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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

25.292 A urbanização da antiga Rua do Castelo do Queijo (Avenida de Montevideu)

 
Em 15 de Fevereiro de 1865, o empreiteiro Manuel José da Silva arrematou, no 3º Bairro Fiscal, pelo preço de 3 590$000 réis, a empreitada para a construção do 2º lanço (Carreiros - Castelo do Queijo) da estrada marginal Foz - Leça da Palmeira.
Aquele lanço de via que, hoje é, desde 1926, a Avenida de Montevideu, foi, noutros tempos, a Estrada da Marginal ou Rua do Castelo do Queijo, tendo sido começada a ser urbanizada, ainda antes do fim do século XIX.
A Avenida de Montevideu desenvolve-se desde o seu entroncamento com a Rua do Molhe até ao largo onde se encontra o Forte de São Francisco Xavier (Castelo do Queijo).



Início da Rua do Castelo do Queijo, a sul, na Rua do Molhe - Planta de Telles Ferreira de 1892




À data da publicação da planta acima, as construções que se veem tinham licença de construção passada pelo município de Bouças, pois, só a partir de Novembro de 1895, devido à abertura da Estrada da Circunvalação, a área passou a fazer parte do Porto.
Na foto abaixo, a Rua do Molhe, à direita, faz a separação das avenidas Brasil e de Montevideu. 

 
 
 
 

O carro eléctrico, vindo do Castelo do Queijo, pela Avenida de Montevideu (onde se situam uns magníficos palacetes), vai entrar na Avenida Brasil

 
 
Naquele mesmo local esteve, nos primeiros anos do século XX, a “Casa Gianola”.
 
 
 

Casa Gianola – Confeitaria, Salão de Chá e Restaurante, em chalet na esquina da Rua do Molhe e Avenida de Montevideu, pegado à capela de Nossa Senhora de Lurdes – Cortesia de Foto-Porto
 
 
 
Todo o complexo habitacional da Avenida de Montevideu está instalado no lado nascente da avenida e, no lado poente, hoje, apenas está uma construção – a antiga Estação de Zoologia Marinha (Aquário Augusto Nobre).
No início do século XX, um outro prédio se encontrava no areal, como se pode observar na foto seguinte e que teria sido demolido para arranjo do local.

 
 

Rua do Castelo do Queijo, ainda com casa sobre a praia, em 1903 - In revista "Brasil-Portugal”, nº 96, de 16 de Janeiro de 1903

 
 
Em 1920, foi começado a executar um projecto para prolongamento da Avenida Brasil.
Por isso, foi necessário fazer diversas expropriações em terrenos confinantes com o areal a norte do Molhe de Carreiros.
Eram terrenos de cultivo, mas a expropriação situada mais a norte incidiu sobre uma casa de rés-do-chão, andar e águas furtadas, aquela que a foto acima revela.
A detentora da posse do imóvel era Clementina Pinto Leite (1840-1921), a condessa de Penha Longa, que falecida no decorrer do processo de expropriação, originou que João Pinto Leite (1873-1941), 3.º visconde dos Olivais, passasse a ser o procurador dos proprietários.
Clementina Libânia Pinto Leite foi casada com Sebastião Pinto Leite, o conde da Penha Longa (1815-1894) e, já viúva, em 1896, vai solicitar, com a identidade de condessa da Penha Longa, autorização para construir uma casa, na Rua do Castelo do Queijo, que obterá a licença n.º 415/1896.
 

Vista aérea da Avenida de Montevideu, c. 1935

 
 
Assim, desde há algumas décadas, caminhando pela Avenida de Montevideu, no sentido do Castelo do Queijo, partindo da “Esplanada 28 de Maio” (Esplanada do Molhe), encontrávamos alguns palacetes de algumas famílias abastadas.
Alguns deles tinham a particularidade de ter acesso, também, pela Rua de Gondarém.
 
 
 
Palacete Andresen
 
 


Palacete Andresen, depois, da família Moreira
 
 
Este palacete, projecto do engenheiro António Silva, foi das primeiras construções a fazerem parte da Estrada do Castelo do Queijo, tendo sido mandado erguer por Alberto Henrique Andresen.
Teve licença de obra n.º: 228/1897.
Pertenceu, depois, até aos nossos dias, à família Moreira, sendo que, em 1924, já era seu proprietário Joaquim Alves Moreira.
Em 2017, o palacete foi vendido ao mesmo operador hoteleiro que lançou o Hotel Teatro, na baixa da cidade, à Rua de Sá da Bandeira.
 
 
 
Casa do Barão de Fermil
 
 
Esta moradia, na Avenida de Montevideu, n.º 66, na primeira década do século XX, era propriedade do negociante de vinhos de nacionalidade inglesa, Albert Mathias Feuerheerd (1870 - 1933), com escritórios na Rua do Rei Ramiro, em V. N. de Gaia.
Para a moradia, Albert Mathias Feuerheerd ainda solicitava, em 1919, à Câmara do Porto, uma autorização para nela executar obras que receberá a licença de obra n.º: 114/1919.
A residência, em questão, passará depois para as mãos do Barão de Fermil e, após ele aí ter falecido, será morada da sua filha, Delminda Sampaio Machado, casada com Dr. Francisco da Cunha Freitas Mourão de Sotomaior.
 
 
 

Casa do Barão de Fermil

 
 
Na casa da foto, anterior, viveu e aí faleceu Manuel Guilherme Alves Machado (Celorico de Basto, Veade, 25.10.1873; Porto, Nevogilde, 05.06.1943), 1º Barão de Fermil, casado, em 1900, com Maria Augusta Sampaio de Brito que, desde 1898, era proprietária do chamado Palacete dos Barroso Pereira, à Praça de Santa Teresa (actual Praça Guilherme Gomes Fernandes).
Em 1956, a sua filha Delminda Sampaio Machado e o seu genro, o Dr. Francisco da Cunha Freitas Mourão de Sotomaior, haveriam de receber a propriedade da Praça Guilherme Gomes Fernandes por doacção.

 
 

Casa do Barão de Fermil, actualmente – Ed. Graça Correia
 
 
 
 
Casa de Alfredo Carneiro Soares ou da “Viscondessa” de Carreiros
 
 
Esta moradia, na Avenida de Montevideu n.º 156, teve licença de obra n.º: 212/1901 e como primeiro proprietário Alfredo Carneiro Soares, que nela faleceu em 1918, tendo sido  casado com Maria Margarida Peixoto Guimarães e Silva Carneiro Soares.
O projecto inicial da moradia remontará a data anterior a 1897, pois, neste ano, é solicitado à Câmara do Porto, licença para levantamento de um portão em muro exterior.
A moradia terá passado, mais tarde, para a família Jervell.

 
 

Casa de Alfredo Carneiro Soares, depois, da família Jervell

 
 

Casa de Alfredo Carneiro Soares, actualmente – Ed. Graça Correia
 
 
 
 
Casa da Família Cálen
 
 
O prédio teria sido mandado construir, na década de 1940, por José Joaquim de Oliveira Cálem.
Em 1943, este proprietário solicita à Câmara do Porto uma licença para construir nessa morada um anexo, que terá como projectista o conhecido arquitecto Manoel da Silva Passos Júnior…o do cinema Júlio Deniz.
Localizada na Avenida de Montevideu, n.º 166, no final do século XX, a propriedade era de Maria Alice Cálen.




Casa da família Cálen

 
 

Casa da família Cálen, actualmente – Ed. Graça Correia
 
 
 
 
Vivenda Maria Borges
 
 


Actualmente (2024), a vivenda em trabalhos de remodelação que foi mandada erguer por Maria Fernandes Borges – Fonte: Google maps
 
 
 
 
A moradia que, originalmente, em 1951, foi projecto do arquitecto Viana de Lima, foi mandada construir por Maria Assunção Fernandes Borges, filha de Manuel Pires Fernandes, oriundo de Mirandela e proprietário, a partir do início da década de 1920, do Teatro Nacional que, mais tarde, se converteu no Rivoli.
Maria Assunção Fernandes Borges foi gestora do Teatro Rivoli, mecenas e, à data do pedido de licenciamento (licença n.º 267/1951) da moradia, era já viúva de Francisco António Borges.



In jornal "Diário de Lisboa" de 28 de Novembro de 1939



A moradia em causa localizava-se na esquina da Avenida de Montevideu e da Rua de Pero da Covilhã.
No ano anterior, para a mesma cliente, o arquitecto Viana de Lima tinha também executado um projecto para um Jazigo-Capela para ser instalado no Cemitério Oriental da cidade, também conhecido como Prado do Repouso.
Maria Assunção Fernandes Borges foi casada com Francisco António Borges (1861-Porto, 27 Novembro de1939), administrador do Banco Borges & Irmão, de cujo enlace houve uma filha, de seu nome, Maria Emília Fernandes Borges (1914-2000), condessa da Covilhã, e um filho, de seu nome, Francisco Manuel Fernandes Borges (1916-1959), de profissão engenheiro e que foi administrador do Banco Borges & Irmão.
Maria Emília Fernandes Borges ostentou aquele título nobiliárquico pelo seu casamento com o 3º conde da Covilhã, Júlio Anahory de Quental Calheiros (1900-1970), de cujo enlace houve a filha, Maria Manuela de Quental Calheiros.
O 3º conde da Covilhã chegou a este casamento, no estado de viúvo, vindo de um primeiro casamento, sem geração, com Vera de Sousa e Cruz, que faleceu muito nova, filha do Banqueiro Sousa e Cruz e de sua mulher, sendo reconhecido pelo povo anónimo como o fundador da fábrica de pneus MABOR.
Ficou também ligado ao desporto automóvel como entusiasta e apoiante de Casimiro Oliveira e Vasco Sameiro, dois pilotos de veículos de fórmula 1, por si importados e caracterizados pela sua cor amarela.
 
 
 
Moradia de José Prata de Lima
 
 
Na esquina, a norte da Rua Pero da Covilhã e Avenida de Montevideu, situa-se a moradia que foi de José Prata de Lima e tem projecto do arquitecto José Luís Porto e licença de obra n.º: 118/1937.
 
 
 

Moradia José Prata de Lima – Fonte: Google maps
 
 
 
A foto anterior é da moradia emblemática da Avenida de Montevideu, existente no nº 644 (esquina com a Rua Pêro da Covilhã), é um projecto do arquitecto José Porto (1883-1965), autor de imensas obras espalhadas por várias cidades, inclusivamente pelas ex-colónias e, para sempre, ligado à Casa Manoel de Oliveira na Rua da Vilarinha. 
Actualmente, a casa foi intervencionada pelo atelier de arquitectura, Barbosa & Guimarães - Arquitectos, fundado em 1994, pelos arquitectos portuenses José António Vidal Afonso Barbosa e Pedro Luís Martins Lino Lopes Guimarães. 
 
 
 
Palacete do Rosas
 
 
Este palacete foi mandado construir por José Rosas Júnior (1885-1958), um negociante conhecido do sector da ourivesaria, possivelmente, na segunda década do século XX, com projecto do arquitecto Miguel Ventura Terra (1866-1919).
Este arquitecto nasceu em Seixas, Caminha, tendo frequentado, entre 1881 e 1886, a Academia Portuense de Belas Artes do Porto.
Foi bolseiro em Paris e quando retorna a Portugal, em 1896, fixou-se em Lisboa, onde começa por ganhar o concurso para remodelar o edifício das Cortes (actual Assembleia da República).
Em 1929, o palacete de José Rosas é dotado de um Jardim de Inverno, sob a autoria do arquitecto Leandro de Morais, com licença camarária n.º 239/1929.
Em 1945, pela licença de obra n.º: 166/1945, são executadas obras importantes no palacete, com projecto do arquitecto António Júlio Teixeira Lopes (1903-1971).

 
 
 

Palacete do “Rosas”, depois o Restaurante D. Manoel, projecto inicial de Ventura Terra



Casa de Augusto Pereira Nobre
 
 
Esta morada localiza-se na Avenida de Montevideu, n.º 414, no gaveto formado com a Rua do Funchal, tendo sido encomendada, em 1898, por Augusto Pereira Nobre (1865-1946), 3.º reitor da Universidade do Porto, ao engenheiro Francisco José Esteves (1862-1944), que ficou vulgarmente conhecido como o projectista do edifício da Livraria Lello, na Rua das Carmelitas.
As duas icónicas obras, antes referenciadas, caracterizavam-se, entre outros pormenores, pela aplicação generalizada do cimento armado.
 
 

Moradia de Augusto Pereira Nobre - Fonte Google maps

sexta-feira, 13 de março de 2020

(Conclusão) - Actualização em 05/08/2026



2. Conjunto Habitacional (em banda)


Foi muito comum, no fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o investimento de alguns capitalistas ser dirigido para o sector do imobiliário.
Tendo pontificado, sobretudo, o levantamento de “Ilhas” para servir os operários de rendimentos mais débeis e um outro método que iria originar as Ruas Particulares, e que aproveitava ao máximo as áreas colocadas para construção à disposição, foi ainda explorada a solução da construção de casas em banda, à face de uma rua de trânsito público.
É este o caso do bairro da Rua Nova do Monte Pedral, mas outros poder-se-ão referir, como são os casos do Bairro Chalet e do Bairro da Rua Oliveira Monteiro.




Conjunto Habitacional (em banda) na Rua Nova do Monte Pedral


O Conjunto Habitacional, situado na Rua Nova do Monte Pedral e começado em 1928, foi obra do investidor Manuel Afonso Figueiredo.
Este capitalista, dono de alguns terrenos nesta zona da cidade, é o promotor da construção neles de diversas casas. 




Pedido à CM Porto de licenciamento de um conjunto habitacional com fachadas para a Rua Nova do Monte Pedral e para a Rua do Nogueira – Fonte: AHMP



Fachada de conjunto habitacional voltado para a Rua de Egas Moniz, antes, a Rua Nova do Monte Pedral – Fonte: AHMP




Fachada de conjunto habitacional voltada para a Rua do Monte Cativo, antes, um trecho (prolongamento) da Rua do Nogueira – Fonte: AHMP



Bairro no gaveto das ruas Egas Moniz e do Monte Cativo, actualmente – Fonte: Google maps





Conjunto Habitacional (em banda) na Rua António José da Silva - Bairro Chalet


Na actual Rua António José da Silva, ao Covelo, existe, ainda hoje, um correr de casas que, em tempos, foi denominado “Bairro Chalet” e cuja localização é exibida, a seguir, na planta de Telles Ferreira de 1892.




“Bairro Chalet”(1), Casa da Quinta do Covelo (2) e Rua Visconde de Setúbal (3) – Fonte: Planta de Telles Ferreira de (1884-1892)




Pela esquerda, apresenta-se um correr de casas que, outrora, constituíam o “Bairro Chalet” - Fonte: Google maps





Conjunto Habitacional (em banda) na Rua Oliveira Monteiro




Conjunto Habitacional (em banda) na Rua Oliveira Monteiro – Fonte: Fundação Marques da Silva



O projecto deste empreendimento esteve a cargo do reputado arquitecto Miguel Ventura Terra (Seixas, Caminha, 14 de Julho de 1866 — Lisboa, 30 de Abril de 1919) e consistia na edificação de nove moradas de casas, com licenciamento solicitado à C. M. Porto, em 6 de Junho de 1898, pelos proprietários dos terrenos, Manuel Gomes da Silva e António de Oliveira Monteiro.



Fonte: Fundação Marques da Silva



Casas em banda, na Rua Oliveira Monteiro, actualmente – Fonte: Google maps



Os azulejos, junto às cimalhas, característicos de Ventura Terra, eram da Fábrica Cerâmica das Devesas.





Conjunto habitacional, em banda, na Rua 5 de Outubro
 
 
O terreno onde se localizava este edificado, demolido em 2022, para dar lugar a um bloco de apartamentos esteve, na primeira década do século XX, juntamente com uma grande área que lhe era contígua, dar origem ao chamado Bairro de Francos.
A área projectada para aquele empreendimento implicava um terreno, dividido em lotes, situado entre a Rua da Carcereira, Rua do Príncipe da Beira (Rua 5 de Outubro) e Rua dos Vanzeleres, estendendo-se para além da Rua das Artes Gráficas, como demonstra a planta seguinte.

 
 

Planta do Bairro de Francos (não realizado) – Fonte: AHMP
 
 
 
 
 
Por razões atinentes, talvez, ao período (1914/1918) de guerra que se vivia, não chegou a ver a luz do dia.
Porém, vingaria um correr de oito casas voltadas para a Rua 5 de Outubro.
Quatro delas, as situadas mais a sul, foram executadas sob a licença de construção n.º 967 de 1922, à ordem de José de Passos Mesquita, para arrendamento.

 
 

Desenho integrante do projecto referente à licença de obra n.º 967/1922

 
 
As restantes quatro, situadas mais a norte, seriam levantadas pela licença de construção n.º 1015/1930, passada ao mesmo proprietário, com o objectivo expresso, também, de as arrendar.
 

 

Desenho integrante do projecto referente à licença de obra n.º 1015/1930

 
 
A área contígua, mais a norte, confinante com a Rua da Carcereira, era pertença, também, do mesmo proprietário.
 
 
 
 

Conjunto habitacional, na Rua 5 de Outubro, antes da demolição

 
 

Actualmente (2026), a ocupação para a área referida – Fonte: Google maps




Bairro Operário, em banda, à Rua Arquitecto Marques da Silva, antiga Rua da Friagem
 
 

O Bairro Operário obteve a licença de obra nº 2051/1935, e foi da autoria do gabinete do arquitecto Januário Godinho.


 
 

Requerimento à CMP, correspondente à licença de obra nº 2051/1935 – Fonte: AHMP
 
 
 

Desenho de fachadas de habitações integrante de projecto referente à licença de obra nº 2051/1935 – Fonte: AHMP
 
 
 

Aspecto do Bairro Operário, da Rua da Friagem, em meados do século XX – Fonte: AHMP
 
 
 

Exposição dirigida à CMP para arranjo do acesso à via pública das habitações do Bairro Operário  – Fonte: AHMP
 
 
 
 

Após a remodelação dos acessos das habitações à via pública, assim ficou o aspecto (actual) do Bairro Operário, da foto anterior, na agora, Rua do arquitecto Marques da Silva, entre os nºs 193 e 259 – Fonte: Google maps





segunda-feira, 6 de maio de 2019

25.45 Um edifício icónico da arquitectura portuense que foi restaurante


Na foto abaixo observa-se uma moradia (uma jóia da arquitectura portuense), situada na Avenida de Montevideu que, após ter funcionado durante anos como um restaurante entrou, após encerramento deste, em acelarada degradação.
A moradia que foi de José Rosas Júnior e que, por isso, também ficou conhecida como o “Palacete do Rosas”, está, finalmente, em vias de ser recuperada.


Moradia na Avenida de Montevideu que chegou a alojar o “Restaurante D. Manoel” – Cortesia do blogue “Porto Sombrio”



O citado restaurante, de seu nome “D. Manoel”, fechou durante a primeira década deste século, após uma longa história vivida no sector de actividade da restauração pelo seu proprietário, Manuel Fontes, durante a 2ª metade, do século XX.
Tudo começaria, para esta personagem, por uma participação na gestão de um café junto à igreja do Bonfim – “O Nosso Café”.




“O Nosso Café” na Rua do Bonfim,363 – Fonte: Google maps


Era este café frequentado, principalmente, pelos alunos do Liceu Alexandre Herculano e pelos jovens das zonas limítrofres.
Estávamos no começo da década de 60 e a frequência do espaço era alta, pois, como complemento da sua actividade principal, na sua cave, o café tinha 3 ou 4 mesas de bilhar e uma mesa de matraquilhos.
Com olho para o negócio, Manuel Fontes vai abrir na esquina fronteira ao “Nosso Café”, um outro, de seu nome “Capa Negra” e leva consigo uma clientela já feita, de estudantes e habitantes do bairro do Bonfim e o seu irmão, Amândio.
Estávamos em 1968.


“Café Capa Negra”, na Rua de Barros Lima, 487, ao Bonfim – Fonte: Google maps


O espaço de cafetaria era de uma dezena de mesas, aconchegadas e na sua cave, lá estavam as mesas de matraquilhos, onde os estudantes se degladiavam em encontros de “perde-paga”.
Manuel Fontes e  o seu irmão Amândio veem o negócio prosperar. A meio da manhã, os rissóis saem quentinhos e os jovens devoram-nos. Ao fim-de-semana, à noite, as mesadas são gastas nas francesinhas do “Capa Negra” (que haveriam de ganhar fama).
A francesinha (recriação da iguaria francesa, “croque monsieur”, à qual foi adicionado a salsicha fresca, lombo de porco assado, fiambre e, tal como na receita francesa, o queijo derretido, em cima) nasceu em 1952, pela mão de Daniel David da Silva que foi trabalhar para o restaurante a Regaleira, depois de ter estado a trabalhar com o seu tio, que era chefe no Hotel Bernard, nos Campos Elísios, em Paris, .
Naqueles tempos, as francesinhas, com nível, comiam-se em Matosinhos, no “Majára”, em V. N. de Gaia, no Café Mucaba, no Porto, no “Capa Negra” e, como não podia deixar de ser, na Regaleira, no Bonjardim. O resto era paisagem.
Em 1972, Amândio Fontes parte para abrir o “Capa Negra II” (no Campo Alegre) e leva no menú os inevitáveis rissóis e as francesinhas.



Capa Negra II, ao Campo Alegre


Manuel, por sua vez, vai abrir a cervejaria “Cufra”, na Avenida da Boavista, nº 2504, no local, onde anos antes tinha estado o palacete da família Gilbert, que tinha junto à Avenida da Boavista o pinheiro manso, que deu nome ao lugar e caiu com um ciclone em 1941.
O palacete tinha sido construído em 1902.



O famoso pinheiro (“Pinheiro Manso”) e o Palacete da família Gilbert, na Avenida da Boavista. A chaminé (ao longe) é da fábrica William Graham, fundada em 1889


"Este Pinheiro Manso caiu em Fevereiro de 1941 quando do conhecido “CICLONE” assim conhecido no Porto. A casa conheci-a quando pertencia à família Gilbert, que tinha um maravilhoso BMW dos anos 30, antes da guerra. A Rua do Pinheiro Manso foi aberta antes de 1892, pois já vem no mapa Teles Ferreira. A casa em que nasci, o nº. 274, é a primeira à direita nesse mapa. Foi construída por um inglês que a vendeu a minha avó cerca de 1895. No momento da queda do Pinheiro Manso, cerca das 20 h. ia a passar um carro dos Bombeiros Municipais do Porto que ainda foi atingido, mas recordo terem-me dito que só houve feridos."
Cortesia de Rui Cunha



“Pinheiro Manso” por terra, após o ciclone


A inauguração da “Cufra” ocorreu a 15 de Agosto de 1974 (feriado da Assunção de Nossa Senhora) sendo, a sua abertura ao público, a 14 de Setembro, do mesmo ano, pelas 13 horas.


Cervejaria Cufra na Avenida da Boavista


O sucesso imediato da “Cufra” deveu-se ao seu amplo espaço, excelente localização e, obviamente, ao atendimento e confecção de elevada qualidade.
A revolução de Abril tinha ocorrido uns meses antes e as classes trabalhadores viam o seu nível de vida subir.
As filas para entrar no espaço, à noite e sobretudo ao fim-de-semana, eram intermináveis.
O negócio ia de vento-em-popa, com a retaguarda do Capa Negra no Bonfim, igualmente em grande plano.
É, então, que Manuel vai cumprir um sonho e abrir na Avenida de Montevideu, num palacete com história, o seu novo restaurante – “D. Manoel”, no início dos anos 80, e que sucede ao projecto da “Cufra”.
O texto seguinte conta uma pequena história deste palacete.


“O Palacete foi encomendado por José da Silva Rosas, dos ourives Rosas.
Insere-se na linha de moradias com torre que foram projectadas na transição dos séculos XIX para XX.
Modesta no uso de cantarias, recorre a elementos cerâmicos nos arcos de padieira.
Apresenta beirais muito salientes em madeira sublinhados por faixas de azulejos decorativos.
O projecto é de Miguel Ventura Terra e sucede a um outro de 1896, no qual o arquitecto tinha projectado para a Avenida Brasil, licença de obra 193/1896 do AHMP, uma moradia para Manuel Francisco Pereira, um abastado brasileiro de torna-viagem.
Por outro lado, em 1898, Miguel Ventura Terra tinha projectado uma banda contínua de 9 moradias unifamiliares na Rua Oliveira Monteiro, para um estrato social médio, que é uma referência para a arquitectura portuense”.


“O nº 384 da Avenida de Montevideu, em Nevogilde, já teve melhores dias. Grandiosa casa, tipo palacete, foi erguida no início do século XX e é atribuída ao arquitecto Miguel Ventura Terra (1866 – 1919). O seu proprietário foi José Rosas Júnior, que ao longo dos anos foi responsável por variadas alterações, incluindo a construção de um lugar de garagem.
Apesar da simplicidade da ampla construção, a presença de um torreão que se evidencia na fachada principal dá-lhe um efeito compositivo que realçado pelos frisos de azulejos de estilo Arte Nova provavelmente fabricados na Fábrica de Cerâmica das Devesas.”
Com o devido crédito a “portosombrio.blogspot.com”



Miguel Ventura Terra (Seixas, Caminha, 14 de Julho de 1866 — Lisboa, 30 de Abril de 1919) foi um arquitecto português de formação portuguesa e francesa.
Frequentou o curso de Arquitectura da Academia Portuense de Belas-Artes entre 1881 e 1886. Em 1886, esteve em Paris como pensionista (bolseiro) do Estado na classe de Arquitectura Civil, onde frequentou a École Nationale et Speciale de Beaux-Arts.
Em 25 de Julho de 1901, a Câmara do Porto presidida por Lima Júnior, era informada de que Ventura Terra devolvia o prémio que tinha recebido pelo seu projecto referente ao monumento ao Infante D. Henrique, pois os documentos inerentes tinham-se perdido num naufrágio, quando regressavam a Portugal, após serem expostos na Exposição de Paris, em 1900.

 

In jornal “A Voz Pública”, 26 Julho de 1901, pág 2
 
 
No naufrágio, atrás referido, acontecido a 24 de Janeiro de 1901 desapareceram, para sempre, dezenas de obras de arte portuguesa e diversa documentação, que tinha estado exposta na Exposição Universal de Paris de 1900.



 



Na revista “A Paródia”, nº 63, de 27 de Março de 1901, na página 104, era publicado um desenho de Rafael Bordalo Pinheiro, acima reproduzido.
Nele, se vê António de Faria, visconde de Faria, boiando, agarrado à proa de um barco, enquanto Ressano Garcia envergando um escafandro, pergunta aos peixes se viram, por acaso, as obras de arte.
Ventura Terra alcançou quatro vezes o Prémio Valmor de Arquitectura (1903, 1906, 1909 e 1911) e uma Menção Honrosa, no mesmo concurso (1913).
Era republicano e maçon e autor de projectos de palacetes e de habitações de rendimento mais qualificadas, essencialmente na capital, mas também na cidade do Porto.
Ficou também ligado ao plano de urbanização do Funchal.
No Porto, é muito apreciada uma banda de casas, na Rua Oliveira Monteiro, próximo da Rua de Nossa Senhora de Fátima, da autoria de Ventura Terra que, ainda tem o nome ligado, ao projecto da delegação do Banco de Portugal na Praça da Liberdade.







Banda de casas na Rua de Oliveira Monteiro de Miguel Ventura Terra – Fonte: Google maps