domingo, 6 de agosto de 2017

(Continuação 27)

19.20 Rua do Conde de Vizela e a distribuição do correio

A actual denominação de Rua Conde de Vizela fica a dever-se ao industrial Diogo José Cabral, proprietário de todo o quarteirão entre a Rua Conde de Vizela e a Rua Cândido dos Reis. Por decreto do rei D. Carlos do ano de 1900, aquele industrial foi agraciado com o título de primeiro Conde de Vizela, e daí o nome actual, da antiga Viela do Correio.
Durante um período de 279 anos, a partir de 1520, foi o correio da cidade do Porto administrado pelos chamados Correios-Mores ou, mais, precisamente, Assistentes do Correio-Mor do Reino. Não se sabe exactamente quando foi nomeado o 1° correio assistente no Porto, embora haja quem refira que, no ano de 1552, já havia na cidade correio organizado.
Na maioria dos documentos dos séculos XV e XVI, é feita referência aos “almocreves” ou “recoveiros” e ainda aos “caminheiros” para o transporte de correspondência Real, Municipal ou de simples particulares. Com a nomeação dos Assistentes do Correio-Mor, estas velhas práticas do recurso aos almocreves e caminheiros foram sendo progressivamente abandonadas.
A nomeação destes personagens era uma atribuição do Correio-Mor, que para o efeito negociava um contrato com o proponente, que se obrigava ao pagamento de uma renda anual, mas auferindo inteiramente dos rendimentos do correio que administrava.
Miguel Chamorro foi o 1º assistente que se conhece. A primeira residência que se conhece do Correio foi na Praça das Hortas na esquina com a Calçada dos Clérigos, onde existiam umas grossas árvores nas quais se afixava lista dando conta aos interessados da correspondência em trânsito.
Daí passou para o que é hoje a Rua do Dr. Magalhães Basto, contígua à delegação do Banco de Portugal.
Na segunda metade do século XVII, toda a área que compreendia a Rua do Almada e a Praça Guilherme Gomes Fernandes e em que se incluíam as ruas Conde de Vizela, da Fábrica, de Santa Teresa, de Cândido dos Reis e Galeria de Paris, não passava de terreno ainda despido de construções e que eram conhecidos por quinta da Cancela da Velha.
No ano 1681 o padre Baltasar Guedes que tinha fundado o Colégio de Nossa Senhora da Graça, trinta anos antes, no campo do Olival fez uma exposição à Câmara para que lhe fosse facultada uma parcela de terreno abaixo do Calvário, para aí levantar algumas casas, que se destinariam, quando arrendadas, a um complemento do orçamento da instituição de caridade. O Calvário ou Calvário Velho é a actual Praça Guilherme Gomes Fernandes, já que o Calvário Novo ficava na actual Rua Dr. Barbosa de Castro. A Câmara cedeu de facto o terreno e os proveitos que daí advieram para a instituição, foram de monta. Certo dia o padre foi procurado por João Soares Carvalho que pretendia um terreno para contruir uma habitação própria no lugar que seria hoje a esquina da Rua Conde de Vizela e a Rua das Carmelitas. Por volta de 1690 ficou a casa pronta. Seis anos depois, em 1696, Soares de Carvalho (1665-1712), nomeado correio-mor do Porto instalou o serviço dos correios na sua própria moradia na confluência da actual Rua Conde de Vizela com o chamado Alto da Calçada que só pode ser a dos Clérigos, passando a via a ser conhecida desde aí por Viela do Correio-Mor e Rua do Correio-Mor e mais tarde por Rua do Correio, quando antes tinha sido Travessa das Indulgências e para alguns teria sido também, Rua de Santo António.
No fim da Travessa das Indulgências, para quem nela en­trava pela actual Rua dos Clérigos, ficava a Rua da Picaria. 
Em 1797 o cargo de Correio-Mor do Reino é extinto e o Estado passa a ter o monopólio da exploração postal.
A distribuição ao domicílio começa em 12 de Fevereiro de 1800.
Em 1801 passaram os serviços para a residência onde habitava o administrador-geral do correio do Porto, José de Sousa Melo no Largo da Fábrica do Tabaco, na embocadura das actuais ruas da Fábrica e do Conde de Vizela, mais propriamente aquele espaço que fica onde se bi­furcam as ruas da Fábrica, Aviz, Conde de Vizela e Santa Teresa. Escusado será di­zer que, desde logo, o largo passou a ser Largo do Correio.
Aqui, os correios estiveram mais de trinta anos. 
Antes de ocupar as instalações do Largo do Correio, durante parte do século XVIII os serviços de correio, terão ocupado um edifício no Largo de Moinho de Vento (que pertenceu na segunda metade desse século, a Armando Artur Ferreira de Seabra da Mota Silva, e em finais do século XIX pertenceu a Artur Augusto de Albuquerque Seabra, professor de Matemática e jornalista, que pertencia à Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Já no século XX, em 1922, pertenceria a José Ribeiro da Silva Pena).

Palacete do Largo Moinho de Vento (parcialmente demolido em 2017) para instalação de um hotel


Em 1836 os serviços dos correios já ocupavam parte do ex-convento das Carmelitas.
Em 1857 passa a ocupar o palacete da Baronesa da Regaleira na Rua S. Bento da Vitória.
A seguir esteve na Praça da Batalha no palacete dos Guedes da Quinta da Aveleda e acabou, na Praça do Município nos nossos dias.

“A Junta Provisória Encarregada de Manter a Legítima Autoridade de El Rei o Sr. D. Pedro IV mandou em junho de 1828 que o administrador do correio do Porto fizesse estabelecer «dous ou tres pontos nesta cidade, onde julgar mais proveitosos, caixas para receção de cartas, encarregando a sua guarda e vigilância a pessoas de probidade; isto para facilitar ao público comodidades para a remessa das correspondências particulares. Com a ressalva de que: para não retardar a regular partida dos correios para as diferentes partes do reino, tomará Vm. as medidas necessárias, em relação às distâncias em que estiverem colocadas as caixas, para mandar recolher a essa administração as que se acharem dentro delas».
Era uma modernidade!: três caixas de correio espalhadas pela cidade, dando descanso aos pés dos interessados, obstando-os de um longo caminho até à casa da administração! Se de facto a situação prevaleceu no tempo ou não é algo que desconheço, pois poucos meses depois o país "absolutismou" com D. Miguel usurpando o poder e os partidários de D. Pedro fugindo para Inglaterra].
Notícia mais interessante foi a que encontrei remontando a 1834, quase um ano depois do fim do cerco à cidade (1832-1833), nos derradeiros meses da guerra civil (1828-1834):
«Somos authorizados a annunciar, que para utilidade pública dos Habitantes desta Cidade se achão deffinitivamente collocadas em differentes paragens,  - Caixas para recepção das Cartas – a fim de se evitar a demora em remessas á Administração do Correio, aonde até agora havia unicamente a Caixa geral.
Os sitios onde se achão as Caixas, são os seguintes:
- Na Porta Nobre, da parte de fóra.
- Na Esquina, entre a rua dos Inglezes, e a rua de S. João.
- Na Feira de S. Bento das Freiras.
- No Largo da Batalha, junto á Capella.
- Na Rua direita, defronte da travessa dos Capuchos.
- Na Esquina, entre a rua do Bomjardim, e a rua do Estevão.
- Na Rua d’Almada, ao cimo.
- Na Esquina entre a rua de Cedofeita, e a rua dos Bragas.
- Em Villa Nova, no Cabeçudo.
- E nas Costeiras.
Os moradores proximos destes sitios podem informar-se das horas a que da Administração do Correio se mandão tirar as Cartas, conforme está escripto em cada huma, para ficarem certos de que todas as Cartas deitadas antes das horas fixadas são expedidas na competente partida regular, - e que deitadas depois sómente são enviadas no turno seguinte.
A utilidade deste estabelecimento, que na Capital se acha em via há muitos annos, mas que a estupida crença dos Sectarios de D. Miguel julgou innovação perigosa para o Porto, quando em 1828 o Absolutismo reassumiu o sceptro de ferro, depois de alguns dias de uso, - he evidentemente proveitosa porque assim vimos a ter ramificada em diversos 11 pontos a recepção de todas as Cartas para o Correio, com a mesma regularidade, com que até agora se usava na que se acha á porta da Administração, no extincto Convento das Carmelitas.
Da mesma fórma, se tem tomado medidas para pouco e pouco se ir estabelecendo a Posta pequena, que he encarregada de entregar as Cartas em casa de que para isso der ordem, logo que cheguem os Correios, pagando sómente 5 reis em cada carta, a maior, do preço da Lei para o Correio Geral. As Pessoas que desejarem receber assim as suas Cartas, queirão avisar a Administração do Correio nesta Cidade; ou por Carta lançada em qualquer das Caixas, ou no mesmo local da Distribuição.
He preciso desarreigar varios prejuizos, e de certo he hum dos que temos mais inveterados, o uso de julgarmos por melhor o escreverem-se os nomes de quem tem Cartas a receber, em Listas públicas á porta do Correio, habilitando assim quem quizer a hir tirar as Cartas que lhe parecer, sem responsabilidade de quem as entrega, porque não he obrigado a conhecer todo o mundo nem a saber se esta ou aquella pessoa vai mandado pelo dono da Carta &c. Presentemente, não he possivel pôr em pratica com regular distribuição a entrega geral pelas diferentes casas, porque não tendo ainda voltado a suas habituaes residencias os moradores dos diversos Bairros, pela mudança forçada em rasão dos projecteis do inimigo, composição d’antigas habitações &c, em vez de se acreditar o novo arranjo, acharia nos tropêços desta confusão de moradias, hum estorvo terrivel. Mas pouco e pouco he necessario hir acostumando, até por que pouco e pouco se vai habitualmente regulando o exercicio dos Entregadores etc. Porque ao principio se acham embaraçados em qualquer forma, querer logo que se diga que a innovação he má, parece desairoso na bocca de quem confessa a todos os respeitos, que he preciso sahir da velha rotina de abusos. Queixe-se quem julgar irregularidades, e se depois as não vir remediadas, embora grite, que a opinião geral fará justiça, porque ás vezes he o frenezi do genio que falla, e não a justêza do raciocinio do Cidadão impaciente, e desarrazoado. Em as cousas tomando o habito antigo das moradas certas e regulares, há de fazer-se no Porto, o que se faz já em Lisboa, e nos Paizes civilisados, que a experiencia d’abusos teve a felicidade de corrigir por fortuna delles, primeiro que nos tocasse a nossa vez.
Vamos portanto pouco e pouco, que vamos melhor, e as Pessoas interessadas em que nos mostremos dignos de reformas, e não bisonhos e faltos de instrucção para as receber, principiem a dar o exemplo: estabeleça-se a Posta pequena para se nos entregar a correspondencia, mandando nossos nomes para isso ao Correio, pois que as Pessoas de menos raciocinio, vendo o exemplo desenvolvido pela prática, convencem-se e seguem a marcha dos outros.»”
Com a devida vénia ao blogue “aportanobre.blogspot.pt/”


A posta-pequena acima citada dizia respeito à entrega ao domicílio da correspondência, para quem o solicitasse mediante o pagamento de 5 réis.
Por sua vez o sítio do Cabeçudo ficava nas imediações da área hoje ocupada pela Rua Cândido dos Reis em Vila nova de Gaia, situando-se o sítio de Costeiras em Avintes.
Na Rua de Cândido dos Reis em V. N. de Gaia na parede lateral de um prédio situado na esquina daquela rua com a travessa do mesmo nome, existiu uma fonte importante denominada Fonte do Cabeçudo, e sobre a qual se diz:

"Foram construtores o Mestre pedreiro Domingos Gonçalves e Agostinho Rebelo. O ano de 1797 marca o momento em que a fonte foi reformada ou restaurada, pela Câmara no reinado de D. Maria I. Que ali construiu o frontespício de pedra com duas bicas tendo no topo a coroa real e o escudo também em pedra. Fonte implantada na parede lateral do prédio nº 117 da Rua Cândido dos Reis, onde ainda existe o frontispício de pedra que exibe os restos da fonte. Foi-lhe retirado o tanque e desviada a água. As duas bicas que serviam para abastecimento foram tapadas e a figura que dava nome à fonte desapareceu, bem como outros acessórios. No topo está gravada uma inscrição de onze linhas, onde se indica o ano de construção (1637)”.
In “arquivo.cm-gaia.pt”


Biblioteca Pública em S. Lázaro – Fonte: “aportanobre.blogspot.pt/”

Na foto acima de finais do século XIX, vê-se à esquerda um marco do correio, com abertura para o lado da via.
No penúltimo texto citado anteriormente: “Na Rua direita, defronte da travessa dos Capuchos”, a Rua Direita não é mais que a actual Rua de Santo Ildefonso, e a Travessa dos Capuchos era, à data, a via que segue pela esquerda da mesma foto.

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