sexta-feira, 12 de junho de 2026

25.307 Devoção dos portuenses ao Santo António

Foi a igreja dos Congregados o primeiro templo edificado, no Porto, da evocação do Santo António.
Aquela igreja foi erguida diante da porta de Carros, rasgada na muralha fernandina, em 1551, que substituiu, no mesmo local, o postigo de Carros.
Aí, primitivamente, foi construída uma capela (mais tarde, transformada na igreja dos Congregados) destinada a servir uma associação de juízes, reunidos na Confraria de Santo António, que tinham por patrono Santo António de Lisboa e que, até então, tinham praticado o seu culto numa outra capela localizada nos Carvalhos do Monte, para as bandas da Sé, consagrada a Santo António Magno, o eremita de Tebaida ou, simplesmente, Santo Antão.

 
 
 
Capela de Santo António do Penedo e Confraria de Santo António
 
 
A Capela de Santo António do Penedo que, inicialmente, foi consagrada a Santo António Magno, erguia-se no Campo de Santa Clara, a Carvalhos do Monte, hoje, o Largo 1º de Dezembro, tendo sido demolida em 1886, para abrir a actual Rua Saraiva Carvalho e permitir, assim, o acesso à ponte de Luís I, em construção.
Alguns historiadores afirmam que o templo ganhou a designação de Capela de Santo António do Penedo, por ter sido construída sobre uma rocha e, segundo outros, numa alusão ao culto a Saint Antoine du Rocher, um eremita que, no século VI, fundou em Tours, na França, a cé­lebre abadia de S. Juliano.
 
 


Dispensário Rainha D. Amélia e capela anexa – Ed. Photo Guedes
 
 
 
A imagem acima mostra uma capela que existiu junto do edifício onde funcionou o dispensário Rainha D. Amélia, encostada ao torreão da muralha Fernandina e, embora, esteja identificada em várias publicações, como sendo a Capela de Santo António do Penedo, tal não corresponde à verdade, como veremos a seguir.
Voltando à capela de Santo António do Penedo, ela tinha 12 a 15 metros de comprimento e 4 a 5 de largura e o arco bizantino da frontaria era o único na cidade.
Segundo algumas personalidades, supõe-se que esta capela foi construída no séc. XIV, mas “o primeiro documento que tem aparecido a seu respeito é um título do ano de 1504, onde se vê que naquela data estava ela vinculada, ou na posse dum tal Afonso Ferraz, a qual havia já herdado de seus ascendentes”.
Ignora-se, portanto, a data exacta da sua construção inicial, mas sabe-se que no 1º quartel do século XVII, foi alvo de uma séria remodelação.
Assim, em 1671/72, recebeu a capela, um coro e uma galilé executados pelo mestre pedreiro Manuel do Couto, segundo a traça do Padre Pantaleão da Rocha de Magalhães, mestre-capela da Sé do Porto e arquitecto amador, que investigações recentes ligam a algumas das obras mais importantes realizadas, no Porto, na segunda metade do século XVII.
Sabe-se que a capela começou por se chamar de Santo Antão passando, mais tarde, a Santo António.
 
 
 
“…Note-se que esta capela dedicada a Santo António não se referia ao Santo António de Lisboa, mas sim a Santo António Magno, eremita de Tebaida, conhecido por Santo Antão.
Agostinho Rebelo Costa afirma: “…a de Santo António do Penedo, que foi a primeira que se consagrou a este Santo”.
Ora, foi provado documentalmente que este Santo António era o ermitão que acima referimos.
O documento referido por Carlos das Neves, em O Tripeiro, Volume 1 a páginas 300 e Volume 2 a páginas 25, eram as “Memórias da Congregação do Oratório da Cidade do Porto…de 1741” e pertencia, em 1898, ao ex- Abade de Miragaia, quando foi lido pelo referido Carlos das Neves. Neste documento pode ler-se: 
“…determinaram Gaspar de Abreu de Freitas desembargador dos agravos desta Relação, como Juiz que era da Confraria de Santo António, ele e mais mordomos da mesma Confraria edificar um templo em honra de Santo António; porque não tinha este Santo sendo nosso português igreja alguma na cidade dedicada ao seu nome: pois ainda que a Capela, enquanto a dita Confraria até ali estava assentada, se chamava de Santo António do Penedo, por estar fundada sobre viva Rocha junto ao muro da cidade da parte de dentro; na realidade esta Capela não foi fundada para Santo António Português; mas sim para Santo António Magno que vulgarmente chamamos Santo Antão…”
Cortesia do blogue “Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias”

 
 

Capela de Santo António do Penedo, em 1833 – Gravura de Joaquim Villanova
 
 
 

Em 1845, a capela de Santo António do Penedo (que existiu até 1886), no meio do Largo 1º de Dezembro
 
 
 
A gravura anterior é uma prova, em papel salgado, a partir de um calótipo de Frederick William Flower, em 1845, na qual é possível notar a presença de um cruzeiro que, como habitualmente, integraria uma via-sacra.
Abaixo, está representada, numa planta do século XIX, a área intramuros do Largo de Santa Clara.
Nela, pode observar-se a Capela de Santo António do Penedo e a sua orientação e, ainda, a casa de habitação a si adossada que acabou por pertencer a Teixeira Pinto.
Como se observa, também, a entrada principal do templo fazia-se por uma escadaria de dois lanços laterais e ficava voltada para a Sé.

 
 

Planta de Santo António do Penedo, antes, Carvalhos do Monte
 
 
 
 
 

Porta do Sol (vista de intramuros) e Largo de Santo António do Penedo
 
 
 
Na gravura, acima, pode ver-se, à direita, o cruzeiro do Senhor da Boa Fortuna, (actualmente exposto no cemitério da Lapa junto ao jazigo onde está Camilo Castelo Branco) próximo da casa de Teixeira Pinto (exemplificado no desenho abaixo).
A capela adossada à casa era propriedade do morgado Miguel Brandão e Silva.
Em 1860, sendo proprietário da casa, adossada à capela, que vinha a apresentar sinais de ruína, desde 1835, Teixeira Pinto (…)
 
 
“ (…) num processo trabalhoso, conseguiu também a capela para si. O agora proprietário tratou de a adaptar ao uso que lhe pretendia e daqui adveio o último estágio evolutivo do monumento, poucos anos antes da destruição final: nivelou-a ao seu prédio do lado poente, demolindo o alpendre bem como a escadaria localizada em frente deste. Todo este terreno deixado livre foi à sua custa, ajardinado, e mais algum de que entretanto se apossou... Mais pobre mas ainda com aspeto de capela, o seu interior foi a partir daí usado como dependência de arrumos do proprietário.”
Com o devido crédito a Nuno Cruz
 
 
 
 
Quanto ao arco cruzeiro da capela, alguns dizem terem ido, as suas pedras, para os jardins o Palácio de Cristal e sido alvo de um projecto de instalação, aí. No entanto, tal nunca se concretizaria por se terem extraviado alguns dos seus elementos estruturais. Outros estudiosos colocam outras hipóteses.
 
 
“O arco cruzeiro desta capela, de primoroso lavor, foi salvo da destruição tendo também ele sido remetido para S. Lázaro. Contudo, como refere Pedro Vitorino (ver aqui) quando o quiseram voltar a erguer na quinta do SMAS, o mesmo já se mostrava incompleto!”
Com o devido crédito a Nuno Cruz
 
 
 
 

Planta do Largo de Santa Clara

 
 
 
Quando a capela de Santo António do Penedo se tornou exígua e os desembargadores, cuja confraria tinha como patrono Santo António de Lisboa e que vinham ocupando aquela capela por favor, quiseram ter templo próprio onde instalar a irmandade, escolheram um terreno perto do medieval Campo das Hortas, mesmo em frente à Porta de Carros, que se abria no pano da muralha fernandina, compraram-no e, aí, começaram a erguer a ermida com a ajuda de esmolas dos fiéis.
A escritura respectiva ocorreria em 20 de Dezembro de 1657, em que são outorgantes a Câmara e a Mesa da Confraria de Santo António e na qual é feita a oferta condicionada, daquela a esta, de uns terrenos situados fora da Porta de Carros para a construção de um templo. A escritura viria a ser confirmada por alvará régio de 4 de Abril de 1658.
Este templo iria ser, finalmente, o primeiro da cidade dedicado a Santo António de Lisboa.
Aliás, compreende-se a devoção dos desembargadores a Santo António de Lisboa, justificada pela lenda, que reza que o seu pai tinha sido injustamente condenado pelo homicídio de um vizinho. Já ia a caminho da forca quando Santo António, então em Pádua, se terá transportado espiritualmente para Lisboa para o defender e salvar da morte.
Neste episódio radica a expressão; “Tirar o pai da forca”.
Entretanto, poucos meses depois do início das obras, os magistrados abandonaram o projecto e ofereceram o terreno e o que já havia da ermida à Câmara do Porto, "para sempre, enquanto o Mundo durar".
 
 
 
Igreja dos Congregados e sua ligação à Capela de Santo António do Penedo
 
 
 
A ligação entre estes dois locais de culto é muito evidente e tal será mostrado a seguir.
Assim, no Porto, o Padre a Baltazar Guedes, fundador do Colégio dos Órfãos tinha erguido, em 1664, na igreja de Nossa Senhora da Graça, contígua ao colégio, um altar em honra de S. Filipe Néry, tendo no ano seguinte criado a Confraria de S. Filipe de Néry, ligada ao seu colégio.
Em Julho de 1680, chegavam ao Porto vindos de Lisboa os Padres Manuel Rodrigues e João Lobo, onde acabava de ser criada a Congregação do Oratório da Regra de S. Filipe Néry, que pretendiam formar um convento, tendo começado por tentar ocupar o Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça, onde era reitor o Padre Baltasar Guedes. Este opôs-se veemente que tal acontecesse e os padres referidos passaram a cobiçar uma capelinha em frente da Porta de Carros.
No ano de 1680, a Câmara Municipal do Porto, aceitando um pedido do rei D. Pedro II, disponibilizou-se para facilitar à Congregação do Oratório de S. Filipe de Nery tudo o que estivesse ao seu alcance para que os padres congregados pudessem instalar-se na cidade e aqui "estabelecer a sua casa".
No rol das facilidades, incluiu-se a cedência, à referida congregação, da capela da Porta de Carros, da invocação de Santo António, que fora começada a construir em 1660, com esmolas dos portuenses, de iniciativa da Confraria de Santo António, que associava os juízes, mas cuja administração estava, então, a cargo da Câmara que, por essa razão, era quem organizava e, obviamente, pagava a grande festa que todos os anos se realizava no dia do patrono.
No documento que foi lavrado, aquando da cedência do templo, constavam duas alíneas curiosas: primeiro, que a ermida era doada à referida congregação de S. Filipe de Nery na condição de que esta manteria Santo António como padroeiro do templo e que a sua imagem continuaria a figurar em lugar de relevo na fachada ou no altar-mor; segundo, que, além da capela, a Câmara também doava aos padres de S. Filipe de Nery "o sítio e campos ao redor della..." a fim de aí construírem um convento.
Para a nova igreja dos padres congregados, foi aproveitada a anti­ga capela que ficou a servir de capela-mor do actual templo.
Ora o tal sítio e campos que havia ao redor da Capela da Porta de Carros, onde viria a surgir a Igreja de Santo António da Porta de Carros ou Igreja dos Congregados, faziam parte do conhecido como o “Campo das Hortas” que o bispo D. Tomás de Almeida, no século XVIII, transformaria na Praça Nova das Hortas antecessora da actual Praça da Liberdade.
Aliás, este bispo, que também exerceu as funções de governador da Relação e de governador das Armas da Cidade, foi quem mandou abrir na muralha Fernandina o Postigo de Santo Elói, junto ao largo do mesmo nome, hoje Largo dos Lóios, em frente à velhíssima Rua das Hortas, actual Rua do Almada.
Sobre a capela da Porta de Carros, escreve Horácio Marçal as notas seguintes retiradas de O Tripeiro, serie V, nº. X de um artigo de 1955:
 
 
“Em meados do séc. XVII a Confraria de Santo António, sediada por favor na Capela de Santo António Magno ou do Penedo, propriedade do morgado Miguel Brandão da Silva, decidiu adquirir casa privativa e conseguiu que a Câmara lhes vendesse um terreno perto da Porta dos Carros, onde erigiram uma pequena capela. Poucos anos depois acordaram com a Câmara lhes comprasse o terreno, com a condição de lhes construir a capela-mor, o que aconteceu. Porém, por insistência real e do Bispo do Porto, a capela foi entregue, em 1680, à Congregação da Regra de S. Filipe de Néri, com a condição de manter Santo António como padroeiro. Estes terminaram a construção da parte da Igreja ainda inacabada. Tornando-se pequena, a capela foi demolida em 1694, e em seu lugar erigida uma importante Igreja que, depois de novas ampliações, é a que podemos apreciar no nosso tempo. 
O convento começou a construir-se em 1683.”
 
 
Por sua vez, as obras na Igreja de Santo António da Porta de Carros, ficaram prontas em 1703, tendo presidido à cerimónia de inauguração o bispo D. Frei José de Santa Maria Saldanha.
O sucessor deste bispo, D. Tomás de Almeida, protegeu muito os padres da Congregação de S. Filipe de Nery contribuindo para o embelezamento do interior da sua igreja, a actual igreja dos Congregados, diante da qual mandou fazer um belíssimo átrio que comportava "três arcarias", varandas de ferro e uma larga escadaria "por baixo da qual havia lojas abobadadas que os padres alugavam".
D. Tomás de Almeida saiu do Porto, em 1717, para tomar posse do cargo de cardeal patriarca de Lis­boa. Foi o primeiro a ocupar aquele alto cargo eclesial. 
 
 
 

Desenho do Convento e Igreja de Santo António da Porta de Carros de Joaquim Villanova

 
 
No desenho, anterior de 1834, observa-se que a igreja apresenta a torre quadrada com terraço, que tinha 8 sinos e que existiu até 1842, tendo os sinos sido comprados pela Igreja da Santíssima Trindade. À direita, vê-se uma “cadeirinha” do Porto.
Para se poder fazer uma ideia, ainda que aproximada, da extensão dos terrenos na posse da congregação de S. Filipe Nery, bastará dizer que a cerca do convento se estendia até à antiga Cancela Velha e corria ao longo de uma estreita e tortuosa viela ainda hoje conhecida por Travessa dos Congregados.
Durante a guerra civil acontecida entre o exército de D. Pedro IV e a tropa de D. Miguel, os pa­dres congregados, que eram miguelistas, fugiram da cidade e deixaram a igreja e o convento abandonados. A igreja serviu de hospital de sangue durante o Cerco do Porto e nas instalações do mosteiro arrecadaram-se li­vros e outros objetos provenientes de ou­tros conventos. 
Com a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi vendido, em 23 de Abril de 1834, a um brasileiro de torna viagem, Ma­nuel Duarte Guimarães, de alcunha "O Cheira", enquanto a igreja era cedida à confraria de Santo António.
A Confraria de Santo António da Porta dos Carros que esteve extinta entre 1680 e 1708, ano em que foi reactivada, manteve na Igreja a sua sede até à saída dos monges em 1832. Em 1834, a Igreja foi-lhe devolvida pela Câmara,  livre de encargos.
Foi a partir da tomada de pos­se do templo pelos homens da irmandade de Santo António que a igreja passou a ser conhecida por igreja de Santo António dos Congregados. 
Infelizmente, aos homens da confraria não foi entregue a igreja na sua totalidade. A torre quadran­gular e a primitiva sacristia já haviam le­vado sumiço. Os herdeiros de Manuel Sousa Guimarães, junto do convento e igreja, mandaram fazer grandes obras, com abertura de novas janelas e portas exteriores.
Demoliram a sacristia, que ficava do lado da Praça das Hortas e a torre (1842). Desta forma poderiam alugar ou vender a diversas pessoas, o que ocasionou a abertura de estabelecimentos e casas de habitação.

 
 

Igreja dos Congregados – Fonte: Google maps

 

 
 Outras devoções ao Santo António

 
Santo António é historicamente considerado o padroeiro do comércio e dos comerciantes na cidade do Porto.
Esta tradição está ligada ao facto de o santo ter nascido no seio de uma família de comerciantes abastados em Lisboa. Por ser uma terra com forte tradição mercantil e de negócios, os lojistas e comerciantes portuenses adoptaram-no como protetor da sua actividade e de bons negócios.
Era frequente, por isso, muitos estabelecimentos da cidade do Porto apresentarem uma imagem do santo.
No Porto, ao Santo António de Lisboa, que é celebrado em 13 de Junho, para além da Igreja dos Congregados, é-lhe dedicada a Igreja Paroquial das Antas, a capela de Santo António de Contumil, a capelinha de Santo António da Estrada, no começo da escadaria de acesso à igreja do Bonfim e a capela e o Hospital de Santo António.
Entretanto, há muito que desapareceu a Capela de Santo António da Aguardente (ao Marquês) depois dedicada, no mesmo local, a S. Joaquim, para desobstruir a entrada da actual Igreja da Imaculada Conceição.
 
 
 
 

Capela do Hospital de Santo António – Fonte: regiaodonorte.pt

 
 

Capela de Santo António de Contumil, anexa à Quinta de Santo António de Contumil – Fonte: regiaodonorte.pt

 
 
 
Capela de S. Joaquim (Desaparecida), antes, Capela de Santo António da Aguadente, à Praça do Marquês

 
 
No Porto, várias quintas ostentam ou ostentaram a sua dedicação ao santo: Quinta de Santo António (de Lamas), junto da Faculdade de Economia, afecta à actividade turística e a Quinta de Santo António de Contumil de uso privado; e ainda, a Quinta de Santo António do Bonjardim (hoje, terrenos da Rua de Gonçalo Cristovão) e a Quinta de Santo António da Boavista (hoje, terrenos da Rua da Boavista e terrenos adjacentes, a poente do Largo de Santo Ovídio) já desaparecidas. 
Quanto a mosteiros e conventos, no Porto, dedicados a Santo António, pode referir-se o Mosteiro de Santo António de Vale da Piedade (em Vale de Amores, V. N. de Gaia) e o Convento de Santo António da Cidade, a S. Lázaro.

terça-feira, 2 de junho de 2026

25.306 Antigas personagens com relevante actividade pública

 
José Zagalo Ilharco
 
 
José Zagalo Ilharco (Lamego 1860 - 1910 Porto) ficou, sobretudo, conhecido como um fotógrafo amador, dedicado primordialmente à fotografia de paisagem, mas, também,  ao retrato de familiares, de amigos e dos ambientes em que viveu e, por isso, viu por diversas ocasiões premiado nacional e internacionalmente essa sua actividade.
Faleceu, então, em 1910, num palacete situado na Avenida da Boavista, nº 2609 que, curiosamente, é conhecido por Palacete Manoel Alves Soares, um capitalista ligado, entre muitos outros empreendimentos, ao Jornal “O Primeiro de Janeiro”, à Fábrica de Fiação e Tecidos da Areosa e à Empresa Fabril do Norte e, em todos eles, um reconhecido sócio de um outro empresário de sucesso – Manuel Pinto de Azevedo.
Aquele palacete foi, então, mandado construir em 1902 por José Zagalo Ilharco e vendido pelos seus herdeiros a Manoel Alves Soares.
José Ilharco era filho do General José Joaquim Ilharco de Sousa Cardoso e de Maria Cândida do Couto.
Na cidade do Porto, onde se fixou ainda jovem, acabaria por contrair matrimónio com Angelina Ribeiro de Moura.
O casal teve um filho único, Norberto de Moura e Melo Zagalo Ilharco (1883-1958).
José Zagalo Ilharco foi sócio fundador e director do Real Velo Club do Porto, gerente da companhia de seguros "A Equitativa do Porto" e director da agência no Porto da companhia de seguros "A Nacional".
Sendo um amante da arboricultura e jardinagem, havia de, em colaboração com Jacinto Matos, criar em volta da sua casa, na Avenida da Boavista, o chamado Parque Zagalo Ilharco, jardim que rodeava a vivenda mandada construir em 1902, ao Pinheiro Manso.
 
 
 

Licença de obra nº 211, de 1902, referente ao palacete de José Zagalo Ilharco
 
 
 
 

Palacete, na Avenida da Boavista, nº 2609

 
 
A seguir se dão alguns exemplos da actividade fotográfica de José Zagalo Ilharco.




“As redes a secar”, em 1891, praia de Matosinhos. Papel de impressão em gelatina e sal de prata  – Ed. Zagalo Ilharco


 
 

“Ponte Tavares” (Rio  Leça, Matosinhos), em 1888. Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco


 
 

“Ponte dos Arcos”, Matosinhos, em 1889. Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco

 
 
 

“Velódromo do Real Velo Club do Porto”, em 1893. Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco
 
 
 
 

“Barco Rabelo” e mosteiro da Serra do Pilar, em 1889.  Papel de impressão em gelatina e sal de prata– Ed. Zagalo Ilharco
 
 
 
 
 

 
“Jardim da Cordoaria”, (Passeios da Graça), em 1889. Papel de impressão em gelatina sal de prata – Ed. Zagalo Ilharco
 
 
 
Actualmente, o espólio fotográfico de Zagalo Ilharco encontra-se na posse da família Magalhães Carneiro, familiares do famoso fotógrafo amador.
Em 2024, a obra em versão alargada foi apresentada públicamente no Museu Soares dos Reis e no Museu de Lamego.
Em 2025, foi a vez de ser apresentada pela Câmara Municipal de Matosinhos, com toda a propriedade, pois, foi no concelho de Matosinhos, que  Zagalo Ilharco teve produção fotográfica de mérito.
Por sua vez, Norberto Zagalo Ilharco, o único filho de José Zagalo Ilharco residiu, entre 1918 e 1930, na “Vila Palma”, na antiga Rua Central, actual Rua Augusto Cardia Pires, em Leça da Palmeira e, também, como o seu pai, foi fotógrafo amador, tendo casado com Maria Helena de Magalhães Carneiro (1882-1965).
 
 
 

Norberto Zagalo Ilharco e a esposa na “Vila Palma”, em Leça da Palmeira
 
 
 
 
“Vila Palma, antes e, actualmente
 
 
 
 
Joaquina Margarida Cardoso – A “Cardosa”
 
 
 
Joaquina Margarida Cardoso, apelidada carinhosamente pelos portuenses, juntamente com o ramo feminino da família, como as “Cardosas”, habitou num segundo casamento e, por aí, faleceu, no prédio da Rua do Ouro, n.º 200 que, nos dias de hoje (2026), se encontra abandonado há muitas décadas.
A alcunha de “Cardosa” decorria do nome do seu primeiro marido de apelido de baptismo Cardoso - o Manuel Cardoso dos Santos.
 
 
 

Prédio da “Cardosa”, na Rua do Ouro, nº 200 – Fonte: Google maps

 
 

Fachada principal de prédio localizado próximo à Fonte do Ouro – Fonte: AHMP
 
 
 

A Fonte do Ouro e, à direita, a “Casa da Cardosa” – Ed. J. Bahia Junior, 1909
 
 
 
 
O pedido de licenciamento para a construção do prédio, sito como próximo à Fonte do Ouro, foi solicitado em 12 de Março de 1862, por Joaquina Margarida Cardoso.
Este prédio era identificado em 1892, na planta de Telles Ferreira, como “Casa da Cardosa” e localizava-se na esquina da Rua do Ouro com a Calçada do Ouro, confrontando, a nascente, com a Fábrica do Gás.

 
 

A Casa da “Cardosa” (à esquerda) e a Fábrica do Gás
 
 
 
Aqui, morou, até ao seu falecimento, em 21 de Agosto de 1890, Joaquina Margarida Cardoso, casada em 2ªs núpcias com Francisco Cardoso da Cunha, que foi seu testamenteiro e que haveria de falecer dois anos depois.
Joaquina Margarida Cardoso havia sido casada, antes, com Manuel Cardoso dos Santos, seu primo, com morada na Rua Nova de Santo António (Rua 31 de Janeiro), de cujo casamento resultaram três filhos: António Cardoso dos Santos (nascido em 4 de Janeiro de 1837), Joaquim Cardoso dos Santos (nascido em 21 de Abril de 1839) e Joaquina Cardoso dos Santos (nascida em 24 de Outubro de 1840).
Manuel Cardoso dos Santos (1796-1851), nascido na Quinta da Granja, Lugar de S. Martinho de Lordelo, foi um Brasileiro de torna-viagem, um dos Contratadores do Tabaco, que havia adquiri­do o edifício, que era uma ala inacabada do Convento dos Lóios (ou Convento Novo de Santa Maria da Consolação, ou Convento dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista), com vista a terminar o edifí­cio.
Do convento apenas chegou, até hoje, a fachada que os frades começaram a construir já no séc. XIX.
Após as invasões Francesas, entre 1810 e 1822, o edifício é ocupado por tropas portuguesas que aí instalaram um hospital militar.
Com a abolição das Ordens Religiosas em 1832 (decreto exarado nos Açores) e devido às Lutas Liberais, os frades abandonaram as obras de ampliação do edificado que vinham executando e o País.
O convento entrou em ruínas e a Câmara tratou da sua demolição em 1838.
Em 1838, já após a extinção das ordens monásticas o Largo dos Lóios foi ligado à Rua das Flores por uma rua que começou por se chamar Rua D. Maria II e é a actual Rua Trindade Coelho.
Posteriormente, a Câmara tomou posse e colocou à venda o edificado do convento, em hasta pública, sendo o seu comprador Manuel Cardoso dos Santos, um abastado negociante com fortuna feita no Brasil e que se comprometeu em acabar a fachada, mas, entretanto, falecido, em 1851, o edifício passou por herança para a viúva, filha e dois filhos.
 
 
 

Convento de Santo Elói e Capela de Nossa Senhora da Consolação – Desenho de Joaquim Villanova – 1833 
 
 
 
 
Assim, acontece que em virtude do falecimento de Manuel Cardoso dos Santos, não lhe foi possível completar a tarefa de remodelação do convento dos Lóios, e seria a sua mulher, a quem chamavam “A Cardosa”, a fazê-lo.

 
 

À esquerda, o Palacete das Cardosas
 
 
 
 
À sua morte, Manuel Cardoso dos Santos possuía uma fortuna, que depois de deduzido o dote da mulher, montava em 484.552$315 réis.
Para além dos muitos edifícios no Porto, Gaia, Vila do Conde, Almada, Lisboa e Brasil, tinha um enor­me lote de títulos de crédito, de embarcações, cortinados bordados e de damasco, muitos diamantes, inúmeras joias, faqueiro e muitos objectos de prata, rico mobiliário e piano. Dizem, porém, que nem um único livro possuía.
Para além do hoje denominado Palacete das Cardosas, situado a sul da Praça da Liberdade um outro espaço era de propriedade desta família, mas, poucos portuenses disso têm conhecimento.
Assim, a herança de Manuel Cardoso dos Santos contemplava um terreno e armazéns, entre a Rua de Santo António e a Viela da Neta, onde se situava o Circo de Cavalinhos, o Teatro Sá da Bandeira dos nossos dias.
A propriedade respectiva pertenceria, a partir de 1851, a Joaquina Margarida Cardoso, recebida por herança de seu marido Manuel Cardoso dos Santos, residente, à data, na Rua Nova de Santo António.
Por isso, em 1854, ela solicitava à Câmara do Porto autorização para proceder a obras, naquela área, inclusive alterar uma servidão que dava acesso pela Viela da Neta (Rua Sá da Bandeira) a uma armazém que ela dizia possuir. O pedido obteria a licença n.º 170/1853.
Em 1858, o Teatro Circo seria demolido de forma a ser construído um outro circo, desta vez usando a pedra como material de construção em detrimento da madeira, segundo projecto do arquitecto da Câmara Municipal de Gaia, Pedro José de Oliveira e que seria o “novo” Teatro Circo.
Em 1909, a propriedade ainda se encontrava na posse da mesma família, pois, documentação prova que, em resultado de uma vistoria executada pelas autoridades competentes, a proprietária do teatro, Laura Júlia Vilar Cardoso foi intimada a fazer obras na zona dos camarotes.
Laura Júlia Vilar Cardoso (1862 - 1918), referida no texto anterior, era filha de Laura Virgínia Vilar e de António Cardoso dos Santos e este, por sua vez, era filho de Joaquina Margarida Cardoso e de Manuel Cardoso dos Santos.
Do casamento de Manuel Cardoso e Joaquina Margarida houve, como já referido, dois filhos e uma filha.
A filha Joaquina Cardoso, que foi casada com Fausto de Queiroz Guedes, o 2º Visconde de Valmor, tendo falecido a 5 de Setembro de 1859.
Joaquina Margarida faria um primeiro testamento, em 8 de Novembro de 1878, no qual declarou que, à data, o seu único filho era António Cardoso.
Após o falecimento deste último, Joaquina Margarida Cardoso fez um segundo testamento, no qual, os herdeiros mais beneficiados foram a sua neta Laura Júlia, filha do seu filho António, casado com Laura Virgínia Vilar e o seu companheiro, Francisco Cardoso da Cunha.
Laura Júlia Vilar Cardoso foi casada em primeiras núpcias com Eduardo Barbosa de Castro, do qual se separou judicialmente de pessoas e bens e, parceira, de António Teixeira de Azevedo Cabral e Melo de Sousa Cyrne, de cujos enlaces resultaram os filhos Alfredo Cardoso de Castro e António Augusto Cardoso Cyrne de Madureira, este, último, ilegítimo, mas reconhecido no seu testamento.
Em 1916, quando é feito um novo arrendamento da sala de espectáculos a favor de António Pimenta da Fonseca e Arnaldo Moreira da Rocha Brito, Laura Júlia Vilar Cardoso ainda era a proprietária do icónico imóvel, vindo a falecer dois anos depois.
O antigo alfaiate, Arnaldo Moreira da Rocha Brito, já tinha em 1909 feito um primeiro arrendamento do teatro, situação que manteria até ao seu falecimento em 1970.

sábado, 23 de maio de 2026

25.305 O Teatro Rivoli e a ligação ao Banco Borges & Irmão (BBI)

 
Foi uma sociedade entre dois irmãos que originou o Banco Borges & Irmão.
Em 1884, António Nunes Borges (1858-1939) e Francisco António Borges (1861-1939), dois irmãos, oriundos do Lugar de Espadanal, freguesia de Ázere, concelho de Tábua, distrito de Coimbra, associam-se desenvolvendo um negócio, que já conheciam, de câmbios de moeda, que vinham exercendo por contra de outrem.
A citada associação sob firma de Casa António Nunes Borges & Irmão irá ter o seu início, na cidade do Porto, em 27 de Fevereiro de 1884.
A partir de 1891, a Sociedade passa a ser designada por Borges & Irmão.
António Nunes Borges, com 14 anos, partiu para Lisboa, passando a trabalhar como marçano na casa bancária Moura Borges, cujos proprietários eram seus familiares.
Daí, sai para se empregar, em Lisboa, na casa de câmbios António Inácio da Fonseca, na Rua do Arsenal, n.ºs 56-64 e, em 1878, devido às suas qualidades profissionais, é escolhido para gerente da filial da empresa que, entretanto, abria no Porto, à Feira de S. Bento (Praça Almeida Garrett), n.ºs 35-35.
Por sua vez, Francisco Borges tinha estado, também, a trabalhar na casa de câmbios, em Lisboa, de António Inácio da Fonseca, mas, em 1882, foi chamado pelo irmão para trabalhar na filial do Porto.
Então, em 1884, decidem montar um negócio próprio.

 
 

Publicidade à casa de Câmbios e lotarias de António Inácio da Fonseca, em 21 de Agosto 1886 – In almanake “Pontos nos ii”
 
 
 
A casa de câmbios e lotarias Borges & Irmão vai sediar-se num pequeno estabelecimento de duas portas, na Rua do Bonjardim, torneando para a Rua de Sá da Bandeira e com uma filial na Rua das Flores.
Não tardou que a casa Borges & Irmão enveredasse por outros sectores de actividade económica.
Assim, passou a exercer o negócio de revenda de tabaco, do qual tinham o exclusivo para quatro distritos do norte do país.
Numa perspectiva de diversificação do negócio, os dois irmãos decidiram dedicar-se à comercialização de vinho Verde e vinho do Porto.
Em 1885, Artur Lello, com conhecimento do sector vinícola, passa a gerir o departamento da comercialização de vinhos de Borges & Irmão.
Em 1905, já a Casa Borges & Irmão exportava numerosas marcas de vinhos finos do Porto, em barris e em caixas, de colares, Clarete Douro e de vinhos verdes para todos os portos do Brasil, o principal mercado, África e Europa.
Aquele departamento será o embrião da Sociedade dos Vinhos Borges, formalmente constituída em 1918, com Artur Lello já como um dos accionistas e principal gestor. 
A Artur Lello, depois do seu falecimento, em 1928, sucederá o seu filho Carlos Alberto Guimarães Lello, casado com Maria Cecília Calém de Guimarães Lello, falecida em 6 de Novembro de 1937.

 
 

Banco Borges & Irmão, na Rua do Bonjardim, após evolução a partir das primeiras instalações da Casa Bancária Borges & Irmão
 
 
 
 

Borges & Irmão, como Casa de Câmbios e Lotarias
 
 
 
 

Publicidade à firma “Borges & Irmão”, In jornal “A Voz Pública” em 31 de Março de 1907
 

 
A casa de câmbios dos irmãos Borges, na esquina das ruas do Bonjardim e de Sá da Bandeira, em 1910, torna-se numa casa bancária, com sede no Porto e agência em Lisboa.
Em 1912, é aberta uma filial no Rio de Janeiro.
Para além da actividade bancária, os irmãos continuam a manter um negócio de vinhos que, em 1918, se autonomiza com fundação da “Sociedade dos Vinhos Borges”.
Assim, em 3 de Setembro de 1918, por escritura desta data, nas notas do Dr. Ponce de Leão, constituiu-se a “Sociedade dos Vinhos Borges & Irmão, Lda.”, nova empresa, com sede na Rua do Bonjardim, 73-77, sendo fundadores António Nunes Borges, Francisco Borges e Alberto Guimarães Lelo, com o capital de 120 contos.
Em 1919, o pacto social da casa bancária é alterado com a entrada para a sociedade de Manuel Pires Fernandes e José Nunes Fonseca.
Em 1926, a casa bancária muda a sua sede para a Rua de Sá da Bandeira e, fruto da expansão dos negócios, em 1937, passa a “Banco Borges & Irmão (BBI).

 
 

Sede da fundação do Banco Borges & Irmão

 
 

Sede do Banco Borges & Irmão, a partir de 1937, na esquina das ruas de Sá da Bandeira e Santo António
 
 

 

Publicidade ao Banco Borges & Irmão em 1970
 
 
 
 
 
O BBI chegou a possuir, na região demarcada do Douro, as propriedades da Soalheira, Junco, Muro Ferradosa, Casa Nova, Hortos e Silho, na região de Coimbra as quintas do Choupal e Mizarela e, finalmente, no Algarve, a quinta do Barranco Longo, todas entregadas à Sociedade dos Vinhos Borges e Irmão, com sede em V.N. Gaia.
Tinha, também, a propriedade do Teatro Rivoli, cujo monumental edifício estava adossado à residência da família Borges, hoje, o local ocupado pela Caixa Geral Depósitos.
Aliás, havia uma passagem da residência da família Borges, para um camarote boca de cena.
 
 
 

À direita, o prédio onde vivia D. Maria Borges
 
 
 
 
 
Durante alguns anos, era no Rivoli que se fazia a festa de Natal para os filhos dos funcionários do Banco, com entrega de brindes, espectáculo e jantar.
Esta sala de espectáculos sucedeu, no mesmo local, ao Teatro Nacional, inaugurado, em 1913, e demolido para abertura da Avenida dos Aliados.
Tinha a sua entrada principal pela Rua Elias Garcia (desaparecida), nº 98, e uma modesta entrada pela Rua do Bonjardim, nº 153.
Em 1923, seria objecto de obras e quando, em 1926, o Teatro Nacional montou o ecrã, as revistas de cinema já lhe chamavam Rivoli.
No final da década de 1920, o Teatro Nacional foi adquirido por Manuel Pires Fernandes (1860-1944) que, desde 1919, era já acionista da sociedade Borges & Irmão, um empresário originário de Mirandela que decidiu demoli-lo para o substituir por um outro, na sequência de intervenções urbanísticas na zona.
O Rivoli foi, então, construído entre 1928 e 1932, pelo risco do arquitecto Júlio José de Brito, dotado de 1800 lugares.
A inauguração seria em 20 de Janeiro de 1932, com a presença em palco da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, vinda expressamente de Lisboa, tendo apresentado a comédia “Peraltas e Sécias” de Marcelino Mesquita.
No ano da inauguração, a sala de espectáculos foi dotada de equipamento de projecção para cinema sonoro.
Na primeira metade da década de 1940, seriam executadas obras de modo a tornar as instalações mais confortáveis para os espectadores e o próprio edifício receberia intervenções para o seu embelezamento.
Tudo isto seria executado sob a orientação da filha de Manuel Pires Fernandes, Maria Borges, uma reconhecida melómana e moradora num prédio contíguo ao teatro, casada desde o início do século XX com o banqueiro Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão.
Maria Assunção Fernandes Borges foi casada com Francisco António Borges (1861-1939), administrador do Banco Borges & Irmão, de cujo enlace houve uma filha, de seu nome, Maria Emília Fernandes Borges (1914-2000), condessa da Covilhã, e um filho, de seu nome, Francisco Manuel Fernandes Borges (1916-1959), de profissão engenheiro e que foi administrador do Banco Borges & Irmão.
Maria Emília Fernandes Borges ostentou aquele título nobiliárquico pelo seu casamento com o 3º conde da Covilhã, Júlio Anahory de Quental Calheiros (1900-1970), de cujo enlace houve a filha, Maria Manuela de Quental Calheiros.
O 3º conde da Covilhã chegou a este casamento, no estado de viúvo, vindo de um primeiro casamento, sem geração, com Vera de Sousa e Cruz, que faleceu muito nova, filha do Banqueiro Sousa e Cruz e de sua mulher, sendo reconhecido pelo povo anónimo como o fundador da fábrica de pneus MABOR.
Ficou também ligado ao desporto automóvel como entusiasta e apoiante de Casimiro Oliveira e Vasco Sameiro, dois pilotos de veículos de fórmula 1, por si importados e caracterizados pela sua cor amarela.
De seu nome completo Maria da Assunção Vaz Fernandes Borges sucederia, em 1944, na gestão do Teatro Rivoli, após o falecimento do seu pai.
Em 21 de Junho de 1946, é publicada escritura, no Diário da República III ª Série, que formaliza a constituição de uma sociedade para gestão do Rivoli, na qual Maria Borges é accionista maioritária.
Em 30 de Agosto de 1950, já D. Maria Fernandes Borges receberia, no Teatro Rivoli, das mãos do presidente Lucínio Presa, a Medalha de Ouro de Mérito Artístico pelo seu esforço, sem o qual não seria possível a constituição em 1947, da Orquestra Sinfónica do Porto, continuadora da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto.
Lucínio Gonçalves Presa foi o Presidente da Câmara Municipal do Porto que destruiu o Palácio de Cristal para em seu lugar construir um pavilhão de Hóquei em Patins, decisão da qual muitos portuenses nunca lhe perdoaram a ousadia.
D. Maria Borges, em 1951, após 12 anos sobre o falecimento do seu marido, haveria de decidir construir na moderna Avenida de Montevideu, em plena beira-mar, um palacete icónico com projecto do reputado arquitecto Viana de Lima que, nos anos de 2024 e 2025, foi sujeito a remodelações de vulto.
 
 
 

Actualmente (2024), a vivenda em trabalhos de remodelação que foi mandada erguer por Maria Fernandes Borges – Fonte: Google maps
 
 
 
 
Quando, nos anos 70, apareceram as dificuldades na gestão do Rivoli, o Banco Borges & Irmão (o proprietário de há muitos anos), pensou na sua demolição para a construção da sede daquela instituição bancária, mas acabaria por vendê-lo, tendo a sala de espectáculos passado sucessivamente pelas mãos da sociedade de construção William Graham e pelas do Banco Português do Atlântico.
Seria Maria Borges, filha do empresário e proprietário do antigo Teatro Nacional e, depois do Teatro Rivoli, Manuel Pires Fernandes e casada com o banqueiro Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão, a opor-se à destruição do Rivoli e a quem os portuenses devem essa benesse.
Maria Fernandes Borges que, diziam, tinha um camarote boca de cena que comunicava com a sua casa, que ficava adossada ao Rivoli, falece em 1 de Fevereiro de 1976 e, em sinal de luto, no dia seguinte, o Rivoli, em sinal de luto, fechava as suas portas.
 
 
  

Proposta que não teria execução prática para ocupar o chão do Teatro Rivoli, c. 1970
 
 
 
 
 
O Teatro Rivoli passou definitivamente para a alçada e propriedade da Câmara Municipal do Porto em 1989, ano em que a autarquia comprou o edifício ao Banco Português do Atlântico para o salvar do estado de degradação.
Posteriormente, após obras profundas de remodelação, a sala de espectáculos reabriu como grande palco cultural em Outubro de 1997.
Entretanto, quanto ao Banco Borges & Irmão, nas décadas de 1970 e 1980, apesar da nacionalização da banca, a actividade do Banco Borges & Irmão continua a alargar-se.
Enquanto entidade autónoma, o BBI deixa de existir em 1998, quando se dá a sua fusão com o Banco Fonsecas & Burnay e o Banco de Fomento Exterior, dando origem a uma nova instituição: o BPI - Banco Português de Investimentos.