domingo, 1 de outubro de 2017

(Continuação 14)


Este palacete situa-se na esquina da Rua da Alegria e da Rua Formosa, estando hoje, sob a alçada da Liga dos Combatentes, mas cujo proprietário inicial, feito visconde em 1861, foi Guilherme Augusto Machado Pereira (Porto, 08.04.1822-14.04.1868), que na carta de mercê do Rei D. Pedro V pela qual foi agraciado com aquele título, em vez de Machado Pereira escreveram Pereira Machado, e foi com esta designação que passou a usar o título. Por causa disso, o povo denominava-o de "visconde às avessas”.
Para além desse título era Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo e da Rosa, do Brasil. Foi ainda Presidente da Associação Comercial do Porto e fez parte da empresa que ergueu o Palácio de Cristal.
O 2.º Visconde, e seu filho, Guilherme Augusto Pereira Machado, era um amante de cavalos e equipagens e foi cavaleiro exímio e experimentado picador e um elegante da época. Foi também Cavaleiro da Casa Real, nascido em 1865, falecido em 1930, tinha casado em 1904 com D. Rosa Furtado de Antas.
Nos terrenos para além dos jardins do palácio da Rua Formosa, e que se desenvolviam até à agora Praça dos Poveiros, antes Largo de Santo André, diz-se que teria existido um picadeiro, utilizado pelo 2º visconde de Pereira Machado.
Diga-se como curiosidade, que a Rua Formosa embora já totalmente aberta em 1813 com o objectivo inicial de estabelecer uma ligação da Cancela Velha a Santa Catarina, no local da Viela da Quinta, era mais estrada do que rua, pois havia muito poucas casas, tendo sido um dos projectos de João de Almada e Melo em 1784. 

“A edificação deste palacete, em meados do século XIX, deve-se ao Visconde Pereira Machado, que aqui habitou, celebrizando o imóvel pelas festas e bailes que organizava e que tanta fama granjearam na sociedade portuense de então. Nascido na cidade invicta, viveu no Brasil até aos 30 anos, época em que regressou à terra natal, onde desenvolveu, graças à sua imensa fortuna, uma acção benemérita a favor de várias instituições, o que lhe mereceu, em 1861, o título de Visconde.
O seu palacete testemunha uma época de desenvolvimento do Porto, marcada pelo gosto neoclássico e algum eclectismo. A fachada principal, dividida em três panos, é aberta por um conjunto de vãos simétricos, cujos ritmos convergem na secção central, destacando o frontão com o brasão dos Pereira Machado. Se no piso térreo, onde anteriormente funcionaram os serviços de apoio ao palacete, os vãos são de linhas rectas, salientando-se a porta central pela sua maior altura, no andar nobre observam-se uma série de janelas de sacada, com varandas que respeitam a divisão tripartida do alçado. A central é abaulada, variando também os remates das janelas, com frontões triangulares e circular, ao centro. A balaustrada esconde o terceiro piso, onde antigamente se situavam os quartos da família.
Apesar dos recortes, a cantaria preenche quase a totalidade do alçado, que não prescinde do habitual frontão triangular, e cuja janela central exibe motivos de grinaldas claramente filiados num gosto neoclássico.
No interior, ganha especial importância a escadaria de granito que liga os primeiros dois pisos, rematada por uma clarabóia com decoração em estuque, de imponente efeito decorativo. De entre os muitos compartimentos, boa parte dos quais com trabalhos de estuque, destaca-se o denominado Salão Nobre (hoje parte do Museu), com pinturas a óleo da autoria do italiano Polo Pizzi. O esplendor destes interiores era, a avaliar pelos elementos desaparecidos de que há notícia, bastante mais aparatoso. Em muitas salas existiam fogões de sala, em mármore de Carrara, e no Salão Nobre, as falsas colunas eram coroadas por figuras douradas..”
Com a devida vénia a Rosário Carvalho-IPPAR

“O visconde Pereira Machado foi um notável benemérito e promotor da arte musical no Porto quer pelas realizações que promovia em sua casa, sobretudo depois de se instalar no magnífico palacete da Rua Formosa, quer como administrador do Real Teatro de S. João e membro da Sociedade Filarmónica, condição que fez dele sócio fundador e vice-presidente do Club Portuense”.
Com a devida vénia a João-Heitor Rigaud 


Notícia do falecimento do visconde Pereira Machado no Jornal do Porto em 15 de Abril de 1868


Após a utilização como habitação do visconde Pereira Machado, este edifício recebeu na década de 1930, o Tribunal da Relação e o Arquivo de Identificação do Porto (Bilhete de Identidade), transitando este na década de 60 do século passado para o Palacete Sandeman na Rua de Cedofeita, o conhecido prédio onde esteve uma esquadra de polícia.
Sobre o Bilhete de Identidade a partir de 2008 gradualmente substituído pelo cartão de cidadão, fala-nos o texto seguinte:

“Mas foi em 1914, que o bilhete de identidade ganhou forma. Esta medida foi desenvolvida porque se percebeu que era preciso ter um registo dos cidadãos, dado o crescimento em grandes dimensões da população urbana, e eram necessárias igualmente informações sobre óbitos.
Nas primeiras décadas da sua existência, o bilhete de identidade era composto por 3 páginas. Os dados eram preenchidos à mão. Para além dos dados "normais" como a estatura, impressão digital ou fotografia, existiam outras referências, como, por exemplo, a cor do cabelo e da barba”.
Fonte: “pt.blastingnews.com”


A seguir dá-se conta da ceia seguida do respectivo baile que ocorreu no palacete, durante um aniversário de uma filha de Guilherme Augusto Machado Pereira e de Guilhermina Cândida dos Santos Vieira Fartura.

“Um bom e magnífico baile não é realmente uma coisa muito frequente na sociedade portuense, porque se as fortunas avultadas são no Porto em grande número, o gosto e a elegância, e a bizarria de gastar larga e profusamente, nem sempre as acompanham. O sr. Guilherme Augusto Machado Pereira é um cavalheiro retirado da vida militante comercial, onde realizara a grande fortuna que possui, mas que por isso mesmo adora os cómodos da civilização e aprecia as maravilhas do luxo. O seu palacete da rua Formosa prova eloquentemente em favor dos seus instintos de fidalgo. Dizer que é uma das residências mais luxuosamente decoradas do Porto, é manifestar uma verdade, que os oito centos de convidados que povoavam as sua salas no seu baile de ontem à noite reconheceram e proclamaram (…)
(…) Ignoramos quem foi o Vattel que preparou a ceia = o que sabemos é que a de ontem à noite regalou o paladar dos convidados. É sempre agradável este episódio. A neve refresca os que se abrazam de calor: o Porto e Madeira restauram as forças dos ‘polkistas’ e dos ‘lanceiros’. O ‘champagne’ anima o espírito daqueles que o tem de o fazer à força; o fiambre, os pastelões, os perus, e as galinhas indemnisam o estômago daqueles cuja bolsa sofreu num desastrado voltarete ou boston. Diga-se a verdade, que neste caso não é um crime; é num baile que a ‘liberdade, igualdade, e fraternidade’ se realiza, sobre tudo quando todos os partidos dançam, deixando em casa a história das suas passadas discórdias. 
O baile acabou era alto dia; os convidados deixavam com saudades aquelas salas de baile, onde a par da riqueza e do luxo, tinham encontrado as maneiras mais sedutoras dos donos da casa, que assim festejaram os anos da sua querida filha (...)." 
Fonte: “facebook.com/Comer-por-escrito”; In Folhetim de “O Nacional”, de 9 de Julho de 1859




Palacete do Visconde Pereira Machado – Ed. “pt.m.wikipedia.org”


Interior do Palacete Pereira Machado – Ed. “vamoreira.blogspot.pt/”

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