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domingo, 18 de junho de 2023

25.195 Visita da rainha D. Maria II, ao Porto, em 1852

 
Em 1852, D. Maria II encetaria uma visita ao Norte do País, começada em 15 de Abril, em Lisboa.
Assim, a comitiva que acompanhava o séquito real começou essa viagem em 15 de Abril de 1852, em direcção a Vila Franca, a bordo do vapor “Terceira” (esteve ao serviço da Real Marinha desde 1836 a 1856), tendo seguido depois, em carruagem, para a Ota, onde pernoitou.
No dia 16, chegou às Caldas da Rainha; a 18, estava em Alcobaça; a 20, em Leiria; a 21, em Pombal; a 22, em Condeixa; a 23, em Coimbra, seguindo-se Buçaco, Águeda e Albergaria e, por fim, o Porto, com entrada a 29 de Abril, um Sábado, tendo por cá ficado até ao dia 5 de Maio, quando a comitiva real rumou ao Minho.
Antes da chegada à cidade invicta, aquela comitiva pernoitou nos Carvalhos, onde as autoridades portuenses e da região se deslocaram para integrarem a caravana nas últimas léguas da jornada, com a chegada à margem esquerda do rio Douro a fazer-se pela Rua Direita (actual Rua Cândido dos Reis).



Após quase setenta anos sobre a visita de D. Maria II, a Rua Direita, na confluência com a Rua do Conselheiro Veloso da Cruz, vendo-se, à direita, a casa de António Teixeira Lopes, mais tarde, a sua Casa-Museu



Dos preparativos realizados no Porto, da chegada real e da sua passagem pelo Minho, nos haveria de deixar rico testemunho o escritor Júlio Dinis, na sua obra "Serões da Província", no conto "Justiça de sua Majestade".
À data da visita real, Júlio Dinis tinha 13 anos e aquela obra é publicada cerca de dez anos depois, em fascículos, no "Jornal do Porto". No entanto, comparando com os factos narrados pelos periódicos de então, o escritor revela-se muito factual.


(…) no centro da Praça de D. Pedro terminava-se um obelisco, diversamente comentado pelos cadeirinhas do passeio do poente, pelos políticos do sul, pelos vigias e empregados municipais do norte, e do lado do nascente pelos grupos de elegantes, e literatos, que então estacionavam nas imediações do Guichard, aquele café que há de merecer uma menção honrosa na história da literatura portuense, se alguém se lembrar de a escrever um dia.
Júlio Dinis, In Serões da Província; Conto: A Justiça de Sua Majestade



Obelisco provisório instalado na Praça D. Pedro



Ao Porto, depois dessa deambulação pelo norte do País, haveria D. Maria II de voltar, aquando do retorno a Lisboa.
A rainha fazia-se acompanhar do rei consorte, D. Fernando II e dos príncipes que seriam, mais tarde, os reis D. Pedro e D. Luís.
O Presidente da Câmara do Porto era, à data, José António de Sousa Basto.
Chegada a comitiva real à margem esquerda do rio Douro, segundo Júlio Dinis, o atravessamento do rio é feito num escaler, desconhecendo-se a razão de não ter sido usada a ponte pênsil.
Na Ribeira, a rainha receberia, num palanque montado para o efeito, as boas-vindas.
A recepção à rainha continuou de acordo com a programação traçada, e depois do beija-mão inicial no Paço dos Carrancas, destacam-se, em resumo,  as visitas feitas ao Palácio de Entre-Quintas, onde tinha falecido há três anos atrás o Rei Carlos Alberto, ao Castelo da Foz, à Escola Médico-Cirúrgica, à Academia Politécnica, ao Museu, à Feitoria Inglesa, a vários estabelecimentos comerciais e fabris e, marcando ainda presença, no habitual baile de gala na Assembleia Portuense.
A Academia Politécnica viria, também, a receber a rainha D. Maria II, durante a qual, não perdeu a oportunidade, o professor de Matemática Joaquim Torcato Álvares Ribeiro, de lhe recordar a falta que faziam os laboratórios práticos e os prejuízos causados pela paragem das obras no edifico, decorrente da apropriação pelo Tesouro Nacional da dotação feita por D. João VI.
Na preparação da visita real à Academia tinha sido pela 1ª vez decidido pelo Conselho Académico, os lentes apresentarem-se de “casacas, coletes e calças pretas, sapatos e meias de seda preta e lenço branco ao pescoço”.
Na sequência da visita real foi ainda projectado um obelisco a erigir na Praça de Dom Pedro da autoria de Luís Augusto de Parada e Silva Leitão.
Detalhando, no dia seguinte, após a chegada, os monarcas convidaram muitas personalidades para jantar, entre as quais o visconde de Terena, conde Ferreira, visconde de Oliveira, visconde de Gouveia, visconde de Podentes, barão de Ancede, Pessanha, presidente da Relação, Passos José, Matos, Martins da Costa, Norton e Silva Amaral, João Elias da Costa, Manuel Castro Pereira, e general Ferreira.
Os monarcas visitariam, durante a sua estadia, o Hospital Real de Santo António, da Misericórdia do Porto, a Roda dos Expostos, na Cordoaria e o Museu. Estiveram ainda presentes nos bailes da Assembleia e da Feitoria.
Visitaram, igualmente, fábricas e, entre essas, a Fábrica de Tecidos de Manuel Joaquim, ao Carregal, a Fábrica do Bicalho, onde foram recebidos pelos directores Hargreaves e Mesnier e a Fábrica de Jacinto da Silva Pereira.
Manuel Joaquim Machado, proprietário da fábrica de tecidos, ao Carregal, era, à data, talvez, o industrial têxtil mais considerado da época, dando trabalho a 437 operários, sendo ainda um dos mais activos no associativismo industrial, fundador tanto da Associação Industrial do Porto como da Associação Industrial Portuense e tendo já estado presente na primeira tentativa associativa que, desde 1838, procurava a legalização da associação do sector.
A comitiva real visitaria, ainda, a Fábrica de Oleados de Domingos José da Fonseca Pascoal, na Rua das Fontainhas, a de Sedas do sr. Barbosa, a do sr. Raimundo, estabelecida ao cimo da Calçada do Luciano, hoje, a Rua da Escola Normal e a do sr. Silva, na Boavista.
No dia 1 de Maio, os monarcas visitaram a quinta da baronesa de Vilar e o jardim da marquesa de Terena e, ainda, deram beija-mão, no Paço.
No dia 3 de Maio, a visita foi ao palácio do barão do Bolhão, a que se seguiria, no fim da jornada, o baile na Feitoria.
A notícia destas visitas teria sido publicada em vários jornais.
A seguir se dá conta de uma delas na qual o periódico da capital “A Revolução de Setembro”, de 10 de Maio, transcreve uma outra, saída no portuense jornal “O Braz Tizana”, em 4 de Maio.
Refere-se à visita real ao palácio do barão do Bolhão.
 
 
 
 
In “A Revolução de Setembro”
 
 
 
A 5 de Maio, os reis, finalmente, lá seguiram para o Minho.
O jornal “ A Revolução de Setembro” transcreveria, alguns dias depois, o que tinha sido escrito no jornal “O Nacional” sobre a partida da comitiva real para o Minho.

 
 
“A Revolução de Setembro” de 11 de Maio de 1852

 
 
Por sua vez, o brasileiro “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro, de 11 de Junho de 1852, referia que na viagem para o Minho, a comitiva tinha almoçado, a convite do município da Maia, no Castedo, a sua sede de concelho desde a reorganização administrativa de 1836. A importância do sítio advinha de se encontrar à face da estrada Porto – Braga.
O Castedo é, hoje, Castêlo da Maia, sim, castêlo e não castelo, pois uma tal fortaleza existiu, de facto, para as bandas de Águas Santas. Por aqui, poderá ter existido, quando muito, uma torre de vigia.
Naquele almoço, teria sido servido um prato de lampreia.
 
 
“As dez horas chegaram ao Castedo no meio de povo imenso. A câmara recebeu SS. MM. e AA. debaixo do pálio, e conduziu a rainha, el-rei e os príncipes à sala do almoço. A rainha gostou muito da lampreia que lhe apresentaram, e a câmara anunciou com ênfase que por três vezes reformou a mesa das pessoas que acompanhavam SS. MM. o que denuncia fome canina servindo[?] a profusão dos nossos banquetes provincianos.”



Acontece que aquele dia, 5 de Maio de 1852, fora escolhido para inaugurar as carreiras de diligências entre o Porto e Vila Nova de Famalicão pela Companhia de Viação Portuense que, no entanto, não tinha ainda construído a ponte pênsil da Trofa. Por esta razão, a comitiva real teve que fazer o atravessamento do rio Ave, na famosa Barca da Trofa, antes da chegada a Vila Nova de Famalicão e ao fim da jornada.
Vila Nova de Famalicão tinha sido elevada a vila, por D. Maria II, em 1841.
Segundo Júlio Dinis, os soberanos ficam alojados em casa de familiares do Exmo. Sr. António Emílio Brandão.
De seu nome completo, António Emílio Correia de Sá Brandão (1821-1909) era filho de José Maria Brandão de Melo Cogominho Correia Pereira de Lacerda e Maria Emília Jácome Correia de Sá, 2.ª condessa de Terena, 2.ª viscondessa de São Gil de Perre e casado com Carlota Inês O'Neill.


 
Nesta casa, na Rua Direita, em Vila Nova de Famalicão, ficaram alojados D. Maria II, o rei consorte e os príncipes, em 5 de Maio de 1852 – Fonte: Google maps


Passados dois dias sobre a partida da cidade do Porto e tendo a urbe voltado já ao seu quotidiano habitual, os telégrafos informam que, na noite anterior, pelas onze horas, tinha deflagrado um incêndio na residência onde se alojavam os monarcas, em Barcelos, tendo a rainha escapado em trajes menores e o rei em ceroulas e descalço.
A Casa da Nogueira, assim se chamava a residência referida, ardeu por completo tendo, porém, sido possível salvar o recheio.
Ana Joaquina da Silveira era, à data, senhora da Casa da Nogueira (nela faleceu em 1858) e viúva (desde 1828) do negociante e procurador camarário, José Simões Gomes, o fundador da casa em 1816.
A comitiva real iria então ser alojada numa outra residência daquele que, um ano depois, mercê da sua hospitalidade, haveria de ser o barão da Retorta.

 
 
 

Casa da Nogueira, em Barcelos

 
 


Casa do barão da Retorta, no Largo José Novais (antigo Largo da Cadeia), em Barcelos
 
 
 
 
Prosseguindo o seu périplo, em 8 de Maio, a comitiva já estava por Viana que, por decisão da soberana, se tinha passado a designar por Viana do Castelo, desde 1848.
Seguir-se-iam na visita, Braga e Guimarães. A vila do Gerês seria retirada do itinerário, devido à má qualidade das estradas, e na caminhada de regresso a comitiva real ainda pernoitou em Barcelos, em casa de José Vilas Boas, um deputado barcelense e um conhecido miguelista tendo, para o efeito, desempenhado um papel de intermediação decisivo o Duque de Saldanha. Diz-se que os monarcas ficaram admirados pela opulência exibida pelo anfitrião.
No ano seguinte, desde o exílio, D. Miguel atribuía a José Vilas Boas o título de conde de Alvelos.
Consta que, em Barcelos, a monarca foi também agraciada com os doces da então Confeitaria Confiança que, mais tarde, cerca de 1880, passaria a ser a Confeitaria Salvação.
Este estabelecimento fundado por Joaquim Domingos Duarte em 1830 teria, depois, na sua gerência um seu sobrinho de seu nome Manuel Joaquim Duarte Ferreira, que ficou conhecido por dizer aos seus clientes: "pela minha salvação que é da última fornada". Por isso, perdeu o apelido Ferreira e passou a Salvação e o estabelecimento mudaria também de nome.
Depois de muitas décadas de portas abertas, a célebre confeitaria, na década de 1990, fecharia as suas portas.
O retorno da comitiva real a Lisboa, passaria pela cidade do Porto e  aconteceu entre 18 e 22 de Maio de 1852.
A entrada na cidade do Porto foi antecedida por uma visita real ao Concelho de Valongo.

 
 
“O Diário do Governo, do dia 24 de maio de 1852, na primeira página, publica uma carta do Governador Civil do Porto, Visconde de Podentes, dirigida ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, relativamente à visita que a Comitiva Real (Rainha D. Maria II, seu marido com o título de Rei, D. Fernando II, e os príncipes, que, mais tarde, viriam a ser reis de Portugal, D. Pedro e D. Luís) fez ao Norte do Reino, e onde se faz referência ao almoço que foi oferecido a Suas Majestades, nesta cidade, no lugar da Travagem, por parte da Câmara de Valongo em forma de gratidão pela criação do novo concelho de Valongo.”
“avozdeermesinde.com”
 
 
A seguir se dá conta de teor da carta do Governador Civil do Porto a propósito da passagem real por Valongo.
 
 
«Governo Civil do Districto do Porto / Ill.mo e Ex.mo Sr.
Tenho a honra de participar a V. Ex.ª, que tendo Suas Magestades e Altezas saído hoje de Santo Thyrso ás oito horas da manhã, e tendo-se dignado acceitar um bem servido almoço que tinha feito preparar, e lhes ofereceu na ponte da Travage a Camara de Vallango, a sua entrada se verificou nesta cidade pelas duas horas da tarde, dirigindo-se Suas Magestades á Real capella de Nossa Senhora da Lapa, aonde assistiram a um solemne e pomposo Te-Deum, preparado e dirigido pela irmandade da mesma capella, no qual celebrou S. Ex.ª o Bispo da diocese. (...) / Deos guarde a V. Ex.ª / Porto 18 de Maio de 1852, ás quatro horas da tarde. = Ill.mo e Ex.mo Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães, Ministro e Secretario de Estado dos negocios do Reino. = Governador civil, Visconde de Podentes».
 
 
Aproveitando a presença da Rainha, e quando o protocolo já se mostrava completamente livre de compromissos, um grupo de senhoras da alta sociedade resolveu dar uma festa, na Quinta das Águas Férreas, programando-a para a ante-véspera do dia de retorno dos monarcas e respectiva comitiva a Lisboa.
 
 
 

Palacete da Quinta das Águas Férreas
 
 
Sobre esta festa, fala-nos também um texto inserido n’ O Tripeiro, Série 5, Ano 9, nº 12, com o título de  As consequências de um dia de chuva”.
 

“Em 1852, em honra da visita ao Porto da Rainha D. Maria II e de el-rei D. Fernando, a alta sociedade da cidade decide organizar uma festa elegante e original ao ar livre, sendo escolhido para tal efeito a Quinta das Águas Férreas, considerada na altura uma das mais belas do Porto. De modo a preparar tudo para a festa, terraplanou-se os terrenos e cobriu-se de saibro vermelho um campo para nele se improvisar uma esplanada. Foram contratados carpinteiros para construir barracas para os fornos e para as cozinhas ao longo dos muros de Cedofeita. Levan­taram-se vários tablados e construiu-se um imenso pavilhão quadrado, coberto com um toldo, para dançar e proteger do sol, sendo as mesas para o almoço colocadas debaixo das laranjeiras. Infelizmente a festa não terminou nas melhores condições, devido à intensa chuva que nes­se dia se fez sentir”. 
 
 
A comissão organizadora da festa era constituída pela Marquesa de Terena, Condessa de Terena, Viscondessa de Alpendurada, Viscondessa de Balsemão, Viscondessa de Castro Silva, Baronesa de Ancêde, Baronesa do Bolhão, Maria Ermelinda Woodhouse e muitas outras senhoras da alta sociedade, tendo como adjuntos António Bernardo de Brito e Cunha, Francisco de Oliveira Chamiço, Ricardo de Clamouse Brown, José Pedro Barros Lima e mais uns quantos.
Quem não esteve pelos ajustes, foi o S. Pedro. Foi água até dizer basta. E, lá se perderia uma oportunidade, para as meninas casadoiras serem apresentadas na corte. 
O Palácio das Águas Férreas, após várias utilizações ao longo dos anos está, hoje, na posse da Direcção Geral dos Serviços Prisionais.
 
 
 
Palácio das Águas Férreas, na Rua do Melo, nº 5 - Fonte: Google maps



Por seu lado, o rei consorte, D. Fernando II recebia, nos últimos momentos da estadia no Porto, no Palácio dos Carrancas, alguns pintores.
Entre outros, foi o monarca visitado por João Eduardo Malheiro, um pintor de quem se esperava muito sucesso, conforme narra notícia abaixo.
 
 
“O snr. João Eduardo Malheiro obteve a honra de ser apresentado a S. M. El-Rei, para lhe oferecer as seguintes obras do seu pincel e curiosidade.
Dois quadros de costumes do Minho em ricos caixilhos, e uma figura de três palmos de altura – verdadeiro modelo duma vareira, tanto nas formas do corpo como no vestuário, que era todo de fazendas próprias do costume.
S. M. vocalmente lhe dirigiu muitos elogios, e ontem lhe mandou em testemunho do seu Real apreço uma rica abotoadura de ouro para colete pelo seu ajudante e exm.º barão da Foz. O snr. Malheiro é nosso patrício, e como tal faz honra à cidade invicta.”
In “O Jornal do Povo”, de 22 de Maio de 1852

 
 
João Eduardo Malheiro, com formação adquirida em Itália, dada a impossibilidade de viver apenas da pintura, após a situação narrada esteve, praticamente, inactivo, vivendo do salário que obtinha do seu emprego na alfândega do Porto.
Apareceria publicamente, após quase dez anos, concorrendo à Exposição Industrial Portuense, em 1861, realizada entre Agosto e Setembro, na qual a curiosidade maior era uma enorme máquina a vapor da Fundição de Massarelos e uma outra hidráulica produzida na fundição do Bicalho, e onde os visitantes poderiam também encontrar produtos  químicos  e  farmacêuticos,  fazendas,  sabonetes,  móveis,  vestuário,  ourivesaria, cristais, cerâmica, etc., além de esculturas, pinturas e fotografias.
João Eduardo Malheiro obteria uma medalha de 2ª classe.
Apresentar-se-ia, depois, João Eduardo Malheiro, na 1ª Exposição Internacional do Porto, em 1865, aquando da inauguração do Palácio de Cristal, tendo recebido um grande elogio do pintor Francisco José Resende e ganhou uma Menção Honrosa.
 
 
“O snr. Malheiro tendo deixado de ser artista de profissão há muitos anos, ainda consagra à arte o mesmo amor e dedicação dos tempos passados: só uma bela alma como possui, alma de verdadeiro artista, lhe daria coragem para aproveitar os curtos instantes que lhe restam dos seus trabalhos quotidianos, empregando-os na pintura. É digno de verdadeira estima um cavalheiro tão inteligente e modesto.”
Francisco José Resende

 
 
Em 1867, Malheiro voltaria ao Palácio de Cristal, apresentando seis paisagens, mas não obteria qualquer reconhecimento neste certame.
Em 1877, apresenta três quadros, durante a Exposição Hortícola realizada no Palácio de Cristal.
Após este ano, a vida do pintor é eclipsada, desconhecendo-se a data do seu falecimento e actividade artística deste pintor amador (impossibilitado de viver exclusivamente da pintura), embora se saiba que, na primeira metade da década de 1880, ainda procedia a obras num seu prédio da Rua de Santa Catarina.
Nascido no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, a 24 de Junho de 1821, cursou Filosofia, em Coimbra, e, em meados da década de 1840, partiu para Roma e Veneza, aí fazendo estudos de pintura.
Regressou em 1847, ao Porto, e em Outubro de 1848, apresentou alguns trabalhos na Exposição da Academia Portuense de Belas-Artes, instituição fundada em 1836.

 
 
“Os dados conhecidos sobre a vida e obra de João Eduardo Malheiro são hoje muito escassos, mas, simultaneamente, bastante significativos. O estudo deste homem transporta-nos ao mundo dos pintores amadores dos meados do século XIX, universo muito peculiar, já que não se limitava a autores de segundo plano, mas envolvia nomes sonantes do nosso Romantismo. Por exemplo, Leonel Marques Pereira era militar de carreira, Isaías Newton trabalhava nos caminhos de ferro, Luís Ascêncio Tomasini comandava navios e Manuel Maria Bordalo Pinheiro era oficial na Secretaria da Câmara dos Pares do Reino.”
Cortesia de António Mourato - Breves apontamentos para a biografia do pintor João Eduardo Malheiro

 
 

Paisagem (assinatura e data no canto inferior esquerdo), n.º inv. 254 Pin CMP/MNSR; Óleo sobre tela (35,8x51,6), 1867. Proveniente da doacção Osório e à guarda do Museu Nacional Soares dos Reis

 

 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

(Continuação 5) - Actualização em 18/06/2018

21.6 Reitoria da U. P. e antiga Faculdade de Ciências (Colégio dos Meninos Órfãos e Igreja de Nossa Senhora da Graça)


O edifício situado na Praça de Gomes Teixeira e ocupado pela reitoria da U. P., foi construído durante o século XIX, segundo projecto de José da Costa e Silva, alterado depois por Carlos Amarante tendo, em termos da sua ocupação como estabelecimento de ensino, aí começado por funcionar a Academia Real da Marinha e do Comércio a partir de 1803, tendo passado em 1836 a Academia Politécnica, e a Faculdade de Ciências em 1911.
Foi construído no espaço do antigo Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça.
De arquitectura neoclássica, revela a influência do estilo introduzido pela construção do Hospital de Santo António.
As vicissitudes do edifício foram incontáveis, nele coexistindo, numa ou noutra época, o Colégio dos Órfãos, a Academia Real de Marinha e Comércio, Hospital militar (durante o Cerco do Porto), a Academia Politécnica,  a Academia Portuense de Belas Artes, o Liceu Nacional, o Instituto Industrial (antecessor do ISEP; até 1933), a Faculdade Técnica (antecessora da FEUP; até 1937), a Faculdade de Ciências desde 1911 e a Faculdade de Economia (até 1974).



Vista aérea do Edifício da Reitoria. À esquerda, é visível o Mercado do Anjo
 
 
 
Nos sótãos, visíveis na foto acima, do Edifício da Reitoria, se instalou a Faculdade de Economia do Porto, a partir de 1953, sucedendo ao Centro de Estudos Económicos e Financeiros, da alçada da Associação Comercial, que funcionava no Palácio da Bolsa desde Dezembro de 1947.
O professor Fernando Seabra seria o primeiro director da Faculdade de Economia.




Edifício visto da Cordoaria na actualidade



Edifício visto actualmente da Praça Gomes Teixeira – Ed. “o_tripeiro.blogs.sapo.pt”



Em baixo, temos uma fotografia tirada do Largo do Viriato. Vê-se a torre sineira e parte cimeira da fachada da Igreja de Nossa Senhora da Graça e do Colégio dos Meninos Órfãos, edifício demolido para a construção da actual Reitoria da Universidade do Porto.
 
 
 
 

Ao fundo a igreja de Nossa Senhora da Graça e à esquerda o Hospital Santo António – Ed. Engº João Allen (Colecção de Alfredo Ayres de Gouvêa Allen)




Vista da Praça dos Leões (Escola Politécnica em construção) – Gravura de J. Villanova em 1833



Vista do Largo do Carmo (Escola Politécnica em construção) – Ed. J. Villanova em 1833



Como se pode observar das gravuras anteriores, a fachada principal da Igreja de nossa Senhora da Graça, estava voltada para o actual Largo de Parada Leitão (antigo Largo do Carmo).
Em 1 de Abril de 1909, os moradores no Largo Sousa Avides, naquele que tinha sido o Largo do Carmo e, antes, Passeio da Graça, solicitam ao Município para que atribua o antigo topónimo ao local.




Planta da zona do Carmo

Legenda:
1. Oficina do Lopes, ferrador
2. Igreja de Nossa Senhora da Graça
3. Praça Carlos Alberto
4. Jardim da Cordoaria
5. Conjunto habitacional que seria demolido e onde surgiu a Praça da Universidade, hoje Praça Parada Leitão
6. Conjunto habitacional que seria demolido e onde surgiu o Largo da Escola Politécnica, hoje o Largo Abel Salazar
7. Colégio dos Orfãos
8. Viela do Assis
9. Casa do Assis



“Em frente das igrejas do Carmo e do seu terreiro, interposta a rua que daqueles templos recebeu o nome, havia um largozinho com uma casa térrea ao sul (a oficina do Lopes ferrador); e à ilharga ocidental desse recinto e da oficina abria-se, para o Campo da Cordoaria, a Viela do Assis — atalho estreitíssimo(…)
Em 1861, quando eu fiz exame de instrução primária funcionava o Liceu Nacional no antigo casarão dos Órfãos.
Fonte: Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Praça Nova Edição da Renascença Portuguesa, na Tipografia da Renascença Portuguesa, rua do Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (pág. 80, 81 e 82)



O escritor Alberto Pimentel recorda a zona e descreve a sua evolução na transição dos séculos:


As casas que desde a esquina da rua do Carmo contornavam a oeste aquele insignificante largo, incluindo a do médico Assis, ainda hoje estão de pé, e leves modificações teem experimentado.
Tudo o mais é diferente. Foi demolida a igreja da Graça, completaram-se as fachadas norte e poente da Academia Politécnica, desapareceram as casas dos Passeios da Cordoaria e a que, em frente das igrejas do Carmo, era a oficina do Lopes. A Viela do Assis sumiu-se sem deixar saudades a ninguém. Diante do largo do Carmo (muito ampliado) rasgou-se a clareira que patenteia as árvores e canteiros do jardim da Cordoaria.”



Foto do início do século XX, com a Praça da Universidade, depois, Parada Leitão



São visíveis na frente do quarteirão, à esquerda, a Tipografia e Papelaria e o Hotel Portugal.



Vista da Cordoaria (Escola Politécnica em construção) – Ed. J. Villanova em 1833



Nos anos 80 do século XIX o edifício da Academia apresentava do lado Sul (virado para a Cordoaria) e Nascente, o aspecto da gravura seguinte, com a respectiva fachada ainda incompleta.



João Barbosa de Lima, João Batista Coelho Júnior (?-1900) e José Pedroso Gomes da Silva (1823-1890), Academia polytechnica do Porto in Archivo Pittoresco, n.º 9, 1886. (pág.249)



Poucos anos mais tarde, estava já construído, o corpo central da fachada Sul, que, na gravura abaixo, está em execução.



Pormenor de uma das gravuras do Álbum de fotogravuras do Porto. Editor Leopoldo Wagner. Lisboa 1900


Como se pode apreciar a seguir, ainda faltava avançar para ala poente do edifício.


Perspectiva da fachada Sul do edifício da Universidade actualmente – Fonte: Google maps




O local onde seria erguida a Faculdade de Ciências era, à data do começo da sua construção, ocupado pela Igreja de Nossa Senhora da Graça e por um edifício anexo onde funcionou o Colégio dos Meninos Órfãos e, também, em parte da sua superfície, pela Real Academia de Marinha e Comércio.
Durante o período do Cerco do Porto (1832/1833), o edifício foi ocupa­do por um hospital militar.
Entretanto, as au­las da Academia do Comércio e Marinha decorreram no palácio do visconde Balse­mão, na praça então chamada dos Ferradores e hoje de Carlos Alberto.
À Aula de Comércio e Marinha sucederia a Escola Politécnica, em 1836, mas eram praticamente inexistentes os avanços na construção das novas instalações do complexo.
Entretanto, em meados do século, o projecto de Carlos Amarante seria reformulado para atender a uma nova ocupação da área a construir, em que teria uma acção de destaque o engenheiro Gustavo Adolfo.





Real Colégio de Nossa Senhora da Graça ou Colégio dos Meninos Órfãos




O Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça ficou a dever-se ao padre Baltasar Guedes (1620-1693), que obteve autorização em 1649 da Câmara do Porto, para o instalar junto da Ermida de Nossa Senhora da Graça.
Em 25 de Março de 1651, foi o colégio inaugurado e, a partir desse momento, não mais parou Baltasar Guedes de percorrer o País e até por intermédio de um seu irmão, o Brasil, angariando donativos para a obra de bem-fazer. Registe-se a curiosidade relativamente ao tal irmão, Pantaleão da Cruz, de ser surdo-mudo de nascença, o que não o impediu de durante anos, no outro lado do Atlântico, de ter recolhido imensas esmolas e donativos que transferia para o Porto.
À data da inauguração, o colégio abriu com sete meninos, mas, pouco depois, já eram doze.
Em 25 de Novembro de 1651, já Baltazar Guedes lançava a primeira pedra para edificação da nova igreja, que teria inauguração em 1681.
Os proventos da instituição aumentariam quando o Cabido da Sé autorizou os meninos do colégio a serviram com cruz processional em enterros e festas religiosas.
Em 1671, o colégio era ocupado por 35 alunos.
In “O Tripeiro”, Volume 2, sobre o padre Baltasar Guedes escrevia-se: 


“Todos os domingos e dias santificados fazia práticas públicas, para instrução e moralidade do povo.
Saía com os meninos pelas ruas da cidade, já a pedir esmolas para eles, já a buscar água que trazia às costas. Com os órfãos ia aos hospitais varrer as enfermaria e cuidar dos pobres repartindo com eles as esmolas que se davam aos seus pupilos. 
Criou no seu aposento dois enjeitados – um de dois anos de idade, outro de 9 meses (este com leite de cabra). Com as mãos trabalhava em franjas, e com o pé embalava a criança, cuidando de ambos, como poderia fazer uma extremosa mãe. À sua caridade e diligência deve a idade do Porto a Casa dos Expostos". 



O prestígio do padre, ordenado em 1644, era imenso e veio a morrer com a maior consternação dos portuenses em 1693.
Durante a sua vida, o padre Baltazar Guedes viu sair do seu colégio para servir a sociedade 212 religiosos, 39 sacerdotes, 8 mestres de teologia, 6 doutores de Cânones e Leis, 2 qualificadores da Inquisição e um Bispo.
Durante a sua vida, reedificou ainda a Igreja do hospital de S. Lázaro e instituiu três confrarias: uma de clérigos, de S. Pedro; outra de clérigos de S. Filipe Nery; e outra de seculares, da Senhora da Boa-Morte.
Em 1803, numa ala do colégio foi instalada a Aula da Academia do Comércio e Marinha, quando era reitor do colégio o Padre Bernardo Joaquim Gomes de Pinho.
Com projecto do engenheiro Carlos Amarante o novo edifício destinava aos orfãos um andar superior, o que nunca veio a acontecer. Então, os orfãos foram relegados para uma área interior, com condições muito precárias e o projecto do renomado engenheiro avançava muito lentamente.
Trinta anos depois, em 1832, devido ao estado de ruína em que se encontrava a igreja, já não foi possível realizar a festa a Nossa Senhora da Graça.
No relatório da Câmara de 1873, lia-se que “os órphãos vivem em casa sem ar e sem luz, parecendo que estão num cárcere ou numa penitenciária!”.
Em 1881, o mesmo vereador da Câmara afirmava “este estabelecimento, edificado em terreno pertencente aos órphãos, e que, segundo o decreto de 9/2/1803, devia ser construído com o fim principal de os beneficiar, tornou-se, no tempo actual, o seu maior inimigo”. Isto 80 anos depois do início das obras!
Tendo sido, o colégio, indemnizado pelo estado, num valor de 58.755$200 reis, mudou para a Rua dos Mártires da Liberdade, até que fossem para casa própria.
Em 1903, o Colégio deixou as suas instalações na Cordoaria e, depois, da passagem pela Rua dos Mártires da Liberdade, n.º 237, onde, actualmente, estão sedeados os “Albergues Nocturnos do Porto”, foi ocupar o edifício do antigo Seminário de Santo António que tinha ardido durante o Cerco do Porto, no Monte do Prado do Bispo, hoje Largo do Padre Baltasar Guedes que nessa época foi Avenida do Padre Baltasar Guedes e no local no antigo Olival, viria a ser construído o edifício da Universidade.
O Monte do Prado ficou célebre na história do Porto, além de outros motivos, por ter sido por ele que as tropas anglo-lusas entraram na cidade, em 12 de Maio de 1809, para expulsar os soldados franceses do general Soult, que abandonaram o Porto em fuga desordenada. A escalada do monte foi o culminar de uma hábil manobra das tropas portuguesas e inglesas, em que colaboraram, com entusiasmo e muita dedicação, os próprios habitantes da cidade.
Sabe-se, por exemplo, que na véspera da chegada do exército anglo-luso à margem esquerda do Douro, um barbeiro do Porto saiu da cidade, ainda noite cerrada, dentro de um barquito que foi deixar no outro lado do rio, junto da Capela do Senhor de Além. Horas mais tarde, o mesmo barbeiro, mais dois outros indivíduos, vieram naquele barco ao cais do Porto buscar mais três barcos maiores, que viriam a ser utilizados pelos oficiais e soldados anglo-lusos para atravessarem o Douro.
O Monte do Seminário tem este nome porque, no edifício onde agora estão os Salesianos e, antes, esteve o Colégio dos Órfãos, funcionou o Seminário Diocesano de Santo António, velha pretensão do bispo D. João Rafael Mendonça, desde 1783.
Seria fundado em 21 de Julho de 1804, pelo então bispo do Porto, D. António de S. José de Castro, que conseguiu a provisão para a sua construção em 29 de Dezembro de 1800.
As obras de construção prosseguiram mesmo durante a ocupação francesa. O edifício era grandioso. Ainda hoje, domina o cume do monte com a sua imponência. O primeiro ano lectivo do seminário foi o de 1811/1812. Em 1832, ano da entrada no Porto das tropas liberais, ainda tinha aquelas funções e funcionava em pleno.
Completamente em ruínas, após as lutas do Cerco do Porto, este edifício seria o destino do Real Colégio de Nossa Senhora da Graça dos Meninos Órfãos da cidade do Porto, com a planta da nova obra a ser apresentada a 30 de Novembro de 1899 e o projecto aprovado a 13 de Setembro de 1900, após o que aquela instituição, fundada por Alvará Régio de D. João IV, datado de 30 de Janeiro de 1650, ter passado por outros locais da cidade.
Assim, para o prédio da Rua dos Mártires da Liberdade (antiga Rua da Sovela), nº 237, foi o colégio em 1901 até que, em 1903, rumou ao Seminário, no Prado do Repouso.
Naquela morada, na antiga Rua da Sovela, se acabariam por estabelecer os Albergues Nocturnos do Porto, pois, em 1911, sob a acção do benemérito Arnaldo Ribeiro de Faria, o prédio seria adquirido e restaurado para o efeito pretendido.




O antigo edifício do Seminário de Santo António, em 1910, no monte a que deu o seu nome – Ed. Foto Guedes


Bairro de lata no Monte do Seminário, na década de 1940



O edifício do antigo Seminário à esquerda e o Areinho à direita da Ponte Maria Pia


A capela do Seminário seria inaugurada em 1906, pelo Bispo do Porto D. António Barroso.
Estava dotada de quatro altares em talha, transferidos da antiga Igreja de Nossa Senhora da Graça.
O colégio, por sua vez, estava dotado de espaços oficinais para servir a aprendizagem dos alunos.
De entre muitos alunos que, mais tarde, se destacaram, uma referência especial para o arquitecto Rogério de Azevedo.
Em 1951, por proposta da Câmara Municipal do Porto, a Direcção e Administração do Colégio foi entregue aos Salesianos que dão continuidade à obra e às intenções do P. Baltasar Guedes, cujo método educativo e destinatários estão em perfeita sintonia com os de S. João Bosco, seu fundador.



Vista aérea, actual, do Monte do Seminário e do edifício onde funcionou o Seminário





Igreja de Nossa Senhora da Graça



A Igreja de Nossa Senhora da Graça teve a sua primeira pedra lançada em 21 de Novembro de 1651, levantada no lugar em que há muitos anos se encontrava uma pequena ermida da mesma devoção, tendo a Câmara Municipal contribuído com vinte mil reis para o arranque das obras.
A igreja tinha onze altares e, num deles, encontrava-se a Senhora da Conceição, pertencente ao regimento dos militares da cidade, numa irmandade instituída em 1697, pelo coronel António Monteiro de Almeida, tendo a sua celebração própria no quarto Domingo de Agosto, «com todos os cultos eclesiásticos militares».
A igreja e o colégio recebiam água vinda de Paranhos.

 

 

“Baltasar Guedes, morreu a 6 de outubro de 1693, e foi sepultado «no pavimento da porta travessa que sai da igreja, do colégio para o claustro». Numa parede próxima, gravou-se o singelo epitáfio: Aqui jaz o primeiro reitor e fundador deste colégio dos órfãos Baltazar Guedes a seis de Outubro de mil seiscentos e noventa e três. Como legado perpétuo, aos seus sucessores deixou a obrigação de se cantar «uma missa de requiem pelas almas dos justiçados, com cinco responsos no lugar de suas sepulturas, que é de fora da porta do Olival, abaixo da primeira torre do muro à mão direita da parte do sul, onde os vão rezar em comunidade os mesmos meninos órfãos com o seu padre vice-reitor em uma capela que está junta ao mesmo cemitério»”

Cortesia de Nuno Cruz

 

 

Alguns anos antes do começo efectivo da demolição da igreja, já ela vinha sendo paulatinamente desmantelada.
Assim, em 1885, três dos sinos das suas torres, pois o quarto, pelas suas dimensões, não caberia no campanário de destino, foram arrematados, em hasta pública, por 323.600 rs, e seguiram para o serviço da nova igreja de S. Paio de Oleiros que estava a ser edificada.
Na época constou que esta transacção teve a intervenção de D. Antónia A. Ferreira…
A Igreja de Nossa Senhora da Graça, começou a ser demolida em Maio de 1899, tendo a arte sacra nela existente sido transferida a título provisório para o edifício dos Paços do Concelho.
Naquela Igreja de Nossa Senhora da Graça, entretanto demolida, além da imagem da padroeira oferecida pela rainha D. Mafalda, existia, também, uma imagem de S. Sebastião que tinha pendente da seta que atravessava o coração da imagem, uma chave de ouro que, segundo a lenda, pertencera à Porta do Sol da muralha Fernandina. Supostamente, a chave estaria ali, para que o santo protegesse a cidade da peste.
Todas a relíquias acabariam por desaparecer sem deixar rasto, à excepção do cruzeiro. 
Este cruzeiro, conhecido por “Senhor dos Assobios”, que tinha já uma atribulada existência, encontra-se no cemitério Prado do Repouso, na parte voltada para o rio Douro, numa espécie de miradouro.
Houve no Porto dois calvários. Um no local onde em 1704 se levantou o convento das carmelitas e outro junto da Porta do Olival, denominado Calvário Novo.
Coroava o Calvário Velho um antigo Cristo de granito, velhinho de séculos, que foi transferido para o Recolhimento do Anjo em 1701, porém quando este foi demolido, passou para o Colégio dos Meninos Órfãos do Padre Baltasar Guedes. A imagem foi para qualquer canto e a coluna, talvez, para travejamento do edifício.
Quando, em 1901, o colégio teve que abandonar as instalações que vinha ocupando e enquanto não eram albergados na sua casa actual, ocuparam, provisoriamente, instalações alugadas em edifício pelo Município, tendo a imagem do Cristo do Calvário Velho sido levada para o mausoléu das freiras de Santa Clara no cemitério do Prado do Repouso, que era vizinho de um outro mausoléu: o das freiras do convento de S. Bento da Ave-Maria.
Após a vitória dos liberais em 1834, dos claustros dos conventos e mosteiros foi feita a inumação dos restos mortais das religiosas que lá estavam sepultadas. Para recolher essas ossadas, a Câmara mandou construir dois mausoléus no cemitério do Prado do Repouso: um para as ossadas das monjas beneditinas, outro para os restos mortais das clarissas.
Mais tarde, porém, a mesma Câmara mandou demolir o túmulo das freiras de Santa Clara e o Cristo do Calvário Velho foi transladado para um outro local.



"A antiga cruz do campo do Calvário Velho saiu incólume da destruição que atingiu o mausoléu das freiras de Santa Clara e foi colocado na parte superior do mais novo talhão do cemitério do Prado do Repouso. Está em destaque numa espécie de varandim em forma de meia laranja e passou a ser conhecido (sabe-se lá porquê), por Senhor dos Aflitos. A história milenária desta veneranda relíquia portuense foi contada, pormenorizadamente, pelo padre Francisco Patrício, nas páginas de "O Comércio do Porto" de 22 de Fevereiro de 1903”.
Com a devida vénia a Germano Silva



In jornal "Comércio do Porto" de 22 de Fevereiro de 1903





Aquele cruzeiro, também chamado do “Senhor dos Assobios”, terá pertencido, segundo a lenda, à capelinha mandada construir por D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, em louvor de Nossa Senhora da Graça, em 1160, dizem alguns, sem quaisquer provas.




O Senhor dos Assobios actualmente



O Cristo do Calvário Velho ou Senhor dos Assobios