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terça-feira, 28 de maio de 2024

25.243 A caminhada até ao ensino superior

 
 
 
Os antecedentes mais remotos das faculdades, que viriam a constituir, mais tarde, a Universidade do Porto, encontram-se na Aula de Náutica criada através do diploma de 30 de Julho de 1762.
Tal diploma foi promulgado na sequência do pedido que trinta e cinco dos principais comerciantes citadinos haviam dirigido à Coroa, numa representação datada de 18 de Outubro de 1761, para que fosse determinada a construção de duas fragatas de guerra destinadas a comboiarem os navios mercantes que saíam pela barra do Porto.
Aquela Aula de Náutica era dirigida pela Junta Administrativa da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, e ministrava uma instrução meramente prática, completada com ensinamentos a bordo das embarcações mercantis que faziam carreira para os domínios ultramarinos.
A Aula de Naútica, que marcou o início do ensino público na cidade do Porto e funcionou nas instalações do Colégio dos Meninos Órfãos, teve como primeiro professor, António Rodrigues dos Santos nomeado em 12 de Maio de 1764, com “obrigação de ser mestre da aula da cidade do Porto, na qual lerá todos os dias que não forem de guarda, e explicará a náutica aos oficiais da marinha e mais pessoas que se quiserem aplicar àquela ciência”.
 
 
 
 
«“Pilotos formados na Aula Náutica integraram as tripulações dos navios mercantes que saíam do Porto e rumavam ao Brasil e ao Mar Báltico, tendo estimulado a partir de 1787 o estabelecimento de relações de amizade e de comércio entre Portugal e a Rússia. Era nesta altura lente de Náutica José Monteiro Salazar, que além de piloto foi autor de cartas náuticas”.
José Monteiro Salazar (1715-1789) foi um importante cartógrafo setecentista, autor de pelo menos quatro cartas náuticas, pertencentes, três delas, à Sociedade Portuguesa de Geografia, e outra à Biblioteca Pública Municipal do Porto».
Fonte – Site: “repositorio-aberto.up.pt”
 
 
 

Reitoria da Universidade do Porto, à Praça Gomes Teixeira

 
 
No lugar do actual edifício da Reitoria da Universidade do Porto (U.P.) esteve, em tempos, a Aula Náutica, em edifício que dividia com “O Colégio dos Meninos Órfãos” do Padre Baltasar Guedes ou Colégio de Nossa Senhora da Graça.

 
 
 
 
 
Alguns anos depois da criação da Aula de Náutica, a Junta Administrativa da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro solicitou ao rei a criação de um outro estabelecimento de ensino (a Aula de Debuxo e Desenho), instituída pelo Decreto de 27 de Novembro de 1779, que também indigitou o primeiro “lente da Aula”, António Fernandes Jácome.
A este lente sucedeu, mais tarde, o pintor Francisco Vieira que escolheu o nome artístico de Vieira Portuense (Porto, 1765 – Funchal, 1805), nomeado em 20 de Dezembro de 1800.
Vieira Portuense acabava de regressar de um estágio em Itália, tendo sido contratado pela Junta da Administração da Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro como professor da Aula de Debuxo e Desenho (aviso régio de 20 de Dezembro), passando a auferir o ordenado de 60$000 reis.
 
 
“O ensino ministrado nesta Aula de Debuxo e Desenho visava, especialmente, o curso de pilotagem, embora também não estivessem ausentes preocupações com a indústria fabril, que ganhava incremento no Porto.
A aula era frequentada essencialmente por jovens nobres, mas também por comerciantes, fabricantes, artistas, oficiais, aprendizes e marinheiros que ali encontravam a formação necessária para ‘desenharem as máquinas e instrumentos; para tirarem cartas geográficas e topográficas dos países, plantas de cidades, de embarcações, etc.”.
Fonte: “museusoaresdosreis.gov.pt”
 
 
 
A Aula de Debuxo e Desenho funcionou, também, no Colégio dos Meninos Órfãos ou Colégio de Nossa Senhora da Graça, sob administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas de Alto Douro, até 1803. Neste ano, foi transferida, para bem perto, para o Hospício dos Religiosos de Santo António de Vale da Piedade, devido ao elevado número de alunos que a frequentavam.

 
 

Hospício dos antoninos, ao Calvário Novo
 
 
 
A Aula de Debuxo e Desenho acabaria por ser a origem primitiva da Academia Portuense de Belas-Artes que, em 22 de Novembro de 1836, passaria a funcionar no convento de Santo António da Cidade, a S. Lázaro.
Importa referir que, pela importância que teve para a pintura portuguesa, Francisco Vieira, portuense por nascimento, foi o expoente máximo, em Portugal, do Neoclassicismo.
Filho de um pintor de paisagens e drogueiro, tendo estudado em Lisboa e em Roma, onde adoptaria o nome de “Vieira Portuense”, passaria também pela cidade que o viu nascer, mas, adoecendo com tuberculose, viria a mudar-se para a Madeira, à procura de bons ares onde, no entanto, viria a falecer com apenas 39 anos.
Uma das suas obras mais famosas é aquela em que Filipa de Vilhena arma os filhos cavaleiros.

 
 

“D. Filipa de Vilhena armando os Filhos Cavaleiros”, 1801, Pintura a óleo sobre tela - Autor:   Vieira Portuense; Localização: Obra de uma colecção particular consumida num incêndio, em Lisboa, em 2007
 
 
 
“D. Filipa de Vilhena armando os Filhos Cavaleiros foi uma pintura a óleo sobre tela de 1801 do artista português da época do neoclassicismo Vieira Portuense (1765-1805), obra que pertenceu a uma coleção particular e que foi destruída por um incêndio em 2007.
A pintura representava o episódio histórico de Filipa de Vilhena, Condessa de Atouguia viúva, que tendo conhecimento dos preparativos que conduziram à Restauração da Independência, ter aconselhado os seus dois filhos, Jerónimo de Ataíde e Francisco Coutinho, a aderir, tendo-lhes entregado as armas, na madrugada de 1 de Dezembro de 1640, e mandando-os combater pela Pátria, dizendo-lhes que não voltassem senão vitoriosos”.
Fonte: “pt.wikipedia.org/wiki”

 
 

“Súplica de Inês de Castro”, 1802, Pintura a óleo sobre tela – Autor: Vieira Portuense; Localização: Colecção Particular




 

A Academia Real de Marinha e Comércio viria a ser, na realidade, o primeiro estabelecimento de ensino superior do Porto.
Foi criada em 29 de Julho de 1803, também na dependência da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (CGAVAD), com o objectivo principal de formar os seus futuros quadros técnicos.
Ao ser criada, a Academia Real de Marinha e Comércio absorveu duas escolas já existentes anteriormente: a Aula de Náutica e a Aula de Desenho e Debuxo.
Neste último estabelecimento era, desde 1800, professor, o pintor Vieira Portuense que, em 1803, vai ser nomeado director da Academia Real de Marinha e Comércio.
Aliás, entre 1803 e 1805, Vieira Portuense e a sua família vão ter um papel de relevo na nova instituição, entretanto, criada.
O texto que se segue dá conta do percurso de Vieira Portuense na Academia Real de Marinha e Comércio entre aqueles anos.
 
 
 
“Em Junho de 1802 iniciou as suas funções como professor da Aula de Desenho da academia portuense, embora entre Novembro desse ano e Junho do ano seguinte tivesse sido substituído pelo seu pai, Domingos Vieira. A 1 de Julho de 1803, Francisco Vieira foi nomeado director da Academia Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto.
Após a morte do pai, em 1803, os serviços que este prestava na Academia da Marinha e Comércio passaram a ser desempenhados por António José Vieira Júnior, irmão de Francisco Vieira.
O pintor adoeceu gravemente em 1805 enquanto pintava o quadro "Duarte Pacheco defendendo o passo de Cambalão em Cochim" para a Casa das Descobertas do Paço de Mafra. Procurou curar-se no Funchal, mas sem sucesso. Aqui faleceu, vítima de tuberculose, a 12 de Maio de 1805, poucos dias antes de completar 40 anos de idade”.
Fonte: “sigarra.up.pt”

 
 
Vieira Portuense foi iniciado na pintura por seu pai, Domingos Francisco Vieira. A sua família vivia, numa casa-oficina, junto da Porta do Olival, bem perto do Colégio dos Orfãos de Nossa Senhora da Graça.
 
 

Porta do Olival recriada, em desenho, por Gouvêa Portuense (Alberto Aires de Gouveia)
 
 
 
Domingos Vieira era casado com Maria Joaquina, de cujo enlace houve três filhos: Francisco Vieira, António José e Ana Paulina.
Domingos Vieira desenvolveu o seu trabalho, principalmente, junto das ordens religiosas existentes, compreendendo a pintura, o estofamento e o douramento de talha e, ainda, com a Misericórdia do Porto, tendo dourado o altar do Ecce Homo (1767) e o retábulo de Nossa Senhora da Misericórdia (1768).
Após o falecimento de Vieira Portuense, irão passar pela docência na instituição, José Teixeira Barreto (entre 1803 e 1810, nomeado lente proprietário por carta régia de 1 de Outubro, auferindo o ordenado anual de 600 réis), Raimundo José da Costa e, mais tarde, Domingos António de Sequeira.
Para instalar a Academia Real de Marinha e Comércio, logo em 1803, foi projectado um novo edifício por José da Costa e Silva, a ser construído no local do antigo Colégio da Graça ou Colégio dos Meninos Órfãos.
Em 5 de Outubro de 1807, uma exposição de pintura esteve marcada para a Real Academia de Marinha e Comércio, cujo director da respectiva Aula de Desenho da Academia Real de Marinha e Comércio era, à data, o distinto pintor Domingos António de Sequeira (1768-1837).
Lisboeta de nascimento, em 1793, Domingos António de Sequeira foi nomeado membro da academia romana de S. Lucas, com o grau de professor. A apresentação da "Degolação de S. João Baptista" deu-lhe vantagem sobre o seu adversário Vieira Portuense, que também se encontrava em Itália.
Devido a um desgosto de amor, chega a entrar para a vida religiosa que, entretanto, abandona.
Vai ser considerado o pintor de transicção do Neoclassicismo para o Romantismo.
O texto seguinte tem como referência principal Domingos António de Sequeira.
 
 
 
 
“Em 1802, depois de deixar a vida religiosa, foi nomeado "Primeiro Pintor de Câmara e Corte" juntamente com Vieira Portuense, passando a auferir um ordenado anual de 2 contos de réis, com direito a sege oficial. Os dois artistas ficaram encarregados de dirigir os trabalhos de pintura do Palácio da Ajuda e de proporem pintores para aquela obra e para o ensino numa escola instituída junto do palácio.
(…) Após a morte de Vieira Portuense, em 1805, assumiu a direcção da Aula de Desenho e Pintura da Academia Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto, entre 1806 e 1821”.
Fonte: sigarra.up.pt
 
 
 
Com uma forte ligação à corte, será na qualidade de professor de desenho e pintura da casa real e director da Aula de Desenho e Pintura da Real Academia de Marinha e Comércio da Cidade do Porto que, em Agosto de 1807, é portador de alguns trabalhos das suas discípulas reais, que iriam ser ofertados à Real Academia, aquando da distribuição dos prémios aos seus alunos, concorrentes a uma exposição de desenho e pintura, que teve abertura em 5 de Outubro.
A história é contada por Henrique de Campos Ferreira Lima, na revista “O Tripeiro”, 3ª série, 2º ano, 15 de Julho de 1927, baseada num artigo publicado em 1862, no “Diário Mercantil do Porto”.


 
 



Sobre o texto anterior, exarado 60 anos após a realização do certame, concluem os seus autores, que a cerimónia de entrega de prémios não se realizou, porque a família real fugiu para o Brasil em 7 de Setembro, o que não é verdade, pois, de facto, essa fuga só se verificou a 27 de Novembro.
A exposição ter-se-ia realizado e as obras das Reais Artistas foram ricamente encaixilhadas e, sabe-se que, durante as invasões francesas, estiveram consignadas e preservadas na Quinta das Águas Férreas, à guarda de José de Sousa Melo.
Em 1861, as obras participaram na Exposição da Associação Industrial Portuense, mas, a partir daqui, perde-se lhes o rasto.

 
 
Parecer de 30 de Outubro de 1861, publicado no “Diário de Lisboa” de 28 de Novembro de 1861


A folha oficial do governo, a partir de 31 de Outubro de 1859, chamava-se Diário de Lisboa.
De volta à narrativa sobre a Academia Real de Marinha e Comércio, como já referido, era a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro que dirigia e administrava os trabalhos do novo estabelecimento.
A construção dos edifícios de ensino ligados à instrução pública, que costumava ser custeada com os subsídios da Câmara e pelo imposto denominado real do vinho, passou a sê-lo, a partir de 1772, pelo chamado subsídio literário.
No entanto, o projecto definitivo seria realizado, apenas, em 1807, por Carlos Amarante.
A construção do edifício iria prolongar-se por um longo período.
Para ajudar ao seu financiamento, a Junta Administrativa da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro iria lançar o Subsídio Literário, um imposto sobre cada quartilho de vinho vendido no Porto e nas áreas de jurisdição da Companhia. Contribuiria também, para aquela construção, a Câmara Municipal do Porto. A conclusão total do edifício, depois de sucessivas alterações ao projecto original, só viria a ser realizada já em 1930, altura em que o mesmo era já ocupado pela Reitoria e pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
Entretanto, na sequência da implantação definitiva do Regime Liberal em Portugal, em 1834, eram extintos os monopólios e privilégios que a Companhia Geral de Agricultura do Alto Douro mantinha, passando a Academia de Marinha e Comércio para a tutela directa do Estado.
Em 1834, devido a necessitar o edifício de reparações em virtude de bombardeamentos ocorridos durante o cerco do Porto, as aulas funcionaram no palacete do 2º visconde de Balsemão, no Largo dos Ferradores.
Em 1837, no âmbito da reforma do ensino levada a cabo por Passos Manuel, a Academia Real de Marinha e Comércio é extinta, sendo criada, em sua substituição, a Academia Politécnica do Porto. A Academia Politécnica herda o edifício, os professores e o ensino da antecessora, passando, no entanto, também a ministrar cursos de engenharia e preparatórios para os cursos da Escola do Exército.
 
 
 

Academia Real de Marinha e Comércio – Ed. J. Victória Villa Nova

 
 
Na gravura, acima, desenhada a partir da actual Praça dos Leões, observa-se uma fachada lateral da Igreja da Graça e instalações envolventes, em 1833.
 
 
 
 
Academia Politécnica do Porto e Universidade do Porto
 
 
 
Esta instituição sucedeu à Academia Real de Marinha e Comércio, e foi precursora, das actuais Faculdades de Ciências e de Engenharia da Universidade do Porto (criada em 1911).
A Academia Politécnica do Porto foi criada por decreto de 13 de Janeiro de 1837, em substituição à Academia Real de Marinha e Comércio, extinta pelo mesmo decreto.
Tendo existido de 1837 a 1911, foi um estabelecimento de ensino superior técnico criado pelo governo de Passos Manuel, com o "fim de plantar no país as ciências industriais". A sua localização na cidade do Porto foi justificada considerando que "a populosa e rica cidade do Porto é a localidade mais apropriada pelo seu extenso comércio e outras muitas circunstâncias".
Não estando dotada das instalações necessárias, nem sendo de imediato criadas as cadeiras, isto é os lugares docentes, de que carecia, a Academia Politécnica do Porto teve um arranque lento e difícil. Também não foi alheio a estas dificuldades o não se querer admitir que a nova instituição tivesse um carácter universitário, privilégio então exclusivo da Universidade de Coimbra.
 
 
 

Construção da Politécnica – Ed. J. Victória Villa Nova
 
 
 
Na gravura, acima, pode ver-se a fachada principal (a poente), do Colégio dos Orfãos (voltada para a actual Praça Parada Leitão), e as obras para a construção da Academia Politécnica em 1833.
A sobrevivência da Politécnica passou, muitas vezes, pelo concurso do Município do Porto e de outras instituições portuenses, particularmente, para resolver a crónica inadequação das instalações, já o que o edifício próprio, só muito mais tarde se materializou.
Esta academia tinha como missão formar engenheiros civis e militares, de todas as classes, tais como de minas, pontes, estradas, construções, e outros domínios, assim como condutores de construções, oficiais da marinha, comerciantes, agricultores, pilotos, directores de fábricas e, em geral, artistas.
Para este ambicioso projecto são criados laboratórios industriais, de química e física, oficinas de maquinaria e metalurgia.
O ensino da engenharia tornou-se no principal núcleo de ensino da Academia, podendo, por isso, ser considerada a primeira escola civil de engenharia do pais .
Eram estabelecidos  4 tipos de engenheiros: Engenheiros de mina; Engenheiros de pontes e estradas; Engenheiros construtores de navios; Engenheiros geógrafos (este curso foi suprimido em 1885).
Para todos estes cursos, assim como para os demais da Academia, eram estabelecidas 11 cadeiras ficando, ainda, estabelecido, que os cursos teriam uma duração não inferior a cinco anos.
Os currícula destes cursos estavam todos subordinados às mesmas concepções: a unidade subjacente às diferentes ciências devia traduzir-se na criação de um tronco comum de saberes, vivificados pelo estudo experimental nos laboratórios de química, gabinetes de máquinas, de história natural, no jardim botânico, nas oficinas de metalurgia, e no observatório astronómico.
“Não temos pois um ensino especializado, mas conjuntos de saberes com algumas dominantes”.
Assim, no curso de engenharia  de minas encontramos cadeiras de zoologia, botânica, e o engenheiro de pontes e estradas estuda zoologia, botânica, astronomia...
 
 
 

Academia Politécnica em 1866 (fachada a sul), voltada para a Cordoaria
 
 
 
Apesar de todas as atribulações de percurso, os cursos de engenharia foram-se sempre reforçando.
Em 1868, era criada a cadeira de Mecânica Aplicada às Construções Civis, com dois anos de duração. Em 1869, reforça-se a componente matemática.
Contudo, por volta de 1880, subiam de tom já as críticas em relação ao ensino ministrado. Ele era demasiado teórico. Na sessão inaugural do ano lectivo de 1880/81, o então conselheiro director, referindo-se ao ensino prático da Academia, afirmava:
"Nos nossos estabelecimentos de instrução superior tem sido, até há pouco tempo, o ensino eivado desta grande falta -- muita teoria e quase só teoria".
O assunto era comum a todos os outros estabelecimentos de ensino da altura.
Em 1885, processa-se a mais importante reforma deste ensino. Os cursos, tal como as cadeiras estavam desfasadas dos progressos científicos e técnicos do tempo, o ensino prático não tinha tido qualquer importância especial.  A Nova Reforma aumenta de 11 para 18 as cadeiras da Academia, reestrutura os seus conteúdos, suprime cursos e reforça o ensino da engenharia, embora haja suprimido o de Engenheiros Geógrafos.
Na Academia passavam a existir, agora, apenas três cursos de engenharia, correspondentes às principais áreas de actividade do norte do país: Curso de engenheiros Civis de Obras Públicas; Curso de engenheiros Civis de Minas; Curso de engenheiros Civis Industriais.
A duração destes cursos foi, então, fixada em seis anos, sendo quatro de preparação (ciências matemáticas, físico-química, etc), e dois de aplicação. Adoptava-se um modelo de ensino inspirado nas escolas Belgas de engenharia, e na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
A Nova Reforma atribuiu um decisivo impulso ao ensino prático e, nesse sentido, reforçou a importância dos Gabinetes, Laboratórios, do Jardim Botânico e do Observatório Astronómico.
O ensino para Directores de Fábricas e Artistas foi suprimido em 1885, bem como o Ensino de Agricultura e o Ensino de Pilotos.
Por outro lado, no que dizia respeito ao comércio, na Academia Politécnica do Porto, herdeira da antiga Academia Real da Marinha e Comercio, continuou-se o seu ensino, com o ministrar do antigo Curso de Comercialistas, com três anos de duração.
Nesse curso, a única cadeira comercial tratava de "Comércio, Geografia Comercial e Economia Industrial".
Este curso foi suprimido em 1897, quando esta cadeira foi substituída pela de Tecnologia Industrial.
Aliás, anos antes, em 1857, a 15 de Julho, tinha sido criada uma nova cadeira integrada nesta área e que versava "Economia Política e Princípios de Direito Comercial e Administrativo", com a duração de dois anos, e dividida em cinco partes: 1. Economia Politica. 2.Economia e Legislação Rural; 3. Economia e Legislação Industrial; 4. Princípios Administrativos e Direito Administrativo; 5. Princípios de Direito Comercial.
Na Reforma de 1885, os cursos  preparatórios para o exército e a marinha e outros cursos superiores, tinham a seguinte duração ou estruturação: Escola do Exército (4 anos); Escola Naval (3 anos); Escolas Médico- Cirúrgicas (5 cadeiras); Escola de Farmácia (3 cadeiras). Em 1895, os preparatórios para a Escola do exército foram de novo reformados.
Em 1901, são criadas novas cadeiras, a de físico-matemática,  e a de mineralogia, acentuando, assim, a vertente das ciências fundamentais na Academia.
Com a implantação da República, a Academia desdobra-se na Faculdade de Ciências do Porto e na Faculdade Técnica, que funcionava em anexo.
O ensino que ministrava foi evoluindo ao longo dos anos, sendo reformulado, por diversas vezes, num processo em que o Conselho Académico da instituição foi em geral liderante. A última grande reforma do ensino implantada na Academia Politécnica do Porto foi decretada em 1885, e revista em 1893, 1895 e 1897, ano em que, surgiu pela primeira vez no país o ensino da Electrotecnia, incluída na cadeira de Tecnologia Industrial do curso de Engenheiros Civis Industriais.
Com a criação, em 1911, da Universidade do Porto (uma das primeiras grandes reformas da Primeira República Portuguesa), a Academia Politécnica do Porto ficou anexa à nova instituição, constituindo, na sua maior parte, a Escola de Engenharia, por sua vez, anexa à Faculdade de Ciências da nova Universidade, sendo, nela, totalmente integrada em 1915.

domingo, 18 de junho de 2023

25.195 Visita da rainha D. Maria II, ao Porto, em 1852

 
Em 1852, D. Maria II encetaria uma visita ao Norte do País, começada em 15 de Abril, em Lisboa.
Assim, a comitiva que acompanhava o séquito real começou essa viagem em 15 de Abril de 1852, em direcção a Vila Franca, a bordo do vapor “Terceira” (esteve ao serviço da Real Marinha desde 1836 a 1856), tendo seguido depois, em carruagem, para a Ota, onde pernoitou.
No dia 16, chegou às Caldas da Rainha; a 18, estava em Alcobaça; a 20, em Leiria; a 21, em Pombal; a 22, em Condeixa; a 23, em Coimbra, seguindo-se Buçaco, Águeda e Albergaria e, por fim, o Porto, com entrada a 29 de Abril, um Sábado, tendo por cá ficado até ao dia 5 de Maio, quando a comitiva real rumou ao Minho.
Antes da chegada à cidade invicta, aquela comitiva pernoitou nos Carvalhos, onde as autoridades portuenses e da região se deslocaram para integrarem a caravana nas últimas léguas da jornada, com a chegada à margem esquerda do rio Douro a fazer-se pela Rua Direita (actual Rua Cândido dos Reis).



Após quase setenta anos sobre a visita de D. Maria II, a Rua Direita, na confluência com a Rua do Conselheiro Veloso da Cruz, vendo-se, à direita, a casa de António Teixeira Lopes, mais tarde, a sua Casa-Museu



Dos preparativos realizados no Porto, da chegada real e da sua passagem pelo Minho, nos haveria de deixar rico testemunho o escritor Júlio Dinis, na sua obra "Serões da Província", no conto "Justiça de sua Majestade".
À data da visita real, Júlio Dinis tinha 13 anos e aquela obra é publicada cerca de dez anos depois, em fascículos, no "Jornal do Porto". No entanto, comparando com os factos narrados pelos periódicos de então, o escritor revela-se muito factual.


(…) no centro da Praça de D. Pedro terminava-se um obelisco, diversamente comentado pelos cadeirinhas do passeio do poente, pelos políticos do sul, pelos vigias e empregados municipais do norte, e do lado do nascente pelos grupos de elegantes, e literatos, que então estacionavam nas imediações do Guichard, aquele café que há de merecer uma menção honrosa na história da literatura portuense, se alguém se lembrar de a escrever um dia.
Júlio Dinis, In Serões da Província; Conto: A Justiça de Sua Majestade



Obelisco provisório instalado na Praça D. Pedro



Ao Porto, depois dessa deambulação pelo norte do País, haveria D. Maria II de voltar, aquando do retorno a Lisboa.
A rainha fazia-se acompanhar do rei consorte, D. Fernando II e dos príncipes que seriam, mais tarde, os reis D. Pedro e D. Luís.
O Presidente da Câmara do Porto era, à data, José António de Sousa Basto.
Chegada a comitiva real à margem esquerda do rio Douro, segundo Júlio Dinis, o atravessamento do rio é feito num escaler, desconhecendo-se a razão de não ter sido usada a ponte pênsil.
Na Ribeira, a rainha receberia, num palanque montado para o efeito, as boas-vindas.
A recepção à rainha continuou de acordo com a programação traçada, e depois do beija-mão inicial no Paço dos Carrancas, destacam-se, em resumo,  as visitas feitas ao Palácio de Entre-Quintas, onde tinha falecido há três anos atrás o Rei Carlos Alberto, ao Castelo da Foz, à Escola Médico-Cirúrgica, à Academia Politécnica, ao Museu, à Feitoria Inglesa, a vários estabelecimentos comerciais e fabris e, marcando ainda presença, no habitual baile de gala na Assembleia Portuense.
A Academia Politécnica viria, também, a receber a rainha D. Maria II, durante a qual, não perdeu a oportunidade, o professor de Matemática Joaquim Torcato Álvares Ribeiro, de lhe recordar a falta que faziam os laboratórios práticos e os prejuízos causados pela paragem das obras no edifico, decorrente da apropriação pelo Tesouro Nacional da dotação feita por D. João VI.
Na preparação da visita real à Academia tinha sido pela 1ª vez decidido pelo Conselho Académico, os lentes apresentarem-se de “casacas, coletes e calças pretas, sapatos e meias de seda preta e lenço branco ao pescoço”.
Na sequência da visita real foi ainda projectado um obelisco a erigir na Praça de Dom Pedro da autoria de Luís Augusto de Parada e Silva Leitão.
Detalhando, no dia seguinte, após a chegada, os monarcas convidaram muitas personalidades para jantar, entre as quais o visconde de Terena, conde Ferreira, visconde de Oliveira, visconde de Gouveia, visconde de Podentes, barão de Ancede, Pessanha, presidente da Relação, Passos José, Matos, Martins da Costa, Norton e Silva Amaral, João Elias da Costa, Manuel Castro Pereira, e general Ferreira.
Os monarcas visitariam, durante a sua estadia, o Hospital Real de Santo António, da Misericórdia do Porto, a Roda dos Expostos, na Cordoaria e o Museu. Estiveram ainda presentes nos bailes da Assembleia e da Feitoria.
Visitaram, igualmente, fábricas e, entre essas, a Fábrica de Tecidos de Manuel Joaquim, ao Carregal, a Fábrica do Bicalho, onde foram recebidos pelos directores Hargreaves e Mesnier e a Fábrica de Jacinto da Silva Pereira.
Manuel Joaquim Machado, proprietário da fábrica de tecidos, ao Carregal, era, à data, talvez, o industrial têxtil mais considerado da época, dando trabalho a 437 operários, sendo ainda um dos mais activos no associativismo industrial, fundador tanto da Associação Industrial do Porto como da Associação Industrial Portuense e tendo já estado presente na primeira tentativa associativa que, desde 1838, procurava a legalização da associação do sector.
A comitiva real visitaria, ainda, a Fábrica de Oleados de Domingos José da Fonseca Pascoal, na Rua das Fontainhas, a de Sedas do sr. Barbosa, a do sr. Raimundo, estabelecida ao cimo da Calçada do Luciano, hoje, a Rua da Escola Normal e a do sr. Silva, na Boavista.
No dia 1 de Maio, os monarcas visitaram a quinta da baronesa de Vilar e o jardim da marquesa de Terena e, ainda, deram beija-mão, no Paço.
No dia 3 de Maio, a visita foi ao palácio do barão do Bolhão, a que se seguiria, no fim da jornada, o baile na Feitoria.
A notícia destas visitas teria sido publicada em vários jornais.
A seguir se dá conta de uma delas na qual o periódico da capital “A Revolução de Setembro”, de 10 de Maio, transcreve uma outra, saída no portuense jornal “O Braz Tizana”, em 4 de Maio.
Refere-se à visita real ao palácio do barão do Bolhão.
 
 
 
 
In “A Revolução de Setembro”
 
 
 
A 5 de Maio, os reis, finalmente, lá seguiram para o Minho.
O jornal “ A Revolução de Setembro” transcreveria, alguns dias depois, o que tinha sido escrito no jornal “O Nacional” sobre a partida da comitiva real para o Minho.

 
 
“A Revolução de Setembro” de 11 de Maio de 1852

 
 
Por sua vez, o brasileiro “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro, de 11 de Junho de 1852, referia que na viagem para o Minho, a comitiva tinha almoçado, a convite do município da Maia, no Castedo, a sua sede de concelho desde a reorganização administrativa de 1836. A importância do sítio advinha de se encontrar à face da estrada Porto – Braga.
O Castedo é, hoje, Castêlo da Maia, sim, castêlo e não castelo, pois uma tal fortaleza existiu, de facto, para as bandas de Águas Santas. Por aqui, poderá ter existido, quando muito, uma torre de vigia.
Naquele almoço, teria sido servido um prato de lampreia.
 
 
“As dez horas chegaram ao Castedo no meio de povo imenso. A câmara recebeu SS. MM. e AA. debaixo do pálio, e conduziu a rainha, el-rei e os príncipes à sala do almoço. A rainha gostou muito da lampreia que lhe apresentaram, e a câmara anunciou com ênfase que por três vezes reformou a mesa das pessoas que acompanhavam SS. MM. o que denuncia fome canina servindo[?] a profusão dos nossos banquetes provincianos.”



Acontece que aquele dia, 5 de Maio de 1852, fora escolhido para inaugurar as carreiras de diligências entre o Porto e Vila Nova de Famalicão pela Companhia de Viação Portuense que, no entanto, não tinha ainda construído a ponte pênsil da Trofa. Por esta razão, a comitiva real teve que fazer o atravessamento do rio Ave, na famosa Barca da Trofa, antes da chegada a Vila Nova de Famalicão e ao fim da jornada.
Vila Nova de Famalicão tinha sido elevada a vila, por D. Maria II, em 1841.
Segundo Júlio Dinis, os soberanos ficam alojados em casa de familiares do Exmo. Sr. António Emílio Brandão.
De seu nome completo, António Emílio Correia de Sá Brandão (1821-1909) era filho de José Maria Brandão de Melo Cogominho Correia Pereira de Lacerda e Maria Emília Jácome Correia de Sá, 2.ª condessa de Terena, 2.ª viscondessa de São Gil de Perre e casado com Carlota Inês O'Neill.


 
Nesta casa, na Rua Direita, em Vila Nova de Famalicão, ficaram alojados D. Maria II, o rei consorte e os príncipes, em 5 de Maio de 1852 – Fonte: Google maps


Passados dois dias sobre a partida da cidade do Porto e tendo a urbe voltado já ao seu quotidiano habitual, os telégrafos informam que, na noite anterior, pelas onze horas, tinha deflagrado um incêndio na residência onde se alojavam os monarcas, em Barcelos, tendo a rainha escapado em trajes menores e o rei em ceroulas e descalço.
A Casa da Nogueira, assim se chamava a residência referida, ardeu por completo tendo, porém, sido possível salvar o recheio.
Ana Joaquina da Silveira era, à data, senhora da Casa da Nogueira (nela faleceu em 1858) e viúva (desde 1828) do negociante e procurador camarário, José Simões Gomes, o fundador da casa em 1816.
A comitiva real iria então ser alojada numa outra residência daquele que, um ano depois, mercê da sua hospitalidade, haveria de ser o barão da Retorta.

 
 
 

Casa da Nogueira, em Barcelos

 
 


Casa do barão da Retorta, no Largo José Novais (antigo Largo da Cadeia), em Barcelos
 
 
 
 
Prosseguindo o seu périplo, em 8 de Maio, a comitiva já estava por Viana que, por decisão da soberana, se tinha passado a designar por Viana do Castelo, desde 1848.
Seguir-se-iam na visita, Braga e Guimarães. A vila do Gerês seria retirada do itinerário, devido à má qualidade das estradas, e na caminhada de regresso a comitiva real ainda pernoitou em Barcelos, em casa de José Vilas Boas, um deputado barcelense e um conhecido miguelista tendo, para o efeito, desempenhado um papel de intermediação decisivo o Duque de Saldanha. Diz-se que os monarcas ficaram admirados pela opulência exibida pelo anfitrião.
No ano seguinte, desde o exílio, D. Miguel atribuía a José Vilas Boas o título de conde de Alvelos.
Consta que, em Barcelos, a monarca foi também agraciada com os doces da então Confeitaria Confiança que, mais tarde, cerca de 1880, passaria a ser a Confeitaria Salvação.
Este estabelecimento fundado por Joaquim Domingos Duarte em 1830 teria, depois, na sua gerência um seu sobrinho de seu nome Manuel Joaquim Duarte Ferreira, que ficou conhecido por dizer aos seus clientes: "pela minha salvação que é da última fornada". Por isso, perdeu o apelido Ferreira e passou a Salvação e o estabelecimento mudaria também de nome.
Depois de muitas décadas de portas abertas, a célebre confeitaria, na década de 1990, fecharia as suas portas.
O retorno da comitiva real a Lisboa, passaria pela cidade do Porto e  aconteceu entre 18 e 22 de Maio de 1852.
A entrada na cidade do Porto foi antecedida por uma visita real ao Concelho de Valongo.

 
 
“O Diário do Governo, do dia 24 de maio de 1852, na primeira página, publica uma carta do Governador Civil do Porto, Visconde de Podentes, dirigida ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, relativamente à visita que a Comitiva Real (Rainha D. Maria II, seu marido com o título de Rei, D. Fernando II, e os príncipes, que, mais tarde, viriam a ser reis de Portugal, D. Pedro e D. Luís) fez ao Norte do Reino, e onde se faz referência ao almoço que foi oferecido a Suas Majestades, nesta cidade, no lugar da Travagem, por parte da Câmara de Valongo em forma de gratidão pela criação do novo concelho de Valongo.”
“avozdeermesinde.com”
 
 
A seguir se dá conta de teor da carta do Governador Civil do Porto a propósito da passagem real por Valongo.
 
 
«Governo Civil do Districto do Porto / Ill.mo e Ex.mo Sr.
Tenho a honra de participar a V. Ex.ª, que tendo Suas Magestades e Altezas saído hoje de Santo Thyrso ás oito horas da manhã, e tendo-se dignado acceitar um bem servido almoço que tinha feito preparar, e lhes ofereceu na ponte da Travage a Camara de Vallango, a sua entrada se verificou nesta cidade pelas duas horas da tarde, dirigindo-se Suas Magestades á Real capella de Nossa Senhora da Lapa, aonde assistiram a um solemne e pomposo Te-Deum, preparado e dirigido pela irmandade da mesma capella, no qual celebrou S. Ex.ª o Bispo da diocese. (...) / Deos guarde a V. Ex.ª / Porto 18 de Maio de 1852, ás quatro horas da tarde. = Ill.mo e Ex.mo Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães, Ministro e Secretario de Estado dos negocios do Reino. = Governador civil, Visconde de Podentes».
 
 
Aproveitando a presença da Rainha, e quando o protocolo já se mostrava completamente livre de compromissos, um grupo de senhoras da alta sociedade resolveu dar uma festa, na Quinta das Águas Férreas, programando-a para a ante-véspera do dia de retorno dos monarcas e respectiva comitiva a Lisboa.
 
 
 

Palacete da Quinta das Águas Férreas
 
 
Sobre esta festa, fala-nos também um texto inserido n’ O Tripeiro, Série 5, Ano 9, nº 12, com o título de  As consequências de um dia de chuva”.
 

“Em 1852, em honra da visita ao Porto da Rainha D. Maria II e de el-rei D. Fernando, a alta sociedade da cidade decide organizar uma festa elegante e original ao ar livre, sendo escolhido para tal efeito a Quinta das Águas Férreas, considerada na altura uma das mais belas do Porto. De modo a preparar tudo para a festa, terraplanou-se os terrenos e cobriu-se de saibro vermelho um campo para nele se improvisar uma esplanada. Foram contratados carpinteiros para construir barracas para os fornos e para as cozinhas ao longo dos muros de Cedofeita. Levan­taram-se vários tablados e construiu-se um imenso pavilhão quadrado, coberto com um toldo, para dançar e proteger do sol, sendo as mesas para o almoço colocadas debaixo das laranjeiras. Infelizmente a festa não terminou nas melhores condições, devido à intensa chuva que nes­se dia se fez sentir”. 
 
 
A comissão organizadora da festa era constituída pela Marquesa de Terena, Condessa de Terena, Viscondessa de Alpendurada, Viscondessa de Balsemão, Viscondessa de Castro Silva, Baronesa de Ancêde, Baronesa do Bolhão, Maria Ermelinda Woodhouse e muitas outras senhoras da alta sociedade, tendo como adjuntos António Bernardo de Brito e Cunha, Francisco de Oliveira Chamiço, Ricardo de Clamouse Brown, José Pedro Barros Lima e mais uns quantos.
Quem não esteve pelos ajustes, foi o S. Pedro. Foi água até dizer basta. E, lá se perderia uma oportunidade, para as meninas casadoiras serem apresentadas na corte. 
O Palácio das Águas Férreas, após várias utilizações ao longo dos anos está, hoje, na posse da Direcção Geral dos Serviços Prisionais.
 
 
 
Palácio das Águas Férreas, na Rua do Melo, nº 5 - Fonte: Google maps



Por seu lado, o rei consorte, D. Fernando II recebia, nos últimos momentos da estadia no Porto, no Palácio dos Carrancas, alguns pintores.
Entre outros, foi o monarca visitado por João Eduardo Malheiro, um pintor de quem se esperava muito sucesso, conforme narra notícia abaixo.
 
 
“O snr. João Eduardo Malheiro obteve a honra de ser apresentado a S. M. El-Rei, para lhe oferecer as seguintes obras do seu pincel e curiosidade.
Dois quadros de costumes do Minho em ricos caixilhos, e uma figura de três palmos de altura – verdadeiro modelo duma vareira, tanto nas formas do corpo como no vestuário, que era todo de fazendas próprias do costume.
S. M. vocalmente lhe dirigiu muitos elogios, e ontem lhe mandou em testemunho do seu Real apreço uma rica abotoadura de ouro para colete pelo seu ajudante e exm.º barão da Foz. O snr. Malheiro é nosso patrício, e como tal faz honra à cidade invicta.”
In “O Jornal do Povo”, de 22 de Maio de 1852

 
 
João Eduardo Malheiro, com formação adquirida em Itália, dada a impossibilidade de viver apenas da pintura, após a situação narrada esteve, praticamente, inactivo, vivendo do salário que obtinha do seu emprego na alfândega do Porto.
Apareceria publicamente, após quase dez anos, concorrendo à Exposição Industrial Portuense, em 1861, realizada entre Agosto e Setembro, na qual a curiosidade maior era uma enorme máquina a vapor da Fundição de Massarelos e uma outra hidráulica produzida na fundição do Bicalho, e onde os visitantes poderiam também encontrar produtos  químicos  e  farmacêuticos,  fazendas,  sabonetes,  móveis,  vestuário,  ourivesaria, cristais, cerâmica, etc., além de esculturas, pinturas e fotografias.
João Eduardo Malheiro obteria uma medalha de 2ª classe.
Apresentar-se-ia, depois, João Eduardo Malheiro, na 1ª Exposição Internacional do Porto, em 1865, aquando da inauguração do Palácio de Cristal, tendo recebido um grande elogio do pintor Francisco José Resende e ganhou uma Menção Honrosa.
 
 
“O snr. Malheiro tendo deixado de ser artista de profissão há muitos anos, ainda consagra à arte o mesmo amor e dedicação dos tempos passados: só uma bela alma como possui, alma de verdadeiro artista, lhe daria coragem para aproveitar os curtos instantes que lhe restam dos seus trabalhos quotidianos, empregando-os na pintura. É digno de verdadeira estima um cavalheiro tão inteligente e modesto.”
Francisco José Resende

 
 
Em 1867, Malheiro voltaria ao Palácio de Cristal, apresentando seis paisagens, mas não obteria qualquer reconhecimento neste certame.
Em 1877, apresenta três quadros, durante a Exposição Hortícola realizada no Palácio de Cristal.
Após este ano, a vida do pintor é eclipsada, desconhecendo-se a data do seu falecimento e actividade artística deste pintor amador (impossibilitado de viver exclusivamente da pintura), embora se saiba que, na primeira metade da década de 1880, ainda procedia a obras num seu prédio da Rua de Santa Catarina.
Nascido no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, a 24 de Junho de 1821, cursou Filosofia, em Coimbra, e, em meados da década de 1840, partiu para Roma e Veneza, aí fazendo estudos de pintura.
Regressou em 1847, ao Porto, e em Outubro de 1848, apresentou alguns trabalhos na Exposição da Academia Portuense de Belas-Artes, instituição fundada em 1836.

 
 
“Os dados conhecidos sobre a vida e obra de João Eduardo Malheiro são hoje muito escassos, mas, simultaneamente, bastante significativos. O estudo deste homem transporta-nos ao mundo dos pintores amadores dos meados do século XIX, universo muito peculiar, já que não se limitava a autores de segundo plano, mas envolvia nomes sonantes do nosso Romantismo. Por exemplo, Leonel Marques Pereira era militar de carreira, Isaías Newton trabalhava nos caminhos de ferro, Luís Ascêncio Tomasini comandava navios e Manuel Maria Bordalo Pinheiro era oficial na Secretaria da Câmara dos Pares do Reino.”
Cortesia de António Mourato - Breves apontamentos para a biografia do pintor João Eduardo Malheiro

 
 

Paisagem (assinatura e data no canto inferior esquerdo), n.º inv. 254 Pin CMP/MNSR; Óleo sobre tela (35,8x51,6), 1867. Proveniente da doacção Osório e à guarda do Museu Nacional Soares dos Reis