domingo, 23 de agosto de 2026

25.315 Breve História da Feira do Livro no Porto

 
De 27 de Junho a 6 de Julho de 1931, decorreria junto à estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, a “Semana do Livro do Porto” por iniciativa do livreiro José Augusto da Costa, da Companhia Portuguesa Editora, à Rua da Boavista, que juntamente com Guedes da Silva e José Martins formaram a comissão organizadora desse certame. 
 
 
“Na altura estavam na moda as semanas disto e daquilo. Ainda se realiza anualmente com o nome de Feira do Livro, tendo sido a 1ª vez que se realizou em Portugal tal iniciativa”.
Fonte:  “O Tripeiro” de Novembro de 1959, pag 224 (António M. Barbosa)
 
 
 
 
A primeira "Feira do Livro" do Porto, em 1931, realizada debaixo de um toldo de lona, junto da estátua equestre de D. Pedro IV – Col. De Guedes da Silva

 
 
No dia 28 de Maio de 1932, foi inaugurada, na Praça da Liberdade, a segunda "Semana do Livro do Porto" composta por 17 stands. Durante os dias seguintes, foram proferidas conferências a cargo de Bento Carqueja, Aurora Jardim, Leonardo Coimbra, João Grave, Juliano Ribeiro e Campos Monteiro.
No dia 25 de Maio de 1933, o major Herculano Ferreira inaugura a “III Feira do Livro”, com dezoito stands, na Praça da Liberdade.
A Comissão da Feira, nesse ano, foi composta por José Augusto da Costa, Joaquim Machado e Guedes da Silva. À noite, no Ateneu, Aarão Lacerda faz uma palestra sobre a acção do livro.
Em 30 de Maio de 1934, realizou-se a “IV Feira do Livro” composta por 14 barracas de livreiros, que teve como curiosidade o facto da poetisa portuense Amélia Vilar (1889-1979), contabilista de profissão, nascida na Rua do Belomonte, n.º 74, filha do publicista José Joaquim Marques e de Margarida Guimarães Vilar, se ter apresentado na feira vendendo os seus livros de poesia.
A revista “O Tripeiro”, Vª Série, Outubro de 1953, publicava um poema de Amélia Vilar acompanhado de uma ilustração da casa onde nasceu Amélia Guimarães Vilar da autoria do ilustrador Cruz Caldas.



 

Poema de Amélia Vilar
 
 
 

No n.º 74 da Rua de Belomonte (entrada em primeiro plano, à direita) nasceu Amélia Vilar
 
 
 
 

Livraria Moreira da Costa numa das primeiras “Feira do Livro” na Praça da Liberdade
 
 
 
 

Livraria Moreira da Costa, na Feira do Livro de 1936, na Praça da Liberdade
 
 
 
Desde 2014, a Câmara Municipal do Porto chamou a si a organização da feira, que passou a realizar-se nos jardins do Palácio de Cristal. Antes, até 2012, era organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).
A feira tem passado, desde o seu início, por diversos locais da cidade do Porto, tais como os Jardins do Palácio de Cristal, a Praça da Liberdade, a Praça do General Humberto Delgado, a Praça de Mouzinho de Albuquerque, o Pavilhão Rosa Mota e a Avenida dos Aliados.
Em inúmeros stands, editores e livreiros apresentam anualmente desde as últimas novidades, até fundos de catálogo e restos de armazém, às vezes, a preços quase simbólicos. No decorrer da feira há também, com frequência, espectáculos, concertos, lançamento de livros e sessões de autógrafos.
A Feira do Livro do Porto decorria, em geral, entre os últimos dias de Maio e os primeiros de Junho.
Em 2013, a Feira do livro não se realizou pela primeira vez, desde a sua primeira edição em 1930, depois de um diferendo entre o presidente da câmara Rui Rio e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), depois do Presidente da Câmara se ter recusado a avançar com financiamento, e depois da associação se ter recusado a obter outros modos de financiamento.
Em substituição da feira do Livro, nesse ano, funcionou um simulacro de feira, denominado “Letras na Avenida”, que apenas contou com a presença dos livreiros.
No ano de 2014, depois de novo desentendimento, agora entre o novo executivo camarário da cidade do Porto e a APEL, o novo presidente Rui Moreira, decidiu realizar a Feira do Livro sob organização da Câmara Municipal.
Ao contrário do habitual, a feira passou a realizar-se no mês de Setembro nos jardins do Palácio de Cristal.
A Feira do Livro do Porto passou, também, a ser um grande festival literário, com um extenso programa cultural e de animação que inclui debates com autores conhecidos, sessões de "spoken words", exposições, um ciclo de cinema e uma área infantil, com o apoio da Biblioteca Municipal Almeida Garrett e da Galeria Municipal.
 
 
  
 

Livraria Moreira da Costa, na Feira do Livro, c. 1944, na Praça da Liberdade

 
 
 

Feira do Livro (36ª edição), em 1966, na Praça da Liberdade - Fotograma de filme da RTP
 
  
 
 

Feira do Livro na Praça da Liberdade
 
 
 

Feira do Livro, em 1973, na Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista) - Fotograma de filme da RTP

 
 
Entre 21 de Maio e 10 de Junho de 1993, realizou-se a 63.ª Feira do Livro, no Pavilhão Rosa Mota, por abandono do anterior pouso - a Rotunda da Boavista.
Durante este certame foi exibido um concerto comemorativo dos 50 anos de vida literária dos escritores Eugénio de Andrade e Vergílio Ferreira e organizada uma exposição sobre Almada Negreiros, ente muitas outras iniciativas.
 
 
 

63.ª Feira do Livro no Pavilhão Rosa Mota


 

Feira do Livro na Avenida dos Aliados

 
 

Feira do Livro no Palácio de Cristal

domingo, 16 de agosto de 2026

25.314 Empresas históricas ligadas à actividade cinematográfica

 
Invicta Filmes
 
 
Foi na Quinta da Prelada, na actual Avenida Conselho da Europa, que se localizaram as instalações da Invicta Filmes.
Em 22 de Novembro de 1917, é constituída uma sociedade por quotas, com um capital de 150 mil escudos, denominada “Invicta Film Lda”.
Alfredo Nunes, com actividade anterior ligada ao funcionamento do “Salão Jardim Passos Manuel” como gerente, vai na nova sociedade, dentro do conselho de administração, ocupar o cargo de gerente-técnico após obter o apoio financeiro indispensável do banqueiro José Augusto Dias.
Na sociedade, Henrique Alegria, que tinha estado envolvido na construção e exploração do cinema “Olympia”, vai ser contratado para director artístico.
Alfredo Nunes traz com ele todo o pessoal que já fazia parte da sua pequena empresa, "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)", fundada em 1910, com sede na Rua de Santo Ildefonso, n.º 135.


 

Publicidade a "Nunes de Matos & Cia”, em 1912
 
 
 
Em 1918, Alfredo Nunes e Henrique Alegria partem para Paris para a contratação de pessoal técnico e equipamentos.
Durante a estadia em Paris, conseguem que a conceituada Pathé ceda os técnicos de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu (1869-1948), um operador de imagem, Albert Durot, um chefe de laboratório, Georges Coutable e a sua mulher Valentine, montadora de filmes.
Ainda, em 1918, em terrenos da Quinta da Prelada, propriedade da Santa Casa da Misericórdia, é adquirida uma área de 50.000 m2, onde irão surgir os laboratórios e estúdios da empresa totalmente concluídos, apenas, em 1920.
Até 1924, são os anos de ouro da empresa.
A partir deste ano sucede-se os fiascos de que são exemplo as obras “Cláudia” e “Lucros ilícitos”.
De 1925 a 1928, praticamente, só funciona a sua actividade laboratorial, que será eclipsada pela mesma actividade desenvolvida pela firma “Castelo Lopes, Lda”.
Em 5 de Julho de 1930, é vendido o estúdio da Invicta Film e, em 2 de Janeiro de 1931, todos os haveres da “Invicta Film” vão a leilão e o estúdio onde rodou “Zé do Telhado” é demolido.

 
 

Produção cinematográfica de Georges Pallu


 
 

Filmografia da “Invicta Film, Lda”
 
 
 
A ante-estreia do filme, uma adaptação ao cinema de um conto de Júlio Dantas, "As Aventuras de Frei Bonifácio", teve lugar no dia 5 de Agosto de 1918, no Salão Jardim Passos Manuel. Na tela, actuavam os artistas Maria das Neves, Duarte Silva, José Silva, António Vale e alguns mais.
No dia 6 de Julho de 1919, no Teatro Sá da Bandeira, ocorre a ante-estreia do filme de Georges Pallu, baseado no romance "A Rosa do Adro" do jornalista, escritor e apaixonado pela arqueologia Manuel Maria Rodrigues (1847-1899), nascido em Valença do Minho e cuja narrativa se situa nas vivências de um triângulo amoroso.
Tendo sido jornalista do jornal "O Comércio do Porto", Manuel Maria rodrigues foi, ainda, correspondente dos jornais "O Século" e do "Comércio de Portugal".
A sua paixão pela arqueologia, para a qual não tinha formação académica, colocou-o, por vezes, no centro de polémicas públicas nas quais foi muito criticado e, até, ridicularizado.
 
 
 

A Rosa do Adro - Fonte: frame do filme de Georges Pallu, 1919
 
 
 
 
No dia 23 de Novembro de 1919, em ante-estreia para a crítica, imprensa e para as personalidades convidadas, é passado no Salão Passos Manuel "O Comissário de Polícia", com argumento de Gervásio Lobato, que obteve larga aprovação.

 
 
 

Invicta Filmes, na Prelada
 
 
 
Na foto acima, em primeiro plano, observa-se o edifício onde estavam sediados os escritórios e o laboratório da Invicta Film e que, hoje, é o chão do cimo da Avenida do Conselho da Europa, na confluência com a Rua da Prelada. Neste edifício, após o seu abandono pela Invicta Film, em 1928, pois os laboratórios mantiveram-se em actividade para além do encerramento da empresa, se instalou a fábrica Faria, Fonseca & C.ª. Esta empresa era também conhecida como a Fábrica de Acabamentos do Carvalhido e, por aqui esteve, desde 1933 até 1969.
À esquerda, mais afastado, o barracão com estrutura metálica, que funcionava como estúdio de filmagens, foi desmantelado logo que se deu a falência da empresa.
 
 
 
“A Invicta Film foi uma produtora portuguesa de cinema, sedeada na cidade do Porto, cuja actividade se destacou nos anos vinte, com um número significativo de filmes relevantes para a história do cinema em Portugal.
O produtor portuense Alfredo Nunes de Matos tinha a sede de uma modesta empresa, fundada em 1910, no nº 135 da rua de Santo Ildefonso, no Porto. Em 1912 muda-se para uma dependência do Jardim Passos Manuel, dando à firma o nome de "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)".
Produz «panorâmicas», documentários de propaganda comercial, industrial e de actualidades. Vários deles são exibidos em Portugal e no estrangeiro. É fornecedor de jornais nacionais para firmas tão importantes como a Pathé e a Gaumont, sociedades francesas com um papel determinante na distribuição e exibição de filmes na França e no mercado internacional. É o caso de alguns filmes de particular significado, como as Manobras Navais Portuguesas ou as Grandes Manobras de Tancos (1912, exercícios de preparação do exército português para eventuais conflitos) ou ainda O Naufrágio do "Veronese" (imagens de um desastre marítimo ocorrido em frente da Boa Nova, em Leça da Palmeira, perto de Leixões, na madrugada de 10 de Fevereiro de 1913). O jornal de actualidades causa sensação em Portugal e no estrangeiro. Desse filme são vendidas mais de cem cópias, para a Europa e Brasil.
O projecto de Nunes de Matos consolida-se com a adesão de outros interesses, de gente bairrista do Porto, encabeçados pelo banqueiro José Augusto Dias, já a guerra tinha feito muitos mortos. No cartório do notário António Mourão é assinada a 22 de Novembro de 1917 a escritura de uma sociedade por cotas, de responsabilidade limitada, designada como Invicta Film Lda., com o capital de 150.000 escudos, uma quantia muito avultada à época. São sócios umas dezassete importantes personalidades. As cotas vão de cinco a sete contos.
Entretanto, em 1907, instalara-se ali mesmo ao lado o dono da Fundição Alegria & Cª, empresa do Rio de Janeiro, um retornado português, chamado Henrique Ferreira Alegria. Interessado pela exibição cinematográfica, abrira a 18 de Maio de 1912 o Cinema Olympia, a dois passos do Jardim Passos Manuel. Acaba por ser integrado na nova empresa como director artístico, isto é, como director de produção. Matos e Alegria partem juntos para Paris em meados de Janeiro de 1918. Numa entrevista ao jornal O Século, dada no dia 14 desse mês, Nunes de Matos declara: «Vou em primeiro lugar a Paris e à Itália procurar o que há de melhor, a última palavra em mecanismos. Porque o meu principal intento é emancipar-me de estrangeiros, embora não deixe de concordar que, para começo, é lá que tenho de ir buscar tudo». Deixa também claro que tenciona trazer de lá um régisseur à altura das suas ambições.
Em Paris, junto da Pathé Frères, na Rue de Ravart, obtêm os viajantes «a mais perfeita e amigável compreensão» e, coisa não menos importante, o plano e o projecto das futuras instalações dos estúdios da Invicta Film. Cede-lhes a Pathé também os técnicos de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu, um operador de imagem, Albert Durot, um chefe de laboratório, Georges Coutable e a sua mulher Valentine, montadora de filmes, O casal será mais tarde substituído por outro operador e outra montadora, vindos também da Pathé, J. Trobert e Madame Meunier. É contratado ainda um arquitecto decorador, Albert Durot, depois substituído por Maurice Laumann, também dos quadros da Pathé.
O convénio entre as duas empresas é assinado a 17 de Fevereiro. A 12 de Março de 1918 é firmado o contrato de trabalho entre a Invicta Film e Pallu, que se responsabiliza pela escolha dos argumentos com o director artístico, pela sua adaptação para cinema e ainda pela montagem dos cenários. Seria ele também o responsável pela construção do estúdio. O contrato era de um ano, mas a colaboração duraria cinco. É Pallu quem traz para a empresa o realizador Rino Lupo, que será também, com Pallu, um dos dois mais importantes realizadores da Invicta Film.
Com nova maquinaria a sociedade decide comprar à Misericórdia uma vasta área de terreno pertencente à Quinta da Prelada que tinha sido dos Noronhas.
Aí são construídos os Laboratórios e os Estúdios que estariam apenas prontos em 1920, não impediu, entretanto, que fossem produzidos alguns filmes.
Georges Pallu escolhe como primeira obra a adaptação de um conto inédito de Júlio Dantas, Frei Bonifácio, que seria entretanto publicado no jornal lisboeta O Dia, em 2 de Outubro de 1918. O filme estreia em Lisboa, com bons resultados, no cinema Olympia, uma das mais prestigiadas salas da cidade, a 4 de Outubro. Realizados por Pallu em 1919 seguem-se A Rosa do Adro e O Comissário de Polícia, com estreia na mesma sala, o primeiro em 27 de Outubro e o segundo em 2 de Fevereiro do ano seguinte. Uma outra obra, O Mais Forte, produzida nesse mesmo ano, serve para testar os estúdios então abertos na Quinta da Prelada,
O segundo grande empreendimento da Invicta Film é a adaptação da obra de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, em 1921, obra realizada também por Pallu. O filme estreia em 28 de Novembro em Lisboa, no cinema Condes. Segue-se Mulheres da Beira e Quando o Amor Fala.
«Uma tarde de Agosto de 1921 um homem de aspecto estranho, de estatura mediana e de olhos vivos a espreitarem por detrás de umas lunetas pequenas, que cintilavam sob um boné de viagem enterrado até às orelhas, transpôs o portão da Quinta da Prelada».
O homem, um estrangeiro, pretende falar com a gerência. Quem o recebe é George Pallu. Diz o estrangeiro que se chama Rino Lupo, que é de origem italiana, que trabalhou na conhecida produtora francesa de Léon Gaumont como régisseur, que ouviu falar em Varsóvia dos progressos da Invicta Film por um português que por lá andava, que gostaria de colaborar com a empresa e ficar por algum tempo em Portugal. A conversa de Lupo convence Pallu e ele é contratado. A direcção dos projectos da Invicta Film será partilhada a partir de então entre os dois realizadores.
Os resultados um tanto «atrabiliários» do trabalho de Lupo devidos à sua mania do improviso e ao seu modo desorganizado levam ao seu despedimento (1923).
Persistente e agora seduzido pelo sol de Lisboa, mais quente que o do Porto, muda-se para a capital onde abre a Escola de Arte Cinematográfica com sede no nº 182 da Rua da Palma. Mas, imprevisível como é, regressa de novo à invicta cidade onde funda a sua Escola de Cinema, da qual sairão formados os actores da melhor das suas obras, Os Lobos (1923), produção da Ibéria Film, que com nova montagem, será aceite pela Gaumont para distribuição internacional (1924).
Rino Lupo dirigirá ainda em Portugal mais quatro filmes: Carmiña, Flor de Galicia, versão espanhola de Mulheres da Beira (1926), uma obra inacabada, O Diabo em Lisboa (1927), Fátima Milagrosa (1928) e José do Telhado (1929). Lupo deixa Portugal, já na época do filme sonoro, em 1931.
Quem entretanto também abandona a Invicta Film por razões contratuais é o operador de imagem Artur Costa de Macedo depois de ter filmado as Mulheres da Beira. Fora ele o responsável pela cobertura de alguns dos aspectos mais emocionantes da aventurosa travessia aérea do Atlântico empreendida por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
São no entanto insuficientes as receitas. Não existe rede de distribuição que sirva os interesses da empresa. Os problemas financeiros surgem a partir de meados de 1923. Tenta-se ainda exportar alguns dos filmes já produzidos para o Brasil e Estados Unidos, visando os centros de emigração. Consegue-se vender alguns, mas os resultados são poucos.
A Invicta Film dispensa todo o pessoal da produção a 15 de Fevereiro de 1924, mas mantém o laboratório aberto. Encerra definitivamente a actividade em 1928.
Fica encerrado assim também o ciclo de alternâncias entre o Porto e Lisboa, na predominância das actividades de produção, desde que surgira o primeiro filme português. A criação dos laboratórios da Tobis Portuguesa no começo dos anos trinta, com o advento do sonoro e com equipamentos de ponta, completa a reviravolta”.
In  pt.wikipedia.org


 

Estúdios da Invicta Filmes na Prelada


 

Central eléctrica da Invicta Filmes em 1920


 
 
Caldevilla Filmes
 
 
A “ETP- Empreza Technica Publicitária” de “Raul de Caldevilla & C. Lda”, seria fundada em 1912, por Raul Caldevilla, na Rua de 31 de Janeiro, nº 165, após o seu regresso à cidade, depois de ter sido vice-cônsul em Cadiz e agente comercial na América Latina, Egipto e Médio Oriente.
Em 1917, a ETP muda-se para o Palacete do Conde do Bolhão, na Rua Formosa.


 

Instalações na Rua 31 de Janeiro – Fonte: restosdecoleccao.blogspot.pt



 

Instalações, a partir de 1917, no Palácio do Bolhão – Ed. Photo Guedes

 
 

Interior das instalações no Palácio do Bolhão – Ed. Photo Guedes



 
“Actor teatral nos primórdios do Século XX, o nome de Raul de Caldevilla, como inspirador publicitário, destacou-se no cinema português em 1917. Uma espectacular operação promocional a nova marca de bolachas, levou Caldevilla a contractar dois acrobatas espanhóis para escalarem a Torre dos Clérigos, o que fizeram sem recurso a qualquer apoio. Já no cimo, os ginastas tomaram uma chávena de chá e comeram as petit beurre Invicta, lançando ao mesmo tempo panfletos sobre a multidão reunida para o efeito - cerca de 150.000 pessoas. Da proeza, a Caldevilla Film retiraria «Um Chá nas Núvens».
Em 1919, Raul de Caldevilla prestigiou-se ao organizar o lançamento comercial de A Rosa do Adro, dirigido por Georges Pallu para a Invicta Film, anunciado sob o lema «Romance Português - Filme Português - Cenas Portuguesas - Actores Portugueses». Três anos depois, com mais altas ambições, a Caldevilla Film contratou o francês Maurice Mariaud - que trabalhava para a Gaumont - com a incumbência de dirigir Os Faroleiros (1922), um «drama-documentário», de que também foi argumentista e intérprete.
O vislumbre de Raul de Caldevilla está patente no respectivo folheto de divulgação: «O cinematógrafo moderno tem-se distanciado muito, nos temas escolhidos e nos fracassos, da técnica de há vinte anos. Já hoje dificilmente se suportam - e vão sendo postos de parte no estrangeiro - esses longos filmes em séries de enredo complicado e por vezes falhos de verosimilhança. O público de hoje, talvez por motivo da vida intensa que leva e lhe proporciona certos lazeres, escolhe de preferência películas de não muito longa metragem». A rodagem teve lugar na Caparica e farol do Bugio.  
Logo após Os Faroleiros, Mariaud filmou As Pupilas do Senhor Reitor para a Caldevilla Film. O romance de Júlio Diniz foi adaptado pelo director literário da empresa, Campos Monteiro. A filmagem de interiores concretizou-se na abegoaria (Dependência onde se alojam os animais e alfaias agrícolas), da Quinta das Conchas, em Lisboa, não chegando à edificação o ambicionado estúdio, cujos planos tinham acompanhado Raul de Caldevilla desde o Porto. De facto, sobrevieram litígios com os responsáveis capitalistas da empresa, pelo que em 1923 pediu a demissão de administrador-gerente da Caldevilla Film.
Declinava, assim, um sonho que tivera repercussões insuspeitáveis, a ponto de ser apresentado em 1921, à Câmara dos Deputados, um projecto de lei que isentava a empresa de impostos, durante dez anos - como contrapartida a impressionar, apenas, «assuntos genuinamente portugueses, baseados na história ou na literatura nacionais». Pelo Verão de 1925, a Caldevilla Film desmantelava-se simbolicamente, com um leilão público de todo o material.”
Fonte: cvc.instituto-camoes.pt/cinema


 
Como complemento, diga-se que, no ano de 1921, uma outra empresa produtora de filmes seria fundada a “Fortuna Film” de Virgínia de Castro e Almeida, a romancista que chegada de França, onde tinha acompanhado o desenvolvimento da 7ª arte e, apaixonada da mesma, monta aquela empresa, que com a “Invicta Film” e a “Caldevilla Film”, irão dominar a produção cinematográfica nacional.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

25.313 Um eclipse há mais de 100 anos, no norte de Portugal

 
O eclipse de 1912, no Porto, foi apenas parcial, mas, em Milhundos, Penafiel, ele foi total. A comunidade científica escolheria, como num outro eclipse ocorrido anos antes, em 1900, para a sua observação, a vila de Ovar.
 
“O eclipse solar de 17 de Abril de 1912 podia ser visto no norte do País pelo que acorreram ao Porto vários astrónomos estrangeiros como Ross, Blackline e James Wortvington. O fenómeno, que na cidade do Porto foi apenas parcial, iniciou-se às 10:00h, atingiu o máximo às 11:25h e terminou às 13h. O eclipse total pôde ser observado em Milhundos, concelho de Penafiel, onde se concentraram muitos curiosos e astrónomos amadores e profissionais. O astrónomo Francisco Miranda da Costa Lobo, professor da Faculdade de Ciências de Coimbra, preferiu fazer as suas observações em Ovar e usou um registo fotográfico (com uma câmara especial colocada à sua disposição pelo Sr. Sallet) e outro cinematográfico (com um cinematógrafo emprestado por Carlos Ferrão e operado pelo tenente Negrão de Lima, “distinto amador portuense”). Depois desta façanha, Costa Lobo passou a ter um lugar de vanguarda do cinema astronómico a nível internacional...Conforme se pode ler no Tripeiro, de Abril de 1962, ao recordar acontecimentos ocorridos 50 anos antes, “os vidreiros portuenses fizeram grande negócio com a venda de milhares de vidros fumados, e, mau grado todas as fases do eclipse terem sido previamente anunciadas e explicadas, muita gente se assustou até ao pânico no momento em que, tendo o fenómeno atingido o seu zénite, a luz começou a desaparecer gradualmente e, já a cidade envolta em crepúsculo, a própria passarada começou a recolher aos ninhos…”
Fonte: oholoscopio.blogspot

 
“No dia 17 de abril de 1912 três expedições estrangeiras – uma russa, uma francesa e uma inglesa – e uma nacional, a da Universidade de Coimbra, encontravam-se em Ovar, ou na sua vizinhança, para observar o invulgar eclipse solar que iria ocorrer naquele dia. Este acontecimento não gerou, no entanto, o entusiasmo provocado pelo eclipse solar observado em 28 de maio de 1900. Nessa altura, muitos curiosos, entre os quais se contavam os príncipes reais D. Luís Filipe e D. Manuel, deslocaram-se a Ovar para assistir ao fenómeno. Um resultado devido, na nossa opinião, às diferentes características dos dois eclipses…
Segundo o Comércio do Porto no dia 17 de Abril de 1912:
“ [...] .o tenente snr. Nogueira Ferrão, habilissimo photographo-amador e que ultimamente se tem dedicado, com muito exito, á cinematographia, socio da União Cinematographica Limitada de que faz parte o Jardim Passos Manoel, esteve hontem em Ovar, adaptando o apparelho cinematographico ao telescopio da Universidade, com a auctorização e de combinação com o illustre dr. Costa Lobo. Assim, cinematographou todas as phases do eclipse.”

 
 

 
Filmagem durante o eclipse de 1912

 
 
A câmara de filmar pode ser vista do lado esquerdo da fotografia. Costa Lobo encontra-se por detrás do teodolito com um chapéu de coco…Costa Lobo concluiu então que o eclipse foi total na direção do movimento da Lua, e anular na direção perpendicular, ou seja, que a Lua possuía um achatamento similar ao da Terra. Estimou ainda uma diferença de alguns quilómetros entre os raios equatorial e polar da Lua. Este resultado foi, na altura, completamente inesperado, e Costa Lobo apressou-se a comunicá-lo à Academia de Ciências de Paris. Inicialmente a interpretação de Costa Lobo foi apoiada por outros observadores, entre os quais o padre Fernand Willaert, que tinha igualmente cinematografado o eclipse em Namur, na Bélgica. No entanto, após alguns meses, a comunidade internacional preteriu-a a favor da explicação de que a assimetria observada era um resultado da irregularidade do limbo lunar. Apesar de, na altura, os dados disponíveis não terem permitido optar categoricamente entre ambas as hipóteses, hoje sabe-se que a Lua possui um pequeno achatamento”.
Fonte: artigosjornaljoaosemana.blogspot
 
 
 
 

Eclipse de 1912, em Ovar


 

Eclipse de 1912, em Ovar - Ed. Aurélio da Paz dos Reis
 
 
 
Em 28 de Maio de 1900, Já tinha ocorrido um outro eclipse solar total, que foi observado na zona do Porto.
 
 
“A 28 de maio de 1900, um eclipse solar total cruzou a costa atlântica de Portugal continental, passando diretamente pela zona do Porto, Ovar e Aveiro, numa faixa de totalidade com cerca de 75 km de largura. O fenómeno gerou enorme entusiasmo popular, mobilizou cientistas nacionais e internacionais e marcou a história da astronomia no país”.
Fonte: Observatório Astronómico de Lisboa

 
 
Frederico Thomas Oom (1864-1930), o Subdiretor do Real Observatório Astronómico de Lisboa, foi incansável nos esforços de divulgação do acontecimento junto dos seus pares internacionais e na criação de condições para que Portugal se tornasse a opção mais atractiva para a destino de tantas expedições astronómicas quanto possível.
Uma delegação do Observatório Real de Greenwich esteve presente no evento.
 
 
“De entre as estimadas 25000 pessoas, a história regista, por exemplo, a presença dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel que ficaram alojados nos paços do Concelho e de alguns membros da British Astronomical Association, entre os quais se encontrava o advogado, astrónomo amador e divulgador de ciência George Chambers.
O eclipse de 28 de maio de 1900 iniciou-se no oceano Pacífico, passando a sombra da Lua pelo México, Estados Unidos da América, oceano Atlântico, Portugal, Espanha, Argélia, Tunísia, Líbia, terminando no Egito. A sombra entrou no continente europeu na costa portuguesa, passando a linha central por Ovar. O eclipse total foi visto da Gafanha da Boa Hora a Matosinhos. Em Viseu encontravam-se as expedições do Observatório da Universidade de Coimbra, da Escola Politécnica de Lisboa e da Escola Naval. No interior a sombra passou, ainda, pela Guarda e Covilhã”.
Cortesia de Vítor Bonifácio, Investigador do CIDTFF da Universidade de Aveiro

 
 

Observação do eclipse, em Ovar, em 28 de Maio de 1900

 
Sobre o eclipse solar de 28 de Maio de 1900, no dia seguinte, o jornal "O Comércio do Porto" apresentava aos leitores um extenso artigo de que se destaca:









quarta-feira, 22 de julho de 2026

25.312 Derrubando confusões sobre a identidade de personagens

 
António da Silva Cunha (da fábrica Confiança)
 
Sobre o palacete da foto abaixo, com projecto de 1904, localizado na esquina das avenidas Jorge Correia, n.º 296, e Sacadura Cabral, Aguda, Vila Nova de Gaia, diz o arquitecto José Pedro Tenreiro:
 
 
“Esta habitação terá sido originalmente edificada para o industrial portuense António da Silva Cunha, proprietário da Camisaria Confiança, conforme consta do processo de licenciamento de 1904, mas pouco depois será habitada por João Jorge Correia, uma das principais figuras responsáveis pela edificação e dinamização desta praia do litoral de Vila Nova de Gaia. O seu projecto é atribuível, tanto pelas suas características como pelos seus elementos gráficos, ao arquitecto José Teixeira Lopes, igualmente responsável pelo risco de outras casas nas imediações. Com efeito, Teixeira Lopes, então em pleno início da sua actividade como arquitecto, dedica-se ao desenvolvimento de modelos de habitação económica, os quais ensaia nas estâncias balneares do litoral gaiense”.
Cortesia de José Pedro Tenreiro
 
 
 

Villa Palmeira – Fonte: José Pedro Tenreiro

 
 
A escultura, ao cimo das escadas, será, possivelmente, do escultor António Teixeira Lopes.

 
 

Vila Palmeira, em 2026 – Fonte: Google maps
 
 
 
António da Silva Cunha (1858–1925) foi um republicano de Vila Meã, Amarante, que foi vereador da Câmara do Porto, comendador e fundador do Centro Democrático do Norte e do Clube Fenianos Portuenses, do qual será o seu primeiro presidente.
Sem descendentes, foi casado, em segundas núpcias, com Ana Joaquina Fernandes da Silva Cunha e morador na Rua do Pinheiro Manso, n.ºs 301-305.
António da Silva Cunha regressou do Brasil ainda novo e com bens de fortuna, instalou-se no Porto.
Ficou conhecido, sobretudo, por ter sido o fundador, na Rua de Santa Catarina, da “Camisaria Confiança”.
A primeira denominação da camisaria, onde chegaram a trabalhar, diariamente, mais de mil operárias, foi de “Bela Jardineira”.
Em 1883, a camisaria começou por ser uma modesta indústria, mas, em 1894, depois de um grande esforço de modernização, em maquinaria, é inaugurada a “Fábrica Confiança”, cujo edifício teve o traço do arquitecto Joel da Silva Pereira (1861-1899).
 
 
“Em 1883, António Silva e Cunha instalou na Rua de Santa Catarina, um pequeno estabelecimento comercial de camisas e roupa branca, lançando as base para a confeção de roupa branca, progredindo pouco a pouco e ampliando as suas instalações, adquirindo as mais modernas máquinas, para em 1894 inaugurar a “Fábrica Confiança”. A primitiva “Camisaria Confiança” ocupava o estabelecimento de vendas e oficinas anexas. Estava localizada ao lado do Grande Hotel do Porto. Nesta fábrica trabalharam cerca de mil mulheres, que com o seu trabalho nas 125 máquinas de costura movidas a eletricidade produzida por uma central a vapor, permitiram conquistar o mercado do ultramar português e brasileiro.
Numa área de 1300 metros quadrados, a fábrica dividia-se nas seguintes secções: ateliers de corte; ateliers das costureiras; lavandaria com secador a vapor; oficina de brunis; ateliers de roupa branca para homem e em especial para roupas de senhora e criança; fabrico de caixas de cartão e finalmente, o luxuoso e vasto salão de vendas”.
Fonte: AHMPorto


 

Fábrica de Camisas Confiança, na Rua Santa Catarina – Foto Guedes

 
 

Secção de embalagem de camisas da Fábrica Confiança, na Rua de Santa Catarina – Foto Guedes
 
 
 
Uns bons anos depois do envolvimento de António da Silva Cunha na política, em 1907, toma posse como vereador, na Câmara do Porto, em representação da sensibilidade republicana, na presidência de Jacinto de Magalhães e, em 1911, é deputado à Constituinte.
Jacinto da Silva Pereira Magalhães (empresário têxtil da Fábrica do Jacinto) assumiu, portanto, a presidência a partir de 2 de Janeiro de 1907 e exerceu funções até 28 de Novembro de 1907, por despacho do Ministério dos Negócios do Reino.
Na vereação em causa, António da Silva Cunha ficou com o pelouro de Limpeza e Águas.
Os restantes pelouros foram assim distribuídos: Polícia Municipal e Foro - Jacinto Magalhães; Impostos, Mercados, Matadouro, Atilamentos e Iluminação - Nunes da Ponte e Bernardino Vareta; Jardins e Cemitérios - Tito Fontes; Órfãos e Asilo Escola - Antero de Araújo; Obras e Saneamento - Duarte Leite e Xavier Esteves; Águas, Lactações. Balneários, Higiene e Instrução - Cândido de Pinho; Biblioteca, Museu, Laboratório de Química, Posto Fotométrico - Correia Pacheco; Incêndios - Pereira da Costa.
A Jacinto Magalhães irá suceder José Nunes da Ponte, que iniciará o seu mandato a 14 de Dezembro de 1907, estendendo-o até 1908.
A partir de 21 de Dezembro de 1910, António da Silva Cunha vai fazer parte da “Empresa Artística Limitada”, que fará a gestão artística do Jardim Passos Manuel, ao lado dos sócios, Luiz Faria Guimarães, Arnaldo Arthur Ferreira Braga, Francisco Pereira Balga e o general Francisco Leite Arriscado.
Começado a construir em meados de 1907, o Jardim Passos Manuel, com o seu cinematógrafo e os jardins envolventes, foi inaugurado em 17 de Março de 1908, para a imprensa, com imenso sucesso.
Porém, aquando da abertura para o público em geral, no dia seguinte, aconteceu uma falha de energia eléctrica que implicou a não exibição dos quadros cinematográficos em cartaz.
Três dias depois, no dia 21 de Março, já tudo estava reparado e a funcionar normalmente.

 
 
 

Jardim Passos Manuel, c. 1910
 
 
 
 
Numa época de grande agitação, após a implantação da República, António da Silva Cunha vai exercer, ainda, a presidência da Associação Comercial do Porto durante o período de 1912 a 1915.
Então, sem morada própria, a instituição vai reunir em 1912, na Rua de Santa Catarina, em instalações da Fábrica Confiança, depois de já ter reunido, provisoriamente, na Rua do Infante D. Henrique e na Rua Ferreira Borges.
O desempenho de António da Silva Cunha, na Câmara do Porto e na Associação Comercial do Porto, em tempos de confrontação política, vai permitir desanuviar as relações tensas entre as instituições e proporcionar que a Associação Comercial do Porto retorne ao Palácio da Bolsa, após a subida breve ao poder de Sidónio Pais.
António da Silva Cunha será, ainda, vogal do Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro do Estado.
 
 
 
 
António José da Silva Cunha (da Rasa)
 
 
 
António José da Silva Cunha (1833-1901) foi um homem de negócios, que juntou uma grande fortuna e mandou construir a Vila Rosa, na Rua da Rasa, em V. N. de Gaia.
O projecto será de 1891, quando a arquitectura destas moradas tipo chalet começaram a ocupar a cidade do Porto e arredores.
O nome remete-nos para a nora do proprietário.
 
 
 

Villa Rosa
 
 
 
Anexo, junto à estrada, mais tarde, passou a existir a chamada casa dos caseiros.
Os jardins da propriedade apresentavam árvores gigantescas, caminhos, labirinto e fonte, canteiros e tanque.

 
 
 

Local de implantação da Vila Rosa (1), casa dos caseiros (2) e chafariz do labirinto (3)
 
 
 
António José da Silva Cunha foi figura de relevo em Mafamude.
Vivendo em V.N. de Gaia, tinha negócios no Porto e grande influência na política. Sobre ele dizia-se: Meia rasa era dele, e dele era meias votação de Mafamude.
Era pai, entre outros, de Alfredo José da Silva Cunha (1863-1948), com a alcunha de o “Cunha da Rasa”, uma figura típica de Gaia e do Porto.
Em 04 de Junho de 1890, Alfredo José da Silva Cunha, casa com Rosa Josefina de Brito Antunes, filha do visconde da Nazaré, de cujo enlace houve o filho Alfredo Antunes da Silva Cunha (1892-1938), muitas vezes confundido com seu pai.
Sobre Alfredo José da Silva Cunha, o “Cunha da Rasa”, o galanteador, o original, dizia, na revista “O Tripeiro”, Emílio Castelo Branco:
 
 
 

Apreciação de Emílio Castelo Branco à figura de Alfredo José da Silva Cunha, o “Cunha da Rasa”, in revista “O Tripeiro”, António José da Silva Cunha série, Ano IV, Novembro de 1948
 
 
 
Quando apareceram as primeiras bicicletas, “Cunha da Rasa” foi velocipedista. Quando o ténis surgiu, “Cunha da Rasa” foi tenista.
No Clube Ginástico de Mafamude praticou a esgrima.
Galanteador por excelência e, por essa razão, a sua pessoa até foi quadro de revista teatral, trilhou, também, a estrada da poesia, mas a sua grande paixão era cuidar do seu jardim, sendo a flor que portava na lapela o anúncio ao mundo dessa sua faceta.
Na peça de teatro “ A Pátria das Camélias”, baseada em textos de Hélder Pacheco, num dos quadros diziam os actores:
 
 
 
NAS ANTAS, SÃO TANTAS, TANTAS
EM CORIM, ASSIM-ASSIM
VENDA NOVA, RIO TINTO E PARANHOS
MEU PEITO ABRASA
EU SOU O CUNHA DA RASA
MEU PEITO ABRASA
EU SOU O CUNHA DA RASA
 
 
 
De facto, ficou famoso na cidade pela sua personalidade singular — um homem elegante, conhecido por ser galanteador, de piropo fácil e de andar sempre com uma flor na lapela.

 
 
 

Praia do Molhe. Da esquerda para a direita: Ermelinda Ramos Pinto (casou com Alfredo Allen, visconde de Villar d’Allen) e Otilia Ramos Pinto (casou com Alfredo Antunes da Silva Cunha, filho do “Cunha da Raza”), Ilda Paz dos Reis e Adriano Ramos Pinto (1859-1927)
 
 
 
Adriano Ramos Pinto era, portanto, genro do Alfredo Antunes da Silva Cunha, filho do “Cunha da Rasa”.
Alfredo Antunes e Otília eram proprietários, entre muitos outros bens, do conhecido prédio da Rua do Breiner, n.º 121, onde, em 1937, funcionava o Tribunal do Trabalho.
Do enlace houve cinco filhos: Alfredo Ramos Pinto da Silva Cunha, Maria Amélia Roza Ramos Pinto da Silva Cunha, Maria Isabel Ramos Pinto da Silva Cunha, Gonçalo Ramos Pinto da Silva Cunha e Cristóvão Ramos Pinto da Silva Cunha.
 
 
 

Casa dos caseiros da Vila Rosa, ao abandono, em 2026

 
 
Em 17 de outubro 2011, era dada a notícia da ocorrência de um incêndio na chamada casa dos caseiros.
Dizem que, por lá, ao longo dos tempos, se situava a garagem da família, que exibia inúmeras viaturas de marcas consagradas.


 
 

Vila Rosa, em ruínas, na Rua da Rasa, em 2026, nas imediações do campo de jogos do Vilanovense Futebol Clube - Fonte: Google maps
 
 
 

Villa Rosa, ao abandono