terça-feira, 15 de janeiro de 2019

(Conclusão)


Na sua visita ao Porto, Madame Rattazi hospedou-se no Hotel Francfort que ocupava o local onde está hoje, a estátua conhecida como a “Menina Nua” ou “Juventude”, na Avenida dos Aliados.
No terreno em que estava implantado o hotel (construído em 1851, em pleno Romantismo, por iniciativa do rico negociante da praça do Porto, Luís Domingos da Silva Araújo) tinha existido antes, durante alguns  anos, um cemitério para cães da municipalidade, 
Sobre o hotel Francfort e sobre a sua proprietária, dizia a escritora.





A meio, no gaveto, o Hotel Francfort


Sobre o carácter dos portuenses e a sua relação com a capital, opinava madame Rattazi.




Aliás, a visão de madame Rattazi é muito próxima da de Ramalho Ortigão expressa nas “FARPAS”.

“Quando o príncipe reinante e a sua augusta família iam às províncias do Norte, o Porto recebia-os de azul e branco, num grande rasgo de júbilo sublinhadamente plebeu, que entocava a nobreza de pura humilhação perante as magnificências da burguesia dinheirosa e bizarra.
(…) Aqui mora o Faz-Tudo! Solda, gruda, parafusa, martela, arrebita, bota abaixo, reconstitui, engonça, retesa, dá corda, regula, acerta e garante — sempre de lança em punho, feito de pedra, velando potente na fachada dos Paços do Concelho à Praça Nova, por cima da arrecadação das luminárias e das chaves do baluarte feitas de pasta pelo Alba dourador da Rua de Santo António. 
Ramalho Ortigão - As Farpas

Ainda sobre a relação entre Lisboa e o Porto, diga-se que a rivalidade hoje presente, já vem de longe.
Sobre uma visita de um lisboeta ao Porto é o texto seguinte (com uma boa dose de humor), que saiu no “Comércio”, antigo nome de “O Comércio do Porto”, de 14 de Setembro de 1855, anterior, por isso, cerca de 25 anos, às visitas da madame Ratazzi.

“As festas da aclamação em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.
É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciam-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.
Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretensioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.
Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale nesta retrógrada terra.
Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.
A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense traz-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital. O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilização da capital, porque, seja dito entre parêntesis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.
O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo. Vanitasvanitatumalfaciaalfaciarum.”
Fonte: “aportanobre.blogs.sapo.pt”


Na época das visitas de Madame Ratazzi, a sala de espectáculos de eleição da cidade do Porto era o teatro S. João, que não teve oportunidade de visitar por se encontrar encerrado. No entanto, não deixou de fazer uma breve referência às outras salas de espectáculos.





E acrescentava sobre a actividade artística e modo de a encarar dos portuenses, nomeadamente a independência de pensamento face à capital, na sequência do qual, êxito alcançado por uma companhia em Lisboa, não significava um salvo-conduto para o sucesso no Porto.






Teatro de S. João em 1900 antes do incêndio


Sobre o Palácio da Bolsa disse Madame Rattazi.




E sobre o imponente Hospital do Conde de Ferreira.



E sobre a disponibilidade dos portuenses para a prática da caridade.




Tendo visitado a Foz do Douro, faz referência a diversas ruas da cidade do Porto, nomeadamente a Rua de S. João e a Rua das Flores, descreve a casa da Quinta da Macieirinha e o seu encontro com o proprietário, Pinto Basto, e anota alguns dos costumes dos portuenses.




Sobre a estadia no Porto da princesa Solms, escreve Artur Magalhães Basto, a propósito de um baile dado em sua honra, no Palacete do Conde de Samodães, na Rua dos Sol, que durante anos foi o local onde funcionou a Escola Comercial Oliveira Martins.




E sobre a visita de madame Rattazi ao Porto, o caricaturista nascido em Ponte de Lima, Sebastião Sanhudo, fazia publicar no humorístico “O Sorvete” (2º ano, nº 88 – Porto, 1880) um desenho de crítica aos escritos de madame Rattazi, em que ela era apresentada como um pássaro, por analogia com o título da obra.


Madame Rattazi com o apôdo “a pássara”, como passou a ser conhecida


A legenda (impressa) da gravura acima diz:
O sábio doutor Costa mostra à Pássara – que viu Portugal d’um golpe – o lindo rio da Viella (nome que lhe dava), os penitentes vermelhos descendo a collina com velas acesas etc”.

Naqueles tempos Rafael Bordalo Pinheiro, já publicava o “António Maria” e o caricaturista apresentava a sua visão de madame Rattazi.


Princesa Rattazi em Litografia Colorida de Rafael Bordalo Pinheiro


Por outro lado Guerra Junqueiro na revista “Viagem à Roda da Parvónia”, chama-lhe “Princesa ratazana”.
Mais tarde, veio a público que foi um secretário da princesa que escreveu a obra polémica.

“De resto, quem escreveu o “Portugal à vol d'oiseau» não foi a princeza, mas sim um francez expatriado, que á epoca se achava residindo em Lisboa e era muito da intimidade da suposta-autora, mr. Stenacker”.
Fonte: Ilustração Portuguesa II Série – Nº 808, Lisboa, 13 de Agosto de 1921

Quando a 7 de Fevereiro de 1902, faleceu em Paris, com 71 anos de idade, os portugueses já não se lembravam quem tinha sido madame Rattazi.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

25.29 Madame Rattazi – “A Questão Rattazi”


Madame Rattazzi visitou Portugal em 1876, 1878 e 1879, e sobre essas viagens escreveu um livro que em Paris foi publicado com o título de  "Le Portugal A Vol D’Oiseau" e que entre nós se chamou, "Portugal de Relance".


Le Portugal A Vol D’Oiseau, 1880 – Madame Rattazi


“Poucos personagens terão sido mais polémicos do que esta escritora, Madame Rattazzi (1831/1902). Nascida na Inglaterra, filha de Sir Thomas Wyse e da mãe francesa, Letícia Bonaparte, era de naturalidade francesa e sobrinha neta de Napoleão I. 
Casou em 1849 com um alemão, Frederico de Solms de quem enviuvou em 1863. Nove dias depois casou com um italiano, Conde Urbano Rattazzi, que faleceu em 1873. Sete anos mais tarde casou com um espanhol, D. Luis de Rute de quem também enviuvou em 1889.
Por causa dos seus livros deu tantos problemas aos seus dois últimos maridos, que várias vezes se tiveram de bater em duelo, que não encontrou um quarto que a quisesse. Pode dizer-se que foi uma cidadã europeia”.
Fonte: “portoarc.blogspot.com”



“Em 20 de Janeiro de 1876, madame Rattazi chegou a Lisboa indo hospedar-se no hotel Braganza. Era uma mulher dos seus quarenta e tal anos, muito frescalhota ainda, alta, desempenada, de uma notavel distinção de maneiras, cabelo todo preto, palida como uma andalusa e com uns impressionantes olhos languidos cheios duma grande expressão apaixonada.
(…) Em março de 1878, a princeza Rattazzi efectuou a segunda visita a Portugal. Como da primeira vez, assistiu a diferentes sessões no Parlamento, a varios espetaculos e deu algumas festas e jantares aos literatos e aos políticos dessa epoca que, por fim, lhe ofereceram, tam- bem, um explendido banquete no salão nobre do teatro de D. Maria. Em 17 de Junho do ano seguinte chegou, novamente, a Lisboa. Desta vez, porem, não deu festas nem jantares, limitando-se a visitar varias localidades e o Porto. Demorou, apenas, um mez entre nós, tendo assistido em 16 de Julho - vespera da sua partida para a Espanha – á corrida por curiosos na praça do Campo de Santa Ana(…)
(…) Em 1886- por ocasião do casamento do príncipe D. Carlos com a prin· ceza D. Amelia de Orleans, veio assistir aos festejos, chegando a Lisboa a 20 de maio, e retirando para Madrid em 2 de Junho. Foi esta a quinta visita a Portugal (…)”
Fonte: Ilustração Portuguesa II Série – Nº 808, Lisboa, 13 de Agosto de 1921


Ainda antes de 1881, em que a obra que descrevia Portugal seria publicada, por cá, com o título Portugal de Relance, já, em 1880, Antero de Quental se referira ao texto publicado em França, em carta para João Lobo de Moura, nestes termos: 

“A Rattazzi, que passou dois Invernos a desfrutar os literatos de Lisboa, publicou agora um livro sobre Portugal, delicioso. Imagine uma parisiense descrevendo ao vivo, estes mirmidões. Não se fala noutra coisa e está tudo furioso”.


Portugal de Relance


A propósito do olhar de Marie Solms (condessa de Solms) ou Senhora Rattazi sobre o nosso país e, nomeadamente, sobre a cidade do Porto, onde se demorou 8 dias, Camilo Castelo Branco criticou a sua obra, violentamente. A polémica na qual se envolveu a intelectualidade nacional ficou conhecida como a “Questão Ratazzi”.

“Depois de estudar os portugueses e as portuguesas com frequentes visitas celebradas por “menus” económicos e risos de ironia larga, a Sra. Rattazzi concebeu das suas impressões viris e másculas um livro que deu à luz em Janeiro, e denominou Portugal à vol d'oiseau. Portugais et portugaises.
Eu, criado no velho noticiário, tendo de anunciar o produto d'uma dama dado à luz, antes quisera, em vez d'um livro bom, anunciar um menino robusto. Acho muito mais simpática a feminilidade das mães pálidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recém-nascida. Não me comove nem alvoroça o espetáculo d'uma autora que se remira e envaidece na brochura que deu à luz, obra entre cinco e sete tostões- 740 reis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um “oitavo” compacto.” – A Senhora Rattazzi – Camilo Castelo Branco.

Camilo haveria, em sequência, de escrever um livro de desafronta.


“A Senhora Rattazi” de Camilo Castelo Branco – Fonte: “tertuliabibliofila.blogspot.com”


Madame Rattazi haveria de responder a Camilo com o opúsculo seguinte.


Carta a Camilo Castelo Branco de Madame Rattazi – Fonte: “tertuliabibliofila.blogspot.com”



Marie Solms em retrato de  André Adolphe Eugène Disdéri


A publicação da obra entre nós, denominada Portugal de Relance, provocou algum desconforto no meio intelectual da época, pelo retrato que nela era feito do país e dos portugueses.
Pelos excertos que se seguem, será fácil ajuizar-se da razão desta polémica:

"A mais activa occupação da realeza em Portugal é a instituição dos títulos." (I, pg. 12) "Exceptuando a Belgica, Portugal tem sobre todos os paízes catholicos a primazia do carrilhão." (I, pg. 28) "O portuguez é hispanophogo, e se de tempos a tempos não trinca, sob a fórma de costelleta, o hespanhol que lhe cahe nas unhas, é simplesmente por timidez, e não porque lhe escasseie o appetite." (I, pg. 69) "Os usos e costumes theatraes em Portugal estão ainda em estado primitivo." (I, pg. 106) "As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente, de verão por um enxame de baratas (...) Disseram-me que todos acabavam por habituar-se." (II, pg. 19).


(Continua)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

25.28 O Quiosque do Sebastião


Na Praça D. Pedro, actual Praça da Liberdade e antigamente a Praça Nova, existiu, até à entrada da década de 30 do século XX, um quiosque que convivia bem de perto com a estátua do rei-soldado.

Em primeiro plano o Quiosque do Sebastião


Quem explorava o quiosque era o Sebastião, conhecido como o Correligionário, pois fosse de que partido político fosse o freguês que lhe comprava o jornal, ele cumprimentava-o da seguinte forma: Então como passa o correligionário?
Diga-se em abono da verdade que o quiosque não era propriedade do Sebastião que, de facto, o tinha arrendado à Câmara.
Naquele espaço o Sebastião fazia o comércio de jornais, tabacos, lotarias, postais ilustrados e outras bugigangas e tinha como clientes os lojistas do sítio, os jornalistas que trabalhavam na redacção dos jornais, por ali instalados, os frequentadores dos cafés e restaurantes próximos e outros passantes.
Um dos jornais que se destacavam naqueles tempos, ficava bem próximo e em frente, no palacete das Cardosas, num primeiro andar, mesmo por cima do arco da entrada para o espaço da anterior cerca do antigo convento. Era o Diário da Tarde.
Bem junto, no mesmo edifício, tinha existência a “Laporte” que comercializava artigos para a caça e onde esteve em exposição, em 1894, uma bicicleta fabricada na oficina de Figueiredo Júnior, à Rua do Campo Pequeno (já desaparecida e ficava para as bandas, do que é hoje, o Largo da Maternidade Júlio Dinis).
A Nascente da praça pontificava o Café Central, hoje o MacDonalds e os restaurantes “Porto Clube” e  “O Camanho”.
A Poente, ficava “A Flora Portuense” onde Aurélio da Paz dos Reis tinha a sua casa de venda de sementes, flores e outros artigos similiares e, ainda, algo que estivesse ligado à sua grande paixão - a fotografia e o cinema.
Ao lado a Cervejaria Sá Reis que duraria até 2017 com as portas abertas.


Sebastião Vieira de Magalhães no seu quiosque


Vista para a Praça da Liberdade no início do século XX – Fonte: “Porto – Os Recantos do Passado” de Germano Silva, Porto Editora


Na foto acima é visível, à esquerda, na Praça da Liberdade, o quiosque do Sebastião, nessa época e fruto de intervenções urbanísticas, situado isoladamente numa placa da dita praça.
Sobre a revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 o Sebastião conhecia todos os pormenores. Aliás, a Polícia Municipal assentou baterias junto ao seu quiosque para metralhar os revoltosos entrincheirados na Câmara.
Sobre o Sebastião Vieira de Magalhães conta-nos o comediante Arnaldo Leite a seguinte história:






O Sebastião na sua pileca – caricatura de Manuel Monterroso



O Pirolito, semanário humorístico de Arnaldo Leite e Carvalho Barbosa, caricaturava em 7 de Março de 1931, a propósito da demolição do célebre Quiosque do Sebastião (Sebastião Vieira de Magalhães usava o típico barrete judaico e barba e faleceu nos anos 20 do século passado).





Àcerca do famigerado quiosque dizia Alberto Pimentel: “…ali está e há de estar, através dos tempos, o quiosque de ferro que resistiu à revolução de Janeiro”.
Esta profecia teve termo em 1927 quando a Câmara em virtude de um arranjo urbanístico o demoliu.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

25.27 Siza Vieira e o seu primeiro projecto

“Siza Vieira deu os primeiros passos da sua profícua carreira na sua cidade natal – Matosinhos. A edificação do seu projeto “4 Casas em Matosinhos”, quando era ainda um estudante na Escola Superior de Belas Artes, abriu lugar à polémica, devido à sua audácia e características inovadoras para a época. É em Matosinhos que se encontram alguns dos seus trabalhos mais emblemáticos: a Piscina da Quinta da Conceição (1958-1965), a Piscina das Marés (1961-1966), a Casa de Chá da Boa Nova (1958-1965) e mais recentemente a marginal de Leça da Palmeira (2006) que, para além de unir estas duas últimas obras, resulta num espaço adaptado às suas novas funções e características de centralidade e de espaço de lazer. Uma das suas obras mais afetivas e diretamente a ele ligadas é a remodelação da casa dos seus pais em 1961, recentemente adquirida pela autarquia em sua homenagem, destinada a receber o testemunho da sua obra através da instalação do Centro de Documentação Álvaro Siza.”
Fonte: “cm-matosinhos.pt”

Siza vieira nasceu em Matosinhos, e viveu na Rua Roberto Ivens, nº 582.


Casa onde viveu Siza Vieira na Rua Roberto Ivens


O seu primeiro projecto é denominado de “Quatro Casas” e foi executado na Avenida Afonso Henriques em Matosinhos.
Aquele projecto ocorreu em 1954 quando Siza Vieira era ainda um estudante na Escola Superior de Belas Artes, e abriria uma grande polémica, devido à audácia das propostas e pela aplicação de características completamente inovadoras para a época.





As “Quatro Casas de Matosinhos” na Avenida Afonso Henriques que um jornalista da época denominou de “casinhotos”


“Há 60 anos, o gerente de uma empresa de pesca ousou chamar um jovem desconhecido, ainda com o curso de arquitetura por terminar, para lhe desenhar uma casa. Era a primeira encomenda do primeiro projeto para a primeira casa desenhada por aquele que vem a transformar-se num dos mais importantes arquitetos do mundo contemporâneo: Álvaro Siza Vieira.”
Fonte: “expresso.sapo.pt”


O gerente de uma empresa de pesca de seu nome Manuel Neto, mantinha uma relação de amizade com António Vieira, tio de Álvaro Siza Vieira que desempenhava funções na conhecida Refinaria Angola.
Entre algumas conversas havidas entre os dois, um dia surge a revelação de que Manuel Neto comprara um terreno onde pretendia construir casa. António Vieira pergunta-lhe se já tem arquitecto e, face à resposta negativa, sugere-lhe a hipótese de entregar a obra ao sobrinho Álvaro.
Na sequência, um dia Álvaro vai falar com Manuel Neto, que o leva a visitar uma moradia na zona das Antas muito do seu agrado, mesmo se, no final, as duas casas nada têm a ver uma com a outra. Fica acertado que avançarão, embora Neto reivindique a prerrogativa de cancelar tudo, caso o projecto não lhe agrade. Coloca, até, uma condição: teria de haver uma varanda a todo o correr da casa, virada para a Avenida, por causa das festas do Senhor de Matosinhos.



Uso da madeira na fachada nas moradias das de “Quatro Casas de Matosinhos” - Ed. LUCÍLIA MONTEIRO, in “expresso.sapo.pt”


Cozinha de uma moradia  de “Quatro Casas de Matosinhos” com referências a Gaudi e Corbusier – Ed. LUCÍLIA MONTEIRO, in “expresso.sapo.pt”


A polémica sobre a primeira obra de Siza Vieira (com projecto inicial, assinado pelo engenheiro civil Rogério Lobão, dada a circunstância de, então, Siza ainda não ter autorização para assinar projectos), ficou para a posteridade num texto publicado no jornal “Comércio do Porto” que falava nas visitas que estariam a ser feitas a Matosinhos, para ver “os casinhotos” que tinham sido construídos na Avenida D. Afonso Henriques, perto da Igreja de Matosinhos.

 “ (…) como se Matosinhos fosse terra sertaneja e não houvesse aqui pessoas (…) que têm noções de arte (…) terá desaparecido o bom senso de gente que tem o dever de velar pela estética da vila e evitar atentados arquitetónicos como esse (…) numa cidade servida por um porto de mar, com aeródromo próximo e vizinha da cidade do Porto”.



Uma das obras mais conhecidas atribuídas ao arquitecto Siza Vieira é a Casa de Chá da Boa-Nova, um dos seus primeiros projectos.



Casa de Chá da Boa-Nova em construção é uma das mais conhecidas obras de Siza Vieira


Casa de Chá da Boa-Nova em construção



Casa de Chá da Boa-Nova

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

(Conclusão)


Outros factos natalícios

O Natal foi sempre reflectindo as diferentes épocas.
Recuando a épocas que ainda nos são próximas, como sejam as de 30 até 70 do século passado, éramos sempre (um pouco) diferentes a cada Natal.
Antigamente, havia tantas mesas de Natal quantas as zonas do país. No Alentejo comia-se carne de porco ou até cação de coentrada, no Norte, o bacalhau.
Depois, com o tempo e a influência da televisão a ceia de Natal dos portugueses foi ficando cada vez mais parecida.
Hoje, a chamada consoada minhota influencia os hábitos alimentares do país inteiro. Por todo o Portugal começou a comer-se bacalhau, couves, rabanadas (mesmo que em muitos sítios se chamem a estas, "fatias douradas").
"Nós que tínhamos 20 ou 30 consoadas passámos a ter praticamente só uma."
Sobre o costume de jejum na véspera de Natal, passada a Sul e a comparação com o dos portuenses, há mais de 100 anos, escreve um lisboeta:


“Hoje em dia, a ceia da véspera de Natal tem tanta importância como o almoço de dia 25. Mas, há 100 anos, era coisa que existia essencialmente no Norte do País, acima do Porto. Aí, sim, havia uma tradição de jantar em família, com bacalhau – cozido ou em pastéis –, polvo guisado, arroz de polvo ou outros pratos sem carne. Na véspera de Natal, a família reunia-se à mesa para celebrar a festa em conjunto. E Missa do Galo não existia na região.
No Norte, ninguém rezava pelo Menino Jesus à meia-noite. A essa hora toda a gente estava sentada à mesa, à volta de um polvo ou de um bacalhau. Só as famílias da nobreza nortenha fugiam à tradição. Numa investigação sobre "os alimentos nos rituais familiares portugueses", Maria Antónia Lopes, do Centro de História da Sociedade e da Cultura, da Universidade de Coimbra, publicou um menu de uma ceia de Natal de uma família nobre do Norte, em 1891: puré de jardineira, arroz de fantasia caseira, costeletas nacionais e "ervilhas idem" e couve-flor composta. Para sobremesa, bolo experimental, pudim incógnito e broas de Natal, entre outros.
No final da II Guerra Mundial, o bacalhau começou então a espalhar-se por todo o país. Segundo Nuno Miguel Costa, do Museu Marítimo de Ílhavo, o Estado Novo via no bacalhau um prato "simples" e "humilde" que ajudava a educar o povo a ser poupadinho e bem comportadinho. Com a massificação da televisão e a distribuição de bacalhau garantida pelo Estado, a ditadura aproveitou para impor uma propaganda nacional em defesa do bacalhau, tornando-o tradição em todo o país.
Com o devido crédito ao site: “casalmisterio.com”

Nas últimas décadas, fruto, como é óbvio, de conflitos acontecidos e do desenvolvimento tecnológico e social, o Natal foi sofrendo alterações pontuais no modo como foi sendo vivido.

«A década de 30, não permitia grandes euforias e o Natal era sobretudo ocasião de, à boa maneira do Estado Novo, mostrar caridade para com "os pobrezinhos".
Havia, por exemplo, a Campanha de Camaradagem do Natal dos rapazes da Mocidade Portuguesa.
"Merecem particular atenção os filiados mais necessitados", refere o Diário de Lisboa de 19 de Dezembro de 1943, "para o que têm sido recrutados todos os rapazes pobres da rua, como ardinas, engraxadores, etc. Estes rapazes, para além de bens materiais que lhes são concedidos, como refeição diária e fardamento, recebem uma acção educativa, pois são vigiados e acompanhados por dirigentes da Mocidade Portuguesa".
(…) Em 1945, os portugueses - e o mundo - festejam finalmente o primeiro Natal sem guerra. Os anunciantes descontraem. "Quer agradar à sua esposa? Ofereça-lhe um Electrolux. Aspiradores de pó, enceradoras, frigoríficos." E tornam-se mais ousados: "Quer dar uma prenda que nunca seja esquecida? Seja criança ou adulto, se ela gostar de Desenho, é porque tem habilidade. Oferece-lhe um curso de Desenho (método americano de estudo em casa). Será um alegre passatempo que poderá trazer uma bem paga profissão."
(…) Na entrada da década de 50, a situação económica melhora. Aparecem nos jornais anúncios a voos das grandes companhias aéreas internacionais para a Suíça e Alemanha, ou até América do Sul e Próximo Oriente. Faz-se publicidade às máquinas fotográficas Kodak, a aspiradores, rádios, electrodomésticos.
O jornal Mundo Desportivo promove um concurso que tem como primeiro prémio uma Lambretta. E o regime decide eleger a "rapariga modelo".
Noticia o DN: "O aspecto inteiramente inédito, a objectividade e o elevado sentido moral do questionário relativo ao Concurso Internacional da Rapariga Modelo e ainda a circunstância de proporcionar singular oportunidade de exteriorização de opiniões, gostos e formas de ser e sentir despertaram excepcional interesse entre as raparigas portuguesas."
Os bodos aos pobres continuam, as meninas nas escolas competem para fazer o berço mais bonito para oferecer a uma família pobre que esteja à espera de mais um filho. E as grande empresas - a General Motors, a Kodak, a Shell, a Sacor, a Mobil Oil - oferecem festas de Natal aos filhos dos seus funcionários, todas elas com direito a notícia (e em muitos casos fotografia) nos jornais diários. Nas principais cidades do país, o Automóvel Clube de Portugal promove o Natal do Sinaleiro, em que os automobilistas deixam junto aos polícias sinaleiros prendas "traduzindo o reconhecimento pela meritória acção" daqueles.
A revista para rapazes O Cavaleiro Andante promove em grande o seu número especial de Natal com 100 páginas, por dez escudos, e com três prémios, entre os quais uma bicicleta motorizada.
(…) Anos 60 e o mundo acelerou.
O nível de vida dos portugueses ia subindo gradualmente, mas nos anos 60 muitas famílias ainda podiam ser descritas como "remediadas". O dinheiro "ia dando", mas para um dia "um bocadinho melhor" era preciso fazer algumas economias. Não é por acaso que em 1960 surge o Cabaz do Natal, uma iniciativa do Clube das Donas de Casa, que se torna um enorme sucesso.
Nos primeiros meses do ano começava a aparecer nas revistas o anúncio ao cabaz, com o respectivo boletim de inscrição. Uma família sorridente - pai, mãe, avó e neta - olha encantada para o que vai receber no Natal por um custo de 650 escudos (pouco mais de três euros), pago em prestações mensais de 65 escudos: latas de Atum Toneca, Nesquik, tomate Guloso, Nescafé, Puré de Batata Maggi, bolachas Triunfo, vinho do Porto, brandy, espumante, vinho de mesa, uma "maravilhosa boneca", um "brinde para o marido", brinquedos, leite creme, fruta líquida, chocolates, caramelos e drops, e muitas outras coisas.
O mundo começava a mudar e um dos factores dessa mudança era a televisão, que chegou a Portugal em 1957. O Natal dos Hospitais já conta com a colaboração da Radiotelevisão e da Philips portuguesa.
Portugal parece mais aberto a esse mundo que lhe chega agora pela televisão. Em 65, o DN manda um enviado especial a Berlim para relatar, junto do "Muro da Vergonha", o Natal na cidade dividida. Do lado ocidental há repórteres da Europa ocidental, do outro lado há russos, jugoslavos, chineses. No dia de Natal, o jornal noticia, optimista, que "desde o Rio até Saigão a humanidade celebra o espírito de fraternidade e Amor".
(…) O mundo parece girar mais depressa.
E, no entanto, Portugal continua a ser um país pobre e de emigrantes, que no Natal regressam para estar com as famílias. O ano de 1965 ficou marcado por uma enorme tragédia: perto de três dezenas de mortos e mais de uma centena de feridos no descarrilamento do Sud-Express. Os relatos na imprensa são carregados de drama: "Dos destroços impressionantes de uma das locomotivas esmagadas pelo espantoso choque, mãos piedosas e ensanguentadas descem o cadáver desfigurado de um dos ferroviários."»
Fonte: “publico.pt/”, 2009


Como ficou expresso no texto anterior, o “Cabaz do Natal”, na segunda metade do século XX, foi um sucesso enorme.
Apareceu em 1960 como resultado da actividade do “Clube das Donas de Casa”.
O programa do Clube das Donas de Casa começou na Rádio Renascença em 1960, tendo, mais tarde, em 1964, sido emitido pelo Rádio Clube Português.
Nesse programa, com conselhos para o público feminino, era promovido o “Cabaz do Natal”. Era, a venda deste, o seu principal objectivo.
Como o nome indica era um cabaz com os mais variados produtos de uso na quadra natalícia e que tinha associado um concurso de âmbito nacional.
Durante a emissão daqueles programas foram lançados, por exemplo, concursos como a eleição da “Mulher Ideal” e o “Abril em Portugal”.
Henrique Mendes, Júlio isidro, Ana Zanatti, João David Nunes e muitas outras vozes conhecidas da rádio desses tempos passaram por lá.


Maria Emília Trigueiros (pertencente à alta sociedade da época) vencedora em 1973 do concurso “Mulher Ideal”


Publicidade em 1964 ao “Cabaz do Natal” – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”



Publicidade em 1966 ao “Cabaz do Natal” – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”


Publicidade em 1976 ao “Cabaz do Natal” – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”


Agradecimento público e calendário do “Lar do Orfanato” de Ruílhe em 1968 – Fonte: “restosdecoleccao.blogspot.com”


Publicidade em 1963 ao Atum Toneca


Publicidade de Natal das bolachas “Triunfo”


 Publicidade da Confeitaria Cunha no Natal de 1950


A revista Eva, começada a publicar em 1925, viria, mais tarde, com o seu número de Natal, conhecido como a “Eva do Natal”, a preencher o imaginário de muitos portuenses pelos prémios que sorteava durante aquela quadra festiva.
Quem comprasse a revista habilitava-se a um concurso de âmbito nacional.


Lista de prémios do concurso “Eva do Natal” de 1963


Capa da revista “Eva do Natal” de 1939 – Fonte: “diasquevoam.blogspot.pt”


Capa da revista “Eva do Natal” de 1950


A revista era dirigida ao público feminino e tornar-se-ia um veículo de propaganda do Estado Novo, embora, por vezes, tentasse afrontar o braço tentacular da censura.

“Uma tiragem média de 18 mil exemplares é indicativa de uma expansão considerável, principalmente ao relembrar a existência de somente 25 mil mulheres cujo grau de capital escolar as tornaria aptas à fruição da revista. Por forma a apelar a tão vasto público, a revista focava-se em temáticas muito diversas, com enfoque em modas e sociedade (registo próximo ao da atual imprensa "cor-de-rosa", principalmente a partir de 1935: notícias de Hollywood, alguns eventos sociais nacionais), mas sem desconsiderar as lides domésticas, o cuidado com a cosmética e a literatura leve. Paralelamente, dinamizava sorteios, concursos e outras iniciativas de captação e participação de público. A edição de Natal era o pináculo disto: mais extensa, colorida e oferecendo prémios sorteados de valor avultado, incluindo casas e carros, dependendo da situação financeira. Posteriormente esmiúça-se a iniciativa paralela que mais relevo apresenta para a temática orientadora desta dissertação, que é a dinamização da Escola Técnica de Donas de Casa, uma campanha de sucesso que contou com várias edições”.
Com o devido crédito a Francisco Pereira da Silva Pais Rodrigues – Mestrado em Sociologia, FLUP


Outra actividade que a cidade não dispensa é o circo que se realiza em vários locais e se repete todos os anos.
Um deles, como já é tradição desde 1941, tem lugar no Coliseu Porto.


Coliseu do Porto – Ed. “sapo.pt”


Espectáculo de circo no Coliseu do Porto em 12 de Dezembro de 1996


O espectáculo da foto acima teve lugar decorridos que foram cerca de 3 meses desde o incêndio aí acontecido em 28 de Setembro daquele ano.
A sala só ficaria completamente recuperada 2 anos depois, reabrindo com a ópera Carmen, de Bizet, em 24 de Novembro de 1998.
Hoje, pelo Parque da Cidade do Porto (Queimódromo), outrora pelo Palácio de Cristal, Campo 24 de Agosto, Campo do Luso, Praça das Flores, Covelo (Paranhos), Seca do Bacalhau (junto do antigo Bairro de Xangai), Campo do Lima (antigo estádio do Lima) e Bairro Fernão de Magalhães, levantaram tenda várias companhias de circo que fizeram as delícias de muitos.
Uma realização que perdura nos nossos dias é o Natal dos Hospitais.
O Natal dos Hospitais é, hoje, um programa de televisão e uma festa que se realiza todos os anos.
Em tempos, o evento tinha a parceria da RTP, Diário de Notícias e Philips.


“Este evento foi inaugurado em 1944 pelo jornal Diário de Notícias para trazer um sorriso às pessoas que estão nos hospitais durante o Natal. Começou a ser transmitido na RTP em 1958 com a apresentação de Henrique Mendes e cujo início foi com a artista Beatriz Costa, tornando-se assim no programa de entretenimento mais antigo da RTP.
Tem origem no anterior "Natal das Crianças dos Hospitais", um evento promovido pela poetisa algarvia Lutegarda Guimarães de Caires no início do século XX.
Em 1962 começou a ser transmitido em simultâneo com a antiga Emissora Nacional e tal transmissão se prolongou, de uma maneira bastante irregular, até ao fim do século XX na RDP- Antena 1.
Nos anos 70, o Natal dos Hospitais era transmitido entre as 14 e as 19 horas, e era transmitido às vezes fora dos hospitais, e em lugares públicos conhecidos, como o Casino Estoril e o Coliseu dos Recreios”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”