terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

(Continuação 4)

Na zona do Carmo, o conhecido Botequim do Martinho manteve-se aberto entre fins do século XIX até 1915.

“No ângulo da Praça Parada Leitão, onde está presentemente (em 1964) a mercearia e confeitaria Flor do Carmo. Foi fundador deste botequim, Martinho José Matias, empregou-se no botequim da Porta do Olival… O botequim do Martinho, cujo proprietário era detentor de umas venerandas e bem penteadas barbas, mantinha no seu estabelecimento, pequeno mas acolhedor, uma frequência muito escolhida, de entre a qual, cumpre-nos evidenciar as figuras do grande lírico Guerra Junqueiro e do Professor Doutor Alexandre Alberto de Sousa Pinto (1880/1982), que foi ilustre Ministro da Instrução Pública e Reitor da Universidade do Porto. Em 1915 foi o Botequim do Martinho substituído pela Casa da Índia que mais tarde, cedeu o lugar à actual Flor do Carmo.”
In O Tripeiro – Série VI – Ano IV.


A Norte da Estação de S. Bento ostentando, numa das paredes, o seu desenho original, O Café Brasil existe desde 1859 até hoje. Ao tempo, tinha duas mesas exclusivas para jogar dominó.


Café Brasil


Pela então chamada Praça D. Pedro, o célebre Café Guichard existiu até 1857, quase na esquina do antigo edifício do convento dos Padres da Congregação de S. Filipe de Nery, onde esteve o Banco Nacional Ultramarino, e que hoje pertence à Caixa Geral de Depósitos.


Café Guichard na 3ª, 4ª e 5ª porta, a contar da esquina


Após ter encerrado a 5 de Fevereiro de 1857, apareceram nos anos seguintes mais três cafés no mesmo quarteirão, o Portuense, o Central e o Camanho.
Sobre o Guichard, onde Camilo parava, bem como Sousa Viterbo, Arnaldo Gama, Faustino Xavier de Novais, Alexandre Braga, Soares de Passos e outros intelectuais, escreve Firmino Pereira:

” (…) às noites, no Guichard, esses moços da Távola Redonda, escorropichavam copinhos de hortelã-pimenta, declamando Lamartine, Soares de Passos e João de Lemos. Era o botequim dos Alfredos e dos Manricos, de melena revolta e alma ardente de labaredas românticas. Aí se reuniam habitualmente os literatos, os poetas e os românticos que vinham das agitações do cerco e da Patuleia e que, entre um cálice de licor e uma fumaça de charuto, decidiam dos destinos e da arte da política. No Guichard os poetas suspiravam, mas também batiam... e levavam. Nestes tempos de balada e murro, o botequim era o centro de toda a vida portuense. À volta de uma mesa compunham-se odes, combinavam-se raptos e planeavam-se conjuras.
(…) De resto no Guichard (onde o italiano Trucco iniciara o tripeiro nas delícias do sorvete) muitas vezes sucediam-se casos trágicos de murros vingadores”.

Paredes meias com o local onde esteve o Guichard, mas posterior a ele, a meia dúzia de metros a Norte, esteve entre 1870 e 1917, O Camanho, propriedade de um cidadão de origem espanhola de nome José Camanho.
Manuel José Camanho chegou ao Porto nos meados do século XIX e aqui montou um pequeno bar, "de uma porta só", nas imediações do célebre Café Baviera, mais ou menos onde, posteriormente, abriria o Camanho, que substituiria nos baixos do prédio que ficava mesmo encostado à fachada da igreja dos Congregados, uma cervejaria que havia sido fundada por Frederico Clavel. Deste, o estabelecimento passou para um seu empregado, o espanhol Manuel José Camanho, que o ampliou e o trans­formou em café, a que deu o seu nome. 
Frederico Clavel estava bem estabelecido no ramo cervejeiro, possuindo uma fábrica de cerveja nas Escadas do Codeçal, que em 1865, transferiu para a Rua de Camões, n.º 91.
Por descrições feitas por quem conheceu bem “O Camanho”, a sua sala não era muito ampla mas era arejada e bastante iluminada (uma característica pouco comum aos cafés daquele tempo que, por regra, ocupavam salas pequenas e pouco ventiladas), e que rapidamente se transformou no centro de cavaqueira e de reunião preferido dos literatos, professores, políti­cos e negociantes do Porto desse tempo.
O estabelecimento começou por servir quase que exclusivamente bebidas, principalmente as bebidas tradicionais daqueles tempos:
“ (…) o porto, e havia-o da colheita de 1815; a genebra Fockink, nas suas tradicionais botijas de grés; o então muito apreciado gim; várias marcas de uísques escoceses; e, claro, o alucinante absinto”. 
Mas não tardou que começasse a ter um esmerado serviço de restaurante sendo especialmente apreciados os pratos de peixe, as costeletas e onde se almoçava, jantava ou ceava, lampreia à bordalesa e bifes de caçarola, por pouco mais de cinco tostões.
Lá, se reuniam Guerra Junqueiro com a sua inseparável bengala, Rodrigo Salgado Zenha, Camilo, o pintor Francisco José de Rezende e tantos outros famosos artistas, políticos, literatos e cientistas do tempo.
Guerra Junqueiro ia frequentemente e era conhecido por sair às 11 horas em ponto, quando ouvia as badaladas da torre da Lapa.
Guido Severo ( Francisco Guimarães), cronista da época, escreveu, que por lá passaram:

" (…) as melhores rodas do Porto" e especificou: "jornalistas e poetas; mundanos e "noceurs"; comerciantes, industriais, professores, banqueiros, enfim, tudo o que tinha um nome na política, na ciência, na literatura, na arte, na esfera dos negócios e no âmbito das ideias, ou mesmo qualquer pessoa que começasse a afirmar-se em radiosas esperanças, dentro do minúsculo mas curioso caleidoscópio da vida portuense daquele tempo, não desdenhava de abancar, de forma transitória ou diariamente, ao redor das mesas de mármore branco do Camanho". 

O sítio da sala mais ruidoso, onde as conversas decorriam num tom mais acalorado era aquele em que se juntavam os jornalistas. Quase todos, os daquele tempo, por lá passavam. Citamos apenas os mais conhecidos: João Grave que dirigia o "Diário da Tarde"; Pai Ramos, de "O Primeiro de Janeiro"; Marcos Guedes, correspondente no Porto de "O Século"; Guedes de Oliveira; e o caricaturista Manuel Monterroso.

Sobre os meados do século XIX Luís Ramos escreve:

“Era esta a cidade dos janotas que, na Praça de D. Pedro, esperavam as meninas, eventuais herdeiras de dotes de 80 contos em apólices, que saíam da missa dos Congregados. Desfeiteados, podiam ir namorar as pensionistas temporárias do Convento de Ave-Maria, punindo-se por pecados sociais, atendidas pelas criadas, rodeadas de baús de roupa, de joias, licores e pastéis de ovos. Enquanto os chefes de família jogavam dominó nos cafés, bebendo copinhos de cana e comendo figos secos – ou tomando chá à inglesa –, a família, se dispunha de 2 mil réis ou mesmo 4 mil, podia ir até à Praça, ou à Rua do Almada, tirar o retrato daguerreotipado, em tom de ouro e azul, ao gosto inglês.”

Em 1917, a Avenida dos Aliados já andava a ser aberta a bom ritmo.
Nesse ano, o Banco Nacional Ultramarino comprou, na Praça da Liberdade, o edifício onde funcionava a casa bancária Pinto Fonseca & Ir­mão. Ficava mesmo pegado àquele em que funcionava o Camanho, que também foi adquirido. E assim acabou um dos míticos locais de reunião da intelectualidade portuense, na transição do século XIX para o século XX.
Depois da compra daqueles edifícios pelo Banco Nacional Ultramarino, o filho do fundador do Camanho, Carlos, mudou, só com a secção de restaurante, para a Rua de Sá da Bandeira nº 39, onde ainda se conservava em 1936, quando, nesse mesmo local, abre o Café Cabo Verde.
Por cima do balcão na foto abaixo, vê-se uma escada de acesso às prateleiras cheias do Camanho, das mais variadas bebidas.


Café Camanho

Na foto acima está o velho Manuel José Camanho ladeado pelo moço da copa e pelos criados Pedro e Tomás.
Para se fazer uma ideia de como no Porto daquele tempo se apreciava a boa mesa, para além do Camanho, ficaram célebres muitos outros restaurantes: Porto Clube, com serviço de gabinetes; Café Suisso, com serviço de restaurante no primeiro andar, com salas e gabinetes; Café Central que daria lugar, anos mais tarde, em 1933, ao Café Imperial (hoje McDonald´s), tendo sido fundado no local onde depois se levantou o Café Embaixador dos nossos dias.

No 2º prédio a contar da esquerda é o Camanho, na Praça D. Pedro

Publicidade ao Camanho, já na Rua Sá da Bandeira em 1923



Cafés importantes instalados a partir da 2ª metade do século XIX foram entretanto desaparecendo da actual Praça da Liberdade, de que são exemplo O Lusitano, mais tarde passou a O Portuense e depois a O Suisso, O Camanho, O Ventura, O Central que cederia mais tarde o espaço ao Imperial e situado na Rua do Bonjardim O Lisbonense.
Em 1860 o café da moda era O Portuense que ocupava o mesmo espaço inicialmente ocupado pela Hospedaria Resende e desde 1853 pelo Café Lusitano.
O Café Lusitano abriu as suas portas ao público em 17 de Abril de 1853 e funcionou algum tempo na esquina da Praça D. Pedro e a Rua de Sá da Bandeira, hoje Sampaio Bruno, sendo que, o seu proprietário foi obrigado a fazer profundas obras de remodelação, para adequar o espaço à actividade de café pretendida. Em 1854 é concedido alvará de licença a António José Ribeiro, para que o seu café tivesse jogo de bilhar.

“Na esquina da Praça de D. Pedro e Sá da Bandeira (actualmente Sampaio Bruno), O Lusitano abriu em 17/4/1853, ocupando 2 portas para a praça e 5 para Sá da Bandeira. Um tal Ribeiro, que tinha tido um botequim em cima do muro, fez obras muito avultosas, gastando mais de dois contos de reis, para transformar uma alquilaria e um forno de pão num dos mais requintados botequins do Porto. Segundo José Fernandes Ribeiro pois "precisava de muitos preparos a fim de servir para o que agora serve: soalhos, estuque, pinturas, guarnições, douraduras, escadas, cozinha interior, etc. etc."
Fonte: portoarc.blogspot

“O então proprietário do café não conseguiu aguentar, as despesas da remodelação, tendo sido obrigado, em 15 de janeiro de 1860 a ceder o estabelecimento ao velho Chaves, que passou a ser o seu proprietário, tendo-lhe alterado o nome para Café Portuense”.
Horácio Marçal- Os Antigos Botequins do Porto


Muito luxuoso, dos mais notáveis da época, com muitos espelhos e candelabros, o café Portuense, “Possuía uma sala especial para as senhoras tomarem os sorvetes que ali eram servidos com apurado requinte. Para se avaliar do luxo desta casa de bebidas basta saber-se que as cadeiras – coisa inobservável no tempo presente se mostravam estofadas a veludo cor de carmesim. Este concorrido botequim, que durante o dia mantinha as mesas sempre ocupadas com os jogos do dominó, do Bóston e do voltarete e á noite era muito frequentado por comerciantes.”

Anos mais tarde em 1890 abriu o Café Suisso, de Pozzi Cª, que sucedeu ao Café Portuense.
Tinha pastelaria no rés–do-chão e restaurante e bilhares no 1º Andar.
Foi primeiro café concerto do Porto, proporcionando à sua clientela boa música executada por um terceto de piano, violoncelo e contrabaixo, muito apreciado no Porto.
Entretanto um outro Café Portuense abriria na esquina da Rua do Bonjardim com a Rua Sá da Bandeira no edifício onde esteve no seu cunhal, uma fonte.


Publicidade ao Café Portuense (na esquina da Rua de Sá da Bandeira e Rua do Bonjardim)



Praça D. Pedro junto à Câmara



Em frente à direita o Café Suisso em 1900


Na foto acima à direita, vemos o Café Suisso na esquina do que é agora a Rua Sampaio Bruno e a Praça da Liberdade, e com os antigos Paços do Concelho, ainda de pé, à esquerda.
O Café Suisso teve grande notoriedade no espaço urbano da cidade portuense.
Nos finais do século XIX, foi considerado o melhor da cidade, atendendo ao luxo da sua decoração interior, recheada de espelhos e candelabros, tendo sido, inclusivamente, frequentado por grandes personalidades da literatura e da política da cidade.
Aquando da remodelação da Praça da Liberdade, após a mudança dos Paços do Concelho, ocupou no mesmo local um edifício completamente novo.
Dobrou o século XIX para o século XX e encerrou as suas portas em 1958.


Interior do Café Suisso em meados do século XX




Café Suisso em 1932 em novo edifício


O Café Lisbonense no 3º quartel do séc. XIX ficava na Rua do Bonjardim, onde mais tarde foi a sede do Banco Borges.
Este café apresentava uma orquestra de Inverno (quarteto dirigido pelo violoncelista Júlio Caggiardi).
O Café Ventura foi inaugurado em frente ao Café Suisso em 1891 na Rua Sampaio Bruno, que se chamou outrora (1875) Travessa de Sá da Bandeira, no local em que hoje está actualmente o Café Embaixador.
Proporcionava concertos musicais com assiduidade.
O Café Central, preferido dos estudantes situou-se onde está o actual Imperial, vindo em 1897, do local onde está o Café Embaixador dos nossos dias.


Café Imperial, antigo Café Central



O Café Central (1897/ 1933) depois Café Imperial, à direita da foto


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