quinta-feira, 25 de junho de 2026

25.309 Balizas e outras estruturas de apoio para a entrada no estuário do rio Douro

 
Devido a características muito próprias, a entrada da barra do rio Douro apresenta uma série de dificuldades e perigos, que foram sendo ultrapassados ao longo dos séculos, para além da intervenção de pilotos locais deles conhecedores, também, com a ajuda da tecnologia disponível em cada momento.
A entrada da barra impõe um conhecimento aprofundado do lugar face à língua de areia do Cabedelo sempre em constante mutação e ainda às inúmeras pedras escondidas no leito do rio e que se desenvolvem até atingir os calados das embarcações.
Os faróis e os farolins, para além dos fachos e almenaras e as marcas constituem, desde há séculos, as balizas de navegação mais usadas pelos mareantes.
Presentemente, têm características próprias e bem conhecidas de cadência dos seus sinais luminosos, cor e duração dos mesmos.
O que distingue o farolim do farol é o alcance: aceita-se que para os faróis será superior às 15 milhas náuticas. Inferior a este valor, já será considerado um farolim.
Por sua vez, os fachos são sinais luminosos que queimam um combustível e funcionam praticamente como luzes de presença.
Quanto às marcas usadas na navegação, tanto podem ser árvores de grande porte, edifícios cons­truídos em sítios elevados ou de enormes proporções, ou torres construí­das propositadamente para o efeito. 
Nesta última hipótese, os pilotos da barra guiavam-se por enfiamentos da Capela de Santa Catarina, em Lordelo, da Torre da Marca (no término da actual Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal), da estátua do Togado, depois substituída pela Cruz de Ferro e, ainda, pela Torre dos Clérigos e também se conhecem casos de alinhamento feitos por alguns navegantes com a igreja de S. João Baptista da Foz.


 
Marcas
 
Torre da Marca
 
 
Levantada em terrenos do Palácio de Cristal dos nossos dias, foi mandada construir em 1530 e destruída durante as lutas liberais de 1833/34.
Veio substituir um enorme pinheiro existente, desde tempos imemoriais, no mesmo local.

 
 


Pinho Leal, In Portugal Antigo e Moderno (1877)
 
 
 
 

A meio da imagem, lá no alto, a Torre da Marca, em 1827, em terrenos hoje, do Palácio de Cristal – Ed. Kopck


  
Capela de Santa Catarina
 

Situada no alto do monte da aldeia do Ouro, em Lordelo e edificada na transicção do século XIV para XV.


 

Capela de Santa Catarina e Senhora dos Anjos com  vista obtida desde do Largo António Calém (foz da Ribeira da Granja) – Ed. JPortojo
 
 
 
 
O Togado e a Cruz de Ferro
 
 
O Togado é uma estátua em granito, que representa uma figura masculina trajando uma túnica curta, coberta por uma toga. O braço direito repousa na dobra da toga e o braço esquerdo segura um objecto indeterminado.


 

O Togado
 
 
 
Teria sido o bispo D. Miguel da Silva quem teria mandado erigir, num rochedo, em frente da capela/farol, uma marca de navegação personalizada numa estátua de uma personagem vestida com uma toga.
Posteriormente, nesse local esteve uma outra marca conhecida pela Cruz de Ferro.
Numa cheia de grandes proporções em 1788, esta última marca sinalética sofreu danos de vulto e teve que se proceder a obras de restauro.
Estas foram conduzidas pelo director de Obras Públicas, o arquitecto e engenheiro militar José Champalimaud de Nussane (1730-1799), que foi escolhido para o cargo pelo presidente e inspector das Obras Públicas da cidade, José Roberto Vidal da Gama (governador da Relação do Porto de 1786 a 1790).
O projecto seria executado pelo mestre pedreiro José de Sousa e pelo mestre ferreiro António do Pinho.
Em Março de 1789, um ano depois do colapso da antiga marca fluvial, a nova já estava inaugurada.

 
 

Cruz de Ferro que substituiu o “Togado”. Projecto de José Champalimaud de Nussane
 
 
 
  
  
Fachos, Faróis e Farolins
 
 
Fachos
 
 
Facho das Sobreiras
 
 

Tem-se conhecimento de fachos na margem direita no rio Douro (facho de Sobreiras) e, na margem esquerda (facho do Monte de Cabedelo da Barra, facho do Monte da Furada).
O facho mais antigo de que se conhece a existência é o de Sobreiras que muito mais tarde foi substituído, praticamente no mesmo local, pelo farolim de Sobreiras, em Lordelo do Ouro.
 
 
 
 

Gravura de autor desconhecido na qual é possível identificar o local do Facho de Sobreiras (Bar Mark)
 
 
 
  
Facho do Monte da Furada
 
 
Este facho situar-se ia hoje um local entre a Igreja Nova da Afurada e a Casa dos Pescadores, numa cota bem alta.
 
 
 

Vista aérea da Afurada entre a nova igreja, à esquerda, e a Casa dos Pescadores, à direita – Fonte : Google maps
 
 
 
 
Faróis e Farolins
 
 
Farol de São Miguel-o-Anjo 
 
 
“O Farol de São Miguel-o-Anjo, também conhecido por Torre, Capela ou Ermida de São Miguel-o-Anjo, situado junto ao Jardim do Passeio Alegre é um primitivo farol português, classificado como Imóvel de Interesse Público que se localiza na Cantareira, Cais do Marégrafo, na freguesia da Foz do Douro.
Primeiro edifício puramente renascentista datado em Portugal e um dos mais antigos da Europa.
(…) Em 1527, foi mandado construir, conforme reza uma inscrição latina na parede voltada para o rio, que traduzida diz: "Miguel da Silva, bispo eleito de Viseu, mandou construir esta torre para dirigir a navegação, ele mesmo deu e consignou campos comprados com o seu dinheiro, com o rendimento dos quais foram acesos fogos de noite perpetuamente na torre, no ano de 1527".
Desativado o farol nos meados do século XVII, manteve a partir daí, somente o uso como Capela, sendo a construção classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951.
Em 1841, foi construído um edifício anexo à Capela-Farol, para aí instalar um posto da Guarda-Fiscal.
Em 1852, foi edificada uma torre anexa, com 3 pisos, onde foi instalada uma estação telegráfica”.
Fonte: Teixeira da Silva
 
 
Depois de anos ao abandono, no ano de 2017, foi decidido recuperar a capela-farol e a sua envolvente, de modo a que seja criado um Núcleo Interpretativo do Farol/Ermida de São Miguel-o-Anjo, inserido no projeto global de recuperação e requalificação deste local emblemático da cidade do Porto, permitindo, assim, vir a potenciar o conhecimento sobre o primeiro farol construído de raiz em território nacional, por volta de 1528.
Finalmente, em 2020, foi recuperado todo o espaço adjacente à capela-farol.
Desde há alguns anos o complexo encontra-se ocupado com uma delegação dos Pilotos da Barra do Douro.
 
 
  

Farol-capela e a antiga estação telegráfica de 3 pisos, antes da última intervenção
 
 
 

Em 2020, a torre onde esteve a estação telegráfica já está recuperada. À direita o farolim da Cantareira – Ed. Manuela Campos
 
 
 
 
Farolim da Cantareira (Desactivado)
 
 
O Farolim da Cantareira é um pequeno farol que se localiza na Cantareira, no Cais do Marégrafo, junto ao Jardim do Passeio Alegre,  na Foz do Douro, junto ao local onde está o farol/capela de S. Miguel-o-Anjo. Trata-se de uma coluna com varandim e lanterna branca e alcance luminoso de 9 milhas.
É o farolim anterior do enfiamento Cantareira-Sobreiras da entrada da Barra do Rio Douro.
No século XVIII, ocorreu, provavelmente, a construção do primitivo farolim, que há muito desapareceu.
Em 1915, um outro farolim seria colocado no cais do Marégrafo e, em 2009, foi apagado e desactivado, encontrando-se em exposição no local que ocupou. 
 
 
 

Farolim da Cantareira, actualmente
 
 
 
Farolim das Sobreiras (Desactivado)
 

O Farolim das Sobreiras, também conhecido por Farol Medieval ou Farol dos Três Bicos ou, ainda, Farol das Três Orelhas, era um farol que se localizava na encosta das Sobreiras, na freguesia de Lordelo do Ouro.
O topónimo Sobreiras é muito antigo, pois, há documentos do século XII, onde se fala do facho de Sobreiras, que serviria para orientação das embarcações e que antecedeu no local o farolim das Sobreiras.
 
 
“Aquele facho de Sobreiras era a chamada Marca Nova, assim designada para a diferen­ciar da velha Torre da Marca, bem mais anti­ga, que ficava em terrenos hoje ocupados pe­los jardins do Palácio de Cristal, mais ou me­nos ao fundo da actual Avenida Tílias. 
A Marca Nova ainda funcionava em 1849, porque, nesse ano, o intendente da Marinha, em colaboração com o piloto-mor, oficiou aos encarregados das obras que se andavam a fazer no cais no sentido de que não se ta­passe a viela do Sardo, que existia no sítio de Sobreiras, porque "era por esse caminho que se ia pôr luz na Marca Nova quando alguma embarcação entrava ou saía a barra de noite". 
Com o devido crédito a Germano Silva
 
 
 
O Farol de Sobreiras tratava-se de uma coluna com varandim e lanterna branca em frente a marca rectangular às faixas brancas e vermelhas. No século XVIII, provavelmente, ocorreu a construção do primitivo farolim.
Era o farolim posterior do enfiamento da entrada da Barra do Rio Douro e encontrava-se a 562 metros do Farolim da Cantareira.
A designação de Farol das Três Orelhas ou Farol dos Três Bicos deve-se à configuração da primitiva marca que lhe estava por detrás, um muro de alvenaria de granito rematado por três ameias, à semelhança de uma estrutura defensiva, estrutura esta que foi desmantelada e se perdeu em 1993-1994, aquando da deslocação do farolim.
 
 
 

Remate superior do muro de alvenaria primitivo colocado por detrás do Farol das 3 Orelhas - Foto editada do blogue Monumentos Desaparecidos
 
 
 
Naquela data, foi deslocado 15 metros do seu local, para a construção do edifício sede da ANJE, tendo sido substituída a marca de alvenaria, por uma parede em betão apoiada numa estrutura em metal.
 
 
 

Farolim no seu lugar original - Ed. José Magalhães
 
 
 
Após a demolição do farolim das Sobreiras, nasceria no local a sede da ANJE (Associação dos Jovens empresários).



 

Local onde estava assente o farolim - Ed. José Magalhães
 
 
Em cima da placa de cimento da foto anterior esteve o Farolim das Sobreiras.
Posteriormente, em 2006, por ter sido extinta a sua luz, por desnecessária, a coluna e lanterna foram transferidas para o recinto exterior do Farol de Leça, ou Farol da Boa Nova onde se encontram em exposição.
 
 
  

Farolim das Sobreiras em Leça da Palmeira dentro do espaço do farol


 
 

Farolim das Sobreiras, em 1º plano, no Farol da Boa Nova
 
 
 
  
Farolim de Felgueiras (Desactivado)
 
 
“Tornar a barra do rio Douro acessível à navegação e possibilitar a entrada e saída de navios com a máxima segurança foi uma constante preocupação das autoridades marítimas da cidade. Curiosamente, o primeiro plano que se conhece para a desobstrução da barra foi apresentado, em 1728, por um frade franciscano, frei Caetano de S. Boaventura. Oferecia-se para quebrar as pedras e rochedos que havia na barra e que, naquele sítio, constituíam um sério embaraço à navegação.
Parece que a proposta do franciscano não teve grande acolhimento. Com efeito, logo no ano seguinte (1729), o rei D. João V mandou ao Porto dois seus altos funcionários, os engenheiros José Fernandes Pinto e Dionísio de Castro, a fim de elaborarem uma planta da barra e indicarem a melhor maneira de resolver os problemas de segurança que ali subsistiam.
Quarenta e seis anos depois (1775), ainda nada se havia feito. Nesse ano, a administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro escreveu ao rei D. José, a lembrar-lhe "quão urgentes e necessárias eram" as obras. E para custear as primeiras despesas, a Companhia oferecia a quantia de quarenta mil cruzados, que tinha guardado nos seus cofres, produto de juros de ações "cujos donos não aparecem". E as obras lá começaram, não imediatamente mas alguns anos depois. 
Mais uma curiosidade: os primeiros trabalhos para as obras da barra tiveram início não onde o rio entra no mar, mas bastante mais para trás, na Arrábida. Com efeito, tudo começou com o corte da enorme escarpa da Arrábida. A pedra que dali se extraía era levada para S. João da Foz, onde era utilizada para o atulhamento da margem direita da barra. Entretanto e à medida que o monte da Arrábida ia sendo devastado, começou a aparecer uma nova via de comunicação entre Massarelos e a Cantareira. Num relatório de 1791, consta mesmo que naquele ano "os povos se iam servindo já de uma formosa estrada à beira-rio".
Mais tarde, por iniciativa da Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro e à custa de impostos sobre o vinho, acabou por se construir toda a marginal. Começou com a ligação de Cima do Muro, na Ribeira, até Monchique; e daqui, por Massarelos, até à Foz do Douro.
Mas foi uma tragédia que obrigou à aceleração das obras na barra do Douro. Referimo-nos ao naufrágio do navio Porto, ocorrido em 29 de março de 1852, mesmo à entrada da barra. O vapor, quando pretendia entrar no rio, encalhou num dos tais rochedos que, na altura, na maré- cheia, estava submerso e ali ficou a ser batido pelas ondas. Morreram mais de sessenta pessoas, algumas das mais importantes famílias do Porto, como o banqueiro Allen. Diz a nossa gente que," depois de casa roubada, trancas à porta". E assim aconteceu. Depois da tragédia, montou-se na Foz um modelar serviço de socorros a náufragos.
E as obras da barra, essas continuaram e em grande ritmo, agora num projeto do Eng.° Nogueira Soares. Estava adiantado o molhe chamado de Felgueiras ou da Filgueira, em cuja ponta foi construído um farolim que tomou o nome do molhe. O cais velho, o molhe e farolim de Felgueiras foram construídos com a pedra que era extraída do morro da Arrábida. Inicialmente pensava-se na construção de uma torre para sinais com um sino para aviso da navegação. Depois, fez-se o farol que ainda funciona. Projeta, de forma intermitente, luz vermelha para poente, branca para nascente. No começo, o sinal de nevoeiro era dado através do tal sino ao ritmo de três badaladas, de sete em sete segundos. Na atualidade, o sinal de nevoeiro é dado através de uma sirene.
Ainda nos nossos dias, e antes da construção dos modernos cais, houve vários naufrágios à entrada da barra. Um dos mais célebres foi o do vapor alemão "Dieister", em 3 de fevereiro de 1929. Morreram os seus vinte e quatro tripulantes. O naufrágio ocorreu diante de uma multidão que se aglomerava ao longo do cais do Passeio Alegre e que nada pôde fazer para evitar a tragédia que deixou consternada a cidade. E na lembrança de muitos portuenses devem estar ainda bem vivas as imagens do naufrágio do "Silver Valley", em 15 de março de 1963”.
Com a devida vénia a Germano Silva

 
 
Começado a pensar ser construído em 1790, o molhe de Felgueiras foi edificado com base num projecto de 1866 e apenas, definitivamente terminado, em 1903. 
Assim, em 1903, quando foram reforçados os muros de revestimento da barra foram usados blocos originários da Senhora da Hora e, também, os guindastes chamados Titãs, que já tinham sido usados no levantamento dos molhes do Porto de Leixões.
 
 
 
  

Os Titãs de Leixões sendo utilizados para colocação dos blocos de reforço do molhe de Felgueiras
 
 
 
Por sua vez, o farolim com projecto de 1881, do engenheiro Nogueira Soares, já estava em funcionamento, desde 1886.
 
 
 
  
Molhe e Farolim de Felgueiras - Fonte "invictadeazulebranco.pt"
 
 
 
O farolim de Felgueiras entrou ao serviço no molhe de Felgueiras, na foz do rio Douro, em 1886, começando por queimar petróleo. Em 1916, para fazer face aos constantes nevoeiros que aconteciam no local, foi dotado também com um sinal sonoro, um sino, colocado na sua cúpula, que actuava naquelas situações de falta de visibilidade do seu sinal luminoso. Em 1957, foi electrificado e ligado à rede pública de electricidade e, em 1979, integrou um conjunto de farolins e faróis com funcionamento à distância, centralizado no Farol de Leça da Palmeira. 
Desde 2009, o farolim de Felgueiras encontra-se fora de serviço, pois após a construção dos novos molhes da barra do rio Douro, foram instalados novos sinais luminosos e novos farolins. Assim, por exemplo, para fazer a entrada naquela barra, actualmente, as embarcações atendem ao alinhamento de um farolim situado no Jardim do Passeio Alegre e uma luz colocada na torre da igreja de S. João Baptista da Foz do Douro.
 
 
 

O novo Farolim situado no Jardim do Passeio Alegre
 
 
 
O farolim de Felgueiras, após a sua desactivação, entrou num período de degradação e ruína, situação que foi travada a tempo. A partir de 2021, está recuperado e à disposição das objectivas fotográficas de todos que se deliciam com os clichés que obtêm.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

25.308 Deambulando pelo lugar do Eirado e pela aldeia da Mouteira

 
Igreja Paroquial de Lordelo do Ouro
 
 
A igreja paroquial de Lordelo do Ouro, que esteve integrada no Padroado Real, situada no lugar de Eirado, actualmente marginal à Rua das Condominhas, começou a ser edificada em 1764, sobre um templo mais pequeno.
Do anterior templo, aí existente, em 1278, há referências à existência de uma "Igreja de Lordello", nas inquirições de D. Afonso III e no Livro de Originais registado sob o nº 755 (livro XXIV, de 1564).
Nesses tempos, já tinha sido extinto um eremitério situado no Monte de Santa Eulália (local da implantação da igreja de Nossa Senhora da Ajuda), cujos monges pagavam a dízima à “Igreja de S. Martinho de Ouredo”.
Em 1788, são reedificadas a capela-mor e a sacristia, tendo recebido a sua primeira torre sineira em 1867.
Aliás, todas as intervenções na área geográfica daquele templo foram atrasadas, compreensivelmente, pela ocorrência quer das Invasões Francesas, quer pelo drama do Cerco do Porto.
O orago do templo religioso é S. Martinho e, em 1758, de acordo com as Memórias Paroquiais, já por lá existia uma Confraria do Santíssimo Sacramento do Senhor do Bonfim e Almas e, mesmo antes, em 20 de Fevereiro de 1721, é feito um contrato entre a Confraria do Santíssimo Sacramento e o organeiro Padre Frei Gabriel de São Teotónio, para a execução de um órgão, por 81$600 réis.
Aliás, a existência da confraria é atestada, também, em 1745, quando Frutuoso de Faria, emigrado no Brasil, fez testamento de uma fortuna considerável à Confraria do Santíssimo Sacramento do Senhor do Bonfim e Almas.
Deste acto, decorreu uma contenda com a Colegiada de Cedofeita que teve a intervenção de Bento XIV a pedido do Bispo do Porto e cuja decisão beneficiava a colegiada, pela simples razão de que a paróquia "… Lordelo do Ouro ficar no campo, longe da cidade…".
Com este artifício, se beneficiava a Insigne (Colegiada de Cedofeita), transferindo-lhe as capelanias, que tinham associado um valor monetário importante e que o testamento atribuía à confraria.
Decorridos treze anos, o caso continuava sem uma resolução.
Porém, em 20 de Junho de 1869, o Governador Civil dá como extinta a Confraria do Senhor do Bonfim e Almas, na Igreja de Lordelo do Ouro, por já não ter irmãos que tomassem conta da sua administração.
Em 1888, a frontaria e as torres sineiras da igreja foram cobertas de azulejos, obra da já desaparecida Fábrica de Cerâmica de Massarelos. O corpo da igreja só viria a ser igualmente revestido em 1949, tendo sido ainda remodelado em 1982.
Até 1836, Lordelo do Ouro fazia parte do Julgado de Bouças, Comarca da Maia, Bispado do Porto e ficava "no campo, longe da cidade".
Antes, todo aquele território, fazia parte do couto de Santa Eulália ou Santa Ovala, doado por D. Afonso Henriques ao Mosteiro de Tarouca.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, Lordelo do Ouro é apresentada como uma freguesia do Julgado de Bouças, com quatro lugares (Ouro, Monte da Carreira, Eirado e Arrábida) e sete aldeias (Granja, Sobreira, Mazorra, Mouteira, Montideira, Serralves e Pinheiro).
Por sua vez, Lordelo do Ouro, no mesmo documento, apresentava-se com quatro capelas.
 
 
 

Descrição das capelas de Lordelo do Ouro nas Memórias Paroquiais de 1758
 
 

Os padroados particulares foram extintos após a revolução liberal durante o século XIX e os padroados estatais em Abril de 1911.


 

Igreja de São Martinho de Lordelo do Ouro, c. 1950

 

Em 1982, durante a execução de obras de remodelação e conservação, foram retirados os azulejos que cobriam as fachadas e torre do templo.


 
Capela de S. Francisco Xavier
 
 
A primeira capela de Lordelo do Ouro, referida nas Memórias Paroquiais de 1758 dizia-se, ficava situada no sopé do Monte da Carreira, junto da ponte que fazia parte do traçado da Estrada de Matosinhos, e era propriedade particular do padre Manuel Pereira Godins.
A referida capela situar-se-ia na actual Rua de Serralves, na margem direita da ribeira da Granja, um pouco depois de passar pelo entroncamento com a actual Travessa da Mouteira, e após a transposição de uma ponte de cantaria e respectivo arco, que permitia o atravessamento da tal ribeira, vinda dos lados da Prelada e que desagua, no Ouro, no actual Largo António Calém.
Actualmente, em grande parte do seu trajecto, a ponte está entubada.
A Rua de Serralves, antes, era um antigo caminho rústico que ligava a igreja de S. Martinho de Lordelo do Ouro à Fonte da Moura, onde um padrão assinalava o termo de Lordelo e o começo de Aldoar (ambas pertencentes, então, ao concelho de Bouças, hoje, Matosinhos) e, continuando pela Rua da Vilarinha se chegava ao Lugar de Matosinhos.
 
 
 
 
Hospício (Brévia) e Capela de S. Francisco de Paula
 
 
Junto da capela do padre Godins, quem se vai instalar, em 1780, são os membros de uma ordem religiosa, conhecida como os Mínimos.
Ainda antes do século XVIII, o local faria parte da Quinta de Cima ou Quinta de Cima da Ponte ou, ainda, Quinta da Ponte. 
A Ordem dos Mínimos é uma ordem religiosa mendicante católica fundada no século XV por São Francisco de Paula (italiano, canonizado em 1519).
Os Mínimos, que passaram a mendigar pela cidade, tinham a sua sede na Pampulha, na actual freguesia da Estrela, em Lisboa e por cá se instalaram num hospício que funcionava como brévia, isto é, local de repouso e a capela existente ficou a servir a ordem, mas tendo por orago São Francisco de Paula.
Julga-se que a ordem abandonou as instalações no Monte da Carreira, a quando da 2.ª invasão napoleónica, em 1809.
Assim, quando o local foi, durante as lutas do Cerco do Porto, em 1833/34, um palco importante, os mínimos há muito que tinham abandonado o local.
Após as destruições provenientes das vicissitudes da guerra civil, em 1834, a Fazenda Nacional vendeu a propriedade a João Eduardo de Brito e Cunha.
Entre 1878 e 1880, nas instalações referidas funcionou a Associação Lusitana e, posteriormente, tomou posse delas, José da Silva Monteiro, um negociante e capitalista, dono de uma fábrica de moagem.
A partir de 1901, aparece como proprietário José Joaquim Gouveia, armador de navios bacalhoeiros e dono de uma seca de bacalhau.
Aí viveu, durante anos, a família Gouveia num palacete pegado à antiga brévia.
Por isso, a capela também passou a ser designada por Capela do Gouveia.
 
 
 

Ruínas da Capela do Gouveia e Hospício anexo, na Rua de Serralves, em 2014 – Fonte: Google maps


 
 
Capela do Gouveia e Hospício, anexo, em 2026 - Ed. Graça Correia



Em meados de 2026, pode observar-se pela foto anterior, que o complexo da capela e edifícios anexos continuam a ser alvo de obras de recuperação, que tiveram início há cerca de seis anos.


 
 
Fábrica de Lanifícios de Lordelo ou Fábrica de Serralves
 
 
 
No lado poente da Estrada de Matosinhos, precisamente no mesmo local, desde 1803, passou a funcionar uma fábrica têxtil.
Rua de Serralves que, antes, era um antigo caminho rústico que ligava a igreja de S. Martinho de Lordelo do Ouro à Fonte da Moura, onde um padrão assinalava o termo de Lordelo e o começo de Aldoar (ambas pertencentes, então, ao concelho de Bouças) e, continuando pela Rua da Vilarinha se chegava ao Lugar de Matosinhos.
A unidade fabril foi edificada, na aldeia da Mouteira, em terrenos da serventia dos vizinhos frades Minímos, por Plácido Lino dos Santos Teixeira, que vivia nas próprias instalações da fábrica, no 1.º andar.
O convento ter-se-á situado, portanto, no lado nascente da rua.
Em 1832, durante o cerco do Porto, a fábrica encerra, sendo ocupada pelas tropas de D. Miguel, após serem desalojadas do seu reduto na vizinha Pasteleira.
Tudo aponta para que o célebre Forte de Serralves tenha ocupado o seu lugar junto do reservatório de água da fábrica.
No fim do conflito fratricida, a Fábrica de Lanifícios de Lordelo estava destruída e seria tomada por um incêndio
A sua actividade industrial viria, apenas, a ser retomada em 1852, numa nova unidade industrial, que nasceu sobre os escombros da anterior, com a sociedade Garcia & Barbedo e, em 1853, passou a ser uma sociedade anónima com o nome “Companhia de Lanifícios de Lordelo”.
Durante todo o século XIX, a unidade industrial era popularmente conhecida por Fábrica dos Panos.
Em 1918, já sob o comando do industrial e capitalista Thomaz José Rosas, a fábrica é ampliada, com a introdução de novos teares e as instalações beneficiadas com refeitório e balneários.
A fachada foi toda alterada e, ao centro, foi dotada com um relógio.
 
 
 

Fábrica de Lanifícios de Lordelo, c. 1918
 
 
 
A Fábrica de Lanifícios de Lordelo funcionou durante grande parte do século XX, mas a sua actividade industrial principal cessou definitivamente durante meados da década de 1980.

 
 

Entrada da Fábrica de Lanifícios de Lordelo e o seu relógio – Cortesia de Joaquim Morais Oliveira

 
 
 

Interior da Fábrica de Lanifícios de Lordelo
 
 
 
Durante a década de 2010, as instalações fabris, há muito abandonadas e em ruínas, começaram a ser reabilitadas e convertidas num empreendimento residencial.
 
 
 

Instalações recuperadas da Fábrica de Lanifícios de Lordelo e complexo habitacional adjacente – Cortesia de José Magalhães



Derrocada de parte do edifício primitivo da antiga Fábrica de Serralves - Ed. Graça Correia



Pela foto acima, em 2026, podia ainda observar-se, que parte do edifício primitivo da antiga fábrica, que em tempos ostentava um relógio, colapsou em virtude do abatimento do encanamento sub-terrâneo que suportava o terreno por cima do leito da ribeira da Granja.
Com os factos a ocorrerem há cerca de dois anos, presume-se que estejam a ser tomadas as decisões mais correctas.

 
 

Abatimento do canal, junto das instalações preservadas da antiga Fábrica dos Panos, por onde passa a ribeira da Granja – Ed. Graça Correia

sexta-feira, 12 de junho de 2026

25.307 Devoção dos portuenses ao Santo António

Foi a igreja dos Congregados o primeiro templo edificado, no Porto, da evocação do Santo António.
Aquela igreja foi erguida diante da porta de Carros, rasgada na muralha fernandina, em 1551, que substituiu, no mesmo local, o postigo de Carros.
Aí, primitivamente, foi construída uma capela (mais tarde, transformada na igreja dos Congregados) destinada a servir uma associação de juízes, reunidos na Confraria de Santo António, que tinham por patrono Santo António de Lisboa e que, por razões práticas, até então, tinham praticado o seu culto numa outra capela localizada nos Carvalhos do Monte, para as bandas da Sé, consagrada a Santo António Magno, o eremita de Tebaida ou, simplesmente, Santo Antão.

 
 
 
Capela de Santo António do Penedo e Confraria de Santo António
 
 
A Capela de Santo António do Penedo que, inicialmente, foi consagrada a Santo António Magno, erguia-se no Campo de Santa Clara, a Carvalhos do Monte, hoje, o Largo 1º de Dezembro, tendo sido demolida em 1886, para abrir a actual Rua Saraiva Carvalho e permitir, assim, o acesso à ponte de Luís I, em construção.
Alguns historiadores afirmam que o templo ganhou a designação de Capela de Santo António do Penedo, por ter sido construída sobre uma rocha e, segundo outros, numa alusão ao culto a Saint Antoine du Rocher, um eremita que, no século VI, fundou em Tours, na França, a cé­lebre abadia de S. Juliano.
 
 


Dispensário Rainha D. Amélia e capela anexa – Ed. Photo Guedes
 
 
 
A imagem acima mostra uma capela que existiu junto do edifício onde funcionou o dispensário Rainha D. Amélia, encostada ao torreão da muralha Fernandina e, embora, esteja identificada em várias publicações, como sendo a Capela de Santo António do Penedo, tal não corresponde à verdade, como veremos a seguir.
Voltando à capela de Santo António do Penedo, ela tinha 12 a 15 metros de comprimento e 4 a 5 de largura e o arco bizantino da frontaria era o único na cidade.
Segundo algumas personalidades, supõe-se que esta capela foi construída no séc. XIV, mas “o primeiro documento que tem aparecido a seu respeito é um título do ano de 1504, onde se vê que naquela data estava ela vinculada, ou na posse dum tal Afonso Ferraz, a qual havia já herdado de seus ascendentes”.
Ignora-se, portanto, a data exacta da sua construção inicial, mas sabe-se que no 1º quartel do século XVII, foi alvo de uma séria remodelação.
Assim, em 1671/72, recebeu a capela, um coro e uma galilé executados pelo mestre pedreiro Manuel do Couto, segundo a traça do Padre Pantaleão da Rocha de Magalhães, mestre-capela da Sé do Porto e arquitecto amador, que investigações recentes ligam a algumas das obras mais importantes realizadas, no Porto, na segunda metade do século XVII.
Sabe-se que a capela começou por se chamar de Santo Antão passando, mais tarde, a Santo António.
 
 
 
“…Note-se que esta capela dedicada a Santo António não se referia ao Santo António de Lisboa, mas sim a Santo António Magno, eremita de Tebaida, conhecido por Santo Antão.
Agostinho Rebelo Costa afirma: “…a de Santo António do Penedo, que foi a primeira que se consagrou a este Santo”.
Ora, foi provado documentalmente que este Santo António era o ermitão que acima referimos.
O documento referido por Carlos das Neves, em O Tripeiro, Volume 1 a páginas 300 e Volume 2 a páginas 25, eram as “Memórias da Congregação do Oratório da Cidade do Porto…de 1741” e pertencia, em 1898, ao ex- Abade de Miragaia, quando foi lido pelo referido Carlos das Neves. Neste documento pode ler-se: 
“…determinaram Gaspar de Abreu de Freitas desembargador dos agravos desta Relação, como Juiz que era da Confraria de Santo António, ele e mais mordomos da mesma Confraria edificar um templo em honra de Santo António; porque não tinha este Santo sendo nosso português igreja alguma na cidade dedicada ao seu nome: pois ainda que a Capela, enquanto a dita Confraria até ali estava assentada, se chamava de Santo António do Penedo, por estar fundada sobre viva Rocha junto ao muro da cidade da parte de dentro; na realidade esta Capela não foi fundada para Santo António Português; mas sim para Santo António Magno que vulgarmente chamamos Santo Antão…”
Cortesia do blogue “Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias”

 
 

Capela de Santo António do Penedo, em 1833 – Gravura de Joaquim Villanova
 
 
 

Em 1845, a capela de Santo António do Penedo (que existiu até 1886), no meio do Largo 1º de Dezembro
 
 
 
A gravura anterior é uma prova, em papel salgado, a partir de um calótipo de Frederick William Flower, em 1845, na qual é possível notar a presença de um cruzeiro que, como habitualmente, integraria uma via-sacra.
Abaixo, está representada, numa planta do século XIX, a área intramuros do Largo de Santa Clara.
Nela, pode observar-se a Capela de Santo António do Penedo e a sua orientação e, ainda, a casa de habitação a si adossada que acabou por pertencer a Teixeira Pinto.
Como se observa, também, a entrada principal do templo fazia-se por uma escadaria de dois lanços laterais e ficava voltada para a Sé.

 
 

Planta de Santo António do Penedo, antes, Carvalhos do Monte
 
 
 
 
 

Porta do Sol (vista de intramuros) e Largo de Santo António do Penedo
 
 
 
Na gravura, acima, pode ver-se, à direita, o cruzeiro do Senhor da Boa Fortuna, (actualmente exposto no cemitério da Lapa junto ao jazigo onde está Camilo Castelo Branco) próximo da casa de Teixeira Pinto (exemplificado no desenho abaixo).
A capela adossada à casa era propriedade do morgado Miguel Brandão e Silva.
Em 1860, sendo proprietário da casa, adossada à capela, que vinha a apresentar sinais de ruína, desde 1835, Teixeira Pinto (…)
 
 
“ (…) num processo trabalhoso, conseguiu também a capela para si. O agora proprietário tratou de a adaptar ao uso que lhe pretendia e daqui adveio o último estágio evolutivo do monumento, poucos anos antes da destruição final: nivelou-a ao seu prédio do lado poente, demolindo o alpendre bem como a escadaria localizada em frente deste. Todo este terreno deixado livre foi à sua custa, ajardinado, e mais algum de que entretanto se apossou... Mais pobre mas ainda com aspeto de capela, o seu interior foi a partir daí usado como dependência de arrumos do proprietário.”
Com o devido crédito a Nuno Cruz
 
 
 
 
Quanto ao arco cruzeiro da capela, alguns dizem terem ido, as suas pedras, para os jardins o Palácio de Cristal e sido alvo de um projecto de instalação, aí. No entanto, tal nunca se concretizaria por se terem extraviado alguns dos seus elementos estruturais. Outros estudiosos colocam outras hipóteses.
 
 
“O arco cruzeiro desta capela, de primoroso lavor, foi salvo da destruição tendo também ele sido remetido para S. Lázaro. Contudo, como refere Pedro Vitorino (ver aqui) quando o quiseram voltar a erguer na quinta do SMAS, o mesmo já se mostrava incompleto!”
Com o devido crédito a Nuno Cruz
 
 
 
 

Planta do Largo de Santa Clara

 
 
 
Quando a capela de Santo António do Penedo se tornou exígua e os desembargadores, cuja confraria tinha como patrono Santo António de Lisboa e que vinham ocupando aquela capela por favor, quiseram ter templo próprio onde instalar a irmandade, escolheram um terreno perto do medieval Campo das Hortas, mesmo em frente à Porta de Carros, que se abria no pano da muralha fernandina, compraram-no e, aí, começaram a erguer a ermida com a ajuda de esmolas dos fiéis.
A escritura respectiva ocorreria em 20 de Dezembro de 1657, em que são outorgantes a Câmara e a Mesa da Confraria de Santo António e na qual é feita a oferta condicionada, daquela a esta, de uns terrenos situados fora da Porta de Carros para a construção de um templo. A escritura viria a ser confirmada por alvará régio de 4 de Abril de 1658.
Este templo iria ser, finalmente, o primeiro da cidade dedicado a Santo António de Lisboa.
Aliás, compreende-se a devoção dos desembargadores a Santo António de Lisboa, justificada pela lenda, que reza que o seu pai tinha sido injustamente condenado pelo homicídio de um vizinho. Já ia a caminho da forca quando Santo António, então em Pádua, se terá transportado espiritualmente para Lisboa para o defender e salvar da morte.
Neste episódio radica a expressão; “Tirar o pai da forca”.
Entretanto, poucos meses depois do início das obras, os magistrados abandonaram o projecto e ofereceram o terreno e o que já havia da ermida à Câmara do Porto, "para sempre, enquanto o Mundo durar".
 
 
 
Igreja dos Congregados e sua ligação à Capela de Santo António do Penedo
 
 
 
A ligação entre estes dois locais de culto é muito evidente e tal será mostrado a seguir.
Assim, no Porto, o Padre a Baltazar Guedes, fundador do Colégio dos Órfãos tinha erguido, em 1664, na igreja de Nossa Senhora da Graça, contígua ao colégio, um altar em honra de S. Filipe Néry, tendo no ano seguinte criado a Confraria de S. Filipe de Néry, ligada ao seu colégio.
Em Julho de 1680, chegavam ao Porto vindos de Lisboa os Padres Manuel Rodrigues e João Lobo, onde acabava de ser criada a Congregação do Oratório da Regra de S. Filipe Néry, que pretendiam formar um convento, tendo começado por tentar ocupar o Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça, onde era reitor o Padre Baltasar Guedes. Este opôs-se veemente que tal acontecesse e os padres referidos passaram a cobiçar uma capelinha em frente da Porta de Carros.
No ano de 1680, a Câmara Municipal do Porto, aceitando um pedido do rei D. Pedro II, disponibilizou-se para facilitar à Congregação do Oratório de S. Filipe de Nery tudo o que estivesse ao seu alcance para que os padres congregados pudessem instalar-se na cidade e aqui "estabelecer a sua casa".
No rol das facilidades, incluiu-se a cedência, à referida congregação, da capela da Porta de Carros, da invocação de Santo António, que fora começada a construir em 1660, com esmolas dos portuenses, de iniciativa da Confraria de Santo António, que associava os juízes, mas cuja administração estava, então, a cargo da Câmara que, por essa razão, era quem organizava e, obviamente, pagava a grande festa que todos os anos se realizava no dia do patrono.
No documento que foi lavrado, aquando da cedência do templo, constavam duas alíneas curiosas: primeiro, que a ermida era doada à referida congregação de S. Filipe de Nery na condição de que esta manteria Santo António como padroeiro do templo e que a sua imagem continuaria a figurar em lugar de relevo na fachada ou no altar-mor; segundo, que, além da capela, a Câmara também doava aos padres de S. Filipe de Nery "o sítio e campos ao redor della..." a fim de aí construírem um convento.
Para a nova igreja dos padres congregados, foi aproveitada a anti­ga capela que ficou a servir de capela-mor do actual templo.
Ora o tal sítio e campos que havia ao redor da Capela da Porta de Carros, onde viria a surgir a Igreja de Santo António da Porta de Carros ou Igreja dos Congregados, faziam parte do conhecido como o “Campo das Hortas” que o bispo D. Tomás de Almeida, no século XVIII, transformaria na Praça Nova das Hortas antecessora da actual Praça da Liberdade.
Aliás, este bispo, que também exerceu as funções de governador da Relação e de governador das Armas da Cidade, foi quem mandou abrir na muralha Fernandina o Postigo de Santo Elói, junto ao largo do mesmo nome, hoje Largo dos Lóios, em frente à velhíssima Rua das Hortas, actual Rua do Almada.
Sobre a capela da Porta de Carros, escreve Horácio Marçal as notas seguintes retiradas de O Tripeiro, serie V, nº. X de um artigo de 1955:
 
 
“Em meados do séc. XVII a Confraria de Santo António, sediada por favor na Capela de Santo António Magno ou do Penedo, propriedade do morgado Miguel Brandão da Silva, decidiu adquirir casa privativa e conseguiu que a Câmara lhes vendesse um terreno perto da Porta dos Carros, onde erigiram uma pequena capela. Poucos anos depois acordaram com a Câmara lhes comprasse o terreno, com a condição de lhes construir a capela-mor, o que aconteceu. Porém, por insistência real e do Bispo do Porto, a capela foi entregue, em 1680, à Congregação da Regra de S. Filipe de Néri, com a condição de manter Santo António como padroeiro. Estes terminaram a construção da parte da Igreja ainda inacabada. Tornando-se pequena, a capela foi demolida em 1694, e em seu lugar erigida uma importante Igreja que, depois de novas ampliações, é a que podemos apreciar no nosso tempo. 
O convento começou a construir-se em 1683.”
 
 
Por sua vez, as obras na Igreja de Santo António da Porta de Carros, ficaram prontas em 1703, tendo presidido à cerimónia de inauguração o bispo D. Frei José de Santa Maria Saldanha.
O sucessor deste bispo, D. Tomás de Almeida, protegeu muito os padres da Congregação de S. Filipe de Nery contribuindo para o embelezamento do interior da sua igreja, a actual igreja dos Congregados, diante da qual mandou fazer um belíssimo átrio que comportava "três arcarias", varandas de ferro e uma larga escadaria "por baixo da qual havia lojas abobadadas que os padres alugavam".
D. Tomás de Almeida saiu do Porto, em 1717, para tomar posse do cargo de cardeal patriarca de Lis­boa. Foi o primeiro a ocupar aquele alto cargo eclesial. 
 
 
 

Desenho do Convento e Igreja de Santo António da Porta de Carros de Joaquim Villanova

 
 
No desenho, anterior de 1834, observa-se que a igreja apresenta a torre quadrada com terraço, que tinha 8 sinos e que existiu até 1842, tendo os sinos sido comprados pela Igreja da Santíssima Trindade. À direita, vê-se uma “cadeirinha” do Porto.
Para se poder fazer uma ideia, ainda que aproximada, da extensão dos terrenos na posse da congregação de S. Filipe Nery, bastará dizer que a cerca do convento se estendia até à antiga Cancela Velha e corria ao longo de uma estreita e tortuosa viela ainda hoje conhecida por Travessa dos Congregados.
Durante a guerra civil acontecida entre o exército de D. Pedro IV e a tropa de D. Miguel, os pa­dres congregados, que eram miguelistas, fugiram da cidade e deixaram a igreja e o convento abandonados. A igreja serviu de hospital de sangue durante o Cerco do Porto e nas instalações do mosteiro arrecadaram-se li­vros e outros objetos provenientes de ou­tros conventos. 
Com a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi vendido, em 23 de Abril de 1834, a um brasileiro de torna viagem, Ma­nuel Duarte Guimarães, de alcunha "O Cheira", enquanto a igreja era cedida à confraria de Santo António.
A Confraria de Santo António da Porta dos Carros que esteve extinta entre 1680 e 1708, ano em que foi reactivada, manteve na Igreja a sua sede até à saída dos monges em 1832. Em 1834, a Igreja foi-lhe devolvida pela Câmara,  livre de encargos.
Foi a partir da tomada de pos­se do templo pelos homens da irmandade de Santo António que a igreja passou a ser conhecida por igreja de Santo António dos Congregados. 
Infelizmente, aos homens da confraria não foi entregue a igreja na sua totalidade. A torre quadran­gular e a primitiva sacristia já haviam le­vado sumiço. Os herdeiros de Manuel Sousa Guimarães, junto do convento e igreja, mandaram fazer grandes obras, com abertura de novas janelas e portas exteriores.
Demoliram a sacristia, que ficava do lado da Praça das Hortas e a torre (1842). Desta forma poderiam alugar ou vender a diversas pessoas, o que ocasionou a abertura de estabelecimentos e casas de habitação.

 
 

Igreja dos Congregados – Fonte: Google maps

 

 
 Outras devoções ao Santo António

 
Santo António é historicamente considerado o padroeiro do comércio e dos comerciantes na cidade do Porto.
Esta tradição está ligada ao facto de o santo ter nascido no seio de uma família de comerciantes abastados em Lisboa. Por ser uma terra com forte tradição mercantil e de negócios, os lojistas e comerciantes portuenses adoptaram-no como protetor da sua actividade e de bons negócios.
Era frequente, por isso, muitos estabelecimentos da cidade do Porto apresentarem uma imagem do santo.
No Porto, ao Santo António de Lisboa, que é celebrado em 13 de Junho, para além da Igreja dos Congregados, é-lhe dedicada a Igreja Paroquial das Antas, a capela de Santo António de Contumil, a capelinha de Santo António da Estrada, no começo da escadaria de acesso à igreja do Bonfim e a capela e o Hospital de Santo António.
Entretanto, há muito que desapareceu a Capela de Santo António da Aguardente (ao Marquês) depois dedicada, no mesmo local, a S. Joaquim e que também desapareceu para desobstruir a entrada da actual Igreja da Imaculada Conceição.
 
 
 
 

Capela do Hospital de Santo António – Fonte: regiaodonorte.pt

 
 

Capela de Santo António de Contumil, anexa à Quinta de Santo António de Contumil – Fonte: regiaodonorte.pt

 
 
 
Capela de S. Joaquim (Desaparecida), antes, Capela de Santo António da Aguadente, à Praça do Marquês

 
 
No Porto, várias quintas ostentam ou ostentaram a sua dedicação ao santo: Quinta de Santo António (de Lamas), junto da Faculdade de Economia, afecta à actividade turística e a Quinta de Santo António de Contumil de uso privado; e ainda, a Quinta de Santo António do Bonjardim (hoje, terrenos da Rua de Gonçalo Cristovão) e a Quinta de Santo António da Boavista (hoje, terrenos da Rua da Boavista e terrenos adjacentes, a poente do Largo de Santo Ovídio) já desaparecidas. 
Quanto a mosteiros e conventos, no Porto, dedicados a Santo António, pode referir-se o Mosteiro de Santo António de Vale da Piedade (em Vale de Amores, V. N. de Gaia) e o Convento de Santo António da Cidade, a S. Lázaro.