sexta-feira, 19 de março de 2021

25.116 A propósito de uma capela de estilo neogótico

Com certeza que muitos portuenses já repararam, passando pela Praça da República (antigo Campo de Santo Ovídio ou Praça da Regeneração) num palacete a que o povo chama Palacete dos Pestanas e, nas suas traseiras, já com frente para a Rua do Almada, na existência também de uma capela que pertenceu aos donos do referido palacete.
De facto, assim é. 

 
 
Palacete dos Pestanas

 
 
Capela dos Pestanas ou Capela do Divino Coração de Jesus
 
 
 
José Joaquim Guimarães Pestana da Silva (Porto, Março de 1848; Matosinhos, Outubro de 1917) foi quem, dado como morador na Rua do Bonjardim, mandou construir o palacete e a capela.
Sabe-se que, para a Rua do Bonjardim, nºs 79-83, no local onde haveria de estar, muitos anos depois, o conhecido restaurante que lançou as francesinhas – Restaurante Regaleira – José Joaquim Guimarães Pestana da Silva, em 1902, solicitava à Câmara o licenciamento para a construção de um prédio.
O projecto da Capela do Divino Coração de Jesus foi aprovado em 12 de Setembro de 1878 e, nesse ano, é lançada a primeira pedra e o palacete teria sido começado a construir um ano antes.
Foram autores da obra os engenheiros José de Macedo Araújo Junior e Manuel Gomes da Silva.
O Barão de Béthune, decorador da Casa Wilmotte (Liège), foi o autor do desenho de várias peças de arte sacra.
O escultor Soares dos Reis foi o autor das esculturas de São José e São Joaquim, colocadas no exterior e Armando Pinto o das pinturas nos estuques interiores.
Em Março de 1890, o templo abre-se ao culto e, em 1898, a capela é benzida.
Antes, em 1885, os autores do altar-mor, já tinham recebido uma medalha na Exposição Internacional de Antuérpia.
 
 
 
 
“Arquitectura religiosa, revivalista neogótica. Capela neogótica composta por torre sineira, nave única de três tramos e cabeceira semicircular dispostos axialmente. Fachada-torre formando nártex inferiormente. Contrafortes rematados tipo agulha, aberturas e arcos em ogiva e os vitrais como elemento essencial na introdução da luminosidade. A rosácea e os quadrilóbulos repescam o vocabulário das catedrais góticas. Fachada principal precedida por torre sineira, inferiormente aberta criando alpendre, sob o qual se faz a entrada principal. Trata-se de um raro exemplar neogótico no Porto, marcado no seu interior por um excessivo decorativismo e com materiais extremamente onerosos. Detém grande coerência na sua expressão arquitectónica, decoração, mobiliário e peças litúrgicas. As pinturas interiores são inspiradas nas da Sainte Chapelle. Constitui, apesar de ter sido vandalizado, o elemento arquitectónico do conjunto do Palacete dos Pestanas, o que mais conservou a sua tipologia original e caracterização arquitectónica”.
Cortesia de Isabel Sereno, 1998; In “monumentos.gov.pt/”
 
 
 
Escultura de S. José – Autor: Soares dos Reis (1880)
 
 
Escultura de S. Joaquim – Autor: Soares dos Reis (1880)
 
 
 
Em 1928, já o palacete e a capela eram propriedade de Sebastião dos Santos Pereira Vasconcelos.
Na década de 1950, o Plano Director da cidade do Porto para alargamento da Rua Gonçalo Cristóvão e correcção de alinhamentos previa a demolição do palacete, o que não viria a acontecer.
Entre 1974 e 1975, o palacete passa a sede do partido do Centro Democrático Social e, posteriormente, é ocupada por 20 famílias.
No 11 de Março de 1975, a população assalta a capela e, em 1977, o templo sofre o assalto dos ocupantes do palacete, que seria ainda alvo de um incêndio. Mais tarde, sofreria obras de restauro.
A capela haveria de ser considerada, em 06 de Março de 1996, Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto nº 2/96, DR, 1ª série-B, n.º 56.
Já no século XXI, o palacete é ocupado pelo Governo Civil do Porto, vindo dos lados da Praça da Batalha, do edifício da “Casa Pia”, por onde tinha estado mais de um século.
O Palacete dos Pestanas foi uma construção do século XIX, possuindo a maior área de jardim particular do Porto, só ultrapassada pela do Palácio de Cristal.
Hoje, essa área está ocupada por vários prédios, sendo, um deles, a sede de uma companhia de Seguros, proprietária do palacete.
 
 
 
Palacete dos Pestanas, em 1958 – Ed. Teófilo Rego
 
 
 
O engº José Joaquim Guimarães Pestana da Silva foi um grande proprietário, com prédios localizados em várias zonas da cidade, tendo junto à fortuna herdada da família e à por si obtida, a proveniente também de sua mulher, que era filha de um grande negociante do Porto, Manuel Ferreira Leão Guimarães.
Passaram pelas mãos de José Joaquim Guimarães Pestana da Silva, o prédio que foi sede da Real Vinícola do Norte, durante a primeira metade do século XX, o chamado palacete de Campos Navarro, na Rua de Entreparedes e a Quinta de Sam Thiago, em Custóias, onde viria a falecer.
Entre muitos outros, foi também proprietário de um prédio que ficou para a história por alojar a Farmácia Birra (ainda hoje ocupando o mesmo local), localizada desde o fim do século XIX na Praça D. Pedro e que foi alvo de um incêndio em 11 de Maio de 1906, facto que é narrado no texto abaixo, publicado na revista “O Tripeiro” , V Série, Ano XII, Nº 1
 
 
 
 


 
 
 
A Farmácia Birra, ao fundo, era contígua ao prédio que ostenta um toldo branco
 
 
A Quinta de Sam Thiago situa-se na Rua Cândido dos Reis, próximo da igreja paroquial e do local onde, semanalmente, aos Sábados, tem lugar a feira de Custóias, cujo espaço ladeia, pelo Norte,
Está, ainda hoje, nas mãos da família Pestana, sendo o seu actual proprietário o engenheiro José Manuel Pestana de Vasconcelos. Amputada duma enorme área que, noutros tempos, estava afecta à exploração agrícola, continua, no entanto, a sobressair, na actualidade, a antiga casa, que sofreria várias intervenções de ampliação ao longo de três séculos - Casa de Sam Thiago.
A Quinta de Sam Thiago foi, desde sempre, uma exploração agrícola da qual os seus proprietários tratavam de tirar os seus rendimentos.
Os seus terrenos de várzea, servidos por vários riachos e ribeiros, em plena bacia hidrográfica do rio Leça, eram propícios ao cultivo do milho grosso, às leguminosas, às vinhas de enforcado e às bouças.
A abundância de água contribuía para que nos lameiros e pauis se apascentasse o gado.
De boas fontes, sabe-se que a propriedade era foreira da Baliagem de Leça e que esteve na posse de Ana Maria Dias, que veio a contrair matrimónio com Domingos Gonçalves Lopes, vereador do concelho de Vila do Conde, celebrado na Igreja paroquial de S. Tiago, a 20 de Outubro de 1746.
A igreja paroquial de S. Tiago de Custóias, cujo orago é Santiago Maior, tinha sido construída, 13 anos antes, em 1733, pelo Balio do Mosteiro de Leça, ao qual a freguesia pertencia. Substituiria a antiga igreja medieval que era anterior ao século XIII.
Deste matrimónio são conhecidos dois filhos: José Gonçalves Lopes, que foi Capitão-mor das Ordenanças da Baliagem de Leça e Domingos Gonçalves Lopes que viria a residir na Quinta de S. Félix, em S. Mamede de Infesta, também conhecida por Quinta de Picoutos, por ter contraído matrimónio com uma de duas irmãs, herdeiras, em 1782, dessa quinta.
 
 
 
Igreja Paroquial de Santiago de Custóias
 
 
A família de Ana Maria Dias detinha, portanto, o domínio útil do prazo (propriedade), pagando um foro ao detentor do domínio directo, o senhorio ou seja, a Baliagem de Leça.
Daquele matrimónio, acontecido em Outubro de 1746, resultou a instituição dos bens patrimoniais para o regime de morgadio, passando a família e a casa a denominarem-se de «Morgados de Santiago».
Os morgadios eram instituições constituídas por um conjunto de bens ou rendimentos não divisíveis nem alienáveis, transmitindo-se nas mesmas condições, por morte do seu titular, ao descendente primogénito varão, o morgado.
Esta instituição vincular, cujo vínculo advinha da perpectuação do poder económico da família, tem origem na legislação castelhana e, embora seja adoptada pelo reino de Portugal antes, só entra na legislação portuguesa com as Ordenações Filipinas de 1603.
Os morgadios foram extintos em Portugal no reinado de D. Luís I por Carta de Lei de 19 de Maio de 1863.
O morgadio difundiu-se como uma forma de contrariar o empobrecimento das famílias devido às sucessivas partilhas, mas, por outro lado, uma das razões que levou à sua extinção foi o empobrecimento dos filhos não primogénitos.
No século XVIII, uma das fontes de rendimento mais importantes decorriam, portanto, das explorações agrícolas.
Os mais abastados baseavam a sua riqueza nos rendimentos extraídos dessa actividade, que lhes proporcionava a ascenção social e, bem assim, o desempenho de outros cargos na sociedade.
Um desses cargos era o de oficial das ordenanças que valia a obtenção de privilégios e de poder na governação local. Por essa razão, era disputado pela burguesia com elevado cabedal fundiário e financeiro.
As “ordenanças” começaram o seu desenvolvimento a partir de D. Sebastião.
 
“As ordenanças constituíram o escalão territorial das forças militares de Portugal, entre o século XVI e o princípio do século XIX.
A partir da Guerra da Restauração, as ordenanças passaram a constituir uma espécie de 3.ª linha do Exército, servindo de fundo de recrutamento e de complemento à 2.ª linha (tropas auxiliares ou milícias) e a 1.ª linha (tropas pagas).
(…) O Regimento dos Capitães-Mores prevê que as ordenanças se organizem com base nas capitanias, cada qual a cargo de um capitão-mor. Cada capitania correspondia à área territorial de uma cidade, vila, concelho ou território senhorial e incluía várias companhias de ordenanças, cada qual a cargo de um capitão e com um efetivo de cerca de 250 homens.”
Fonte: “pt.wikipedia.org/”

 
Devido aos privilégios de que gozavam os oficiais de ordenanças, a partir da revolução de 1820, começa a falar-se na possibilidade de que as tropas que lhe eram afectas fossem desactivadas, pois o povo não aceitava a situação.
No entanto, só em 24 de Março de 1831, um decreto poria fim à ordenanças. 
Oficial de ordenanças era, assim, José Gonçalves Lopes, que acaba por contrair matrimónio com a herdeira duma outra quinta, a Quinta do Rio (antigo Casal do Moinho) situada em Ramalde, mais propriamente, em Ramalde do Meio, situada junto da confluência dos dois cursos de água que, a partir daí, formam a Ribeira da Granja que vai desaguar no Rio Douro, no Largo António Calém.
Um desses ribeiros nasce em Arca d’Água e passando pela Prelada toma o nome de Ribeira da Prelada, o outro nasce no lugar do Seixo, no lado exterior da Estrada da Circunvalação.
Por sinal, o pai da noiva, Manoel da Silva Guimarães ascenderia ao posto de Capitão das Ordenanças e recebeu a patente, do Brigadeiro das Armas do Partido do Porto, João de Almada e Melo, a 16 de Julho de 1760, com todas as «honras, privilégios, liberdades, isenções e franquezas».
Manoel da Silva Guimarães, antes de ser o Capitão de Ordenanças de Ramalde, era “homem de negócios” e morava em “Sima do Muro dos Banhos”, na Ribeira, na cidade do Porto. Não tinha ascendência nobre, por isso, a ausência de pedras de armas na sua residência em Ramalde.
A 17 de Agosto de 1774, na Quinta do Rio, na Freguesia de Ramalde do Julgado de Bouças, é feita uma escritura de dote de casamento, por Manoel da Silva Guimarães e sua mulher, a sua filha Ana Maria Joaquina, para casar com o capitão José Gonçalves Lopes, acto ao qual esteve presente a mãe do noivo, Ana Maria do Espírito Santo, viúva de Domingos Gonçalves Lopes.
Como curiosidades, diga-se que, no contrato de casamento exarado entre as duas famílias, o noivo, entre outros bens, vinha dotado com “dois pretos velhos”, provando a existência de escravatura na região e, ainda, com o Privilégio das Tábuas Vermelhas de Nossa Senhora de Oliveira (que se achava confiscado pela fazenda), enquanto a noiva, entre outros bens, vinha dotada com o Prazo das Azenhas da Barca da Trofa, propriedade foreira do Convento de Landim.
Como se observa, tanto sogro como genro eram Oficiais de Ordenanças, o que lhes conferia um enorme poder.
 
 
 
Quinta do Rio – Ed. Teófilo Rego, 1958


 
Em 1909, à esquerda, a Quinta do Rio, com a sua capela, sendo visível, à direita, a ponte que em Ramalde do Meio permitia o atravessamento da Ribeira da Granja, na estrada que ligava o Porto à Senhora da Hora – Ed. J. Bahia Júnior
 
 
Em 1796, o capitão José Gonçalves Lopes haveria de redigir o seu testamento na Quinta da Neta, na freguesia de Santo Ildefonso, uma propriedade que hoje situaríamos próximo do local onde está o Palácio Atlântico, na Praça D. João I.
Institui, então, como seus herdeiros universais, os seus nove filhos Domingos, Manoel, Rodrigo, António, Ana, Maria, Francisca, Florida e Margarida e um outro, póstumo.
Como os filhos eram menores, nomeia para procurador o seu irmão Domingos Gonçalves Lopes, morador na Quinta de S. Félix, em S. Mamede de Infesta.
Por curiosidade, diga-se que, mais tarde, o filho Rodrigo, de seu nome completo, Rodrigo Gonçalves Lopes, acabará por receber por herança do seu tio, Domingos Gonçalves Lopes, a Quinta de S. Félix ou Quinta de Picouto, em S. Mamede de Infesta, de cuja memória, apenas resta a sua capela.


 
Capela de S. Félix de Picoutos, na Rua da Mainça – Fonte: Google maps
 
 
Em 1807, era proprietário da Casa de Sam Thiago, o filho de José Gonçalves Lopes, Domingos Gonçalves Lopes, tendo requerido um “Processo de Justificação de Nobreza”, com a Carta de Brasão a ser passada em 7 de Outubro de 1807 e, em 1808, contrairia matrimónio com Margarida Rosa de Araújo, tendo assumido o posto de Capitão-mor da Baliagem de Leça, um título proveniente da venalidade dos cargos, como era usual.
 
“Em 1841, a viúva Dona Margarida Rosa de Araújo Lopes e o seu filho Domingos andavam desavindos com Maria Margarida Meneses, viúva de Bernardino José Machado de Meneses, negociante e residente na Rua das Flores, no Porto, por causa de uma dívida de “[…] oitenta e cinco mil cento e cinco réis metal proveniente da Fazenda da Lã […] no ano de 1830”.
Cortesia do Doutor Manuel Almeida Carneiro
 
 
A dívida mencionada não foi liquidada. O caso foi para os tribunais e aconteceu a penhora de bens.
Nas duas décadas seguintes, a situação não apresentava melhoras e por endividamento dos proprietários, à época, a Quinta de Sam Thiago vai ser vendida à família Pestana da Silva, em 1850.
 
 
 
“ (…) dá-nos conta de um empréstimo de 300.000 réis,216 cuja dívida foi saldada em 1850 em casa de D. Rodrigo em Picoutos, certamente com o dinheiro da venda da Casa de Sam Thiago à família Pestana da Silva”.
Cortesia do Doutor Manuel Almeida Carneiro
 
 
 
 
Perspectiva das fachadas a Poente e Sul, da Casa de Sam Thiago - col. do Dr. Manuel Almeida Carneiro

 
 
Fachada a Norte da Casa de Sam Thiago - col. do Dr. Manuel Almeida Carneiro
 
 
 
 
Por sua vez, já na posse da família Pestana, a Casa de Sam Thiago foi renovada e ampliada, entre os finais do século XIX e as primeiras décadas do Século XX, por José Joaquim Pestana da Silva.

 
 
 
Planta (Esc 1:100) esquemática sobre a cronologia das intervenções na Casa de Sam Thiago - Desenho elaborado a partir do projecto original dos arquitetos Guilherme Salvador e Teresa Mano; In: Dissertação de Doutoramento, em 2016, na área de História de Manuel Almeida Carneiro


 
Pátio da Casa da Quinta de Sam Thiago – col. do Dr. Manuel Almeida Carneiro
 
 
 
“Próxima da igreja paroquial, junto ao largo da feira, a casa de Sam Thiago é um dos imóveis mais belos e emblemáticos da freguesia de Custóias. É um magnífico exemplo da arquitectura civil dos finais do século XVII e do poder económico que algumas famílias conseguiram alcançar nessa época. O conjunto arquitectónico é rodeado por belos jardins e possui uma casa senhorial, capela privada anexa às dependências.
A casa nasceu a partir de um terreno que pertencia ao Bailiado de Leça, que em 1604 era conhecido pelo nome de Meio Casal de Justa Gonçalves. Em 1804 pertencia à família Lopes e Domingos Gonçalves Lopes, capitão-mor e administrador da casa, que requereu o título de nobreza e o uso de brasão. Hoje podemos apreciar, no portão principal, o brasão de armas de que consta um escudo de forma elíptica, no qual estão representadas, no campo esquerdo, as armas dos Lopes (palmeira e um corvo de asas estendidas pousado nela) e, no campo direito, as armas dos Silvas (um leão). No entanto, é aqui que a decadência económica da casa de Sam Thiago se inicia, com o endividamento do capitão-mor Domingos Lopes, o que vai obrigá-lo a vender a propriedade, em 1850, à abastada família portuense Pestana da Silva”.
Fonte: “jf-custoias-lecabalio-guifoes.pt/”
 
 
 
Brasão de armas encimando o portão principal de entrada da Casa da Quinta de Sam Thiago
 
 
O Município de Matosinhos tem em curso um processo de classificação da Casa de Sam Thiago, como imóvel de interesse público.

Sem comentários:

Enviar um comentário