quinta-feira, 2 de março de 2017

(Continuação 6) - Actualização em 03/04/2019 e 15/10/2020

Fonte: Porto Desaparecido, Marina Tavares Dias



Na foto acima observa-se que a nascente da Praça da Liberdade e da Avenida dos Aliados o antigo Café Central ainda existe na praça, o edifício do Café Suisso na esquina da Rua Sampaio Bruno está em construção, e no quarteirão que se segue, iriam assentar os cafés Sport e Avenida e mais tarde o novo Café Central ou Central-Café ou, ainda, Café Central da Avenida, para o distinguir do que esteve na Praça D. Pedro.
O Café Avenida era no local o mais antigo dos três.



Publicidade ao Café Avenida - Fonte: Porto Desaparecido, Marina Tavares Dias


“O Café Avenida é inaugurado, em finais da década de vinte, no quarteirão delimitado pelas ruas Sampaio Bruno e Magalhães Lemos. Possuía salão de bilhar e era conhecido pelo seu café de qualidade. Os espetáculos com orquestra ao vivo eram uma constante. Em 1940 sofre obras de remodelação e reabre com a designação de Vitória-Café-Restaurante-Cervejaria. Não resistiu à passagem da primeira para a segunda metade do século XX.
Igualmente localizado entre as ruas Sampaio Bruno e Magalhães Lemos surge, em 23 de novembro de 1929, o Café Sport, uma semana antes da inauguração da escultura "Menina Nua" de Henrique Moreira na Avenida dos Aliados. O estabelecimento assumia estilo moderno, ao gosto da época, formalizado ao nível exclusivo do piso térreo, com um salão principal recheado de mesas e, em 1936, foi inaugurado um grande salão de bilhares.
Segundo Marina Dias, «assume estilo moderno, com projeto da dupla Rogério de Azevedo-Baltazar de Castro e do pintor decorador António Costa, que em quatro painéis representa quatro modalidades desportivas: o futebol, a natação, o atletismo e o golfe».
Como é óbvio, atraía uma clientela ligada ao desporto, mas também os artistas do "Grupo Mais Além", e alguns arquitetos e engenheiros com escritórios nas proximidades.
Leonardo Coimbra e Teixeira Rego serão seus frequentadores habituais. Em 1943 será totalmente remodelado «espelhos nas paredes e um vitral ao fundo dão-lhe um ar mais solene, mas o estilo arrojadamente modernista desaparece de vez». Acaba os seus dias em finais dos anos sessenta, para dar lugar a uma agência bancária.
O Café Au Chantecler foi inaugurado por Mariano Suez, a 12 de maio de 1915, no n.º 132 da Rua do Bonjardim. Foi considerado um dos melhores do seu tempo, atendendo às condições de comodidade e conforto de que era detentor. Possuía um palco para espetáculos musicais, ajustando-se à tipologia dos cafés-concerto.
No que diz respeito aos cafés em concreto, num universo de cento e sete estabelecimentos, que entre o início do segundo quartel do século XIX e o fim da primeira metade da centúria seguinte foram proliferando pelos cinco núcleos urbanos da cidade do Porto, destacam-se trinta e cinco cafés (vinte e sete extintos e oito ainda ativos na atualidade).
Entre os trinta e cinco destacados, vinte e seis podem ser considerados cafés históricos.
São eles os cafés, já extintos: Porta de Carros, Hortas, Neve, Central, Chaves (situava-se na confluência das Ruas D. Pedro e Rua do Laranjal, mesmo nas traseiras dos antigos Paços do Concelho) Café Recreio (na esquina das desaparecidas ruas do Laranjal e dos Lavadouros e que antes se chamou Café República), Café Primavera (na desaparecida Rua do Laranjal), Café Astória (situado em frente à Estação de S. Bento, na esquina do prédio do Passeio das Cardosas) Café Leão d’Ouro (anterior Comuna), Café Graça, Café Martinho, Café Chaves (no Chalet da Cordoaria), Café Vitória, Café Avenida, Café Sport, Café Monumental, Café Central (o da Avenida dos Aliados, que foi para junto do Café Sport que já existia à data, tendo fechado no fim dos anos sessenta do século passado e tinha sido inaugurado entre as ruas de Sampaio Bruno e Elísio de Melo, agora chamada Magalhães Lemos, após o encerramento do outro Café Central da Praça de D. Pedro, em 1933), Café Lisbonense, Café Au Chantecler (situado na Rua do Bonjardim, no troço compreendido entre a Rua Sá da Bandeira e a Praça D. João I), Café Rialto (situado na Praça D. João I na cave do edifício Rialto na esquina com a Rua Sá da Bandeira) e Café Excelsior e os cafés ainda ativos na atualidade: Café Brasil, Café Chave d’Ouro, Café Portas do Olival, Café Âncora d’Ouro (conhecido por Piolho) e Café Progresso.
Os três útimos na zona da Reitoria da Universidade tinham clientela ligada ao sector estudantil. Nessa mesma zona podemos ainda referir o Café Lealdade (depois Café Romão, ainda existente) na Praça Carlos Alberto e O Café Universidade contíguo ao “Piolho.
(…) Os restantes nove são aqueles que são sem sombra de dúvidas cafés históricos e os mais emblemáticos. São eles os cafés: Guichard, Águia d’Ouro, Suisso, Camanho, Imperial e Palladium (todos eles extintos) e os cafés: A Brasileira, Majestic e Guarany (estes com maior longevidade)”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes 



Publicidade ao “Café Sport” em 31 de Janeiro de 1931 no semanário “O Pirolito”



Em 4 de Abril de 1936, Júlio de Araújo, à data, proprietário do Café Sport, inaugura em instalações anexas às já existentes, uma nova sala com os melhores bilhares do país, espaço para jogos lícitos e "reservados" para pequenos lanches.




À direita da foto é possível ver ainda parte do reclame do Café Central (o da Avenida). Para lá do toldo claro ficava o Café Sport


Entrada do Café Sport





“Desde ontem que se encontra aberto ao público mais um elegantíssimo café, arrojada iniciativa de três individualidades marcantes, os srs. Caetano Ferreira do Amaral, António da Costa Ribeiro e António Manuel Ribeiro.
«Central-Café», assim se denomina o novo estabelecimento, encontra-se situado em pleno coração da cidade, à entrada da Avenida dos Aliados. O Projecto, da autoria do engenheiro sr. Mário Leitão, mereceu das inúmeras pessoas que ontem visitaram o «Central-Café», as mais eligiosas referências. Lindos efeitos são tirados das colunas de mármore de Vimioso, dos espelhos que circundam a vastíssima sala, em combinação com a côr das paredes, da iluminação profusa e viva.”
In “Jornal de Notícias”, 11 de Setembro de 1938 – Domingo


Pelas bandas da Cordoaria, Alberto Pimentel refere-se ao Café Portuense no edifício da Academia mas a Sul no Campo dos Martyres da Patria nº 108.
 
“Sempre as mesmas caras, as mesmas phrases, e os mesmos grupos. Ha bilhar”.
 
Ainda pela Cordoaria, teria sido fundado no ano de 1853, o Botequim da Porta do Olival, pelo que, deverá ser o mais antigo café do Porto, já que, ainda hoje existe, no Campo dos Mártires da Pátria, no final da chegada da Rua de Trás, à Cordoaria (antigo Largo da Porta do Olival).
Na cave do café pode ainda observar-se, parte da Muralha Fernandina, que tinha uma das portas principais nesta zona, a chamada Porta do Olival, onde o botequim foi buscar o seu nome.






Os almanaques do Porto, para 1884 e 1901, dão como proprietário do botequim da Porta do Olival, Joaquim Maria da Silva.
Posteriormente, o botequim veio a pertencer à criada deste, a quem ele legou – antes de falecer, em 1916 ou 1917 – a posse do estabelecimento e do seu recheio. Com a morte da cria­da e do seu marido, António de Oliveira, este botequim veio a pertencer a uma irmã de António de Oliveira, que por sua vez o trespassou.
Horácio Marçal dá-nos, ainda, deste botequim, um registo na primeira pessoa:
 

“Durante o ano de 1927, quando recruta do regimento da 1.ª Companhia de Saúde, nas Taipas, fomos bastantes vezes ao 1.º andar deste modesto cafèzinho jogar algumas partidas de bilhar com o nosso alegre camarada da tropa Eduardo Augusto da Silva, o fadista, como era conhecido no Quartel”.
Horácio Marçal
 
 
Através de Horácio Marçal, ficamos a saber que o café chegou a ter dois pisos (ao contrário do que sucede nos dias de hoje).
Também junto do Largo do Carmo existiu o Café do Carmo referenciado por Alberto Pimentel, paredes meias com o Café Âncora D’Ouro.
Ficou também conhecido, inicialmente, por Botequim do Carmo.

 
 

In “Jornal do Porto” de 20 de Junho de 1872, pág. 4



À esquerda da foto é possível ver a placa, na fachada do prédio da esquina, identificando o “Café do Carmo”, em 1890
 
 
 

Café do Carmo na esquina do Largo do Carmo e a Rua do Carmo – Fonte: AHMP
 
 
José Bernardo de Sousa terá sido um dos proprietários do Café do Carmo, mas, em 1884, já estava com outro projecto em mãos – o novo Chalet da Cordoaria.
O Chalet da Cordoaria, aberto em 1870, estava constantemente a mudar de mãos. Em 1884, tinha chegado a vez de José Bernardo de Sousa.
 
 
“Chalet da Cordoaria - Principiou ontem a funcionar, dentro do Passeio da Cordoaria, o novo chalet, ali colocado e onde se encontra, por preços módicos, tudo o que é indispensável num estabelecimento daquele género”.
In jornal “ O Brio do Paiz” de 30 de Setembro de 1870

 
Passado quase um ano, António dos Santos, que explorava o chalet, solicitava permissão à Câmara do Porto para trespassar o estabelecimento.


In "Jornal do Porto" de 18 de Agosto de 1871 


Passados treze anos sobre a sua inauguração, o Chalet da Cordoaria reabriria, após uma época de encerramento.
 
 
“Chalet da Cordoaria - Reabriu-se ontem este importante estabelecimento e Café e bilhares, como um dos melhores deste género na cidade”.
In jornal “A Verdade” de 15 de Outubro de 1883
 
Em 21 de Abril de 1884, o jornal “A Verdade” informava que o antigo proprietário do Café do Carmo tinha passado a deter a propriedade do Chalet da Cordoaria, situação que outro periódico reafirmaria cerca de um ano depois.
 
 
“Chalet da Cordoaria – É assim que se denomina um estabelecimento de café e bilhares, situado no jardim público do Campo dos Mártires da Pátria, propriedade do sr. José Bernardo de Sousa.
Neste estabelecimento não se admitem crianças a jogos de bilhar, o que não acontece em muitos outros.
No jardim, junto ao chalet, há mesas e bancos para os fregueses se servirem das diversas bebidas próprias de estabelecimentos desta ordem”.
In “O Jornal do Paiz” de 25 de Maio de 1885



A partir de 5 de Agosto de 1899, durante alguns meses, o Chalet da Cordoaria iria alojar o Restaurante Chalet da Cordoaria, explorado pela firma Lardelli & Sotto.




Chalet da Cordoaria
 
O Chalet da Cordoaria, após mais um encerramento, voltaria a abrir em 1900.
 
 
 
“Chalet da Cordoaria – Esta linda casa de recreio num dos pontos mais aprazíveis da cidade e que havia tempo se encontrava fechada, reabriu novamente com uma instalação de café”.
In jornal “O Primeiro de Janeiro” de 7 de Outubro de 1900



Em 1918, o Chalet da Cordoaria passa a ser ocupado pelo Café Chaves, vindo da esquina da Rua do Laranjal com a Rua Elias Garcia e, em Outubro de 1947, começaria a ser demolido.
Houve uma época em que abriram cafés de cariz mais popular. Foi o caso do Café Primavera que em 1908 já existia na Rua do Laranjal (mudou-se depois para a Travessa da Picaria em 1917 e fechou, passados alguns anos), junto ao chafariz do Laranjal, onde actuavam bailarinas espanholas, e o Café República, depois Café Recreio, na Rua do Laranjal na esquina da desaparecida Rua dos Lavadouros, com actuação de bailarinas e cantadeiras.
Do mesmo género apareceu na década de 30, o Colon (depois Bristol) na Rua de Entreparedes, o Chinês na Rua do Campinho com orquestra e clube nocturno e o Vitória na Praça de Santa Teresa com fados e guitarradas. 



“Em 6 de Agosto de 1904 abriu, na antiga Rua do Laranjal, o Café Recreio. Este café foi um dos primeiros estabelecimentos que se notabilizaram, no âmbito de uma característica particular, que alcançou grande popularidade naquela época. Trata-se da curiosidade do café-concerto, com espetáculos de música e dança, que lá se realizavam frequentemente. Fundado por José Luís do Couto Querido, este café começou por ser denominado de Café República – nome que teve pouca dura – tendo sido, pouco tempo depois, alterado para Café Recreio. Aqui atuaram, durante sensivelmente treze anos, diversas bailarinas espanholas e músicos variados. Acabou por encerrar em 1917, face às obras realizadas para abertura da Avenida dos Aliados”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes




Aqui ficava o Café Primavera



Por volta de 1917 e na sequência das demolições que andavam a ser feitas no velho bairro do Laranjal, para a abertura da Avenida dos Aliados, o velho Café Primavera mudou-se para a Travessa da Picaria, junto aos lavadouros, onde continuou a funcionar sempre com casas à cunha. 
A propósito do Café Primavera Germano Silva diz-nos que um cronista dos começos do século XX escrevia:


 "A sua clientela era heterogé­nea. Entrava lá de tudo. Desde o cocheiro e o operário ao jor­nalista e comerciante, parava por lá, enfim, gente de toda a esfera social, talvez, é de crer, levada pelas estonteantes di­versões (leia-se bailarinas es­panholas) que o seu proprietá­rio apresentava diariamente como reclamo essencial ao bom êxito do seu negócio". 




Por sua vez, o Café Chaves teve como proprietário um tal Chaves que, talvez, tenha sido o dono dum primeiro Café Chaves, que existiu até 1900, na Praça dos Voluntários da Rainha, por trespasse do Botequim da Graça em 18/5/1889, que pertencia a António Gonçalves Valença.
Sobre o Botequim da Graça, Alberto Pimentel que o frequentou, dizia que tinha loja e sobreloja e que era um espaço muito frequentado pela estudantina, que pouco ligava aos jogadores de dominó, mas que muito se embevecia com as lindas farinheiras e loiceiras que, de canequinha em punho, iam ali fazer a sua provisão de café. Informa, ainda, que lá jogava-se com afinco o trinta-e-um.
No entanto, o Botequim da Graça seria muito mais antigo, aparecendo já mencionado em, pelo menos, 1833.
Situava-se no edifício da Academia Real de Marinha e Comércio, na parte deste que fazia ângulo para o Largo do Carmo e para a antiga Praça da Farinha, depois chamada dos Voluntários da Rainha.
 
 
 “No Botequim da Graça que faz frente para a feira do Pão n.º 12 e 13 há para vender Água-ardente da terra e vinho da madeira de superior qualidade”.
In periódico “Crónica constitucional da Cidade do Porto” de 26 de Janeiro de 1833

 
 
O Café da Graça, também denominado Botequim da Graça teve, assim, uma existência bem remota, pois a ele se referia Alberto Pimentel, como tendo sido fundado por meados da década de trinta do século XIX e dizia, ainda, que este café localizava-se, especificamente, «loja e sobreloja enconchadas na parede do edifício da Academia que fazia ângulo para o largo do Carmo e para a antiga Praça da Farinha, depois chamada dos Voluntários da Rainha».
Este café localizava-se assim, concretamente, dentro do edifício inacabado da antiga Academia Real de Marinha e Comércio, na esquina da Praça dos Voluntários da Rainha (actual Praça de Gomes Teixeira) com a Praça de Parada Leitão.


 

Local onde tinha estado o Café da Graça, na década de 40 do século XX – Ed.  Foto Alvão; AHMP
 
 
“Botiquim da mesma ordem, nas mesmas condições. De vez em quando entra uma farinheira da Praça dos Voluntarios da Rainha, com a sua pequena caneca de louça, a comprar um vintem de café. Bom para estudar typos populares. Tem bilhar”.
Fonte: Guia do Viajante
 
 
“Segundo nos é dado a perceber por Alberto Pimentel, este café era constituído por “loja e sobreloja”. Não encontramos informação mais elucidativa de alusão à estrutura formal externa e interna do estabelecimento. Contudo, podemos depreender que existiria uma secção com mesas para o consumo do café e outras bebidas, e outra para a prática do jogo, destacando-se o dominó.
Pela descrição que podemos ler na Crónica Constitucional do Porto de 26 de janeiro de 1833, neste café era servida «água-ardente da terra e vinho da madeira de superior qualidade». Alberto Pimentel informa-nos, inclusivamente, que as farinheiras e loiceiras, «de canequinha em punho, iam ali fazer a sua provisão de café (…)».
Este café era frequentado, fundamentalmente, por estudantes da Academia Politécnica do Porto, entre outros.
Por questões relacionadas com o acabamento das obras de construção da Academia Politécnica do Porto, o Café Graça acaba por ter de encerrar no ano de 1900.
Alberto Pimentel informa-nos do seguinte: «Era um botequim de estudantes, onde passei não poucas horas em alegre convivência com os meus condiscípulos, sem nos importarmos com os caturras do dominó».
Percebemos, assim, que este café foi frequentado, assiduamente, por Alberto Pimentel, podendo asseverar a ideia de que outros literatos tenham, eventualmente, frequentado aquele estabelecimento”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes
 
 
 
Entretanto, 10/3/1900, devido às obras a decorrer na Academia Politécnica, Aníbal Chaves transferiu o Café Chaves, que tinha ocupado as antigas instalações do Botequim da Graça, para os baixos do Hotel Francfort, na esquina da Rua D. Pedro e da Rua do Laranjal, no local onde esteve o depósito da Companhia União Fabril Portuense.

 
 
“O antigo Café Chaves, que estava instalado nos baixos da Academia Politécnica, deve abrir brevemente nos baixos do Grande Hotel Francfort, no local em que esteve o depósito da Companhia União Fabril Portuense”
In “A Província” de 12 de Outubro de 1899.


 

À esquerda, na esquina do edifício, com a fachada voltada para poente (para onde hoje está o Café Piolho), situava-se o Botequim da Graça e, mais tarde, o Café Chaves
 
 
 
 
No mesmo prédio do hotel Francfort permaneceu o Café Chaves até 1918, quando o prédio foi demolido nas obras de abertura da nova Avenida das Nações Aliadas, depois Avenida dos Aliados.
Chegado a este ponto, o Café Chaves foi para a Cordoaria, para um “chalet” situado no jardim.
Nos baixos daquele hotel, na Rua do Laranjal, a Cervejaria Bastos era contígua ao Café Chaves.




Café Chaves aqui desde 1900, à esquerda, por baixo do Hotel Francfort



Café Chaves, em 1910




Interior do Café Chaves

À esquerda o Chalet do Café Chaves, na Cordoaria



O Café Chaves, em 15 de Maio de 1918, é então aberto no "chalet" da Cordoaria.
 
 
“Café Chaves - Entre as formosas árvores do Jardim da Cordoaria, no Chalet, reabre na quarta-feira, 15 de Maio, este conhecido e acreditado Café”.
In “Jornal de Notícias” de 14 de Maio de 1918
 
 
 
As instalações foram alugadas por 500.000 reis anuais a Aníbal Chaves. Deu assim lugar ao Café Chaves que fechou na década de 40 do passado século, dado ter sido expropriado pela C.M.P. para alteração e expansão do novo Jardim da Cordoaria. Dado estar perto da Universidade do Porto era um botequim muito frequentado pelas figuras mais cultas e ilustradas, professores, artistas e poetas do Porto.
Em 23 de Outubro de 1947, o chalet onde tinha estado o Café Chaves, no Jardim da Cordoaria, começou a ser demolido. 



Praça da Batalha, em 1913, antes do aparecimento do Café Chave d’Ouro



Na foto acima, no 1º prédio à direita surgiria, mais tarde, o Café Chave d’Ouro, ocupado, à data, pela "Casa Midões" de comércio de mobiliário.



Construção, em 1919, do prédio onde, em 1920, seria inaugurado o Café Chave D'Ouro



Outra perspectiva da construção do prédio do Café Chave D'Ouro, observando-se, junto dele, a Camisaria Perdigão


“A cidade Invicta, outrora acanhada e rotineira, timbrando no apego velharias e querendo saber pouco de modernismos, segue hoje por um caminho novo.
Vem isto a propósito da inauguração, ontem à noite, efectuada em pleno largo da Batalha, bem defronte do Teatro, num ponto centralíssimo da cidade, do Café Chave d’Ouro.
É uma casa modelar no género, sem dúvida o primeiro café do Porto, graças ao conforto e à elegância, ao requinte estético e ao cuidadi higiénico que presidiu à sua realização.
A firma Artur costa & Cia, Lda. pode ufanar-se de ter realizado uma obra digna de aplausos de uma cidade inteira.
O edifício merece uma alusão, aliás oportuna e imprescindível. Sobre os alicerces de um prédio antigo, foi edificado, erguido sumptuosamente, um prédio magnífico, cujo interior é soberbo”.
In “Jornal de Notícias de 24 de Dezembro de 1920 ; Fonte: Guido de Monterey – Porto 2, pag.653




Café Chave d’Ouro em 1927


Na foto acima, vê-se o Café Chave d’Ouro com os vidros partidos, fruto da revolução ocorrida em Fevereiro de 1927, no Porto, e que teve esta zona da cidade como um dos palcos principais.



Café Chave d’Ouro antes do seu desaparecimento – Fonte: Google maps



Na foto acima, está o Café Chave d’Ouro, fundado em 1920, completamente desfigurado e que já deixou de existir.
O Café Chave d’Ouro tinha dois pisos: piso térreo onde se localizava o café propriamente dito e primeiro piso com salão de bilhares.
Na década de trinta foram realizadas acções de remodelação da fachada.
Antes do seu fecho, já funcionava, apenas, no piso térreo.
Para a história ficou a reunião que nele ocorreu de Humberto Delgado, com jornalistas nacionais e estrangeiros, em 10 de Maio de 1958.
Junto ao Café Chave d’Ouro esteve, durante grande parte do século XX, o Café Leão d’Ouro.
Um outro Café Leão d’Ouro abriria no ano de 1899, na Rua Formosa.

“ Café Leão d’Ouro (Rua Formosa, 411) - Na Rua Formosa, é aberto hoje ao público, um elegante e confortável café com aquele título e de que é proprietário o sr. Eugénio Pereira Mendes”.
In jornal “A Província” de 30 de Dezembro de 1899; Fonte: Guido de Monterey – Porto 2, pag.645


“O proprietário deste novo estabelecimento participa aos amigos e fregueses que abriu o seu novo estabelecimento na Rua Formosa, 411, onde encontrarão, além de um excelente café…”.
In jornal “O Primeiro de Janeiro” de 3 de Janeiro de 1900; Fonte: Guido de Monterey – Porto 2, pag.645


Aliás, este não era caso único, em que dois estabelecimentos da mesma actividade económica partilhavam o mesmo nome.
Foi o caso do Café Tivoli, na Rua de Sampaio Bruno que começou por se chamar Café Chave d’Ouro, mas cuja denominação abandonou, rapidamente.


“Mais uma iniciativa arrojada e destinada a ruidoso êxito vai ser lançada, honrando sobremaneira a cidade invicta.
Queremos referir-nos à inauguração que hoje, às 18 horas, se realiza do Café Chave d’Ouro, sito à Rua Sampaio Bruno,38 a 40 e Rua Sá da Bandeira, 51 a 59.
Preciso é frisar que, já em tempos, e isto deve estar na memória de todos, esteve ali instalado o popularíssimo e afamado Café Portuense, café este frequentado pelos políticos mais em evidência e onde os professores, literatos e artistas, nas horas de descanso se reuniam.
O Café Chave d’Ouro é uma sucursal do tradicional e bem conhecido Café chave d’Ouro, de Lisboa, pertence à firma Carvalho, Lda.
Conforme é sabido, o Chave d’Ouro está instalado nos baixos do prédio ocupado pelo Hotel Portuense, prédio este que foi remodelado, sendo hoje um dos mais elegantes daquela moderna corrente de casas, que fica à entrada da Rua Sampaio Bruno”.
In “Jornal de Notícias” de 1 de Dezembro de 1921; Fonte: Guido de Monterey – Porto 2, pag.654


Na Praça da Batalha, ao lado do Café Chave d'Ouro, para montante, esteve o Café Leão d’Ouro, junto do Grande Hotel do Império que, antes, foi o Hotel Sul Americano.



À direita, o Café Leão d’Ouro (primitivo), vizinho do Hotel Sul-Americano, em 1916 - Ed. Papelaria e Typografia Académica




O Café Leão d’Ouro sucede, na Praça da Batalha, a um outro que aí existiu desde 1857 e chamado Café da Comuna.
A este, o nome tinha-lhe sido dado pelo povo, sendo conhecido ainda, por ter uma frequência de pessoas ligadas aos movimentos operários, que aí conspiravam e delineavam lutas e greves. A polícia estava sempre por perto.
O seu encerramento acontece em 1889, sendo dois dos seus proprietários obrigados a fugir.
Alguns clientes do café conseguiram que ele reabrisse ainda nesse ano. Mas, para isso, tiveram de mudar o nome para Leão d’Ouro. Abre sob a gerência de um tal Alberto Joaquim.
Até 1923, o Café Leão d’Ouro existiu com instalações modestas, quando sofre obras de beneficiação.


“Completamente transformado, reabre hoje ao público, às 9 horas da noite, este importante estabelecimento que, afoitamente, se pode considerar o melhor e mais luxuoso, existente na parte alta da cidade.
Todos os portuenses se devem envaidecer de possuírem dentro da Invicta um tão belo e elegante estabelecimento, que a arrojada iniciativa e o apurado gosto dos seus únicos proprietários srs. Francisco Figueiredo Lima & Filho, que formam a sociedade do Café Leão d’Ouro, criaram”.
In jornal “O Comércio do Porto”, de 22 de Dezembro de 1923


O Café Leão d’Ouro sofreria obras de vulto que ocorreriam em 1929 e em 1934 é alterada a sua fachada.


“O Porto conta com mais um café que renasce completamente transformado e dotado do maior conforto.
Referimo-nos ao conhecidíssimo Café Leão d’Ouro, à Praça da Batalha, estabelecimento que, mercê do seu esplêndido serviço e da sua boa frequência, foi sempre largamente concorrido.
Após umas radicais obras e de curto encerramento, o Café Leão d’Ouro reabre hoje, às 8 horas da noite.”
In jornal “O Comércio do Porto”, de 12 de Outubro de 1929


Após os melhoramentos que recebeu o Café Leão d’Ouro apresentava duas salas com espelhos, mármores, metais dourados e mesas com tampos de vidro.
Descendo uma escada observava-se uma pequena gruta de água.


Café Leão d’Ouro, após os melhoramentos introduzidos


Por este café passaram, entre outras, figuras como Sampaio Bruno, Lima Júnior, Arnaldo Leite, Soares Lopes, António Azevedo e, ao longo do século XX, Ângelo César, Espregueira Mendes, Urgel Horta, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Vasco Santana e muitas outras personalidades conhecidas.
Mais tarde, um outro café, o Café Tropical, ocuparia uma área que, antes, estava afecta ao Café Leão d'Ouro.


Café Tropical com o seu toldo, em 1955, em instalações do primitivo café Leão d’Ouro



Os cafés Chave d'Ouro, Leão D'Ouro e Tropical chegaram, assim, a ser contemporâneos.


À direita da foto, o Café Tropical (toldo azul) já tomou o lugar do Café Leão d’Ouro



 Locais actuais (2021) de instalação de antigos cafés na Praça da Batalha, a poente; da esquerda para a direita: Tropical (antigo Leão d'Ouro primitivo), loja de souvenirs (antiga expansão do Leão d'Ouro) e, à direita, prédio em ruínas do antigo Chave d'Ouro - Cortesia de Manuel Sousa




O Café Astória situava-se na esquina da praça Almeida Garrett e Praça da Liberdade nos baixos do palacete das Cardosas, em frente à Estação de S. Bento. Fundado a 12 de Março de 1932, encerraria a 15 de Abril de 1972.
Tinha três pisos: “bar e cervejaria ao nível do rés-do-chão, café e salão de chá ao nível do primeiro andar e sala de jogos no segundo piso”.
Este café destinava-se, fundamentalmente, aos passageiros e utentes da Estação de S. Bento. Neste sentido, “ajustava-se aos horários dos comboios, anunciando serviço de pequenos-almoços às sete horas da manhã”.


Café Astória em 1940 – Fonte: Porto Desaparecido, p. 165


À esquerda na esquina o Café Astória em 1968


O Café Progresso foi inaugurado em 24 de Setembro de 1899, na Travessa Sá de Noronha.

“Desconhece-se o proprietário de fundação. Em 22 de junho de 1921 é constituída a sociedade por quotas Almeida e Henriques Limitada, que passa a ser proprietária do estabelecimento. Em 7 de novembro do mesmo ano o café é trespassado à Sociedade Comercial União Limitada. A 8 de janeiro de 1927 realiza-se um novo trespasse e Francisco Henriques Bernardino passa a ser o proprietário do café. Em 4 de março de 1947 Mário Henriques Pinto assumiu a propriedade do estabelecimento, cedida por Francisco Bernardino. O dia 4 de fevereiro de 2003 fica marcado por nova venda do estabelecimento, desta vez, à sociedade por quotas Mais Progresso – Cafés, Lda., que se mantem até hoje.
Aquando da sua abertura e até 2005 (período em que o café foi submetido a obras profundas de remodelação) o estabelecimento possuía “duas salas: uma – a maior – destinada ao café e outra aos jogos”. A primeira localizava-se no piso térreo e a segunda no primeiro piso. Atualmente, e com as obras de remodelação – realizadas entre 1 de julho e 8 de dezembro de 2005 – foi extinta a sala de jogos e, tanto o piso térreo como o primeiro andar destinam-se ao consumo do café, bebidas e refeições ligeiras, com mesas distribuídas por todo o espaço interior.
Este café foi frequentado, ao longo do século XX, fundamentalmente por Professores, tendo mesmo, chegado a ser conhecido pelo Botequim dos Professores”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes



Café Progresso


O Café Âncora Douro fica ainda na Praça Parada Leitão. Foi inaugurado em 1909, de frente para a fachada poente do edifício da Academia Politécnica do Porto.

“Desconhecem-se os proprietários de fundação do café. Sabe-se sim que, em 1909, o estabelecimento foi trespassado a Francisco José de Lima, antigo empregado de mesa do Café Martinho. Manteve-se, ulteriormente, na posse da família Reis Lima, mais concretamente, na do filho de Francisco Lima. Em 1979, José Martins, José Pires e Edgar Gonçalves, tomaram posse do estabelecimento, permanecendo seus proprietários até hoje”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes


O célebre “Piolho”


O Café Âncora Douro tem o seu começo de vida integrado no Hotel Âncora Douro que existia naquele mesmo local, resultando este, duma remodelação e sucedendo a um outro denominado Hotel Novo Lisbonense.
O Hotel Âncora Douro prestava ainda serviço de restaurante e de botequim.

“João Duarte Ferreira, proprietário do Hotel Novo Lisbonense e mais estabelecimentos anexos, resolveu mudar o título do mesmo Hotel Novo Lisbonense pelo de Hotel Âncora de Ouro.
Esta nova denominação começará a vigorar desde o dia 15 do corrente em diante.”
In jornal “A Luta”, 13 de Agosto de 1879 – 4ª Feira

O Hotel Novo Lisbonense tinha existência desde 1863, sucedendo ao Hotel Lisbonense.
De modo autónomo o Café Âncora Douro seria, porém, inaugurado em 1909. 
Pela Rua de Sá da Bandeira esteve, a partir da década de 30, do século passado, O Café Madrid.


Café Madrid na Rua de Sá da Bandeira

Localização do Café Madrid (nº 5) e correspondência entre duas épocas 

quarta-feira, 1 de março de 2017

(Continuação 5) - Actualização em 12/01 e 23/03/2018 e 15/01/2020

O citado Café Lisbonense que se localizava quase na esquina da Rua de Santo António e da Rua de Sá da Bandeira, começou por pertencer a João Bento Teixeira e, mais tarde, passou para a gerência de José Fernandes Nogueira. Encerrou as suas portas no final do primeiro quartel do século XX, tendo sido inaugurado c. 1870.
Era um café do tipo “café-concerto”. Ocupava dois edifícios e possuía um salão interior que se dividia em dois: um virado para a frente do estabelecimento e vocacionado para a especialidade do café, com as suas mesas de mármore e cadeiras, para os seus velhos frequentadores, e um outro atrás, onde ficavam os bilhares. No primeiro dos dois compartimentos encontrava-se, inclusive, um pequeno espaço para a actuação das orquestras de tercetos e quartetos.
No andar superior tinha um restaurante. 
Em 3 de Setembro de 1900, o Café Lisbonense, após os seus proprietários J. Henriques Gonçalves e esposa Ana Ferreira Gonçalves  terem passado o estabelecimento em 26 de Agosto, começa a ser alvo de obras para introdução de alguns melhoramentos, pelo que, até ao final dos trabalhos previstos para o mês seguinte de Outubro, a entrada passou a ser feita pelos bilhares.


In Jornal "A Voz Pública" em 5 de Setembro de 1900

 


"Café Lisbonense: ontem Carlos Quilez, reputadíssimo professor de música, executou um trecho de violoncelo a solo, de difícil execução, acompanhado a piano por Xisto Lopes. Sucesso perante um elevado número de damas e cavalheiros que ali estavam para o ouvir." 
In jornal “A Voz Pública”, 20 Abril de1901, p. 2




Publicidade ao programa musical do Café Lisbonense em 1905 - Fonte: "O Tripeiro" série III de 15/12/1927



Anúncio de programa musical do Café Lisbonense, In jornal “A Voz Pública” de 24 de Dezembro de 1907



“Já em finais do século XIX, e no âmbito de uma época histórica em que o hábito da escrita se tornou uma obsessão para grande parte dos intelectuais, tendo-se publicado imensos periódicos, ocorreu um episódio deveras caricato nas instalações deste café, que personifica bem o espírito da época. Trata-se da circulação de um periódico, intitulado Gazeta do Realismo: Órgão da última boémia, onde se podia ler que os autores, por dificuldades financeiras, tinham decidido editar o jornal no próprio Café Lisbonense. Neste sentido, e atendendo ao conteúdo
algo ofensivo dos artigos que formalizaram esta gazeta, os autores resolveram utilizar como pseudónimos, os nomes de escritores franceses prestigiados.
Assim sendo, Sampaio Bruno era A. Dandet, Joaquim Araújo era C. Mendes, Francisco Carrelhas era Émile Zola, José da Luz Braga era E. Fey Deau e Gaspar de Lemos era Gustave Flaubert373. Facilmente se percebe que o jornal foi imediatamente apreendido, tendo-se ficado pelo primeiro número de lançamento”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes


Em 31 de Outubro de 1902, João Bento Teixeira, co-proprietário do Café Lisbonense requereu que as portas do estabelecimento fossem fechadas, para que se efectuasse um exame à escrita da sociedade, fruto de desintiligências com  o sócios José Fernandes Nogueira e Bernardino Machado de Freitas.
Ultrapassado que foi o litígio, o Café Lisbonense manter-se-ia de portas abertas durante mais alguns anos, até à abertura do troço da Rua de Sá da Bandeira que começa junto da igreja dos Congregados.
O jogo do bilhar viria a dar origem, em meados do século XX, a cafés de referência na cidade como sejam os cafés Avenida, Monumental, Águia d’Ouro, Chave d’Ouro e, sobretudo, o Palladium.
Todos eles, possuíam autênticos salões especializados, com dezenas de mesas que se encontravam à disposição dos praticantes.
O Café Águia D’Ouro abriu portas em 1839.



“Fundado em 27 de janeiro de 1839, o Café Águia d‘Ouro localizava-se na Praça da Batalha (antigo Largo de Santo Ildefonso). Foi seu proprietário, até junho de 1904, Luís Ferreira de Carvalho que, nesse ano, o passou para os seus dois empregados: Alberto Joaquim e Manuel Ventura Vieira de Mesquita.
Este café possuía uma “sala principal no rés-do-chão e hospedaria no primeiro andar”.
Nesta sala, ao nível da rua, localizava-se o café com o seu bilhar. No primeiro piso a hospedaria era frequentada, diariamente, “pela mocidade estúrdia e folgazã que se reunia frequentemente em jantares e ceias animadíssimas”.
Este café foi, sem dúvida, um dos principais pontos de encontro de todas as personalidades da literatura, da política e das artes da cidade do Porto da segunda metade do século XIX e primeira da centúria de novecentos. Camilo foi seu frequentador habitual, após o encerramento do Café Guichard. Nos anos 30 do século XX fecha as suas portas, de forma temporária, para renovação, em adequação ao movimento de remodelações, ocorrido, naquela década, em praticamente todos os cafés da cidade e reabre a 7 de Fevereiro de 1931 com nova fachada de vidro e pórtico com o símbolo do estabelecimento (a águia). Terminou os seus dias, de forma definitiva, por meados do ano de 1978”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes


No Almanaque Portuense, para 1854/55, já era mencionado o Hotel Águia d’Ouro, juntamente com mais outras oito unidades hoteleiras.
O café Águia d’Ouro ocupava, juntamente com o restaurante, o piso térreo e, no primeiro andar, estava a hospedaria.
Em 21 de Novembro de 1891, o "Jornal do Porto" noticiava uma reabertura do café Águia d'Ouro.




No dealbar do século XX, o prédio seria também ocupado pela sede do Clube Fenianos Portuense.
Em 5 de Novembro de 1898, segundo Germano Silva, “Jornal de Notícias”, 10 Junho de 2018, p. 28, completamente remodelado, reabriria ao público o café da Águia de Ouro.





Café Águia d’Ouro



Entrada do café Águia d’Ouro “O Tripeiro”, série nova, n.º2, ano IX, 1990, p.60



O Café Monumental inaugurado em 10 de Janeiro de 1930 na Avenida dos Aliados (a Poente) durou poucos anos e, hoje, decorrem obras para transformar o espaço num hotel de luxo.



“Estabelecimento da tipologia de café-concerto, conhecido pelas suas grandes dimensões de três pisos: bar na cave, café (com um palco para a orquestra) ao nível da rua e salão com vinte e quatro bilhares no primeiro andar. Em questões decorativas, proliferavam os espelhos e «florões que entornam, do alto, orgias de luz».
Desenvolveu-se, neste estabelecimento, uma novidade técnica para a época, que foi o secador de mãos, que era anunciado: «mãos que se limpam sem toalhas». Este novo estabelecimento destacou-se também pelo facto de possuir um «sistema sonoro com um aparelho Klingsor e altifalantes, que permitiam a audição da música nos três pisos». Mas a música ao vivo também foi, aqui, uma constante: duas orquestras de jazz e música clássica animavam o café durante a tarde e também à noite. Diversos anúncios eram expostos no estabelecimento e espalhados pela cidade, publicitando os quintetos de música jazz e clássica que ali atuavam permanentemente.
António Soares Correia, exímio executante de violino e o quarteto Vieira Pinto (um violoncelista de seu nome Antunes e pianista D. Olímpia) por diversas vezes proporcionaram espetáculos de música de salão ao agrado da época”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes




Café Monumental na década de 30 do século XX



Edifício do Café Monumental antes da última intervenção



Por outro lado, também pela Avenida dos Aliados (a Nascente) esteve o Café Avenida que daria origem, mais tarde, ao Café Vitória.
O Café Palladium abriria em 1940 num edifício com projecto do arquitecto Marques de Silva inaugurado em 1927, que inicialmente se destinava aos Grandes Armazéns Nascimento, para a comercialização de mobiliário.
A remodelação interior para adaptação do espaço a café, foi da autoria do arquitecto Mário Abreu.
Inaugurado em 4/11/1940, tinha café, restaurante, salas de jogo de cartas, bilhares e um cabaret no 4º andar. Era o maior café do Porto e talvez de Portugal.



Café Palladium (interior em 1940)



“Em meados de 1935 é inaugurado o Café Luso que é um espaço situado na Praça Carlos Alberto intimamente ligado à história da cidade do Porto, tendo sido fundado como Café Luso-Africano veio a adoptar a designação Luso Café e assim ficou conhecido durante as décadas seguintes, sendo um ponto de paragem obrigatória para Portuenses de todas as classes e extractos sociais bem como várias personalidades ligadas à cultura.
O emblemático Café Luso, veio a ser a sede de campanha do general Humberto Delgado e a 14 de Maio de 1958 é aí que, no seu discurso, exclama: "O meu coração ficará no Porto!" Foi a maior enchente de pessoas jamais vista nesta praça. Em 1980 acolhe uma conversa rotineira entre Mário Dorminsky, Beatriz Pacheco Pereira e o pintor José Manuel Pereira. Os dois primeiros, já entusiasmados com o cinema, queriam mostrar filmes e o pintor queria, naturalmente, mostrar quadros. Conversa puxa conversa, senta-se mais uma pessoa na mesa, o actor António Reis, e surge, então, a ideia de fazer um festival de cinema fantástico e assim nasce o Fantasporto. Encerrado durante dez anos, reabre remodelado em 2010.
“A partir do primeiro quartel do século XX, o Porto assumiu, decididamente, uma das suas mais requintadas tradições, através da construção de cafés, desenhados e ornamentados por arquitetos, escultores e pintores, que imprimiram aos lugares da sua implantação (…) a marca de bom gosto (…)”. De facto, foi, nesta época, que se construíram alguns dos mais notáveis cafés portuenses, que tinham como principais características, as suas qualidades estéticas de muito bom gosto artístico, teorizadas pelas vanguardas que se faziam sentir naquele período, com especial relevo para os movimentos Arte Nova e Arte Deco.
De facto, foi, nesta época, que se construíram alguns dos mais notáveis cafés portuenses, que tinham como principais características, as suas qualidades estéticas de muito bom gosto artístico, teorizadas pelas vanguardas que se faziam sentir naquele período, com especial relevo para os movimentos Arte Nova e Arte Deco.
Durante este período, dois estabelecimentos se notabilizaram como “as duas grandes instituições de referência neste mundo do convívio e da sociabilidade dos cafés”. Foram eles o Café A Brasileira e o Café Majestic”.
Com a devida vénia a Nuno Fernando Ferreira Mendes



Pedido de construção, em Junho de 1927, de prédio que viria a ser ocupado pelo Café Luso, que começou por ser, o Café Luso-Africano – Fonte: AHMP




Café Luso (actual)




“”A Brasileira” foi fundada por Adriano Teles que, ainda jovem decidiu tentar a sua sorte emigrando para o Brasil. Lá, dedicou-se ao negócio do café, com o que enriqueceu nos finais do séc. XIX.
De regresso ao Porto, montou uma torrefação e fundou "A Brasileira", inaugurada e 4 de maio de 1903, para servir café à chávena. Não havia na cidade, por essa altura, o hábito de tomar café em estabelecimentos públicos. Adriano Teles para promover o seu produto ofereceu, durante os primeiros treze anos de "A Brasileira", o café à chávena de graça no seu estabelecimento a quem comprasse um saquinho de grãos de café”.
In Wikipédia



Interior de "A Brasileira", em 1904






Com uma visão avançada Adriano Teles, que tinha como sócios, Félix de Melo e Cândido Alves, abre lojas em Lisboa, a 4 de Novembro de 1905 e, em Coimbra, haveria de fazê-lo em 1928, divulgando por todo o lado o slogan: “O melhor café é o da Brasileira”.



Publicidade em 1905




“A Brasileira” de Braga seria aberta em regime de “franchising” e seriam abertas, ainda, “Brasileiras” em Aveiro e Sevilha.
Entretanto, “A Brasileira” sofre obras de ampliação e de remodelação em 1916 de acordo com projecto do arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira (1884 - 1957) passando a ter uma magnífica fachada e um pára-sol de ferro e vidro e um interior no qual sobressaem os cristais, o mobiliário com os couros gravados e os mármores.




Fachada da Brasileira primitiva antes de 1916






Brasileira em 1916 - Ed. Aurélio da Paz dos Reis



Na foto acima vê-se o barracão provisório em madeira para venda, enquanto decorriam as obras em 1916. Já se observa o alpendre envidraçado.
No toldo da direita a Casa Lima de comércio de malas e carteiras, que teve existência desde 1918, nas mãos da mesma família.




Interior do barracão em madeira – Fonte: restosdecoleccao.blogspot



Na foto acima está sentado Adriano Teles, e de pé, ao balcão, o seu sócio Félix de Melo.



Interior da Brasileira, após as obras  de 1916


Café "A Brasileira", antes da intervenção de Januário Godinho



Na década de 1930, o café vai sofrer novas obras, cujo projecto é do arquitecto Januário Godinho e decorado com esculturas de Henrique Moreira, sendo os espelhos franceses, de Max Igram e os alabastros do Vimioso. 
Abriu em Março de 1938.
No dia 27 de Outubro de 1938, durante a comemoração dos 15 anos devida da sua pastelaria, “A Brasileira” distribui brindes pelos compradores da sua doçaria.




Desenho do alçado proposto para o prédio do café "A Brasileira", cuja remodelação requerida por "Teles & Cia. Lda", irá decorrer sob as licenças n.º 124/1928 e n.º 182/1932




Nos anos 70, os então proprietários abriram um "snack-bar" nas traseiras e um restaurante na cave.




Interior de "A Brasileira" na década de 1970




Percorrida parte do século XX sempre como um café de referência, na década de 1980, na sequência de uma mudança de hábitos, a que a televisão não é alheia, tanto os cafés como os cinemas entraram em lento declínio.
“A Brasileira” não fugiu a essa sina e paulatinamente, passou a viver em sobressalto. Perdida parte da clientela, os proprietários da firma transformam o espaço nobre do café num "snack-bar" ao balcão, decisão que não vingaria. 
“A Brasileira” fechou e o imóvel foi entregue ao banco BPI que tinha como presidente do conselho de administração o Dr. Santos Silva.
Até 2008,  o processo que então correu é contado pelo jornalista Jorge Vilas, no texto seguinte, publicado na revista "O Tripeiro", 7ª série, de Setembro de 2008.








Em 2013, o café “A Brasileira” encerra definitivamente e todo o edifício é fechado para obras.
Em Março de 2015, o edifício é assaltado e são roubados vários adereços valiosos do café, nomeadamente, os seus espelhos e puxadores de portas.
Desde o ano de 2016, o edifício onde se localizava este quase centenário café, foi alvo de uma intervenção de fundo para instalação de um hotel e, ainda, de ressuscitar, na medida do possível, uma nova "Brasileira".




Entrada principal do antigo café “A Brasileira”



A 23 de Março de 2018 o edifício onde esteve o café “A Brasileira”, após importantes obras de recuperação a cargo dos arquitectos António Ginestal Machado e Maria Ginestal, fica de novo ao serviço da cidade.
Um novo café “A Brasileira” com a traça do que encantou gerações de portugueses e visitantes estrangeiros abre no mesmo espaço, passando os pisos superiores a albergar um hotel de luxo, resultante de um acordo do grupo Pestana com um investidor.
Este investidor, que tornaria tudo isto possível, foi o conhecido ex-futebolista do Futebol Clube do Porto, Sporting C.P. e F.C. Penafiel, bem como ex-treinador e ex-seleccionador de futebol, António Oliveira.
O hotel tem 90 quartos distribuídos por seis pisos temáticos, relacionados com as especiarias importadas nos séculos XV e XVI durante a expansão marítima portuguesa, nomeadamente café, canela, chá, chocolate, anis e pimenta rosa.
Integrado no café e hotel existe, ainda, em complemento, um restaurante com capacidade "para mais de uma centena de pessoas, que se manteve fiel ao desenho original do reputado arquitecto Januário Godinho".




Desenho integrante de projecto do edifício do novo café “A Brasileira” e de Hotel do Grupo Pestana



Mural recuperado do antigo café “A Brasileira” – Outros tempos



Aspecto do novo café “A Brasileira” – Ed. “Rádio Portuense”



Pormenor do mobiliário do novo café “A Brasileira”



Em questões estéticas, nos anos da República, O Majestic na Rua de Santa Catarina, era um símbolo do que de melhor se desenhava na cidade do Porto.
O Café Majestic foi projectado pelo arquitecto José Pinto de Oliveira.
Atravessou o período da ditadura como local de encontro de uma panóplia diversificada de gente que povoava a baixa portuense e que ia dos trabalhadores do comércio às personalidades das Belas-Artes, passando por intelectuais de tendências variadas. Por volta dos anos 20 e 30, intelectuais como Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes e António Nobre, fizeram deste café o seu local de encontro habitual. Uns anos mais tarde, também por lá passava José Régio.
Fruto, em 1921, da associação de alguns comerciantes numa sociedade por quotas, estava para se chamar Café Elite, mas acabaria por ficar, desde da sua inauguração, em 2 de Dezembro de 1922, com o nome que agora ostenta, de Café Majestic. Hoje, tem o estatuto "de interesse público".



Entrada do Café Majestic – In Illustração Portugueza, 10 Março 1923



Interior do Café Majestic – In Illustração Portugueza, 10 Março 1923



Café Majestic actualmente - Ed. J. Portojo



Jardim do Café Majestic - Ed. J. portojo



Em 1925, pela mão do arquitecto João Queiroz, o pátio da foto acima, é inaugurado como um Jardim de Inverno.



Café Majestic e a entrada pela Rua Passos Manuel para o pátio



Como se vê na foto acima, foi aberta uma janela no muro do pátio que dá para a Rua de Passos Manuel, em 1925, por onde se passou a vender tabaco e rapé, explorada pela Tinoco & Irmãos, a partir de uma pequena cabine construída para o efeito, como tabacaria.
Em 1927, ainda sob a alçada da Sociedade Majestic Café, era inaugurado o Pavillon Majestic, uma cervejaria amovível, localizada em frente à Rua do Crasto, onde mais tarde esteve o Bar do Molhe e onde, hoje, se encontra a Pizza Hut.


Pavilhão Majestic, na Foz



Em 1934, após obras de remodelação o Café Majestic, surgiria com uma cervejaria no seu terraço ao ar livre onde era servido o afamado “Bife à Majestic”.




Publicidade ao Café Majestic em 15 Julho 1934 - In Revista Ultramar, Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.pt”



Na entrada dos anos 60, do século XX, o café entra em declínio e, em 1983, é decretado “Imóvel de interesse Publico” e, nesse ano, é comprado por Agostinho Barrias.



Agostinho Barrias à mesa do Café Majestic



Em 1992, o Majestic é encerrado para obras de restauro da responsabilidade da arquitecta Teresa Mano Mendes Pacheco, abrindo com novos ares em 1994, apresentando o mobiliário original.
Na sua cave, outrora salão de bilhares, passou a ser local de encontros de cultura com piano e bar de apoio.