quarta-feira, 21 de novembro de 2018

(Conclusão)


Companhia Vinícola Portuguesa

Em 1899 são transferidos para Matosinhos os armazéns e oficinas da firma Meneres & Cª. com as instalações a serem ligadas ao comércio de vinho (a construção decorreu entre 1897 e 1901).
A empresa ficaria instalada numa área de 11 000 m2 no lugar do Prado (actual Matosinhos-Sul) em 15 meses, entre princípios de 1897 e meados de 1898, com entrada pela futura Avenida Meneres, que nessa altura, ainda não existia.
O chamado Prado de Matosinhos ou Campo da Junqueira, era uma vasta área plana onde tinha estado, até há alguns anos antes, um hipódromo, e por onde corria em direcção ao mar, a ribeira do Prado, que resultava da juncção de duas mais pequenas com nascentes e percursos distintos, chamadas de Carcavelos e da Riguinha, respectivamente.


Ribeira do Prado em 1900 – Ed. Emílio Biel


Planta de Matosinhos, de 1896, da autoria de Licínio Guimarães, no livro “A Indústria Conserveira em Matosinhos”, de Lopes Carneiro

A planta acima, foi obtida de blogue de José Magalhães que, por sua vez, obteve na sua obtenção, a colaboração do Dr. António Lage Almeida, Bibliotecário da BMFL – CMM, do Dr. Adriano Silva, Bibliotecário da BPMP, e do Dr. Albano Chaves.
Na planta pode observar-se o desenho do hipódromo do Campo da Junqueira.
A propósito da actividade desse hipódromo, O Tripeiro de 1972 (efemérides) noticiava:

“4 de Abril de 1872 – Corrida de cavalos e garranos no Campo da Junqueira, em frente a Matosinhos, organizado pelo Oporto Hunt Club”.

Nos terrenos daquele hipódromo, começaria o Football Club do Porto, de António Nicolau de Almeida, em 1893, por dar os primeiros pontapés na bola.


Meneres & Cª, já como, Companhia Vinícola Portuguesa em Matosinhos


Em 18/12/1902 desejando conservar indivisíveis as propriedades que detinha e nas quais se incluíam cerca de 200 000 pés de sobreiros, Clemente Meneres registou então, notarialmente, a sociedade por quotas 'Clemente Meneres, Lda', associando a si a sua 2.ª esposa e outros familiares.
A sociedade por quotas, era um dispositivo jurídico introduzido por lei de 1901 e pressupunha uma gestão empresarial.
Note-se que, desde a fundação (1902) até 1908, a gerência da 'Clemente Meneres, Lda', era assegurada por Clemente Meneres e estava sedeada na Quinta da Avenida, em Vila Nova de Gaia, onde morava a família, passando a partir de 1908 para o ex-convento de Monchique (uma vez que esteve antes ocupado pela firma Meneres & Cª, e pela Barbosa & Cª, sendo depois arrendado a vários inquilinos).
Além desse facto decisivo de só a partir daquela data o ex-convento passar a integrar a Sociedade.



Quinta da Avenida ou Quinta do Meneres (identificada com 1) – Fonte: Ana Rita Correia de Sousa Ramos Lima, 2013, Relatório de estágio de Mestrado


Da primitiva Quinta da Avenida, junto à Avenida da República, em 2014, restava uma casa e uma área verde envolvente, tudo em situação de abandono.


Quinta do Meneres ou Quinta da Avenida em V. N. de Gaia com fachada em 1º plano voltada para a Rua Luís de Camões – Fonte: Google maps


Avenida da República em V. N. de Gaia em 1934


Na foto acima, é visível à direita uma pequena porção do Jardim do Morro, começado a levantar em 1927 com o derrube e grande movimentação de terras que se elevavam num morro, à saída do tabuleiro superior da Ponte Luiz I.
A Quinta da Avenida seguia-se a esta área, também à direita, um pouco mais para Sul.
Entretanto, surge uma contrariedade na incapacidade da firma Barbosa & Cª, pertencente a um genro, não ser capaz de lhe absorver a cortiça produzida em Trás-os-Montes, o que leva á criação de uma nova fábrica em Mirandela, sucessivamente apetrechada com maquinaria para calibrar, fazer rolhas, caldeira e outros equipamentos.
Procedendo à legalização definitiva da unidade fabril, em 18 de Agosto de 1914, a Sociedade Clemente Meneres, Limitada, com sede em Mirandela, requer, com assinatura de Clemente Meneres, na administração do Bairro Oriental do Porto, licença para o estabelecimento da nova fábrica de cortiça e seus derivados em Miragaia, no ex-convento de Monchique.
Porém, a 6 de Julho de 1918, verificou-se um incêndio na fábrica de rolhas da fábrica Barbosa & Cª, de um genro de Clemente Meneres, sedeada em Monchique, numa das dependências do ex-convento. O incêndio foi enorme, tendo ardido toda a fábrica Barbosa & Cª e, ainda mais dois armazéns acabados de reconstruir que tinham sido alvo de outro incêndio algum tempo antes, bem como a ilha contígua que viria a ser conhecida como Bairro do Ignez (constituído por 12 casas) e, além disso, ardido o andar superior da casa que foi a moradia antiga da “Clemente Meneres, Lda”.
Um prédio ocupado pela Guarda Fiscal e por um armazém de madeiras foram, também, severamente atingidos.
O mirante do antigo convento colapsou.


Instalações no topo de um edifício em Monchique que foi sede da firma antes das novas instalações



Armazém de cortiça (guardada sobre o telhado) em prédio anexo ao antigo Convento de Monchique c. 1900, com traseiras para a Calçada de Monchique



Fábrica “A Varina”


Sobre a gravura acima diz José Oliveira Nunes, In “Jornal João Semana”:

 “Tratava-se de uma ilustração do princípio do séc. XX, anunciando uma fábrica a vapor (A Varina, em Ovar) de conservas de peixe, carne, frutas e legumes, da qual Clemente Meneres foi sócio de 1903 a 1908. Esta empresa, com a denominação social de Gomes, Meneres & C.ª Limitada, sedeada no antigo Largo do Mártir S. Sebastião (actual Praça Almeida Garrett), inaugurou em 1905, durante a permanência em Ovar de um filho deste empresário, de nome Agostinho, uma sucursal ao sul da Praia do Furadouro (grande armazém de madeira, que veio a ser do Mateiro), para a recolha e salga de sardinha capturada não só naquela praia, mas ainda na Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, etc.”

Por escritura de 1 de Junho de 1908, “A Varina” passou para novas mãos, a sociedade Ferreira, Brandão & C.ª.

Em 1905 é formada a firma 'Companhia Vinícola do Porto', uma sociedade por ações com capital de 500 contos de reis e com sede no Porto tendo sido fundada por Alfredo da Fonseca Meneres (ocupando cargo de Presidente do Conselho Fiscal) e outros, cujo director continuou a ser o seu irmão José da Fonseca Meneres e passando ele a ser o presidente do Conselho Fiscal.
Em Dezembro de 1905, é interposta uma acção comercial por parte da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal-Porto, vulgo Companhia Velha e, desde 1889, com aquela designação, por uso indevido de designação comercial por parte da ‘Companhia Vinícola do Porto’.
Em 1908 a empresa passa, em sequência do litígio que decorria em tribunal, a designar-se ‘Companhia Vinícola Portuguesa’.
Como curiosidade diga-se que um eléctrico ligava a Companhia Vinícola Portuguesa ao Porto de Leixões e fazia o transporte de vinho.
O edifício sofreria poucas alterações ao longo dos tempos, tendo apenas tido uma ligeira ampliação em 1903 quando é introduzido um torreão no extremo da fachada voltada para a Avenida Meneres e obras de decoração das fachadas em 1929.

“A publicidade na imprensa e a participação em exposições era uma preocupação de Clemente Meneres, quer agora na Sociedade (Exposição de Paris, 1900; Exposição Universal de S. Luís, Estados Unidos, em 1904; Exposição Permanente de Produtos Portugueses, no Rio de Janeiro, 1906, Exposição do Rio de Janeiro, 1908; Exposição em Toulouse, 1908; Imperial International Exhibitions, Londres, 1909), quer nas anteriores firmas com os filhos, das quais nos chegaram excelentes cartazes dos finais do século XIX”.
Fonte: Professor Jorge Fernandes Alves


Painel de azulejos da Companhia Vinícola Portuguesa e o seu vinho do Porto Victoria


Clemente Meneres morre em 27 de Abril de 1916 na sua Quinta da Avenida, que se situava junto à via-férrea, em V. N. de Gaia.



Escritório da “Real Vinícola Portuguesa”


Eléctrico dentro das instalações da Companhia Vinícola Portuguesa que pela Rua Brito Capelo fazia ligação ao Porto de Leixões


Na segunda década do século XX, depois fortemente agravadas pela Guerra, Agostinho Meneres fez um périplo pelos países nórdicos e Alemanha, na tentativa de encontrar clientes não só para o vinho como para a cortiça. Com o direito ao benefício do vinho do Porto, a Sociedade passou a vender também vinhos às firmas inglesas sediadas em Gaia (Croft, Sandeman).


Agostinho Meneres



O encerramento da então 'Real Companhia Vinícola Portuguesa' deu-se nos anos 30 do séc. XX, já depois da morte de Alfredo da Fonseca Meneres a 12/07/1917 e do seu irmão Agostinho da Fonseca Meneres em 1926.


“Funcionou de seguida, durante vários anos, como refúgio/albergue dos desalojados das casas demolidas junto às margens do rio Leça em Matosinhos e em Leça da Palmeira por causa da construção das Docas n.º 1 e n.º 2 do porto de Leixões, tendo aí nascido muitos matosinhenses.
Curiosamente, várias décadas depois e na sequência da descolonização de 1974/75, voltaria a desempenhar as mesmas funções em relação aos retornados das ex-colónias portuguesas em 1975.
1998: A Câmara Municipal de Matosinhos adquiriu o imóvel, em estado de abandono, por 4 milhões de euros (ou por 5 milhões em 2000?) tendo sido integrado no plano de urbanização de Matosinhos-Sul (anterior a 2006) da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira que pretendia nessa altura manter o edifício como pólo duma praça maior 'à espanhola' propondo-se a construção de equipamentos de turismo e lazer no edifício.
2008: Funcionaram neste imóvel oficinas e salas de aula de disciplinas Técnicas e Práticas dos cursos existentes então na Escola Secundária Gonçalves Zarco, devido às obras de reabilitação da escola.
01/07/2013: Este conjunto de 8 edifícios foi classificado como Monumento de Interesse Público pela Portaria n.º 431-B/2013, DR, 2.ª série, n.º 124 (suplemento) que também fixou a zona de especial proteção (ZEP) do monumento.
Outubro de 2014: O projeto de intervenção nesta antiga unidade fabril, da responsabilidade do arquiteto Guilherme Machado Vaz e resultante da proposta vencedora da QTCIVIL - ENGENHARIA E REABILITAÇÃO, S.A. no valor de €2 999 105, terá espaços para ateliers, biblioteca e auditório, acolherá a Orquestra de Jazz de Matosinhos num dos 8 blocos do edifício, terá uma praça ao ar livre para restauração e terá lojas que serão concessionadas; de acordo com a autarquia, o investimento estimado para a empreitada ronda os 3 180 milhões de euros”.
Com o devido crédito a Jorge Fernandes Alves, Professor catedrático da FLUP, In Revista da Faculdade de Letras, Porto, III Série, vol. 8, 2007, pp. 113-155


Instalações degradadas da Companhia Vinícola Portuguesa, antes da última reparação


Casa da Arquitectura - As instalações da Companhia Vinícola Portuguesa recuperadas - Ed. Lucília Monteiro

terça-feira, 20 de novembro de 2018

(Continuação)


CLEMENTE MENERES

O patriarca da família Meneres, Clemente da Fonseca Guimarães, natural da Vila da Feira, do lugar da Cruz, descendia de pais agricultores que, além de cultivarem os terrenos agrícolas de que eram proprietários, possuíam uma serralharia que ocupava na ocasião, cerca de 40 operários.
Clemente Guimarães iniciou na oficina a sua aprendizagem após ter terminado a instrução primária: a oficina dos pais era especializada em fechaduras e vendia para a cidade do Porto a maioria da sua produção, mas uma outra parte seguia depois o caminho da exportação, para o Brasil.
Clemente Guimarães à revelia dos seus pais, haveria aos 15 anos, de embarcar para o Brasil para se juntar a um tio.
Quando chegou ao Brasil, acabaria por encontrar o tio, na altura em que ele tinha acabado de liquidar um estabelecimento que possuía.
Retirado para a chácara, no Catumbi, propriedade do tio, acaba por casar, por influência deste, em 18/08/1860, no Rio de Janeiro com a sua filha Maria da Glória Guimarães da Cruz.
Passados 4 anos regressa por influência do tio a Portugal, passando a viver na Rua da Torrinha.
Entretanto, em 1867, afasta-se do tio/sogro por desavenças relacionadas com dinheiros e, por acção do pai, depois de ter alcançado um emprego como caixeiro, ele arranja-lhe um sócio capitalista, João Joaquim Paes, e os 3 contos de reis que o sogro lhe negara, para montar um negócio.
É nesta altura que passa a intitular-se, com o intuito de se afastar do apelido Guimarães que o ligava ao sogro, por Clemente Meneres.
Surge a 'Paes & Meneres' e a fábrica de rolhas de cortiça em Monchique, em 1872, que depois de diversas vicissitudes haveria em 1908 de reanimar a sua actividade.


“ (…) da época, surgiu então a 'Paes & Meneres' como fabricantes e negociantes de rolhas com depósitos de cortiça para exportação e ainda como comerciantes de drogas (enxofre, 'cimento romano', petróleo, aguardente, genebra, sumagre, baga de sabugueiro, pês louro e soda) com porta aberta na Rua da Ferraria; vendendo para a cidade do Porto e para província, a empresa estendeu os seus negócios ao Brasil e a alguns países europeus, para onde enviava produtos tradicionais (sobretudo vinho, rolhas, palitos e ferragens para o Império do Brasil, e frutas para Alemanha, França e Inglaterra)”.
Em 10 de Abril de 1874, fez-se escritura de cessão da 'Paes & Meneres' e escritura de trespasse da quota de João Joaquim de Paes a Clemente Meneres (avaliado em 28 contos de reis pagos através da apresentação de 8 letras de 3500$000 reis que seriam sacadas uma a uma de 6 em 6 meses a partir de 02/10/1874 e até 02/01/1878), este já na qualidade de sócio e único gerente da nova sociedade então criada por ele com a firma 'C. Meneres & Cª' e para a qual entraram como sócios Joaquim Silvano Filho (em 1897, tendo uma Fábrica de sabão, requereu a construção de uma casa destinada a escritório e armazém na R. de Carvalho Barbosa) e Alvaro Carneiro Geraldes (filho duma tradicional família de comerciantes do Porto com grande ligação ao Brasil, deslocou-se de imediato para o Brasil como representante da empresa no Rio de Janeiro), para continuar os negócios da 'Paes & Meneres' que só foi dissolvida por causa da retirada natural, por idade avançada, do sócio mais velho e capitalista, João Joaquim de Paes; a 'C. Meneres & Cª' surgiu durante vários anos nos almanaques como 'fábrica de rolhas para exportação, trabalho braçal e a vapor' no cais da Alfândega (na parte oriental do edifício do extinto Convento de Monchique).
(…) em fins de abril de 1874, a 'C. Meneres & Cª' já estava organizada com Joaquim Silvano Filho a assegurar o expediente na sede, Álvaro Carneiro Geraldes no Império do Brasil para controlar e ampliar as exportações, e Clemente Meneres a procurar potenciar os ganhos a montante assegurando o abastecimento de matéria-prima (cortiça) a preços e quantidades mais convenientes (assim, e acompanhado de um amigo conhecedor da cortiça, Clemente Meneres partiu a 14/05/1874 na diligência da ex-mala posta do Porto para Bateiras, e daqui até Foz Côa, onde verificou que os sobreiros locais eram consumidos como lenha pelos seus habitantes, tendo então ambos atravessado o rio Douro para chegarem ao Quadraçal, pelo Vale de Sinada, a 18/05/1874 e, ás 16:00 desse dia, chegaram ao lugar do Romeu em Mirandela abancando no tasco da Maria Rita onde, não havendo nada para comer, mandaram assar bacalhau acompanhado de pão negro de centeio); a 'C. Meneres & Cª', para além da sua fábrica de cortiça e da sua loja de comércio, procurava instalar na R. da Restauração, em espaços alugados a João Joaquim de Paes (o 1.º sócio de Clemente Meneres), uma fábrica de conservas que veio a ser conhecida como a 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias'.
Fonte: Professor Jorge Fernandes Alves


Aquela Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias, com sede na Rua da Restauração, produzia conservas de peixes, carnes, frutas, legumes e doces. A fábrica foi pioneira no Norte do país na introdução do método Appert (método de enlatar alimentos), e trabalhava com produtos oriundos de Trás-os-Montes.
Uma Resolução do Tribunal do Comércio do Porto acaba por dissolver a 'C. Meneres & Cª' por causa da demanda que os 2 sócios de Clemente Meneres tinham feito por terem divergências com ele, no âmbito da gestão. Indemnizados os sócios no mesmo dia associa-se a 2 novos sócios numa sociedade em comandita com a mesma firma da anterior 'C. Meneres & Cª' e para continuação dos negócios da anterior.


“A 9 de Março de 1876, a firma C. Meneres reorganiza-se e vai associar-se a Rául Cirne e António Tomás dos Santos, tendo a sociedade como objectivo a continuação da anterior, com o património da Fábrica Luso Brasileira em Monchique, no Porto e o comprometimento de Clemente Meneres de ceder à empresa as rolhas e cortiças lá fabricadas por sua conta para revenda com uma comissão de 20%; os lucros seriam distribuídos por metade para Clemente Meneres e por 1/4 a favor de cada um dos outros 2 sócios; a fábrica de cortiça passou rapidamente a depósito de cortiça quando Clemente Meneres instalou a fábrica de cortiça em Mirandela (junto da ribeira do Quadraçal e designada atualmente por 'fábrica velha') e passou a enviar a sua produção para o Porto, mas ao mesmo tempo começou a funcionar na R. da Restauração a 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias' como 2.ª unidade da 'C. Meneres & Cª'.
Era um óbice ao escoamento dos produtos transmontanos, o custo e demora no escoamento, o que impediam o desenvolvimento dos negócios. Clemente Menéres apercebeu-se da necessidade de fazer ali chegar a rede ferroviária.
Em 1878, Fontes Pereira de Melo, em visita a Mirandela, tinha já prometido uma linha até à cidade ao longo do Rio Tua. Clemente adere ao fontismo e inicia uma campanha em prol da construção da linha do Tua, contactando vários potenciais investidores e fazendo pressão junto de deputados. (Em 1883, chegou a concorrer ao concurso de construção e exploração do troço entre Mirandela e Bragança, que passava por Romeu, mas a sua sociedade não foi a vencedora. Este troço, no entanto, só seria inaugurado apenas em 2 de agosto de 1905, quando entre a foz do Tua e Mirandela o tinha sido em 1887).
Entretanto a linha do Douro em funcionamento em 1875 só seria concluída até Barca d’Alva em 1887.


Horário da linha do Douro em 1875 entre Porto e Caíde


A 1 de Fevereiro de 1879 entra como sócio na fábrica Constantino Joaquim Paes, filho de João Paes, passando a firma a designar-se Santos, Cirne & Cª - sucessores de Paes & Meneres.
A gerência era assumida em pleno pelos 2 sócios António Tomaz dos Santos e Raul Cirne, embora sujeitos a um conjunto de condições.
Em 1881 a empresa tinha uma sucursal em Espinho para a preparação de sardinha em azeite e a fábrica da R. da Restauração apresentava alguma debilidade por estar instalada numa casa de habitação arrendada (inicialmente a João Joaquim de Paes e depois a seu filho e sócio comanditário Constantino Joaquim Paes) onde funcionavam 2 cozinhas e havia 1 oficina de funilaria para construir e manipular as latas ocupando 50 operários que subiam sazonalmente aos 120 por ocasião da colheita da fruta.
No ano de 1881 a fábrica de cortiça do extinto Convento de Monchique (também antigo armazém da Alfândega do Porto) era a única existente no Porto e nela todo o trabalho era manual.


Instalações do Convento de Monchique com a capela em ruínas em 1º plano


Os negócios do Porto estavam agora estatutariamente entregues aos 2 gerentes Antonio Tomaz dos Santos e Raul Cirne, pois Clemente Meneres vivia na sua Quinta do Romeu onde também tinha a sua empresa agrícola para produzir frutas, vinho e sobreiros e também instalou uma fábrica de produção de cortiça que era exportada principalmente para a Alemanha e para o Brasil recebendo deste último ainda importantes encomendas de azeite em almotolias, para além dos vinhos tratados que enviava para Gaia.
Em 9 de Julho de 1885, os sócios comanditários Clemente Meneres e Constantino Joaquim Paes abdicaram de 1/3 da sua quota a favor de um 5.º sócio, Porfirio de Macedo que passou a integrar os corpos gerentes da sociedade.
Em 30 de Abril de 1887, A 'Santos, Cirne & Cª - sucessores de Paes & Meneres' foi dissolvida por retirada amigável de Clemente Meneres, que ali deu quitação geral, por já ter sido compensado da sua participação; todo o ativo da extinta sociedade (então representado pela 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias' e pela pequena fábrica de salga e conservas de sardinha de Silvalde a sul de Espinho) passava para a nova empresa de imediato constituída pelos 4 sócios e que passou a designar-se de 'Santos, Cirne & Macedo'.
Em 1887 Clemente Meneres toma o comboio para o Porto transportando consigo a família, os operários e as máquinas para montar de novo a fábrica de rolhas num dos armazéns do extinto Convento de Monchique e parte de novo para o Brasil para arranjar clientes.
De volta a Portugal faz com os seus filhos homens (outros já tinham à data falecido), Alfredo da Fonseca Meneres e Agostinho da Fonseca Meneres, a firma 'Clemente Meneres & Filhos' integrando nela todas as propriedades do Porto e de Trás-os-Montes.
O edifício do extinto Convento de Monchique foi ampliado, de forma a incluir a residência e as instalações para a sociedade comercial, arrendando ainda a terça parte que lhe não pertencia (a parte oriental do ex-convento passou a albergar as 2 principais atividades, a fábrica de rolhas de cortiça e o armazém de vinhos e doutras bebidas com uma grande variedade de marcas e géneros, desde vinho do Porto, moscatel e malvasia e licores diversos, tanto de produção própria como de produção alheia); anúncios em jornais e não só, de produção artística, apresentavam a empresa 'Clemente Meneres & Filhos' como fornecedora da Casa Real e costumavam apresentar referências relativas às distinções obtidas nas exposições internacionais (Filadélfia em 1876, Paris em 1889 e Lisboa em 1884), tanto mais que uma das marcas de vinho do Porto era a 'Dom Luiz' com autorização expressa do rei D. Carlos I para o efeito.
Em Maio de 1893 falece a sua mulher Maria da Glória da qual teve 10 filhos.
Em 1895 cria a 'Meneres & Cª' incluindo na sociedade existente a sua filha Leonor.
Esta casaria em segundas núpcias com Joaquim da Silva Barbosa.
Em 1897, Clemente Meneres separou-se do seu genro Joaquim da Silva Barbosa que ficou com a fábrica de cortiça, mudando-a para a Alfândega Velha sob a firma 'Barbosa & Cª, em comandita'.
Por sua vez a 'Meneres & Cª' ergueu em 15 meses os novos armazéns e oficinas da empresa, de acordo com o projeto do Eng.º António da Silva, no Prado de Matosinhos.
Texto com o devido crédito ao Professor Jorge Fernandes Alves

(Continua)

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

25.22 Sociedade Clemente Meneres Lda - Real Companhia Vinícola Portugueza


“A Sociedade Clemente Menéres Lda. é uma sociedade agrícola familiar fundada em 1902.
Estabelecida desde 1874, produz vinho, azeite e cortiça na Quinta do Romeu, no concelho de Bragança, e detém no Porto, na marginal do rio Douro, zona Património Mundial, o extinto Convento de Monchique e edifícios anexos onde tem sede e armazéns desde o século XIX.
Pratica exclusivamente Agricultura Biológica certificada (olival e vinha).
Todos os sócios são descendentes directos do fundador e são gerentes João Pedro Menéres, Nuno Espregueira e João Menéres.
(…) Clemente da Fonseca Guimarães, nascido em 1843 na Vila da Feira, tinha uma energia enorme. Foi para o Rio de Janeiro aos 15 anos onde então residiam parentes seus. Regressou cinco anos depois, dedicou-se ao comércio e voltou lá mais tarde. Percorreu a Europa Central e de Leste e o Médio Oriente à procura de mercados. Tinha um caminho novo a percorrer. Talvez por isso, acrescentou um nome, Menéres, ao Guimarães, que já tinha. Não cabia no País nem na família.
Fundou imensas sociedades para exportar produtos portugueses, nomeadamente vinhos, conservas e cortiça. Criou a primeira fábrica de conservas e a primeira fábrica de rolhas em Portugal.
Aos 31 anos, em 1874, parte em carro de cavalos para Trás-os-Montes para comprar os sobreirais que ouviu dizer que por lá havia.
Cria uma propriedade, a Quinta do Romeu, dispersa por oito concelhos do distrito de Bragança. Refaz as vinhas que encontra dizimadas pela filoxera e alarga os olivais que existiam. Como a qualidade dos vinhos e o "terroir" o justificavam, na remodelação da Região do Douro de 1907 é autorizado a produzir Vinho do Porto.
Participou em muitas feiras na Europa e na América do Norte e do Sul. O diplomata Venceslau de Morais no seu livro "Cartas do Japão" refere, com elogios, a sua presença na Feira de Osaka de 1903.
Em 1902 funda, com os filhos, a actual Soc. Clemente Menéres Lda.
Depois de falecer, em 1916, sucedem-lhe os filhos, netos e bisnetos.
Um dos filhos, Manoel Menéres, na década de 60, pessoalmente restaura e renova três aldeias locais, cria infantários para as crianças e um restaurante para as sustentar com a sua receita, o Maria Rita, e faz também o Museu de Curiosidades.
Fonte: “quintadoromeu.com”



Sede actual da Sociedade Clemente Meneres Lda na Calçada de Monchique - Fonte: Google maps

Em 1876 Clemente Meneres faz a sua casa de habitação no Romeu por fases: durante muito tempo pernoitou no tasco de telha vã e térrea de um tal Carriço, que tinha a particularidade de ser seu conterrâneo da Vila da Feira; depois (1877) ergueu uma casa térrea, com grossas paredes e forrada a madeira, mas pequena, fiel ao ditado que tantas vezes citava - “casa que chegue e terra quanta vejas”.
No fim de 1876, Clemente Meneres já possuía 279 propriedades em Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães e Vila Flor, dedicadas principalmente à exploração de sobreiro.
Em 1893, a propriedade fundiária de Clemente Meneres atingia uma área considerável, distribuindo-se, embora de forma dispersa, por uma extensão de 27 quilómetros.
Em 1902 funda a ‘Clemente Meneres Lda’, tendo como outorgantes:
- Clemente Joaquim da Fonseca Meneres, por si e na qualidade de procurador da esposa, Antónia Cândida de Araújo Meneres (nascida em 1865, com quem tinha casado em Vila Nova de Gaia a 13/08/1896 e da qual teve o filho, Clemente da Fonseca Araújo Meneres nascido a 18/05/1897 e falecido a 02/01/1917, e o Manuel da Fonseca Araújo Meneres nascido a 26/04/1898 e falecido a 24/03/1974);
- Leonor Meneres Barbosa e marido;
- Alfredo da Fonseca Meneres, por si e como procurador da irmã e cunhado, Maria da Glória da Fonseca Meneres Sampaio e marido;
- José da Fonseca Meneres;
- António Pinto de Oliveira (filho de Agostinho Meneres)

Alfredo da Fonseca Meneres, que já tinha feito parte da 'Clemente Meneres & Filhos'  com seu pai e seu irmão Agostinho da Fonseca Meneres, nasceu no Porto, em 29/8/1866 e faleceu em Lisboa, em 12/7/1917. Está sepultado em Carvalhais. Fez o curso de regente agrícola na Quinta Regional de Sintra, em 1884. Depois do curso radicou-se em Trás-os-Montes, como gestor das suas propriedades e aí passou a sua vida.
Em 1898, construiu em Carvalhais o edifício escolar e o cemitério paroquial. Chegou a ser vereador da Câmara do Porto, fez parte da Direcção da Associação Comercial do Porto, bem como da Associação Industrial Portuense, etc. Foi agraciado com a grã cruz de Mérito Industrial e em 1907 recebeu carta de conselho.
Foi elevado a conde de Carvalhais, título que recusou.


As diversas sociedades de que fez parte Clemente Menéres



Estalagem Maria Rita no Romeu – Ed. Manuel Rodrigues, Arq. Fotog. da Sociedade Clemente Menéres



A casa Meneres no Romeu destruída por um incêndio em 1941 – Ed Domingos Alvão, Arq. Fotog. da Sociedade Clemente Menéres, Lda, Porto



Sobre o texto anterior sobre a Quinta do Romeu e com fonte em “quintadoromeu.com” acrescente-se, que, José Meneres, filho mais novo do 1º casamento de Clemente Meneres, lhe sucedeu à frente da quinta, zelando pelo património dela e da região, criando, nesse âmbito, uma cooperativa e uma Casa do Povo com consultório médico, farmácia e biblioteca.
José Meneres tinha a sua vida organizada em torno dos negócios urbanos no Porto, tendo sido gerente durante muitos anos da Companhia Vinícola, criada por si e pelos outros irmãos a partir da Meneres & Cª, estabelecendo depois residência em Vila Nova de Gaia, construindo uma habitação junto à do pai (Quinta da Avenida, em Santa Marinha), onde chegou a ser presidente da Câmara Municipal.
À morte daquele, coube a seu irmão Manuel Meneres (filho do 2º casamento) a tarefa de dar novo impulso ao “Romeu” e às aldeias de Vale de Couço e Vila Verdinho, particularmente no campo da agricultura e da assistência social, com ajudas estatais (Junta de Colonização Interna e Ministério das Obras Públicas).
A Manuel Meneres se deve a criação do Restaurante Maria Rita e do Museu das Curiosidades, onde se guardam relíquias do passado, entre as quais alguns velhos exemplares de automóveis (isto devido ao seu relacionamento com Manuel Alves de Freitas, da Ford, do Porto, de quem se tornou genro).


(Continua)



terça-feira, 13 de novembro de 2018

(Conclusão)


A Companhia não teve só intervenção na área do vinho, fez, também, grandes empréstimos ao governo para obras importantes.
De 1789 a 1792 demoliu o Cachão da Valeira.
Interveio na reconstrução de Amarante muito destruída nas invasões francesas.


Amarante c. 1900

Procedeu à construção da estrada Porto-Mesão Frio-Régua e à construção/beneficiação de outras estradas no Alto Douro, nomeadamente Régua--Santa Marta-Cumieira-Vila Real e Pinhão-Provesende.
Teve, ainda, intervenção decisiva na construção dos cais que contiveram o rio Douro desde da Ribeira até à Foz.
Para isso cederam, dos seus cofres, inicialmente, 400 000 cruzados referentes a acções da Companhia de que se perdera o rasto dos titulares, e recolhendo e aplicando o imposto dos 100 réis por tonelada aplicado sobre as embarcações de comércio que entrassem na foz do Douro (1790-1834).
Com pedra na sua maior parte extraída da pedreira da Arrábida foram levantados os cais, das Padeiras, de Massarelos e a sua marginal, do Ouro e da Cantareira até ao Molhe de Felgueiras.
Foi ainda devido à sua iniciativa que se fundou, em 1803, a Academia Real da Marinha e Comércio da Cidade do Porto (onde hoje está a Reitoria, nos Leões).
Este estabelecimento bem como os que o antecederam nesse local (Aula de Náutica em 1762 e aula de Debuxo e Desenho em 1779) funcionaram debaixo da sua inspecção e administração económica, cabendo-lhe mesmo nomear os funcionários, com excepção dos lentes, professores e substitutos, que propunha sob consulta ao rei.
Em 1831 construiu a Real Casa do Asilo dos Náufragos, na Foz por ordem de D. Miguel I.


Real Casa do Asilo dos Náufragos no Passeio Alegre


A Companhia arrecadava ainda uma série de impostos, tarefa para a qual estava devidamente mandatada pelo Estado.

“Para se fazer uma ideia dos montantes arrecadados pela Companhia em nome do Estado, basta dizer que os rendimentos a cargo da Junta, em 1825, de acordo com os balanços da receita e despesa do Tesouro Público, atingiram 114 032$679 réis, mas, no ano seguinte, tal receita atingiu os 536 432$193 réis, a maior receita do Tesouro Público a seguir às receitas das alfândegas, décima e contribuição de defesa, e contrato do tabaco”.
Com o devido crédito de Fernando de Sousa - Professor Catedrático da Universidade do Porto


Instalações na Rua Azevedo Magalhães em V. N. de Gaia da Real Companhia Velha


A terminar, dá-se conta do que duas personalidades (que narraram um pouco da vida da cidade do Porto) disseram sobre a Companhia, em épocas distintas.







segunda-feira, 12 de novembro de 2018

25.21 Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro ou Companhia Velha – Importância Económica


A Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro surgiu de uma determinação régia de D. José I e de um sonho de três portuenses.
São eles: Dr. Luís Beleza de Andrade, D. Bartolomeu Pancorbo de Ayala e o dominicano padre mestre Dr. frei João de Mansilha.
Luís Beleza de Andrade convenceu o governador da cidade, ao tempo, António Bernardo Alves de Brito, a informar o ministro de D. José I, da enorme pobreza que grassava nas terras do Alto Douro, onde o pai possuía algumas propriedades e das inúmeras adulterações que o vinho sofria na sua qualidade.
Tendo levado a cabo reuniões com outros produtores daquela região vinhateira, na qual esteve presente o tal Mansilha, decidiram da necessidade de fazer a demarcação das terras onde o vinho era produzido.
Pancorbo seria escolhido para apresentar o projecto em Lisboa, o que foi feito, mas, aquele acabou por sugerir ao Dr. Beleza de Andrade que, dali por diante, fosse ele a dar, pessoalmente, seguimento ao caso.
Beleza de Andrade acabaria por incumbir frei João de Mansilha de proceder a diligências na capital para o que se comprometeu a custear-lhe as despesas que fizesse nesse sentido.
As diligências foram coroadas de êxito no dia 1 de Junho de 1756, chegava ao Porto a notícia da formação da Companhia de que veio a ser primeiro provedor o Dr. Luís Beleza de Andrade.
Eram privilégios da Companhia:





“A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro recebeu a sua personalidade jurídica pelo Alvará de 10 de Setembro de 1756, formada com o capital de um milhão e duzentos mil cruzados repartido em acções de quatrocentos mil reis cada uma, e propunha-se restituir o bom nome ao vinho do Douro, garantindo a genuidade, elevar o nível de vida da região e sustentar o comércio de exportação do vinho que era um dos mais importantes do Reino.
As vantagens que da sua criação resultaram foram indiscutíveis, introduzindo o regime de demarcação que os franceses também adoptaram quase um século depois (§ XXIX dos Estatutos)”.
Com o devido crédito a “ruisaeguerra.blogspot.com”

Até às lutas ocorridas para estabelecer o liberalismo, de que ressalta como fundamental o Cerco do Porto, a Companhia foi cumprindo as funções para a qual foi destinada.
O rio Douro era sulcado por rabelos que traziam para os cais de V. N. de Gaia, e para os que a Companhia tinha também no Porto, os vinhos para a respectiva comercialização.

“O barco rabelo é uma embarcação portuguesa, típica do Rio Douro que tradicionalmente transportava as pipas de Vinho do Porto do Alto Douro, onde as vinhas se localizam, até Vila Nova de Gaia - Porto, onde o vinho era armazenado e, posteriormente, comercializado.
Sendo um barco de rio de montanha, o rabelo não tem quilha e é de fundo chato, com um comprimento entre os 19 e 23 metros e 4,5 metros de boca. A sua construção, de tábuas sobrepostas, tábua trincada, é nórdica, em comparação com a do Mediterrâneo.
Com uma vela quadrada, o rabelo era manejado normalmente por seis ou sete homens. Quanto aos mastros, os primeiros só usavam um, enquanto que os segundos usavam também um mastro à proa. Para governo, utiliza um remo longo à popa – a espadela. Quando necessário, os barcos eram puxados a partir de caminhos de sirga por homens ou por juntas de bois.
O barco rabelo passou a ter a sua identidade bem definida, a partir de 1792, quando a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, publicou os alvarás e mais documentos que se relacionavam com a notável instituição pombalina. Nessa publicação, conhecida vulgarmente por "Leis da Companhia", encontram-se preciosas informações referentes tanto ao barco como aos seus tripulantes, como ainda ao tráfego a que se destinavam”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”


Barco rabelo na Régua


Em 16/8/1833, durante o cerco do Porto, a Companhia viu arder cerca de 16.000 pipas, algumas com vinho antiquíssimo, cujo prejuízo foi de 2.002.378$000, uma avultadíssima verba.
Durante aquele conflito tinha-se formado uma Comissão Administrativa da Companhia, sob a tutela das autoridades liberais, no Porto, que pouco depois deu lugar a uma Junta eleita. Passaria a existir, então, até 1834, um órgão de administração da Companhia, liberal, no Porto, e outro órgão de administração da mesma, miguelista, na Régua, que tinha como provedor Francisco de Sousa Cirne de Madureira.
Em 30/5/1834 saiu o decreto que abolia toda a legislação que lhe atribuía prerrogativas e atribuições, e a extinguia.
Publicou os seus novos estatutos em 4/11/1834 e renovou-os em 7/4/1838.
Com efeito, entre 1834-1838, adoptou a denominação de Companhia dos Vinhos do Porto.
Com dívidas ao Estado e a particulares de vários milhares de contos de reis, dada sua robusta constituição financeira conseguiu sobreviver.
Conseguiu adiar e reestruturar algumas das suas maiores dívidas e receber do estado vários créditos.
Conseguiu, após muitas dificuldades, acabar por pagar a todos os seus credores. 
António Barreto, na sua obra, “Douro”, irá concluir que "extinta" em 1834, "literalmente reorganizada em 1843, a Companhia será definitivamente dissolvida em 1863".
Outros afirmam que a Companhia "passa a desempenhar exclusivamente as funções próprias de qualquer firma comercial".
O certo é que a Companhia, "inoperante e desacreditada, atacada por forças poderosas, como a Associação Comercial do Porto, acabará por ser extinta definitivamente em 1865".
A antiga Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro passa, então, a utilizar o nome de Companhia Velha e resolveu continuar os seus negócios.
Precisando: dado que a Companhia sempre foi uma sociedade por acções ela funcionou sempre até aos nossos dias. Só podemos falar de extinção, renovação, reforço ou redução quanto aos privilégios e poderes concedidos ou delegados pelo Estado a esta Empresa.

(Continua)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

25.20 Oficinas de construção de violas e comercialização de instrumentos musicais de cordas


A Guitarra Portuguesa tem uma extensa história no nosso País, na qual surgem, com grande realce, os nomes dos artesãos que, de geração em geração, ao longo de séculos, a têm fabricado. É o caso daqueles que as produziram em oficinas na cidade do Porto, com enorme sucesso.

“O instrumento a que damos hoje o nome, de Guitarra Portuguesa, foi conhecido até ao século XIX em toda a Europa sob os nomes de Cítara (Portugal e Espanha), Cetra e Cetera (Itália e Córsega), Cistre (França), Cittern (Ilhas Britânicas), Zither e Cithren (Alemanha e Países Baixos)”.
Fonte: Pedro Caldeira Cabral, 09/06/2007, Construtores da Guitarra Portuguesa


 “No século XIX já existiam em Portugal muitos mais construtores, instalados um pouco por todo o País e, em particular, na cidade do Porto, onde trabalhavam vários (os mais importantes eram a família Sanhudo) construindo instrumentos com características relativamente aproximadas, naquilo que poderia ser uma espécie de ‘escola’ local. Nesse período também houve estrangeiros na lutherie (construção de violas) nacional, como é o exemplo do francês Pierre Blaisot que aportuguesou o nome para Pedro Blaison e que tinha oficina em Lisboa. Ainda no final do século XIX, as Casas Duarte e Guimarães, duas lojas no Porto, vendem instrumentos feitos por construtores portugueses, mas utilizando etiquetas das próprias empresas, algumas vezes coladas por cima da marca dos verdadeiros autores”.
Fonte: “matriznet.dgpc.pt”


António Duarte foi o mais importante fabricante de guitarras do seu tempo, na cidade do Porto, tendo fundado em 1870 uma oficina na Rua da Bainharia.
Mudou-se depois para a Rua Mouzinho da Silveira, onde abriu uma loja de grande dimensão (do nº 159 ao nº167) e, paralelamente, uma oficina na Rua da Ponte Nova, na qual chegaram a trabalhar 40 homens.
Especialista em escalas, António Duarte construía guitarras (tendo criado o modelo da guitarra portuense), violas, violas braguesas, violões e bandolins. Esteve activo até cerca de 1919. O filho, António Carvalho Duarte, construía também rabecas chuleiras e violinos.
A Casa António Duarte, Sucessores teve o seu tempo áureo nas primeiras décadas do século XX, exportando inclusive para o Brasil.
Posteriormente, verificou-se um decréscimo progressivo nas encomendas. A oficina da Rua da Ponte Nova foi encerrada no final dos anos cinquenta e substituída por uma outra em frente à loja da Rua Mouzinho da Silveira. Em 1965 a loja sofreu uma redução de área, mantendo-se apenas nos números 165 e 167.
Esta grande casa comercial resistiu até final dos anos 90, altura em que foi vendida pelos herdeiros à Casa Castanheira.
O estabelecimento que foi de António Duarte, na Rua de Mouzinho da Silveira, nº 165, já não existe.


No prédio à esquerda, a cerca de uma dezena de metros da Rua da Ponte Nova, ficava o António Duarte, construtor de instrumentos musicais de corda



De entre dos construtores do Porto do início do século XX, salientam-se, José do Nascimento Lopes e António Pereira Cattão, “fabricantes de guitarras de boa qualidade, esmerado acabamento de verniz e decoração cuidada”.
Porém, já no século XIX outros artesãos se tinham evidenciado no fabrico de instrumentos de corda.
Assim:

No século XIX, no Porto

António Teixeira (Activo entre 1817-1820, R. Nova do Almada, guitarras);
Irmãos Antunes (Activos em 1850);
Custódio Cardoso Pereira & Cia (Activo desde 1861);
António J. da Cruz Moura (Activo em 1867, guitarras)
António Duarte (Activo desde 1870/1919, guitarras, violas, rabecas, etc.)
Joaquim da Cunha Mello (Activo de 1870 a 1895)
Júlio Thomaz da Silva (Activo entre 1890-1910, guitarras, violas, etc.)
A. Rodrigues do Amaral (Activo em 1890, guitarras, etc.)
Manuel da Silva Espírito Santo (Activo desde 1895)

Primeira metade do século XX, no Porto:

José do Nascimento Lopes (Entre 1890-1905, guitarras, violas, etc)
Júlio Teixeira (Rua Alexandre Herculano, 198, activo em 1920, guitarras, etc.)
José António Miranda (Viela do Anjo, nº 1, activo em 1955, guitarras)
Domingos Cerqueira da Silva (Rua Costa Cabral, 388, com actividade entre 1901-1980, guitarras, violas, etc.)
Júlio Thomaz da Silva (Activo entre 1890-1910, guitarras, violas, etc.)
A. Rodrigues do Amaral (Activo desde 1890, Porto, guitarras, etc.)
Luís da Cunha Mello (Activo de 1895 até 1912)
Manuel da Silva Espírito Santo (Activo desde 1895)



“António Duarte teve a primeira oficina na Rua da Bainharia, fundada em 1870 e mais tarde mudou-se para a Rua Mouzinho da Silveira nº 165/167 (cuja oficina ainda existe, actualmente gerida por António Couto).
Construia 3 modelos com comprimentos de corda vibrante de 470 mm, 440 mm e 420 mm e utilizava também medidas diferentes para os corpos (35 cm a 27 cm ) e ilhargas que podiam variar entre os 8,5 cm e os 7 cm (máximo) e os 5,5 cm e 4 cm (mínimo).
António Duarte é também conhecido como bom construtor de violinos, rabecas “chuleiras”, violas “braguesas” e bandolins, sendo justamente considerado o criador do “modelo” de Guitarra do Porto, o qual se distinguia do de Lisboa pela sua forma mais arcaica (próxima do perfil das cítaras italianas) e pela cabeça geralmente ornamentada com motivos fitomorficos.
Construiu entre muitas outras, a guitarra da célebre cantora e actriz Adelina Fernandes, onde se pode notar o esmerado fabrico em pau-santo, cercadura da boca com embutidos de madre-pérola e cravelhal em chapa de leque, encimado por escultura representando uma cabeça de bacante, com o cabelo envolto em cachos de uva.
Joaquim da Cunha Mello, também do Porto, foi contemporâneo do anterior, tendo sido sobretudo fornecedor dos estudantes de Coimbra, para os quais realizava guitarras em materiais baratos, fabricando segundo os modelos e medidas de António Duarte.
Criou uma firma, cuja gerência passou a seu filho Luis da Cunha Mello tendo este abandonado a actividade em 1910.
Ainda inserido na chamada “escola do Porto” encontramos Manuel Pereira dos Santos, com oficina em Alfena e mais tarde em Matosinhos, o qual foi premiado com medalha de prata na Expo Universal de Paris em 1889”.
Fonte: Pedro Caldeira Cabral, 09/06/2007, Construtores da Guitarra Portuguesa


O que distingue os três tipos de guitarras existentes em Portugal, ou seja, de Coimbra, de Lisboa e do Porto, reside principalmente, no acabamento da cabeça da mesma.
A de Coimbra possui uma lágrima incrustada, enquanto a de Lisboa, apresenta um caracol.
A do Porto goza de maior liberdade, podendo ter  um dragão esculpido ou uma flor
Os três estilos têm em comum as seis ordens duplas de cordas metálicas.


Guitarra do Porto com acabamento do braço em flor – Ed. “casadaguitarra.pt/”