sexta-feira, 11 de setembro de 2026

25.317 Mais perguntas que respostas

 
Sobre o palacete, situado na Rua Formosa, n.ºs 108-112, paira um certo mistério nas suas origens e os dados e informações, que se podem recolher nos arquivos, não permitem obter respostas concisas.
Por isso, apresentar-se-ão as investigações efectuadas e as conclusões ficarão ao critério de cada um.
 
 
 

Palacete, na Rua Formosa, n.ºs 108-112, onde esteve o Liceu Nacional – Ed. Graça Correia



 
Proprietário inicial do Palacete
 
 
Fazendo uma busca, segundo os moldes habituais, no Arquivo Histórico Municipal do Porto (AHMP), chegámos à conclusão de que o respectivo processo de licenciamento poderá ter-se perdido.
Existe um Documento/Processo referente a um pedido de licenciamento, perante a Junta de Obras Públicas, feita pelo juiz João Pereira Baptista Vieira Soares (1776-1852) e que consta de um desenho de uma fachada de um prédio, na Rua Formosa, com data de 26 de Abril de 1824.
Faz parte do mesmo processo, um outro desenho com despacho de 22 de Julho de 1825, que constitui um pedido de rectificação ao desenho da fachada inicialmente apresentada, o que foi autorizado por Joaquim da Costa Lima e Sampaio.
Sobre os desenhos das fachadas vem, em ambos os casos, expresso que o proprietário e requerente da autorização é aquele juiz.
De notar que, à data, se viviam tempos de pré guerra civil e que, a reorganização municipal dela decorrente ainda estava para vir, como é óbvio.
Não é fácil encontrar factos históricos para caracterizar a personagem do juiz, mas sabe-se que seria um fervoroso liberal, tendo estado exilado no Brasil entre 1828 e 1834, período durante o qual D. Miguel esteve à frente dos destinos do reino.
Conseguimos também saber que, em 23 de Janeiro de 1851, Camilo Castelo Branco e o jornalista do jornal “A Pátria”, João Augusto Novaes Vieira, o “Novais dos óculos”, envolveram-se numa acesa polémica pública. O conflito teve como cerne “negócios de saias” e escalou para agressões físicas no Teatro de São João, no Porto, resultando numa queixa-crime formal por injúrias e agressões.
Foi perante João Pereira Baptista Vieira Soares, que exercia as funções de Juiz de Direito Criminal Substituto, na cidade do Porto, que Novaes Vieira apresentou a petição e a querela criminal contra Camilo Castelo Branco e D. Luís da Câmara, presente no referido teatro no momento da ocorrência dos factos.
 
 
   

Desenho da fachada apresentado em 1824
 
 
 
 

Desenho da fachada apresentado em 1825


 
João Pereira Baptista Vieira Soares terá sido, proprietário e, por certo, também, morador num outro prédio, situado na Rua Formosa, n.ºs 201-203, pois, para aqui, em 2 de Novembro de 1857, o banqueiro Joaquim Pinto da Fonseca solicitava à Câmara do Porto uma autorização de obras, para um prédio da Rua Formosa.
Do requerimento respectivo constava o desenho da fachada (que a seguir se apresenta) e cujo processo, obteve a licença n.º 373/1857 de 2 de Novembro.
 
 
 

Desenho da fachada de prédio referente à licença n.º 373/1857


 
No pedido de obras, solicitado pelo banqueiro à Câmara do Porto, é especificado que se pretendia, numa casa que tinha sido adquirida aos herdeiros do juiz João Pereira Baptista Vieira Soares, intervir no mesmo com o acrescento de mais um andar.
Comparando o desenho das fachadas de 1825 e 1857, não há dúvidas.
Pela observação da arquitectura da casa do Juiz João Pereira Baptista Vieira Soares e daquela que é o nosso alvo, apenas se poderá concluir que têm fachadas parecidas e, talvez da mesma época.
 
 
 

Rua Formosa, n.ºs 201-203
 
 
   
Aqui chegados, importa fazer uma pausa e fazer algumas perguntas:
 
1) Quem construiu a casa sita à Rua Formosa, n.ºs 108-112?
2) Quando foi concluída a sua construção e quem a ocupou até 1862?
 
 
De qualquer das perguntas anteriores não temos respostas e, só para além do período temporal da última pergunta, começámos a conhecer alguns factos históricos.
 

 
Ocupação do Palacete
 
 
Assim, a partir de 1862, o Liceu Nacional do Porto vai nela instalar-se, vindo do edifício da Escola Politécnica (à Praça dos Voluntários da Rainha ou Praça dos Leões) e por lá fica até 1866.

 
 

In “Jornal do Porto” de 26 de Junho de 1866

 
 
Sabe-se que o inquilino seguinte foi o “Colégio Francês/Escola Comercial”, de J. R. Mesnier.
Em 1871, já aquele colégio tinha tomado o nome de “Colégio Lusitano” e, por aí, continuaria até que, vindo do Jardim de S. Lázaro, lá se instalou o Colégio de S. Lázaro, a partir de 1877.
 
 
 

Publicidade ao Colégio de S. Lázaro, no “Jornal do Porto”, de 24 de Setembro de 1876, com a indicação de José Maria Guedes de Azevedo, como seu director. No ano seguinte, o colégio romaria até à Rua Formosa
 
 
 
Em 28 de Agosto de 1883, numa época em que o prédio era ocupado pelo Colégio São Lázaro, apresentava-se como proprietário do edifício, em requerimento dirigido à Câmara do Porto, para obtenção de licença de obras e substituição de canalizações, José Maria Guedes de Azevedo (director do estabelecimento de ensino).
Em data ignota, que reportará já ao início do século XX, a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, fundada em 1864, pelo político e jornalista Anselmo de Morais, com a sua primitiva sede, na Rua do Bonjardim, muda-se para a Rua Formosa, nºs 108-112.
Em 1922, já era proprietário do prédio, Domingos Carlos de Oliveira, que em requerimento solicitava à Câmara do Porto, licença para  “substituir soalhos, capear escadas, reparar tapamentos, etc”.
Em 1975, a Tipografia “Imprensa Portuguesa” por lá continuava, dividindo instalações com entrada pelo n.º 112, no 1.º andar, a firma Soares de Mendonça, Lda. – Agência de Leilões e, no 2.º andar, Confecções Invicta (Agostinho & Freitas, Lda.) e, ao longo dos anos, distintas firmas de diversos sectores de actividade foram alocadas nas mesmas áreas.
Em 1981, Domingos Dias da Silva, que era sócio, desde 1954, duma tipografia de referência na cidade, com firma “Manuel Ferreira & Silva”, localizada na Praça Coronel Pacheco, adquire a Tipografia “Imprensa Portuguesa” e junta, aí, aquelas duas firmas, de que passa a ser o sócio principal.
O edifício, onde esteve alocada, durante anos, a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, foi recuperado para funções habitacionais, há pouco tempo, com projecto do atelier “Garcia & Albuquerque”, que a propósito do edificado sobre o qual interveio, diz:
 
 
“ (…) espelhando no espaço hoje mantido como garagem e aparcamento automóvel, o local onde outrora as máquinas tipográficas e de impressão funcionavam em plena actividade durante a sua época áurea, nesta nave industrial”.
 
 
 
Ocupação do Palacete no período da transição de séculos
 
 
Entre o longo período de tempo que passou desde a ocupação pelo Liceu Nacional do Porto e a actualidade, duas perguntas se impõem:
 
3) Em que ano se mudou a Tipografia “Imprensa Portuguesa” para a Rua Formosa?
4) Quem foi o visconde S. Carlos e qual a sua ligação ao palacete e à Rua Formosa?
 
 
Estas perguntas poderão ser respondidas ou não, se conseguirmos solucionar as dúvidas seguintes, que resultam de um texto de Luís Manuel Dias Borges Cabral (1953–2024), um proeminente bibliotecário, arquivista e docente português, natural do Porto.
Sobre a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, dizia:
 
“Esta firma havia sido fundada por Anselmo de Morais em 1864, constituindo um espaço que recorda a figura de Camilo Castelo Branco, sendo uma tipografia ligada ao republicanismo e que teve relevante atividade editorial. No mesmo local – o palacete do Visconde de São Carlos, na Rua Formosa, nºs 108-116 – ficaram assim juntas as duas firmas de que Domingos Silva é hoje sócio principal, a da tipografia (Imprensa Portuguesa) e a de encadernação (Manuel Ferreira & Silva).
A evolução tecnológica conduziu à encadernação mecânica ou industrial, área em que a empresa também singrou, localizando-se atualmente em Lavra, Matosinhos. Nessas novas instalações tem sido desenvolvido trabalho de qualidade tanto para o mercado nacional como para o estrangeiro.”
Cortesia de Luís Cabral (Bibliotecário e Arquivista), In revista “As Artes Entre as Letras”, nº 126 de 16 de Julho de 2014
 
 
Ao edifício alvo de todas estas divagações, Luís Cabral vai chamá-lo, no texto acima, de Palacete do Visconde S. Carlos.
O título de visconde de São Carlos foi atribuído por D. Carlos, por Decreto de 09-07-1904, a Carlos Fernandes Vieira, nascido em 3 de Fevereiro de 1887, na freguesia de Santo Ildefonso e que viria a falecer em 9 de Março de 1914, tendo enviuvado em 1907, após um breve casamento.
Aquela personagem foi casada com Amélia Guimarães Alves Quintela Vieira, nascida em 19 de Agosto de 1885 e falecida, apenas, com 21 anos, não tendo do seu casamento com o visconde resultado qualquer descendência.
Era filha do Conselheiro José Luciano Alves Quintela, médico (falecido a 21-03-1909) e de Amélia Ermelinda Guimarães Alves Quintela.
José Luciano fez testamento a 02-08-1883, no qual declarou residir na Rua Gonçalo Cristóvão, nº 314, e ter um filho, Eduardo Alves Quintela, nascido em  05-12-1876.
À data do falecimento da viscondessa de S. Carlos, Amélia Guimarães Alves Quintela Vieira, em 9 de Março de 1907, vivia na Rua Formosa.
Uma tal de Maria Fernandes Vieira, talvez familiar próxima do visconde, no início do século XX, era dada como proprietária do prédio na Rua Formosa, nº 98-102, vizinho daquele a que o visconde deu o seu nome.
Sabe-se que, após o falecimento da viscondessa de S. Carlos, o visconde já se correspondia, no final desse ano trágico de 1907, com uma tal Florinda Vieira Guedes, com o envio de postais ilustrados.
Do facto nos dá conta Américo de Castro Freitas, em 23 de Novembro de 2016, no seu blogue Matosinhos Antigo.
 
 
 
“Numa das minhas incessantes buscas de postais de Matosinhos, ou por aqui circulados, encontrei um grupo deles que, em parte, eram endereçados a uma Maria F. Vieira, então moradora na Rua Juncal de Cima (usava ainda a denominação antiga) n.º 127. Eram enviados, na maioria, por um tal Carlos. Porém, e nos postais posteriores á data do decreto de criação do título, passa a assinar visconde de S. Carlos (título criado por D. Carlos por Decreto de 09-07-1904 e foi seu primeiro titular Carlos Fernandes Vieira, nasc. Santo Ildefonso, 03.02-1887)”.
Cortesia de Américo Castro Freitas

 
 

Postal assinado pelo Visconde de S. Carlos, em 29 de Novembro de 1907 – Colecção de Américo Castro Freitas



O 2º visconde de S. Carlos seria António Manuel Vieira Guedes, nascido em 12/06/1922 e falecido em 2016, desconhecendo-se o parentesco com Carlos Fernandes Vieira, o 1.º visconde de S. Carlos.
Quer o visconde de S. Carlos tenha sido proprietário do palacete e ou o tenha habitado, emprestou, talvez, o título nobiliárquico, através do qual passou a ser identificado.
Por isso, as últimas perguntas ficam sem a devida resposta.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

25.316 O S. Bartolomeu na Foz do Douro

 
Na Foz do Douro, a festa que pedia meças à da Nossa Senhora da Luz, era o S. Bartolomeu, que tinha também boa aceitação nas praias de Leça e Matosinhos.
A festa de S. Bartolomeu realiza-se em 24 de Agosto, na Foz do Douro, centrada, principalmente, nas praias do Caneiro e do Ourigo.
Pelo S. Bartolomeu, o povo tem o antigo costume de ir à praia tomar o miraculoso banho santo ou dos sete mergulhos. 
São Bartolomeu, ligado ao culto das águas, sempre foi invocado contra a gaguez, enfermidades nervosas, associadas a possessões demoníacas e a doenças da pele. Também é conhecido por ser o patrono dos alfaiates e das empresas de tratamento de peles.
No dia de S. Bartolomeu, é tradição, na Foz do Douro, realizar-se um desfile no qual os participantes vestem trajes de papel, começados a preparar com meses de antecedência. Segue-se, então, o Banho Santo para afugentar o diabo.

 
 

Desfile de S. Bartolomeu, no Passeio Alegre, em 1965
 
 
 
Bartolomeu foi um dos doze apóstolos de Jesus, acompanhando-o até à morte. Também é referido nas escrituras como Natanael (que significa “o dom de Deus” ou “Deus deu”), sendo proveniente de Caná, onde terá testemunhado o milagre de Cristo da transformação da água em vinho.
É-lhe atribuído um vasto apostolado na Índia, na Arábia e na Arménia, com dons de exorcismo. Bartolomeu terá morrido esfolado a 24 de Agosto do ano de 51 d.C., a mando de um governador do Daguestão, sendo mesmo representado por Miguel Ângelo, na Capela Sistina, segurando nas mãos a própria pele. São Bartolomeu ficou, assim, para a história, como o padroeiro dos sapateiros, padeiros, alfaiates e daqueles que trabalham com peles.
No Dia de São Bartolomeu, o diabo anda à solta, segundo a tradição popular.
Foi, de facto, de 23 para 24 de Agosto de 1572, no dia de São Bartolomeu, que sucederam inúmeros assassinatos em Paris, num massacre de protestantes protagonizado pelos católicos.
Durante muitos anos, a imagem de S. Bartolomeu era guardada na Capela de Nossa Senhora da Luz, no Monte da Senhora da Luz, junto do farol.
Porém, durante o Cerco do Porto (1832/1833), tanto a capela como o farol sofreram danos consideráveis. Em 1835, o estado de ruína da capela era tal, que a mandaram demolir.
As imagens de Nossa Senhora da Luz e de S. Bartolomeu recolheram, então, à igreja paroquial da Foz do Douro.
 
 
 
“ (…) as imagens da Senhora da Luz e de S. Bartolomeu, que estavam na capela da Senhora da Luz, haviam sido transferidas para a igreja paroquial da Foz do Douro“.
In jornal “ A Vedeta da Liberdade” de 25 de Agosto de 1835 – 3ª Feira
 
 
 
Como se observa na notícia abaixo, por vezes, quando o dia 24 de Agosto não calhava a um Domingo, o respectivo arraial estendia-se até ao Domingo seguinte ao dia que comemorava o santo. Foi o caso do ano de 1857, quando o dia de S. Bartolomeu calhou a uma 2.ª Feira.
 
 
 
“Ontem houve imensa concorrência à Foz, em consequência da festividade que ali se fez a S. Bartolomeu.
As caleches estacionadas na Porta Nobre iam e vinham cheios de gente, assim como os estacionados em outros lugares.
Quem, à tarde, fosse dar um passeio até ao Ouro gozava um belo panorama. A estrada estava crivada de gente que ia, ou vinha, a pé, as caleches corriam com presteza, ricas berlindas particulares conduziam seus donos. Os pobres barqueiros tiveram pouca concorrência, o que foi devido às caleches, apesar de elevarem ontem quase todos o preço a 240 réis”.
In jornal “O Monitor” de 31 de Agosto de 1857 – 2ª Feira
 
 
 
 
“Foi ontem o dia da romaria de S. Bartolomeu, dia em que a crença popular tem pelo mais aziago de todo o ano, por aquele em que ao príncipe das trevas é permitido vir ao mundo praticar as suas diabruras.
É costume muito antigo da gente do campo aproveitar a manhã do dia de ontem para ir banhar-se ao oceano, o que faz repetidas e sucessivas vezes, muito fiada em que neste dia a água do mar tem virtudes curativas que só de ano a ano possuem.
O costume dura e isso deu lugar a que ontem de manhã na Foz, principalmente na praia dos Ingleses, se vissem muitas lavradeiras tomando banhos uns após os outros”.
In jornal “O Comércio do Porto” de 25 de Agosto de 1865 – 6ª Feira
 
 
 
 

S. Bartolomeu em 1910 – Ed. Emílio Biel
 
 
 
“Fazem-se congressos sobre congressos, discutem-se questões, resolvem-se problemas e, todavia, ainda estão por decidir dois pontos importantíssimos que são o de saber a razão por que se festeja, em S. João da Foz, o S. Bartolomeu, no dia 24 de Agosto e por que é que a gente das aldeias circunvizinhas do Porto desce às praias da Foz e imerge no oceano uma e mais vezes, considerando aquela dose de banhos, por atacado, naquele dia, como uma panaceia anual e eficazíssima.
A multidão invade as praias da Foz, o largo da Igreja, o Passeio Alegre, os restaurantes e, ao entardecer, os char-à-Bancs, carruagens, «coupés» e toda a casta de veículos, acotovelando-se, empurrando, rindo, gesticulando e assim debandam todos para a cidade, alegres e satisfeitos”.
In “Jornal do Porto” de 23 de Agosto de 1873 – Sábado
 
 
Em plena época balnear, a gente a banhos na Foz tinha, então, a possibilidade de participar na festa do S. Bartolomeu.
 
 
 
 

Praia do Caneiro em dia de S. Bartolomeu
 
 
 

Praia do Ourigo e Rua da Praia
 
 
Na foto acima, ao longe, pode ver-se o Molhe de Carreiros e, em primeiro plano, uns jovens de uma colónia balnear.
A decoração festiva e a observação de uma multidão de banhistas, reportará à festa do S. Bartolomeu, em meados do século XX. 
 
 
 
“Bons, saudosos e primitivos eram esses tempos em que a romaria de S. Bartolomeu, na Foz, era, como então se dizia, de “arromba”. De alto lá com ela, diríamos nós agora.
Os carroções do Manuel José d’Oliveira, puxados por bois transparentes como rebuçados, os barcos da Porta Nobre e o «ómnibus» do Cadete começavam logo de madrugada a árdua tarefa, golfando na Foz o seu conteúdo – o Porto em peso, clero, nobreza e povo.
Uma enorme multidão de aldeões e de gentis camponesas assaltava a praia tomando banho. E não menos numerosos eram os espectadores, atraídos pela curiosa cena e pela simplicidade e transparência das «toilettes» de banho, quase paradisíacas.
Em todo o dia, a animação era extraordinária naquela praia. A festa durava até o anoitecer, hora em que principiava a debandada.
O rio tornava a coalhar-se de barcos empavesados e da Foz ao Porto a multidão de romeiros, descantando alegremente, pejava a estrada, dificultando a passagem dos pesados veículos.
Hoje tudo está mudado.
Meia dúzia de desgraciosos aldeões de ambos os sexos, tomando banho na praia solitária; mais tarde, a festa da igreja, simples, modesta. Junto ao Castelo, algumas tendas de doce e tascas ambulantes.
E, finalmente, a concorrência de banhistas e de famílias da cidade no Passeio Alegre, como em todos os dias santificados, durante o estio.
Os «americanos» e as «tipoias de praça» mataram os barcos, os carroções e o óminbus. E a lindíssima e pitortesca estrada do Porto à Foz já não regurgita de bandos festivos de irrequietos e alegres camponeses.”
In jornal “Gazeta de Notícias” de 25 de Agosto de 1890 – 2ª Feira

 
 
 

Praia do Ourigo e a roupa a corar no areal

 
 

Praia do Ourigo em 1964
 
 
 

Praia dos Ingleses no começo do século XX
 
 

Farol de Felgueiras observado desde a Praia dos Ingleses
 
 
Muitas memórias, sob a forma de documentação diversa, ligadas aos festejos do S. Bartolomeu na Foz do Douro, são preservadas pela família de apelido Picarote que, por vezes, as dá a conhecer publicamente, em sessões levadas a cabo na freguesia, com destaque especial para o cortejo de trajes de papel.
Na preparação deste emblemático desfile, têm intervindo diversas colectividades como a Associação Comissão de Moradores do Bairro Social de Aldoar, da Associação de Moradores do Bairro Social da Pasteleira, do Orfeão da Foz do Douro, entre outras, com a colaboração da União das Freguesias da Foz do Douro, Aldoar e Nevogilde (UFAFDN).
 
 
 
 
“O uso dos trajes de papel, como surgiu na Foz do Douro?
 A partir de 1907 foi nomeada uma comissão de festas para a organização de um “tal” arraial da Foz do Douro. O banho terminava sempre na praia dos Banhos, hoje conhecida como a praia do Ourigo. Não se sabe se foi nesse ano que se começou a usar o traje de papel nas ditas festividades. O que ficou enraizado na memória popular é que, na década 20-30 do século passado, um banheiro, antigo embarcadiço de nome Costa Padeiro, ter-se-á inspirado na tradição do julgamento da travessia do Equador (rito ancestral que testemunha a primeira passagem de marinheiros na linha do Equador), e iniciou o costume do banho em vestes de papel. Consta que “dava umas moeditas aos jovens rapazes  [alguns noviços da comunidade marítima] vestidos de jornal que se dirigiam ao mar para entreter a assistência que se reunia na praia”, revela a historiadora Marisa Pereira Santos.
Mas, o uso dos trajes de papel na Foz do Douro é difícil de explicar. É “quando o diabo anda a solta” que o culto a São Bartolomeu e o cortejo encontram o seu contexto devocional. As vestes são, afinal, a metáfora da pele que se dissolve na água do mar para assumir numa nova “roupagem”, vestida de esperança e boa aventurança”.
Fonte: agoraporto.pt
 
 
Em 1955, a Junta de Freguesia da Foz do Douro associa-se aos festejos populares com a atribuição de um subsídio e, em 1963, por intermédio de Joaquim Picarote, o cortejo de trajes de papel renasceu.
Entre 1988 e 1992, o cortejo teve um interregno.
A partir de 1992, a Banda Marcial da Foz do Douro passou a abrir o cortejo.
A partir da edição de 2000, as colectividades começaram a escolher a temática a apresentar no desfile.
O Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu, da Foz do Douro, já foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI) e é candidata à UNESCO, juntamente com três municípios espanhóis que têm tradições próprias de arte em papel.
Assim, os municípios espanhóis de Mollerussa e Amposta (na Catalunha) e Güeñes (no País Basco), embora não façam o cortejo do dia de S. Bartolomeu, juntaram-se à Foz do Douro numa candidatura conjunta para elevar esta arte a Património Imaterial da UNESCO.
No presente ano (2026), o cortejo irá para a rua no dia 30 de Agosto, um Domingo, seguindo desde da Rua das Sobreiras até à praia do Ourigo, onde acontecerá o “Banho Santo”.
 
 

Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu, da Foz do Douro – Fonte: União das Freguesias da Foz do Douro, Aldoar e Nevogilde (UFAFDN)

domingo, 23 de agosto de 2026

25.315 Breve História da Feira do Livro no Porto

 
De 27 de Junho a 6 de Julho de 1931, decorreria junto à estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, a “Semana do Livro do Porto” por iniciativa do livreiro José Augusto da Costa, da Companhia Portuguesa Editora, à Rua da Boavista, que juntamente com Guedes da Silva e José Martins formaram a comissão organizadora desse certame. 
 
 
“Na altura estavam na moda as semanas disto e daquilo. Ainda se realiza anualmente com o nome de Feira do Livro, tendo sido a 1ª vez que se realizou em Portugal tal iniciativa”.
Fonte:  “O Tripeiro” de Novembro de 1959, pag 224 (António M. Barbosa)
 
 
 
 
A primeira "Feira do Livro" do Porto, em 1931, realizada debaixo de um toldo de lona, junto da estátua equestre de D. Pedro IV – Col. De Guedes da Silva

 
 
No dia 28 de Maio de 1932, foi inaugurada, na Praça da Liberdade, a segunda "Semana do Livro do Porto" composta por 17 stands. Durante os dias seguintes, foram proferidas conferências a cargo de Bento Carqueja, Aurora Jardim, Leonardo Coimbra, João Grave, Juliano Ribeiro e Campos Monteiro.
No dia 25 de Maio de 1933, o major Herculano Ferreira inaugura a “III Feira do Livro”, com dezoito stands, na Praça da Liberdade.
A Comissão da Feira, nesse ano, foi composta por José Augusto da Costa, Joaquim Machado e Guedes da Silva. À noite, no Ateneu, Aarão Lacerda faz uma palestra sobre a acção do livro.
Em 30 de Maio de 1934, realizou-se a “IV Feira do Livro” composta por 14 barracas de livreiros, que teve como curiosidade o facto da poetisa portuense Amélia Vilar (1889-1979), contabilista de profissão, nascida na Rua do Belomonte, n.º 74, filha do publicista José Joaquim Marques e de Margarida Guimarães Vilar, se ter apresentado na feira vendendo os seus livros de poesia.
A revista “O Tripeiro”, Vª Série, Outubro de 1953, publicava um poema de Amélia Vilar acompanhado de uma ilustração da casa onde nasceu Amélia Guimarães Vilar da autoria do ilustrador Cruz Caldas.



 

Poema de Amélia Vilar
 
 
 

No n.º 74 da Rua de Belomonte (entrada em primeiro plano, à direita) nasceu Amélia Vilar
 
 
 
 

Livraria Moreira da Costa numa das primeiras “Feira do Livro” na Praça da Liberdade
 
 
 
 

Livraria Moreira da Costa, na Feira do Livro de 1936, na Praça da Liberdade
 
 
 
Desde 2014, a Câmara Municipal do Porto chamou a si a organização da feira, que passou a realizar-se nos jardins do Palácio de Cristal. Antes, até 2012, era organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).
A feira tem passado, desde o seu início, por diversos locais da cidade do Porto, tais como os Jardins do Palácio de Cristal, a Praça da Liberdade, a Praça do General Humberto Delgado, a Praça de Mouzinho de Albuquerque, o Pavilhão Rosa Mota e a Avenida dos Aliados.
Em inúmeros stands, editores e livreiros apresentam anualmente desde as últimas novidades, até fundos de catálogo e restos de armazém, às vezes, a preços quase simbólicos. No decorrer da feira há também, com frequência, espectáculos, concertos, lançamento de livros e sessões de autógrafos.
A Feira do Livro do Porto decorria, em geral, entre os últimos dias de Maio e os primeiros de Junho.
Em 2013, a Feira do livro não se realizou pela primeira vez, desde a sua primeira edição em 1930, depois de um diferendo entre o presidente da câmara Rui Rio e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), depois do Presidente da Câmara se ter recusado a avançar com financiamento, e depois da associação se ter recusado a obter outros modos de financiamento.
Em substituição da feira do Livro, nesse ano, funcionou um simulacro de feira, denominado “Letras na Avenida”, que apenas contou com a presença dos livreiros.
No ano de 2014, depois de novo desentendimento, agora entre o novo executivo camarário da cidade do Porto e a APEL, o novo presidente Rui Moreira, decidiu realizar a Feira do Livro sob organização da Câmara Municipal.
Ao contrário do habitual, a feira passou a realizar-se no mês de Setembro nos jardins do Palácio de Cristal.
A Feira do Livro do Porto passou, também, a ser um grande festival literário, com um extenso programa cultural e de animação que inclui debates com autores conhecidos, sessões de "spoken words", exposições, um ciclo de cinema e uma área infantil, com o apoio da Biblioteca Municipal Almeida Garrett e da Galeria Municipal.
 
 
  
 

Livraria Moreira da Costa, na Feira do Livro, c. 1944, na Praça da Liberdade

 
 
 

Feira do Livro (36ª edição), em 1966, na Praça da Liberdade - Fotograma de filme da RTP
 
  
 
 

Feira do Livro na Praça da Liberdade
 
 
 

Feira do Livro, em 1973, na Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista) - Fotograma de filme da RTP

 
 
Entre 21 de Maio e 10 de Junho de 1993, realizou-se a 63.ª Feira do Livro, no Pavilhão Rosa Mota, por abandono do anterior pouso - a Rotunda da Boavista.
Durante este certame foi exibido um concerto comemorativo dos 50 anos de vida literária dos escritores Eugénio de Andrade e Vergílio Ferreira e organizada uma exposição sobre Almada Negreiros, ente muitas outras iniciativas.
 
 
 

63.ª Feira do Livro no Pavilhão Rosa Mota


 

Feira do Livro na Avenida dos Aliados

 
 

Feira do Livro no Palácio de Cristal

domingo, 16 de agosto de 2026

25.314 Empresas históricas ligadas à actividade cinematográfica

 
Invicta Filmes
 
 
Foi na Quinta da Prelada, na actual Avenida Conselho da Europa, que se localizaram as instalações da Invicta Filmes.
Em 22 de Novembro de 1917, é constituída uma sociedade por quotas, com um capital de 150 mil escudos, denominada “Invicta Film Lda”.
Alfredo Nunes, com actividade anterior ligada ao funcionamento do “Salão Jardim Passos Manuel” como gerente, vai na nova sociedade, dentro do conselho de administração, ocupar o cargo de gerente-técnico após obter o apoio financeiro indispensável do banqueiro José Augusto Dias.
Na sociedade, Henrique Alegria, que tinha estado envolvido na construção e exploração do cinema “Olympia”, vai ser contratado para director artístico.
Alfredo Nunes traz com ele todo o pessoal que já fazia parte da sua pequena empresa, "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)", fundada em 1910, com sede na Rua de Santo Ildefonso, n.º 135.


 

Publicidade a "Nunes de Matos & Cia”, em 1912
 
 
 
Em 1918, Alfredo Nunes e Henrique Alegria partem para Paris para a contratação de pessoal técnico e equipamentos.
Durante a estadia em Paris, conseguem que a conceituada Pathé ceda os técnicos de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu (1869-1948), um operador de imagem, Albert Durot, um chefe de laboratório, Georges Coutable e a sua mulher Valentine, montadora de filmes.
Ainda, em 1918, em terrenos da Quinta da Prelada, propriedade da Santa Casa da Misericórdia, é adquirida uma área de 50.000 m2, onde irão surgir os laboratórios e estúdios da empresa totalmente concluídos, apenas, em 1920.
Até 1924, são os anos de ouro da empresa.
A partir deste ano sucede-se os fiascos de que são exemplo as obras “Cláudia” e “Lucros ilícitos”.
De 1925 a 1928, praticamente, só funciona a sua actividade laboratorial, que será eclipsada pela mesma actividade desenvolvida pela firma “Castelo Lopes, Lda”.
Em 5 de Julho de 1930, é vendido o estúdio da Invicta Film e, em 2 de Janeiro de 1931, todos os haveres da “Invicta Film” vão a leilão e o estúdio onde rodou “Zé do Telhado” é demolido.

 
 

Produção cinematográfica de Georges Pallu


 
 

Filmografia da “Invicta Film, Lda”
 
 
 
A ante-estreia do filme, uma adaptação ao cinema de um conto de Júlio Dantas, "As Aventuras de Frei Bonifácio", teve lugar no dia 5 de Agosto de 1918, no Salão Jardim Passos Manuel. Na tela, actuavam os artistas Maria das Neves, Duarte Silva, José Silva, António Vale e alguns mais.
No dia 6 de Julho de 1919, no Teatro Sá da Bandeira, ocorre a ante-estreia do filme de Georges Pallu, baseado no romance "A Rosa do Adro" do jornalista, escritor e apaixonado pela arqueologia Manuel Maria Rodrigues (1847-1899), nascido em Valença do Minho e cuja narrativa se situa nas vivências de um triângulo amoroso.
Tendo sido jornalista do jornal "O Comércio do Porto", Manuel Maria rodrigues foi, ainda, correspondente dos jornais "O Século" e do "Comércio de Portugal".
A sua paixão pela arqueologia, para a qual não tinha formação académica, colocou-o, por vezes, no centro de polémicas públicas nas quais foi muito criticado e, até, ridicularizado.
 
 
 

A Rosa do Adro - Fonte: frame do filme de Georges Pallu, 1919
 
 
 
 
No dia 23 de Novembro de 1919, em ante-estreia para a crítica, imprensa e para as personalidades convidadas, é passado no Salão Passos Manuel "O Comissário de Polícia", com argumento de Gervásio Lobato, que obteve larga aprovação.

 
 
 

Invicta Filmes, na Prelada
 
 
 
Na foto acima, em primeiro plano, observa-se o edifício onde estavam sediados os escritórios e o laboratório da Invicta Film e que, hoje, é o chão do cimo da Avenida do Conselho da Europa, na confluência com a Rua da Prelada. Neste edifício, após o seu abandono pela Invicta Film, em 1928, pois os laboratórios mantiveram-se em actividade para além do encerramento da empresa, se instalou a fábrica Faria, Fonseca & C.ª. Esta empresa era também conhecida como a Fábrica de Acabamentos do Carvalhido e, por aqui esteve, desde 1933 até 1969.
À esquerda, mais afastado, o barracão com estrutura metálica, que funcionava como estúdio de filmagens, foi desmantelado logo que se deu a falência da empresa.
 
 
 
“A Invicta Film foi uma produtora portuguesa de cinema, sedeada na cidade do Porto, cuja actividade se destacou nos anos vinte, com um número significativo de filmes relevantes para a história do cinema em Portugal.
O produtor portuense Alfredo Nunes de Matos tinha a sede de uma modesta empresa, fundada em 1910, no nº 135 da rua de Santo Ildefonso, no Porto. Em 1912 muda-se para uma dependência do Jardim Passos Manuel, dando à firma o nome de "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)".
Produz «panorâmicas», documentários de propaganda comercial, industrial e de actualidades. Vários deles são exibidos em Portugal e no estrangeiro. É fornecedor de jornais nacionais para firmas tão importantes como a Pathé e a Gaumont, sociedades francesas com um papel determinante na distribuição e exibição de filmes na França e no mercado internacional. É o caso de alguns filmes de particular significado, como as Manobras Navais Portuguesas ou as Grandes Manobras de Tancos (1912, exercícios de preparação do exército português para eventuais conflitos) ou ainda O Naufrágio do "Veronese" (imagens de um desastre marítimo ocorrido em frente da Boa Nova, em Leça da Palmeira, perto de Leixões, na madrugada de 10 de Fevereiro de 1913). O jornal de actualidades causa sensação em Portugal e no estrangeiro. Desse filme são vendidas mais de cem cópias, para a Europa e Brasil.
O projecto de Nunes de Matos consolida-se com a adesão de outros interesses, de gente bairrista do Porto, encabeçados pelo banqueiro José Augusto Dias, já a guerra tinha feito muitos mortos. No cartório do notário António Mourão é assinada a 22 de Novembro de 1917 a escritura de uma sociedade por cotas, de responsabilidade limitada, designada como Invicta Film Lda., com o capital de 150.000 escudos, uma quantia muito avultada à época. São sócios umas dezassete importantes personalidades. As cotas vão de cinco a sete contos.
Entretanto, em 1907, instalara-se ali mesmo ao lado o dono da Fundição Alegria & Cª, empresa do Rio de Janeiro, um retornado português, chamado Henrique Ferreira Alegria. Interessado pela exibição cinematográfica, abrira a 18 de Maio de 1912 o Cinema Olympia, a dois passos do Jardim Passos Manuel. Acaba por ser integrado na nova empresa como director artístico, isto é, como director de produção. Matos e Alegria partem juntos para Paris em meados de Janeiro de 1918. Numa entrevista ao jornal O Século, dada no dia 14 desse mês, Nunes de Matos declara: «Vou em primeiro lugar a Paris e à Itália procurar o que há de melhor, a última palavra em mecanismos. Porque o meu principal intento é emancipar-me de estrangeiros, embora não deixe de concordar que, para começo, é lá que tenho de ir buscar tudo». Deixa também claro que tenciona trazer de lá um régisseur à altura das suas ambições.
Em Paris, junto da Pathé Frères, na Rue de Ravart, obtêm os viajantes «a mais perfeita e amigável compreensão» e, coisa não menos importante, o plano e o projecto das futuras instalações dos estúdios da Invicta Film. Cede-lhes a Pathé também os técnicos de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu, um operador de imagem, Albert Durot, um chefe de laboratório, Georges Coutable e a sua mulher Valentine, montadora de filmes, O casal será mais tarde substituído por outro operador e outra montadora, vindos também da Pathé, J. Trobert e Madame Meunier. É contratado ainda um arquitecto decorador, Albert Durot, depois substituído por Maurice Laumann, também dos quadros da Pathé.
O convénio entre as duas empresas é assinado a 17 de Fevereiro. A 12 de Março de 1918 é firmado o contrato de trabalho entre a Invicta Film e Pallu, que se responsabiliza pela escolha dos argumentos com o director artístico, pela sua adaptação para cinema e ainda pela montagem dos cenários. Seria ele também o responsável pela construção do estúdio. O contrato era de um ano, mas a colaboração duraria cinco. É Pallu quem traz para a empresa o realizador Rino Lupo, que será também, com Pallu, um dos dois mais importantes realizadores da Invicta Film.
Com nova maquinaria a sociedade decide comprar à Misericórdia uma vasta área de terreno pertencente à Quinta da Prelada que tinha sido dos Noronhas.
Aí são construídos os Laboratórios e os Estúdios que estariam apenas prontos em 1920, não impediu, entretanto, que fossem produzidos alguns filmes.
Georges Pallu escolhe como primeira obra a adaptação de um conto inédito de Júlio Dantas, Frei Bonifácio, que seria entretanto publicado no jornal lisboeta O Dia, em 2 de Outubro de 1918. O filme estreia em Lisboa, com bons resultados, no cinema Olympia, uma das mais prestigiadas salas da cidade, a 4 de Outubro. Realizados por Pallu em 1919 seguem-se A Rosa do Adro e O Comissário de Polícia, com estreia na mesma sala, o primeiro em 27 de Outubro e o segundo em 2 de Fevereiro do ano seguinte. Uma outra obra, O Mais Forte, produzida nesse mesmo ano, serve para testar os estúdios então abertos na Quinta da Prelada,
O segundo grande empreendimento da Invicta Film é a adaptação da obra de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, em 1921, obra realizada também por Pallu. O filme estreia em 28 de Novembro em Lisboa, no cinema Condes. Segue-se Mulheres da Beira e Quando o Amor Fala.
«Uma tarde de Agosto de 1921 um homem de aspecto estranho, de estatura mediana e de olhos vivos a espreitarem por detrás de umas lunetas pequenas, que cintilavam sob um boné de viagem enterrado até às orelhas, transpôs o portão da Quinta da Prelada».
O homem, um estrangeiro, pretende falar com a gerência. Quem o recebe é George Pallu. Diz o estrangeiro que se chama Rino Lupo, que é de origem italiana, que trabalhou na conhecida produtora francesa de Léon Gaumont como régisseur, que ouviu falar em Varsóvia dos progressos da Invicta Film por um português que por lá andava, que gostaria de colaborar com a empresa e ficar por algum tempo em Portugal. A conversa de Lupo convence Pallu e ele é contratado. A direcção dos projectos da Invicta Film será partilhada a partir de então entre os dois realizadores.
Os resultados um tanto «atrabiliários» do trabalho de Lupo devidos à sua mania do improviso e ao seu modo desorganizado levam ao seu despedimento (1923).
Persistente e agora seduzido pelo sol de Lisboa, mais quente que o do Porto, muda-se para a capital onde abre a Escola de Arte Cinematográfica com sede no nº 182 da Rua da Palma. Mas, imprevisível como é, regressa de novo à invicta cidade onde funda a sua Escola de Cinema, da qual sairão formados os actores da melhor das suas obras, Os Lobos (1923), produção da Ibéria Film, que com nova montagem, será aceite pela Gaumont para distribuição internacional (1924).
Rino Lupo dirigirá ainda em Portugal mais quatro filmes: Carmiña, Flor de Galicia, versão espanhola de Mulheres da Beira (1926), uma obra inacabada, O Diabo em Lisboa (1927), Fátima Milagrosa (1928) e José do Telhado (1929). Lupo deixa Portugal, já na época do filme sonoro, em 1931.
Quem entretanto também abandona a Invicta Film por razões contratuais é o operador de imagem Artur Costa de Macedo depois de ter filmado as Mulheres da Beira. Fora ele o responsável pela cobertura de alguns dos aspectos mais emocionantes da aventurosa travessia aérea do Atlântico empreendida por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
São no entanto insuficientes as receitas. Não existe rede de distribuição que sirva os interesses da empresa. Os problemas financeiros surgem a partir de meados de 1923. Tenta-se ainda exportar alguns dos filmes já produzidos para o Brasil e Estados Unidos, visando os centros de emigração. Consegue-se vender alguns, mas os resultados são poucos.
A Invicta Film dispensa todo o pessoal da produção a 15 de Fevereiro de 1924, mas mantém o laboratório aberto. Encerra definitivamente a actividade em 1928.
Fica encerrado assim também o ciclo de alternâncias entre o Porto e Lisboa, na predominância das actividades de produção, desde que surgira o primeiro filme português. A criação dos laboratórios da Tobis Portuguesa no começo dos anos trinta, com o advento do sonoro e com equipamentos de ponta, completa a reviravolta”.
In  pt.wikipedia.org


 

Estúdios da Invicta Filmes na Prelada


 

Central eléctrica da Invicta Filmes em 1920


 
 
Caldevilla Filmes
 
 
A “ETP- Empreza Technica Publicitária” de “Raul de Caldevilla & C. Lda”, seria fundada em 1912, por Raul Caldevilla, na Rua de 31 de Janeiro, nº 165, após o seu regresso à cidade, depois de ter sido vice-cônsul em Cadiz e agente comercial na América Latina, Egipto e Médio Oriente.
Em 1917, a ETP muda-se para o Palacete do Conde do Bolhão, na Rua Formosa.


 

Instalações na Rua 31 de Janeiro – Fonte: restosdecoleccao.blogspot.pt



 

Instalações, a partir de 1917, no Palácio do Bolhão – Ed. Photo Guedes

 
 

Interior das instalações no Palácio do Bolhão – Ed. Photo Guedes



 
“Actor teatral nos primórdios do Século XX, o nome de Raul de Caldevilla, como inspirador publicitário, destacou-se no cinema português em 1917. Uma espectacular operação promocional a nova marca de bolachas, levou Caldevilla a contractar dois acrobatas espanhóis para escalarem a Torre dos Clérigos, o que fizeram sem recurso a qualquer apoio. Já no cimo, os ginastas tomaram uma chávena de chá e comeram as petit beurre Invicta, lançando ao mesmo tempo panfletos sobre a multidão reunida para o efeito - cerca de 150.000 pessoas. Da proeza, a Caldevilla Film retiraria «Um Chá nas Núvens».
Em 1919, Raul de Caldevilla prestigiou-se ao organizar o lançamento comercial de A Rosa do Adro, dirigido por Georges Pallu para a Invicta Film, anunciado sob o lema «Romance Português - Filme Português - Cenas Portuguesas - Actores Portugueses». Três anos depois, com mais altas ambições, a Caldevilla Film contratou o francês Maurice Mariaud - que trabalhava para a Gaumont - com a incumbência de dirigir Os Faroleiros (1922), um «drama-documentário», de que também foi argumentista e intérprete.
O vislumbre de Raul de Caldevilla está patente no respectivo folheto de divulgação: «O cinematógrafo moderno tem-se distanciado muito, nos temas escolhidos e nos fracassos, da técnica de há vinte anos. Já hoje dificilmente se suportam - e vão sendo postos de parte no estrangeiro - esses longos filmes em séries de enredo complicado e por vezes falhos de verosimilhança. O público de hoje, talvez por motivo da vida intensa que leva e lhe proporciona certos lazeres, escolhe de preferência películas de não muito longa metragem». A rodagem teve lugar na Caparica e farol do Bugio.  
Logo após Os Faroleiros, Mariaud filmou As Pupilas do Senhor Reitor para a Caldevilla Film. O romance de Júlio Diniz foi adaptado pelo director literário da empresa, Campos Monteiro. A filmagem de interiores concretizou-se na abegoaria (Dependência onde se alojam os animais e alfaias agrícolas), da Quinta das Conchas, em Lisboa, não chegando à edificação o ambicionado estúdio, cujos planos tinham acompanhado Raul de Caldevilla desde o Porto. De facto, sobrevieram litígios com os responsáveis capitalistas da empresa, pelo que em 1923 pediu a demissão de administrador-gerente da Caldevilla Film.
Declinava, assim, um sonho que tivera repercussões insuspeitáveis, a ponto de ser apresentado em 1921, à Câmara dos Deputados, um projecto de lei que isentava a empresa de impostos, durante dez anos - como contrapartida a impressionar, apenas, «assuntos genuinamente portugueses, baseados na história ou na literatura nacionais». Pelo Verão de 1925, a Caldevilla Film desmantelava-se simbolicamente, com um leilão público de todo o material.”
Fonte: cvc.instituto-camoes.pt/cinema


 
Como complemento, diga-se que, no ano de 1921, uma outra empresa produtora de filmes seria fundada a “Fortuna Film” de Virgínia de Castro e Almeida, a romancista que chegada de França, onde tinha acompanhado o desenvolvimento da 7ª arte e, apaixonada da mesma, monta aquela empresa, que com a “Invicta Film” e a “Caldevilla Film”, irão dominar a produção cinematográfica nacional.