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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

25.298 Hospital Militar em Pardelhas

 
Não existindo qualquer hospital militar construído de raiz, no Porto, quando teve lugar a guerra civil fratricida, logo que o conflito terminou, começaram as autoridades a estudar a sua implantação.
Diga-se que a construção do Hospital Militar, cuja construção foi  decidida, então, após o Cerco do Porto, apenas ocorreria no último quartel do século XIX.
Assim, ao longo dos tempos, vários locais foram servindo como hospitais militares.
Antes, em 1808, durante a Guerra Peninsular, uma parte do mosteiro de S. Bento da Vitória foi ocupada pelas tropas invasoras francesas e, posteriormente, pelas portuguesas, tendo-se servido dele como hospital militar, até 1820.
Foi mudado, depois, para a Casa dos Celeiros, na Cordoaria. No dia 19 de Março de 1832, quatro me­ses antes da entrada no Porto de D. Pedro IV, um incêndio destruiu totalmente os barracões do Celeiro Público e, onde, à data, se encontrava aquartelada a 1ª Companhia da Guarda Real da Polícia do Porto. 
Após as invasões Francesas, entre 1810 e 1822, também o edifício onde nasceria o Palacete das Cardosas, é ocupado por tropas portuguesas que aí instalaram um hospital militar.
Durante o cerco do Porto, em 1832/1833, houve vários locais que funcionaram como hospitais militares.
Em 1832, a casa de José Cardoso, à Rua S. Bento da Vitória e, uma outra, à Rua da Paz, estavam também, a servir como hospital militar.
Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, começou imediatamente a pensar-se, utilizar o convento de Santo António dos Capuchos, como hospital militar, o que não se concretizou.
Então, outras instalações com carácter provisório foram usadas, como são os casos do Convento de S. João Novo, onde o hospital começou a funcionar em 12 de Maio de 1835, do Mosteiro de S. Bento da Vitória e do Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco.
O Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco seria instituído como hospital militar permanente, em 21/11/1851, até à construção do Hospital D. Pedro V e, por isso, teve um papel de destaque.
Sobre este hospital dizem as Memórias Paroquiais de 1758:
 
 
“(…) na rua da Ferraria de Baixo desta freguezia, ha hum Hospital, que serve de curar as infermidades dos irmaõs terceiros de S. Francisco, q adoecem e naõ tem com que curarse em suas cazas. Principou esta obra em 28 de abril de 1734; e por ser obra magnifica durou the o anno de 1743; q foi o primeiro anno em q pera o dito hospital entraraõ os doentes, o q foi no dia primeiro de septembro do dito anno de 1743. Pera esta obra muitas pessoas deixaraõ suas esmolas(…)”.
 
 
O Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco foi construído entre 1734 e 1743. A cronologia da sua existência é a seguinte:



"1686, Agosto - Foi construído pela Ordem Terceira de São Francisco, um edifício destinado ao recolhimento e assistência dos irmãos pobres, entrevados e cegos, situado ao fundo da Rua do Comércio do Porto (antiga rua da Ferraria de Baixo); 1687, 24 de Novembro - inauguração; 1714 - nesta data, tinha apenas seis irmãs recolhidas, ficando então decidido que quando a última morresse o edifício seria destruído e em seu lugar seria construído um hospital mais espaçoso e sólido para tratar e acolher doentes, e enquanto o hospital não fosse construído, os necessitados seriam tratados em suas casas, à custa dos rendimentos da Ordem; 1734 - início das obras de construção do novo hospital, dotado de duas frentes, uma para a Rua do Comércio do Porto e outra para a Rua da Bolsa, sendo os fundadores deste edifício Manuel Ribeiro Poço e Manuel da Silva e Sousa; 1743, 26 Maio - inauguração; 1765, 22 de Dezembro - foi acrescentada uma enfermaria de entrevados; 1786 - acrescentou-se uma outra para incuráveis; 1856, 20 de Fevereiro - estabeleceu-se no hospital uma Sopa Económica diária; 1865 - no primeiro piso do hospital, são criadas pelos beneméritos irmãos Conde de Ferreira e comendador Manuel Francisco Duarte Cidade, escolas femininas e masculinas para filhos de irmãos pobres; 1876 - nesta data, frequentavam as escolas 214 alunos de ambos os sexos; 2008 / 2009 - ampliação do hospital com a construção de mais uma ala a Este".
Cortesia de Ana Filipe (2009); In “monumentos.gov.pt”

 
 

Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco em 1834 – Desenho de J. Villanova
 
 
 
Em 1861, decide-se passar a utilizar, para o efeito, a Quinta das Águas Férreas, pelo que, a 20 de Maio de 1862, as instalações de S. João Novo são abandonadas.
No entanto, o problema não se encontrava resolvido, pelo que se decide construir um hospital Militar permanente.
Pelo meio, ao longo dos anos, ficaram sem efeito as hipóteses do Colégio dos Órfãos, do Recolhimento do Anjo e, até, do Convento dos Carmelitas. 

 
 

In jornal “O Comércio do Porto” de 30 de Setembro de 1861
 
 
 

Finalmente, o Hospital Militar D. Pedro V seria construído em terrenos do lugar de Pardelhas, entre as ruas da Boavista e das Valas, praticamente, no términos da Rua da Boavista.
Para o efeito, é adquirido, em finais do ano de 1861, um terreno à face da Avenida da Boavista, pertencente a “Ana Esganada”.
Em 15 de Março de 1862, dada a dimensão da construção que vinha sendo projectada, é comprado, junto do inicialmente adquirido, o Campo de Pardelhas, do domínio directo da Mesa do Prioral de Cedofeita e o Campo da Consorte, da directa senhoria da Colegiada de Cedofeita.
Os dois terrenos confrontavam a nascente com um caminho (hoje a Rua Dr. Carlos Cal Brandão) e, o primeiro, a sul com a Avenida da Boavista e, o segundo, a norte com as terras do “Forneiro” e foram comprados a Maria Joaquina e sua irmã Ana Francisca.
A construção do hospital foi autorizada por Carta de Lei de 18 de Abril de 1854, por D. Fernando II, Regente, em nome do seu filho menor, o Rei D. Pedro V.
Lançada a primeira pedra, em 22 de Abril de 1862, foi baptizado em homenagem ao Rei D. Pedro V, falecido no ano anterior.
Em 13 de Novembro de 1862, ao terreno já existente é acrescentado de mais 3102 m2, pela compra do Campo Novo (antigo Campo da Arrotêa), situado nas Valas (Rua Nossa Senhora de Fátima), à mesma Ana Francisca, por cem mil réis, sendo directo senhorio o D. Prior de Cedofeita.
Em 7 de Abril de 1863, são adquiridos mais 2283 m2, a Maria Constança Ribeiro e sua irmã.
Em 1875, mais uma porção de terreno seria comprada a José António Pereira Duarte, José Pereira da Rocha e Zeferino Matos.
Como curiosidade, diga-se que, em 30 de Março de 1869, O Ministério de Guerra pagou ao D. Prior de Cedofeita, a quantia de 5$590 réis de foro, relativo a 1862 e 1863, do prazo de Pardelhas.
Para que conste, apenas pelo Decreto-Lei n.º 195-A/76, de 15 de Março de 1976, assinado pelo General Costa Gomes, foi abolida a enfiteuse, a que se achavam sujeitos os prédios rústicos, transferindo-se o domínio directo deles para o titular do domínio útil, sendo os titulares do domínio directo indemnizados em determinadas condições e caso fossem, pessoas singulares.
Naquele ano, o mesmo sucederia para os prédios urbanos pelo Dec.-Lei n.º 233/76, de 2 de Abril.
 




O Hospital militar, inacabado, c. 1869
 
 
 
Na foto acima observa-se, à direita, que a Rua da Boavista (hoje Avenida da Boavista) ainda não foi aberta.
As obras só terminaram em 1914.
Um grande incêndio deflagrou em 27 de Julho de 1918, que destruiu uma grande parte da fachada principal e a capela do hospital. Esta ostentava um dos altares do Convento de Monchique, que tinha sido para lá deslocado e que também ardeu.

 
 

Hospital Militar, em 1900
 
 
 

Projecto do Hospital Militar de D. Pedro V
 
 
 
"Recebe os primeiros doentes em 1869, quando só 1/3 do projecto estava concluído. Na sequência do golpe republicano de 1910, o hospital passa a designar-se "Hospital Militar do Porto". Quando da reorganização do Exército de 1926, o estabelecimento passou a ser o Hospital da 1.ª Região Militar, com a designação de "Hospital Militar Regional nº 1". Em 1990, em homenagem àquele grande rei, o hospital voltou a incluir o nome do Rei D. Pedro V na sua designação oficial que passou a ser "Hospital Militar Regional nº 1 (D. Pedro V)”.
In O Tripeiro Série VI, Ano X

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

25.35 O Amigo do Porto (Actualização em 16/02/ e 23/03/2021)


Estavam passados cerca de 30 anos sobre o Cerco do Porto imposto pelas tropas do usurpador do trono, D. Miguel, e morria o rei D. Pedro V (16/09/1837; 11/11/1861).
Dois anos antes, já o rei tinha ficado viúvo após o falecimento de D. Estefânia (15/07/1837; 17/07/1859), com a qual nunca teria consumado, de facto, o matrimónio, pois, quando foi feita a autópsia à rainha, verificaram que continuava virgem.
Pedro era o filho mais velho do 2º casamento de D. Maria II com o rei-consorte, D. Fernando II e neto de D. Pedro IV.
D. Maria II tinha ficado viúva em 1835, de um primeiro casamento com Augusto Beauharnais que durou apenas 2 meses.
Pedro era dotado de uma grande cultura (teve como pedagogo Alexandre Herculano) e de uma apurada sensibilidade artística, sendo ainda conhecedor das novidades científicas da época.
Depois de muita insistência da família real, teria aceitado casar-se com uma menina escolhida, para ele, filha de um príncipe Hohenzollern e de uma filha do grão-duque de Baden.



Desenhos de D. Pedro V quando tinha 12 anos – Fonte: “gisaweb”



O casamento com a prussiana era politicamente útil.
Os noivos tinham feitios compatíveis e, acima de tudo, Portugal precisava de um herdeiro, o que o futuro revelaria nunca se concretizar.
Casados por procuração, o casamento só sobreviveria um ano ao enlace, pois, a rainha morreria de difteria.
As comemorações acontecidas na cidade do Porto aquando do casamento real foram muito participadas pelos portuenses, como nos dão conta os textos jornalísticos seguintes.

 
 


Jornal “O Comércio do Porto” de 22 de Maio de 1858

 
 





Jornal “O Comércio do Porto” de 22 de Maio de 1858


Um mês antes do encerramento dos festejos narrados, a 23 de Abril, chegava ao Porto, segundo noticiava no dia seguinte o jornal "O Braz Tisana", o Teatro Mecânico" para dar os seus espectáculos na Praça D. Pedro. Aquele teatro montava-se e desmontava-se no mesmo dia. Desconhece-se se aqueles espectáculos foram integrados nas festas do casamento real.
Enquanto durou a união, o casal real dedicar-se-ia, sobretudo, a dar o seu apoio a obras de assistência social.
Assim, sendo a saúde pública um dos interesses do casal real, D. Pedro V correspondendo à vontade da mulher, fundou o hospital público D. Estefânia (em Lisboa), assim como diversas outras instituições de caridade.


«Escreveu Ricardo Jorge, nos cinquenta anos da morte da rainha: "[Estefânia] faleceu, como se sabe, de difteria: como as falsas membranas se propagassem à vulva, os médicos examinaram-na, ficando surpreendidos ao deparar-se-lhes o hímen". O assunto era melindroso, e obviamente não foi divulgado. E é impressionante lermos hoje os relatos da época: ela ia no caixão vestida de branco, grinalda de flores brancas, sapatos de cetim branco, luvas brancas. Uma rainha virgem para um rei virgem.»
Fonte: Cortesia do Dr. Pedro Mexia (11/04/2009), In “publico.pt”


Depois de um primeiro enquadramento da estória de vida que se pretende transmitir, o que interessa para aqui, é a ligação de D. Pedro V à cidade do Porto.
Diga-se, porém, em complemento, que alguns anos antes, a 9 de Julho de 1832, tinha desembarcado na Praia de Pampolido, também conhecida por Praia dos Ladrões, D. Pedro IV e uns milhares de patriotas, vindos dos Açores, para fazer da cidade do Porto o seu quartel-general e daí implantarem a liberdade e estendê-la a todo o país.
Por sinal, essa data de 9 de Julho, ainda nas últimas décadas do século XIX, era comemorada com uma festa popular levada a cabo na Praça D. Pedro, antiga Praça Nova (actual Praça da Liberdade).
A seguir pode visualizar-se o programa dos festejos para comemoração do 9 de Julho no ano de 1882:
 
 
Jornal “O Comércio do Porto”, em 2 de Julho de 1882




Veteranos reunidos, em 1883, durante as comemorações do cinquentenário do 9 de Julho – Ed. revista “O Occidente”


Aquela festa lembrava as que ocorriam em honra dos oragos das capelas de aldeia, com luminárias e bandeiras.
Bandas de música tocavam durante as comemorações, em coretos improvisados, principalmente os acordes do “Hino da Carta” que sobrou da revolução Liberal.
As mamãs e as meninas burguesas escutavam as flautas das bandas dos Regimentos 6 e 18, sentadas em cadeiras alugadas e abanando-se com os seus leques de cores berrantes, 
Os visitantes passeavam-se, então, em volta da estátua do rei-soldado e iam matar a fome e a sede ao “Restaurante Rainha” (ficava onde hoje está a delegação do Banco de Portugal) ou ao Camanho que lhe ficava em frente, a nascente da praça (onde hoje está o Mcdonalds).
Por sua vez, o povo originário das classes laboriosas, olhava com curiosidade aquela burguesia, pavoneando-se como se estivessem numa romaria da aldeia.
À noite apareciam alguns veteranos das lutas pela Liberdade que contavam as suas histórias e passeavam as suas condecorações.


O “9 de Julho” na Praça Nova – Desenho de Manuel Monterroso



“Escrito pelo Rei D. Pedro IV em homenagem à Carta Constitucional que o próprio outorgou aos portugueses em 1826, o Hino da Carta (Hymno da Carta na grafia antiga) foi o hino nacional de Portugal entre Maio de 1834 e Outubro de 1910.”
Fonte: “pt.wikipedia.org”


LETRA do HYMNO da Carta

Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

II
Ó com quanto desafogo
Na comum agitação
Dá vigor às almas todas
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

III
Venturosos nós seremos
Em perfeita união
Tendo sempre em vista todos
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

IV
A verdade não se ofusca
O Rei não se engana, não,
Proclamemos, Portugueses
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição



Uma comemoração do 9 de Julho ficou célebre, quando, em 1872, o rei Luís I e a rainha Maria Pia presidiram aos festejos, no 40º aniversário da entrada na cidade do exército libertador.
Tudo começou a ser preparado, uns dias antes, nomeadamente, a 21 de Junho, quando se iniciaram os preparativos para os paços do concelho serem iluminados a gás nas noites em que a família real permanecesse na cidade.
Às duas da tarde, do dia 9 de Julho, daquele ano, saiu do edifício da Câmara uma bandeira do batalhão de Caçadores 5, empunhada por um ex-sargento, condecorado com Torre e Espada, de seu nome, António Carlos Araújo Mota, e que tinha estado quarenta anos antes presente no desembarque na praia de Pampolido, que desfilou sob aplausos da multidão pelas ruas da cidade, acompanhado por dezanove sobreviventes do batalhão dos Voluntários da Rainha, sob o comando do general Mosqueira.
O cortejo seguiu para a igreja da Lapa, onde as comemorações tiveram o seu início com um “Te Deum” na presença do rei, da rainha, dos príncipes reais e do infante D. Augusto.
A cerimónia religiosa teve a oração pronunciada pelo abade de São Cristovão de Mafamude, o célebre abade Santana, amigo de Camilo Castelo Branco.
Ali às portas, no Campo de Santo Ovídio, as tropas de Cavalaria 6 e cavalaria 7, começaram um desfile, que seguiu pela Rua do Almada abaixo em direcção à Praça D. Pedro, com os Voluntários da Rainha e o seu estandarte, à frente, seguindo-se, Caçadores 5 e Caçadores 9, Infantaria 5 e Infantaria 18 e a Guarda Municipal.
Logo que chegados à praça, junto da estátua equestre de D. Pedro IV, subiram ao ar os morteiros e os aplausos da multidão, enquanto as bandas de música tocavam o “Hino da Carta”.
A tudo isto, assistiam das varandas da Câmara, o rei, a rainha e os membros do governo presentes.
À noite houve sessão de teatro com a representação da peça “A Boceta de Pandora”.
De referir que as senhoras presentes tinham combinado, previamente, apresentarem-se todas vestidas de azul e branco.
No primeiro intervalo da representação foi proferida a partir de um camarote uma longa poesia por Manuel Vieira de Andrade, enquanto em resposta Guerra Leal recitou um soneto.
No segundo intervalo, o entusiasmo atinge o rubro quando Guilherme Braga declama uma poesia da sua autoria alusiva ao desembarque, 40 anos antes, do exército do Duque de Bragança.
Ao desfazer do espectáculo, quando a comitiva real voltava para o paço ao passar defronte da igreja de Santo Ildefonso, foi lançado ao ar um “bouquet” de setenta dúzias de foguetes.
As comemorações contemplaram ainda, nos restantes dias da presença da comitiva real, um faustoso baile de gala na sede do Clube Portuense e um concerto realizado no Teatro S. João, em benefício da Academia de Música de que era director o maestro Carlos Dubini e organizado por distintas senhoras da sociedade portuense.
Voltando a D. Pedro V, diga-se que morreu de febre tifóide, no Paço de Vila Viçosa, em 11/11/1861, tendo sido acometidos do mesmo mal, no mesmo ano, dois dos seus irmãos: o príncipe Fernando Maria Luís de Bragança, em 6/11 e o príncipe João de Bragança (Duque de Beja), em 27/12.
Desconfiando de envenenamento, o povo, de início, esboçou amotinar-se, mas não passaria daí.
D. Luís, um outro irmão de D. Pedro V, por certo só sobreviveu a esta catástrofe por se encontrar, à data, a viver no estrangeiro, donde foi chamado para assumir a sucessão ao trono.
Por certo aquela desgraça teria tido a sua origem na água inquinada de um poço existente no Paço de Vila Viçosa.
Ruben Andersen Leitão considerava D. Pedro V o «primeiro homem moderno do nosso país» e na sua obra “D. Pedro V, Um Homem E Um Rei”, apresenta-nos um olhar perspicaz sobre a breve vida do monarca.
Ruben Alfredo Andresen Leitão foi um escritor, romancista, ensaísta, historiador, crítico literário, e autor de textos autobiográficos, português, com o pseudónimo Ruben A.
Foi ele que escolheu o nome e a sigla PPD para o Partido Social Democrata num encontro com Francisco Sá Carneiro.
Era primo da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, com quem passava umas temporadas na quinta da família que agora acolhe o Jardim Botânico do Porto.

“Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra,”
Ruben A. (1964), In texto introdutório à edição da sua autobiografia “O Mundo à Minha Procura”





D. Pedro V e a cidade do Porto


Desde as lutas Liberais, durante o Cerco do Porto, de que resultaram alguns milhares de vítimas, que a família real ficou com uma dívida de gratidão para com a cidade.
Desse facto decorre desde essa época a atribuição pela rainha D. Maria II, ao Porto, do título de “Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade” (título único entre as demais cidades de Portugal e, ainda hoje, presente no listel das suas armas).
Falecido D. Pedro IV, em 1834 (pois durou apenas alguns meses para além do desfecho do Cerco do Porto), a rainha D. Maria II e o rei-consorte D. Fernando II foram os executantes de relações privilegiadas com as gentes do Porto.
Subindo ao trono, D. Pedro V acabou por ser o continuador da política dos seus pais, principalmente da de D. Fernando II que governou quando ele ainda era menor de idade.
Esteve assim ligado a várias intervenções e visitas à cidade, e não escondia o carinho que nutria pelos portuenses.
A infância e a adolescência do monarca ficaram marcadas por tempos de convulsões políticas e sociais, como sejam o pronunciamento de Castelo Branco, a restauração da Carta Constitucional por Costa Cabral, a revolta Setembrista de Torres Novas, a revolta da “Maria da Fonte”, a Patuleia e o golpe da Regeneração.
Em 1852, com 15 anos, D. Pedro faz com os pais, a primeira visita ao Porto, enquadrada numa mais ampla ao Norte de Portugal.
A passagem pela cidade do Porto aconteceu, numa primeira fase, entre 29 de Abril e 5 de Maio e antes do retorno à capital, entre 18 e 22 de Maio. Pelo meio ficou uma digressão pelo norte do País.
Foi durante o breve reinado de D. Pedro V que se iniciou a Regeneração e Portugal entrou na modernidade - de que a inauguração do telégrafo e do caminho-de-ferro são talvez os exemplos mais evidentes.
O monarca acabaria por criar um laço com a cidade que haveria de perdurar muito para além da sua morte.
Como rei, D. Pedro V visitou a cidade em 1860 e 1861.
Em 1860, chegaria à cidade no dia 20 de Novembro, viajando desde Lisboa, por terra.
No dia seguinte, o jornal “O Commercio do Porto” descrevia o término daquela viagem.


 





 
No dia 21 de Novembro de 1860, D. Pedro V esteve na abertura da Exposição da Sociedade Agrícola do Porto (sem aviso prévio) que decorreu no Campo da Torre da Marca e que contou ainda com a presença dos Infantes D. Luís e D. João.
Durante a visita real à cidade do Porto, ficou célebre o encontro que teve com Camilo Castelo Branco e Ana Plácido na Cadeia da Relação, onde o casal aguardava julgamento, indiciados pelo crime de adultério.
Foi a 23 de Novembro de 1860 que D. Pedro V visita a Cadeia da Relação do Porto.



“O Rei apeara inopinadamente à porta da cadeia.
O carcereiro era um alferes dos veteranos…
… D. Pedro V correu-o com os olhos, e disse:
– Conduza-me às enxovias.
Abriram-se os alçapões dos calabouços…
Sua Majestade desceu rapidamente, como se pisasse os tapetes das marmóreas escadarias dos régios paços. À sua chegada uns presos petrificaram, outros ajoelharam, e alguns, voz em grita, pediam a liberdade…
… Passou Sua Majestade à enfermaria dos presos, e à das presas, em seguida. Na extrema desta há uma porta que se abre para o quarto de uma senhora, que ali estava presa.
– Que é ali dentro?
– Saberá Vossa Majestade – disse o carcereiro – que é o quarto da senhora [D. Ana Plácido].
O rei entrou, e a senhora foi chamada do corredor aonde tinha a seu asilo de trabalho.
Com a senhora veio um menino nos braços de sua ama.
D. Pedro V cumprimentou a presa, perguntando-lhe o tempo de sua prisão. Reparou no menino, e acarinhou-o, perguntando-lhe o nome e a idade. A mãe respondeu pela criancinha, e o rei deteve-se a contemplar a infeliz. Ao lado do monarca compungido estava o marquês de Loulé, pensando, porventura, que naquele dia tinha de banquetear-se no palácio de ima irmã daquela encarcerada.
Saiu Sua Majestade e, ao descer as escadas, proferiu as palavras iniciais deste capítulo:
Isto precisa de ser completamente arrasado.”
Camilo Castelo Branco (In Memórias do Cárcere)


Retrato de D. Pedro V



A viagem de D. Pedro V ao norte do país, em 1861, teve como principal objectivo a inauguração da Exposição Industrial Portuense, embora não se esgotasse apenas neste acontecimento.
O rei permaneceria no Porto entre os dias 24 e 28 de Agosto, partindo na madrugada do dia 29 para Braga, onde se demorou até ao dia 2 de Setembro. Retorna, às 10 da manhã do referido dia ao Porto e partirá para Lisboa definitivamente no dia 4 de Setembro.
D. Pedro V, ao contrário do que inicialmente se esperava, viajou para o Porto “numa carruagem mala-posta”, saindo de Lisboa às 3 horas da tarde do dia 22 de Agosto, parando em Caldas da Rainha, Leiria e Condeixa, até Oliveira de Azeméis, onde chegou no dia 23, pelas 8 horas e 37 minutos, pernoitando lá.
Entrou finalmente no Porto no dia 24 de Agosto por volta das 3 horas da tarde. No regresso, voltou de barco, no vapor Mindello, para Lisboa.
Sobre a Exposição Industrial Portuense diz, Pedro Joaquim Martins, In Seminário de História Contemporânea, UP-2011:

“decorreu no Palácio da Associação Comercial, ou da Bolsa, entre os dias 25 de Agosto e 16 de Setembro de 1861, dedicando oito galerias, numerosas salas e o pátio à exibição dos produtos, um autêntico estado da arte da indústria nacional ou “verdadeiro recenseamento das forças produtivas do país.”

Sobre a estadia de D. Pedro V, diz Pedro Joaquim Martins, In Seminário de História Contemporânea, UP-2011:

«A crónica jornalística d’ O Comércio do Porto destacava, nesses dias, a beleza da iluminação nocturna da cidade (curiosamente esta começou a ser iluminada a gás em 1855, ano da aclamação de D. Pedro V) e dava-nos conta do percurso do monarca desde a rua das Flores, onde “foi acompanhado por grande quantidade de povo e pelas pessoas que tinham formado alas com as tochas”, subindo para a Rua da Almada “sempre vitoriado por uma grande quantidade de cidadãos”, seguindo para a praça de Carlos Alberto e “dali para a rua dos Clérigos, dignando-se suas M. e A. subir ao adro da igreja, que estava devidamente acomodada para o receber, e dali poder observar o belo efeito da iluminação da calçada dos Clérigos e do fogo de vistas que teve lugar na mesma rua.”»

E Pedro Joaquim Martins, continua:

“(D. Pedro V assiste) dia 24 a um espectáculo da companhia portuguesa no teatro S. João, enquanto no dia 25 deslocou-se ao teatro Baquet, onde representou a companhia nacional de ópera cómica, tendo lá voltado algumas vezes em dias posteriores para assistir a representações de diferentes companhias.
No dia seguinte, antes da partida para Braga, a assembleia portuense organizou um baile dedicado ao rei, tendo a associação britânica organizado outro no dia 2 de Setembro. No baile da associação portuense, os jornais dão nos conta que “S.M. el-rei dignou-se a abrir o baile dançando uma contradança com a Sr.ª marquesa de Monfalin …”


Sobre o espectáculo que o rei assistiu no Teatro Baquet dizia o periódico “A Revolução de Setembro” em 26 Agosto 1861.

“No domingo, quando S.M. assistia ao espectáculo do teatro Baquet, houve um conflito entre o governador civil e o presidente da câmara municipal por causa da precedência dos camarotes […] A questão foi debater-se nos corredores para não incomodar os espectadores, e gastou-se ali legislação sobre o grave assunto, citaram-se autores de nomeada, foram chamadas as ordenações do reino, com um calor tal, que a cena já começava a ter espectadores. Por fim (oh! maravilhosa resolução) o governador civil convidou para o seu camarote o presidente da câmara, e a ordem restabeleceu-se”.


O monarca visitaria ainda o Hospital de Santo António e o Hospital Militar, tendo determinado que a cidade deveria ter um futuro Hospital Militar com a dignidade que a cidade merecia.
O Hospital Militar estava sedeado no convento de S. João Novo desde 12 de Maio de 1835 e aí se manteve até 20 de Maio de 1862, quando foi transferido para o Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco até à construção do Hospital D. Pedro V. 
Começado a construir em 1862, o novo hospital militar, teve como principal mentor precisamente o soberano, que entretanto já tinha falecido, tendo ficado, porém, para sempre, com o seu nome – Hospital Militar D. Pedro V (descontado um período de tempo em que alguém pretendeu reescrever a história).


Hospital Militar D. Pedro V no Lugar de Pardelhas c. 1900


Aproveitando a oportunidade, o rei decidiu também visitar algumas unidades industriais de envergadura da cidade.  
É o caso da fábrica de saboaria de Vale de Amores (V. N. de Gaia), depois de no baile da Assembleia Portuense (palacete da Ferreirinha à Praça da Trindade), dignar-se a prevenir o Sr. Visconde de Castro Silva, de que na manhã seguinte visitaria a sua fábrica.
A comitiva visitou também a fábrica de tecidos da Rua do Poço das Patas e a fábrica de estamparia do Sr. Joaquim António da Silva Guimarães, na Rua Fernandes Tomás e, desta vez, sem anunciar.
A fábrica no Poço das Patas (Campo 24 de Agosto) era a “Companhia de Fiação Portuense”.
A estamparia citada era a famosa “Estamparia do Bolhão”, cujos operários haveriam de levantar um obelisco junto das instalações, para que fosse lembrada a visita do rei.
O obelisco seria retirado em 1914 do local, apenas quando o mercado do Bolhão foi sujeito a obras e seria transladado para o cemitério do Prado do Repouso, onde ainda pode ser visto.
Encontra-se junto ao jazigo dos bombeiros falecidos.


Estamparia do Bolhão (à esquerda) e Mercado do Bolhão em obras (à direita) – Ed. Alvão


Na foto acima é possível observar o obelisco que os funcionários da Estamparia do Bolhão e da Fundição do Bolhão, que lhe era próxima, levantaram para comemorar a visita do rei e denominado “Memória a D. Pedro V” ou “Memória do Bolhão”.
No correr de casas da esquerda para a direita é possível divisar, ao fundo, a capela das Almas ainda sem azulejos, que só os ostentaria após 1929.


“Memória do Bolhão” no cemitério do Prado do Repouso - Ed. “andanhos.blogs.sapo.pt”


Depois de um salto a Braga e de uma breve estadia por lá, no dia 2 de Setembro, às 8 da manhã, D. Pedro V parte para o Porto, onde no dia 3 de Setembro, preside ao lançamento da primeira pedra do projecto que conduziria, em 1865, à inauguração do Palácio de Cristal, em terrenos do campo da Torre da Marca.
Inclusive, nesta viagem, o rei aproveita um dos últimos dias para inspeccionar as obras das linhas férreas em Valadares.
Da relação entre a cidade e o monarca sobram para memória, a estátua na Praça da Batalha, a Rua D. Pedro V e uma outra perpendicular a esta com o nome da rainha – Rua D. Estefânia; o museu Soares dos Reis; um quadro do rei no Tribunal da Relação e um outro que pode ser apreciado no Palácio da Bolsa; o obelisco do cemitério do Prado do Repouso.
Cerca de dois meses após esta visita ao Porto D. Pedro V faleceria.
Na cidade do Porto, D. Pedro V ficou ainda com o seu nome associado ao Museu Soares dos Reis, cujo edifício foi comprado por sua vontade e que tinha sido a residência da família Moraes e Castro.
Antes, tinha sido também o quartel-general de D. Pedro IV durante O Cerco do Porto, e a partir de 1840 tinha sido usado como residência real nas deslocações efectuadas pela família real ao Porto, nomeadamente por D. Maria II.
Após a visita régia de 1852, um jornal do jornal do Porto anunciou a venda do palácio "o qual tem lindas vistas sobre uma parte da Cidade, Vila Nova de Gaia, e o mar, capela, jardim, quinta unida de terra lavradia, que dá pão, vinho, fruta e água".
A promessa de venda do palácio só se concretizaria no reinado de D. Pedro V em 1861, que o adquiriu.
O Tribunal da Relação do Porto criou o Museu - Sala D. Pedro V, onde podemos apreciar um quadro de 1860 do monarca.
Cerca de 6 meses após a sua morte, a Escola Médica-Cirúrgica prestava homenagem a D. Pedro V, ao descerrar um seu retrato.
 
 
 

In jornal “O Comércio do Porto” de 7 de Junho de 1862




Retrato a óleo (1860) de D. Pedro V de A. M. Fonseca – Museu judiciário do Porto 



Estátua de D. Pedro V, c. 1900





Estátua de D. Pedro V, na Praça da Batalha – Fonte: “gisaweb”


A estátua de D. Pedro V é da autoria do escultor J. J. Teixeira Lopes (pai) e foi inaugurada em 1866.
A primeira pedra do monumento foi lançada em 11 de Julho de 1862.