sexta-feira, 17 de julho de 2026

25.311 Uma breve estadia na baixa do Porto

 
- A crónica que se segue reúne um conjunto de memórias a propósito de uma visita que fiz, em 1909, à baixa do Porto, ilustrada com fotos públicas da época, que guardo na minha colecção.
Porto, 17 de Julho de 1949
 
 
A Foz do Douro estava já em plena calmaria, após mais uma época sazonal, da ida dos portuenses a banhos, aproximando-se, agora, a abertura e começo das aulas.
Na 4.ª Feira, 29 de Setembro de 1909, portanto, há mais de três décadas, apanhei a “Máquina” n.º 5, em Cadouços, quando ela voltava de Matosinhos e saí para apanhar, na Rotunda da Boavista, o carro eléctrico n.º 37 de 8 janelas e ainda de plataformas abertas, pois os veículos de plataformas fechadas, só a partir daquele ano, começaram a ver a luz do dia.
Finalmente apeei-me, na Praça D. Pedro.
 
 
 
 

A Máquina n.º 5, aproximando-se de Cadouços, vinda de Matosinhos
 
 
 

Carro eléctrico n.º 37, passando na Praça da Batalha, c. 1905
 
 
 
Segundo tinha lido, a empresa Brill estava prontinha para começar a entregar à Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP), viaturas do modelo Brill 23, de uma encomenda de 20 unidades.
Tudo isso se viria a concretizar, de facto, recebendo essas unidades a numeração de 251 a 270.
Também já tinha ouvido falar que, naquele ano, a CCFP decidira adquirir cinco carros da UEC de Preston, na Inglaterra.
Não tivera, no entanto, como é óbvio, a oportunidade de viajar nesses novos veículos, que começariam a ser entregues.
Há pouco mais de um mês, tinha ocorrido uma greve, entre o início do mês de Julho e o início de Agosto, dos guarda-freios e condutores da Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP), que lutavam por melhores salários, que provocou grande alvoroço na cidade.
A situação já estava, no entanto, normalizada.
 
 
 

Carro eléctrico nº 169 (CCFP) de 6 janelas
 
 
Na foto acima, um militar do Regimento de Engenharia, conduz um elétrico durante a greve da "Carris", em 1909.
 
 
 

Durante a greve de 1909, na Estação da Boavista, onde se mudava da Máquina para o carro eléctrico e vice-versa
 
 
 
 
Dirigi-me, então, ao quiosque do Sebastião, vizinho da estátua equestre de D. Pedro IV, onde comprei o jornal “A Voz Pública” e lhe encomendei o “Diário da Tarde”, que tinha ali mesmo, no edifício das Cardosas, a sua redacção.
 
 
 

C. 1909, à direita, no palacete das Cardosas, entre o piso térreo e o 1.º andar, uma tabuleta anunciava o “Diário da Tarde” e, à esquerda, está o quiosque do Sebastião e o novo prédio da Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão
 
 
 

“A Voz Pública” cerrou portas, na Rua de Santo António, n.º 184-A
 
 
 
Sebastião far-me-ia o obséquio de o deixar, no Hotel Francfort, onde eu iria pernoitar.
O “Diário da Tarde” existiu entre 1871 e 1874 e, depois de um interregno, voltou às bancas em 1898 e manteve-se até 1911, enquanto a “Voz Pública” publicou-se de 1891 a 1909. Por sinal, este número que tenho na mão é o penúltimo e, amanhã, será editado o último.
Para recordação, solicitei ao Sebastião que mo guardasse esse derradeiro exemplar que, no dia seguinte, recolheria. Entretanto, paguei em adiantado os exemplares reservados.
No 1.º dia de Outubro, já estaria nas bancas, pela primeira vez, “A Pátria”, que tomou o lugar de “A Voz Pública”, situando-se na mesma linha editorial de defesa dos ideais republicanos. Haveria, em 1918, com a ascensão do sidonismo, de ter grandes problemas.
E quem era este Sebastião, com o apelido de “correligionário”?
Fosse de que partido político fosse o freguês que lhe comprava o jornal, ele cumprimentava-o da seguinte forma: Então como passa o correligionário?
O quiosque não era propriedade do Sebastião que, de facto, o tinha arrendado à Câmara.
Antes, o Sebastião esteve, a nascente da praça, com vistas para a estátua equestre de D. Pedro IV, quase na esquina do edifício com fachadas voltadas para aquela praça e para o Largo da Feira de S. Bento. 
Em 1892, ainda o Sebastião estava por lá.
O negócio era feito através do peitoril de uma janela para o passeio.
O senhorio, o banqueiro Pinto da Fonseca, necessitou de fazer obras no prédio e foi necessário reconstruí-lo.
Foi quando o Sebastião se instalou no quiosque de ferro, propriedade da Câmara.
Seguramente, antes de 1896, o Sebastião mudou-se para a sua nova morada.
 
 
 

Nos baixos do prédio da esquina, à esquerda, começou Sebastião a sua labuta. Dali, assistiu a todos os acontecimentos do 31 de Janeiro de 1891, cujos pormenores relatava empolgado
 
 
 
 

Sebastião, c. 1895, já ocupa o seu quiosque, vindo do prédio da esquina, adossado à igreja dos Congregados que, no fim do século XIX, já estará substituído por outro, que alojará a “Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão”


 
 

O Quiosque do Sebastião, em 1903, com o novo edifício da “Casa Bancária Pinto da Fonseca & Irmão” já construído, à direita e, a poucos metros, após o segundo toldo, o restaurante “O Camanho”
 
 
 
Pois, para fazer horas, dirigi-me de jornal debaixo do braço em direcção ao Largo do Laranjal, subindo a Rua D. Pedro, deixando para trás, à esquerda, a redacção do Jornal de Notícias e estava chegado ao Café Primavera, que não tinha ainda frequentado e foi inaugurado, no ano anterior, em 1908.
Antes, ainda no começo da Rua D. Pedro, deixei a pequena mala que me acompanhava e comportava uma muda de roupa interior e uma camisa de dormir e marquei aposentos para a noite daquele dia, no Hotel Francfort.
Chegado ao café Primavera, sobre o qual um cronista da época disse:
 
 
 "A sua clientela era heterogé­nea. Entrava lá de tudo. Desde o cocheiro e o operário ao jor­nalista e comerciante, parava por lá, enfim, gente de toda a esfera social, talvez, é de crer, levada pelas estonteantes di­versões (leia-se bailarinas es­panholas) que o seu proprietá­rio apresentava diariamente como reclamo essencial ao bom êxito do seu negócio". 
 
 
 
Por outras ocasiões, voltei a este café e não pude estar mais de acordo com a apreciação supra, enquanto se manteve pelo Laranjal.
Quando passou para a Travessa da Picaria, junto aos Lavadouros, em 1917, deixei de frequentar.
Aberto o jornal, na primeira página, lá estava o anúncio da saída para as bancas do jornal “A Pátria”.
 
 
 

Anúncio de lançamento de “A Pátria”, em 1909

 
 
Um outro anúncio, porém, me chamou a atenção. Dizia respeito à programação para esse dia do cinematógrafo, “Novo Salão High-Life”, à Praça da Batalha que, mais tarde, se viria a chamar cinema Batalha.
Tinha sucedido a um outro High-Life, que continuaria de portas abertas na Cordoaria e que, no último ano e meio, continuei a frequentar.
Vai ser, portanto, o meu baptismo no novo cinematógrafo.
Para outa vez, deixaria a visita ao Jardim Passos Manuel, que o meu amigo Luiz Faria Guimarães dirigia com sabedoria e que, naquela noite, apresentaria o músico Saldac que, na concertina, há dias, deliciava os espectadores, interpretando trechos da “Tosca”, “Viúva Alegre”, “Alma de Dios”, “Bohémia”, “Coppelia” e “Sorriso de Abril”, entre outros.
 
 
 
 

Publicidade ao Novo “High-Life” em 29/09/1909, 4.ª Feira, no “Voz Pública”
 
 
 
Resolvi que iria assistir, apenas, ao quadro das 8 horas da noite e regressaria à Praça D. Pedro para cear no restaurante Camanho.
Lamentavelmente, por que o meu amigo Manuel Camanho já tinha falecido, em 1902, estabeleceria conversação com o seu filho Carlos, que conhecia há muitos anos e era também um bom interlocutor.
Até já tinha o tema em mente: seria a história que ele tinha contado a uma revista de assuntos portuenses, saída no ano anterior, em que dava a conhecer o início da vida empresarial do seu pai.
Como não estávamos em tempos de lampreia, escolheria o bife na caçarola.
Então, entre 1870 e 1917, a nascente da Praça D. Pedro, existia o famoso restaurante "O Camanho", fundado por Manuel José Camanho, de origem espanhola, com um esmerado serviço de restaurante, sendo especialmente apreciados os pratos de peixe, as costeletas e se almoçava, jantava ou ceava, lampreia à bordalesa e bifes de caçarola.




Restaurante Camanho



Por aquelas bandas, esteve também o café Guichard, mas “O Camanho” é posterior a ele.
Manuel José Camanho chegou ao Porto, na primeira metade do século XIX, tendo sido empregado de Frederico Clavel, um empresário cervejeiro e, por aqui, acabaria por montar um restaurante que foi uma referência na cidade do Porto.
Frederico Clavel estava bem estabelecido no ramo cervejeiro, possuindo uma fábrica de cerveja nas Escadas do Codeçal que, em 1865, transferiu para a Rua de Camões, n.º 91.
Por informação pública de Carlos Camanho, filho de Manuel José Camanho, na revista “O Tripeiro” de 10 de Dezembro de 1908, seu pai teria adquirido por compra a seu patrão, em prestações mensais, por contrato de 30 de Outubro de 1868, uma cervejaria sita na Rua do Bonjardim, n.ºs 148 a 150.
Carlos Camanho lembrava-se bem, que seu pai lhe tinha contado de ter dado colo a Heitor Guichard Júnior e de que Heitor Guichard (pai) e Frederico Clavel serem amigos e puderem ter, ainda, para além da amizade pessoal, uma ligação profissional. O estabelecimento da Rua do Bonjardim, segundo ele, teria pertencido inicialmente a Heitor Guichard.
Na realidade Heitor Guichard era o dono da fábrica de cerveja de Arnelas, em V. N. de Gaia, por isso, era lícito extrapolar.
Passados dois anos, em 1870, Manuel José Camanho transferiu o estabelecimento para uma nova morada, nas imediações do célebre café Baviera, na Praça D. Pedro.
Em 1880, foram executadas obras de ampliação do espaço comercial e o Restaurante Camanho entrou em velocidade de cruzeiro.
Para a posteridade ficaria a expressão : “É do Camanho”!
Por descrições feitas, por quem conheceu bem o primitivo “O Camanho”, a sua sala não era muito ampla, mas era arejada e bastante iluminada (uma característica pouco comum aos cafés daquele tempo que, por regra, ocupavam salas pequenas e pouco ventiladas) e que, rapidamente, se transformou no centro de cavaqueira e de reunião preferido dos literatos, professores, políti­cos e negociantes do Porto desse tempo.
O estabelecimento começou por servir quase que exclusivamente bebidas, principalmente as bebidas tradicionais daqueles tempos:
 
“ (…) o porto, e havia-o da colheita de 1815; a genebra Fockink, nas suas tradicionais botijas de grés; o então muito apreciado gim; várias marcas de uísques escoceses; e, claro, o alucinante absinto”. 
 
Mas, não tardou, que começasse a ter um esmerado serviço de restaurante sendo especialmente apreciados os pratos de peixe, as costeletas e onde se almoçava, jantava ou ceava, lampreia à bordalesa e bifes de caçarola, por pouco mais de cinco tostões.
Lá, se reuniam Guerra Junqueiro (1850-1923) com a sua inseparável bengala, Rodrigo Salgado Zenha (1860-1902), Camilo (1825-1890), o pintor Francisco José de Rezende (1825-1893) e tantos outros famosos artistas, políticos, literatos e cientistas do tempo.
De todos os mencionados, apenas Guerra Junqueiro se mantinha entre os vivos, à data.
Guerra Junqueiro ia frequentemente e era conhecido por sair às 11 horas em ponto, quando ouvia as badaladas da torre da Lapa.


 
 

Restaurante “O Camanho”, em 1901, durante um brinde entre amigos, vendo-se, ao centro, Rodrigo Salgado Zenha, à sua direita, o capitão Rodrigues e, à sua esquerda o ten-cor José Fumega – Foto de floricultor Augusto Pinto Chaim júnior
 
 
 
 
O restaurante Camanho haveria de receber, em Novembro de 1908, o rei D. Manuel II, durante uma sua visita ao Porto. O convite, para o efeito, partiria do Dr. Júlio da Fonseca Araújo (presidente da Associação Comercial do Porto entre 1906 e 1911).
Francisco Guimarães (Guido Severo), cronista da época, sobre as personagens que frequentavam o Camanho, disse:
 
 
" (…) as melhores rodas do Porto" e especificou: "jornalistas e poetas; mundanos e "noceurs"; comerciantes, industriais, professores, banqueiros, enfim, tudo o que tinha um nome na política, na ciência, na literatura, na arte, na esfera dos negócios e no âmbito das ideias, ou mesmo qualquer pessoa que começasse a afirmar-se em radiosas esperanças, dentro do minúsculo mas curioso caleidoscópio da vida portuense daquele tempo, não desdenhava de abancar, de forma transitória ou diariamente, ao redor das mesas de mármore branco do Camanho". 
 
 
O sítio da sala mais ruidoso, onde as conversas decorriam num tom mais acalorado era aquele em que se juntavam os jornalistas. Quase todos, os daquele tempo, por lá passavam. Citando, apenas, os mais conhecidos: João Grave que dirigiu o "Diário da Tarde"; Pai Ramos, de "O Primeiro de Janeiro"; Marcos Guedes, correspondente no Porto de "O Século"; Guedes de Oliveira; e o caricaturista Manuel Monterroso.
Por cima do balcão, na foto abaixo, vê-se uma escada de acesso às prateleiras cheias, das mais variadas bebidas, do Camanho.
 
 
 
 

Café Camanho
 
 
 
Na foto acima, está o velho Manuel José Camanho ladeado pelo moço da copa e pelos criados Pedro e Tomás.
 
 
 
 

No 2º prédio a contar da esquerda, centrado entre as duas árvores, é o Camanho, na Praça D. Pedro


 
Em virtude do arranjo urbanístico que ocorreria na baixa do Porto, a partir de 1916, Carlos Camanho acabaria por transferir o Camanho para a Rua de Sá da Bandeira.

 

Publicidade ao Camanho, já na Rua Sá da Bandeira, em 1923
 
 
 
Mas, decidido o local da ceia, o almoço já estava marcado há alguns dias. Para o efeito, incumbi um amigo para me marcar o repasto, uns dias antes, no Restaurante o “Túnel”, na Rua do Bonjardim, entre as ruas de Fernandes Tomás e Guedes de Azevedo (este topónimo, desde 1901, substituía o anterior de Rua de Fradelos), à direita de quem subia o Bonjardim, para as bandas do Largo de Santo António do Bonjardim. 
A escolha do café Primavera não tinha sido ao acaso, pois, escalada a Rua da Cancela Velha, voltava à esquerda, passava Liceiras e o Túnel já estava à vista.
Andava com saudades de comer um bacalhau assado no forno, preparado pela cozinheira belga, Anne Marie Adèle Heiderscheidt da Silva, esposa do Francisco Silva, “criatura baixa, com uns olhinhos muito vivos e uma pêra muito bem tratada”.
Francisco não admitia reparos e era exigente na marcação antecipada das refeições, pois precisava de tempo para preparar e demolhar as postas de bacalhau. Qualquer comentário menos abonatório sobre a qualidade da comida  era por ele rejeitado. Daquilo, percebia ele.
Aquele nome de Túnel era consequência de a ele se aceder, por um estreito portal, muito comprido, que terminava numa quadra térrea, larga e ampla, ao lado da qual havia “gabinetes”.
Longe estava de calcular, que passados dois anos, em 1911, o “Túnel” iria passar para Largo de Santo António do Bonjardim, perdendo-se a entrada característica do túnel que lhe dava o nome.
Passada mais de uma década, em 1922, o “Túnel” encerrava definitivamente. Paciência! No Porto, nunca faltaram bons restaurantes.
Acabado que foi o almoço, teria pela frente uma tarde com os múltiplos afazeres que ali me tinham conduzido.

 
- Pretendo, durante esta tarde, na Casa Fígaro, à Praça da Batalha, fazer um corte de cabelo, munir-me dos meus perfumes favoritos e, na oportunidade, tratar de um calo no pé direito, que me anda a incomodar e ainda, nos baixos do prédio comprar os meus cigarros ingleses da Rothman, na Tabacaria Trindade, que Januário Trindade fundou há alguns anos.
Antes, ainda passo pela Praça D. Pedro para dar umas tacadas, no café Suisso, que tem os melhores bilhares da cidade.
Desde de que o café Suisso sofreu obras, em 1902, o seu salão de quatro bilhares é muito atractivo, situando-se logo após a sala de entrada, que funciona como café e ostenta os seus grandes espelhos.
Por vezes, após a jogatana, gosto de frequentar o seu restaurante, no 1.º andar, o que hoje não é o caso.
Dezenas de “carambolas” depois, sigo, então, o rumo da Praça da Batalha, acabando por fazer, também, por recomendação de um amigo, uma visita a uma nova joalharia, que abriu em 2 de Março 1905, na Rua de Santo António, n.º 174, a “Joalharia Miranda, Filhos & Duarte”, pois necessito de adquirir uma prenda para alguém muito especial.
Chegado à Praça da Batalha, espreito o arruinado Real Teatro S. João, alvo de um incêndio catastrófico, na noite de 11 para 12 de Abril de 1908.
O teatro por ali continua, exibindo a sua ruína.
 
 
 

À esquerda, o edifício da Câmara Municipal e, à direita, vê-se uma nesga do prédio onde estava o café Suisso, no começo do século XX
 
 
 
 

A Casa Fígaro e a Tabacaria Trindade, no começo do século XX
 
 
 
À esquerda da foto, no local do prédio, em que se vê apenas uma nesga, iria surgir, em 1920, o Café Chave D’0uro, que frequentei na companhia do meu bisavô.
À direita, não visível, ficava, desde há anos, a Tabacaria Africana, à data, de Alberto Vieira da Cruz, que a tinha tomado, por trespasse, de António de Almeida Campos, em 1902.
Aqui, em diversas ocasiões, comprei os meus havanos.

 
 

Tabacaria Trindade, entre 1902 e 1910
 
 
 
 

Joalharia “Miranda, Filhos & Duarte”
 
 
E a tarde seria cumprida conforme o que tinha previsto.
Com muito apetite entrei, pouco passava das nove horas da noite, no Camanho, onde Carlos me recebeu com toda a sua simpatia.
O bife na Caçarola foi acompanhado com uma boa conversa com o Carlos Camanho, que me precisou alguns dos factos que tinha tornado públicos na revista “O Tripeiro”, sobre a história do seu restaurante.
Cheguei ao Francfort já passava das onze horas da noite.


 
 

Hotel Francfort, c. 1909
 
 
 
Pedi o meu “Diário da Tarde”, que Sebastião deixou para mim na recepção e dirigi-me à sala de leitura e de fumo e, nunca pensei, por lá encontrar alguém. Enganei-me. A fumar o seu charuto e a ler um periódico, com a sua provecta idade de 87 anos, estava um amigo do meu pai, que me conhecia desde jovem: o conde Alves Machado que deste hotel fez a sua residência por anos.
Foi interessante a troca de impressões com o ancião, que continuava muito lúcido.
Ele estava receoso e temia pela situação política do país. Tinha-se encontrado, cerca de dois meses antes, durante a visita ao Porto do rei D. Manuel II, no âmbito das comemorações do centenário da Guerra Peninsular e pareceu-lhe que o monarca estava desanimado e não pressagiava nada de bom.
Nessa noite, dormi de uma vez só.
Levantei-me e fui tomar o pequeno-almoço ao café Suisso e, pelas 9 horas, já entrava no meu alfaiate, o Amaral, para o que tive, apenas, de atravessar a Rua de Sá da Bandeira que, após a implantação da República, passou a Rua Sampaio Bruno. Nos baixos do prédio, ficava o Crédit Franco-Portugais e alguns metros depois a delegação do Banco do Minho.
A última foto mostra uma tabuleta anunciando o Amaral.
 
 
 
- Feitas as necessárias provas para ultimar o fato que vou levar ao casamento de um sobrinho, dirijo-me à Praça D. Pedro para tomar uma caleche (carruagens de aluguer puxadas a cavalos). É que pretendo, matar saudades deste transporte, que adoro. Na volta, no regresso à Foz, poderia apanhar aqui, um carro eléctrico da Carris, mas fá-lo-ei, apenas, a partir da Praça do Infante D. Henrique. Irei pela Linha da Marginal.
Não me esqueci e sigo ao quiosque do Sebastião para recolher o último exemplar de “A Voz Pública”.
Tenho a hipótese de descer a Rua Mouzinho da Silveira ou de descer a Rua da Restauração. Prefiro a primeira hipótese e dou as ordens ao cocheiro. Não me arrependo. A Rua Mouzinho da Silveira continua a ser urbanizada e os prédios são um encanto.
Depois de apreciar a viagem de caleche, já me encontro no carro eléctrico n.º 150 de 6 janelas”.

 
 

Praça D. Pedro, em 1909, com o seu intenso movimento de trânsito de caleches, carros eléctricos e carros de bois
 
 
 
- Na foto acima, o eléctrico n.º 124 de 6 janelas e plataformas abertas é da série do que apanhei na Praça do Infante que tinha o n.º 150.
Desvendando o futuro, conto que esse veículo, em 1911, caiu ao rio Douro no Cais das Pedras, resultando do acidente 31 feridos e 14 mortos.
Vou aproveitar para passar os olhos pelo jornal e apreciar a paisagem.
Em Miragaia, a nova Alfândega sobressai…é um edifício imponente.
Massarelos está como sempre e para aqui, no local que foi a residência do Barão de Massarelos decidiram construir a nova central eléctrica da CCFP, que continua a expandir a sua frota.
Mais à frente, passo na actual central eléctrica da Arrábida, que já não chega para as encomendas e para a expansão da frota da CCFP. Lá está a segunda fonte da Arrábida.
Agora, passo, pelo Ouro, com a sua antiga estação de muda. Está como sempre.
 
 
 
 
 
Central de Produção de energia da Companhia Carris de Ferro do Porto, junto da segunda Fonte da Arrábida, em foto do higienista J. Bahia Junior, 1909
 
 
 
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Estação dos carros eléctricos do Ouro, em 1904
 
 
 
 
- Mais à frente, em Sobreiras, passo por um novo edifício que tem que ver com esgotos e trabalha em pleno há cerca de dois anos. O que se passa dentro dele é, para já, mistério.
E eis-me chegado ao Jardim do Passeio Alegre que, de dia para dia, está mais bonito.
Esta ano, junto aos muros do castelo, foram levantados uns novos campos de ténis do Lawn Ténis Club da Foz e abandonados os primitivos situados no Jardim do Passeio Alegre.
O meu almoço vai decorrer no Hotel Boa Vista, na Esplanada do Castelo e darei, assim, fim ao meu passeio.

 
 

Chafariz do Passeio Alegre, em 1909
 
 
 
Caleche à porta do Hotel Boa Vista, em 1900
 
 
 
 

Vista sobre a Esplanada do Castelo, em 1909, com a Rua da Praia, à esquerda

sábado, 11 de julho de 2026

25.310 Real Teatro S. João

 
O Teatro Nacional de S. João da cidade do Porto é uma magnífica obra de arquitectura do século XX.
No entanto, um primeiro edifício baptizado como Real Teatro S. João, erguido nos finais do século XVIII, acabaria destruído por um incêndio.
Ainda antes do antigo Real Teatro de S. João, o Porto teve outro importante palco de espectáculos que se situava numa das dependências do demolido Palácio dos Condes de Miranda, Marqueses de Arronches e Duques de Lafões - casa de espectáculos particular aberta em 1760.
Na sua inauguração, foi levada à cena uma ópera lírica para homenagear o casamento de D. Maria I com D. Pedro. Este teatro foi riscado por João Glama Stroberle, auxiliado pelos artistas José Régióli, Francisco José, João André Chiape, Veríssimo Nunes, Domingos Teixeira Barreto e José dos Santos Cartaxo.
Francisco Almada, que sucedeu a seu pai no governo da cidade, haveria de dar continuidade, também, à arte cénica, no Porto, incrementando a construção, bem perto dali, do Real Teatro S. João, com um projecto aprovado pelo governo, e um capital reunido entre comerciantes e capitalistas da cidade, até Abril de 1796.
Um capital (31.000$000 reis) subscrito em 313 acções permitiu avançar com o empreendimento.
Para o efeito, o Corregedor Francisco de Almada adquire parte do terreno da muralha fernandina, na zona da actual Praça da Batalha.
Entretanto, as obras arrancam em 1796 e, em 13 de Maio de 1798, dia do aniversário do Príncipe D. João, foi inaugurado o novo teatro da autoria do arquitecto Vicente Mazzoneschi, o “Real Teatro S. João”, chamando-se, inicialmente, Theatro do Príncipe em honra do futuro D. João VI, apesar de as obras ainda não estarem totalmente concluídas, com a comédia "A Vivandeira".
Para que fosse possível a sua construção, foi destruído um grande pano da Muralha Fernandina, cuja pedra serviu para fazer as suas paredes e também as da Casa Pia.
O escudo real, que esteve na sua frontaria, encontra-se nos terrenos do Museu Nacional Soares dos Reis.
Até 1809, a sala de espectáculos apresentou peças ligeiras e variadas, acontecendo a primeira temporada de teatro musicado em 1809, com uma zarzuela. A primeira ópera só lá foi apresentada na temporada 1814/1815.
Durante o cerco do Porto, foi bastante danificado pela artilharia miguelista pelo que teve de sofrer grandes obras entre 1835 e 1838.


 
 

Real Teatro S. João em 1905 (postal) – Ed. Tabacaria Arnaldo Soares

 
 

Interior do Real Teatro S. João, antes do incêndio – Foto Guedes
 
 
 
A planta do teatro era em forma de ferradura com o tecto, redondo, pintado por Joaquim Rafael, com uma nova pintura de Paulo Pizzi, em 1856.
Tinha quatro níveis de camarotes e, no segundo, possuía uma sala para concertos.
O pano de palco foi pintado por Sequeira, sendo substituído em 1825, por um do espanhol João Rodrigues, ao qual sucedeu um outro de Palucci.
A iluminação, até 1838, foi de velas de sebo e, mais tarde, de azeite.
Na noite de 11 para o dia 12 de Abril de 1908, um violento incêndio reduziu o Real Teatro S. João a escombros.


 

Real Teatro S. João, após o incêndio


 
 

Real Teatro S. João - Gravura, em O Tripeiro 5ª Série, Vol I, pág 119



 

 
Real Teatro S. João, antes do incêndio


 

 
 
 
Na foto anterior está, em primeiro plano, um fontanário/ candeeiro.
Em 1910, o arquitecto Marques da Silva concebia o risco do novo teatro portuense, vindo este a ser concluído em 1918.
A estrutura interior do original Real Teatro de S. João era semelhante à do Teatro de São Carlos, e a sua composição próxima dos teatros de tipo italiano que, na época, se tinham estabelecido como regra de sucesso.
O novo Teatro S. João foi inaugurado a 7 de Março de 1920 e, em 1992, foi adquirido pelo Estado português.
Entretanto, a 18 de Junho de 1932, a sala de espectáculos abriria, após obras importantes para adaptação a novas formas artísticas - o cinema. Foi, então, levado à cena, em estreia, o filme de Georg Wilhelm Pabst "Atlântida".
Na noite de 6 de Maio de 1936, quando na Europa se começava a viver a subida do poderio nazi, a cantora chilena com vida artística feita sobretudo na Alemanha, Rosita Serrano, exibe-se no Teatro S. João para delícia da burguesia portuense.
E espectáculos de todo o género foram acontecendo nesta sala portuense de eleição ao longo dos anos.
Em 2012, o teatro foi reclassificado como monumento nacional. A reclassificação, aprovada em Conselho de Ministros, a 24 de Maio, foi publicada em Diário da República no dia 10 de Julho de 2012.
O actual edifício, de aspecto robusto mas sem estilo definido, é composto por uma imponente frontaria guarnecida por quatro colunas jónicas, entre as quais se abrem três janelas de arco pleno e outras tantas portas.
Internamente, a decoração da sala de espectáculos e principais salões ficou a cargo dos pintores Acácio Lino e José de Brito e dos escultores Henrique Moreira, Diogo de Macedo e Sousa Caldas, sendo estes dois últimos responsáveis pelas quatro figuras alegóricas colocadas no friso do entablamento e que representam a Bondade, a Dor, o Ódio e o Amor.
Hoje, o edifício totalmente reconstruído é um dos principais edifícios da cidade e local de realização dos principais espectáculos culturais.
 
 
 
A reconversão do antigo Real Teatro para o novo Teatro S. João
 
 
Em 1909, a cidade começa a empreender a tarefa de reerguer um novo teatro.
Assim, em 3 de Junho de 1909, são registados no 4º Cartório Notarial do Porto os estatutos da Sociedade do Teatro de S. João. São outorgantes, decidindo formar uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, com sede no Porto, sem sucursais, e com a denominação de Sociedade do Teatro de S. João:
 
 
“ (…) o Dr. Adolfo da Cunha Pimentel, à época Governador Civil do Porto, casado, residente na Rua do Príncipe, Bento de Sousa Carqueja, casado, lente da Academia Politécnica do Porto e jornalista, residente na Rua da Alegria, Arnaldo de Sousa Moreda, casado, proprietário, residente na Rua de S. Jerónimo, Pedro Mariani Pinto, casado, proprietário, residente na Rua do Barão do Corvo (Gaia), António Joaquim Machado Pereira, casado, proprietário, residente na Rua de S. Roque da Lameira, Alberto Nunes de Figueiredo, casado, proprietário, residente na Rua do Crasto, este outorgante por si e na qualidade de procurador do Dr. Ricardo Pinto da Costa Bartól, conde de Lumbrales, solteiro, maior, capitalista, residente na Rua da Picaria, António Pedro Augusto da Costa, casado, negociante, residente na Rua de Fernandes Tomás, João Baptista de Lima Júnior, casado, negociante e proprietário, residente na Rua do Monte Crasto, Dr. Álvaro de Vasconcelos, casado, advogado, residente na Avenida da Boavista, António da Silva Marinho, viúvo, industrial e proprietário, residente na Rua da Piedade, Eduardo Honório de Lima, casado, industrial e proprietário, residente na Rua de Cedofeita, João Gomes do Espírito Santo, casado, oficial do exército e residente na Rua do Sol, Manuel Reis, solteiro, negociante, residente na Rua da Alegria, José de Oliveira Basto, casado, negociante, residente na Rua de Santa Catarina, Ezequiel Ribeiro Vieira de Castro, casado, negociante e proprietário, residente em Ermesinde (Valongo), António da Silva Cunha, casado, negociante, residente na Rua de Santa Catarina.”
Cortesia de Maria José de Sousa Ferraria (2000)

 
Após alguns re-arranjos na repartição do capital accionista e após alguns aumentos de capital, o novo teatro é inaugurado em 22 de Janeiro de 1920.
Assim, em 22 de Janeiro de 2020, aconteceu o primeiro centenário daquele que, agora, é denominado Teatro Nacional de S. João.
 
 
 
 

Construção do novo Teatro S. João

 
 

Novo Teatro S. João, c. 1920 (postal) – Ed. Tabacaria Africana

 
 
Quatro anos após a inauguração do novo Teatro S. João, a capela de Nossa Senhora da Batalha, que lhe era fronteira, foi mandada demolir.
Essa capela foi construída (c. 1799) para substituir uma outra, bem próxima, que dataria de 1686, e que tinha passado a albergar uma imagem da santa, que estava numa edícula, localizada na Porta de Cima de Vila da muralha fernandina.

 
 

Capela de Nossa Senhora da Batalha, à direita e, atrás, o Real Teatro S. João
 
 
 
 

Capela de Nossa Senhora da Batalha, c. 1900 – Ed. Aurélio da Paz dos Reis