Mostrar mensagens com a etiqueta Marco Pombalino. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marco Pombalino. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

(Conclusão) - Actualização em 31/01/2020 e 22/01/2021


Delfim Ferreira. Um capitalista com rectaguarda familiar


A actividade hoteleira era para Delfim Ferreira (Riba-d’Ave, 1888 – Porto, 1960) uma gota de água num imenso oceano e, nestas águas, vogava o sector energético que, para além da pioneira indústria têxtil, compreendia muitas outras que foi abraçando ao longo da sua vida.
Delfim Ferreira foi educado na Escola Real e Imperial de Reichenberg. Casou em 1915 com Sílvia de Faria Gomes Ferreira de cujo enlace resultaram os filhos: Maria de Lourdes, Maria Alice, Maria Sílvia e Delfim Alexandre.
A actividade profissional percorrida por Delfim Ferreira tinha raízes familiares no trajecto de vida do seu pai, Narciso Ferreira que, depois de ter começado como tecelão (actividade de cariz familiar), foi abraçando outros empreendimentos menores no sector têxtil, até que viria a constituir uma sociedade em 1894, com o empresário Manuel Joaquim Oliveira, o banqueiro José Augusto Dias, o engenheiro Ortigão Sampaio e com o proprietário José Fernandes, legalizada por escritura em 1896, denominando-se Sampaio Ferreira & Cia. Lda. (Riba-d’Ave, Famalicão), com duzentos teares mecânicos, alimentados pela energia de um açude construído no rio.
Mas, falar de indústria têxtil em Riba d'Ave, implica referir a pequena fábrica de lã do Barão da Trovisqueira, a Fábrica de Sant’Anna criada c. 1883/85, parecendo representar o primeiro aproveitamento hidráulico conhecido para o concelho, assentando a estrutura motora do maquinismo numa turbina.
José Francisco da Cruz Trovisqueira (1824-1898), natural de Gavião, tendo embarcado para o Rio de Janeiro, em 1834, regressou, mais tarde, tornando-se político (administrador do concelho; presidente da câmara municipal durante os mandatos 1868/69, 1870/71, 1872/73, 1874/75 e 1878/81; deputado em várias legislaturas), cacique do partido reformista e depois do progressista. Participou ainda em várias iniciativas industriais, obtendo concessões para linhas de americano (no Porto e em Coimbra) e para a via férrea em Arganil, representando a fábrica de lanifícios sobre o Ave a sua demonstração local como empreendedor, estabelecendo as óbvias conexões com a sua actividade política.
A concessão que obteve c. 1870, para construir uma linha férrea entre o Porto e Matosinhos, pelo sistema americano, foi por ele vendida, sem a ter executado.



Um Americano puxado por muares, na Praça da Batalha – Cortesia: STCP




“Sampaio & Ferreira”, actualmente desactivada – Fonte: jornal “O Minho”



Voltando à família Ferreira, em 1905, Narciso Ferreira (07 /07/1862 – 23/03/1933) fundaria a “Empresa Têxtil Eléctrica, Lda.” (Bairros, Famalicão), concebida desde o início para utilização da electricidade, produzida a partir de uma pequena central instalada no Ave.
O seu objecto era o de "exploração da indústria de fiação e tecelagem de algodão e de electricidade, e quaisquer outros ramos inerentes.
É, no médio Ave, na zona da confluência do rio Vizela com o rio Ave, que se regista um primeiro núcleo de centrais hidroeléctricas (centrais de Amieiro Galego, do Bairro, da Têxtil Eléctrica e de Caniços), resultando daí um maior dinamismo na relação com os cursos de água existentes. Para além de estarmos na presença de centrais ligadas às principais unidades industriais associadas ao têxtil, são também aquelas que atingem ou atingiram maior dimensão empresarial.
Outra grande fábrica (do grupo empresarial) seria montada por Narciso Ferreira, a “Oliveira Ferreira & Cia. Lda.”, criada em Riba de Ave em 1909.
Em sequência, em 1909, Narciso Ferreira electrificou as suas duas outras empresas de Riba d'Ave - a “Sampaio & Ferreira” e a “Oliveira & Ferreira”, erguendo, para isso, a Central de Amieiro Galego, no rio Ave.
Esta central começa a funcionar em 1909 e permitiu o trabalho por turnos, e electrificar a freguesia de Riba d'Ave que, por essa razão, foi uma das poucas do concelho a dispor de energia eléctrica para consumo doméstico.
O fornecimento energético ao complexo industrial (em censo de 1928 tinha no total, 1400 trabalhadores), e o consumo doméstico viria a ser reforçado, pela exploração da central do Varosa, da “Companhia Hidro-Eléctrica do Varosa”, concessionada em 1907 e construída para iluminação da Régua e de Lamego.
Esta central energética foi sendo transformada, desde 1918, pelo grupo empresarial de Narciso Ferreira, que faz chegar a energia ao Vale do Ave, proveniente do Varosa, reforçando-a com o funcionamento da Central Termoeléctrica de Caniços (Bairro) e, a partir de 1925, a energia chega ao Porto, por concessão de uma linha de abastecimento a partir da barragem do rio Varosa e da sua Central do Chocalho.


Central de Caniços da Empresa Têxtil Eléctrica, Lda., em Bairro - Fonte: Câmara Municipal de Famalicão



Note-se que, a Barragem do Lindoso, determinante para a região Norte, apesar de concessionada em 1907, só começaria a funcionar em 1922, fornecendo energia para Porto, Gaia e Braga.



Barragem de Varosa, em Lamego – Cortesia de Vítor Oliveira


Narciso Ferreira também montou e organizou, já com a ajuda dos seus filhos, a “Fábrica de Fiação e Tecidos (Ferreira & Irmão, 1924)” de Vila de Conde e a “Empresa Têxtil Algodoeira de Arcozelo”,  em V. N. de Gaia.
Porém, entre os seus filhos, na condução dos negócios, a herança do comando de Narciso Ferreira (falecido em 1933), vai para o filho Delfim Ferreira que, face ao eclipsar natural de Narciso Ferreira, vai lançar outros projectos, em diferentes áreas.
Assim, Delfim Ferreira terá um papel fundamental no fabrico de seda artificial, em Portugal, com a criação, em 1930, da “Empresa Nacional de Sedas” (sedeada em V. N. de Gaia, Arcozelo, Aguda) e, em 1951, funda a “Sociedade Industrial do Mindelo”, em Vila do Conde.
A grande capacidade de inovação industrial revelada por Delfim Ferreira foi reconhecida, a nível nacional, tendo o Governo convidado o industrial a aproveitar as águas do rio Ave, nascendo então a Companhia Hidro-Eléctrica de Portugal”, apoiada na Barragem do Ermal (funcionando por gravidade) e na sua Central de Guilhofrei, com funcionamento a partir de 1938.



Barragem do Ermal e albufeira – Fonte: “portugalfotografiaaerea.blogspot.com”


Pela associação em 1943 da “Companhia Hidro-Eléctrica de Portugal” e da “Companhia Hidro-Eléctrica do Varosa” (que tinha associado as centrais eléctricas de Chocalho e do Caniço) resultaria o aparecimento da “CHENOP” – “Companhia Hidro-Eléctrica do Norte de Portugal que, tendo sido nacionalizada em 1975, ficou sob a alçada da EDP.
Em 1953, e novamente a convite do Governo, Delfim Ferreira explorou as águas do rio Douro, dando origem à “Hidroeléctrica do Douro”.
Delfim Ferreira, noutras áreas de negócio, foi ainda o responsável pela construção de grandes edifícios na Avenida António Augusto Aguiar e Sidónio Pais (em Lisboa) e na Rua Sá da Bandeira (Porto).
Entre todos eles, destaca-se o Palácio do Comércio (na parte nova da Rua Sá da Bandeira) projectado em 1944, pelos arquitectos David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva Martins (respectivamente genro e filha do arquitecto Marques da Silva).
A escultura “O Triunfo da Indústria”, que assenta na sua platibanda, é da autoria de Henrique Moreira.



Palácio do Comércio – Fonte: Fundação Marques da Silva (“arquivoatom.up.pt/”)


Outra área que Delfim Ferreira explorou, foi a da produção vinícola, nomeadamente a ligada ao vinho do Porto, tendo criado, nas suas explorações vinhateiras, no Douro, novos métodos de produção vinícola e de arroteamento, nomeadamente nas suas propriedades de “Quinta dos Frades” (Armamar) e “Quinta do Castelo” (Santa Marta de Penaguião).

“A Quinta dos Frades, primitivamente designada de Quinta da Folgosa, como é referida nos documentos mais antigos, localiza-se na freguesia da Folgosa, concelho de Armamar. As suas origens remontam ao século XIII, tendo sido doada aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas em 1256, como comprovam os dois Brasões da Congregação Autónoma dos Cistercienses de São Bernardo de Alcobaça que a quinta possui. Foi uma das mais ricas e produtivas quintas deste Mosteiro.
(…) Com a extinção das Ordens religiosas e dos seus mosteiros em 1834, como foi o caso do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, ao qual pertencia a Quinta dos Frades, os bens destes mosteiros foram inventariados e colocados à venda em hasta pública. A Quinta dos Frades, acabaria por ser arrematada a 6 de Novembro de 1841 pelo 1º barão da Folgosa, Jerónimo de Almeida Brandão e Souza, mantendo-se na posse dos seus herdeiros, sua filha e marido (Conde da Folgosa) até 1941.
Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira, um importante industrial e impulsionador da economia portuguesa, adquire a Quinta dos Frades, levando a cabo um projecto de reabilitação da mesma, da autoria do arquitecto Rogério de Azevedo, também responsável pelo projecto do emblemático Hotel Infante Sagres, mandado construir por Delfim Ferreira. A quinta passava agora a estar dotada de infraestruturas modernas de produção e de lazer e Delfim Ferreira introduziu também o método de plantação das vinhas em declive livre.
Já nos anos 70 do século XX a Quinta dos Frades, vê a sua área reduzida pela construção da Barragem de Bagaúste e pelas obras de desvio da E.N. 222, tendo sido expropriada uma grande área incluindo os terrenos abaixo do solar onde estavam implantadas as vinhas mais antigas. Actualmente a quinta possui cerca de 200 hectares de área.
Após décadas a produzir para outras casas exportadoras de vinho e de um período de reestruturação, finalmente em 2008 os bisnetos de Delfim Ferreira, aproveitando as potencialidades das vinhas da quinta, iniciam um projecto de produção do primeiro vinho de mesa com a marca “Quinta dos Frades”, contando presentemente com mais marcas e uma edição especial dedicada ao Comendador Delfim Ferreira”.
Fonte: “quintadosfrades.pt”


Marco Pombalino da Quinta dos Frades



Quinta dos Frades, na Folgosa, Armamar


Delfim Ferreira morreu em 1960, na sua casa na Quinta de Serralves, que tinha adquirido nos anos 50 ao conde de Vizela.


Casa de Serralves




Conde de Riba d’Ave
 
 
Um outro filho de Narciso Ferreira, Raúl Ferreira (1895-1974) dedicou-se também ao negócio afecto à indústria têxtil.
Assim, foi sócio das empresas da família e fundador de outras, como a Raúl Ferreira, Lda. e a Fábrica de Fiação e Tecidos de Braga, Lda.
Fez a sua formação escolar no Colégio de Santa Maria, no Porto e, em 1915, casou com Maria da Glória Gomes Ribeiro.
Era irmão de Delfim Ferreira, Alfredo Ferreira, José Ferreira, Joaquim Ferreira, Manuel Carlos Ferreira, Maria Luciana Ferreira e Maria Rita Braga.
Revelou-se sempre como grande benemérito de Riba de Ave, tendo estado na fundação do Hospital de Riba de Ave, com seu pai e, depois, na construção da Igreja Paroquial e noutras obras dirigidas pela Fundação Narciso Ferreira, conjuntamente com seus irmãos. Um verdadeiro filantropo que em sequência vai ser agraciado pelo Papa Pio XII, como conde de Riba d’Ave, a 15 de Agosto de 1947, 15 de Agosto de 1947, acto posteriormente autorizado pelo Governo de Portugal que, em 30 de Junho de 1950, lhe confere o Grande Oficialato da Ordem de Benemerência.

 
 

Casa do conde de Riba d’Ave, situada em São Mateus (Oliveira) / Vila Nova de Famalicão, em 7 de Fevereiro de 2019 – Cortesia de Paulo Pereira
 
 
 
A construção da casa da foto anterior iniciou-se em 1917 e foi concluída, apenas, em 1938.
O projecto de arquitectura paisagística será da autoria do arquitecto francês Jacques Gréber, que também foi o autor dos jardins da Casa de Serralves.
Toda a obra de madeiras foi executada pela oficina “Carvalho & Cunhado, Lda”, com sede na Rua de Cedofeita, n.º 414, no Porto.


 
 
Escadaria da casa do conde de Riba d’Ave, obra em madeira de “Carvalho & Cunhado, Lda”



A firma “Carvalho & Cunhado, Lda” haveria de se transformar, na mesma morada, na "Antiqualha do Porto".









sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

(Continuação 8)

Sétima Carta do Barão de Forrester


Apesar de se não poder fazer sempre a viagem da Régua ao Pinhão num dia, eu a farei nesta carta para que a descrição se torne mais interessante.
Já disse que os rios Corgo e Barosa separam o Baixo do Cima Corgo – o rio Pinhão separa este do resto do distrito vinhateiro, que eu chamo o Alto Douro.
O Corgo, chamado Corrugo pelos romanos, nasce nas vizinhanças de Vila Pouca, passa por Vila Real, recebe as águas do Tanha ao pé da Vila da Presegueda e cai no Douro entre a Régua e Canelas.
Os rios tributários do Douro entre o Corgo e o Pinhão são o Tedo, o Távora, e o Torto.
O Távora, ou Soberbo, tem origem numa fonte de Trancoso e aumentado por diversos ribeiros e regatos, divide os dois bispados de Viseu e Lamego, passa pela Vila de Távora e o Lugar de Tabuaço e daí caminha para o Douro.
Este rio deu o seu nome à ilustre família dos Távoras, e mandou-se chamar Soberbo, depois que o último marquês daquele título padeceu ignominiosa morte no Cais da Belém a 13 de Janeiro de 1759, por alegarem ter ele parte na conjuração contra El-Rei D. José I; porém o rio é ainda vulgarmente conhecido pelo seu antigo nome.
Na marca actual do Douro, os rios Corgo, Tua, Barosa e Távora, apenas são pequenos regatos – e os rios Tedo e Torto estão secos de todo.
Há poucas propriedades nas margens do Douro, desde o Piar até à Barca d’Alva que eu não possa descrever com a mesma exactidão como se fosse seu próprio dono – porém se eu declarasse que uma grande parte do vinho oferecido à venda nas adegas mais bem situadas, indicando estas uma por uma, não é produzido dentro da demarcação da Feitoria, mas trazido de muitas léguas de distância em odres – se mencionasse os nomes daqueles que em outro tempo não se envergonhavam de declarar que não havia baga nem mixórdias no Douro, sendo eles os principais cultivadores de sabugueiros e praticantes de adulterações – se indicasse a extensão de outras propriedades mencionando o número de alqueires de centeio que levam de semeadura – se enfim eu marcasse os sítios dos mais finos vinhos brancos ou tintos, notando quem se mostra mais amigo das castas de bastardo e arvarilhão, e quem prefere as de Touriga e Souzão, dizendo só a verdade e desmascarando os maiores inimigos da prosperidade ao seu país, iria contudo ofender interesses particulares e embrulhar alguns inocentes com culpados, e por isso, por enquanto, limitar-me-ei a descrever o que como viajante vi e presenciei ou o que por muitas vezes tenho visto mas sem me ocupar com individualidades.
Ambas as margens do rio nesta extensão de 4 léguas são muito elevadas e estão cobertas de vinhas – havendo entre elas bastante azeite. Agora não se pode falar nesta propriedade, porque pertence ela a um dos actuais ministros, logo as más-línguas haviam de dizer que eu pretendia dele algum crachá.
Na Folgosa e no Pinhão costuma às vezes haver bom carneiro, mas geralmente o carneiro deste país e muito magro e rijíssimo. O pão de Lamego e Portelo é o que se gasta na Régua e Folgosa: - no Pinhão acha-se a vender pão de Provesende a Favaios. É digno de se notar que até aqui todo o pão é de trigo e milhão, e só daqui para cima é que principia a haver pão de centeio.
Numa estalagem do Pinhão onde mandei recolher três cavalos meus, por uma noute, em razão da escassez de palha e grão, custou-me a sua ração dous mil e trezentos reis.
Já tenho dito que, ainda que no Piar principiem os xistos, não há pedras no rio, (exceptuando algumas de pequena dimensão no sítio da Sermenha, Corvaceira e Salgueiral) até ao Corgo: porém há-de ser difícil acreditar que exista nos países menos civilizados rio algum que se ache em tal estado do maior abandono, com tantas pedras à vista e tão fáceis de tirar como as que actualmente existem entre o Corgo e o Pinhão.
Quantas leis e decretos se têm feito ordenando impostos para melhorar a navegação do rio e tratar das obras da barra! Desta mesma barra em que os cartagineses de Himilcão naufragaram no ano do mundo 3531. Tenho todos esses decretos na minha colecção de papéis curiosos, mas por mais diligências que tenha feito não vinte e tantos anos que conheço o rio Douro, ainda ninguém me tem podido informar do destino que se tem dado aos impostos do rio e aos da barra. É verdade que 200 reis em pipa "para as pedras" não havia de render mais do que uns vinte contos anuais; porém em 10 anos importaria em duzentos contos e com tal soma muitas e importantíssimas obras se poderiam ter feito; muito preciosas vidas se teriam salvado e grandes valores de fazendas se não haveriam perdido.
Sobre estradas achamos de bastante interesse o Alvará de 13 de Dezembro de 1788, em que a Soberana declara que "sendo plenamente informada de que havendo-se dificultado pelas ruinas em que se acham as estradas que decorrem por uma e outra parte do Alto Douro o beneficio de todos que comerceiam em vinhos daquele distrito e sendo deste inconveniente também uma das causas principais, a de não haver na longitude daquele distrito uma estrada que sirva de auxilio à navegação dos barcos que sobem e descem pelo Rio Douro, nos tempos em que a nímia abundância ou a grande falta de águas dele dificultam, a sua pronta navegação, sou servida ordenar que se construam as referidas estradas, na forma mais pronta e perfeita, de que os respectivos terrenos forem capazes etc, etc."
Tem decorrido 66 anos e as estradas ainda ficam em projecto!!!
Os arrais chamam pontos ou galeiras, aos obstáculos à navegação e em uma das minhas obras já publicadas menciono que existem tem todo o rio 210 destes pontos, todos os quais estão actualmente à vista. Os pontos do Corgo, Bagauste, Outeiro de Covelinhas, S. Martinho, Moreirinha, Seco do Ferrão, ponto novo do Ferrão, Canal de Moura, Cachucha, Chanceleiros, Oliveirinha, e Sopas ou Buxeiro, são objectos que envergonham o actual governo de Portugal, por serem estes de fácil melhoramento. Quanto ao ponto do Canal das Marcas, o seu concerto seria mais custoso.
Julgo, Srs. Redactores, que os seus dignos compatriotas não levarão a mal as impressões de que me tenho servido, filhas do vivo interesse que tomo na prosperidade deste país, escrevendo na minha barquinha estas cartas e subindo estes mesmos pontos à força de trabalho dos infelizes marinheiros, trabalho que bem podia evitar-se.

Sou de VV
J.J. Forrester



Observações:

- O rio Pinhão nasce na Fonte de São João, no lugar de Raiz do Monte da freguesia de Vreia de Jales, no concelho de Vila Pouca de Aguiar e é um afluente da margem direita do rio Douro, após um percurso de cerca de 30 km de extensão, desaguando na Vila do Pinhão. Inaugurada em 2008 a Barragem do Pinhão, instalada no curso do rio, abastece os concelhos de Vila Real, Sabrosa, Peso da Régua, Murça, Alijó, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio.
- O rio Távora tem extensão de cerca de 70 km.

De 335 marcos, o Marco Pombalino nº 7 da Quinta da Manuela



Vista do Pinhão a partir do miradouro de Casal de Loivos – Ed. Roteiro do Douro

Barco rabelo navegando no rio Douro, com vista para a cidade da Régua em 1900

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

(Continuação 6)

Quinta Carta do Barão de Forrester - 25 de Setembro


Desde Porto Manso até o Ponto do Piar, distante cerca de três léguas, o rio actual passa entre rochedos e altas penedias.
Na margem direita há os insignificantes povos de Lugar das Vendas, Mirão, Porto do Rei e a Vila de Barqueiros; na margem oposta apenas há o povo das Caldas de Aregos e algumas casas defronte de Mirão, Porto de Rei &c.
Vê-se a cultura em alguns intervalos, porém com imenso custo em razão da natureza do terreno.
Depois da demolição das azenhas, tem-se estabelecido moinhos em barcas sobre alguns pontos do rio, mas apesar dos ventos soprarem constantemente, não há moinho de vento algum desde S. João da Foz até à raia!
Logo acima do Portozelo, por exemplo no ribeiro de Cabrão, sítio lindíssimo e que produz azeite e algum vinho, há moinhos que, apesar da escassez geral das águas, são decerto, os melhores do rio; mas assim mesmo os habitantes precisam esperar alguns dias para lhes tocar a vez para moer o seu pão, em razão da grande concorrência dos povos vizinhos, que vêm aqui moer o seu pão trigo, bem como o milho e centeio enviado da cidade invicta de propósito para este fim.
Ora neste século de progresso, depois de recebidos no Porto os cereais da raia, com, pelo menos, 30 léguas de carretos e frete, tem estes de tornar a voltar dez léguas e três quartos de caminho para serem moídos e depois de novo conduzidos para o Porto!!!
Estávamos no cais da Rapinha, quando chegaram dous barcos, um dos quais carregado de sacas de milho e trigo vindas do Porto e conduzidas por um homem, sua mulher e filha. Trouxeram apenas três carros e meio em 20 sacas. O frete da condução do grão para cima, e para baixo, de farinha, apenas importava em sete mil reis, e por esta diminuta quantia, a família havia de gastar pelo menos 15 dias, pagando por sua conta as alagens e a algum homem para os ajudar a subir os pontos!
O segundo barco era de passagem de uma para a outra margem do rio, e logo que chegou a terra debaixo de uma salva de trovões e relâmpagos, saltou na praia um sujeito vestido de chambre de riscado e chapéu de palha, com um pau argolado, o qual se dirigiu a mim exclamando: “dê cá esses ossos!” e conheci que quem me abraçava com tanta amizade, não era outro que o distinguíssimo Ministro de Estado honorário Dias de Oliveira. Este recto juiz tendo aqui as suas terras, veio há pouco ver as obras que trás, e tendo visto do alto da sua quinta passar a minha barquinha, apareceu na forma do costume sem aparato algum nem bazófia, a oferecer-me a sua hospitalidade.
Da mesma maneira que os meus patrícios da Escócia aparecem por toda a parte, também se encontram nacionais da Galiza. Na Rapinha, neste sítio tão remoto e pouco povoado, logo que chegaram os dous barcos indicados, apareceu um galego para conduzir os sacos para o moinho, e com efeito ele só os levou. Como cada saco trazia 7 alqueires e ele tinha de o levar até ao moinho, distante uns 180 passos, fez pelo menos de ida e volta, uma légua de jornada na condução dos 20 sacos, e por este trabalho recebeu 200 réis.
As perspectivas são belíssimas nestas três léguas até o Piar; mas a cada passo há uma galeira que torna a navegação perigosíssima em toda a marca do rio. O leito está descoberto e acham-se à vista todos os obstáculos à livre navegação: as enormes pedras que em certa marca do rio estão cobertas, vêem-se-lhes agora as raízes cercadas de erva infernal e de bichinhos, como lagartos e pequenas cobras que eu nunca imaginava encontrar em semelhantes sítios.
Na ínsua da Bula é onde os rochedos apresentam uma configuração mais curiosa e pitoresca, por causa da força das correntes das águas, e aqui o rio agora (25 de Setembro) junto à lage da Bula apenas tem 40 palmos de largura e 25 a 30 de profundidade, tendo os rochedos em cada margem pelo menos 40 palmos fora de água.
Tem-se alteado e reformado o paredão da Bula – é uma bela obra esta, tão bem executada como concebida.
Não vi preparativo algum para o melhoramento do ponto de Louvagem – pois as pedras bem descobertas estão – mostrando claramente quão fácil seria a sua demolição. Bastante gente anda trabalhando no Cadão, a alargar a pequena estrada que existe na margem esquerda para a alagem dos barcos. Aqui vêem-se muitos rapazes e raparigas levando pedras e entulho em pequenas canastras à cabeça (!) e algumas pedras em terra se andam quebrando, porém nas pedras do ponto mesmo, não se tem bulido. É pois de recear que se deixe passar esta ocasião para talvez nunca mais voltar, em que o curso do rio podia tão facilmente ser temporariamente conduzido em outra direcção, enquanto se fizessem as obras necessárias, no sítio mesmo daquele ponto. No buraco do Cadão, existe uma pedra sobre a qual batem todos os barcos nesta marca do rio; - com meia dúzia de arráteis de pólvora, dentro de dous dias, podia desaparecer este obstáculo, porque agora apenas trás meio palmo de água por cima.
Igualmente na Figueira Velha não vejo andar obra alguma quando também em poucos dias e diminuta despesa, este ponto poderia melhorar-se.
Canedo em que em outros tempo tão grossas somas se gastaram – ainda nesta marca do rio restam uma pequena obra a fazer-se, que dentro de 8 dias em se podia efectuar e com mui pouca despesa e que será quase impossível logo que venham as águas.
Na Ripança andam obras para facilitar a descida dos barcos carregados quando a marca de trinta anda a descobrir e juntamente para a subida dos barcos. Esta obra não deixará de ser útil até onde ela chegar.
No Piar sentimos verdadeiro gosto por ver que finalmente se tinha tapado um dos canais neste ponto com uns poucos de sacos cheios de areia, de sorte que com a maior facilidade se podiam limpar as pedras soltas e entulho de calhau que ai se achavam depositados. Este ponto é um dos mais interessantes em todo o Douro, 1º por ser a chave das montanhas do distrito vinhateiro, e 2º por ser o único sítio em todo o rio onde se tentou fazer uma ponte de pedra. É evidente que esta ponte nunca se concluiu, ainda que, na margem esquerda existe a maior parte de uma coluna de pedra de cantaria, não há indício algum até de ter havido princípio da estrada. No Calhau da margem direita, havia há anos uma das colunas mui bem conservada e também se viam os alicerces das outras duas, porém agora estes estão cobertos de areia e a torre está quase desfeita.

Sou de VV.
J.J. Forrester

Observações:

- Vila de Barqueiros é após Santa Marinha do Zêzere e Frende.





Vista obtida a partir da estação ferroviária de Barqueiros – Fonte: Google maps




Marco Pombalino da Quinta de Piar, Barqueiros, Mesão Frio – Ed. “mesaofrio.com.pt”



Na foto acima na Quinta de Piar um dos marcos classificados como monumentos de interesse público em 1946, de demarcação da zona de Vinhos Generosos do Douro.
Aquele marco foi colocado nos terrenos de Lourenço de Azevedo, que solicitou a inclusão da sua quinta na demarcação em 1759.
Tendo sido anos mais tarde, usado com um outro na construção de um armazém, foi posteriormente recuperado e em 1941, recolocado na vinha abaixo da casa por iniciativa do então proprietário, o Eng. Luís Guedes de Paiva.