sábado, 8 de maio de 2021

25.122 Foz do rio Douro - dos Alviçareiros à Telegrafia

 

No Monte da Senhora da Luz, na Foz do Douro, estiveram instaladas a Ermida da Senhora da Luz, o Farol da Senhora da Luz e diversas Estações Telegráficas.
A Ermida da Senhora da Luz, à qual começaram por se dirigir os romeiros para reclamar a benção daquela padroeira, era de construção muito antiga e muito anterior a todas as outras estruturas levantadas naquele local.
Um farol primitivo já existiria no dealbar do século XVII, mantido pela confraria da Senhora da Luz que administrava a referida ermida.
Em 1 de Fevereiro de 1758, por alvará do Marquês de Pombal, é ordenada a construção de um farol, devido às dificuldades da entrada da Barra do Douro. Em 1761, estava já construído e dotado de estruturas para ser considerado um farol. 
No que à transmissão de mensagens à distância diz respeito, naquele monte, com observação ampla e privilegiada, começou por existir uma estação semafórica de persianas que, desde sempre, assim como o farol aí existente, tinha um funcionamento resultante de uma colaboração entre os mercadores do Porto e a confraria aí estabelecida.
Por algumas, poucas, gravuras existentes da primeira metade do século XIX, a estação telegráfica seria do tipo óptico e, possivelmente, de concepção baseada nos projectos de Francisco António Ciera (1763-1814), pioneiro da telegrafia portuguesa e grande impulsionador da cartografia do território nacional.
O seu modelo, de 1809, ficou conhecido por “telégrafo de 3 postigos” ou “telégrafo de 3 persianas” e, ainda, por “telégrafo de palhetas” ou “telégrafo de Ciera”
A par da estação telegráfica do Monte da Luz, uma outra do mesmo tipo existiu no Monte da Lapa, parecendo ter desempenhado um importante papel durante as invasões francesas e, também, durante o cerco do Porto.
Teria encerrado em Março de 1859, passando as comunicações telegráficas a ser praticadas pelo sistema eléctrico.
No caso das que ligavam a Chaves, passaram a ter origem na Casa Pia, à Praça da Batalha e, daí, para Valongo, continuando pelos "cabos aéreos".
 
 
Estação Telégráfica (torre cilíndrica). Antigo moinho de vento, no Monte da Lapa

 
 
As mesmas instalações da foto anterior – Desenho de Gouvêa Portuense
 
 
 
Maquete de “Telégrafo de Ciera” ou “Telégrafo de Palhetas”
 
 
A comunicação entre as embarcações que ao Porto vinham comercializar e que sulcavam o rio Douro, e algumas estações situadas nas margens, tinha exemplificação, desde o século XVIII, na Rua da Bandeirinha que, assim se chamava, por ostentar, por vezes, num mastro colocado junto do chamado Palácio das Sereias, uma bandeira – a Bandeirinha da Saúde.
Assim, quando um barco entrava no rio Douro e via, no tal mastro, ser içada uma bandeira, teria que estacionar no meio do rio, em frente a esse local, e esperar a visita efectuada pelos guardas-mores da saúde, para fazerem uma inspecção sanitária – eram tempos de peste.
Antes, em pleno século XVII, os guardas-mores estacionavam na Casa de Degredo de Vale de Amores, sob a égide dos frades capuchos do convento de Santo António de Vale da Piedade e, posteriormente, no Lazareto, situado mais a poente, no local que hoje fica, entre a igreja nova da Afurada e a Casa dos Pescadores.
Naqueles tempos, era também de primordial importância a comunicação entre terra e os barcos, para o rápido conhecimento pelos negociantes, cujas casas comerciais se localizavam na Rua dos Ingleses (actual Rua do Infante D. Henrique) e nas suas imediações, da chegada das embarcações que lhes eram destinadas.
Assim, a Associação Comercial do Porto, com existência desde 1834, em Assembleia Geral de 14 de Janeiro de 1835, decide instalar um telégrafo óptico, utilizando bandeiras e com recurso também, a monóculos.
Até aí, a informação chegava por intermédio dos “alviçareiros”, que calcorreando ruas e ruelas, levavam as informações aos seus destinatários.
O telégrafo óptico foi instalado em Março, daquele ano, no Castelo da Foz, sendo, depois, transferido em 1836, para o Monte da Luz, para junto do farol, aí existente, quase há dois séculos.
 
 
 
Castelo da Foz com a sua Ermida de São João da Foz (visível a cúpula) e, em primeiro plano, o Farol-capela de S. Miguel-o-Anjo – Fonte: Gravura (1790), a água-forte, de Manoel Marques de Aguilar
 
 
 
 
Durante o processo de instalação do telégrafo óptico, no Monte da Luz, a obra seria embargada pela Câmara Municipal da Foz (S. João da Foz teve uma efémera passagem a concelho entre 1834 e 1837) em virtude de, a mesma, poder vir a colidir com a reconstrução futura, da antiga ermida que se encontrava em ruínas, muito por acção dos bombardeamentos do exército miguelista, durante o cerco de 1833.
Na verdade, este ponto estratégico, durante o conflito, foi um ponto importante de apoio ao exército liberal, pelo controlo que a partir dele podia ser exercido sobre a baía natural que se formava, a poucos metros dali, na chamada praia de Carreiros que, hoje, tem uma existência artificial, após a construção do molhe de Carreiros.
Resolvido o diferendo, a instalação do telégrafo avançou. No entanto, a ermida nunca mais veria a luz do dia, sendo completamente demolida.
O serviço telegráfico, em si, era baseado num código de sinais envolvendo umas bandeiras colocadas estrategicamente num poste, no Monte da Luz. Por sua vez, os armadores fundeados ao largo da costa, esperando as ordens vindas de terra, correspondiam-se com a Estação do Monte da Luz através de bandeiras içadas em locais específicos, dos respectivos mastros, obedecendo aos códigos em uso naquelas épocas.
A retransmissão era assegurada e tinha continuidade num mastro colocado numa torre da Catedral da Sé, a que se seguia o reencaminhamento da comunicação da informação para a sede da Associação Comercial do Porto, junto da Rua dos Ingleses.
Note-se que, em 1835, ainda não existia o Palácio da Bolsa, sede da Associação Comercial do Porto que, provisoriamente, ocupava umas instalações precárias, nas ruínas do convento, anexas à Igreja de S. Francisco, onde viria a ser construído o Palácio da Bolsa ou Praça do Comércio.
 
 
 
Farol do Monte da Luz e, junto, a habitação dos faroleiros, em 1833 – Ed. J. Villanova
 
 
Na gravura acima, de J. Villanova, observa-se um telégrafo óptico de persianas, cuja posição relativa delas determinava, com base num código pré-estabelecido, o teor da mensagem a enviar e, na prova fotográfica, abaixo, observa-se o mesmo telégrafo, coexistindo com aquele que passou a estar sob a alçada da Associação Comercial do Porto, em mastro, à direita.
Neste, as bandeiras colocadas em posições estratégicas determinavam a mensagem.
 
 
 
Monte da Senhora da Luz, observando-se em 1858, à esquerda, uma estação semafórica de persianas e, à direita, aquela que era afecta à Associação Comercial do Porto – Prova em papel salgado a partir de um calótipo de Frederick William Flower
 
 
 
Sobre o primitivo telegrafo óptico existente no Monte da Luz, presente nas duas gravuras (de épocas diferentes) anteriores, se deve ter referido Ramalho Ortigão, no texto seguinte, identificando-o por “aparelho de taboinhas”.
 
 
“Tinham [os banhistas] os seus passeios favoritos: ao farol da Senhora da Luz, onde o faroleiro deixava olhar pelo oculo para os velhos telegraphos, cujo apparelho de taboinhas, armado no viso dos montes, parecia espreguiçar-se e bocejar as noticias no azul do espaço.”
Ramalho Ortigão - In “As praias de Portugal: guia do banhista e do viajante”, 1876, p. 24
 
 
 
“Em 1839, devido à oposição do Cabido da Sé, o mastro instalado na Catedral seria transferido para o local do antigo castelo de Gaia, por este ser «o ponto mais culminante entre a Luz e o Edifício d’esta Associação», segundo o relatório de 1839.
Em 1852, inicia-se a construção de um novo posto semafórico, na Cantareira, adossado à capela de S. Miguel-o-Anjo, e é adquirido um telescópio para a estação da Luz”.
Cortesia de Carolina Furtado, mestre em História da Arte pela FLUP
 
 
 
Gravura (1849) do Morro do Castelo de Gaia ou Morro do Candal, em 1849 – Gravura de  Cesário Augusto Pinto (1825-1896),  In “As margens do Douro” (collecção de doze vistas)
 
 
Em V. N. de Gaia, na Afurada de Cima, a partir de 1845, viria a ser instalada uma outra estação semafórica, na margem esquerda do rio Douro.
 
 
“A Associação Comercial do Porto adquiriu em Outubro de 1845 por 700$000 (setecentos mil reis) um terreno na Afurada de Cima para construir em Gaia um edifício com torre, uma moderna e prestável Estação Semafórica.
O Padre Manuel Romero Vila, que dedicou muita atenção ao estudo desta Estação, cujo edifício ainda existe, por se ter conseguido evitar o seu desaparecimento por ocasião das obras de urbanização e rodoviárias relacionadas e próximas da ponte da Arrábida. A construção é constituída por uma habitação onde vivia a família, cujo chefe desempenhava as funções de vigia e sinaleiro. Anexo à casa encontra-se uma torre oitavada, em cujo topo o sinaleiro expunha os sinais transmitidos da estação da Foz do Douro, com as cores da bandeira da nacionalidade dos navios que chegavam à vista de terra.
As cores eram dispostas como gomos de laranja em disco de ferro colocado no topo da torre. Pessoas colocadas no largo da Sé, cais dos Banhos ou muro da Reboleira conseguiam ver com o auxílio de óculo a imagem e apressavam-se a informar os negociantes das cargas e os agentes consignatários dos navios, que acabavam de chegar à barra.
O padre Romero recordava a forma incorrecta como o povo local se referia ao Telégrafo. Popularmente designado por “Taléfe”.”
Fonte: Rui Amaro (“naviosavista.blogspot.com/”)

 
 
Estação semafórica do Alto da Afurada, em 2000 – Ed. F. Cabral, In “naviosavista.blogspot.com/”
 
 
 
Estação Semafórica e Telegráfica (torre) da Cantareira, em 1900, cuja construção começou em 1852, no chamado Cais do Marégrafo
 
 
Na reprodução do postal, acima, observa-se a Estação Semafórica e Telegráfica da Cantareira (torre), adossada a esta, a Estação de Pilotos e Casa da Alfândega e ainda, a Ermida/farol de S. Miguel-o-Anjo (abóbada branca). À esquerda do edificado vê-se um obelisco branco.
A abóbada da ermida e o obelisco serviam de marcas do enfiamento da barra do Douro.
 

 
Cais do Marégrafo, actualmente, sendo visível, em primeiro plano, o farolim da Cantareira (desactivado) e que prestou serviço, a partir de 1915
 
 
Em 1856, seria decidido abandonar o telégrafo óptico e a Associação Comercial do Porto passaria a usar o telégrafo eléctrico com o sistema Breguet, ligando a sua sede com os postos da Senhora da Luz e da Cantareira.
 
 
 
Telégrafo Eléctrico (sistema Breguet)
 
 
Ficavam, assim, ultrapassadas as dificuldades de comunicação após o pôr-do-sol, e em situações de nevoeiro ou neblina.
A partir da década de 1870, passariam a coexistir dois telégrafos eléctricos, no Monte da Luz: um, pertencente à Associação Comercial do Porto e, outro, propriedade do Estado.
Em 1880, a Associação Comercial do Porto abandona o sistema Breguet e substitui-o pelo sistema Morse, já então em vigor no país e adoptado internacionalmente.
O sistema Morse que teria como sucessor, em 1885, o sistema telefónico, manteve-se, contudo, em funcionamento, até ao início da década de 1960, na dependência da Associação Comercial do Porto (edifício da Bolsa).
 
 
Telégrafo Morse
 
 
 
No processo de conhecimento antecipado da informação de chegada dos navios aos cais do rio Douro e do interesse em generalizar a dita informação, nos dá conta o texto seguinte:
 
 
“Não havia mercador do Porto que não tivesse negócios com a Inglaterra. O vapor da Mala Real Inglesa, que trazia as encomendas e as letras de câmbio para pagamentos de anteriores fornecimentos, vinha ao Douro uma vez por mês. A fim de estarem preparados para receber atempadamente as letras e despacharem novas encomendas, os comerciantes arranjaram maneira de saber, de véspera, da chegada do barco. Pelo telégrafo, ainda do alto mar, os do vapor comunicavam à Associação Comercial o dia previsto para a entrada na barra. A Associação fazia chegar a mensagem à Irmandade dos Clérigos que mandava içar na torre uma vara com duas bandeiras nas pontas. Era o sinal da aproximação do barco. Tempo de tratar dos negócios”.
Cortesia de Germano Silva
 
 
 
Em 1887, começa um processo de renovação das instalações no Monte da Luz, para o qual foi reclamada a colaboração do Estado, na cedência de parte das suas instalações, mormente, do mastro de comunicações que lhe era afecto.
Aliás, desde há mais de 10 anos, que o Estado pretendia apoderar-se do telégrafo da Associação Comercial do Porto e, assim, das respectivas instalações, o que não viria a conseguir.
 
 
 
“De planta quadrangular e três pisos, o edifício apresenta algumas caraterísticas da habitação portuense oitocentista, nomeadamente quanto à organização da fachada principal. Esta possui três vãos por piso, com molduras simples em cantaria.
O edifício termina num terraço, que tinha a função de observatório da costa.
Em 1891, a rede telegráfica da Associação Comercial do Porto é prolongada até Leixões, cujo porto artificial, em construção desde 1884, era já frequentado por um número elevado de embarcações.
Também aqui a Associação irá construir um posto semafórico para comunicar com os navios, à semelhança do que, há largos anos, era prática no Monte da Luz.”
Cortesia de Carolina Furtado, mestre em História da Arte pela FLUP
 
 

À direita, parcialmente visível, o edifício construído em 1887, pela Associação Comercial do Porto para instalação do telégrafo – Ed. JPortojo
 
 
 
Posto semafórico (1908), construído em 1891, em Leça da Palmeira, pela Associação Comercial do Porto
 
 
As estações atrás referidas comunicavam, então, a chegada dos navios às autoridades marítimo-portuárias, particularmente aos pilotos da barra, aos agentes de navegação, à Associação Comercial do Porto, etc.
 
 
 
Telégrafo do Palácio da Bolsa, em exposição
 
 
 
Durante grande parte do século XX, a Estação do Monte da Luz continuou a ser usada para perscrutar o horizonte, apesar de todas das novas tecnologias que iam surgindo, colaborando com outros postos de vigia existentes.


 
Torre de vigia da Estação Telegráfica do Monte da Luz – Ed. JPortojo

sexta-feira, 30 de abril de 2021

25.121 Dois colégios do século XIX com história

 
 
 
Este colégio que chegou a ter cerca de 100 alunos, alguns deles em regime de internato, esteve na Rua dos Pelames, à esquerda de quem entra, vindo da Rua do Corpo da Guarda, num prédio de quatro andares.
Foi fundado, em 1821, por José Álvares de Almeida Guimarães, um antigo capitão de milícias e, depois, professor, que tinha como auxiliares o seu filho natural (filho de pais não casados) Gustavo Adolfo e um sacerdote, o padre Domingos.
O Gustavo Adolfo era um antigo aluno do colégio de seu pai, um bom estudante que tinha aprendido com os mestres o Latim, o Francês e noções de Comércio.
Dizem documentos da primeira metade do século XIX, que a disciplina de Latim esteve entregue ao padre Francisco, a de Inglês ao professor Narciso, as de Francês, Comércio, Geografia e Geometria, ao professor José Fernandes Ribeiro, que para lá entrara em 1841.
Este mestre foi entre os anos de 1834 e 1844, também docente numa escola de meninas existente na Rua de Cedofeita e esquina da Rua do Mirante, o Colégio Portuense de Ensino Mútuo, cuja directora era D. Ana Miquelina de Jesus.
José Álvares de Almeida Guimarães, após 30 anos como professor, viria a falecer em 1851, tendo sido sepultado no cemitério da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, do qual era irmão.
Dos muitos alunos que passaram pelo colégio, por si fundado, destaca-se aquele que veio a ser o poeta Soares de Passos, que concluiria em 1840, lá, os seus primeiros estudos.
O filho natural do fundador do colégio, Gustavo Adolfo, à data do falecimento de seu pai, tinha 18 anos e, na sequência da decisão da família do defunto de dar um fim ao colégio, resolveu, por vontade própria, estabelecer-se num outro prédio vizinho, na Calçada do Corpo da Guarda, onde daria continuidade, com a ajuda do padre Domingos, que tinha estado também ao lado do seu pai, ao colégio que este tinha fundado.
Este colégio também não iria sobreviver à morte do seu fundador.

 
 
O Colégio do Corpo da Guarda esteve no primeiro prédio (à direita), na esquina da Rua dos Pelames com a Rua do Corpo da Guarda – Fonte: Google maps
 
 
 
 
 

Entre a Travessa de Cedofeita e o Teatro Carlos Alberto, em plena Rua das Oliveiras, esteve estabelecido durante alguns anos, na transição de séculos, o conceituado colégio Barbosa da Gama, fundado por José Pereira Barbosa da Gama.
Antes, em meados do século XIX, aqui vivia o escrivão da Relação do Porto, Adriano Augusto da Silva Pereira.
Os alunos que por lá tinham passado, no início do século XX, recordavam algumas dezenas de anos depois, as sessões de ensaios musicais ocorridas no vizinho Teatro Carlos Alberto e a passagem do “Americano” vindo dos lados de Paranhos e que se dirigia para o Carmo, onde terminava a sua marcha, em frente à igreja.
Foram professores no colégio o seu fundador, Barbosa da Gama e, ainda, Belchior Fortunato Leorne, Luís Adelino Lopes da Cruz e, entre outros, também, Alfredo Ferreira de Faria o fundador da revista “O Tripeiro” como professor da disciplina de Comércio.
Em 1902, a mensalidade era, para alguns alunos, de três tostões.

 
 
Em 29 de Setembro de 1895, o Jornal ”A Voz Pública” dava conta da morada do Colégio Barbosa Gama


 
A elipse preta identifica o local em que estava o Colégio Barbosa Gama, quase em frente do local primitivo da Fonte da Rua das Oliveiras, que seria transladada mais para Norte e que, hoje, ainda existe
 
 
 
Prédio onde esteve o colégio Barbosa da Gama - Fonte: Google maps
 
 
 
Nota (simulando dinheiro verdadeiro) usada nas aulas de Contabilidade do colégio Barbosa da Gama


Em Agosto de 1908, em Vila do Conde, os alunos, a banhos,  do colégio Barbosa da Gama interpretaram com êxito a peça teatral “A Ceia dos Cardeais”, do escritor Júlio Dantas, que foi dada à estampa em 1902, levada à cena no Teatro Afonso Sanches, o que permite fazer uma ideia da formação académica daquela comunidade escolar.

 
 
Teatro Afonso Sanches, na Avenida Dr. Artur Cunha Araújo, em Vila do Conde, e aberto ao público no verão de 1900
 
 
Aliás, Barbosa da Gama tinha uma ligação a Vila do Conde, local onde tinha uma casa adquirida em partilhas da família Cirne, por morte de D. Mariana Augusta da Silva Freitas de Meneses Cirne e Sousa (1846-1903), proprietária também da “Casa da Fábrica”, na Rua da Fábrica.
Essa casa, onde a família Cirne durante muitos anos passava férias, tinha sido adquirida ao proprietário inicial e autor da sua construção, o accionista e Director do Banco do Minho, José da Conceição Rocha que se viu obrigado a vendê-la, em virtude da falência daquele banco.

 
 
Chalet, em Vila do Conde, usado pelos alunos, a banhos, do colégio Barbosa da Gama, – Fonte: Cliché de J. Adriano, In “Commércio de Villa do Conde”, nº 106, 1909
 
 
 
Em 1909, José Pereira Barbosa da Gama, solicitava à Câmara do Porto, na qualidade de proprietário do edifício, uma licença para a construção de um barracão, no quintal da escola, para aulas de ginástica e que obteve a licença de obra, nº 1347/1909.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

25.120 Viela do Açougue

 
A antiga Viela do Açougue (actual Travessa de Cedofeita), um arruamento que faz a ligação entre a confluência das ruas das Oliveiras, da Conceição e dos Mártires da Liberdade com a Rua de Cedofeita, ficou a dever o seu nome à existência na zona de um matadouro, que servia toda a área envolvente, nomeadamente, a comunidade escolar que se localizava perto, na Praça dos Voluntários da Rainha (Praça dos Leões).
A Travessa de Cedofeita na Planta Redonda de Balck (1813), na planta seguinte, poucos prédios apresentava.
Do lado Sul, só se viam casas nas entradas; e, do Norte, apenas se viam uns quatro prédios de rés-do-chão, como se pode observar na gravura abaixo e, na qual, a Travessa de Cedofeita está envolvida pela elipse a azul.
 
 


 
 
Na planta abaixo, de Perry Vidal (1844), na qual a Travessa de Cedofeita continua a ser envolvida por uma elipse azul, verificava-se que a situação do edificado não tinha tido grande incremento. 






 
 
 
Em meados do século XIX os prédios das extremidades da travessa já tinham passado a ser de dois andares.
A que faz frente com a Rua das Oliveiras foi construída em 1850, e, por não ter a sua construção recuado uns metros, como chegou a ser sugerido, veio a condicionar a largura de toda a travessa para sempre.
Tudo se ficou a dever às influências movidas pelo seu proprietário, um padeiro, tendo o prédio, que passou a albergar uma padaria, sido construído sobre os alicerces dumas casas já existentes e no mesmo alinhamento.
 
 
 
Prédio que comprometeu o alargamento da Travessa de Cedofeita - Fonte: Google maps
 
 
Nessa época e pelo lado sul da travessa, apresentavam-se uma série de fornos de padaria e alguns sapateiros em prédios de rés-do-chão.
Na esquina com a Rua de Cedofeita estava uma mercearia e, depois, esteve, durante dezenas de anos, uma filial da “Singer”, uma marca de máquinas de costura.
Na esquina a norte deste entroncamento estava no início do século XX uma loja de ferragens que foi substituída por uma loja de sementes durante muitos anos.
Pelo lado norte da travessa seguia-se uma loja de pentes, o penteeiro Fonseca, uma doçaria, um marceneiro e um sapateiro.

 
 
Travessa de Cedofeita - Fonte: Google maps


Na esquina com a fachada (à direita) voltada para a antiga Rua do Coronel Pacheco (actualmente, o Largo Alberto Pimentel), num prédio de dois andares (na foto acima), habitava o Dr. Bento de Freitas Ribeiro de Faria.


 
Anúncio ao consultório médico que o Dr. Bento de Faria dividia, em Vizela, com o seu irmão, inserido no jornal “O Commércio do Porto” de 22 de Julho de 1905
 
 
 
No prédio da foto acima, mas voltado para a Travessa de Cedofeita, morou o cidadão Domingos Ribeiro Braga.
Aqui faleceu, em 1907, o Dr. Adriano de Paiva de Faria de Leite Brandão, conde de Campo-Bello e distinto professor da Politécnica, com início da carreira na cadeira de Química, tendo transitado, depois, para a de Física, casado com uma sua prima, Gertrudes Emília Leite Pereira do Outeiro de Melo e Alvim de Noronha e Távora e Cernache.
O 1º conde de Campo-Bello haveria de ser conhecido na sua actividade académica, por em tempos de divulgação pela imprensa de notícias sobre a invenção do telefone, por Alexandre Graham Bell, ter considerado a possibilidade de, do mesmo modo que era possível transmitir sons à distância, transmitir também imagens animadas.
Embora a ideia não fosse inédita, a originalidade da sua teoria residia no facto de ter sido o primeiro a propor o uso de selênio no desenvolvimento do que denominou como um sistema de "telescopia eléctrica".
Então, em sequência, publicou um estudo teórico a esse respeito na revista científica "O Instituto", de Coimbra, em 1878.
Neste prédio seriam instalados, por muitos anos, os Tribunais de Penas e Falências e, antes, uma das mais categorizadas modistas portuenses, a D. Isaura Pinheiro.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

25.119 Passeando nas cercanias da Ramada Alta

 1. Do Monte Cativo às Águas Férreas
 
(O texto que se segue, relativo ao percurso acima referido é, em grande parte, baseado no Blogue “ A Vida em Fotos” e uma homenagem à memória daquele que foi o seu administrador - JPortojo)
 
O perímetro Marquês, Antero de Quental, Serpa Pinto e Constituição e para Sul entre S. Brás e Monte Cativo, está todo alterado de há uns anos a esta parte com novas ruas e zonas habitacionais.



Rua Damião de Góis – Ed. JPortojo

 
Seguindo pela Rua Damião de Góis (a nova ligação que une as ruas de João Pedro Ribeiro e Egas Moniz) na direcção do Marquês e metendo à direita, entramos na Rua Alves Redol.
 
 

Um olhar sobre a cidade com o mar à direita – Ed. JPortojo


 

O alto das novas zonas residenciais – Ed. JPortojo


 

Centro Cultural dos trabalhadores da CMP – Ed. JPortojo
 
 
O edifício da foto é actualmente o Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da C. M. do Porto. Estamos no velho Monte Cativo.
Por aqui, ainda no fim do século XIX e início do século XX, estava sedeado o Clube de Caçadores.


 

A sede do Clube de Caçadores

 
O postal anterior apresenta a sede do Clube de Caçadores ao Monte Cativo.


 

Clube de Caçadores em 1909, durante visita de D. Manuel II




Monte Cativo que é topónimo muito antigo:

“Era um dos limites do couto do Porto, mencionados na carta da rainha D. Teresa, de 1120; «...até ao monte que chamam Pé de Mula, assim pelo Monte Cativis, assim como divide Cedofeita com Germinade...». Pelo menos até ao século XVII manteve esta forma alatinada de Monte Cativis com que figura nos registos paroquiais, designadamente num assento de 1682”.
Assim refere Eugénio Andrea de Cunha e Freitas.
 
Segundo a Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora, Germinade vem do latim Germinati e tem a variante Germalde. 
Germalde é hoje o Monte da Lapa.
 
 

A antiga Tutoria vista do Monte Cativo – Ed. JPortojo


 
Ali próximo, entroncamos com a Rua do Monte Cativo que ainda vem da Rua da Constituição, mas é pelas Escadas do Monte que nos deslocamos (situada em frente ao referido Centro Cultural). Com uma vista por sobre a antiga Tutoria até à Rua da Boavista.


 

Escadas do Monte Cativo e Fontanário na Rua do Melo – Ed. JPortojo


 

Atravessando a Rua do Melo temos o antigo Palacete dos Sousa Melo e a propriedade por onde esteve  a velha Tutoria – Ed. JPortojo
 
 
As Tutorias da Infância foram criadas em 1911 por Alberto de Sousa Costa, bacharel da Universidade de Coimbra mas é o padre António Oliveira que a convite de Afonso Costa elabora a lei publicada por Decreto de 27 de Maio de 1911. 
No entanto já em 1902 existia uma Casa de Correcção do Porto, mas no Convento de Santa Clara em Vila do Conde.
 
 

A Quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo
 
 
Presume-se que a ex-Tutoria está nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas ou Quinta de Santo António da Boavista, que em 1760, pertencia a Jo­sé de Sousa Melo. Após a morte deste herdou a propriedade um sobrinho de nome João de Mello e Sousa da Cunha Souto Mayor que viria a ser o 2º conde de Veiros, por via do seu casamento com a filha do 1º conde de Veiros e, daí, uma outra designação que se dava a esta propriedade - Quinta de Veiros




Quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo


 
Esta Quinta das Águas Férreas foi pertença de José de Sousa e Melo e assim chamada por ter lá existido uma fonte de água medicinal que se dizia ser medicinal de origem ferrosa.
Este senhor, para além de tesoureiro-geral da Alfândega do Porto foi Vice-provedor da Companhia Geral de Agricultura e Vinhas do Alto Douro, Administrador dos Correios do Porto, Inspector das Obras do Edifício da Academia da Marinha e Comércio, Vereador da Câmara do Porto e Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
A Quinta de Santo António da Boavista pas­sou por várias vicissitudes. Em 1809, aquan­do da segunda invasão francesa, serviu de re­sidência e de quartel-general do general in­glês Nicolau Trant que comandou as tropas anglo-lusas. Após a expulsão dos franceses do Porto, José de Sousa Melo voltou para a sua residência, mas só esteve até 1832, ano em que D. Pedro IV entrou na cidade à frente do Exército Libertador.
Sousa Melo que era mi­guelista saiu do Porto, indo refugiar-se numa propriedade que possuía na Régua. 
Abandonada pelo seu proprietário, a Quin­ta das Águas Férreas foi ocupada pelos libe­rais que nela montaram o paiol da pólvora, que seria mudado, logo a seguir, para a Quinta da Chi­na junto ao rio Douro. 
Na Quinta das Águas Férreas funcionou no seu arranque o Asilo de Mendicidade. Em 1861 foi lá instalado o Hospi­tal Militar e em 1857, funcionava lá, o célebre Colégio de Nossa Senhora da Guia. 
Por aqui existiu também a quinta chamada Quinta dos Tortulhos, que os liberais sequestraram em 1833 porque pertencia a José Joaquim Machado que lutou ao lado das tropas miguelistas. 
Outra grande propriedade destes sítios foi a Quinta dos Limoeiros, onde esteve instala­do o colégio Moderno, de raparigas, que para aqui veio das antigas e modestas instalações da Rua da Boavista. De alguns pontos desta quinta avistava-se, ao longe, o mar. 
 
 
 
 
Terrenos da antiga quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo

 
Vindo da Lapa à direita, um infantário fechado. Um novo infantário, está logo a seguir e incluído num núcleo residencial.
 
 
 

O Monte da Lapa ou Germalde – Ed. JPortojo

 
Na foto anterior, nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas, um olhar para o Monte da Lapa, com a sua Igreja construída de forma que fosse visível de qualquer local da cidade.
Atravessada a linha do Metro, encontramos o Conjunto Habitacional da Bouça.
 
 
 

Bairro da Bouça
 
 
Este Bairro da Bouça, na Quinta de Santo António, começou a ser projectado logo a seguir à revolução de Abril mas só foi completado 30 anos depois. A obra é de Siza Vieira.
 
 
Casa da Pedra – Ed. JPortojo
 
 
Em frente ao Bairro, na agora pequena Rua das Águas Férreas, encontramos a Casa da Pedra, propriedade particular, onde residiu o escritor Oliveira Martins enquanto dirigiu a construção do Caminho de Ferro da Póvoa e Famalicão.  Fez parte da Geração de 70, mais tarde "Os Vencidos da Vida".
“A Questão Coimbrã”  foi o tema. Aqui se reunia o Grupo dos 5 (Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins e Antero de Quental). 
Antero de Quental tinha na casa um quarto onde pernoitava muitas vezes, e onde tentou o suicídio pela primeira vez, tendo sido impedido pelo Oliveira Martins.
 
 
 

Marco toponímico – Ed. JPortojo
 
 
Na esquina da casa encontra-se ainda um antigo marco toponímico. 
A Rua das Águas Férreas vai dar à  Rua do Melo, que por sua vez se encontra com a Rua de Burgães e entronca, também, na ainda existente Rua de Salgueiros, que é hoje uma pequena parte do que foi outrora e, cuja continuação, é a nova Rua de Cervantes.
 
 
 
Imagem do Google da zona dos Montes Cativo e da Lapa – Fonte: JPortojo
 
 
 
 
 
 
Junto do fontanário, ao fundo das Escadas do Cativo, poderemos em alternativa, derivar para a Rua de Burgães e iremos sair umas centenas de metros à frente, à Ramada Alta. O topónimo Burgães, de provável origem francesa, significa arrabalde ou lugar pequeno junto a uma vila e aparece já, em 1715, referido em emprazamento feito à colegiada de Cedofeita.
Não se sabe ao certo a origem do topónimo Ramada Alta.
Sabe-se que, existiu aí uma quinta da família Barros Lima, denominada de Quinta da Ramada Alta, que nada tem a ver com um  Francisco José Barros Lima, que daria o nome a uma rua ao Bonfim.
José Pedro Barros de Lima, nasceu em Refóios do Lima, Ponte de Lima em 1790.
Morreu no Porto, na Quinta da Ramada Alta (Cedofeita), a 24/10/1847, com testamento feito na Rua 9 de Julho, a 5/10/1847.
José Pedro Barros de Lima era também exportador de vinhos, e como tal aparece já, em 1818, enviando vinho do Douro para a Bahia, e de novo em 1827, exportando 13 pipas de vinho para o Brasil.
Em 1834, é um dos subscritores da carta dos negociantes do Porto agradecen­do a D. Pedro IV a revogação dos privilégios da Companhia do Alto Douro.
A cons­trução de uma casa na “Quinta da Ramada Alta, Rua 9 de Julho”, da iniciativa de Barros Lima, ocorre em 1841, transferindo-se da anterior residência, na Rua de S. João.
Um dos filhos de José Pedro de Barros Lima, nascido em 1817, terá o mesmo nome de seu pai, mas fará a sua vida em Lisboa, onde seguiu a carreira política, tendo sido Governador Civil do Distrito de Castelo Branco (1860-1861), Par do Reino, e Conselheiro real.
Foi acionista da Companhia de Viação Portuense que teve, por decisão régia, o alvará da ligação terrestre do Porto a Braga.
 
 
 

Vista do Porto desde a Ramada Alta- Desenho de Cesário Augusto de Araújo Cardoso de Mendonça
 
 
 
No desenho acima temos uma vista da cidade, tomada do mirante da casa de José Pedro Barros Lima, na Ramada Alta. É a única gravura que conhecemos que mostra o Porto de Norte para Sul e longe do Douro. Lugar privilegiado em que aparece a Colegiada de Cedofeita (à direita) os Conventos de S. João Novo e de S. Bento da Vitória, a Igreja da Vitória, o Hospital de Santo António, a Torre dos Clérigos, a Igreja de S. Lourenço (Grilos e a Sé). Ao fundo, do lado esquerdo, parece ser a Serra do Pilar e, à direita a Capela de Santa Catarina.     
Ao Largo da Ramada Alta onde está uma capela no seu meio, vão dar, a Rua de Burgães, a Rua de Nossa Senhora de Fátima, a Rua 9 de Julho, a Rua de Serpa Pinto e a Rua de Barão Forrester.
A Rua de Nossa Senhora de Fátima foi em tempos a Rua das Valas. Nasceu de uma tortuosa e estreita Viela das Valas, que teve existência desde 1835 e que descia do lugar da Falperra, nome anterior da Ramada Alta, até ao sítio do Bom Sucesso.
O sítio das Valas já é referido em 1731, "defronte da capela do Bom Sucesso", num auto de vistoria e por isso não tem nada a ver com balas de lutas do Cerco do Porto acontecido só em 1832/33.
A Rua 9 de Julho que antes foi Rua da Ramada Alta, existe em memória do dia em 1932 em que D. Pedro IV passou por lá depois de desembarcado nas praias de Pampelido.
Antigamente ia-se para o Carvalhido (antes da abertura da Rua Oliveira Monteiro em 1868) pela actual Rua 9 de Julho.
A Rua Oliveira Monteiro ficou conhecida pela “Estrada do Carvalhido à Boavista”.
Aquando do levantamento da Praça da Boavista em 1872, depois de arranjos nas imediações dela, e da abertura da nova Rua de Oliveira Monteiro, a partir de 1877 surge a nova denominação de Rua das Valas, por edital camarário.
A partir de 20 de agosto de 1942 a Rua das Valas seria finalmente a Rua Nossa Senhora de Fátima.
No início do séc. XIX, a Falperra foi escolhida, por razões que se desconhecem, como bairro dos pescadores de Ovar que para aqui imigraram, bem como, para a Afurada e Ouro. Estes vareiros portuenses passaram a ser conhecidos como vareiros do Carvalhido e, a Falperra, englobando a Rua 9 de Julho era um bairro de mercadores de peixe e mariscos, que se organizavam em ranchos como devotos do Senhor da Pedra quando se deslocavam à romaria gaiense.
A Rua 9 de Julho ao chegar ao Carvalhido apresenta um cruzeiro chamado, o Senhor do Padrão, paragem de caminhantes que demandavam Viana ou a Maia.
 
 
 

Senhor do Padrão com Praça do Exército Libertador (Carvalhido), ao fundo

 

Carvalhido, em 1930
 
 
 
Por outro lado, a Rua Barão de Forrester, que até fins do século XIX foi continuação de Cedofeita, fazia parte do antigo Sítio do Ribeirinho, nome que tomo por aí passar um pequeno regato que corria ao longo de várias quintas: a Quinta das Águas Férreas dos Sousas e Melos, viscondes de Veiros; a Quinta da Pedra onde viveu no séc. XIX Oliveira Martins; a Quinta dos Tortulhos ocupada pelos liberais em 1833 ao miguelista José Joaquim Machado; a Quinta dos Limoeiros onde esteve o Colégio Moderno; e outras.
A magnífica casa do barão de Forrester perto da Ramada Alta foi, por sua vez, demolida há muitos anos, mas, em 1854 ainda era habitada pelo visconde da Trindade.

 
Quando habitei a casa na Ramada Alta actualmente ocupada pelo patriótico e filantropo (termo de que me sirvo-em lugar de ill.mo e exc.mo) visconde da Trindade, tinha um relógio de mesa muito lindo, de três e meio palmos de altura, sendo o assunto um preto segurando um cavalo bravo e fogoso. Quando saía da minha casa pela manhã, e voltava à noite, costumava sempre conferir o meu relógio de algibeira com aquele; mas aconteceu-me um dia, que, voltando a casa, dei pela falta do relógio, manga de vidro, preto, e cavalo branco, e até a própria chave. Em vão, pergunto a minha mulher, filhos e criados, pela falta; mas ninguem me podia esclarecer o negócio; porém tendo motivos de suspeitar de algumas pessoas, relacionadas com os criados, paguei, a cada um deles, um mês adiantado, e mostrei-lhes a porta. Foi justamente, Sr. Redactor, nesta ocasião que alguem me falou na bela organização do corpo dos ladrões na cidade do Porto, debaixo da autoridade do ladrão-mór a que acima me referi”.
Excerto da carta dirigida ao redactor do jornal Commercio pelo Barão de Forrester em 1854


 

Entrada da Quinta da Boa Vista


 
Na foto acima vemos a entrada da Quinta da Boa Vista que pertenceu ao Barão de Forrester e onde viveu, a alguns quilómetros da Galafura.
Há quem afirme que o Barão de Forrester teria vivido, também, no edifício do antigo Restaurante Comercial, situado na Rua do Infante D. Henrique.

 

Edifício Forrester/Restaurante Comercial
 
 

Interior do edifício Forrester com vista para o Palácio da Bolsa

 
Para o lado sul da Ramada Alta temos então a Rua Barão de Forrester. O Barão de Forrester, José James Forrester de seu nome, escocês, escritor, artista e viticultor, que tanto se notabilizou na expansão e propaganda do Douro e dos seus vinhos e que com quase 52 anos, morreu afogado no rio Douro, em Maio de 1861 no lugar do Cachão da Valeira.
 
“Nascido em 1809 em Inglaterra e falecido em 1861 num acidente de barco no fatídico Cachão da Valeira, em pleno Alto Douro, foi uma figura de destaque em todos os assuntos do vinho. Enquanto comerciante consagrou a reputação internacional dos vinhos da firma Offley Forrester, que ele próprio se encarregava de seleccionar criteriosamente na região demarcada. Como enófilo lutou pela preservação do carácter genuíno dos vinhos do Douro contra as adulterações tidas, à época, como inevitáveis e até desejáveis – combateu ferozmente as práticas de adicionar baga de Sabugueiro, como artifício para intensificar a cor, e (espante-se!) a aguardentação dos mostos, por considerar uma deturpação das naturais qualidades do vinho. À cartografia nacional legou o primeiro mapa da Região Demarcada do Douro. Como pintor, fotógrafo e aguarelista, deixou-nos imagens vibrantes da intensa vida burguesa do Porto de oitocentos”.
In blogue: webook
 
A sua morte, que muito impressionou o país, foi descrita assim, magistralmente, por Camilo Castelo Branco:
 
'' A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de Maio de 1861, é uma das mais notáveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os detractores dos seus vinhos. A família Ferreirinha da Régua, composta de dona Antónia Adelaide, de seu marido Silva Torres, o milionário, digno de o ser pela bizarria das suas generosidades, de sua filha e genro, condes da Azambuja, tinham ido, rio acima, à sua celebrada quinta do Vesúvio, e convidaram o barão de Forrester a passar uma semana em sua companhia. No dia 12, um alegre domingo, saíram todos do Vesúvio, na intenção de jantarem na Régua. O Douro tinha engrossado com a chuva de dois dias, e a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao ponto do Cachão, formidável sorvedouro em que a onda referve e redemoinha vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu de golpe e mergulhou no declive da catadupa.
O barão sofrera a pancada do mastro quando se lançava à corrente, nadando. Ainda fez algum esforço por apegar à margem; mas, fatigado de bracejar no teso da corrente ou aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns segundos de agonia e desapareceu. Salvaram-se os outros, não todos, com a protecção de uns barcos que aí estavam para recolher o despojo de outro naufrágio de um transporte de cereais. Livrou-se Torres, o futuro par do reino, agarrado a um barril de azeite, até que o recolheram a um dos barcos. Dona Antónia e o conde de Azambuja aferraram-se às dragas do barco. A condessa foi salva por um marinheiro. Um juiz de direito, Aragão Mascarenhas, agarrou-se à vara do barco rijamente, qual o temos sempre visto filado à vara da Justiça, em naufrágio de trapaças. Mas nem todos saíram com vida. Um criado de Torres foi logo tragado pela cachoeira; e, abraçada com a vela, já quando se lhe estendia um braço redentor, afogou-se uma criatura a quem os noticiaristas não deram a mínima importância. Pois foi uma perda insubstituível. Era a Gertrudes, um tesouro de jóias culinárias que a voragem engoliu...''.
 
Este desastre, pelas circunstâncias em que se deu (Dona Antónia Ferreirinha, que viajava com ele, e mais outras senhoras, salvaram-se graças ao fole das suas saias) e ainda, pelo facto de ter vitimado o Barão de Forrester, foi durante muito tempo motivo de estranhas e singulares versões, tanto mais que o seu cadáver nunca apareceu (dizia-se, na altura, que era usual o Barão carregar muitas moedas de ouro no forro de cabedal do seu largo cinto). Admitiram-se ou criaram-se lendas e fantasias à volta do sinistro Cachão do Douro e, no caso, chegou-se a conjecturar um crime. De tudo, porém, nada se averiguou e nada se provou...


 

Quinta do Vesúvio em foto de Emílio Biel no fim do século XIX


 
Quinta do Vesúvio
 
 
 

Cachão da Valeira
 
 
“O Barão de Forrester, radicado em Portugal, no Douro e na cidade do Porto, onde possuiu uma riquíssima moradia para as bandas da Ramada Alta, proprietário, produtor e comerciante, foi uma destacada figura da cidade do Porto, naquela época. Dedicou o seu tempo e saber procurando por todas as formas fazer acreditar e qualificar o Vinho do Porto. Entre 1843 e 1860 publicou vários trabalhos, escrevendo-os e ilustrando-os com excelentes desenhos, sobre o cultivo e a produção dos vinhos durienses. Os seus trabalhos “A crise comercial explica-se” e “A verdadeira causa da crise comercial do Porto” contribuíram grandemente para debelar o pânico e estimular as energias das gentes do Douro seriamente abaladas com o flagelo que devastou grande parte dos vinhedos, em 1859.
Ficaram famosos os seus mapas e notas, em “O país vinhateiro do Alto-Douro”, publicado em Português e Inglês e, mais tarde, reeditado pela Câmara dos Comuns, em Londres.
Na que tinha sido a sua casa apalaçada da Ramada Alta, mesmo depois de desaparecido, continuaram as famosas reuniões que, antes, ele organizava. A sua memória serviria, nessa altura, para oportunismos e negócios pouco claros, de tal modo que, em 1884, Camilo publicou algumas tremendas críticas àquelas reuniões, o que provocou um ruidoso escândalo devido à forma como ele tratava as gentes da Assembleia Portuense, os do Palheiro como os qualificou, que se serviam das memórias do falecido, para provarem e abusarem das libações do magnifico vinho, que tanto o Barão de Forrester procurou dignificar”.
Fonte: coisasdoarco-da-velha.blogspot.pt


 
Voltando ao lugar da Ramada Alta, a Rua de Serpa Pinto foi rasgada entre 1837 e 1844, a fim de ligar a Ramada Alta e o Matadouro Municipal.
O grande ex-libris do Largo da Ramada Alta é, todavia, sem dúvidas, a sua Capela do Senhor da Agonia que tem como orago o Senhor do Calvário. É um templo modesto que, em 1838, beneficiou de obras de restauro e ampliação, que foram financiadas tais como a edificação da torre sineira por um cidadão espanhol de nome António Miguel Garcia que tem o seu retrato pintado a óleo no interior da capela e uma lápide na frontaria. A Capela da Ramada Alta, como é conhecida, ficava num dos caminhos percorridos pelos romeiros que desde a Torre de Pedro Sem se dirigiam sobretudo às festas da Senhora da Hora, em Bouças (Matosinhos), depois de passarem por Ramalde.
Em 28 de Maio de 1907, D. Carlos concedeu-lhe o título de "Capela Real".

 

Capela do Senhor da Agonia, em 1960

 
Na foto acima a placa ajardinada atrás da capela já não existe, bem como o edifício ao fundo à direita.
A Ramada Alta foi ainda um posto de barreira para cobrança do “ Real de Água” desde 1836, quando o governo decidiu colocá-los em redor da cidade em locais estratégicos tais como Massarelos, Pena, Vilar, Bom Sucesso, Valas (Nossa Senhora de Fátima), Carvalhido, Águas Férreas, Salgueiros, Sério (Antero de Quental), Aguardente (Marquês), Congregados (Rua da Alegria), Doze Casas, S. Jerónimo (Santos Pousada), Bonfim, Corticeira, Campanhã e Guindais.

 
 

A Ramada Alta nos começos do século XX, vendo-se ao fundo à esquerda a igreja da Lapa – Fonte: JN