Muitos portuenses se interrogam sobre o que será e para que
servirá, uma pequena construção (foto abaixo), semelhante a alguns quiosques
existentes na cidade, situado na Rua do Ouro, na confluência com a Rua das
Condominhas.
Antes de desvendar o mistério, ter-se-á que narrar alguns
factos históricos ligados à cidade do Porto.
No fim do século XIX, a cidade sentiu a necessidade de
caminhar em direcção ao progresso no capítulo da higiene urbana.
A idealização duma rede de saneamento teve início na década
de 1890, impulsionada pelo movimento higienista liderado por Ricardo Jorge,
chefe da Repartição de Higiene do Porto.
Assim, em 1897, os responsáveis da edilidade portuense
determinaram, após a anuência do governo do reino, a abertura de concurso,
publicitado em Diário do Governo, para a construção de uma rede de saneamento
público, dado que não podia continuar a anarquia reinante nas acções de
eliminação de lixos e dejectos de todo o tipo, o que implicava graves
consequências na saúde da população.
Para dar uma ideia da situação sanitária da cidade diga-se
que, em 1870, a mortalidade era de 23,6% e que, em 1881, subiria para 39,5%,
sendo a mortalidade infantil, em 1896, de 257,82‰.
Para agravar a situação, em 1899, a cidade esteve de
quarentena em virtude de um surto de peste bubónica.
Para seguir o exemplo de outras cidades europeias, seria
lançado um concurso para recolha, tratamento e eliminação dos dejectos de
origem doméstica e outros efluentes de proveniência industrial.
Tentava-se, deste modo, passar as fases antecedentes de
eliminação daqueles materiais, primeiro a céu-aberto e, depois, do lançamento
em fossas sépticas, de limpeza obrigatória de tempos-a-tempos.
A eliminação dos dejectos fazia-se por despejos de baldes,
quando cheios, normalmente em linhas de água.
Em determinada altura, as “privadas”, em prédios de andares, passariam para as varandas das
traseiras dos andares.
A meio da foto, na esquina das ruas de Passos Manuel e do
Ateneu Comercial, observa-se uma torre (coluna) dotada de uma “privada” por
cada andar – Fonte Google maps
O concurso para a realização das obras seria ganho pela
empresa Hughes & Lancaster, sedeada
em Westminster, com a proposta de
solução para a rede de saneamento a implementar na cidade do Porto, a
socorrer-se da acção da gravidade, coadjuvada com o emprego dos expulsores de shone nas zonas baixas
da cidade.
A proposta final
apontava para uma solução semelhante, já executada pelos projectistas entre
1889 e 1894, na cidade de Rangoon, na Birmânia.
Sobre a área a ser intervencionada dizia o nº 1 do concurso.
“1º A área a sanear é abrangida por uma linha perimetrica
que, costeando a margem direita do rio Douro, desde o esteiro de Campanhã até à
embocadura do Valle do Oiro, siga a recta até ao Matadouro, d’ahi pelos
extremos da rua da Rainha e Costa Cabral em linha recta até esteiro de
Campanhã.”
Legenda:
A – Valle do Ouro – zona do Largo António Calém (Sobreiras);
B – Matadouro – antigamente localizado na Rua de S. Diniz
(instalações da Câmara Municipal do Porto Limpeza urbana/canil);
C – Rua da Raínha (extrema) – actual Rua Antero de Quental;
D – Rua de Costa Cabral (extrema);
E – Rua Esteiro de Campanhã
“Sucintamente, a
solução apresentada consiste da divisão da cidade em bacias de drenagem
autónomas – districtos, as
quais no ponto de convergência gravítica são instalados tanques ou ejectores,
denominados de orgãos da rede, cuja função é injectar o esgoto num “collector-syphão”,
actualmente denominado de Interceptor Douro, que transporta o esgoto para
um reservatório instalado em local que permitisse o seu lançamento em meio
hídrico receptor, neste caso Sobreiras. Contudo o funcionamento deste sistema
requeria a existência de uma linha de ar comprimido, sendo a sua central de
compressão, instalada em Sobreiras”.
Cortesia da Engenheira Paula Alexandra Brandão e do
Professor Francisco Piqueiro; 6.as Jornadas de Hidráulica, Recursos Hídricos e
Ambiente (2011)
A cidade do Porto, a nível nacional foi, então, pioneira na
criação da rede de saneamento, cuja particularidade advém do colector/sifão,
instalado paralelamente ao rio Douro entre Rego do Lameiro e Sobreiras,
coadjuvado por uma linha paralela de ar comprimido.
O esgoto conduzido até ao reservatório, em Sobreiras, caía
em tanques, sendo lançado através de um exutor submarino no rio Douro.
Os tanques instalados em Sobreiras eram cheios enquanto
decorria o período de maré cheia. A descarga era feita duas horas depois de a
maré começar a baixar.
Complementava o sistema, uma central de produção de ar
comprimido, localizada também num edifício em Sobreiras, conforme critérios e
métodos da equipa projectista – Isaac Shone e Edwin Ault.
Ali, seria o ar produzido por dois compressores, accionados
a vapor produzido por duas caldeiras que queimavam carvão e tendo capacidade
para produzir 400 kg de vapor por hora, à pressão de 8 atmosferas e que
introduziriam na rede 10 m3 de ar, à pressão de 2 atmosferas, permitindo o funcionamento
dos chamados ejectores ou expulsores.
“A conduta de ar
comprimido desenvolve-se paralelamente ao collector-syphon entre os Guindais e
Sobreiras, numa extensão de cerca de 5 km também em ferro fundido com diâmetro
de 100 mm.
Em Sobreiras, além da
construção de um edifício para a central de ar comprimido, foi construído um
tanque bi-compartimentado com capacidade de 12 m3 e um exutor submarino de 1,00
m de diâmetro o qual se desenvolvia até ao leito do rio, para que a rejeição de
águas residuais ao meio hídrico, a qual ocorria 2 vezes por dia, não tivesse
impacto visual nem olfactivo nem concorresse para a ocorrência e alastramento
de epidemias”.
Cortesia da Engenheira Paula Alexandra Brandão e do
Professor Francisco Piqueiro; 6.as Jornadas de Hidráulica, Recursos Hídricos e
Ambiente (2011)
Com a rede a ficar acima do “collector-syphão” era possível, então, que o escoamento fosse feito por acção da
gravidade.
Neste caso, as
ligações da rede ao “collector-syphão” era executada por intermédio de um tanque, chamado “tanque de shone”, funcionando por enchimento e
contactando à entrada com a canalização da rede (em grez), e à saída para o “collector-syphão”
por um sifão.
“os collectores parciaes vêm despejar em grandes tanques enterrados,
denominados pela empreza, tanques Shone, que nada mais são que reservatórios,
com paredes em beton, comunicando directamente, a montante, com a canalização
de grés e a jusante por intermédio de um syphão S, seguido de canalisação de
ferro, com o grande collector marginal - “collector-syphão””
Adriano de Sá; “O
novo systema de exgottos do Porto”
Para as zonas
baixas da cidade a empresa propõe o uso de Ejectores
Shone ou Expulsores Shone,
funcionando com o auxílio de
ar comprimido.
O Ejector Shone não era mais que
um recipiente que, quando cheio, fazia a descarga com o auxílio do ar
comprimido.
O seu funcionamento
era automático dependente, apenas, do ar comprimido injectado na rede.
A pressão normal
era restabelecida com o escape desse ar para a atmosfera, através de uma coluna
de ventilação. No entanto, o fluxo de ar, para eliminação de odores na
atmosfera, era obrigado a passar por um reservatório de cascalho e areia.
Todos os Ejectores
Shone são do tipo duplo, em paralelo (dois recipientes lado-a-lado), excepto o
dos Guindais que é simples.
A área
intervencionada fica dividida no que os projectistas chamam districtos.
Distritos
Os districtos,
acima referenciados, estavam associados a tanques ou ejectores como se indica
abaixo.
A intervenção encontra-se concluída no final da primeira
década do século XX, sendo a primeira fase inaugurada em 1907, mas a entrada em
funcionamento pleno da rede, nomeadamente das bacias, apenas ocorre a partir de
1924, e estender-se-á até meados de 1926.
Para o prolongamento da duração dos trabalhos, contribuíram
alterações ao projecto inicial, que compreenderam um prolongamento da extensão
da rede à Foz do Douro.
Assim, em 1907, aprovado superiormente o ante-projecto da extensão
à Foz e Carreiros do novo sistema de esgotos, na presidência de Jacinto
Magalhães quando o pelouro das Obras e Saneamento era da responsabilidade de
dois vereadores, Duarte Leite e Xavier Esteves.
Em resumo:
“A cidade do Porto
assumiu no início do século passado um papel pioneiro ao definir a concretizar
um sistema de redes coletoras, interpretação e destino final das águas
residuais, o que permitiu durante algumas décadas uma ausência de descargas
poluentes no rio Douro, com princípios e métodos considerados como adequados às
condições de então.
O princípio de
rejeição das águas residuais consistia em conduzi-las para o Oceano Atlântico,
efetuando o seu lançamento na zona terminal do rio, realizando-se, assim, um
adequado lançamento do efluente no rio, dito de “à maré”. Este lançamento era
realizado na zona terminal deste curso de água, a partir de tanques de retenção
situados na zona de Sobreiras, local para onde convergiam os intercetores
existentes à época.
Ao longo de décadas
assistiu-se à extensão dos intercetores e ampliação das redes coletoras,
acompanhando a expansão urbanística da cidade, mantendo-se princípios atrás
mencionados, ou seja, a concentração de todas as águas residuais em Sobreiras.
Consequência deste
desajuste temporal, verificou-se a influência dos intercetores e tanques de
Sobreiras, pelo que as descargas no rio Douro se passaram a efetuar em vários
locais e de forma contínua, situação que não se coaduna com as exigências
ambientais dos nossos dias”.
Fonte: “aguasdoporto.pt/”
Afinal, a estrutura existente no Largo António Calém, e que
alguns confundem com um quiosque, é uma pequena construção que permite a visita
a um ejector
e a uma torre de ventilação do sistema de saneamento centenário da
cidade do Porto.
Trata-se do ejector que vai fazer a elevação dos fluídos
para os tanques de descarga situados nas Sobreiras.
De início, o funcionamento do sistema descrito haveria de
contar com algumas contrariedades importantes.
A primeira, respeitava à necessidade da presença de líquido
nas condutas acabadas de montar, o que não se verificava, pois eram poucos os
lares portuenses que tinham água ao domicílio.
Por outro lado, importava que fosse feita a ligação das
habitações à rede, e isso custava dinheiro.
A situação de falta de fluxo seria atenuada com a
determinação inicial de que a solução para a cidade do Porto fosse combinada,
isto é, que seria acrescentada à recolha dos efluentes domésticos e
industriais, também os caudais de origem pluvial.
A situação tem um certo incremento a partir de 1927, quando
entra em funcionamento os Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento.
Equipa de manutenção junto do Ejector do Largo António Calém
Todo o sistema arranca, em 1904, com a entrada em serviço da Central de Ar comprimido das Sobreiras.
"A Central de Ar Comprimido de Sobreiras, inaugurada em 1904,
foi o elemento central da 1ª rede de saneamento do Porto, a 1ª rede separativa
de Portugal, integrando soluções pioneiras para a época. Movida a vapor,
produzia ar comprimido que alimentava os ejetores Shöne, permitindo elevar e
expulsar os esgotos para o mar. Desativada em 2001, aquando da construção da
ETAR de Sobreiras".
Fonte: portowatercity.aguasdoporto.pt
No ano 2000, iniciar-se-ia a renovação da centenária estação
de tratamento das Sobreiras, que seria substituída por uma ETAR entrada em funcionamento
em 20 de Fevereiro de 2003.
O Interceptor Douro seria, então,
prolongado até ao Freixo.
Esta ETAR é constituída por três linhas de tratamento: a
linha líquida, a linha de lamas e a linha de desodorização.
A ETAR de Sobreiras trata cerca de 60% das águas residuais
domésticas da parte Ocidental da cidade do Porto, tendo sido dimensionada para
servir um equivalente populacional de 200.000 habitantes.
Esta estrutura serve, assim, a cidade, desde Miragaia ao
Castelo do Queijo e à Circunvalação, até à Areosa, numa área que inclui os
Hospitais de Santo António e São João.
Devido à exiguidade de terreno disponível, e por forma a
minimizar o impacte visual das construções, a ETAR desenvolve-se em vários
níveis e encontra-se parcialmente enterrada, partindo da cota da Rua de
Sobreiras e terminando à cota da Rua de Gaspar Correia.
Além disso, as coberturas dos principais órgãos de
tratamento são vegetalizadas e a zona envolvente ajardinada.
Complementando o sistema de tratamento de esgotos da cidade,
foi inaugurada, no Freixo, uma nova ETAR, em 7 de Setembro de 2000, para servir
a zona oriental da cidade.
O meio receptor deste equipamento é o Rio Tinto.
A rede em funcionamento, há mais de cem anos, à qual
converge cerca de 40% do esgoto produzido na cidade do Porto, foi prolongada
até à Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) do Freixo.
No entanto, persiste um troço original, central, de secção variável
com uma extensão de 2 000m, entre a Alfandega e Gomes Freire.
Presentemente, o ar comprimido para os 27 ejectores Shone
instalados nas zonas baixas da cidade do Porto é agora produzido em modernas
centrais de ar comprimido geridas pela Águas e Energia do Porto.













