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segunda-feira, 24 de junho de 2019

25.54 Onde se comiam, no Porto, as melhores tripas, em 1957?


Já muitos têm conhecimento de que os portuenses são apelidados de “Tripeiros”, mas, alguns, poucos, desconhecem os pormenores que, por isso, interessa serem contados.
O Infante D. Henrique conhecendo os cabedais, as possibilidades e patriotismo dos portuenses, pediu-lhes que construíssem uma parte importante da armada com que D. João I pretendia, em 1415, conquistar Ceuta. Correspondendo a esse desejo a cidade, com grande esforço e despesa, ofereceu 20 naus e 7 galés. Diz a lenda que,

“Um dia, o Infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto para ver o andamento dos trabalhos e, embora satisfeito com o esforço despendido, achou que se poderia fazer ainda mais. Então, o Infante confidenciou ao mestre Vaz, o fiel encarregado da construção, as verdadeiras razões do empreendimento. Pediu ao mestre e aos seus homens mais empenho e sacrifícios. Mestre Vaz assegurou ao Infante que iriam fazer o mesmo que tinham feito cerca de trinta anos atrás aquando da guerra com Castela. Dariam toda a carne da cidade para abastecer os barcos e comeriam apenas as tripas. Comovido, o infante D. Henrique disse-lhe que esse nome de "tripeiros" - alcunha que lhes tinha sido dada há trinta anos - era uma verdadeira honra para o povo do Porto.
Fonte: Infopédia



Muitos estudiosos da história da cidade do Porto e dos portuenses argumentam que, o epíteto de “Tripeiros” atribuído aos portuenses, nada tem a ver com aquela lenda.
De facto, a elaboração e confecção do pitéu, tão característico, reportará ao tempo em que por cá andaram os suevos, os mesmos, a quem se atribuiu o levantamento da igreja de Cedofeita, e que sabiam cozinhar, a preceito, as ditas tripas.
Seja como for, a lenda pegou e um monumento referente a ela, para consagração do feito dos portuenses, foi levantado no Jardim de António Calém ou Jardim do Ouro, em 1960, da autoria do escultor Lagoa Henriques.
O grupo escultórico compõe-se de três figuras: de pé, um construtor das naus, tendo á sua direita uma quilha; junto a si um carpinteiro com uma enchó prepara uma peça em madeira; atrás um açougueiro junto da rês já esfolada, e que representa a oferta da carne limpa à armada que seguiria para Ceuta, reservando para a cidade as tripas.



Monumento ao “Tripeiro”



As “tripas” (à moda do Porto) são, assim, prato que passou, desde há muito, a iguaria.
Ernesto Chardron foi livreiro e editor.
Nasceu em França, em 1840, falecendo no Porto, em 1885.
Fundou no Porto, a Livraria Internacional de Ernesto Chardron, na Rua dos Clérigos, nº 96-98, em 1869. No mesmo local, após a sua morte, a Livraria Internacional de Ernesto Chardron passaria a estar sob a firma Lugan & Genelioux e, em 1894, será a firma José Pinto de Sousa Lello & Irmão a administar a livraria, tendo construído, em 1906, na Rua dos Carmelitas nº 144, um novo estabelecimento. 
Em 1919, a Livraria Internacional de Ernesto Chardron, vulgo Livraria Chardron, vai ficar sob a firma Lello & Irmão.
Em 1930, com a entrada de um novo sócio, José Pereira da Costa, a livraria passa a ser a "Livraria Lello".




Desfile de Carnaval, em 1905, passando em frente à igreja dos Clérigos




Comentando a foto acima, podemos afirmar que, à direita, no prédio mais recuado, esteve no canto (parcialmente visível) mais próximo, instalada a Livraria Internacional de Ernesto Chardron. No ano seguinte àquele corso carnavalesco, a livraria irá mudar-se, um pouco mais para cima, para instalações que ainda hoje ocupa.




Planta de Telles Ferreira, de 1892, da zona envolvente à igreja dos Clérigos


Na planta acima está destacado e identificado o nºs de polícia, 96-98,  local onde esteve a Livraria Internacional de Ernesto Chardron.
Na planta pode ver-se também que, o edificado onde esteve a Livraria Internacional (nºs 96-98), era denominado de “Casa de António José Cabral”.
António José Cabral (1783 – 1865) foi avô paterno de Diogo José Cabral (Porto, 1864 – 1923), 1º conde de Vizela.
Proprietário de uma pequena tecelagem com 22 operários, sita na Rua do Príncipe (Miguel Bombarda), foi acionista fundador, em 1846, da Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela, da qual, ao fim de algum tempo, passou a ser o sócio maioritário.
António José Cabral em 1853, resolveu mandar construir a sua residência, provavelmente contígua à sua oficina, na esquina (sul/poente) das ruas do Príncipe (Miguel Bombarda) e do Rosário, que obteve a licença camarária n.º 188/1853.
Foi, então, António José Cabral o proprietário do edificado no Largo do Correio ou Largo dos Clérigos, em frente à igreja dos Clérigos, na mesma área onde o seu neto haveria de construir, na Rua das Carmelitas, o chamado palacete do Conde de Vizela.
Sobre Ernesto Chardron, um apreciador da boa comida, Ramalho Ortigão, nas «As Farpas», 3º tomo, Agosto de 1886, diz-nos:



«Morreu no Porto o editor Ernesto Chardron, cujo nome ocupa na história da livraria portuguesa d'este século um dos logares mais importantes e mais vastos.
Antigo caixeiro da casa Moré, por alguns anos administrada por Gomes Monteiro, depois da morte do fundador, Chardron teve o prémio grande n'um bilhete da loteria; e foi com esse fundo de acaso, 8 ou 10 contos de reis, que ele se estabeleceu por sua conta e montou a casa editorial que em pouco se tornou famosa.
Entre os frequentadores ordinários do largo dos Loios e da praça D. Pedro no Porto, Chardron era muito mais celebrado pelos menus dos seus jantares do que pelos catálogos das suas publicações.
Ele foi, com efeito, durante os últimos vinte anos o homem que melhor comeu na cidade do Porto, onde a gastronomia está longe de se poder considerar á altura do seculo.
Tirem-lhe o arroz dôce, tirem-lhe o arroz de forno, tirem-lhe o peixe frito do Reimão, tirem-lhe as decantadas tripas - espécie de dobrada de estilo composito, que se serve dentro de uma terrina em que entra tudo quanto constitui um jantar, desde a sopa até o queijo e a pera - e a cidade do Porto tem esgotado todo o seu reportório culinário.
Chardron cultivava excepcionalmente a arte das boas ceias planturosas e finas, e era unicamente à sua mesa de celibatário rico, a que ele não reunia senão sábios compatriotas e raros literatos nacionaes arrancados á idolatria da tripa e da orelheira com feijão pela catequese do Café Anglais, que a gente podia, dentro dos muros da cidade invicta, reatar conhecimento com a suculenta galinhola ou com a aromática perdiz, sucessivamente assada e constipada no espêto, já por um hemisferio já pelo outro, entre as correntes de ar e as baforadas de lume mais sabiamente combinadas para manter no volátil assado e servido a ponto tudo quanto ele pode oferecer de mais requintado e de mais profundo no chorumento suco da polpa, na loura, estalante e fusível delicadeza da pele.
Era unicamente à comunhão da sua mesa que, ao lado da sagrada partícula venatória, o peregrino encontrava o fino legume de maravilhosa precocidade, a tenra ervilha apenas desmamada da primeira vagem do ano, a pingue alcachofra anodina, a trufa ardente e insidiosa, e o calmante espargo, enquanto na taça das libações corria num fio tépido, aromático e rubro, um legitimo Bourgogne, ou cahia em granizo um autentico Champagne.
A cozinheira de Chardron só fazia bem o assado. Seu amo não lhe permitia que se achincalhasse tocando em qualquer outro serviço que não fôsse aquele para que a providência manifestamente a destinara, e era única e exclusivamente como rotisseuse que a empregava.
Quem no Porto sabia fazer os civets, as gibelottes, as matellotes, as ramoulades, era a cozinheira de Genilioux.
Chardron, para comer em termos acabara por dividir o jantar em fascículos, fazendo aparecer a introdução e a primeira parte da obra em casa do seu amigo, a segunda parte e o epílogo em sua casa.
Na escolha dos livros era muito mais latitudinario que na escolha das iguarias. O seu depósito de impresso ocupa dois ou tres prédios, e é uma cousa assombrosa de variedade e quantidade; - tratados vários; relatórios, regulamentos, manuaes; traduções de Ponson du Terrail, de Montépin, de Eugène Sue, de Frederico Soulié, de Fernandez y Gonzalez, de Legouvé, de luiz Figuier, de perez Escrich, de Lamartine, etc.; compendios, dicionarios, enciclopedias; metodos facilimos, discursos, rudimentos, ocios, repositorios, noticias, elementos, viagens, fantasias, e vidas; sermonarios, alamanques, agendas, albuns, livros de missa, descobertas, maravilhas; e uma serie infindavel de obras devotas e de cartapacios consagrados á classe eclesiastica, como o Tesouro de prégadores, a Vida de Pio IX, o Catecismo exemplificado, a Cerimonia da missa, Ancora da salvação, Discurso ácêrca da religião catolica, Os heroes catolicos, Os jesuitas, A lei de Deus, A hospedaria do anjo da guarda, O maná do sacerdote, Ás senhoras da associação da caridade, etc., etc., etc.
Nada mais interessante para a história da mentalidade portuguesa durante os últimos vinte anos do que seguir atravez d'este dedalo de publicações, d'estes centenares de volumes em brochura e em papel, sobre assuntos mais variados, mais diversos e mais contraditórios, o fio da curiosidade publica, medindo a procura de cada obra pelo que resta da respectiva edição no armazém. Recomendo aos sucessores de Chardron esse interessante estudo estatístico.
Além da grande e confusa massa de livros a que me refiro, Chardron teve a honra de editar obras dos nossos primeiros escritores, como Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro. Por muitos anos foi ele o editor único de Camilo, mas tanto este como outros eram já celebres e ilustres quando Chardron lhes imprimiu os livros. Não creio, de resto, que ele próprio os lesse, nem que, lendo-os, encontrasse uma diferença incomensurável entre o Crime do Padre Amaro - por exemplo - e O maná do sacerdote.
Chardron publicou muitos livros, comprou muitos manuscritos, e foi com todos os escritores da sua convivência um comerciante honrado, de um espírito conciliador e benigno, de um coração largo. Aqueles cujas obras ele editou, e que lidaram com ele, recordarão por muito tempo a sua jovial fisionomia, como a de um d'esses raros homens alegres, saudáveis e bons, que sabem adoçar a vida no que ela tem de mais áspero, tratando os negócios como se tratam os prazeres, e não sendo menos sérios nos seus contratos do que os maiores massadores d'este mundo. Essa é a bela e simpatica feição que o distingue.
Enquanto a determinar, atravez da publicidade, alguma especial corrente de idéas; enquanto a distinguir e a agrupar em torno de si, na confusa refrega, aqueles que teem de ser os vencedores e os chefes do movimento novo, Chardron não o sabia fazer.
Assim está inteiramente fora do seu plano de editor o fino tacto com que Jorge Charpentier, por exemplo, soube enfeixar a obra de Flaubert, de Zola, dos dois Goncourts, de Maupassant e de Daudet.
Todos os leitores conhecem hoje perfeitamente a afinidade que existe entre esses seis escritores. Charpentier sentiu-a antes que o público a compreendesse. Eis a habilidade que não teve Chardron.»


No texto anterior, Ramalho Ortigão faz referência às tripas à moda do Porto, como um dos expoentes do repertório culinário dos portuenses, que ele achava um pouco curto. Estávamos na 2ª metade do século XIX.
Fama nas tripas, por esses tempos, tinha o Restaurante do Reimão, na Rua do Reimão (depois, Rua de S. Lázaro e actual Avenida Rodrigues de Freitas), muito frequentado por Camilo Castelo Branco.


Planta de Perry Vidal, de 1844 (actualizada em 1865), com destaque para a localização do Restaurante do Reimão



Planta de Telles Ferreira, de 1892, com destaque para o local em que esteve o célebre Restaurante do Reimão, frequentado por Camilo Castelo Branco



Grande Hotel Reimão – Gravura extraída de postal


O Grande Hotel Reimão foi inaugurado em 1891 e construído no local em que esteve o célebre Restaurante do Reimão.
Tinha também serviço de restaurante, mas, para quem conheceu, nada tinha a ver com o que Camilo frequentou.
Tinha começado por ser uma padaria passando, depois, a restaurante. Estava instalado numa casa térrea com um amplo quintal e ramada, onde, na sombra dela, se comiam os petiscos em mesas de ardósia.
Num barracão coberto, comia quem não o quisesse fazer ao ar livre.


Local onde esteve o Hotel do Reimão – Fonte: Google maps


Perto da estação da mala-posta, para Viana do Castelo, defronte do convento dos carmelitas, no Carmo, o restaurante “Caldos de Galinha” tinha fama de servir as melhores tripas da cidade, e conhecido ainda por ser frequentado, assiduamente, pelo conde de Resende, sogro de Eça de Queiroz.
Bem perto, na Praça de Santa Teresa (hoje a Praça Guilherme Gomes Fernandes), o “João do Buraco” na confecção daquele prato não receava também as comparações com os melhores. Em 1899, as suas instalações haveriam de ser ocupadas por uma casa de pasto.

«Abriu na praça de Santa Teresa, 70, uma casa de pasto com a denominação de “Casa de Pasto do Ferreira” na antiga casa do” João do Buraco”.»
In jornal “A Província”, de 16 de Outubro de 1899 – 2ª Feira


Praça de Santa Teresa, em planta de Telles Ferreira, de 1892


Legenda

1. Fonte de Santa Teresa, à entrada da praça (hoje, a Praça Guilherme Gomes Fernandes)
2. Igreja do convento
3. No, nº 70, o “João do Buraco”




Não pode, aqui, também deixar de ser referida a Estalagem do "Rainha", que ficou célebre pelas suas tripas à moda do Porto. Situava-se a poente, na Praça D. Pedro (actual Praça da Liberdade), no local por onde estiveram também o “Restaurante Europa” e o “Hotel Antiga Cascata”.
Hoje, esse chão, é ocupado pelo edifício da delegação do Banco de Portugal.


Num dos prédios à direita esteve a “Estalagem do Rainha”. À esquerda, bem no alto, a Torre dos Clérigos (foto anterior a 1916)



Descrição da estalagem do Rainha


O texto acima foi inserido por Alberto Pimentel no “O Porto na Berlinda – Memórias D’uma Família Portuense” e foi extraído da obra “Viagem ao Minho” da autoria de Gomes D’Amorim (A Ver-o-Mar, Póvoa de Varzim, 13 de Agosto de 1827 - Lisboa, 4 de Novembro de 1891).
Esta obra de Gomes D’Amorim foi publicada na revista “O Panorama”, entre 1853 e 1857.
Aquela obra de Alberto Pimentel, viu a luz do dia, em 1894, e foi editada pela Livraria Internacional de Ernesto Chardron - Casa Editora, M. Lugan, sucessor.
Num outro texto, do escritor Arnaldo Leite, é feita alusão à denominação popular da iguaria culinária – TRIPAS.
Tudo se passa num restaurante a poucos quilómetros do Porto, e depois de ler na ementa, o prato, “Dobrada à Portuense”.
Chamado o chefe de mesa, ocorre o seguinte diálogo:

“- V. Exª desejava saber…!
 - A minha excelência desejava que a sua excelência me explicasse o que eu vou agora comer.
 - Saiba V. Exª que é dobrada.
 - E isso que vem a ser?
 - Saiba V. Exª que são tripas.
 - Ó homem de Deus! Exclamei dando um murro na mesa – então você sabe que são tripas e pranta, aqui, na ementa, dobrada?
 -É que…sim…vossa Exª compreende, é mais…sim…é mais…
Dobrada? Não! Nós somos dos dantes quebrar que torcer. Podemos partir, mas quebrar, nunca! Sempre firmes, tesos e direitos!
TRIPAS! TRIPAS! TRIPAS!”

A designação de dobrada, para as nossas tripas, tripas, tripas, é de uso a Sul do País, lá para Lisboa, como nos prova Álvaro de Campos.


“Dobrada à Moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,

Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio”.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


E as histórias de restaurantes de sucesso, nesta vertente da restauração (tripas à moda do Porto), são imensas.
Em 1884, o Restaurante “Às Boas Tripas”, na Rua de Santo Ildefonso, 366, fazia-se anunciar.

“Há boas tripas às quintas, sábados e domingos e há também o bom vinho de Amarante.”
In jornal “O Primeiro de Janeiro”, de 19 de Janeiro de 1884 – Sábado



Restaurante Campestre, na Rua do Meio (Rua Coelho Neto), nº116
“Neste estabelecimento continua a haver bons petiscos, servidos por listas, assim como nas quintas-feiras e sábados tripas, não faltando o bom verdasco. Está aberto até uma hora da noite”.
In jornal “Diário Mercantil” de 7 de Julho de 1864 – 5ª Feira


Restaurante Porta do Sol, na Rua de Santo António do Penedo (Rua Saraiva de Carvalho), 29
“Tripas às quintas, sábados e domingos”.
In jornal “O Comércio do Porto” de 22 de Abril de 1866


Restaurante Café União, na Rua da Fábrica, 70-74
“Há neste estabelecimento, reformado recentemente, um tentador serviço de mesa. Aos sábados, as desejadas tripas feitas a capricho”.
In jornal “A Verdade” de 12 de Maio de 1884




O Carnaval de 1913, para lá dos festejos habituais, ficaria ligado ao prato de eleição dos portuenses, mas, então, na forma de revista teatral de enorme sucesso, de seu nome “Hoje há Tripas”, cuja autoria pertenceu à parceria do conhecido comediógrafo Heitor Campos Monteiro (1899-1961) e do médico Artur Cunha Araújo, portuense, formado em 1912 e que, tendo residência em Vila do Conde, também foi poeta.
Artur Cunha Araújo, casado com uma das filhas do Barão do Rio Ave, era conhecido na cidade do Porto, ainda, por ser filho de José Luís da Cunha Araújo, o “Zé da Picaria”, um conceituado alquilador com estabelecimento naquela zona da cidade.
E eis que somos chegados aos anos de 1956 e 1957.







“Em 6 de Maio de 1957, os restaurantes “Abadia” e “Tripeiro” são premiados em Caen (França), no Concurso das Melhores Tripas do Mundo.”
Cit. (Porto Desaparecido)



Cerca de um ano antes, em 13 de Abril de 1956, no mesmo certame, a vitória foi para o restaurante do Chiolo, Maia, "O Cantinho da Efigénia".
Situado na zona histórica da cidade, na Rua do Ateneu Comercial do Porto, o “Restaurante Abadia” foi fundado em 1939.
Conta-se que uma sociedade denominada “Neto & Leal” fundou esse restaurante, e há quem afirme, tê-lo feito, comprando uma pequena unidade de restauração que já existiria no local.
Contando uma estória, diz-se que o nome “Abadia” teria sido inspirado nos locais onde os peregrinos que demandavam Santiago de Compostela, repousavam algumas horas, dormindo e comendo, antes de encetar mais uma etapa da longa caminhada para alcançar aquela terra.
Como certo, tem-se que a “Abadia” foi sempre um marco na confecção da cozinha regional, em particular, no que às tripas à moda do Porto, diz respeito.


Entrada do Restaurante Abadia


A partir de 1952, a “Abadia” teria, na cidade, concorrente de peso na preparação daquele prato.
Bem perto do Abadia, nascia, a 29 de Março de 1952, na Rua de Passos Manuel, nº 195, e vizinho  da “Casa das Tortas”, o Restaurante “Tripeiro”, facto, do qual, “O Comércio do Porto” dava conta.

“Pode considerar-se como iniciativa de oportunidade e agrado o acontecimento que, na vida citadina, marca o dia de hoje, através da abertura ao público do Restaurante Tripeiro, título que é feliz alegoria, de acentuado cunho bairrista.
Situado no coração da cidade, na Rua de Passos Manuel, 191 a 193, Fica como uma «boite» atractiva, de ambiente acolhedor.
Pode afirmar-se que o Porto, com a inauguração do Restaurante Tripeiro, passa a ter uma casa, que no género, abre etapa diferente e constituiu legítimo motivo de orgulho.
Para comemorar a abertura do Restaurante Tripeiro foi ontem oferecido a amigos e convidados delicada ementa em ambiente íntimo.”
In “O Comércio do Porto”, de 29 de Março de 1952 – Sábado


Entrada do Restaurante Tripeiro



O Restaurante Tripeiro acabaria por ocupar o espaço de um outro estabelecimento, o “Restaurante Nau”, inaugurado em 1943.

 


Restaurante Nau, na Rua de Passos Manuel

 
 

Artigo jornalístico sobre a inauguração do Restaurante Nau
 


Por sua vez, a “Casa das Tortas”, atrás mencionada, começada como pastelaria, haveria de passar a ser uma instituição da cidade, graças aos seus pastéis de chaves, de confecção própria.
Aquele estatuto, começado a ganhar na década de 1940, manteve-o intacto até aos nossos dias.
Naqueles tempos recuados, os seus funcionários eram oriundos de Cinfães, da freguesia de S. Cristovão da Nogueira.
 
 

A “Casa das Tortas”, a meio da foto, em 2009 – Fonte: Google maps



O Restaurante Tripeiro, em 2019, já tinha fechado as suas portas para sempre. 
No que concerne à confecção das tripas à moda do Porto, mais recentemente, o restaurante Pombeiro que vai nos 30 anos na posse da mesma família, e sempre fiel à cozinha tradicional portuguesa e regional portuense foi, por diversas vezes, vencedor de concursos de tripas, patrocinados pelo Jornal de Notícias, aquando dos festejos sanjoaninos.



O “Restaurante Pombeiro”, à entrada da Rua do Pombeiro



Continuando o Restaurante Abadia a servir o célebre pitéu e cada portuense a ter a sua preferência, hoje (2026), o Restaurante “O Gaveto”, em Matosinhos, parece comandar o pelotão da qualidade.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

(Continuação 1)



“José Marques da Silva nasceu no n.º 113 da Rua de Costa Cabral, no Porto, a 18 de outubro de 1869. Iniciou a sua formação como arquitecto na Academia Portuense de Belas-Artes, onde foi aluno, entre outros, de António Geraldes da Silva Sardinha, Marques de Oliveira e Soares dos Reis. Em 1889 partiu para Paris com o objectivo de ingressar na École Nationale et Spéciale des Beaux-Arts, cidade onde permaneceu até obter o grau de Arquitecto Diplomado pelo Governo Francês, em 10 de Dezembro de 1896.
Durante a sua estada em Paris, Marques da Silva desenvolveu a maior parte dos seus trabalhos académicos, que resultam em desenhos de arquitectura notáveis, num atelier livre externo à escola, sob orientação de Victor Laloux. Este atelier era então frequentado por uma comunidade internacional de estudantes de arquitectura, onde se destacam nomes como Charles Lemaresquier, futuro sucessor de Victor Laloux, Paul Norman, que viria a ganhar o Grand Prix de 1891, Charles Butler, o primeiro diplomado americano do atelier, em 1897, ou mesmo o do seu conterrâneo Miguel Ventura Terra. Deste período, a Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva possui um singular conjunto documental composto por 67 desenhos de arquitectura, que constitui um importante e esclarecedor registo das práticas arquitectónicas finisseculares (que diz respeito ao fim do século) no seio das Belas Artes.
Marques da Silva regressou a Portugal em 1896 para iniciar uma intensa actividade profissional que rapidamente lhe granjeou o reconhecimento público. Na Exposição Universal de Paris de 1900 obtém a medalha de prata e na Exposição do Rio de Janeiro de 1908 foi premiado com a medalha de ouro. Em 1908 é agraciado com o Grau Oficial da Ordem de S. Tiago de Mérito Científico, Literário e Artístico. Com projectos como a Estação de S. Bento (1896), o Teatro Nacional de S. João (1910), o Edifício das Quatro Estações (1905), os Liceus Alexandre Herculano (1914) e Rodrigues de Freitas (1919), os Armazéns Nascimento (1914), a Casa de Serralves (1925-1943) ou o Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular (1909), moldou a fisionomia da cidade do Porto, mas a sua actuação também se estendeu a outra regiões do norte do país, em particular a Guimarães, cidade para a qual viria a projectar vários edifícios emblemáticos tais como a sede da Sociedade Martins Sarmento, o Mercado Municipal ou o Santuário da Penha. A sua obra, num momento de mudança das práticas construtivas, aliou aos valores da tradição beauxartiana as componentes da razão, traduzindo-se em projectos funcionais e adaptados às mecânicas da vida moderna e na defesa de um modo muito próprio de entender a construção da cidade.
A actividade docente de Marques da Silva iniciou-se em 1900, na qualidade de Professor de Desenho e Modelação no Instituto Industrial e Comercial do Porto. Em 1906 é nomeado professor de arquitectura na Academia Portuense de Belas-Artes, vindo a ocupar posteriormente o lugar de director da então já designada Escola de Belas-Artes do Porto (1913-1914; 1918-1939). Será ainda director e professor da Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis (1914-1930).
O desenho, como instrumento central da prática do projecto e base de transmissão de processos metodológicos estáveis, mas capazes de reagir às múltiplas solicitações da sociedade, foi o motor do seu ensino. Esta estratégia garantiu-lhe a estima de várias gerações de arquitectos modernos que, partindo da base académica sedimentada por Marques da Silva, souberam reinventar a prática da arquitectura portuense.
Entre os muitos para os quais o seu exemplo foi determinante, pode destacar-se, Rogério de Azevedo.
Marques da Silva faleceu em 6 de Junho de 1947, na sua residência à Praça Marquês de Pombal, no Porto. Nas suas múltiplas frentes de actuação, este académico de mérito das Academias de Belas-Artes de Lisboa e Porto, membro do Conselho Superior da Sociedade de Belas-Artes, sócio n.º 1 da Sociedade dos Arquitectos do Norte, deixou um legado duradouro na cultura arquitectónica portuense, na paisagem da cidade, na cultura de projecto dos arquitectos, nas práticas de ensino, numa certa forma de fazer e pensar a arquitectura que se foi consolidando no Porto ao longo do século XX.
O espólio de Marques da Silva foi legado à Universidade do Porto por Maria José Marques da Silva (1914-1994) e David Moreira da Silva (1909-2002), sua filha e genro, também arquitectos, para criação do Instituto Marques da Silva. Em 1996, a Universidade funda o Instituto Arquitecto José Marques da Silva e em Julho de 2009 é reconhecida a decisão de transformação do instituto em Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva (FIMS), uma fundação de direito privado que tem como missão a promoção científica, cultural, formativa e artística do património arquitectónico do arquitecto José Marques da Silva, inserido no contexto do seu tempo e aberto à cultura moderna de que foi precursor. A Fundação, sedeada na própria Casa-Atelier do arquitecto e no contíguo palacete da família Lopes Martins, e ocupando ainda um pavilhão existente no seu extenso jardim, acolhe igualmente o acervo literário, artístico, arquitectónico e urbanístico dos arquitectos Maria José Marques da Silva Martins e David Moreira da Silva. A FIMS articula as vertentes de conservação, valorização e tratamento da informação com a investigação e divulgação, estando disponível para acolher ou incorporar outros fundos ou unidades documentais de valor patrimonial, histórico, científico, artístico ou documental relativos, preferencialmente ligados à arquitectura e ao urbanismo portuense e português.
Em Maio de 2011, a Sociedade de Transportes Colectivos do Porto, em conjunto com a Fundação Marques da Silva, homenageou este autor, ao providenciar informação aos passageiros da Linha 22 dos Eléctricos do Porto sobre os vários edifícios projectados por Marques da Silva, pelos quais esta linha passa.

Lista de obras realizadas

Templo de São Torcato (1895), em Guimarães
Estação de S. Bento (1896-1916), na Praça de Almeida Garrett, no Porto
Bairro operário "O Comércio do Porto" (1899-1905), na Rua da Constituição/ Rua de Serpa Pinto, ao Monte Pedral, no Porto
Casa Augusto Leite da Silva Guimarães (1899), na Rua Latino Coelho/ Rua de Gil Vicente, no Porto
Mausoléu Clemente A. M. Lobo (1900), Cemitério de Agramonte, no Porto
Edifício da Sociedade Martins Sarmento (1903-1908), em Guimarães
Duas Casas David Soares da Silva Moreira (1904), na Rua D. João IV/ Rua de Fernandes Tomás
Edifício das Quatro Estações (1905), na Rua das Carmelitas, no Porto


Edifício 4 Estações na Rua das Carmelitas

Edifício das Obras Públicas (1905), em Braga
Casa Atelier Marques da Silva, na Praça do Marquês de Pombal, no Porto,  edifício projetado pelo próprio em 1909 e que viria a habitar entre 1914 e 1943.


Casa Atelier na Praça Marquês do Pombal - Fonte: Google Maps


Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular (1909), na Praça de Mouzinho de Albuquerque, no Porto (Rotunda da Boavista)
Teatro Nacional S. João (1910-1920), na Praça da Batalha, no Porto
Edifício dos Grandes Armazéns Nascimento inaugurado em 1927, hoje Galerias Palladium, na esquina da Rua de Santa Catarina com Passos Manuel, no Porto

Galerias Palladium na Rua de Santa Catarina

Liceu Alexandre Herculano (1914-1931), na Avenida de Camilo, no Porto
Palacete Conselheiro Pedro Araújo (1917), também conhecido como Palacete Primo Madeira na Rua do Campo Alegre, no Porto
Palácio do Conde Vizela (1917-1923), na Rua das Carmelitas/ Rua do Conde de Vizela/ Rua de Cândido dos Reis, no Porto

Palácio do Conde de Vizela no gaveto das ruas Conde de Vizela, Carmelitas e Cândido dos Reis


Edifício da Companhia de Seguros "A Nacional" (1919-1924), na Avenida dos Aliados, no Porto
Liceu Rodrigues de Freitas (1918-1932), na Praça de Pedro Nunes, no Porto
Edifício António Enes Baganha (1919), na Rua do Rosário nº 127, no Porto
Jazigo de José Lopes Martins (1921), Cemitério da Lapa, no Porto
Jazigo de Ramiro Magalhães (1922), Cemitério de Agramonte, no Porto
Edifício Joaquim Emílio Pinto Leite (1922), na Avenida dos Aliados, no Porto

Edifício António Enes Baganha


Edifício Joaquim Pinto Leite na Avenida dos Aliados




Edifício “ A Nacional” na Avenida dos Aliados


Edifício do Jornal de Notícias (1925), na Avenida dos Aliados, no Porto
Edifício de Rendimento (1925-1928), na Rua de Alexandre Braga, no Porto


Edifício na Rua Alexandre Braga – Ed. MAC


Assinatura de Marques da Silva na entrada do prédio da Rua Alexandre Braga – Ed. MAC



Casa e Jardins de Serralves (1925-1943), na Rua de Serralves, no Porto
Moradia Joaquim Gouveia Allen (1927), na Rua de António Cardoso, no Porto
Mercado Municipal (1927-1947), Guimarães
Santuário da Penha (1930-1947), em Guimarães
Quinta do Mata-Sete (1935), Jardins de Serralves, na Rua de D. João de Castro, no Porto
Edifício na Rua Barjona de Freitas (1940), Barcelos”
Fontes: sigarra.up.pt; pt.wikipedia.org; cct.portodigital.pt