terça-feira, 3 de outubro de 2017

(Continuação 16)


Tinha este palacete a designação de “Casa da Fábrica” por estar situado na esquina da Rua da Fábrica com a então Travessa da Rua da Fábrica, hoje Rua de Avis.
Aquela rua deve por sua vez o nome, à mais antiga fábrica de tabaco que se conhece na cidade, a Real Fábrica do Tabaco e, sabe-se que já tinha existência no século XVIII, pois, a ela em 1789, se refere o padre Agostinho Rebelo da Costa. Há todavia quem garanta, que já teria existência desde o início do século XVIII.


Fachada da Casa da Fábrica voltada para a Travessa da Fábrica, J. Villanova 1833


Na esquina das actuais Rua de Avis e Rua da Fábrica - Ed. Foto Beleza


O mesmo local actualmente - Fonte: Google maps

Na foto acima por comparação com a anterior, pode constatar-se que o prédio contíguo ao edifício em causa é o mesmo.
A Casa da Fábrica, foi mandada construir nas últimas décadas do século XVIII por Luís António de Souto e Freitas, filho de humildes lavradores de Rebordões, onde nasceu em 1702 e ganharia uma fortuna após ter emigrado para o Brasil.
Tendo vivido no Terreiro da Alfândega, junto à capela de Nossa Senhora da Piedade, depois de chegado do outro lado do oceano, comprou em 1754 a um cónego da colegiada de Guimarães, José Bernardo Carvalho, umas casas que este possuía próximo da fábrica do tabaco, para no lugar delas construir um rico palacete.
Nesta morada em 19 de Abril de 1770, morreria Luís Freitas, dono de uma fortuna considerável, tendo sido Cavaleiro da Ordem de Cristo, Capitão dos Privilegiados da Ribeira das Naus do Ouro, fidalgo de cota de Armas, etc.
Durante os primeiros meses do Cerco do Porto (1832/1833), a Casa da Fábrica foi re­sidência de Mouzinho da Silveira, aliás Jo­sé Xavier Mouzinho da Silveira, o grande reformador do liberalismo. 
A última proprietária foi D. Mariana Augusta da Silva Freitas de Meneses Cirne e Sousa (1846-1903) que tinha casado com Pedro da Silva Fonseca de Cerveira Leite e Bourbon (1836-1886), senhor da Casa de Ramalde e da Casa das Taipas ou solar dos Leite Pereira.
Alguns anos após o falecimento de D. Mariana, as filhas venderam a casa a Delfim Ferreira, o maior capitalista à data em Portugal, que a mandou demolir para no seu lugar construir um imponente imóvel do qual fazia parte o Hotel Infante de Sagres.
As pedras da frontaria do palacete foram oferecidas à Câmara para serem erguidas noutro local, o que nunca chegou a ocorrer.
Um desses locais era em frente à cadeia da Relação na Cordoaria onde estivera durante anos um correr de prédios, entretanto demolidos.
Sem possibilidade de confirmação, diz-se hoje que as pedras respectivas estarão dispersas pelo parque do Monte Aventino.
Entretanto, convém dizer que o palacete fora ter servido de residência, foi em tempos, sede de vários tribunais que por aí funcionaram após a vitória dos liberais.
Durante o governo do rei usurpador D. Miguel, havia na cidade um caceteiro de nome Pita Bezerra, que agredia com o grupo de energúmenos que o acompanhavam, todos aqueles que ele suspeitasse não serem da sua cor.
Após a vitória dos liberais, em 20 de Março de 1835, começou a ser julgado o tal Pita Bezerra, precisamente na Casa da Rua da Fábrica, a funcionar como tribunal.
É facto histórico, que no fim de uma das audiências, quando a sinistra personagem era levada para a prisão pelos carcereiros, o povo tomou o Bezerra em suas mãos e matou-o à pancada, desmembrando o corpo que acabou por ser lançado ao Douro.
Anos depois o palacete seria o palco da fundação do Clube Portuense e, aí, os seus estatutos conheceriam a luz do dia, antes de ocupar o palacete da Ferreirinha, na Praça da Trindade.

Sem comentários:

Enviar um comentário