sábado, 23 de maio de 2026

25.305 O Teatro Rivoli e a ligação ao Banco Borges & Irmão (BBI)

 
Foi uma sociedade entre dois irmãos que originou o Banco Borges & Irmão.
Em 1884, António Nunes Borges (1858-1939) e Francisco António Borges (1861-1939), dois irmãos, oriundos do Lugar de Espadanal, freguesia de Ázere, concelho de Tábua, distrito de Coimbra, associam-se desenvolvendo um negócio, que já conheciam, de câmbios de moeda, que vinham exercendo por contra de outrem.
A citada associação sob firma de Casa António Nunes Borges & Irmão irá ter o seu início, na cidade do Porto, em 27 de Fevereiro de 1884.
A partir de 1891, a Sociedade passa a ser designada por Borges & Irmão.
António Nunes Borges, com 14 anos, partiu para Lisboa, passando a trabalhar como marçano na casa bancária Moura Borges, cujos proprietários eram seus familiares.
Daí, sai para se empregar, em Lisboa, na casa de câmbios António Inácio da Fonseca, na Rua do Arsenal, n.ºs 56-64 e, em 1878, devido às suas qualidades profissionais, é escolhido para gerente da filial da empresa que, entretanto, abria no Porto, à Feira de S. Bento (Praça Almeida Garrett), n.ºs 35-35.
Por sua vez, Francisco Borges tinha estado, também, a trabalhar na casa de câmbios, em Lisboa, de António Inácio da Fonseca, mas, em 1882, foi chamado pelo irmão para trabalhar na filial do Porto.
Então, em 1884, decidem montar um negócio próprio.

 
 

Publicidade à casa de Câmbios e lotarias de António Inácio da Fonseca, em 21 de Agosto 1886 – In almanake “Pontos nos ii”
 
 
 
A casa de câmbios e lotarias Borges & Irmão vai sediar-se num pequeno estabelecimento de duas portas, na Rua do Bonjardim, torneando para a Rua de Sá da Bandeira e com uma filial na Rua das Flores.
Não tardou que a casa Borges & Irmão enveredasse por outros sectores de actividade económica.
Assim, passou a exercer o negócio de revenda de tabaco, do qual tinham o exclusivo para quatro distritos do norte do país.
Numa perspectiva de diversificação do negócio, os dois irmãos decidiram dedicar-se à comercialização de vinho Verde e vinho do Porto.
Em 1885, Artur Lello, com conhecimento do sector vinícola, passa a gerir o departamento da comercialização de vinhos de Borges & Irmão.
Em 1905, já a Casa Borges & Irmão exportava numerosas marcas de vinhos finos do Porto, em barris e em caixas, de colares, Clarete Douro e de vinhos verdes para todos os portos do Brasil, o principal mercado, África e Europa.
Aquele departamento será o embrião da Sociedade dos Vinhos Borges, formalmente constituída em 1918, com Artur Lello já como um dos accionistas e principal gestor. 
A Artur Lello, depois do seu falecimento, em 1928, sucederá o seu filho Carlos Alberto Guimarães Lello, casado com Maria Cecília Calém de Guimarães Lello, falecida em 6 de Novembro de 1937.

 
 

Banco Borges & Irmão, na Rua do Bonjardim, após evolução a partir das primeiras instalações da Casa Bancária Borges & Irmão
 
 
 
 

Borges & Irmão, como Casa de Câmbios e Lotarias
 
 
 
 

Publicidade à firma “Borges & Irmão”, In jornal “A Voz Pública” em 31 de Março de 1907
 

 
A casa de câmbios dos irmãos Borges, na esquina das ruas do Bonjardim e de Sá da Bandeira, em 1910, torna-se numa casa bancária, com sede no Porto e agência em Lisboa.
Em 1912, é aberta uma filial no Rio de Janeiro.
Para além da actividade bancária, os irmãos continuam a manter um negócio de vinhos que, em 1918, se autonomiza com fundação da “Sociedade dos Vinhos Borges”.
Assim, em 3 de Setembro de 1918, por escritura desta data, nas notas do Dr. Ponce de Leão, constituiu-se a “Sociedade dos Vinhos Borges & Irmão, Lda.”, nova empresa, com sede na Rua do Bonjardim, 73-77, sendo fundadores António Nunes Borges, Francisco Borges e Alberto Guimarães Lelo, com o capital de 120 contos.
Em 1919, o pacto social da casa bancária é alterado com a entrada para a sociedade de Manuel Pires Fernandes e José Nunes Fonseca.
Em 1926, a casa bancária muda a sua sede para a Rua de Sá da Bandeira e, fruto da expansão dos negócios, em 1937, passa a “Banco Borges & Irmão (BBI).

 
 

Sede da fundação do Banco Borges & Irmão

 
 

Sede do Banco Borges & Irmão, a partir de 1937, na esquina das ruas de Sá da Bandeira e Santo António
 
 

 

Publicidade ao Banco Borges & Irmão em 1970
 
 
 
 
 
O BBI chegou a possuir, na região demarcada do Douro, as propriedades da Soalheira, Junco, Muro Ferradosa, Casa Nova, Hortos e Silho, na região de Coimbra as quintas do Choupal e Mizarela e, finalmente, no Algarve, a quinta do Barranco Longo, todas entregadas à Sociedade dos Vinhos Borges e Irmão, com sede em V.N. Gaia.
Tinha, também, a propriedade do Teatro Rivoli, cujo monumental edifício estava adossado à residência da família Borges, hoje, o local ocupado pela Caixa Geral Depósitos.
Aliás, havia uma passagem da residência da família Borges, para um camarote boca de cena.
 
 
 

À direita, o prédio onde vivia D. Maria Borges
 
 
 
 
 
Durante alguns anos, era no Rivoli que se fazia a festa de Natal para os filhos dos funcionários do Banco, com entrega de brindes, espectáculo e jantar.
Esta sala de espectáculos sucedeu, no mesmo local, ao Teatro Nacional, inaugurado, em 1913, e demolido para abertura da Avenida dos Aliados.
Tinha a sua entrada principal pela Rua Elias Garcia (desaparecida), nº 98, e uma modesta entrada pela Rua do Bonjardim, nº 153.
Em 1923, seria objecto de obras e quando, em 1926, o Teatro Nacional montou o ecrã, as revistas de cinema já lhe chamavam Rivoli.
No final da década de 1920, o Teatro Nacional foi adquirido por Manuel Pires Fernandes (1860-1944) que, desde 1919, era já acionista da sociedade Borges & Irmão, um empresário originário de Mirandela que decidiu demoli-lo para o substituir por um outro, na sequência de intervenções urbanísticas na zona.
O Rivoli foi, então, construído entre 1928 e 1932, pelo risco do arquitecto Júlio José de Brito, dotado de 1800 lugares.
A inauguração seria em 20 de Janeiro de 1932, com a presença em palco da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, vinda expressamente de Lisboa, tendo apresentado a comédia “Peraltas e Sécias” de Marcelino Mesquita.
No ano da inauguração, a sala de espectáculos foi dotada de equipamento de projecção para cinema sonoro.
Na primeira metade da década de 1940, seriam executadas obras de modo a tornar as instalações mais confortáveis para os espectadores e o próprio edifício receberia intervenções para o seu embelezamento.
Tudo isto seria executado sob a orientação da filha de Manuel Pires Fernandes, Maria Borges, uma reconhecida melómana e moradora num prédio contíguo ao teatro, casada desde o início do século XX com o banqueiro Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão.
Maria Assunção Fernandes Borges foi casada com Francisco António Borges (1861-1939), administrador do Banco Borges & Irmão, de cujo enlace houve uma filha, de seu nome, Maria Emília Fernandes Borges (1914-2000), condessa da Covilhã, e um filho, de seu nome, Francisco Manuel Fernandes Borges (1916-1959), de profissão engenheiro e que foi administrador do Banco Borges & Irmão.
Maria Emília Fernandes Borges ostentou aquele título nobiliárquico pelo seu casamento com o 3º conde da Covilhã, Júlio Anahory de Quental Calheiros (1900-1970), de cujo enlace houve a filha, Maria Manuela de Quental Calheiros.
O 3º conde da Covilhã chegou a este casamento, no estado de viúvo, vindo de um primeiro casamento, sem geração, com Vera de Sousa e Cruz, que faleceu muito nova, filha do Banqueiro Sousa e Cruz e de sua mulher, sendo reconhecido pelo povo anónimo como o fundador da fábrica de pneus MABOR.
Ficou também ligado ao desporto automóvel como entusiasta e apoiante de Casimiro Oliveira e Vasco Sameiro, dois pilotos de veículos de fórmula 1, por si importados e caracterizados pela sua cor amarela.
De seu nome completo Maria da Assunção Vaz Fernandes Borges sucederia, em 1944, na gestão do Teatro Rivoli, após o falecimento do seu pai.
Em 21 de Junho de 1946, é publicada escritura, no Diário da República III ª Série, que formaliza a constituição de uma sociedade para gestão do Rivoli, na qual Maria Borges é accionista maioritária.
Em 30 de Agosto de 1950, já D. Maria Fernandes Borges receberia, no Teatro Rivoli, das mãos do presidente Lucínio Presa, a Medalha de Ouro de Mérito Artístico pelo seu esforço, sem o qual não seria possível a constituição em 1947, da Orquestra Sinfónica do Porto, continuadora da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto.
Lucínio Gonçalves Presa foi o Presidente da Câmara Municipal do Porto que destruiu o Palácio de Cristal para em seu lugar construir um pavilhão de Hóquei em Patins, decisão da qual muitos portuenses nunca lhe perdoaram a ousadia.
D. Maria Borges, em 1951, após 12 anos sobre o falecimento do seu marido, haveria de decidir construir na moderna Avenida de Montevideu, em plena beira-mar, um palacete icónico com projecto do reputado arquitecto Viana de Lima que, nos anos de 2024 e 2025, foi sujeito a remodelações de vulto.
 
 
 

Actualmente (2024), a vivenda em trabalhos de remodelação que foi mandada erguer por Maria Fernandes Borges – Fonte: Google maps
 
 
 
 
Quando, nos anos 70, apareceram as dificuldades na gestão do Rivoli, o Banco Borges & Irmão (o proprietário de há muitos anos), pensou na sua demolição para a construção da sede daquela instituição bancária, mas acabaria por vendê-lo, tendo a sala de espectáculos passado sucessivamente pelas mãos da sociedade de construção William Graham e pelas do Banco Português do Atlântico.
Seria Maria Borges, filha do empresário e proprietário do antigo Teatro Nacional e, depois do Teatro Rivoli, Manuel Pires Fernandes e casada com o banqueiro Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão, a opor-se à destruição do Rivoli e a quem os portuenses devem essa benesse.
Maria Fernandes Borges que, diziam, tinha um camarote boca de cena que comunicava com a sua casa, que ficava adossada ao Rivoli, falece em 1 de Fevereiro de 1976 e, em sinal de luto, no dia seguinte, o Rivoli, em sinal de luto, fechava as suas portas.
 
 
  

Proposta que não teria execução prática para ocupar o chão do Teatro Rivoli, c. 1970
 
 
 
 
 
O Teatro Rivoli passou definitivamente para a alçada e propriedade da Câmara Municipal do Porto em 1989, ano em que a autarquia comprou o edifício ao Banco Português do Atlântico para o salvar do estado de degradação.
Posteriormente, após obras profundas de remodelação, a sala de espectáculos reabriu como grande palco cultural em Outubro de 1997.
Entretanto, quanto ao Banco Borges & Irmão, nas décadas de 1970 e 1980, apesar da nacionalização da banca, a actividade do Banco Borges & Irmão continua a alargar-se.
Enquanto entidade autónoma, o BBI deixa de existir em 1998, quando se dá a sua fusão com o Banco Fonsecas & Burnay e o Banco de Fomento Exterior, dando origem a uma nova instituição: o BPI - Banco Português de Investimentos.

terça-feira, 19 de maio de 2026

25.304 A Ponte das Barcas

 
A cidade do Porto só construiu uma ponte para unir as duas margens do rio Douro, servindo períodos alargados, em 1806 - a Ponte das Barcas.
Foi inaugurada a 15 de Agosto daquele ano.
Era constituída por 33 barcaças, ligadas entre si por cabos de aço, e abria em 2 partes para dar passagem às embarcações que subiam e desciam o rio.
Até aí, por vezes, a cidade improvisava a travessia através de barcaças ligadas, para cumprir objectivos pontuais. 
A outra possibilidade, que tinha sido praticada ao longo dos tempos, era utilizar as "barcas de passagem" manobradas por verdadeiros profissionais no manejo dos remos e que se apresentava mais económica.
A Ponte das Barcas, onde ocorreu o fatídico desastre, a 29 de Março de 1809, era um pouco diferente da que lhe sucedeu.
Primitivamente, com cerca de mil palmos de extensão, apresentava 33 barcaças ligadas por cabos de aço, podendo abrir em duas partes para dar passagem ao tráfego fluvial, com circulação sobre um passadiço de madeira. Em tempo de cheias, a ponte era desmantelada para evitar a sua destruição.
Aquela que a veio substituir, do mesmo tipo, tinha barcos mais altos, mais largos e mais afastados, de forma a poder deixar passar pequenos barcos a remos sem ter que ser aberta. Era mais larga e resistente que as anteriores. Só tinha 20 barcos, enquanto a anterior, tinha as tais 33 barcaças.
Naquele dia 29 de Março, a população aterrorizada pelo avanço das tropas francesas comandadas por Soult, aquando da 2ª invasão francesa, tentou fugir para Gaia atravessando a ponte assente em barcas que cederam ao peso excessivo, provocando inúmeras vítimas.
Os motivos para o sucedido variam segundo os relatos: uns dizem que a ponte, constituída por 33 barcaças não aguentou a pressão e desfez-se, provocando a queda no rio, da multidão.
Outra versão refere que do lado de Gaia, alguém abriu um alçapão na ponte para impedir que os franceses a atravessassem, que "engoliu" os que seguiam à frente na fuga, empurrados para a morte pelos que lhes seguiam na peugada.
Na tragédia morreriam, segundo as várias fontes consultadas, entre 4.000 e 10.000 portuenses, e a pilhagem da cidade durou 3 dias.
Após cerca de quarenta dias os franceses acabarão por ser expulsos.
A Ponte das Barcas foi a primeira ponte do género construída em Portugal, como solução a mais longo prazo. Carlos Amarante foi o seu autor, tendo ficado ligado a outras obras célebres da região norte do país, como o Bom Jesus e a igreja do Pópulo, em Braga; a Igreja da Trindade, no Porto; e a reconstrução das muralhas de Valença.
Sobre o trânsito e respectivas portagens, na Ponte das Barcas, se refere o texto seguinte.
 
«(…) Havia muita concorrência na sua passagem, sobretudo às terças e sábados. Os preços de passagem praticados eram os seguintes:
 
Cada pessoa a pé 5 réis
Cada pessoa a cavalo 20 réis
Carro de uma junta de bois 40 réis
Cadeirinhas de mãos 60 réis
Liteira 120 réis
Sege 160 réis
 
À noite, passados 45 minutos do pôr-do-sol, os preços duplicavam, taxa que se mantinha até 45 minutos antes do nascer do sol, sendo o momento anunciado pelo toque de um sino.
A "Ponte das Barcas" revestiu-se de uma enorme importância para o desenvolvimento das comunicações entre as zonas ribeirinhas, mas também no contexto inter-regional, na ligação entre as margens norte e sul do rio Douro”».
Fonte: historiaschistoria.blogspot.com


 

Ponte das Barcas em 1830 (com 20 barcaças) - Fonte: Leipzig Verlag, Georg Wigand  (col. Pessoal)
 
 
 
 
A Ponte das Barcas seria substituída pela Ponte Pênsil ou Ponte D. Maria II, praticamente no mesmo local, a partir de 1843.
A Confraria das Almas de S. José das Taipas e a igreja de S. José das Taipas têm uma grande ligação à Ponte das Barcas.
Começada a construir em 1795, a Igreja de S. José das Taipas foi benzida, em 1818, pelo bispo D. João Magalhães e consagrada em 1822, quando só estaria concluída 1878.
Quando foi consagrada, ainda só tinha sido edificado praticamente o seu solo. Tal ficou a dever-se pela necessidade de santificar o chão onde estavam sepultados os corpos dos que pereceram no desastre da Ponte das Barcas e que, para aqui, tinham vindo em 1809 por deliberação dos portuenses, dada a inexistência de locais para atender aos sepultamentos de tantos milhares de mortos.
Por esta razão, os taburnos (sepulturas) interiores da igreja, não contêm restos mortais de particulares.
Até à conclusão da igreja de S. José das Taipas, que ficaria com a sua entrada pela Rua do Calvário, existia nesse local, desde 1666, uma capela mandada erigir pela família dos “Pacheco”, com entrada pela Rua das Taipas.
Seria o terreno contíguo a essa capela que serviria de cemitério e de chão da nova igreja.
 



Painel representando o desastre da Ponte das Barcas exposto numa parede da igreja – Ed. JPortojo
 
 
 
 
A cena do painel acima exibida num altar do lado da Epístola, com uma assinatura de “A. Cunha” e ostentando a data de 1845, é uma pintura sobre cobre, baseada numa outra que, originalmente, esteve colocada no memorial das “Alminhas da Ponte” e que, por acção dos elementos atmosféricos se degradou.


 
 

Quadro alusivo à tragédia da Ponte das Barcas que serviu de modelo à existente na capela das Taipas
 
 
 
“Este quadro foi colocado depois onde estivera a ponte, e tornou-se local de romaria popular. Aí eram deixadas velas e dinheiro pelas alminhas – as "Alminhas da Ponte”, agora assinaladas na Ribeira por uma placa evocativa de Teixeira Lopes que continua a ser local de devoção. Quanto ao quadro, pintado depois a óleo, ficou à guarda da capela das Almas (ou das Taipas), na Cordoaria, que passou também a assegurar a gestão do dinheiro deixado nas Alminhas. É uma das imagens escolhidas para a exposição sobre o Porto e as invasões francesas que vai ser inaugurada, no Domingo, na Galeria do Palácio de Cristal”.
“noticias.sapo.pt” em 27/03/2009
 
 
 
No extremo do Muro da Ribeira, vê-se hoje um baixo-relevo, em bronze, protegido por um alpendre em ferro, assente em duas consolas, da autoria de Teixeira Lopes (pai), em memória do Desastre da Ponte das Barcas, ocorrido em 29 de Março de 1809.
Neste local, está exposto desde 1897.
Esta placa, mais resistente aos elementos atmosféricos, substituiu uma outra colocada em cota mais baixa, inaugurada em 1891 e oferecida por um devoto, de acordo com a notícia seguinte.


 
In jornal “A República” de 16 de Janeiro de 1891, pág 2

 
 
 

Placa mural alusiva à tragédia da autoria de Teixeira Lopes (pai)


 
 

“Alminhas da Ponte” – Fonte: portoarc.blogspot.com


 
Entretanto, a Confraria das Almas de S. José das Taipas foi responsável, desde 1810, pelas esmolas e o zelo do memorial das Alminhas da Ponte, situada na marginal da Ribeira.
Aquela confraria resultou da união da Irmandade de S. José das Taipas, que administrava a capela de S. José das Taipas, com a Irmandade de S. Nicolau de Tolentino das Almas (sediada na capela de S. João Novo, desde a sua fundação, em 1634, pertencente aos riquíssimos negociantes de bacalhau) e com a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação, que funcionava junto do Convento de Nossa Senhora da Consolação ou convento de Santo Elói, desalojada em virtude do derrube da muralha fernandina.
Em 1780, as três irmandades já estariam juntas e, em 1788, foi decidido construir a igreja.
 
 
“A esta confraria foi entregue pelos moradores da Ribeira, em 1810, o sufrágio das almas dos mortos no desastre da Ponte das Barcas do dia de 29 de Março de 1809. Tinha o encargo de ter sempre 2 velas acesas no local do desastre, recolher as esmolas e, no dia do aniversário, sufragar as almas das vítimas com missas e uma procissão que ia até à Ribeira, acompanhada de música. Este encargo trouxe à confraria uma grande simpatia e consequente aumento de esmolas. Estes rendimentos, acrescidos da percentagem dos lucros da venda do bacalhau, permitiu que se construísse a capela com a grandiosidade que hoje tem. Tem 4 altares laterais dedicados a Nossa Senhora das Dores, da Saúde, da Conceição e de Santo António”.
Cortesia de Rui Cunha
 
 

 
De notar que, face às enormes somas envolvidas, respeitantes a importantes donativos surgiu, há muitos anos, uma contenda entre a Confraria das Almas de S. José das Taipas e a Confraria da Capela das Almas, que ambicionava administrar esses donativos, sita na Rua de Santa Catarina, cujo conflito acabaria por ser resolvido pelo Bispo do Porto a favor da primeira. 
Durante muitos anos, realizou-se, também, a propósito das “Alminhas da Ponte”, uma procissão que, saindo da igreja de S. José das Taipas, retornava passando pela Ribeira, onde em cerimónia presidida pelo bispo, era costume ele paramentar-se na Capela da Lada ou Capela do Senhor Crucificado.
Em 1909, a Irmandade de S. José das Taipas realizou a última romagem (considerada a maior do Porto) em memória das almas perecidas no dia 29 de Março de 1809.
A partir de 1975, o Bispo do Porto, decidiu entregar o cumprimento das obrigações decorrentes da administração das dádivas decorrentes da devoção às “Alminhas da Ponte” à Paróquia de S. Nicolau, após um período de muitos anos durante o qual a tarefa foi da responsabilidade da Opus Dei.
Presentemente, na igreja de S. José das Taipas, a 29 de Março de todos os anos, se evocam, em cerimónia, as almas dos que pereceram no desastre da Ponte das Barcas.
Em 2009, foi inaugurada uma obra escultórica de Souto Moura, com uma parte em Gaia e outra no Porto, perto do local onde se encontrava a antiga ponte.

 
 
 

Escultura (Ribeira do Porto) de Souto Moura evocativa da tragédia da Ponte das Barcas – Fonte: historiaschistoria.blogspot.com


 
 
Escultura (Ribeira de V. N. de Gaia) de Souto Moura evocativa do desastre da Ponte das Barcas – Fonte: Mapio.net

sexta-feira, 15 de maio de 2026

25.303 Romaria das Sete Bicas na Senhora da Hora

 
A velhinha capela da Senhora da Hora centraliza, desde sempre, as festas na, hoje, freguesia da Senhora da Hora.
Entre 1918 e 1963, chegou a ser utilizada como igreja matriz.
 
 
 
 

Capela da Senhora da Hora, c. 1833, ainda sem torre sineira, no sítio da Mãe d’Água, ao Alto do Viso  – Ed. J. Villanova
 
 
 
Na gravura anterior, à esquerda, é visível o que parece viria a ser, em 1893, o espaldar da actual Fonte das Sete Bicas que, primitivamente, ocuparia esse espaço.
Esta fonte é muito antiga e teria sido, antes do lugar entrar na esfera do cristianismo, alvo de manifestações pagãs.
Sobre a capela, diz a tradição oral, que ela foi o resultado de uma promessa feita por um mareante, Aleixo Fernandes, em 1514, para que a santa concedesse à sua mulher, um filho que tardava.
Conseguido o desiderato, foi mandada construir uma ermida anexa à fonte da Mãe d’Água, que Aleixo Francisco administrou até 1544.
Documentação existente informa que, em 15 de Outubro de 1620, o mordomo da capelinha, entrega ao arquitecto Gonçalves Vaz, o projecto e a construção da capela das Sete Fontes, naquele mesmo local, a erigir sobre os alicerces do templo já existente.
Assim, continuou a ermida a ser administrada por devotos da imagem da Senhora da Hora, até que, em 1705, assumiu essa administração Romualdo de Almeida Cabral, Major dos Terços Auxiliares da cidade do Porto e morador na sua Quinta da Foz do Douro, sucedendo-lhe, em 1706, Miguel d’Almeida.
Em 1815, eram administradores do templo, André Domingues dos Santos, António José dos Santos e Manuel José dos Santos.
No dia 14 de Fevereiro de 1892, foi a capela licenciada pelo Bispo do Porto para uso do Sacrário na capela, no intuito de poder sair dali a Sagrada Viática (Sacramento da Eucaristia fora da Igreja) aos enfermos, para lhes ministrar a comunhão, assim como às pessoas que quisessem confessar-se ali durante a Quaresma.
Em 1911, foi ordenada a construção da sua torre do sino.
 
 
 

Capela da Senhora da Hora, actualmente, com a sua torre sineira desde a 2ª década do século XX
 
 
 
A festa da Senhora da Hora ocorre nos nossos dias, 40 dias após a Páscoa e a festa do Senhor de Matosinhos após 52 dias.
No século XIX, os romeiros rumavam às festas da Senhora da Hora, tomando o caminho que seguia pela Rua de Cedofeita, passando pelo Ribeirinho (onde se juntavam os mirones a assistir à passagem, sentados em cadeirinhas, algumas delas de aluguer) para chegarem ao Carvalhido, pela Rua 9 de Julho: em seguida, tomavam a  estrada que ligava a Francos e rumavam à ponte medieval que atravessava (e, continua a atravessar) a já formada Ribeira da Granja, em Ramalde do Meio: seguia-se o Viso e chegavam às Sete Bicas.
Pelo caminho, os romeiros iam parando em arraiais de passagem na Ramada Alta e nos largos do Carvalhido e da Prelada, onde restabeleciam as suas forças em barracas de comes e bebes.
Sobre a festa da Senhora da Hora, de que nos fala os dois artigos jornalísticos seguintes, ela realizava-se na capela da Senhora da Hora, no sítio da Mãe d’Água, junto da fonte das Sete Bicas.

 
 
“Teve ontem lugar, próximo do Padrão da Légua, a festa anual de Nossa Senhora da Hora.
Foi grande o número de romeiros que ontem de tarde peregrinava pelas ruas que conduzem àquele arrabalde.
Houve muita animação e não pouco peixe frito.”
In “O Jornal do Porto, 15 de Maio de 1863 – 6ª Feira
 
 
 
“No passado domingo, 20 do corrente, realisou-se o ultimo dia da festa; foi grande a afluência de forasteiros que excedeu a espectativa, em virtude do estado do tempo não ser muito convidativo; á noitinha, desabou um forte aguaceiro que pôz tudo em debandada, e talvez fôsse um bom calmante para os cacos esquentados pela divina efervescencia bachante.
Durante o dia, tocou a banda de Ramalde, que não desmereceu os bons créditos de que gosa, sob a escrupulosa regência do sr. Amorim”.
In semanário “O Sino” de 27 de Maio de 1917





Interior da capela da Senhora da Hora

 
 

Feirantes nas festas da Senhora da Hora

 
 
A partir da segunda metade do século XX, foi determinado erguer um templo mais amplo para substituir a primitiva capela das Sete Bicas.
 
 
“Em 2 de Maio de 1953, o Bispo do Porto, Sr. D. António Ferreira Gomes, benzeu, solenemente, a primeira pedra, cujo projecto de arquitectura moderna, da autoria do Arquitecto Paulo Sampaio, foi acompanhado e orientado pelo Prof. Eng.º Barbosa de Abreu. Cinco anos mais tarde, em Maio de 1958, era inaugurada, pelo mesmo Bispo que lançou a primeira pedra, a Cripta. A 11 de Fevereiro de 1963, o Padre António Gonçalves Porto, benzeu a nova igreja.
A Senhora da Hora, depois de ter sido elevada á categoria da Freguesia, viu difundir-se extraordinariamente a devoção à sua padroeira, cuja reputação ultrapassou as próprias fronteiras e das terras mais distantes do país ocorriam inumeráveis peregrinos à ermida para deporem aos pés da Virgem dos Milagres as ofertas prometidas em horas aflitivas.
Por sua vez as mães, na missa da festa, no momento da elevação da hóstia e do cálice, davam a beber aos seus filhos pequenos, um "remédio", de fabrico caseiro, com a suposta virtude de os imunizar das maleitas da epilepsia ou da gota. No final da cerimónia davam três voltas á capela”.
Cortesia de Rui Cunha
 
 
 

Nova igreja da Senhora da Hora
 
 
 
Quanto ao destino da romagem prendia-se, desde de tempos imemoriais, sobretudo, à visita dos romeiros à Fonte das Sete Bicas, cujas águas eram consideradas "milagrosas" e capazes de garantir casamento a quem a bebia. À referida fonte também eram atribuídos poderes de fertilidade.
O número sete, símbolo da plenitude, aponta para os sete sacramentos, para os sete dons do Espírito Santo, para as sete virtudes, para os sete dias da semana, pretendendo dar significação religiosa a um culto pagão da fecundidade, associado à abundância da água neste local.
Segundo a tradição, a fonte foi o sítio exacto onde a Virgem Nossa Senhora da Hora apareceu, precisamente no lugar Mãe d’Água, cujo caudal tinha, na origem, várias nascentes, daí o topónimo de Sete Bicas. Trata-se certamente da tentativa de cristianização de um local pagão.
 
 
 
 

Fonte das Sete Bicas
 
 
 

Mensagem inscrita numa pedra do espaldar da Fonte das Sete Bicas
 
 
Na pedra da imagem acima está inserto: ”AQUI APARECEO NOSSA SENHORA DA ORA LOUVADO SEJA O SANTISSIMO SACRAMENTO” 
 
 
 
“A primitiva Fonte das Sete Bicas, anterior à capela de Nossa Senhora da Hora, encontrava-se ao centro do adro, em frente à referida capela. Em 7 de agosto de 1892, em Assembleia Geral [da Irmandade de Nossa Senhora da Hora e São Bartolomeu] estudou-se a forma de se efetuarem futuras obras. (…) Era imperiosa a mudança da Fonte das Sete Bicas, situadas no centro do adro, encostadas à parede que separava o adro do terreno da Irmandade de Nossa Senhora da Hora, para outro local, na direção Este-Oeste (…) Embora o orçamento para a obra não tivesse sido aprovado superiormente, procedeu-se à sua arrematação e caso não fosse aprovada ficaria sem efeito. Foi pouco tempo depois arrematada pelo único empreiteiro que apresentou proposta, Manuel Francisco Gomes que se comprometia a construir a obra, conforme a planta, em condições, pela quantia de 83$000 réis ao mesmo tempo que apresentou 10$00 de depósito, como garantia, que só receberia dois meses depois da obra concluída”.
Fonte: paroquiasenhoradahora.pt
 
 
No sítio da Mãe d’Água, atrás referido, nascem as ribeiras do Reguinho e de Carcavelos, que atravessam a Senhora da Hora e Matosinhos, e se juntam, em Matosinhos-Sul, num único caudal, para desaguarem no mar, perto do Castelo do Queijo.
Hoje, encontram-se praticamente entubadas, e apenas a ribeira do Reguinho é visível no sitío de Real de Baixo.
Localizada nas traseiras da capela de Nossa Senhora da Hora, inserida numa quinta contígua e a Este da Alameda das Sete Bicas, a capela da Senhora da Penha, aquando da elaboração das Memórias Paroquiais de S. Salvador de Bouças, de 1758, era pertença do povo.

domingo, 26 de abril de 2026

25.302 A velhinha Rua Chã e a moderna Avenida Antunes Guimarães

 
Rua Chã
 

“Numa passagem do "Santuário Mariano", de Frei Agostinho de Santa Maria, referindo-se aquele às mil e uma invocações que se fazem de Nossa Senhora, e ao aludir à capela onde, no Porto, se venerava a imagem de Nossa Senhora do Ferro, aquele cronista situava-a "nas proximidades da Rua Chã das Eiras" explicando logo a seguir que a rua tinha este nome por ser ali "…que se faziam as eiras em que se debulhava o trigo…"
A Rua Chã é das mais antigas artérias da cidade. Sabe-se que já existia, pelo menos, em 1293 e que inicialmente se compunha de dois troços distintos: um que ia da entrada da Rua do Loureiro até à calçada de Vandoma e se chamava simplesmente Rua Chã; outro que da Calçada de Vandoma ia até ao cimo da Rua do Corpo da Guarda e que se chamava Rua das Eiras. E como uma parte completava a outra chegou a ter a designação de Rua Chã das Eiras, pois, quando toda aquela zona ficava do lado de fora do muro velho, ou seja da parte de fora da muralha romana, muito antes da existência da muralha fernandina, parece que se aproveitava a planura do terreno e a sua privilegiada exposição ao sol para ali se secarem os cereais que eram do Cabido.
Relativamente à Rua Chã, o frade beneditino Pereira de Novais, autor seiscentista de várias obras sobre o Porto, é da opinião que esta designação provém do facto de se tratar de "(…) uma rua plana, grande e espaçosa(…)" acrescentando que "(…) se diz chã por ser plano o seu pavimento(…)".
A partir destas diferentes opiniões, poderemos fazer as nossas opções.
Há 600 anos, exactamente em 1408 aconteceu nesta rua uma grande desgraça. Todo o casario que era, naturalmente, feito de madeira, foi devorado por um pavoroso incêndio. Ainda naquele mesmo ano, a Câmara, então profundamente interessada na efectiva resolução dos verdadeiros problemas do burgo, ordenou que tudo fosse rapidamente reconstruído mas que as casas deviam ser feitas em pedra.
Surgiu, entretanto, um problema que impedia a reconstrução das moradias com a rapidez exigida.
Pouco tempo antes, os "siseiros" (cobradores do imposto da sisa) haviam mandado fechar o Postigo de Carros, aberto na muralha fernandina, em frente à igreja de Santo António dos Congregados, não permitindo que por ali transitassem nem pessoas nem carros. A Câmara protestou juntando o seu clamor aos dos lavradores.
Da parte de fora da cerca, ou seja, onde posteriormente veio a ser aberta a actual Praça da Liberdade, ficavam as melhores hortas e os lavradores que delas cuidavam, viam-se obrigados a dar uma grande volta quando para elas levavam o estrume que vinham buscar à cidade. A Câmara pretendia que se reabrisse o postigo porque era através dele que passavam os carros de bois com a pedra, a madeira e a cal indispensáveis para a reconstrução das moradias que tinham ardido”.
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 
 

Calçada de Vandoma em 1940 – Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal
 
 
 
 
“Houve por aqui perto uma rua com a designação de Belomonte.
Uma "Rua de Belomonte que fica detrás da Rua de Cima de Vila" consta de um documento do arquivo do Hospital de Rocamador do ano de 1498. Deve ser a mesma artéria que vem citada noutro documento com a mesma origem: "...Rua de Belomonte, detrás da Rua Chã...".
Como é óbvio a Rua de Belomonte para as bandas do convento dos dominicanos naquela data, ainda não existia.
Em 1503, aqueles frades dominicanos da Ordem dos Pregadores aforaram, ou seja, alugaram para a construção de casas, as primeiras trinta varas dos chãos já urbanizados num caminho conhecido por Calçada de S. Domingos. Uma das primeiras pessoas a construir casa naquele sítio foi o armeiro Álvaro Gonçalves, um dos mais destacados personagens do romance "A última dona de S. Nicolau", do escritor portuense Arnaldo Gama.
“(…) Mas voltemos à Rua Chã, que guarda muitos outros pergaminhos e tradições que se não vêm, nem andam muito nas páginas da crónica portuense. Passavam obrigatoriamente por ela as mais imponentes e solenes procissões que se realizavam no Porto.
Tantos anos, passados a subir e descer a Rua Chã que, os alfaiates, tecelões, tecedeiras e mercadores eram obrigados a toldar, ou seja, colocar toldos para protecção contra as ardências do sol, desde a Rua do Loureiro até (à porta de) Vandoma.
A Rua Chã beneficiava de vários privilégios, um dos quais, talvez o mais importante, era o de que os que nela moravam tinham isenção de aposentadoria, isto é ninguém que passasse na cidade, em viagem, ou negócios, podia exigir que nela lhe concedessem aposentadoria. Foi uma das primeiras artérias do burgo a ser contemplada com uma estalagem "grande e boa…"
Em 1757, fizeram-se sentir nesta artéria, de forma bastante violenta, os ecos da Revolta dos Taberneiros quando os revoltosos "erguendo medonho alarido" se juntaram defronte da casa do Juiz do Povo, José Ferreira da Silva, que vivia à entrada da Rua do Loureiro.
Este tipo de protestos e outras revoltas, muito frequentes nos séculos XIV e XV, nomeadamente as que eram encabeçadas por mercadores e mesteirais, em protesto contra a imposição de novos impostos ou as tentativas de cerceamento das liberdades antigas, levaram muitos estrangeiros, que por aqui se haviam instalado, a procurarem paragens menos agitadas e a instalar-se ao longo da margem direita do rio onde predominava o sossego dos campos.
Uma das mais importantes corporações profissionais que nos começos do século XIX funcionava na Rua Chã era a dos chocolateiros - os homens que trabalhavam com chocolate.
António de Freitas, morador na rua, era um dos mais prósperos mas também um dos mais inconformados contra "as pessoas que se haviam intrometido no mester e se dedicavam à manufactura do chocolate sem terem qualquer preparação para o fazer…"
O protesto de António Ferreira, a que aderiram muitos mais profissionais, foi registado no escritório do tabelião Manuel José de Oliveira para depois ser entregue às autoridades e nele se diz, nomeadamente, que procuram defender " a maior perfeição, bondade e asseio das suas manufacturas para evitar que perigue a saúde dos povos…"
A Rua Chã, já nos nossos dias, também era conhecida pela rua dos barbeiros, tão numerosas eram as lojas destes profissionais que por ali havia”.
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 
Desta rua vai-se hoje para Estação Ferroviária de S. Bento pela Rua do Loureiro. Em 1599, esse topónimo ainda não existia aparecendo mencionada, nos docu­mentos da época, como Rua que vai da Rua Chã para S. Bento, tendo-se chamado ainda, Rua de Carros ou Rua da Porta de Carros, por estar próxi­ma da porta que também tinha este nome. Era assim designada, pelo menos, em 1334.
Mais tarde, seria a Rua do Faval, por aí se encontrar o faval do bispo onde seria construído o convento de S. Bento da Ave-Maria.
Pensa-se que a famosa CIVIDADE existiu no alto do Corpo da Guarda e por isso a Travessa do Loureiro era a Viela da Cividade.
Já agora diga-se que a Praça Almeida Garrett chegou a ser também Largo do Faval.
 
 
 
O típico Café Royal
 
“Na Rua Chã, os simpáticos restos de moradias, com semblante de setecentos, são reminiscências que evocam os tempos em que por ali viveram os Belezas de Andrade, ligados à Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro; altas-dignidades da Igreja Portucalense; ricos comerciantes e artistas, que trabalharam nas obras da Sé e do mosteiro de S. Bento da Ave-Maria.
Nos baixos do melancólico e nobre solar dos Castros, mesmo em frente à antiga Viela da Cadeia, actual Travessa da Rua Chã, funcionou o mais emblemático café do sítio - o célebre Royal, que tantas vezes inspirou as cantigas dos ceguinhos. Não era um café espampanante com luzimento de espelhos, candelabros e outros atavios. Mas era um típico café do Porto, com aquele ambiente esfumado que, na época, caracterizava os estabelecimentos e aquele alegre vozear que não se entendia nem se deixava ouvir, tudo ilustrado pelas conversas dos últimos "graxas" personagens típicos dos cafés portuenses. O Royal finou-se, tal e qual outros cafés, como o Saban na Rua Sá da Bandeira a Fradelos, o Excelsior e o Sport. No seu lugar está agora a loja de um chinês. Foram-se da rua os revoltosos, desapareceram os chocolateiros, levaram sumiço os barbeiros”.
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 

Solar dos Castros e, à esquerda, ao fundo, fica a Sé
 
 
 
O solar dos Castros, exibindo o brasão respectivo na fachada, foi propriedade de uma fidalga de apelido Castro que casou na Casa das Lages, em Lagares, Penafiel, passando a propriedade, mais tarde, para as mãos de um herdeiro, Luís de Lencastre Carneiro de Vasconcelos (1882-1933), 4º barão das Lages, filho de Luís Zeferino Carneiro de Vasconcelos Melo Cabral (3.º barão das Lages) e de Maria Teresa da Veiga Lencastre da Veiga Lencastre e Menezes.
O 4º barão das Lages foi pai de Francisco José Carneiro de Vasconcelos, 4.º visconde de Vilarinho de São Romão.
 
 
 
 

Rua Chã em 1936
 
 
 
 
 

Esta artéria foi aberta em 1922 e começou por se chamar Avenida Epitácio Pessoa (presidente da República do Brasil entre 1919 e 1922), desde a Avenida da Boavista até ao chamado Largo de Pereiró, hoje a Praça Afrânio Peixoto.
Esse arruamento foi rasgado através da Quinta do Raimundo, assim chamada por ter pertencido a um alquilador com aquele nome e com loja na Rua Formosa. Ao tempo da sua abertura ela já pertencia por compra a Manuel Tavares Valente de alcunha “O Viramontes”.
A futura avenida ainda cortaria a Quinta da Telheira, junto da Rua do Revilão, acabando o que sobrou dela, por ficar a chamar-se Quinta da Pardeja.
Finalmente, a avenida receberia o nome do médico João Antunes Guimarães (1877 - S. Salvador de Briteiros / Guimarães; 1951), uma personagem que foi ministro do Estado Novo, tendo ficado até aos nossos dias a ser conhecida por Avenida Dr. Antunes Guimarães.

 
 

Avenida Antunes Guimarâes em 1956
 
 
 

Inauguração da linha 4, em 21 de Dezembro de 1947 – Museu do Carro Eléctrico