domingo, 29 de janeiro de 2017

(Continuação 11)


Desde tempos recuados que se conhecem documentos, mencionando locais, nos quais, os portuenses enterravam os seus mortos.
Assim, para os lados da Sé, adossado à Catedral, existiu o cemitério do Bispo.
Anexo ao Hospital Rocamador, conhece-se a existência de um outro cemitério que servia essa unidade hospitalar.
As pessoas de posses, como se sabe, durante muitos anos, eram enterradas nas igrejas, situação que, estava vedada para todos, no caso de morte por lepra.
Para estes casos, houve um cemitério junto da capela de Santo André e de Santo Estevão, para as bandas do Largo da Ramadinha, onde terá existido um cruzeiro do Senhor da Consolação, que servia a gafaria de S. Lázaro, ali perto. Aquela gafaria tinha vindo de junto da igreja de S. Nicolau, lá para os lados da Ribeira.
O Porto também teve o seu cemitério catacumbal que, actualmente, pode ser visitado, na cave da Ordem Terceira de S. Francisco.
Cemitérios de comunidades próprias houve alguns, destacando-se o dos Ingleses, que começaram por dar descanso perpétuo aos seus entes queridos, na margem direita do rio Douro, mas, que, acabaram por levantar no Campo Pequeno, actual Largo da Maternidade Júlio Dinis, o chamado Cemitério dos ingleses.
Por outro lado, sabe-se que os Judeus tiveram o seu cemitério no Monte de Monchique.
Até 1732, ano em que se começou a levantar a Igreja dos Clérigos, o terreno em que ela seria erigida, servia de cemitério para quem era executado na forca.
Essa área conhecida como Cerro dos Enforcados ou Adro dos Enforcados, compreendia o cemitério e uma pequena capela em honra do Senhor dos Aflitos, que seriam transferidos aquando da construção da igreja dos Clérigos, para junto da Rua dos Carrancas, actual Rua Dr. Alberto Aires de Gouveia, numa área hoje situada, junto Hospital de Santo António.
Alberto Aires de Gouveia (1867-1941) foi um distinto pintor portuense que nasceu na Rua da Restauração, no Porto, a 3 de Março de 1867, no seio de uma família portuense ligada ao negócio dos vinhos.
À face daquela rua, passou a existir desde então, a Capela do Senhor dos Aflitos que substituiu um cruzeiro da mesma devoção que primitivamente ocupou esse lugar. Os enforcados passariam então, a ter enterramento, numa área atrás da capela.
Em Junho de 1857, o templo foi transferido por necessidades urbanísticas, para o interior da cerca do Hospital de Santo António.
Neste local esteve o templo, até que foi demolido, tendo sido entretanto novamente levantado e, hoje, serve de capela mortuária do referido hospital.


 “Luís Pinto de Sousa Pereira de Meneses, último representante, dizem os livros de linhagens, da nobre casa do Cutelo, em Miomães, no concelho de Resende, adoeceu e foi internado num dos pavilhões do Hospital de Santo António. Isto aconteceu por meados do século XIX quando, na cerca daquele hospital, havia dois pavilhões, um de primeira outro de segunda classe, para quem quisesse alguma privacidade e, naturalmente, tivesse dinheiro para pagar a estadia. O que era o caso do nosso fidalgo que foi admitido no pavilhão de primeira.
De uma das janelas do seu quarto avistava a capela do Senhor dos Aflitos e foi a este que fez uma singular promessa: se saísse do hospital completamente curado daria ao Senhor dos Aflitos o dinheiro equivalente ao seu peso em prata. E o fidalgo saiu do hospital curado. Não sabemos a quem atribuir o mérito da cura. Se aos médicos, se à interceção no caso do Senhor dos Aflitos. Mas de uma coisa temos a certeza: o tal fidalgo de Miomães cumpriu a promessa. Mas pagou em prestações.
Quando se foi pesar, logo após a saída do Hospital, verificou, naturalmente constrangido, que o seu peso excedia, muito, o previsto. O valor da promessa subiu assustadoramente e o Luís Pinto de Sousa não tinha disponível o dinheiro suficiente para pagar a promessa. Mas não havia problema. No dia 27 de Maio de 1872, no cartório do tabelião Francisco Pereira Pinto, perante a Santa Casa da Misericórdia do Porto, que administrava o hospital e zelava pelo culto na capela do Senhor dos Aflitos, constituiu-se devedor da quantia de 1 996$800 reis, importância em que foi avaliado o seu peso em prata. A dívida não foi saldada de uma só vez”.
Com a devida vénia a Germano Silva



Capela do Senhor dos Aflitos – Desenho de Gouveia Portuense

Capela do Senhor dos Aflitos na actualidade


Um outro cemitério existiu, ainda episodicamente, bem perto das Malvas, mais propriamente em frente à Porta do Olival. O padre Baltasar Guedes, num testamento, faz referência ao cemitério perto do Recolhimento do Anjo e a um “outro cemitério novo” entre as torres da Porta do Olival.
Para os Cristãos, fora os enterramentos para alguns poucos, dentro das igrejas e nos conventos, foram desenvolvidos espaços exteriores anexos a esses templos, sendo muitos deles portadores de cemitérios, como são exemplo a Igreja do Bonfim, a Igreja da Lapa, a Igreja de Paranhos, a Igreja de Ramalde, etc.
O adstrito à Igreja de Santo Ildefonso, entretanto encerrado, ainda existia em 1869.
O Dr. Eugénio de Andréa da Cunha e Freitas, numa interessante monografia que escreveu sobre o Convento dos Lóios, termina um dos capítulos da seguinte maneira:
"… agora, na Casa de Deus, em vez dos honrados frades de Santo Elói, estão os gordos e opulentos senhores da Finança e da Indústria, perturbando, na febre do negócio e do lucro, o eterno descanso de tantas cinzas veneráveis que ali jazem…" 

Relativamente ao convento dos Lóios, diga-se, por exemplo, que em 1808 o corpo do general D. Francisco Taranco e Lhano, comandante da divisão da Galiza que ocupava o Porto, foi sepultado no jazigo que o visconde de Balsemão (o do palacete da Praça de Carlos Alberto) tinha na igreja dos frades Lóios. Durante a usurpação de D. Miguel também ali terão sido guardados os restos mortais do general Bernardo da Silveira. Em 1838, a igreja foi demolida por estar em ruína e ser uma ameaça pública. Quando se tentava saber o que fora feita do túmulo do Balsemão e dos cadáveres que lá estavam, um cronista da época (Peres Pinto) não teve dúvida em afirmar que:
“essas ossadas e entulhos estavam a descansar no aterro da praça ou mercado do Bolhão…" 

Mas há notícias de muitas outras sepulturas no corpo da igreja e na cerca do convento dos padres Lóios, muitas delas, de difícil localização.
Por exemplo:

"Na asa do Capítulo, junto ao claustro" foi sepultado D. Manuel de Sousa, que foi arcebispo de Braga; Filipe Gonçalves, cidadão do Porto, "morador defronte da Porta do Olival, da parte de dentro", teve sepultura em Santo Elói onde instituiu um morgado a que vinculou as suas casas da "Travessa que vai dos Coronheiros (actual Rua da Vitória) para a Rua das Flores. Ao pé de um altar colateral, do lado do Evangelho, esteve sepultada D. Maria… mulher do dr. Estêvão Monteiro da Costa a qual morreu em Junho de 1693; e "no cruzeiro, junto às grades" ficava a sepultura, coberta com lâmina de latão e com as armas dos Correias de Mariz, de Francisco Correia de Mariz. António da Costa, barbeiro e sangrador, morador na Rua dos Canos (a parte da Rua das Flores que vai da Praça de Almeida Garrett até à Rua de Trindade Coelho) para ser sepultado em Santo Elói deixou ao convento o seu casal da Quinta, em S. Cosme, Gondomar. 
A pressão demográfica e as questões higiénicas, num contexto ideológico Iluminista, foram os principais factores que fizeram com que, a partir do século XVIII, algumas vozes se levantassem contra as inumações no interior das igrejas. Em Portugal, as primeiras tentativas legislativas no sentido de acabar com os enterramentos nas igrejas não deram resultados, muito porque o processo de laicização da sociedade portuguesa estava bastante retardado em relação a outros países europeus. Assim, foi necessário que muita tinta corresse até que os cemitérios públicos portugueses fossem oficialmente criados, em 1835. Porém, existiram experiências anteriores e o Porto, como em quase tudo nessa época, foi pioneiro na criação de cemitérios fora das igrejas.
Em 1833, o Cerco do Porto gerou uma situação extremamente difícil de salubridade na cidade e favoreceu o surgimento duma epidemia muito mortífera: o cholera morbus. Esta rapidamente lotou os locais de enterramento, facto agravado pelos soldados que iam morrendo nas investidas dos Miguelistas. Perante este cenário, foi necessário recorrer ao chão de algumas igrejas que nem sequer estavam totalmente construídas (como a da Trindade) e aos terrenos anexos de outras, para sepultar tantos cadáveres.
Em 25 de Junho de 1833 a regência do reino oficiou ao vigário do bispado do porto os locais que no futuro serviriam de cemitérios públicos.
Esses locais eram os que se seguem: a cerca do mosteiro de Santo António da Cidade servindo as freguesias de Santo Ildefonso e a Sé; a cerca do convento de S. Francisco para S. Nicolau; a cerca do convento de são João Novo servindo Miragaia; e a brévia dos Beneditinos de Cedofeita no sítio do Bicalho servindo Massarelos.
Esta brévia, de que hoje só resta uma fonte e um poço muito bem conservados está numa propriedade pertencente a Carlos Albino Ferreira Bastos que a herdou do pai que por sua vez a tinha comprado a um inglês.
Naquele mesmo ano, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo. A Mesa poderia ter em mente um mero terreno anexo temporário para sepulturas. Mas todo o processo de construção do posterior Cemitério da Lapa parece mostrar que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério "ao moderno". Ou seja, convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para a construção de monumentos, tal como se fazia já há algumas décadas em Paris, cidade modelo para quase tudo na época. Por isso, o Cemitério da Lapa é considerado o cemitério "moderno" mais antigo do Porto, mesmo não sendo público, até porque foi criado antes do decreto de 1835. Contudo, como situação de transição, foi necessário estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da respectiva igreja. O Cemitério da Lapa propriamente dito só foi oficialmente benzido no Verão de 1838, tendo os primeiros monumentos surgido em 1839.
Em 1 de dezembro de 1839 procedeu-se à bênção solene do cemitério do Prado do Repouso, com enterro, de novo de Francisco de Almada e Mendonça, que tinha falecido em 1804. A trasladação deu-se para vencer a relutância das pessoas ao novo cemitério. Como estava inverno com muita chuva e ventania, o bispo Manuel de Santa Inês apanhou uma constipação de que nunca se curou”.
Com a devida vénia a Germano Silva


O Prado do Repouso, durante cerca duas décadas permaneceu pouco moderno. De facto, nesta vasta quinta, parcialmente transformada em cemitério, apenas iam sendo sepultados os portuenses mais pobres. Os cidadãos abastados, se a sua mentalidade era mais "esclarecida", preferiam ser sepultados na Lapa (podiam tornar-se irmãos no próprio dia em que compravam o terreno). Se fossem mais "conservadores", talvez preferissem ser sepultados nos cemitérios das várias outras Ordens e Irmandades existentes na cidade. Estas possuíam cemitérios já no exterior das suas igrejas (cumprindo parcialmente o decreto de 1835), mas ainda junto a elas e sem qualquer ordenação espacial moderna.
Excepção foi o privativo Cemitério do Bonfim, que apesar de ter sido estabelecido em 1849/50 junto à respectiva igreja, mereceu uma organização mais moderna. 

Sem comentários:

Enviar um comentário