sábado, 11 de julho de 2026

25.310 Real Teatro S. João

 
O Teatro Nacional de S. João da cidade do Porto é uma magnífica obra de arquitectura do século XX.
No entanto, um primeiro edifício baptizado como Real Teatro S. João, erguido nos finais do século XVIII, acabaria destruído por um incêndio.
Ainda antes do antigo Real Teatro de S. João, o Porto teve outro importante palco de espectáculos que se situava numa das dependências do demolido Palácio dos Condes de Miranda, Marqueses de Arronches e Duques de Lafões - casa de espectáculos particular aberta em 1760.
Na sua inauguração, foi levada à cena uma ópera lírica para homenagear o casamento de D. Maria I com D. Pedro. Este teatro foi riscado por João Glama Stroberle, auxiliado pelos artistas José Régióli, Francisco José, João André Chiape, Veríssimo Nunes, Domingos Teixeira Barreto e José dos Santos Cartaxo.
Francisco Almada, que sucedeu a seu pai no governo da cidade, haveria de dar continuidade, também, à arte cénica, no Porto, incrementando a construção, bem perto dali, do Real Teatro S. João, com um projecto aprovado pelo governo, e um capital reunido entre comerciantes e capitalistas da cidade, até Abril de 1796.
Um capital (31.000$000 reis) subscrito em 313 acções permitiu avançar com o empreendimento.
Para o efeito, o Corregedor Francisco de Almada adquire parte do terreno da muralha fernandina, na zona da actual Praça da Batalha.
Entretanto, as obras arrancam em 1796 e, em 13 de Maio de 1798, dia do aniversário do Príncipe D. João, foi inaugurado o novo teatro da autoria do arquitecto Vicente Mazzoneschi, o “Real Teatro S. João”, chamando-se, inicialmente, Theatro do Príncipe em honra do futuro D. João VI, apesar de as obras ainda não estarem totalmente concluídas, com a comédia "A Vivandeira".
Para que fosse possível a sua construção, foi destruído um grande pano da Muralha Fernandina, cuja pedra serviu para fazer as suas paredes e também as da Casa Pia.
O escudo real, que esteve na sua frontaria, encontra-se nos terrenos do Museu Nacional Soares dos Reis.
Até 1809, a sala de espectáculos apresentou peças ligeiras e variadas, acontecendo a primeira temporada de teatro musicado em 1809, com uma zarzuela. A primeira ópera só lá foi apresentada na temporada 1814/1815.
Durante o cerco do Porto, foi bastante danificado pela artilharia miguelista pelo que teve de sofrer grandes obras entre 1835 e 1838.


 
 

Real Teatro S. João em 1905 (postal) – Ed. Tabacaria Arnaldo Soares

 
 

Interior do Real Teatro S. João, antes do incêndio – Foto Guedes
 
 
 
A planta do teatro era em forma de ferradura com o tecto, redondo, pintado por Joaquim Rafael, com uma nova pintura de Paulo Pizzi, em 1856.
Tinha quatro níveis de camarotes e, no segundo, possuía uma sala para concertos.
O pano de palco foi pintado por Sequeira, sendo substituído em 1825, por um do espanhol João Rodrigues, ao qual sucedeu um outro de Palucci.
A iluminação, até 1838, foi de velas de sebo e, mais tarde, de azeite.
Na noite de 11 para o dia 12 de Abril de 1908, um violento incêndio reduziu o Real Teatro S. João a escombros.


 

Real Teatro S. João, após o incêndio


 
 

Real Teatro S. João - Gravura, em O Tripeiro 5ª Série, Vol I, pág 119



 

 
Real Teatro S. João, antes do incêndio


 

Real Teatro S. João, depois do incêndio - In portoarc.blogspot
 
 
 
Nas duas fotos anteriores, está em primeiro plano um fontanário/ candeeiro.
No mesmo ano, o arquitecto Marques da Silva concebia o risco do novo teatro portuense, vindo este a ser concluído em 1918.
A estrutura interior do original Real Teatro de S. João era semelhante à do Teatro de São Carlos, e a sua composição próxima dos teatros de tipo italiano que, na época, se tinham estabelecido como regra de sucesso.
O novo Teatro S. João foi inaugurado a 7 de Março de 1920 e, em 1992, foi adquirido pelo Estado português.
Entretanto, a 18 de Junho de 1932, a sala de espectáculos abriria, após obras importantes para adaptação a novas formas artísticas - o cinema. Foi, então, levado à cena, em estreia, o filme de Georg Wilhelm Pabst "Atlântida".
Na noite de 6 de Maio de 1936, quando na Europa se começava a viver a subida do poderio nazi, a cantora chilena com vida artística feita sobretudo na Alemanha, Rosita Serrano, exibe-se no Teatro S. João para delícia da burguesia portuense.
E espectáculos de todo o género foram acontecendo nesta sala portuense de eleição ao longo dos anos.
Em 2012, o teatro foi reclassificado como monumento nacional. A reclassificação, aprovada em Conselho de Ministros, a 24 de Maio, foi publicada em Diário da República no dia 10 de Julho de 2012.
O actual edifício, de aspecto robusto mas sem estilo definido, é composto por uma imponente frontaria guarnecida por quatro colunas jónicas, entre as quais se abrem três janelas de arco pleno e outras tantas portas.
Internamente, a decoração da sala de espectáculos e principais salões ficou a cargo dos pintores Acácio Lino e José de Brito e dos escultores Henrique Moreira, Diogo de Macedo e Sousa Caldas, sendo estes dois últimos responsáveis pelas quatro figuras alegóricas colocadas no friso do entablamento e que representam a Bondade, a Dor, o Ódio e o Amor.
Hoje, o edifício totalmente reconstruído é um dos principais edifícios da cidade e local de realização dos principais espectáculos culturais.
 
 
 
A reconversão do antigo Real Teatro para o novo Teatro S. João
 
 
Em 1909, a cidade começa a empreender a tarefa de reerguer um novo teatro.
Assim, em 3 de Junho de 1909, são registados no 4º Cartório Notarial do Porto os estatutos da Sociedade do Teatro de S. João. São outorgantes, decidindo formar uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, com sede no Porto, sem sucursais, e com a denominação de Sociedade do Teatro de S. João:
 
 
“ (…) o Dr. Adolfo da Cunha Pimentel, à época Governador Civil do Porto, casado, residente na Rua do Príncipe, Bento de Sousa Carqueja, casado, lente da Academia Politécnica do Porto e jornalista, residente na Rua da Alegria, Arnaldo de Sousa Moreda, casado, proprietário, residente na Rua de S. Jerónimo, Pedro Mariani Pinto, casado, proprietário, residente na Rua do Barão do Corvo (Gaia), António Joaquim Machado Pereira, casado, proprietário, residente na Rua de S. Roque da Lameira, Alberto Nunes de Figueiredo, casado, proprietário, residente na Rua do Crasto, este outorgante por si e na qualidade de procurador do Dr. Ricardo Pinto da Costa Bartól, conde de Lumbrales, solteiro, maior, capitalista, residente na Rua da Picaria, António Pedro Augusto da Costa, casado, negociante, residente na Rua de Fernandes Tomás, João Baptista de Lima Júnior, casado, negociante e proprietário, residente na Rua do Monte Crasto, Dr. Álvaro de Vasconcelos, casado, advogado, residente na Avenida da Boavista, António da Silva Marinho, viúvo, industrial e proprietário, residente na Rua da Piedade, Eduardo Honório de Lima, casado, industrial e proprietário, residente na Rua de Cedofeita, João Gomes do Espírito Santo, casado, oficial do exército e residente na Rua do Sol, Manuel Reis, solteiro, negociante, residente na Rua da Alegria, José de Oliveira Basto, casado, negociante, residente na Rua de Santa Catarina, Ezequiel Ribeiro Vieira de Castro, casado, negociante e proprietário, residente em Ermesinde (Valongo), António da Silva Cunha, casado, negociante, residente na Rua de Santa Catarina.”
Cortesia de Maria José de Sousa Ferraria (2000)

 
Após alguns re-arranjos na repartição do capital accionista e após alguns aumentos de capital, o novo teatro é inaugurado em 22 de Janeiro de 1920.
Assim, em 22 de Janeiro de 2020 (está próximo), será a comemoração do centenário daquele que, agora, é denominado Teatro Nacional de S. João.
 
 
 
 

Construção do novo Teatro S. João

 
 

Novo Teatro S. João, c. 1920 (postal) – Ed. Tabacaria Africana

 
 
Quatro anos após a inauguração do novo Teatro S. João, a capela de Nossa Senhora da Batalha, que lhe era fronteira, foi mandada demolir.
Essa capela foi construída (c. 1799) para substituir uma outra, bem próxima, que dataria de 1686, e que tinha passado a albergar uma imagem da santa, que estava numa edícula, localizada na Porta de Cima de Vila da muralha fernandina.

 
 

Capela de Nossa Senhora da Batalha, à direita e, atrás, o Real Teatro S. João
 
 
 
 

Capela de Nossa Senhora da Batalha, c. 1900 – Ed. Aurélio da Paz dos Reis

quinta-feira, 25 de junho de 2026

25.309 Balizas e outras estruturas de apoio para a entrada no estuário do rio Douro

 
Devido a características muito próprias, a entrada da barra do rio Douro apresenta uma série de dificuldades e perigos, que foram sendo ultrapassados ao longo dos séculos, para além da intervenção de pilotos locais deles conhecedores, também, com a ajuda da tecnologia disponível em cada momento.
A entrada da barra impõe um conhecimento aprofundado do lugar face à língua de areia do Cabedelo sempre em constante mutação e ainda às inúmeras pedras escondidas no leito do rio e que se desenvolvem até atingir os calados das embarcações.
Os faróis e os farolins, para além dos fachos e almenaras e as marcas constituem, desde há séculos, as balizas de navegação mais usadas pelos mareantes.
Presentemente, têm características próprias e bem conhecidas de cadência dos seus sinais luminosos, cor e duração dos mesmos.
O que distingue o farolim do farol é o alcance: aceita-se que para os faróis será superior às 15 milhas náuticas. Inferior a este valor, já será considerado um farolim.
Por sua vez, os fachos são sinais luminosos que queimam um combustível e funcionam praticamente como luzes de presença.
Quanto às marcas usadas na navegação, tanto podem ser árvores de grande porte, edifícios cons­truídos em sítios elevados ou de enormes proporções, ou torres construí­das propositadamente para o efeito. 
Nesta última hipótese, os pilotos da barra guiavam-se por enfiamentos da Capela de Santa Catarina, em Lordelo, da Torre da Marca (no término da actual Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal), da estátua do Togado, depois substituída pela Cruz de Ferro e, ainda, pela Torre dos Clérigos e também se conhecem casos de alinhamento feitos por alguns navegantes com a igreja de S. João Baptista da Foz.


 
Marcas
 
Torre da Marca
 
 
Levantada em terrenos do Palácio de Cristal dos nossos dias, foi mandada construir em 1530 e destruída durante as lutas liberais de 1833/34.
Veio substituir um enorme pinheiro existente, desde tempos imemoriais, no mesmo local.

 
 


Pinho Leal, In Portugal Antigo e Moderno (1877)
 
 
 
 

A meio da imagem, lá no alto, a Torre da Marca, em 1827, em terrenos hoje, do Palácio de Cristal – Ed. Kopck


  
Capela de Santa Catarina
 

Situada no alto do monte da aldeia do Ouro, em Lordelo e edificada na transicção do século XIV para XV.


 

Capela de Santa Catarina e Senhora dos Anjos com  vista obtida desde do Largo António Calém (foz da Ribeira da Granja) – Ed. JPortojo
 
 
 
 
O Togado e a Cruz de Ferro
 
 
O Togado é uma estátua em granito, que representa uma figura masculina trajando uma túnica curta, coberta por uma toga. O braço direito repousa na dobra da toga e o braço esquerdo segura um objecto indeterminado.


 

O Togado
 
 
 
Teria sido o bispo D. Miguel da Silva quem teria mandado erigir, num rochedo, em frente da capela/farol, uma marca de navegação personalizada numa estátua de uma personagem vestida com uma toga, num rochedo que exibia uma cruz e reconhecido como a Cruz de Ferro.
Entretanto, o Togado há muito que teria colapsado e perdido nas águas do rio Douro quando, numa cheia de grandes proporções, em 1788, a marca sinalética existente sofreria danos de vulto, pelo que teve que ser sujeita a obras de restauro. 
Estas foram conduzidas pelo director de Obras Públicas, o arquitecto e engenheiro militar José Champalimaud de Nussane (1730-1799), que foi escolhido para o cargo pelo presidente e inspector das Obras Públicas da cidade, José Roberto Vidal da Gama (governador da Relação do Porto de 1786 a 1790).
O projecto seria executado pelo mestre pedreiro José de Sousa e pelo mestre ferreiro António do Pinho.
Em Março de 1789, um ano depois do colapso da antiga marca fluvial, a nova já estava inaugurada, continuando a ser conhecida pela Cruz de Ferro.


 

Cruz de Ferro que substituiu o “Togado”. Projecto de José Champalimaud de Nussane

 
 
Enquanto o Togado, que se encontrava submerso, foi recolhido durante obras acontecidas, em 1868, no cais da Cantareira, a Cruz de Ferro foi colocada fora de serviço em 1862.
  
  

Fachos, Faróis e Farolins
 
 
Fachos
 
 
Facho das Sobreiras
 
 

Tem-se conhecimento de fachos na margem direita no rio Douro (facho de Sobreiras) e, na margem esquerda (facho do Monte de Cabedelo da Barra, facho do Monte da Furada).
O facho mais antigo de que se conhece a existência é o de Sobreiras que muito mais tarde foi substituído, praticamente no mesmo local, pelo farolim de Sobreiras, em Lordelo do Ouro.
 
 
 
 

Gravura de autor desconhecido na qual é possível identificar o local do Facho de Sobreiras (Bar Mark)
 
 
 
  
Facho do Monte da Furada
 
 
Este facho situar-se ia hoje um local entre a Igreja Nova da Afurada e a Casa dos Pescadores, numa cota bem alta.
 
 
 

Vista aérea da Afurada entre a nova igreja, à esquerda, e a Casa dos Pescadores, à direita – Fonte : Google maps
 
 
 
 
Faróis e Farolins
 
 
Farol de São Miguel-o-Anjo 
 
 
“O Farol de São Miguel-o-Anjo, também conhecido por Torre, Capela ou Ermida de São Miguel-o-Anjo, situado junto ao Jardim do Passeio Alegre é um primitivo farol português, classificado como Imóvel de Interesse Público que se localiza na Cantareira, Cais do Marégrafo, na freguesia da Foz do Douro.
Primeiro edifício puramente renascentista datado em Portugal e um dos mais antigos da Europa.
(…) Em 1527, foi mandado construir, conforme reza uma inscrição latina na parede voltada para o rio, que traduzida diz: "Miguel da Silva, bispo eleito de Viseu, mandou construir esta torre para dirigir a navegação, ele mesmo deu e consignou campos comprados com o seu dinheiro, com o rendimento dos quais foram acesos fogos de noite perpetuamente na torre, no ano de 1527".
Desativado o farol nos meados do século XVII, manteve a partir daí, somente o uso como Capela, sendo a construção classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951.
Em 1841, foi construído um edifício anexo à Capela-Farol, para aí instalar um posto da Guarda-Fiscal.
Em 1852, foi edificada uma torre anexa, com 3 pisos, onde foi instalada uma estação telegráfica”.
Fonte: Teixeira da Silva
 
 
Depois de anos ao abandono, no ano de 2017, foi decidido recuperar a capela-farol e a sua envolvente, de modo a que seja criado um Núcleo Interpretativo do Farol/Ermida de São Miguel-o-Anjo, inserido no projeto global de recuperação e requalificação deste local emblemático da cidade do Porto, permitindo, assim, vir a potenciar o conhecimento sobre o primeiro farol construído de raiz em território nacional, por volta de 1528.
Finalmente, em 2020, foi recuperado todo o espaço adjacente à capela-farol.
Desde há alguns anos o complexo encontra-se ocupado com uma delegação dos Pilotos da Barra do Douro.
 
 
  

Farol-capela e a antiga estação telegráfica de 3 pisos, antes da última intervenção
 
 
 

Em 2020, a torre onde esteve a estação telegráfica já está recuperada. À direita o farolim da Cantareira – Ed. Manuela Campos
 
 
 
 
Farolim da Cantareira (Desactivado)
 
 
O Farolim da Cantareira é um pequeno farol que se localiza na Cantareira, no Cais do Marégrafo, junto ao Jardim do Passeio Alegre,  na Foz do Douro, junto ao local onde está o farol/capela de S. Miguel-o-Anjo. Trata-se de uma coluna com varandim e lanterna branca e alcance luminoso de 9 milhas.
É o farolim anterior do enfiamento Cantareira-Sobreiras da entrada da Barra do Rio Douro.
No século XVIII, ocorreu, provavelmente, a construção do primitivo farolim, que há muito desapareceu.
Em 1915, um outro farolim seria colocado no cais do Marégrafo e, em 2009, foi apagado e desactivado, encontrando-se em exposição no local que ocupou. 
 
 
 

Farolim da Cantareira, actualmente
 
 
 
Farolim das Sobreiras (Desactivado)
 

O Farolim das Sobreiras, também conhecido por Farol Medieval ou Farol dos Três Bicos ou, ainda, Farol das Três Orelhas, era um farol que se localizava na encosta das Sobreiras, na freguesia de Lordelo do Ouro.
O topónimo Sobreiras é muito antigo, pois, há documentos do século XII, onde se fala do facho de Sobreiras, que serviria para orientação das embarcações e que antecedeu no local o farolim das Sobreiras.
 
 
“Aquele facho de Sobreiras era a chamada Marca Nova, assim designada para a diferen­ciar da velha Torre da Marca, bem mais anti­ga, que ficava em terrenos hoje ocupados pe­los jardins do Palácio de Cristal, mais ou me­nos ao fundo da actual Avenida Tílias. 
A Marca Nova ainda funcionava em 1849, porque, nesse ano, o intendente da Marinha, em colaboração com o piloto-mor, oficiou aos encarregados das obras que se andavam a fazer no cais no sentido de que não se ta­passe a viela do Sardo, que existia no sítio de Sobreiras, porque "era por esse caminho que se ia pôr luz na Marca Nova quando alguma embarcação entrava ou saía a barra de noite". 
Com o devido crédito a Germano Silva
 
 
 
O Farol de Sobreiras tratava-se de uma coluna com varandim e lanterna branca em frente a marca rectangular às faixas brancas e vermelhas. No século XVIII, provavelmente, ocorreu a construção do primitivo farolim.
Era o farolim posterior do enfiamento da entrada da Barra do Rio Douro e encontrava-se a 562 metros do Farolim da Cantareira.
A designação de Farol das Três Orelhas ou Farol dos Três Bicos deve-se à configuração da primitiva marca que lhe estava por detrás, um muro de alvenaria de granito rematado por três ameias, à semelhança de uma estrutura defensiva, estrutura esta que foi desmantelada e se perdeu em 1993-1994, aquando da deslocação do farolim.
 
 
 

Remate superior do muro de alvenaria primitivo colocado por detrás do Farol das 3 Orelhas - Foto editada do blogue Monumentos Desaparecidos
 
 
 
Naquela data, foi deslocado 15 metros do seu local, para a construção do edifício sede da ANJE, tendo sido substituída a marca de alvenaria, por uma parede em betão apoiada numa estrutura em metal.
 
 
 

Farolim no seu lugar original - Ed. José Magalhães
 
 
 
Após a demolição do farolim das Sobreiras, nasceria no local a sede da ANJE (Associação dos Jovens empresários).



 

Local onde estava assente o farolim - Ed. José Magalhães
 
 
Em cima da placa de cimento da foto anterior esteve o Farolim das Sobreiras.
Posteriormente, em 2006, por ter sido extinta a sua luz, por desnecessária, a coluna e lanterna foram transferidas para o recinto exterior do Farol de Leça, ou Farol da Boa Nova onde se encontram em exposição.
 
 
  

Farolim das Sobreiras em Leça da Palmeira dentro do espaço do farol


 
 

Farolim das Sobreiras, em 1º plano, no Farol da Boa Nova
 
 
 
  
Farolim de Felgueiras (Desactivado)
 
 
“Tornar a barra do rio Douro acessível à navegação e possibilitar a entrada e saída de navios com a máxima segurança foi uma constante preocupação das autoridades marítimas da cidade. Curiosamente, o primeiro plano que se conhece para a desobstrução da barra foi apresentado, em 1728, por um frade franciscano, frei Caetano de S. Boaventura. Oferecia-se para quebrar as pedras e rochedos que havia na barra e que, naquele sítio, constituíam um sério embaraço à navegação.
Parece que a proposta do franciscano não teve grande acolhimento. Com efeito, logo no ano seguinte (1729), o rei D. João V mandou ao Porto dois seus altos funcionários, os engenheiros José Fernandes Pinto e Dionísio de Castro, a fim de elaborarem uma planta da barra e indicarem a melhor maneira de resolver os problemas de segurança que ali subsistiam.
Quarenta e seis anos depois (1775), ainda nada se havia feito. Nesse ano, a administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro escreveu ao rei D. José, a lembrar-lhe "quão urgentes e necessárias eram" as obras. E para custear as primeiras despesas, a Companhia oferecia a quantia de quarenta mil cruzados, que tinha guardado nos seus cofres, produto de juros de ações "cujos donos não aparecem". E as obras lá começaram, não imediatamente mas alguns anos depois. 
Mais uma curiosidade: os primeiros trabalhos para as obras da barra tiveram início não onde o rio entra no mar, mas bastante mais para trás, na Arrábida. Com efeito, tudo começou com o corte da enorme escarpa da Arrábida. A pedra que dali se extraía era levada para S. João da Foz, onde era utilizada para o atulhamento da margem direita da barra. Entretanto e à medida que o monte da Arrábida ia sendo devastado, começou a aparecer uma nova via de comunicação entre Massarelos e a Cantareira. Num relatório de 1791, consta mesmo que naquele ano "os povos se iam servindo já de uma formosa estrada à beira-rio".
Mais tarde, por iniciativa da Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro e à custa de impostos sobre o vinho, acabou por se construir toda a marginal. Começou com a ligação de Cima do Muro, na Ribeira, até Monchique; e daqui, por Massarelos, até à Foz do Douro.
Mas foi uma tragédia que obrigou à aceleração das obras na barra do Douro. Referimo-nos ao naufrágio do navio Porto, ocorrido em 29 de março de 1852, mesmo à entrada da barra. O vapor, quando pretendia entrar no rio, encalhou num dos tais rochedos que, na altura, na maré- cheia, estava submerso e ali ficou a ser batido pelas ondas. Morreram mais de sessenta pessoas, algumas das mais importantes famílias do Porto, como o banqueiro Allen. Diz a nossa gente que," depois de casa roubada, trancas à porta". E assim aconteceu. Depois da tragédia, montou-se na Foz um modelar serviço de socorros a náufragos.
E as obras da barra, essas continuaram e em grande ritmo, agora num projeto do Eng.° Nogueira Soares. Estava adiantado o molhe chamado de Felgueiras ou da Filgueira, em cuja ponta foi construído um farolim que tomou o nome do molhe. O cais velho, o molhe e farolim de Felgueiras foram construídos com a pedra que era extraída do morro da Arrábida. Inicialmente pensava-se na construção de uma torre para sinais com um sino para aviso da navegação. Depois, fez-se o farol que ainda funciona. Projeta, de forma intermitente, luz vermelha para poente, branca para nascente. No começo, o sinal de nevoeiro era dado através do tal sino ao ritmo de três badaladas, de sete em sete segundos. Na atualidade, o sinal de nevoeiro é dado através de uma sirene.
Ainda nos nossos dias, e antes da construção dos modernos cais, houve vários naufrágios à entrada da barra. Um dos mais célebres foi o do vapor alemão "Dieister", em 3 de fevereiro de 1929. Morreram os seus vinte e quatro tripulantes. O naufrágio ocorreu diante de uma multidão que se aglomerava ao longo do cais do Passeio Alegre e que nada pôde fazer para evitar a tragédia que deixou consternada a cidade. E na lembrança de muitos portuenses devem estar ainda bem vivas as imagens do naufrágio do "Silver Valley", em 15 de março de 1963”.
Com a devida vénia a Germano Silva

 
 
Começado a pensar ser construído em 1790, o molhe de Felgueiras foi edificado com base num projecto de 1866 e apenas, definitivamente terminado, em 1903. 
Assim, em 1903, quando foram reforçados os muros de revestimento da barra foram usados blocos originários da Senhora da Hora e, também, os guindastes chamados Titãs, que já tinham sido usados no levantamento dos molhes do Porto de Leixões.
 
 
 
  

Os Titãs de Leixões sendo utilizados para colocação dos blocos de reforço do molhe de Felgueiras
 
 
 
Por sua vez, o farolim com projecto de 1881, do engenheiro Nogueira Soares, já estava em funcionamento, desde 1886.
 
 
 
  
Molhe e Farolim de Felgueiras - Fonte "invictadeazulebranco.pt"
 
 
 
O farolim de Felgueiras entrou ao serviço no molhe de Felgueiras, na foz do rio Douro, em 1886, começando por queimar petróleo. Em 1916, para fazer face aos constantes nevoeiros que aconteciam no local, foi dotado também com um sinal sonoro, um sino, colocado na sua cúpula, que actuava naquelas situações de falta de visibilidade do seu sinal luminoso. Em 1957, foi electrificado e ligado à rede pública de electricidade e, em 1979, integrou um conjunto de farolins e faróis com funcionamento à distância, centralizado no Farol de Leça da Palmeira. 
Desde 2009, o farolim de Felgueiras encontra-se fora de serviço, pois após a construção dos novos molhes da barra do rio Douro, foram instalados novos sinais luminosos e novos farolins. Assim, por exemplo, para fazer a entrada naquela barra, actualmente, as embarcações atendem ao alinhamento de um farolim situado no Jardim do Passeio Alegre e uma luz colocada na torre da igreja de S. João Baptista da Foz do Douro.
 
 
 

O novo Farolim situado no Jardim do Passeio Alegre
 
 
 
O farolim de Felgueiras, após a sua desactivação, entrou num período de degradação e ruína, situação que foi travada a tempo. A partir de 2021, está recuperado e à disposição das objectivas fotográficas de todos que se deliciam com os clichés que obtêm.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

25.308 Deambulando pelo lugar do Eirado e pela aldeia da Mouteira

 
Igreja Paroquial de Lordelo do Ouro
 
 
A igreja paroquial de Lordelo do Ouro, que esteve integrada no Padroado Real, situada no lugar de Eirado, actualmente marginal à Rua das Condominhas, começou a ser edificada em 1764, sobre um templo mais pequeno.
Do anterior templo, aí existente, em 1278, há referências à existência de uma "Igreja de Lordello", nas inquirições de D. Afonso III e no Livro de Originais registado sob o nº 755 (livro XXIV, de 1564).
Nesses tempos, já tinha sido extinto um eremitério situado no Monte de Santa Eulália (local da implantação da igreja de Nossa Senhora da Ajuda), cujos monges pagavam a dízima à “Igreja de S. Martinho de Ouredo”.
Em 1788, são reedificadas a capela-mor e a sacristia, tendo recebido a sua primeira torre sineira em 1867.
Aliás, todas as intervenções na área geográfica daquele templo foram atrasadas, compreensivelmente, pela ocorrência quer das Invasões Francesas, quer pelo drama do Cerco do Porto.
O orago do templo religioso é S. Martinho e, em 1758, de acordo com as Memórias Paroquiais, já por lá existia uma Confraria do Santíssimo Sacramento do Senhor do Bonfim e Almas e, mesmo antes, em 20 de Fevereiro de 1721, é feito um contrato entre a Confraria do Santíssimo Sacramento e o organeiro Padre Frei Gabriel de São Teotónio, para a execução de um órgão, por 81$600 réis.
Aliás, a existência da confraria é atestada, também, em 1745, quando Frutuoso de Faria, emigrado no Brasil, fez testamento de uma fortuna considerável à Confraria do Santíssimo Sacramento do Senhor do Bonfim e Almas.
Deste acto, decorreu uma contenda com a Colegiada de Cedofeita que teve a intervenção de Bento XIV a pedido do Bispo do Porto e cuja decisão beneficiava a colegiada, pela simples razão de que a paróquia "… Lordelo do Ouro ficar no campo, longe da cidade…".
Com este artifício, se beneficiava a Insigne (Colegiada de Cedofeita), transferindo-lhe as capelanias, que tinham associado um valor monetário importante e que o testamento atribuía à confraria.
Decorridos treze anos, o caso continuava sem uma resolução.
Porém, em 20 de Junho de 1869, o Governador Civil dá como extinta a Confraria do Senhor do Bonfim e Almas, na Igreja de Lordelo do Ouro, por já não ter irmãos que tomassem conta da sua administração.
Em 1888, a frontaria e as torres sineiras da igreja foram cobertas de azulejos, obra da já desaparecida Fábrica de Cerâmica de Massarelos. O corpo da igreja só viria a ser igualmente revestido em 1949, tendo sido ainda remodelado em 1982.
Até 1836, Lordelo do Ouro fazia parte do Julgado de Bouças, Comarca da Maia, Bispado do Porto e ficava "no campo, longe da cidade".
Antes, todo aquele território, fazia parte do couto de Santa Eulália ou Santa Ovala, doado por D. Afonso Henriques ao Mosteiro de Tarouca.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, Lordelo do Ouro é apresentada como uma freguesia do Julgado de Bouças, com quatro lugares (Ouro, Monte da Carreira, Eirado e Arrábida) e sete aldeias (Granja, Sobreira, Mazorra, Mouteira, Montideira, Serralves e Pinheiro).
Por sua vez, Lordelo do Ouro, no mesmo documento, apresentava-se com quatro capelas.
 
 
 

Descrição das capelas de Lordelo do Ouro nas Memórias Paroquiais de 1758
 
 

Os padroados particulares foram extintos após a revolução liberal durante o século XIX e os padroados estatais em Abril de 1911.


 

Igreja de São Martinho de Lordelo do Ouro, c. 1950

 

Em 1982, durante a execução de obras de remodelação e conservação, foram retirados os azulejos que cobriam as fachadas e torre do templo.


 
Capela de S. Francisco Xavier
 
 
A primeira capela de Lordelo do Ouro, referida nas Memórias Paroquiais de 1758 dizia-se, ficava situada no sopé do Monte da Carreira, junto da ponte que fazia parte do traçado da Estrada de Matosinhos, e era propriedade particular do padre Manuel Pereira Godins.
A referida capela situar-se-ia na actual Rua de Serralves, na margem direita da ribeira da Granja, um pouco depois de passar pelo entroncamento com a actual Travessa da Mouteira, e após a transposição de uma ponte de cantaria e respectivo arco, que permitia o atravessamento da tal ribeira, vinda dos lados da Prelada e que desagua, no Ouro, no actual Largo António Calém.
Actualmente, em grande parte do seu trajecto, a ponte está entubada.
A Rua de Serralves, antes, era um antigo caminho rústico que ligava a igreja de S. Martinho de Lordelo do Ouro à Fonte da Moura, onde um padrão assinalava o termo de Lordelo e o começo de Aldoar (ambas pertencentes, então, ao concelho de Bouças, hoje, Matosinhos) e, continuando pela Rua da Vilarinha se chegava ao Lugar de Matosinhos.
 
 
 
 
Hospício (Brévia) e Capela de S. Francisco de Paula
 
 
Junto da capela do padre Godins, quem se vai instalar, em 1780, são os membros de uma ordem religiosa, conhecida como os Mínimos.
Ainda antes do século XVIII, o local faria parte da Quinta de Cima ou Quinta de Cima da Ponte ou, ainda, Quinta da Ponte. 
A Ordem dos Mínimos é uma ordem religiosa mendicante católica fundada no século XV por São Francisco de Paula (italiano, canonizado em 1519).
Os Mínimos, que passaram a mendigar pela cidade, tinham a sua sede na Pampulha, na actual freguesia da Estrela, em Lisboa e por cá se instalaram num hospício que funcionava como brévia, isto é, local de repouso e a capela existente ficou a servir a ordem, mas tendo por orago São Francisco de Paula.
Julga-se que a ordem abandonou as instalações no Monte da Carreira, a quando da 2.ª invasão napoleónica, em 1809.
Assim, quando o local foi, durante as lutas do Cerco do Porto, em 1833/34, um palco importante, os mínimos há muito que tinham abandonado o local.
Após as destruições provenientes das vicissitudes da guerra civil, em 1834, a Fazenda Nacional vendeu a propriedade a João Eduardo de Brito e Cunha.
Entre 1878 e 1880, nas instalações referidas funcionou a Associação Lusitana e, posteriormente, tomou posse delas, José da Silva Monteiro, um negociante e capitalista, dono de uma fábrica de moagem.
A partir de 1901, aparece como proprietário José Joaquim Gouveia, armador de navios bacalhoeiros e dono de uma seca de bacalhau.
Aí viveu, durante anos, a família Gouveia num palacete pegado à antiga brévia.
Por isso, a capela também passou a ser designada por Capela do Gouveia.
 
 
 

Ruínas da Capela do Gouveia e Hospício anexo, na Rua de Serralves, em 2014 – Fonte: Google maps


 
 
Capela do Gouveia e Hospício, anexo, em 2026 - Ed. Graça Correia



Em meados de 2026, pode observar-se pela foto anterior, que o complexo da capela e edifícios anexos continuam a ser alvo de obras de recuperação, que tiveram início há cerca de seis anos.


 
 
Fábrica de Lanifícios de Lordelo ou Fábrica de Serralves
 
 
 
No lado poente da Estrada de Matosinhos, precisamente no mesmo local, desde 1803, passou a funcionar uma fábrica têxtil.
Rua de Serralves que, antes, era um antigo caminho rústico que ligava a igreja de S. Martinho de Lordelo do Ouro à Fonte da Moura, onde um padrão assinalava o termo de Lordelo e o começo de Aldoar (ambas pertencentes, então, ao concelho de Bouças) e, continuando pela Rua da Vilarinha se chegava ao Lugar de Matosinhos.
A unidade fabril foi edificada, na aldeia da Mouteira, em terrenos da serventia dos vizinhos frades Minímos, por Plácido Lino dos Santos Teixeira, que vivia nas próprias instalações da fábrica, no 1.º andar.
O convento ter-se-á situado, portanto, no lado nascente da rua.
Em 1832, durante o cerco do Porto, a fábrica encerra, sendo ocupada pelas tropas de D. Miguel, após serem desalojadas do seu reduto na vizinha Pasteleira.
Tudo aponta para que o célebre Forte de Serralves tenha ocupado o seu lugar junto do reservatório de água da fábrica.
No fim do conflito fratricida, a Fábrica de Lanifícios de Lordelo estava destruída e seria tomada por um incêndio
A sua actividade industrial viria, apenas, a ser retomada em 1852, numa nova unidade industrial, que nasceu sobre os escombros da anterior, com a sociedade Garcia & Barbedo e, em 1853, passou a ser uma sociedade anónima com o nome “Companhia de Lanifícios de Lordelo”.
Durante todo o século XIX, a unidade industrial era popularmente conhecida por Fábrica dos Panos.
Em 1918, já sob o comando do industrial e capitalista Thomaz José Rosas, a fábrica é ampliada, com a introdução de novos teares e as instalações beneficiadas com refeitório e balneários.
A fachada foi toda alterada e, ao centro, foi dotada com um relógio.
 
 
 

Fábrica de Lanifícios de Lordelo, c. 1918
 
 
 
A Fábrica de Lanifícios de Lordelo funcionou durante grande parte do século XX, mas a sua actividade industrial principal cessou definitivamente durante meados da década de 1980.

 
 

Entrada da Fábrica de Lanifícios de Lordelo e o seu relógio – Cortesia de Joaquim Morais Oliveira

 
 
 

Interior da Fábrica de Lanifícios de Lordelo
 
 
 
Durante a década de 2010, as instalações fabris, há muito abandonadas e em ruínas, começaram a ser reabilitadas e convertidas num empreendimento residencial.
 
 
 

Instalações recuperadas da Fábrica de Lanifícios de Lordelo e complexo habitacional adjacente – Cortesia de José Magalhães



Derrocada de parte do edifício primitivo da antiga Fábrica de Serralves - Ed. Graça Correia



Pela foto acima, em 2026, podia ainda observar-se, que parte do edifício primitivo da antiga fábrica, que em tempos ostentava um relógio, colapsou em virtude do abatimento do encanamento sub-terrâneo que suportava o terreno por cima do leito da ribeira da Granja.
Com os factos a ocorrerem há cerca de dois anos, presume-se que estejam a ser tomadas as decisões mais correctas.

 
 

Abatimento do canal, junto das instalações preservadas da antiga Fábrica dos Panos, por onde passa a ribeira da Granja – Ed. Graça Correia