quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

(Continuação 8)

11.7 Matadouros

Em tempos muito antigos houve no Porto três açougues que funcionavam muito perto uns dos outros, no espaço hoje ocupado pelo Largo do Dr. Pedro Vitorino, junto à Sé.
Um era o açougue Real, onde se abatia o gado cuja carne se destinava ao consumo da cidade e que ficava sensivelmente a meio da Rua de S. Sebastião, onde agora está a reconstituição da primeira instalação da Câmara, da autoria do arquitecto Fernando Távora; o açougue do Bispo, destinado a abaste­cer unicamente o paço episcopal e o cabido, ou seja os cónegos; e o açougue dos Judeus, muito especial, porque aqui o abate do gado tinha que obedecer a um ritual muito especial.
Segundo Magalhães Basto:

“…A Rua das Aldas vinha na continuação da rua da Penha ou da Pena Ventosa que, por sua vez, começava na Rua de S. Sebastião e ia pela Rua Francisca até ao Largo do Açougue Real. Antes de ser Açougue Real foi, Açougue do Castelo e Açougue da Cidade. Hoje a área em questão, corresponde ao Largo do Dr. Pedro Vitorino”.

Há documentos em que se prova que já no século XIII funcionava no burgo, um açougue ou matadouro eclesiástico que a partir do século XVI, passou a ser administrado pela Câmara.
Junto da Sé chegaram a funcionar, portanto, 3 matadouros: o Matadouro Real que servia a população da cidade, o do Bispo e o dos Judeus com um ritual muito próprio.
Em 1576, os jesuítas instalados no Seminário Maior, puseram em causa o funcionamento do matadouro por causa dos maus cheiros. Em 1584 foi pela vereação decidido, transferir o matadouro para fora do Postigo do Sol, junto do actual Largo Actor Dias.
Entre as Ruas das Fontainhas e do Sol, perto da Porta do Sol, funcionaram depois os matadouros, chamando-se outrora ao local, Vale de Asnos.
Por isso, não é de estranhar que por aí tenha existido uma Viela das Tripas.
Um outro local onde funcionou o matadouro da Câmara até 1923, foi no edifício que ainda existe e que se situava na Rua de S. Diniz, e teve diversas funções posteriormente, sendo talvez a mais relevante, servir de parque de estacionamento para as viaturas de recolha do lixo. Actualmente ainda lá se encontra a Direcção de Ambiente da C.M. do Porto.
Antes, de o Matadouro da Câmara ter ido para a Rua de S. Dinis, chegou a funcionar no local onde esteve o Asilo de Mendicidade ao fundo da Rua das Fontainhas.
Esta zona da cidade associada ao abate de animais e a algumas oficinas de curtumes, na sua envolvente, bem como os maus cheiros que essas actividades exalavam, levaram ao abandono da Alameda das Fontainhas, por parte dos portuenses que até aí a usavam como palco de muitos passeios desfrutando da vista sobre o Douro.
É sabido por outro lado que, a Rua de Serpa Pinto foi rasgada entre 1837 e 1844, a fim de ligar a Ramada Alta e o Matadouro Municipal.


“Este matadouro foi inaugurado em 1 de Janeiro de 1844, deixando por resolução de 15 de Novembro de 1843 de se deixar de fazer abates no matadouro das Fontainhas.
Em Abril de 1874, haveria de ser tomada a decisão de ampliar o edifício do Matadouro de Paranhos”.
Fonte Horácio Marçal In S. Veríssimo de Paranhos


Antigo Matadouro de S. Dinis, depois canil – Ed. J. Portojo


Acontece que, no ano de 1854, Joaquim Ribeiro Faria Guimarães que fazia parte da comissão de cidadãos portuenses, que tinha pugnado pela instalação do Asilo de Mendicidade na antiga Praça da Alegria e, nessa qualidade, ofereceu gratuitamente todos os tubos de ferro que foram necessários para encanar a água desde a fonte da Rua das Fontainhas até aquele asilo.
O Asilo de Mendicidade que foi instituído por D. Maria II em 1838, só seria inaugurado em 1846.
Começou por funcionar no palacete do visconde de Veiros, que ficava na actual Rua do Melo, na chamada Quinta da Boavista ou das Águas Férreas, e mudou-se depois para as Fontainhas, destinando-se aos mendigos e abandonados.

“Mas vai ser como provedor do Asilo de Mendicidade (às Fontainhas), enquanto membro do Conselho Filial de Beneficência, que José Joaquim Leite Guimarães que se tinha fixado no Porto em 1858, se vai tornar notado, conseguindo acabar e pondo a funcionar uma obra que se arrastava indefinidamente (o que lhe valeu o título de barão de Nova Cintra).
(…) Problemas com a Câmara Municipal na cedência do terreno junto ao Asilo de Mendicidade levaram a que agisse por sua única iniciativa, comprasse o terreno na rua da China, e erguesse o "Estabelecimento Humanitário Barão de Nova Cintra", custeado por sua conta”.
Com a devida vénia a Jorge Fernandes Alves – “Os Brasileiros, Emigração e Retorno no Porto Oitocentista”

Por sua vez, o Asilo de Mendicidade só começou a funcionar nas Fontainhas cerca de 1859, por acção do Barão de Nova Cintra (que só se estabeleceu na cidade em 1858), e que transitaria para ali, vinda do Palácio do visconde de Veiros.
Segundo o texto abaixo o edifício às Fontainhas (que tinha por cima do escudo, a coroa real que foi picada em 1910), teria sido construído mesmo para matadouro.

Texto sobre o Asilo de Mendicidade - Fonte: “O Tripeiro”



Asilo de Mendicidade local de antigo Matadouro na Rua das Fontainhas

Em 1873 o edifício das Fontainhas teve obras importantes.
Quando se mostrou ser necessário um matadouro maior que o da Rua de S. Dinis procedeu-se  à edificação do matadouro da Rua de S. Roque, em Campanhã, que actualmente também está desactivado, desde meados dos anos oitenta do século XX.


Matadouro na Corujeira em Campanhã

Funcionou ainda um matadouro na actual Travessa de Cedofeita que se chamou por isso Viela do Açougue e que abastecia, em especial, o hos­pital do Carmo e as famílias burguesas que entretanto por ali se instalaram com pre­dominância para a classe médica e dos pro­fessores que trabalhavam nos hospitais, do Carmo ou de Santo António, e davam au­las na Escola Politécnica, que funcionava no edifício onde agora está, a reitoria da Universidade.
No Porto, a "vendagem de carne" só se tornou completamente livre depois da Re­volução Liberal de 1820, mas, já antes des­ta data, nos princípios do século XIX, a Câ­mara concedera já, algumas licenças para o es­tabelecimento de talhos dentro do perí­metro da cidade. 

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