domingo, 25 de outubro de 2026

25.318 Um casamento há 155 anos

 
Hoje, 25 de Outubro de 2026, passam cento e cinquenta e cinco anos sobre a data do casamento de Henrique Ribeiro de Faria (1827-1888) e de Júlia Emília Álvares Ribeiro (1839-1925), de cuja cerimónia realizada no oratório da residência da noiva, à Rua Chã, nos dá conta o jornal “O Comércio do Porto”, no dia seguinte.
Então, institucionalizados desde há alguns anos os cemitérios públicos, o funcionamento das capelas existentes junto dos palacetes das grandes famílias começou a ser substituído pelos dos oratórios dentro das próprias habitações.
Neste dia festivo do ano de 1871, deve ter sido matéria de conversa, durante a bôda, a chegada nesse mesmo dia, ao Porto, de Bento de Freitas Soares (1822-1887), um vilacondense ilustre, médico e político do Partido Regenerador, para tomar posse como o novo governador civil do Distrito do Porto.




Bento de Freitas Soares





In jornal “O Comércio do Porto” de 26 de Outubro de 1871
 
 
 
 
Este foi mais um, entre muitos outros enlaces de representantes da aristocracia e da burguesia portuense, que merece ser destacado para dar uma visão sobre a sociedade de então e, também, dar a conhecer parte do trajecto de vida de seis netos de Francisco José Barros Lima.
Presidiu à cerimónia o arcediago de Oliveira do Douro, Ricardo Vanzeller, com residência na Rua do Vilar, moradia que tinha pertencido, antes, a António Bernardo Ferreira, o primeiro marido da célebre D. Antónia Ferreira, a célebre Ferreirinha, e seu primo em 1º grau, falecido em 1844. Por aqui, montou António Bernardo Ferreira um teatro em cujo palco a burguesia portuense da época mostrava os seus dotes na representação teatral.
 
 
 
Casa do arcediago Ricardo Vanzeller, na Rua do Vilar



 






Naquela longínqua 4.ª Feira, os noivos, finda que foi a cerimónia e a festa subsequente, acabariam por recolher à residência de Henrique Ribeiro de Faria (1827-1888), o noivo, na antiga quinta, situada na Rua do Heroísmo, que fora propriedade de Francisco José de Barros Lima, o seu avô, personagem que acabaria por figurar na toponímia da cidade, precisamente, no arruamento, para o qual foram viver os noivos, após o casamento – gaveto da Rua do Heroísmo com a futura Rua de Barros Lima.
Francisco José de Barros Lima (1763-1843) foi casado, em 31 de Julho de 1799, com Raquel Maria Pinto e de cujo enlace resultaram duas filhas.
Após a revolução liberal saiu representante do sector do comércio, tendo sido ainda deputado às Côrtes e, mais tarde, um dos Contratadores Gerais do Tabaco. Morreu com oitenta anos, em 1843, já viúvo e com as suas duas filhas, Rosa Margarida e Margarida Rosa, já falecidas, mas rodeado dos seus seis netos, fruto do casamento de Rosa Margarida com o bacharel Francisco Ribeiro de Faria, já que a outra filha, de seu nome, Margarida Rosa, morreu solteira.
Habitava, habitualmente, na sua morada na Rua de S. João, mas visitava frequentemente a sua quinta na Rua do Heroísmo.
Na casa dessa quinta, para onde se deslocaram os noivos no fim do casamento, já em pleno século XX, se haveria de instalar, a partir de Fevereiro de 1953, o Liceu Rainha Santa Isabel, que no mesmo local funcionava, desde 1938, como Secção do Liceu Carolina Michaëlis.





Edifício onde funcionou inicialmente o Liceu Rainha Santa Isabel, já ostentando um 3.º piso, que foi levantado como parte das obrigações do Liceu Carolina Michëlis, como arrendatário, em 1938 - Desenho do escultor Antero Sousa

 
 
 
Pois, o presente casamento envolvia o neto de Francisco José Barros Lima, Henrique Ribeiro de Faria, que tinha como irmãos Francisco Ribeiro de Faria (visconde de Barros Lima), Eduardo, Arnaldo, Carolina e Camila.
Do prestígio do seu avô, Francisco José de Barros Lima, se aproveitou Francisco Ribeiro de Faria (1824-1889), passando a visconde de Barros Lima.
Com o mesmo nome de seu pai (bacharel Francisco Ribeiro de Faria, casado com uma filha de Francisco José Barros Lima), o visconde de Barros Lima, à data do seu falecimento, em 1889, era morador na Rua da Torrinha, solteiro e sem descendência.
A casa da família Ribeiro de Faria localizava-se na Rua de Cedofeita e ficou conhecida para sempre, por ser aquela a que se acolheu D. Pedro IV, após o bombardeio do Palácio dos Carrancas, durante o Cerco do Porto, em 1833/34.
Por sua vez, a noiva, Júlia Emília, vivia, até então, com sua mãe, já viúva, na sua residência, na Rua Chã, que corresponde hoje ao n.º de polícia, 132.
 
 
 

Actualmente, a casa da noiva, na Rua Chã, n.º 132
 
 
 
Seu pai, Joaquim Torcato Álvares Ribeiro (1803-1868), Matemático e professor da Academia Politécnica do Porto, falecera a 2 de Novembro de 1868, nas Caldas de Vizela, onde se encontrava "a banhos", cerca de três anos antes da subida ao altar da sua filha Júlia Emília.
Em 1835, tinha sido nomeado, precedendo concurso, lente proprietário da 1.ª cadeira de Matemática.
Na Academia, para além da docência, assumiu as funções de director interino, nomeado a 30 de Novembro de 1864 e, apesar de indigitado para director efectivo, em Agosto de 1868, não chegou a tomar posse deste cargo.
Joaquim Torcato Álvares Ribeiro foi, ainda, director da Companhia Geral da Agricultura e das Vinhas do Alto Douro, entre 1852 e 1855.
Na cerimónia religiosa, na qualidade de padrinhos, que ficavam do lado direito do altar ao lado do noivo, destacava-se a figura de Bernardo Pereira Leitão de Carvalho (1792–1880), um proeminente proprietário (entre muitas outras propriedades detinha a Quinta de Vale Abraão, no Douro), capitalista e figura da elite económica e social do Porto, no século XIX, um dos conhecidos fundadores do Club Portuense.
Natural de Peso da Régua casou-se com Maria Ludovina de Oliveira Maia (1802-1881), tendo residido, na Rua do Passeio Alegre, na Foz do Douro, na conhecida casa da família Maia, aquela que ostenta umas icónicas ameias.
Era o progenitor de Laura Pereira Leitão, que foi casada com Eduardo Ribeiro Faria, irmão do noivo, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra e que, à data do presente casamento estava, desde do início do ano, na situação de viúva. Talvez, por ainda se encontrar de luto, o seu nome não figura na crónica do casamento.
Esta senhora acabaria por casar uma segunda vez e administrar a Quinta de Vale Abraão, que pertencera ao seu pai. Aliás, foi testamenteira, juntamente com o seu irmão Adriano, após o falecimento de Ludovina Oliveira Maia, sua mãe, em 1871, que, por sua vez, em 1868, já tinha sido herdeira do seu irmão Domingos de Oliveira Maia, senhor de uma grande fortuna e que não tinha descendentes.

 
 

Casa de Domingos Maia, na Rua das Flores, hoje o Hotel PortoBay Flores
 
 
 

Casa da família Maia, no Passeio Alegre






Retrato a óleo de Bernardo Pereira Leitão, por Augusto Roquemont, meados do séc. XIX. Col. da Casa de Casal de Loivos
 
 
 
Um outro padrinho foi Arnaldo Ribeiro Faria, irmão do noivo e um dos netos de Francisco José Barros Lima, que, ao falecer solteiro, em 1911, contemplaria sobremaneira, no seu testamento, as três sobrinhas que resultariam deste matrimónio.
A condessa do Bolhão e Maria Emília da Conceição Ribeiro Coelho Cabral, tias da noiva, foram as madrinhas que, na cerimónia religiosa, figuravam do lado esquerdo do altar, ao lado da noiva.
Francisca Fausta do Vale Pereira Cabral (1808-1888), a condessa do Bolhão, tinha vivido, na Rua Formosa, no Palácio do Bolhão, até 1853, quando abandonou o lar alegando maus tratos infligidos pelo cônjuge.
À data, aqueles que a imprensa identificou como os irmãos Sousa Guedes, sobrinhos da condessa do Bolhão, criaram grossa zaragata pública.
Assim, em 4 de Dezembro de 1852, em defesa da sua tia que, entretanto, abandonara o lar, alegando maus tratos, os dois irmãos fizeram uma espera, na Rua de Santo António, ao escritor Camilo Castelo Branco e sovaram-no, pois não apreciaram a defesa que o escritor fazia do conde do Bolhão, nas suas crónicas jornalísticas.
Com certeza, um dos Sousa Guedes, referidos pela imprensa da época, era António de Sales de Sousa Guedes Vieira, identificado em relatório do médico do Hospital Santo António, Dr. Fortunato Augusto Pimentel (1807-1889), o pai do escritor Alberto Pimentel, que o observou e identificou a ele e ao escritor, relatando, ainda, os ferimentos sofridos pelos contendores.
O casal desavindo, porém, nunca se reconciliaria e o caso agitou durante meses a cidade.
O escritor ainda, em 1857, expressava o seu desapontamento e saudade pela não realização das sumptuosas festas que o ainda barão, à data da separação, tinha deixado de oferecer aos seus convidados.
Aquele infeliz casamento tinha ocorrido a 14 de Setembro de 1835, com António Alves Sousa Guimarães, 1º Conde de Bolhão, de cujo enlace resultou a seguinte descendência: Júlia Pereira Alves de Sousa Guimarães, Maria Cristina Alves de Sousa Guimarães, Arnaldo Alves de Sousa Guimarães, António Alves de Sousa Guimarães e Sofia Pereira Alves de Sousa Guimarães.
 
 
 

Palácio do Bolhão
 
 
 
Por sua vez, Maria Emília da Conceição Ribeiro Coelho Cabral, a outra madrinha e tia da noiva, encontrava-se acompanhada do seu marido, Constantino António do Vale Pereira Cabral, nascido em 1806, figura de destaque da sociedade portuense, e que fora, na década de 1830, 1.º Director da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro, mais tarde, foi 1.º Claviculário da Administração do Contracto do Tabaco e senhor das Quintas do Cachão, do Seixo e de Serzedinho e, ainda, da casa na Rua das Flores, onde nasceu e acabaria por morrer em 1873.
Foi um dos fundadores do Club Portuense.
Do seu casamento, Maria Emília da Conceição Ribeiro Coelho Cabral teve seis filhos e haveria de falecer em Janeiro de 1886.
A casa na Rua das Flores ficaria, para sempre, conhecida como a “Casa dos Constantinos”.





“Casa dos Constantinos”, à Rua das Flores, n.º 139, em 2014
 
 
 
Entre a longa lista de convidados, é possível observar a presença de uma irmã do noivo, de seu nome Camila Ribeiro de Faria (1829-1915), que, casada em 1852, se encontrava já na situação de viúva, pois o enlace com João de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres durou apenas 8 anos.
 
 
 

Palacete, na Rua do Rosário, onde viveu após o seu casamento Camila Ribeiro de Faria
 
 
 
Entre as inúmeras individualidades, cuja extensa referência seria fastidioso mencionar, é de destacar a presença: do Marquês de Saldanha, João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun, esposa e filhos; da Viscondessa de Balsemão (Henriqueta das Dores Teles da Silva); da Baronesa do Seixo; do Marquês de Monfalim, Filipe de Sousa e Holstein (1841-1884), e esposa; do Conde de Samodães (1828-1918), e esposa, a viscondessa de Alpendurada; de António Bernardo Ferreira (1835-1907), e esposa, Antónia Cândida Plácido; de João Pacheco Pereira (1827-1887), e esposa, Maria Angelina Pereira da Silva, filha do Conde de Bertiandos; dos Condes de Resende, etc.
A condessa de Resende, Maria Balbina Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto de Miranda e Figueiroa, presente, era casada com António Benedito de Castro, 4.º conde de Resende, falecido em 1865.
Possivelmente, neste casamento, a condessa fez-se acompanhar pelo 5.º Conde de Resende, que faleceu solteiro em 1876 e era filho do seu falecido marido.
 
 
 

Casa (desaparecida), implantada transversalmente no que é hoje a Rua de Álvares Cabral, dos condes de Resende, que, mais tarde, viriam a ser sogros do escritor Eça de Queiroz



 

Solar dos condes de Resende, em Canelas, V. N. de Gaia, que é, hoje, a Casa da Cultura do município
 
 
 
Uma nota especial para a Baronesa do Seixo, que era, afinal, na prática, a irmã do noivo, de nome Carolina Rosa Ribeiro de Faria (1822-1891), casada, em Fevereiro de 1841, no regime de separação de bens, com António Almeida Coutinho Lemos (1818-1869), estava, à data, já viúva. Vivia no seu palacete, na Rua de Cedofeita, a poucas dezenas de metros da casa onde tinha nascido.
Deambulando pela lista de convidados, é de destacar a presença de Francisco Diogo de Sousa Cyrne de Madureira (1808-1875), morador no Campo 24 de Agosto e casado com Maria Isabel de Bourbon da Silva Guedes, falecida em 1869, de quem teve três filhos, a saber, Francisco, Maria e José.
 
 
 

Residência, no Campo 24 de Agosto, de Francisco Diogo de Sousa Cyrne de Madureira que, hoje, ostenta mais um andar e aloja a Junta de Freguesia do Bonfim

 
 
 

Palacete do Marquês de Monfalim, à Torre da Marca, Palácio de Cristal
 
 
 

Solar (desaparecido) de Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar, 2.º Conde de Samodães (em 1871, na Rua do Sol, onde, muito mais, tarde se iria instalar a Escola Oliveira Martins
 
 
 
Pelas traseiras daquele solar, já na Rua de S. Luiz, viveu e faleceu, em 22 de Junho de 1888, quando já estava viúva, a viscondessa de Alpendurada, Maria das Neves Correia Leal, mãe de Henriqueta Adelaide Vieira Magalhães, Condessa de Samodães, e de Josefina Augusta Vieira Magalhães, 2.ª viscondessa de Alpendurada e Condessa consorte de Alpendurada, casada com João Baptista Pereira da Rocha.
Esta prole é o resultado dum segundo casamento de António Vieira de Magalhães (1789 - 1859), 1.º visconde de Alpendurada.
 
 
 
  

Palácio onde residia, na ala mais à direita, em 1871, António Bernardo Ferreira, no Largo do Laranjal (Praça da Trindade). A ala, à esquerda, era ocupada, naquela data, pelo Club Portuense e a parte central era o Salão de Baile





Por aqui, viveu João Pacheco Pereira, na Rua do Vilar
 
 
 
Miguel de Sousa Guedes (1829-1913), Júlio Kopke Severim de Sousa (1835-1899), um dos filhos de Joaquim Augusto Kopke Schwerin de Sousa (1º barão de Massarelos) e a esposa, Júlia Pinto Machado Torre, Henrique Vanzeller e William Sandeman e Tomas Sandeman, que seriam, respectivamente e, em sucessão, 1.º e 2.º Barão de Sandeman, não podiam deixar de comparecer.
 
 
 
 

Residência de Júlio Kopke, na Rua do Rosário, n.º 219


 
 

Casa de Henrique Vanzeller, na Rua D. Estefânia, junto da Rua D. Pedro V
 
 
 

Palacete na Cordoaria, que William e Thomas Sandeman receberam em herança pela morte do seu pai, em 1870
 
 
 
Notas finais
 
 
As ornamentações da casa, na Rua Chã, estiveram a cargo do jardineiro paisagista alemão, Émile David, aquele que, anos antes, tinha intervindo nos jardins do Palácio de Cristal.
Quanto ao “lunch”, ao bom estilo da época, nestes ambientes, a identificação das iguarias era em francês.
 
 
Menu
 
‘Chaud’-Consommé de volaille, petits vol au vent d'huitre à le reine, croquettes de volaille aux truffes.
 ‘Froid’ - Jambon de Westphalie à la gelée, galantine de dinde truffée, Tête de achard à la portugaise, filets de volaille aux truffes, langues de veau à l’anglaise, bigarrades de filets de soles aux crevettes, cuisse de veau au lard.
‘Rôtis’ - Dindon à la glace, canards sauvages à la française, poules à italienne, perdrix au cresson.
‘Entremets’- Charlotte russe à la vanille, pudding au chocolat, blanc-manger au marrasquin, gelée au vin de Madère.
Pâtisseries et biscuits.
‘Vins’ - Madère, Xères, Bordeaux, Rhin, Bucellas, Porto et Champagne.”
 
 
 
Reflexões finais
 
Antes de mais, revela-se o desconhecimento da razão pela qual não é explicitado na notícia, que serviu para esta divagação, o nome do irmão do noivo, de seu nome Francisco Ribeiro de Faria, morador na Rua da Torrinha, n.º 9, que se tornaria, em 1873, visconde de Barros Lima e viria a falecer em 1889.
Sem herdeiros directos, em testamento, o visconde de Barros Lima declararia, após manifestações pontuais de benefício de seus servidores mais chegados, como seu herdeiro universal, o filho de sua irmã Camila, Manuel Albuquerque de Melo Cáceres.
Finalmente, que do casamento que aqui se celebra houve três filhas: Maria Jerónima Ribeiro de Faria (1874-1971) casada, em 31 de Julho de 1901, com o 2.º conde de Campo Belo (1873-1949); Maria José Ribeiro de Faria (1875-1951) casada, em 28 de Setembro de 1890, com João Melo Pereira de Sampaio (1869-1906); Maria das Dores Ribeiro de Faria (1877-1958) casada, em 20 de Junho de 1904, com Joaquim Augusto Leite Pereira Pinto Basto (1875-1926).
Todas elas foram contempladas no testamento do seu tio Arnaldo, que morreu solteiro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

25.317 Mais perguntas que respostas

 
Sobre o palacete, situado na Rua Formosa, n.ºs 108-116, paira um certo mistério nas suas origens e os dados e informações, que se podem recolher nos arquivos, não permitem obter respostas concisas.
Por isso, apresentar-se-ão as investigações efectuadas e as conclusões ficarão ao critério de cada um.
 
 
 

Palacete, na Rua Formosa, n.ºs 108-116, onde esteve o Liceu Nacional – Ed. Graça Correia



 
Primeiro proprietário do palacete
 
 
Fazendo uma busca, segundo os moldes habituais, no Arquivo Histórico Municipal do Porto (AHMP), chegámos à conclusão de que o respectivo processo de licenciamento poderá ter-se perdido.
Existe um Documento/Processo referente a um pedido de licenciamento, perante a Junta de Obras Públicas, feita pelo juiz João Pereira Baptista Vieira Soares (1776-1852) e que consta de um desenho de uma fachada de um prédio, na Rua Formosa, com data de 26 de Abril de 1824.
Faz parte do mesmo processo, um outro desenho com despacho de 22 de Julho de 1825, que constitui um pedido de rectificação ao desenho da fachada inicialmente apresentada, o que foi autorizado por Joaquim da Costa Lima e Sampaio.
Sobre os desenhos das fachadas vem, em ambos os casos, expresso que o proprietário e requerente da autorização é aquele juiz.
De notar que, à data, se viviam tempos de pré guerra civil e que, a reorganização municipal dela decorrente ainda estava para vir, como é óbvio.
Não é fácil encontrar factos históricos para caracterizar a personagem do juiz, mas sabe-se que seria um fervoroso liberal, tendo estado exilado no Brasil entre 1828 e 1834, período durante o qual D. Miguel esteve à frente dos destinos do reino.
Conseguimos também saber que, em 23 de Janeiro de 1851, Camilo Castelo Branco e o jornalista do jornal “A Pátria”, João Augusto Novaes Vieira, o “Novais dos óculos”, envolveram-se numa acesa polémica pública. O conflito teve como cerne “negócios de saias” e escalou para agressões físicas no Teatro de São João, no Porto, resultando numa queixa-crime formal por injúrias e agressões.
Foi perante João Pereira Baptista Vieira Soares, que exercia as funções de Juiz de Direito Criminal Substituto, na cidade do Porto, que Novaes Vieira apresentou a petição e a querela criminal contra Camilo Castelo Branco e D. Luís da Câmara, presente no referido teatro no momento da ocorrência dos factos.
 
 
   

Desenho da fachada apresentado em 1824
 
 
 
 

Desenho da fachada apresentado em 1825


 
João Pereira Baptista Vieira Soares terá sido, proprietário e, por certo, também, morador num outro prédio, situado na Rua Formosa, n.ºs 201-203, pois, para aqui, em 2 de Novembro de 1857, o banqueiro Joaquim Pinto da Fonseca solicitava à Câmara do Porto uma autorização de obras, para um prédio da Rua Formosa.
Do requerimento respectivo constava o desenho da fachada (que a seguir se apresenta) e cujo processo, obteve a licença n.º 373/1857 de 2 de Novembro.
 
 
 

Desenho da fachada de prédio referente à licença n.º 373/1857


 
No pedido de obras, solicitado pelo banqueiro à Câmara do Porto, é especificado que se pretendia, numa casa que tinha sido adquirida aos herdeiros do juiz João Pereira Baptista Vieira Soares, intervir no mesmo com o acrescento de mais um andar.
Comparando o desenho das fachadas de 1825 e 1857, não há dúvidas.
Pela observação da arquitectura da casa do Juiz João Pereira Baptista Vieira Soares e daquela que é o nosso alvo, apenas se poderá concluir que têm fachadas parecidas e, talvez da mesma época.
 
 
 

Rua Formosa, n.ºs 201-203
 
 
   
Aqui chegados, importa fazer uma pausa e fazer algumas perguntas:
 
1) Quem construiu a casa sita à Rua Formosa, n.ºs 108-116?
2) Quando foi concluída a sua construção e quem a ocupou até 1862?
 
 
De qualquer das perguntas anteriores não temos respostas e, só para além do período temporal da última pergunta, começámos a conhecer alguns factos históricos.
 

 
Ocupação do Palacete
 
 
Assim, a partir de 1862, o Liceu Nacional do Porto vai nele instalar-se, vindo do edifício da Escola Politécnica (à Praça dos Voluntários da Rainha ou Praça dos Leões) e por lá fica até 1866.

 
 

In “Jornal do Porto” de 26 de Junho de 1866

 
 
Sabe-se que o inquilino seguinte foi o “Colégio Francês/Escola Comercial”, de J. R. Mesnier.
Em 1871, já aquele colégio tinha tomado o nome de “Colégio Lusitano” e, por aí, continuaria até que, vindo do Jardim de S. Lázaro, lá se instalou o Colégio de S. Lázaro, a partir de 1877.
 
 
 

Publicidade ao Colégio de S. Lázaro, no “Jornal do Porto”, de 24 de Setembro de 1876, com a indicação de José Maria Guedes de Azevedo, como seu director. No ano seguinte, o colégio romaria até à Rua Formosa
 
 
 
Em 28 de Agosto de 1883, numa época em que o prédio era ocupado pelo Colégio São Lázaro, apresentava-se como proprietário do edifício, em requerimento dirigido à Câmara do Porto, para obtenção de licença de obras e substituição de canalizações, José Maria Guedes de Azevedo (director do estabelecimento de ensino).
Em data ignota, que reportará já ao início do século XX, a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, fundada em 1864, pelo político e jornalista Anselmo de Morais, com a sua primitiva sede, na Rua do Bonjardim, muda-se para a Rua Formosa, nºs 108-116.
Em 1922, já era proprietário do prédio, Domingos Carlos de Oliveira, que em requerimento solicitava à Câmara do Porto, licença para  “substituir soalhos, capear escadas, reparar tapamentos, etc”.
Em 1975, a Tipografia “Imprensa Portuguesa” por lá continuava, dividindo instalações com entrada pelo n.º 112, no 1.º andar, a firma Soares de Mendonça, Lda. – Agência de Leilões e, no 2.º andar, Confecções Invicta (Agostinho & Freitas, Lda.) e, ao longo dos anos, distintas firmas de diversos sectores de actividade foram alocadas nas mesmas áreas.
Em 1981, Domingos Dias da Silva, que era sócio, desde 1954, duma tipografia de referência na cidade, com firma “Manuel Ferreira & Silva”, localizada na Praça Coronel Pacheco, adquire a Tipografia “Imprensa Portuguesa” e junta, aí, aquelas duas firmas, de que passa a ser o sócio principal.
O edifício, onde esteve alocada, durante anos, a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, foi recuperado para funções habitacionais, há pouco tempo, com projecto do atelier “Garcia & Albuquerque”, que a propósito do edificado sobre o qual interveio, diz:
 
 
“ (…) espelhando no espaço hoje mantido como garagem e aparcamento automóvel, o local onde outrora as máquinas tipográficas e de impressão funcionavam em plena actividade durante a sua época áurea, nesta nave industrial”.
 
 
 
Ocupação do Palacete no período da transição de séculos
 
 
Entre o longo período de tempo que passou desde a ocupação pelo Liceu Nacional do Porto e a actualidade, duas perguntas se impõem:
 
3) Em que ano se mudou a Tipografia “Imprensa Portuguesa” para a Rua Formosa?
4) Quem foi o visconde S. Carlos e qual a sua ligação ao palacete e à Rua Formosa?
 
 

Quanto à primeira questão apenas se pode dizer, que a firma "Imprensa Portugueza - Anselmo Morais (sucessores)" já por lá estava, em 1908, pois é feita a respectiva referência no "Annuario do Commercio do Porto e seu Distrito" daquele ano.
As restantes interrogações poderão ser respondidas ou não, se conseguirmos solucionar as dúvidas seguintes, que resultam de um texto de Luís Manuel Dias Borges Cabral (1953–2024), um proeminente bibliotecário, arquivista e docente português, natural do Porto.
Sobre a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, dizia:
 
“Esta firma havia sido fundada por Anselmo de Morais em 1864, constituindo um espaço que recorda a figura de Camilo Castelo Branco, sendo uma tipografia ligada ao republicanismo e que teve relevante atividade editorial. No mesmo local – o palacete do Visconde de São Carlos, na Rua Formosa, nºs 108-116 – ficaram assim juntas as duas firmas de que Domingos Silva é hoje sócio principal, a da tipografia (Imprensa Portuguesa) e a de encadernação (Manuel Ferreira & Silva).
A evolução tecnológica conduziu à encadernação mecânica ou industrial, área em que a empresa também singrou, localizando-se atualmente em Lavra, Matosinhos. Nessas novas instalações tem sido desenvolvido trabalho de qualidade tanto para o mercado nacional como para o estrangeiro.”
Cortesia de Luís Manuel Dias Borges Cabral, In revista “As Artes Entre as Letras”, nº 126 de 16 de Julho de 2014
 

 
Ao edifício alvo de todas estas divagações, Luís Cabral vai chamá-lo, no texto acima, de Palacete do Visconde S. Carlos.
O título de visconde de São Carlos foi atribuído por D. Carlos, por Decreto de 09-07-1904, a Carlos Fernandes Vieira, nascido em 3 de Fevereiro de 1887, na freguesia de Santo Ildefonso  e enviuvado em 1907, após um breve casamento.
Carlos Fernandes Vieira foi casado com Amélia Guimarães Alves Quintela Vieira, nascida em 19 de Agosto de 1885 e falecida, apenas, com 21 anos, em 9 de Março de 1907, conforme anúncios que se seguem.



In jornal "A Voz Pública" de 10 de Março de 1907



In jornal "O Comércio do Porto" de 10 de Março de 1907




Amélia Vieira era filha do Conselheiro José Luciano Alves Quintela, médico (falecido a 21-03-1909) e de Amélia Ermelinda Guimarães Alves Quintela.
José Luciano fez testamento a 02-08-1882, no qual declarou residir na Rua Gonçalo Cristóvão, nº 314, e ter um filho ainda vivo, Eduardo Alves Quintela, nascido em  05-12-1876.
À data do seu falecimento, em 3 de Abril de 1909, já a sua filha Amélia tinha falecido e a sua outra filha, Maria Beatriz Quintela Lopes de Carvalho tinha casado com Gaspar Xavier da Cunha Lima Sousa e Melo, um rico proprietário oriundo de Alpendorada, conde de Vale de Rica e que, com ela fazia um segundo casamento.
Em Abril de 1903, aquando da elaboração do testamento da viscondessa de S. Carlos, Amélia Guimarães Alves Quintela Vieira dizia ser casada, sem filhos e viver na Rua Formosa, n.º 90.
Portanto, Amélia Vieira, nascida em 1885, já estava casada em 1903 e viria a falecer em 1907.
Deste enlace houve uma filha de seu nome Noémia Fernandes Guimarães Alves Quintela Vieira, que virá a casar com António Ventura Forbes de Bessa.
Por esta razão e por que no testamento, Amélia Vieira se diz sem filhos, talvez tenha falecido durante o parto, ou em consequência do mesmo, ou não tenha sido possível fazer um testamento de substituição.
Carlos Fernandes Vieira era filho de António dos Santos Vieira e Ana Fernandes de cujo casamento houve ainda uma irmã, de seu nome Maria Fernandes Vieira.
António dos Santos Vieira faleceu em 24 de Junho de 1902 e o testamento foi elaborado em 18 de Junho de 1900.
Nele, António dos Santos Vieira era tido como um grande proprietário e capitalista, já se dizia viúvo e ter dois filhos, Carlos e Maria.
Nomeava, ainda, Florinda Fernandes Vieira como sua sobrinha e Maria Fernandes Vieira (com o mesmo nome de sua filha) como sua cunhada, como pequenas beneficiadas.
Entretanto, um tal José de Oliveira Guedes casa com Maria Fernandes Vieira e de cujo enlace houve Manuel António Vieira Guedes (2.º visconde S. Carlos, nascido em 12/06/1922 e falecido em 2016 e de Maria José e Maria Isabel Vieira Guedes.
José Oliveira Guedes vinha de um primeiro casamento com Florinda Fernandes Vieira de cujo casamento houve filhos, José Carlos Vieira Guedes e Maria do Loreto Vieira Guedes.
Tudo indica que nos casamentos de José de Oliveira Guedes, as consortes são primas: Florinda será a tal sobrinha de António Santos Vieira e Maria Fernandes Vieira a sua própria filha.
O 2.º visconde de S. Carlos será, então, sobrinho de Carlos Fernandes Vieira, o 1.º visconde de S. Carlos.
Pela notícia seguinte, sobre o velório da viscondessa de S. Carlos, se pode fazer uma ideia do tipo de pessoas que, em vida, a rodeavam.



In jornal "O Comércio do Porto" de 12 de Março de 1907



Na notícia anterior, Maria Cupertino seria, por certo, Maria Neves Cupertino de Miranda, e o seu marido A. Cupertino de Miranda seria Augusto Cupertino de Miranda (1876-1934), com quem tinha casado em 27 de Junho de 1903. Os irmãos de Augusto, António Cupertino de Miranda e Artur Cupertino de Miranda tinham, apenas, à data, 17 e 11 anos, respectivamente.
Augusto Cupertino de Miranda acabaria, mais tarde, por ser banqueiro, actividade que abandonou para exercer a advocacia.
Sabe-se que, após o falecimento da viscondessa de S. Carlos, o visconde já se correspondia, no final desse ano trágico de 1907, com uma tal Maria F. Vieira, com o envio de postais ilustrados.
Do facto nos dá conta Américo de Castro Freitas, em 23 de Novembro de 2016, no seu blogue Matosinhos Antigo.

 
 
“Numa das minhas incessantes buscas de postais de Matosinhos, ou por aqui circulados, encontrei um grupo deles que, em parte, eram endereçados a uma Maria F. Vieira, então moradora na Rua Juncal de Cima (usava ainda a denominação antiga) n.º 127. Eram enviados, na maioria, por um tal Carlos. Porém, e nos postais posteriores á data do decreto de criação do título, passa a assinar visconde de S. Carlos (título criado por D. Carlos por Decreto de 09-07-1904 e foi seu primeiro titular Carlos Fernandes Vieira, nasc. Santo Ildefonso, 03.02-1887)”.
Cortesia de Américo Castro Freitas

 
 

Postal assinado pelo Visconde de S. Carlos, em 29 de Novembro de 1907 – Colecção de Américo Castro Freitas



Certamente, Maria F. Vieira, a destinatária do postal, moradora em Matosinhos, seria a cunhada de António dos Santos Vieira e, portanto, tia do visconde S. Carlos.
Entretanto, no início do século XX, Maria Fernandes Vieira, a irmã do visconde S. Carlos, era dada como proprietária do prédio na Rua Formosa, nº 98-102, vizinho daquele a que o visconde deu o seu nome.
Em 1906 e 1907, solicitava à Câmara licença para a realização de obras e, numa delas, o acrescento de mais um andar ao prédio.
Acresce que, em 21 de Outubro de 1901, tinha sido solicitada uma licença de obras, que obteria o n.º 2237/1901, para a morada da Rua Formosa, n.ºs 94-96, pelo proprietário António Vieira dos Santos (possivelmente e, por lapso do empreiteiro, seria António dos Santos Vieira), contígua à anteriormente referida.
Tudo indica que António dos Santos Vieira seria, então, à data do seu falecimento, o proprietário de um correr de moradas na Rua Formosa e que uma delas será herdada por sua filha.
Continua, no entanto, a desconhecer-se em que qualidade o visconde de S. Carlos emprestou o seu título nobiliárquico à identificação do palacete sito na Rua Formosa, n.ºs 108-116.
Por isso, as últimas perguntas ficam sem a devida resposta.