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domingo, 29 de maio de 2022

25.158 Dois palacetes icónicos

 
Vila Delfina
 

Esta residência foi encomendada pelo capitalista Afonso Dias, em 1903, e obteve a licença camarária n.º 118.
É um dos últimos trabalhos atribuídos ao engenheiro António Silva.
Delfina, a esposa de Afonso Dias, embora tenha emprestado o seu nome para o imóvel, gostava de viver na cidade, para os lados do Carmo e, quando morreu, em 1914, vivia na Rua Álvares Cabral.
A Vila Delfina sendo um projecto mais recente, que difere em três anos o referente ao Palacete de José Augusto Dias, que alguns apelidam de Palacete Coutinho, apresenta, relativamente àquele, uma inversão da posição relativa da torre e do corpo das salas.
O palacete teria passado pela posse de uma família de apelido Abecassis, durante a primeira metade do século XX.
No início do século XXI, a empresa portuense, SI Península - Gestão e Promoção Imobiliária vai edificar um condomínio privado, designado por “Jardins do Palacete”, aproveitando o palacete há muito existente.

 
 
 
 
“Na altura da sua aquisição, em 2000, por parte da SI Península, o palacete pertencia a uma família espanhola ligada a uma empresa de vinho – “Diez Hermanos” – que, por curiosidade, deixou um legado riquíssimo em vinhos seculares e com carga histórica (Brandys, Anis Jerez, Sherry, Ponche, Cidra, vinhos da Madeira e vinhos do Porto bastante antigos e de outras origens, tais como Nieport, Offley, Calém, Sandeman, Cockburns, Burmester, etc), encontrando-se, na altura, devidamente acondicionados, na adega localizada na cave do palacete. Foi nos anos 40 que Don Pablo Diez y de Isasi, ligado por laços de família e comerciais a algumas famílias aristocratas da Andaluzia, e que com ele se encontravam associados na empresa “Diez Hermanos” de Jerez de la Frontera, adquiriu o palacete “Vila Delfina”.
Hoje é um condomínio de luxo”.
Cortesia de casa.sapo.pt
 
 
 

Palacete "Vila Delfina", c.1920 e no início do século XXI
 
 
 

Vila Delfina – Cortesia de “casa.sapo.pt”
 
 
 
 
Palacete do Pinheiro Manso ou Palacete da família Gilbert
 

Aquele que ficou conhecido pelo Palacete da família Gilbert, que se situava na Avenida da Boavista, junto de um pinheiro manso, que veio a dar o nome ao lugar, foi começado a construir em 1902.
 
 
 

Palacete do Pinheiro Manso
 
 
Este palacete foi construído na quinta do Pinheiro Manso, adquirida pelo brasileiro de torna viagem José Gomes da Rocha. Nesse terreno, seria também traçada a Rua do Pinheiro Manso.
Após falecimento prematuro da mulher e, posteriormente, de uma filha a quinta foi vendida e terá sido adquirida pela família Gilbert, com ligações ao negócio do vinho do Porto, vindo ele a falecer em 1922.
Em 1906, um pedido de licença feito por Gomes da Rocha à Câmara do Porto, para alargamento de um portão do palacete, teve parecer positivo do arquitecto José Marques da Silva que, nesse ano, abandonaria essas funções, que desempenhou durante três anos, para ingressar na Academia Portuense de Belas Artes, como Professor de Arquitectura.

 
 

Palacete do Pinheiro Manso – Ed. Aurélio da Paz dos Reis
 
 
 
Aquele pinheiro que existia na quinta, à face da avenida, foi derrubado por um temporal, conhecido como "Ciclone", em 1941.

 
 

Pinheiro Manso derrubado, em 1941, pelo ciclone
 
 
 
Em 1971, a casa é finalmente demolida e aí, construído, o actual edifício da cervejaria Cufra.

 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

25.45 Um edifício icónico da arquitectura portuense que foi restaurante


Na foto abaixo observa-se uma moradia (uma jóia da arquitectura portuense), situada na Avenida de Montevideu que, após ter funcionado durante anos como um restaurante entrou, após encerramento deste, em acelarada degradação.
A moradia que foi de José Rosas Júnior e que, por isso, também ficou conhecida como o “Palacete do Rosas”, está, finalmente, em vias de ser recuperada.


Moradia na Avenida de Montevideu que chegou a alojar o “Restaurante D. Manoel” – Cortesia do blogue “Porto Sombrio”



O citado restaurante, de seu nome “D. Manoel”, fechou durante a primeira década deste século, após uma longa história vivida no sector de actividade da restauração pelo seu proprietário, Manuel Fontes, durante a 2ª metade, do século XX.
Tudo começaria, para esta personagem, por uma participação na gestão de um café junto à igreja do Bonfim – “O Nosso Café”.




“O Nosso Café” na Rua do Bonfim,363 – Fonte: Google maps


Era este café frequentado, principalmente, pelos alunos do Liceu Alexandre Herculano e pelos jovens das zonas limítrofres.
Estávamos no começo da década de 60 e a frequência do espaço era alta, pois, como complemento da sua actividade principal, na sua cave, o café tinha 3 ou 4 mesas de bilhar e uma mesa de matraquilhos.
Com olho para o negócio, Manuel Fontes vai abrir na esquina fronteira ao “Nosso Café”, um outro, de seu nome “Capa Negra” e leva consigo uma clientela já feita, de estudantes e habitantes do bairro do Bonfim e o seu irmão, Amândio.
Estávamos em 1968.


“Café Capa Negra”, na Rua de Barros Lima, 487, ao Bonfim – Fonte: Google maps


O espaço de cafetaria era de uma dezena de mesas, aconchegadas e na sua cave, lá estavam as mesas de matraquilhos, onde os estudantes se degladiavam em encontros de “perde-paga”.
Manuel Fontes e  o seu irmão Amândio veem o negócio prosperar. A meio da manhã, os rissóis saem quentinhos e os jovens devoram-nos. Ao fim-de-semana, à noite, as mesadas são gastas nas francesinhas do “Capa Negra” (que haveriam de ganhar fama).
A francesinha (recriação da iguaria francesa, “croque monsieur”, à qual foi adicionado a salsicha fresca, lombo de porco assado, fiambre e, tal como na receita francesa, o queijo derretido, em cima) nasceu em 1952, pela mão de Daniel David da Silva que foi trabalhar para o restaurante a Regaleira, depois de ter estado a trabalhar com o seu tio, que era chefe no Hotel Bernard, nos Campos Elísios, em Paris, .
Naqueles tempos, as francesinhas, com nível, comiam-se em Matosinhos, no “Majára”, em V. N. de Gaia, no Café Mucaba, no Porto, no “Capa Negra” e, como não podia deixar de ser, na Regaleira, no Bonjardim. O resto era paisagem.
Em 1972, Amândio Fontes parte para abrir o “Capa Negra II” (no Campo Alegre) e leva no menú os inevitáveis rissóis e as francesinhas.



Capa Negra II, ao Campo Alegre


Manuel, por sua vez, vai abrir a cervejaria “Cufra”, na Avenida da Boavista, nº 2504, no local, onde anos antes tinha estado o palacete da família Gilbert, que tinha junto à Avenida da Boavista o pinheiro manso, que deu nome ao lugar e caiu com um ciclone em 1941.
O palacete tinha sido construído em 1902.



O famoso pinheiro (“Pinheiro Manso”) e o Palacete da família Gilbert, na Avenida da Boavista. A chaminé (ao longe) é da fábrica William Graham, fundada em 1889


"Este Pinheiro Manso caiu em Fevereiro de 1941 quando do conhecido “CICLONE” assim conhecido no Porto. A casa conheci-a quando pertencia à família Gilbert, que tinha um maravilhoso BMW dos anos 30, antes da guerra. A Rua do Pinheiro Manso foi aberta antes de 1892, pois já vem no mapa Teles Ferreira. A casa em que nasci, o nº. 274, é a primeira à direita nesse mapa. Foi construída por um inglês que a vendeu a minha avó cerca de 1895. No momento da queda do Pinheiro Manso, cerca das 20 h. ia a passar um carro dos Bombeiros Municipais do Porto que ainda foi atingido, mas recordo terem-me dito que só houve feridos."
Cortesia de Rui Cunha



“Pinheiro Manso” por terra, após o ciclone


A inauguração da “Cufra” ocorreu a 15 de Agosto de 1974 (feriado da Assunção de Nossa Senhora) sendo, a sua abertura ao público, a 14 de Setembro, do mesmo ano, pelas 13 horas.


Cervejaria Cufra na Avenida da Boavista


O sucesso imediato da “Cufra” deveu-se ao seu amplo espaço, excelente localização e, obviamente, ao atendimento e confecção de elevada qualidade.
A revolução de Abril tinha ocorrido uns meses antes e as classes trabalhadores viam o seu nível de vida subir.
As filas para entrar no espaço, à noite e sobretudo ao fim-de-semana, eram intermináveis.
O negócio ia de vento-em-popa, com a retaguarda do Capa Negra no Bonfim, igualmente em grande plano.
É, então, que Manuel vai cumprir um sonho e abrir na Avenida de Montevideu, num palacete com história, o seu novo restaurante – “D. Manoel”, no início dos anos 80, e que sucede ao projecto da “Cufra”.
O texto seguinte conta uma pequena história deste palacete.


“O Palacete foi encomendado por José da Silva Rosas, dos ourives Rosas.
Insere-se na linha de moradias com torre que foram projectadas na transição dos séculos XIX para XX.
Modesta no uso de cantarias, recorre a elementos cerâmicos nos arcos de padieira.
Apresenta beirais muito salientes em madeira sublinhados por faixas de azulejos decorativos.
O projecto é de Miguel Ventura Terra e sucede a um outro de 1896, no qual o arquitecto tinha projectado para a Avenida Brasil, licença de obra 193/1896 do AHMP, uma moradia para Manuel Francisco Pereira, um abastado brasileiro de torna-viagem.
Por outro lado, em 1898, Miguel Ventura Terra tinha projectado uma banda contínua de 9 moradias unifamiliares na Rua Oliveira Monteiro, para um estrato social médio, que é uma referência para a arquitectura portuense”.


“O nº 384 da Avenida de Montevideu, em Nevogilde, já teve melhores dias. Grandiosa casa, tipo palacete, foi erguida no início do século XX e é atribuída ao arquitecto Miguel Ventura Terra (1866 – 1919). O seu proprietário foi José Rosas Júnior, que ao longo dos anos foi responsável por variadas alterações, incluindo a construção de um lugar de garagem.
Apesar da simplicidade da ampla construção, a presença de um torreão que se evidencia na fachada principal dá-lhe um efeito compositivo que realçado pelos frisos de azulejos de estilo Arte Nova provavelmente fabricados na Fábrica de Cerâmica das Devesas.”
Com o devido crédito a “portosombrio.blogspot.com”



Miguel Ventura Terra (Seixas, Caminha, 14 de Julho de 1866 — Lisboa, 30 de Abril de 1919) foi um arquitecto português de formação portuguesa e francesa.
Frequentou o curso de Arquitectura da Academia Portuense de Belas-Artes entre 1881 e 1886. Em 1886, esteve em Paris como pensionista (bolseiro) do Estado na classe de Arquitectura Civil, onde frequentou a École Nationale et Speciale de Beaux-Arts.
Em 25 de Julho de 1901, a Câmara do Porto presidida por Lima Júnior, era informada de que Ventura Terra devolvia o prémio que tinha recebido pelo seu projecto referente ao monumento ao Infante D. Henrique, pois os documentos inerentes tinham-se perdido num naufrágio, quando regressavam a Portugal, após serem expostos na Exposição de Paris, em 1900.

 

In jornal “A Voz Pública”, 26 Julho de 1901, pág 2
 
 
No naufrágio, atrás referido, acontecido a 24 de Janeiro de 1901 desapareceram, para sempre, dezenas de obras de arte portuguesa e diversa documentação, que tinha estado exposta na Exposição Universal de Paris de 1900.



 



Na revista “A Paródia”, nº 63, de 27 de Março de 1901, na página 104, era publicado um desenho de Rafael Bordalo Pinheiro, acima reproduzido.
Nele, se vê António de Faria, visconde de Faria, boiando, agarrado à proa de um barco, enquanto Ressano Garcia envergando um escafandro, pergunta aos peixes se viram, por acaso, as obras de arte.
Ventura Terra alcançou quatro vezes o Prémio Valmor de Arquitectura (1903, 1906, 1909 e 1911) e uma Menção Honrosa, no mesmo concurso (1913).
Era republicano e maçon e autor de projectos de palacetes e de habitações de rendimento mais qualificadas, essencialmente na capital, mas também na cidade do Porto.
Ficou também ligado ao plano de urbanização do Funchal.
No Porto, é muito apreciada uma banda de casas, na Rua Oliveira Monteiro, próximo da Rua de Nossa Senhora de Fátima, da autoria de Ventura Terra que, ainda tem o nome ligado, ao projecto da delegação do Banco de Portugal na Praça da Liberdade.







Banda de casas na Rua de Oliveira Monteiro de Miguel Ventura Terra – Fonte: Google maps

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

(Continuação 26) - Actualização em 10/01 e 11/10/2019 e 17/01/2021



Solar dos Correia Montenegro (demolido)


Este solar situado na Sé foi dos Correia que, mais tarde, seriam condes de Castelo de Paiva.



Solar dos Correia Montenegro



Solar dos Correia com a Rua Escura a desenvolver-se no centro da foto



Solar dos Correia observado da Calçada de Vandoma



Localização do Solar dos Correia (1) e do Aljube (2), na Planta de Telles Ferreira (1892)



Solar dos Correia


Na foto anterior está o Solar dos Correia em 1951, na confluência da Rua Chã com a Rua Escura. Ao fundo, à direita, é possível observar as torres da Câmara e da igreja da Trindade. 
O brasão heráldico exposto na fachada exibia o timbre dos Correias e as armas dos Coutinhos, dos Pintos e dos Correões.
Com antecedentes arquitectónicos dos séculos XIV e XV, no século XVIII era seu proprietário Pedro Correia de Azevedo Montenegro.
O vínculo haveria de passar Martinho José Pinto de Vasconcelos de Miranda Montenegro e para os seus descendentes.
Os últimos proprietários da Casa dos Correias foram os descendentes de Bernardo Miranda Montenegro que casara, em 1852, com uma filha do conde de Arronchela.
Quando foi demolido este solar todas as pedras foram numeradas para ser erguido noutro local… até hoje.






Palacete de Júlio Costa
 

António Júlio da Costa foi um empresário e capitalista, nascido em 1855, na Vila de Chacim e falecido em 13 de Abril de 1913.
O projecto do palacete situado na Avenida da Boavista, nºs 2483-2521, é de 1907.

 
 
Desenho de muro de vedação e portões de acesso ao jardim do Palacete de Júlio Costa, anexo a pedido de licenciamento de 1909 – Fonte: AHMP

 
 

Construção do Palacete, na Avenida da Boavista, de António Júlio da Costa, na foto acompanhado por Hugo da Paz dos Reis e a irmã, Hilda Reis – Fonte: Centro Português de Fotografia


Na foto acima, o palacete que se observa é o da família Gilbert e o pinheiro é o tal famoso “Pinheiro Manso”.
O palacete de Júlio Costa situava-se, em frente, no outro lado da Avenida da Boavista, em terreno onde estão as pessoas que se deixaram fotografar.




Palacete de Júlio Costa
 
 
 

Palacete de Júlio Costa, em 2009 – Fonte: Google maps
 
 
 

Palacete de Júlio Costa, em 2021 – Fonte: Google maps










Esta moradia (que praticamente já não existe) ficava na Avenida Marechal Gomes da Costa, nº 1103, na artéria que já foi Avenida do Gama.
Estava situada no gaveto daquela avenida e da Rua Fernão Lopes de Castanheda, tendo sido inspiração do mesmo arquitecto dos Armazéns Frigoríficos em Massarelos – Januário Godinho (Almeida).
Presentemente, parte da moradia foi aproveitada para dar lugar a um projecto que contempla um condomínio habitacional de luxo, e no qual foram aproveitados alguns (poucos) elementos arquitectónicos da construção primitiva.
Daniel Maria Vieira Barbosa (Porto, 13 de Julho de 1908, Cascais, 12 de Maio de 1986), conhecido como Daniel Barbosa, licenciou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em 1935, onde foi professor.
Transfere-se, em 1952, para o Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa para chefiar, como professor catedrático, o ensino da Economia. Foi ainda ministro de Salazar em 1947-48 (Ministro da Economia apelidado do “Barbosa das Farturas”) e Ministro da Indústria e Energia (1974), no governo de Marcelo Caetano.



Casa Daniel Barbosa (obra de 1936) em 2015



A moradia pertenceu, portanto, ao Prof. Daniel Barbosa e teve licença de construção nº 295/1936, de 3 de Março.
O primeiro registo de propriedade é de 1956.
Em 1967, passou para as mãos da Associação Rainha D. Beatriz - uma associação de solidariedade social.
Em 1979, por Portaria, o imóvel foi integrado no Centro Distrital da Segurança Social do Porto.
A partir do início dos anos 80 do século passado, a moradia ficou conhecida de inúmeros portuenses, pois, lá se apresentaram a “Juntas Médicas” do “Núcleo de Verificação de Incapacidade”.
Em 2014, ao abrigo do Decreto-Lei nº. 112/2004, de 13 de Maio, o imóvel transitou para o Património do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, IP.
Em 2015, através de “Concurso de Alienação de Imóveis”, o imóvel foi vendido.
Durante o ano de 2019, um condomínio de luxo começaria a ser implantado no local da moradia.
Diga-se, em complemento, que a Associação Rainha D. Beatriz foi constituída em 1964 e viu os seus primeiros estatutos aprovados por Despacho Ministerial de 15 de Junho de 1964, publicado no então Diário do Governo nº 150, 3ª Série, de 27/06/1964.
A Associação Rainha D. Beatriz, hoje sita na Rua da Cerca 388 (à Foz Velha), tem acordo de cooperação com o Instituto de Segurança Social, funcionando como um lar para 31 idosas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

(Continuação 8) - Actualização em 21/05/2018 e 13/11/2020

19.6 Avenida da Boavista


A Avenida da Boavista com uma extensão até ao Castelo do Queijo, hoje, de 5,6 km, foi projectada pelo engenheiro Gustavo Adolfo Sousa, no início da segunda metade do século XIX. A avenida foi buscar o nome à Rua da Boavista (com o seu início na Praça da República) e esta, por sua vez, à quinta da Boavista, também depois denominada quinta dos Figueiroa.
A Avenida da Boavista liga à Praça da República, a partir do local onde esteve, durante cerca de um século, o Hospital Maria Pia por intermédio da muito mais antiga Rua da Boavista, apresentando-se o conjunto das duas vias sempre em linha recta até ao mar.
Percorrendo a avenida, nos primeiros duzentos metros encontraremos o icónico edifício do Hospital Militar e a Praça Mouzinho de Albuquerque mais conhecida como Rotunda da Boavista.
A Avenida da Boavista começou por ser aberta até à Rua da Vilarinha, na Fonte da Moura. Só na primeira década do século XX se começou a abrir desde aí, até ao Castelo do Queijo. Ficou terminada em 1917. 


“Em 8 de Novembro de 1914, durante a abertura da parte final da Avenida da Boavista, entre a Vilarinha e o Castelo do Queijo, a Companhia Carris foi impedida pela C.M.P. de construir esta nova linha. A razão invocada por esta era que a CCFP, ao abrir esta nova linha, pretendia fechar a que existia entre a Boavista e Cadouços, pela Ervilha, prejudicando muitos utentes. Posta uma acção em tribunal, em 25 do mesmo mês, o juiz Dr. Couceiro da Costa sentenciou o uso e fruição do centro da avenida a esta empresa. Posteriormente foi fechada a linha de Cadouços, prejudicando muito a deslocação para a Foz enquanto não foi aberta a linha das Avenidas de Montevideu e Brasil”.
Fonte: “portoarc.blogspot.pt”




Avenida da Boavista na planta de Telles Ferreira de 1892 (quadrícula 75) terminava no Lugar da Fonte da Moura

Legenda:

1. Lugar da Fonte da Moura
2. Rua da Vilarinha
3. Rua de Serralves
4. Avenida da Boavista (sem ligação ao Castelo do Queijo)




O carácter da avenida tem sido alterado ao longo dos tempos, com as sucessivas construções ao longo deste eixo urbano.



Forte S. Francisco Xavier ou Castelo do Queijo em 1913


Toda a área envolvente à avenida teve origem e crescimento a partir do povoado de Rianhaldy, e perde-se nos tempos, ainda antes da fundação da monarquia portuguesa, provavelmente entre 920 e 944, data em que chegaram ao território os monges de S. Bento.
Assim, começaria a história do julgado de Bouças e do seu antiquíssimo mosteiro beneditino. Este território pertenceu ao Padroado Real de D. Sancho I que depois o doou, em 1196, à sua filha recém-nascida, D. Mafalda.
Um documento de 1222 afirma que a rainha D. Mafalda fez a sua doação ao Mosteiro de Arouca e que, em 1230, acaba por transformá-lo de beneditino, numa comunidade cisterciense. Mais tarde em litígio com seu irmão, o rei D. Afonso II, viria a perder a posse de Bouças para o reino. Mafalda casou-se em 1215 com Henrique I de Castela, mas, como ambos eram muito jovens, o casamento não foi consumado, e seria dissolvido no ano seguinte. O título de rainha tinha origem neste casamento.
Na época de D. Sancho II o território, hoje, de Ramalde denominava-se Ramunhaldy constituído por cinco lugares: Francos, Seixo, Requezendi, Ramuhaldi Jusão (depois, Ramalde de Baixo e, actualmente, o local da igreja paroquial)  e Ramuhaldi Susão (actualmente, Ramalde do Meio).
Entre 1230 e 1835, Ramunhaldy pertenceu ao concelho de Bouças, o qual integrava também S. Mamede de Infesta, Matosinhos, Foz do Douro e um conjunto de vinte povoações. Aquele lugar de Francos atrás referido, há quem o ligue erradamente às Invasões Francesas de 1809. Porém, aquele topónimo tem já muitos séculos.
Em 1895, todo o território a que vimos aludindo, foi integrado no concelho do Porto, como freguesia.
A Avenida da Boavista sofreu ao longo dos tempos imensas transformações, mas, na segunda metade do século XIX, no troço por onde circulava a Máquina estava ladeada por alguns palacetes inseridos em propriedades ajardinadas, e no troço junto à Praça Mouzinho de Albuquerque a máquina circulava pelo centro da avenida.



A Máquina junto ao “chalet” de José Augusto Dias em 1899



Na foto acima de Aurélio Paz dos Reis a Máquina a vapor n.º 2 na Estrada de Carreiros, próximo do troço que foi Rua do Castelo e depois Avenida de Montevideu.
Para muitos o “chalet” é a “Vila Delfina” na Avenida da Boavista, o que não é verdade.
O Arquitecto Luís Bourbon Aguiar Branco desfaz todas as dúvidas identificando-o como o “Chalet” de José Augusto Dias e, por essa razão, não estamos na Avenida da Boavista.



Casa do Pinheiro Manso


Na foto acima, a Casa do Pinheiro Manso e o pinheiro que deu o nome ao local em 1906. Ao longe a chaminé da fábrica Graham.
A Casa do Pinheiro Manso ficava situada no local onde agora está instalada a cervejaria Cufra, e junto da Rua do Pinheiro Manso que, naquela data, ainda não existia.
O palacete foi construído em 1902 por um brasileiro de torna viagem de nome Rocha. Nos anos 40/50, era habitado pela família Gilbert. O pinheiro caiu em 15 de Fevereiro de 1941 na terrível noite do “ciclone”, situação muito recordada pelos portuenses, pois, causou elevadíssimos prejuízos por toda a cidade. Foi demolido em 1971 para a construção do prédio que lá se encontra. 


Pinheiro Manso por terra em 15/2/1941

Na memória de muitos, ficou a queda do “Pinheiro Manso”, na Boavista, centenária árvore que deu o nome à rua. Ficava na casa da família Gilbert e ao cair, destruiu uma cabine telefónica e apanhou a traseira de um automóvel dos Bombeiros do Porto, em que seguia o conhecido Major Serafim Morais, que nada sofreu.


A meio da avenida


Avenida da Boavista e Rua de Belos Ares


Avenida da Boavista e Rua de Agramonte (à esquerda)





Mesmo local da foto anterior, em 1964



 

Avenida da Boavista, lado norte, área contígua à remise, em 1960

 
 
 

Avenida da Boavista, com o Pinheiro Manso lá, bem longe, em 1949






A Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista) foi ajardinada em 1897 e começou por se chamar Praça da Boavista.
No lado Norte, a Praça da Boavista situa-se entre a Rua das Vallas (Rua Nossa Senhora de Fátima) e a Rua do Príncipe das Beiras (Rua 5 de Outubro) tendo de permeio a Estação da Linha da Póvoa, que fazia a ligação entre o Porto e a Póvoa de Varzim e a Rua das Pirâmides, hoje, chamada de Avenida de França. Este último topónimo seria atribuído por sugestão do presidente da Câmara do Porto, Dr. Augusto Cupertino de Miranda, com aprovação em 11 de Julho de 1918, honrando, assim, os soldados que participaram em França no conflito mundial. 
O topónimo de Rua das Pirâmides reportava ao facto de que a rua terminava para as bandas do Carvalhido, em local onde existiam uns obeliscos, à entrada da Quinta da Prelada, que seriam mais tarde transportados e instalados no Jardim do Passeio Alegre, onde ainda podem ser observados.
A atribuição do topónimo de Rua do Príncipe das Beiras destinava-se a homenagear o príncipe Luís Filipe que acabaria por ser alvo de um assassinato, no qual pereceu também D. Carlos I, seu pai.
Essa rua veio substituir um caminho antigo que vindo de Ramalde e passando por Francos, desembocava no que viria a ser a Praça da Boavista.
Esta enorme área iria ter um desenvolvimento urbano de realce, quando passou a ser um verdadeiro interface dos transportes citadinos, mas, sobretudo, ao ser dotada de uma estação ferroviária terminal para os comboios da Linha Porto à Póvoa e Famalicão e Linha de Guimarães.
 
 
 
 
“Até 1938, a linha do caminho-de-ferro do Porto à Póvoa de Varzim tinha a sua estação terminal na Boavista. O edifício, onde ainda há relativamente pouco tempo funcionou o balcão de um banco, ainda lá está, mas já muito degradado.
A linha, de iniciativa particular, começou a funcionar em Outubro de 1875. O seu primeiro administrador foi o escritor e historiador Oliveira Martins, que residia na Casa da Pedra, na Rua das Águas Férreas, junto ao bairro da Bouça. Foi só em 1938 que abriu o túnel da Trindade e se construiu a estação com a mesma designação! Em 1947, a Linha da Póvoa foi integrada na rede da CP.
Quando o comboio chegou à Boavista, em 1875, o espaço a que hoje se dá o nome de Praça de Mouzinho de Albuquerque não passava de um amplo logradouro rodeado de muros que delimitavam quintas, pequenas propriedades e terras de cultivo. A chegada do comboio trouxe àquelas paragens uma inusitada animação.
Por exemplo; a Feira de S. Miguel que, desde 1682, se realizava na Cordoaria, foi transferida para o espaço que ficava em frente ao edifício da estação do caminho-de-ferro. O amplo logradouro teve de ser adaptado a essa nova função.
Em 1876, um ano depois da inauguração da linha, realizaram-se grandes obras no terreno a que foi dado o nome de Praça da Boavista, também conhecida por Rotunda da Boavista”.
Fonte: Germano Silva
 
 
Em 30 de Outubro de 1938, foi inaugurada a Estação Ferroviária de Porto-Trindade, substituindo a da Boavista.
Mesmo após a abertura da linha até à Trindade, a estação da Boavista continuou a ter serviços. Com efeito, nos primeiros meses de serviço da nova estação, a grande maioria dos passageiros continuou a utilizar a Boavista, em protesto contra as novas tarifas introduzidas pela Companhia dos Caminhos de Ferro do Norte de Portugal.
Em 1939, a Estação da Boavista era usada praticamente apenas por comboios de mercadorias, tendo os serviços de passageiros sido passados para o apeadeiro da Avenida de França, a curta distância.



Estação Ferroviária da Boavista - Ed. Porto Sombrio






Passagem de nível junto do apeadeiro da Avenida de França, em 1973



Avenida de França, observando-se o túnel no subsolo, que permitia o trânsito rodoviário sem constrangimentos, pois a ferrovia continuou na antiga cota
 
 
 

Actualmente, o trânsito rodoviário é feito novamente à superfície, tendo sido a linha do Metro, que substituiu a ferroviária, enterrada




A Praça da Boavista foi, durante muitos anos, também, uma estação importante no percurso dos transportes públicos citadinos, onde existiram instalações de recolha da “Máquina”, dos “Americanos” e, mais tarde, dos Carros Eléctricos. Foi ainda, o local, onde se realizaram importantes feiras.
A Praça da Boavista no fim do século XIX em nada se assemelhava ao jardim que hoje lá existe. 




Percursos dos transportes públicos na Praça da Boavista na planta de Telles Ferreira em 1892 - (1- Estação de Recolha; 2- Estação de caminho-de-ferro; 3- Hospital militar)



Estação de Recolha da Boavista - Ed. Ilustração Portuguesa nº 180




Na foto acima, a primitiva "remise" da Boavista onde recolhiam a máquina e os americanos. Mais tarde também os eléctricos. Foi construída em 1874 e ardeu em 1924, tendo-se perdido nas chamas 23 eléctricos, 4 atrelados e 2 zorras e ficado danificados mais 6 veículos.
Foi então construído um novo edifício como “remise” e oficina com 20 linhas de entrada e, consequentemente, 20 portas.



Última “remise” no local hoje, da Casa da Música - Ed. desconhecido


Confluência da Avenida 5 de Outubro com a Rotunda da Boavista, c. 1930, observando-se, à esquerda, a fachada lateral da remise da Boavista, onde hoje está a Casa da Música



 E
m ampliação da foto anterior, a Casa Natividade, c. 1930. Na década de 1960, já era a Casa Girão 



Casa de Pasto Reis e Soares, na esquina da Rotunda da Boavista com a Rua da Meditação - Fonte: Monumentos Desaparecidos




A Praça da Boavista foi ajardinada em 1906 passando o trânsito de veículos a fazer-se à sua volta.





Rotunda da Boavista antes do monumento Guerra Peninsular


Rotunda da Boavista no fim do século XIX - Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal



Na foto acima à esquerda vê-se a Rua Nossa Senhora de Fátima, à data Rua das Valas e, pela direita, desenvolve-se a Rua da Boavista no troço junto ao hospital militar. A linha do eléctrico passa pelo meio da praça.



Rotunda da Boavista quando ainda atravessada por eléctrico



A linha do eléctrico começou por atravessar a rotunda pelo centro e, só com a construção do Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, do escultor Alves de Sousa e do arquitecto José Marques da Silva vencedores do concurso realizado em 1909, integrado nas comemorações do Centenário da Guerra Peninsular, se passou a circular contornando toda a praça.



Projecto para monumento da Guerra Peninsular


Nas gravuras acima, está o projecto de Alves de Sousa e José Marques da Silva que obteve o 1º prémio para o monumento à Guerra Peninsular.
A Guerra Peninsular foi a que uniu os portugueses e os ingleses contra os exércitos de França de Napoleão Bonaparte, na Península Ibérica, no período de 1808 a 1814.



D. Manuel II lançando a primeira pedra do monumento à Guerra Peninsular – 1909



Tendo o monumento sido começado em 1909 e apenas inaugurado em 1951 e dada a morosidade do tempo de construção e ainda, a morte do escultor Alves de Sousa, ainda jovem (38 anos), a obra foi concluída sob a direcção dos escultores Henrique Moreira e Sousa Caldas. 
Nos longos anos em que só existia a parte inferior do monumento o povo chamava-lhe o “castiçal a que ainda faltava a vela”!



Monumento à Guerra Peninsular - Ed. “pt.wikipedia”


A Rotunda na Planta de Teles Ferreira 1892




A Rotunda da Boavista no Guia Baedeker 1901 e na planta do Guia Ilustrado 1907



No quadrante sudoeste da Rotunda, situava-se o Real Colyseu Portuense, (1889/1898) uma das praças de touros da cidade com uma lotação de 8 000 lugares, no local onde hoje está hoje o Tabernáculo Baptista.



Real Coliseu Portuense




O cemitério de Agramonte e o Hospital Militar


Junto da Praça Mouzinho de Albuquerque situa-se o cemitério ocidental do Porto, chamado Cemitério de Agramonte e construído a partir de 1855.
Nos meados do século XIX havia junto à Quinta do Bom Sucesso uma outra enorme propriedade que pertencia a uma família de apelido Correia de Pinho. 
Esta quinta foi muito danificada duran­te o Cerco do Porto. Muitas árvores que a povoavam foram sacrificadas para que a sua madeira fosse utilizada na montagem de peças de artilharia. Uma importante parcela dessa quinta, chamada o "campo de Agramonte", viria a ser utilizado para a construção do cemitério que ainda hoje tem o nome do campo. 
Perto do cemitério localizava-se a Quinta do Bom Sucesso, com a capela voltada para o largo do mesmo nome.




Capela da Quinta do Bom Sucesso, c. 1860 - Ed. Frederick William Flower



Casa da Quinta do Bom Sucesso, capela e fonte na primeira metade do século XX




Confluência do troço nascente da Avenida da Boavista com a Rotunda da Boavista




A foto acima mostra o troço inicial da Avenida da Boavista, que começa no cruzamento com as ruas de Santa Isabel e do Dr. Emílio Peres, sendo que à esquerda, a umas cinco dezenas de metros da esquina, está o Hospital Militar, cuja construção foi  decidida após o Cerco do Porto, mas que, apenas, seria construído no último quartel do século XIX.
Na esquina, à direita, no lugar do prédio então existente, iria surgir o primeiro centro comercial do Porto, “O Brasília”.
Aquele troço da avenida que seguia para a Carvalhosa, antigamente, era o mais edificado, e o transporte urbano da época, o eléctrico, circulava por canais próprios nas margens dessa mesma via.
Na segunda metade do século XIX, na área contígua ao Hospital Militar de D. Pedro V, a nascente, eram terrenos da família Beleza de Andrade.
Em 1884, António Miguel Beleza de Andrade, naqueles terrenos por onde, em parte, já tinha sido traçada uma porção da Rua Nova do Carvalhido (continuação da Estrada da Boavista ao Carvalhido, começada a abrir em 1868) ou seja a actual Rua Oliveira Monteiro, solicita uma licença à C.M. Porto, para construção de uma casa.
Em 1913, após a Rua do Conde (actual Ricardo Severo) se ter prolongado até à Rua Nova do Carvalhido, Maria dos Prazeres Beleza solicita à C. M. Porto licença para a construção de uma casa, em terreno situado à face do novo arruamento (actual Rua Dr. Carlos Cal Brandão).
No início da Avenida da Boavista, em frente à Rua de Santa Isabel, António Costa Ramalho, em 1882, já tinha solicitado à C. M. Porto licença (nº 162/1882) para a construção de um prédio que, hoje, ainda existe.
Aí, começou por funcionar, desde o início da década de 1910, o Grande Colégio Universal.
Durante grande parte da segunda metade do século XX o edifício e propriedade envolvente foram ocupados pela firma do ramo têxtil "António M. Rua" que, fundada em 1949 e com a sua sede inicial localizada numa pequena loja da Rua de Trás, haveria de ser uma referência na cidade e até no país daquele ramo de actividade.




Na planta de Telles Ferreira de 1892, a casa de António da Costa Ramalho, na Avenida da Boavista, nº 28




Casa de António da Costa Ramalho, actualmente – Fonte: Google maps




Sobre a foto acima, diga-se que, à esquerda da mesma, fazendo esquina com a que é, hoje, a Rua do Dr. Carlos Cal Brandão e, à época, era a Rua do Conde, em 1908, João da Costa Ramalho haveria de solicitar à C. M. Porto, licença para construção de uma casa.




Requerimento pelo qual João da Costa Ramalho solicita licença para a construção de uma casa - Fonte: AHMP