Comercial do Porto.
Relativamente à foto acima, no edifício (mais a Norte), já na Praça Santa Teresa, a seguir aos Grandes Armazéns do Chiado, esteve instalado o Centro Comercial que dividia instalações com a Associação de Jornalistas e com a delegação da Cruz Vermelha e onde, mais tarde, surgiria um outro prédio onde esteve a Companhia de Seguros “A Mundial”.
O Centro nasceu de uma «Comissão de Vigilância», integrada de vinte elementos que se organizou «nesses momentos de desespero, provocados pela anarquia dos serviços aduaneiros». Se a direcção do Centro afirmava ter tido muita adesão, por outro lado, também, denunciava obstáculos e barreiras que se levantaram a impedir a aprovação da sua lei estatutária.
No entretanto, as dificuldades parecem ter sido de ordem administrativa.
Em 1893, trocava-se correspondência com a Associação Comercial do Porto, em que se afirmavam os interesses comuns. De qualquer maneira, o tipo de ligações mantidas e as preocupações imediatas que vieram a ocupar o Centro Comercial, denunciam claramente ser esta associação de classe de outro estrato da burguesia mercantil.
Curioso de assinalar é o facto de ter sido no Centro Comercial que o explorador africano, Álvaro de Castelões, proferiu, a 12 de Dezembro de 1891, uma conferência em que defendeu a «alienação de todas as colónias provadamente inúteis, ideia cuja oportunidade pode ser contestada, mas que, cada vez mais, se recomenda à atenção do governo e do país, cujo patriotismo deve ser orientado numa direcção útil e honrosa, contrariamente àquela a que nos tem sujeitado um domínio colonial, absorvente e inglório». Assumir esta opinião quando ainda estavam vivos os ecos do ultimato, representa, de facto, uma abertura de espírito e, talvez, uma coragem que nem todas as classes estariam em condições de exibir.”
Cortesia de José Capela “A Burguesia Mercantil do Porto e as Colónias (1834-1900) - Edições Afrontamento, 1975”
Em 1890, o Centro Comercial do Porto dirige-se à Câmara de Deputados, contra o convénio Luso-Britânico de 20 de Agosto de 1890, na sequência do ultimatum de Janeiro.
Com os problemas coloniais sempre muito presentes, o Centro Comercial do Porto, em reunião de direcção de 27 de Agosto de 1900, presidida por Álvaro Gomes de Sá, decide montar no Porto um “Museu Colonial e Comercial”.
Desde sempre, o Centro Comercial do Porto teve a sua atenção voltada para a problemática colonial.
Em 1891, na sua sede, o portuense Álvaro Castelões (1859-1953) disserta sobre aquele tema.
Com formação de engenheiro e tendo estado no âmbito dela, em Moçambique, fazendo um estudo sobre o rio Xire, chegando a enfrentar-se com um grupo de indígenas, que derrotaria.
Esta personagem tem a curiosidade de ter sobrevivido muitos anos para além da atribuição (1890) do seu nome a uma rua do Porto e de, na realidade, não ter Castelões no nome, pois chamava-se Álvaro de Castro Araújo Cardoso Pereira Ferraz e ser filho, isso sim, do 2º visconde de Castelões. Daqui lhe vinha o Castelões.
Após a sua fundação, o Centro Comercial do Porto sempre teve, na sua
actividade, preocupações na vertente de apoio social, de que é exemplo, a sua
posição na primeira linha no socorro às vítimas da grande tragédia marítima de
27 de Fevereiro de 1892 - os pescadores.
Exemplo da linha seguida, naquele âmbito, é o texto abaixo.
In “A Voz Pública”, em 13 de Dezembro de 1891 (Domingo)
Exemplo da linha seguida, naquele âmbito, é o texto abaixo.
Todos os sócios eram obrigados ao pagamento duma quota mínima de 5.000rs, de uma só vez ou durante um ano, em cinco prestações.
Foi presidente do Centro Comercial do Porto no fim do século
XIX, Ezequiel Vieira de Castro que teve uma intervenção pública de relevo
aquando da chegada do primeiro comboio à Estação de S. Bento.
No dia 8 de Julho de 1887, a Câmara do Porto aprovou o projecto de construção de uma estação de caminho-de-ferro no coração da cidade, que deveria ser edificada no lugar onde então se erguia o convento beneditino de S. Bento da Avé-Maria.
Para se levar o comboio de Campanhã até ao centro do Porto - uma extensão de pouco mais de dois quilómetros e meio -, rasgou-se, das Fontainhas a S. Bento, um extenso túnel através do granito.
Durante a execução das obras ocorreram desastres, muitos deles mortais e também, por isso, os trabalhos estiveram interrompidos alguns anos.
No dia 8 de Julho de 1887, a Câmara do Porto aprovou o projecto de construção de uma estação de caminho-de-ferro no coração da cidade, que deveria ser edificada no lugar onde então se erguia o convento beneditino de S. Bento da Avé-Maria.
Para se levar o comboio de Campanhã até ao centro do Porto - uma extensão de pouco mais de dois quilómetros e meio -, rasgou-se, das Fontainhas a S. Bento, um extenso túnel através do granito.
Durante a execução das obras ocorreram desastres, muitos deles mortais e também, por isso, os trabalhos estiveram interrompidos alguns anos.
Viaduto próximo do Rego do Lameiro, em 1905, da linha entre Campanhã e S. Bento
O plano, assinado pelo engenheiro Hipólito Baére, previa ainda a construção de um segundo ramal, que garantiria a ligação à Alfândega e que se destinava exclusivamente ao transporte de mercadorias. Também esta linha obrigou à abertura de vários túneis na escarpa do Douro.
Linha entre S. Bento e Campanhã e, à cota mais baixa, o Ramal da Alfândega
No dia 7 de Novembro de 1896, a locomotiva "Miragaia", puxando várias carruagens de primeira classe e uma carruagem-salão, desembocou do recém-concluído túnel do convento de S. Bento da Avé-Maria (depois chamado de D. Carlos I), para ir terminar a sua marcha num improvisado abarracamento de madeira, que faria as vezes de estação até à construção do edifício actual, projectado por Marques da Silva.
Como as fotografias da época documentam, esta chegada do primeiro comboio a S. Bento foi saudada por uma verdadeira multidão e teve direito a bandas militares. À entrada do túnel, nas Fontainhas, lançaram-se foguetes, e ao longo da Rua da Madeira, segundo descreve a imprensa da época, as senhoras vinham às janelas agitar lenços brancos. Não era para menos. A conclusão do túnel tornara-se um verdadeiro ponto de honra para a cidade, cujas personalidades e instituições - designadamente as associações comercial e industrial, o Ateneu Comercial e o Centro Comercial do Porto, entre outras - não cessaram de fazer chegar a Lisboa requerimentos e petições nesse sentido. Intervindo na cerimónia oficial que se seguiu à chegada do comboio, o presidente do Centro Comercial do Porto, Ezequiel Vieira de Castro, elogiou justamente o papel da "opinião pública da cidade", que pressionou o Governo a terminar uma obra que esteve parada durante anos. "Os trabalhos iniciaram-se, chegou-se a um grande adiantamento, mas estacionaram por força das circunstâncias ou fatalidade das coisas", recordou Vieira de Castro, num resumo que seria aplicável a muitos outros empreendimentos da cidade, quer anteriores, quer posteriores.
Hoje pode parecer menos evidente a importância que tinha para a cidade a construção deste breve troço ferroviário. Mas, na época, Campanhã era um arrabalde do Porto, e os viajantes que ali se apeavam viam-se obrigados a recorrer às diligências para fazer o percurso até ao centro da cidade. Só tinham dois caminhos à escolha, e eram ambos maus: a estrada marginal do Douro ou a íngreme Rua do Freixo. Era também por estas vias que os comerciantes e industriais se viam obrigados a fazer transportar as suas mercadorias. Não admira, portanto, que a chegada deste primeiro comboio se tenha transformado numa espécie de arraial popular».
Cortesia de Luís Miguel Queirós, In “Jornal Público”, 8 de Julho de 2001
Linha entre S. Bento e Campanhã
Luís Augusto Marques de Sousa, um prestigiado comerciante do Porto, nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, seria um dos fundadores mais ilustres do Centro Comercial do Porto, cujas direcções serviu, quando foram presididas por outros comerciantes afamados, como foram, Ezequiel Vieira de Castro e Bernardino Carlos de Azevedo Vareta.
Em 1913, seria mesmo eleito, por unanimidade, para Presidente da Direcção do “Centro Comercial do Porto”. A sua gestão foi tão bem sucedida, que acabou por ser reeleito sucessivamente.
O Centro Comercial do Porto estaria também, intimamente, ligado à visita, que ficou memorável, de Mouzinho de Albuquerque ao Porto, no dia 13 de Dezembro de 1897.
Tudo começou quando uma comissão delegada do Centro Comercial do
Porto, constituída por António Ramos Pinto, António José Macedo e Simão José
Gomes Ferreira Júnior, parte para Lisboa a fim de assistir à recepção a
Mouzinho de Albuquerque.
Assim, a 16 do mesmo mês, Mouzinho aceita o convite para realizar no
Centro Comercial do Porto uma conferência sobre assuntos coloniais e anuncia
que ela poderá ocorrer em meados de Janeiro.
Em sequência, a 16 de Janeiro de 1898, o Porto rejubila com a chegada de Mouzinho de Albuquerque, "herói de Chaimite, vencedor do império Vátua e de Gungunhana, garantindo, assim, o nosso império colonial", dizia a imprensa afecta ao regime daquela época.
A chegada aconteceu em Campanhã, momento em que subiram ao ar vários morteiros e os aplausos da multidão se fizeram escutar.
Em sequência, a 16 de Janeiro de 1898, o Porto rejubila com a chegada de Mouzinho de Albuquerque, "herói de Chaimite, vencedor do império Vátua e de Gungunhana, garantindo, assim, o nosso império colonial", dizia a imprensa afecta ao regime daquela época.
A chegada aconteceu em Campanhã, momento em que subiram ao ar vários morteiros e os aplausos da multidão se fizeram escutar.
Landeau à porta da Estação
de Campanhã no qual Mouzinho de Albuquerque se fez transportar
Após a sessão de boas-vindas ocorrida na Câmara Municipal, um outro cortejo se formou, Rua do Almada, acima, dirigindo-se para a igreja da Lapa, onde foi celebrada uma missa.
À porta da Câmara Municipal durante a homenagem a Mouzinho de
Albuquerque
As iluminações na Praça D. Pedro e Praça da Batalha, nas ruas de Santo António, Clérigos, Santa Catarina e das Flores, estavam dignas da festa que se vivia.
No dia seguinte, Mouzinho presidiu na Câmara à distribuição dos prémios Camões instituídos pelo jornal “O Comércio do Porto” aos alunos do liceu que mais se destacaram, sendo, ainda, alvo de homenagens da Academia Portuense, cujas capas dos estudantes foi obrigado a pisar.
Depois, fez-se fotografar por Biel, nos estúdios do famoso fotógrafo.
Na matinée, Mouzinho assistiu a uma récita no Teatro Gil Vicente e no Teatro Carlos Alberto, assistiu à sessão solene promovida pelo Centro Comercial do Porto, o grande impulsionador da vinda da personalidade do momento, em Portugal, à cidade do Porto.
Sessão ocorrida no Teatro Carlos Alberto, em homenagem a Mouzinho de
Albuquerque
No terceiro dia, de volta ao Teatro Carlos Alberto, promovida pelo Centro Comercial, do qual Mouzinho era patrono, realiza-se mais uma sessão solene na qual intervêm vários oradores.
Após uma visita à Companhia Vinícola, segue-se um banquete oferecido pelo Centro Comercial, em que para lá da baixela de prata usada no mesmo, da casa de D. Sofia Rooke Lima, os discursos das individualidades foram inflamados de patriotismo.
Nova récita no Teatro Carlos Alberto, o baile da praxe no Club Portuense e, a 19 de Janeiro, chegava o último dia da visita, com a realização de uma missa campal no Campo da Regeneração (Praça da República).
Acabada a missa, o cortejo que se formou, integrando várias colectividades e personalidades da cidade, dirige-se descendo a Rua da Boavista para a Rotunda que, desde esse dia, teve descerrada uma lápide, passando a chamar-se Praça Mouzinho de Albuquerque.
À tarde, no salão do Centro Comercial do Porto, aconteceu a esperada conferência e Mouzinho passou a ser sócio honorário daquela associação.
Durante a cerimónia, Mouzinho discursou sobre temas ligados à política africana, realçando o abandono a que vinham sendo votados aqueles territórios e as respectivas populações indígenas.
À tarde, já no Grande Hotel, o Ateneu Comercial entregou-lhe o diploma de sócio de honra da colectividade.
À noite, teve lugar pelas ruas da baixa portuense uma marcha luminosa (aux flambeaux), organizada pelos bombeiros e, na qual, participaram as corporações dos Bombeiros Voluntários, quarenta cadetes da corveta Sagres, esquadrões de cavalaria 6, destacamento de Artilharia e Guarda Municipal.
À passagem pelo hotel, a partir do qual, o homenageado assistia ao cortejo, o comandante Rodolfo de Araújo saudou Mouzinho.
Como curiosidade, diga-se que, a corveta Sagres, a 11 de Maio, iria ser rendida pela corveta Estefânia, e este seria um dos últimos actos públicos do navio escola, que costumava decorar o Cais do Bicalho.
A noite caiu com o esplendoroso banquete oferecido no Palácio da Bolsa, pela Associação Comercial do Porto.
Finda a visita, poder-se-ia concluir que ela teve o completo desdém da oposição política, e seria glorificada pela governação então vigente.
A opinião pública, à data, estava muito dividida perante a governação,
mas, também, sobre a personalidade do antigo administrador colonial, que foi
Mouzinho de Albuquerque. Assim, em 8 de Janeiro de 1902, Mouzinho de
Albuquerque, fruto de uma depressão, em consequência de não conseguir resistir
ao clima de intriga acerca do seu comportamento em África, preparou minuciosamente
a sua morte, suicidando-se, a tiro de revólver, no interior de um coupé, na
Estrada das Laranjeiras.
No dia 22 de 1898, o Centro Comercial protesta junto do rei, sobre a
intenção do Parlamento, que se preparava para aprovar legislação para concessão
de exclusivos nas colónias, no que é secundado pela Associação Comercial do
Porto.O Centro Comercial
do Porto participaria no Conselho Económico Nacional, criado no governo da
União Sagrada (Março de 1916 a Abril de 1917), presidido por António José de
Almeida, o décimo terceiro governo da República Portuguesa que, de modo
inédito, juntou os dois partidos rivais, à data: o Partido Evolucionista e o
Partido Democrático.
Em 26 de Junho de
1921, sob o patrocínio da Associação Comercial, Associação Industrial, Centro
Comercial e Associação dos Comerciantes, realizava-se no Palácio de
Cristal a feira de artigos industriais.
Em 4 de Novembro de 1933, na sede do Centro Comercial, o tenente Henrique Galvão faria uma apresentação do que estava a ser preparado para que fosse um sucesso a Exposição Colonial, que se iria realizar no Palácio de Cristal, no ano seguinte.
No mês de Abril de 1935, duas importantes reuniões ocorreram nas instalações do Centro Comercial: no dia 23, são aprovados os Estatutos do Grémio dos Industriais de Padaria; no dia 24, Ferreira dos Santos preside à reunião da Associação dos Mestres Construtores Civis com o objectivo de regulamentar a situação dos construtores não diplomados.
Desde a sua fundação, o Centro Comercial
teve, sempre, ao longo dos anos, um papel de relevo na vida da cidade.
Naturalmente, a sua actividade encerrou, antes de se atingir a década de 1940, em virtude da entrada em vigor de novas formas de associativismo decorrentes das políticas instituídas pelo Estado Novo, mormente a aplicação das teorias Corporativistas.















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