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segunda-feira, 3 de julho de 2017

(Continuação 24)

Lado Norte


A Praça de D. Pedro estava definida, a Norte, pela Câmara Municipal, instalada desde 1819 no palacete Monteiro Moreira e que viria mais tarde a ampliar as suas instalações, ocupando o vizinho palacete de Morais Alão Amorim.





Praça D. Pedro - Ed. Alberto Ferreira-Praça da Batalha



Praça D. Pedro em 1910



Na gravura acima, o elétrico (à direita) revela que o ano deste registo é de c. 1910, o que significa que a bandeira da monarquia, hasteada no mastro da Câmara, não tardaria a dar lugar à verde-rubra, do novo regime republicano. 



Palacete de Monteiro Moreira - Colecção Mário Morais Marques, In Porto Desaparecido Marina Tavares Dias / Mário Morais Marques, Quimera 2002





A Câmara - Colecção Mário Morais Marques, In Porto Desaparecido Marina Tavares Dias e Mário Morais Marques, Quimera 2002



Quando, em 1819, a Câmara se instalou no edifício da Praça D. Pedro, modificou a fachada encimando-a com um frontão onde foi colocada uma pedra de Armas e Brasão da cidade. 
 
 
 

Pedra de armas (concepção do século XVIII) instalada no frontão da fachada do edifício da Câmara, transladada do espaldar da Fonte da Natividade
 
 
 
Aqueles símbolos heráldicos da cidade vieram a sofrer, ao longo dos anos, algumas transformações.
 
 
 
"O original brasão da Invicta representava «uma cidade de prata, em campo azul sobre o mar de ondas verdes e douradas».
Em 1517 sofre a primeira alteração, ao qual foi incluído a imagem de Nossa Senhora de Vandoma, com o menino Jesus nos braços sobre um fundo azul e entre duas torres.
Em 1813 e aquando da Segunda modificação, a imagem de Nossa Senhora aparece ainda ladeada por duas torres encimadas por um lado por um braço e por outro por uma bandeira.
Em 1834 no reinado de D Pedro IV ao brasão foi introduzido uma inscrição «Antiga, mui Nobre sempre Leal e Invicta cidade».
Este brasão era então constituído por um escudo esquartelado, cercado pelo colar da Ordem da Torre e Espada, tendo nos primeiros e quartos quartéis as armas de Portugal e nos segundos e terceiros as antigas armas da cidade. Encimava o escudo um dragão verde assente numa coroa ducal, sobressaía uma longa faixa com a legenda Invicta.
A última alteração do brasão, em 1940, dá-lhe a forma actual conhecida por todos, representado pelas armas. Apresenta-se assim de azul com um castelo de ouro, constituído por um muro ameado e franqueado por duas torres ameadas, aberto e iluminado a vermelho, sobre um mar de cinco faixas ondeadas, sendo três de prata e duas de verde.
Sobre a porta assente numa mesura de ouro a imagem da virgem com diadema na cabeça, segurando um manto azul e com o menino ao colo, ambos vestidos de vermelho, acompanhados lateral e superiormente por um esplendor que se apoia nas ameias do muro.
Em destaque dois escudos de Portugal antigo. No cimo uma coroa mural de prata, de cinco torres e um coral da ordem militar da Torre e Espada, do Valor e do Mérito.
A listel branco a inscrição «Antiga, mui Nobre sempre Leal e Invicta cidade do Porto».
Fonte: Site Câmara Municipal do Porto
 
 
 
Em O Tripeiro Série VII, Ano XXV, Nº.1, Horácio Marçal explica o brasão do Porto: 
 
 
“ Em 13 de Maio de 1813 por uma Carta Régia do Príncipe D. João (futuro D. João VI), para galardoar a cidade pelo seu heroísmo aquando da primeira Invasão Francesa em 1807, erguendo o “”grito da independência”” em 1808, lhe foi dado um acrescentamento às suas armas: 2 braços armados e manoplados em cima das torres; um erguendo uma espada engrinaldada de louro, outro, um estandarte com as armas reais. Em 14 de Janeiro de 1837, um documento redigido por Almeida Garrett e assinado por D. Maria II e Passos Manuel, “” para memória de que a cidade do Porto bem mereceu da Pátria e do Príncipe””, determina que as suas armas sejam esquarteladas com as do reino e tenham ao centro, num escudete de púrpura, o coração de ouro de D. Pedro (por ele deixado à cidade, em testamento, que o guarda na Igreja da Lapa) sobrepujado por uma coroa de duque (no mesmo decreto em que foi dada a Torre e Espada), tendo por timbre o dragão negro das antigas armas dos senhores Reis destes reinos: que tenha o colar da Ordem da Torre e Espada em volta do escudo (já concedida por Decreto de 04-04-1833) e junte aos seus títulos, o de Invicta”.
 
 
 

Brasão de 1813

 
 
O brasão da foto acima apresenta dois braços armados e manoplados (protegidos por luva) em cima das torres; um erguendo uma espada engrinaldada de louro, outro, um estandarte com as armas reais.
Encontra-se guardado no Museu Soares dos Reis, tendo sido, primeiramente, colocado numa fonte da Praça da Batalha.
 
 
 
 

Pedra de armas com brasão, segundo a concepção de Almeida Garrett, que encimava fonte do Largo de S. Domingos e que está instalada nos jardins dos SMAS, na Rua de Nova Sintra
 
 
 
 

 
Armas do Porto, após a alteração de 1940, segundo as alterações introduzidas pelo Estado Novo
 
 
 
Por decreto de 14 de Janeiro de 1837 verifica-se, então, a alteração no brasão do Porto, pelo qual Almeida Garrett lhe daria a respectiva forma. Para isso, esquartelou as armas, colocou-lhe a coroa ducal, o dragão negro, etc.
Colocou-lhe nome de “Invicta” e o colar da Ordem de Torre e Espada.
Por sua vez, o edifício da Câmara seria, mais tarde, coroando o seu frontão, dotado de uma estátua de um guerreiro, representando o Porto, com um elmo encimado de um dragão, o que remete para as Armas concebidas por Almeida Garrett em 1837.
No escudo um brasão, possivelmente, dos inícios do século XIX, com uma cidade rodeada de muralhas que encosta ao rio. 



“O Porto” no Palacete Monteiro Moreira
 
 

O “Porto” a quem o povo chamava “Malhão”




O palacete Morais Alão Amorim à esquerda



Carlos de Magalhães, no seu “Guia do Porto Illustrado”, desvaloriza os edifícios dos Paços do Concelho, provavelmente fazendo eco de uma pretensão da cidade, que pretende rasgar um ampla avenida para norte e até à Circunvalação, do mesmo modo que em Lisboa está a ser concretizada a Avenida da Liberdade.


A Casa da Câmara – Não é, como naturalmente seria justo suppor-se, um edifício notavel pela sua architectura e decoração; é apenas um casarão vulgar, de medíocre apparencia exterior, situado n'uma das fa­ces da p. D. Pedro, e interiormente de péssimo aspecto e detestável construcção. Foi adquirido, para este fim, em 1815, e adaptado, o meIhor que foi possível, depois de grandes e dispendiosas obras. Ainda assim merece as honras de uma visita intelligente, se se quizer apreciar alguns trabalhos artís­ticos ou documentos de grande valor histórico. No primeiro caso devem notar-se os frescos do tecto das salas das sessões e secretaria, devido ao pincel do hábil artista trasmontano, que foi lente substituto de desenho na Real Academia de Marinha e Commercio, João Baptista Ribeiro; o retrato admi­rável, tamanho natural, de Carlos Alberto executado por Capisani, um dos primeiros pintores italianos da épocha; o retrato de D. Carlos I, do afamado artista Sousa Pinto, e depois, em parte, restaurado por Manoel António de Moura; o retrato do actual monarcha D. Manoel II, do pintor Júlio Costa, etc., e por ultimo, do genial e malogrado Soares dos Reis, um admirável busto em mármore de Carrara, de Pinto Bessa, um dos presidentes das vereações modernas, a quem muito deve a cidade actual, em melhoramentos.
No segundo caso impõe-se a referen­cia ao riquissimo Archivo Municipal, que é, talvez, depois da Torre do Tombo, o mais valioso que o paiz possue, e que merece bem ser visitado, especialmente por aquelles que se interessam por coisas da nossa historia.”
Fonte: Carlos Magalhães




Ainda do lado norte da Praça e a poente do palacete de Morais Alão apresentava-se a Travessa da Praça D. Pedro, hoje, a Rua Dr. Magalhães Basto, que fazia a ligação, primeiro, com a Rua das Hortas e, depois, com a Rua do Almada.

 
 
À esquerda, a evolução do edificado à entrada da Travessa da Praça D. Pedro, antes de 1916, pois ainda se divisa, em ambas as fotos, o palacete de Morais Alão
 
 
 

Visita de D. Manuel II, em 1908

 
 
Na foto acima, obtida durante uma visita à cidade, em 1908, observa-se que o novo edificado apresentado em foto anterior, à entrada da Travessa da Praça D. Pedro, ainda não foi construído, pelo que, tal facto deve ter acontecido entre 1908 e 1916, se bem que dos três prédios em causa, os dois primeiros (no sentido ascendente), propriedade de José Narciso da Silva tiveram licença de construção em 1901, com o nº 137.
 
 
 

Desenho de fachada de prédio integrante de projecto que obteve licença nº 137/1901


 
O prédio alto, mais antigo, adossado ao palacete de Morais Alão, que ainda se encontra de pé, nessa mesma foto, foi aquele que albergou, anos antes, a drogaria do pai do poeta Soares de Passos.
Em 1914, o prédio da esquina da Travessa da Praça D. Pedro (a norte) e da Rua do Almada, pertencente à firma J. M. Fernandes Guimarães & Cia., foi alvo de obras de remodelação, que obtiveram a licença respectiva com o nº 550/1914. Nessa morada, teve aquela firma a sua casa bancária.

 
 

Desenho de fachada de prédio integrante de projecto que obteve licença nº 550/1914
 
 
 
 
No lado norte da praça apresentavam-se, também, a nascente do palacete de Monteiro Moreira, as ruas de D. Pedro e do Laranjal. 
No sítio onde hoje, mais coisa menos coisa, se ergue o monumento intitulado "A Juventude ", mais conhecido como "Menina Nua", ao fundo da Avenida dos Aliados existiu, em tempos, um cemitério para cães criado em 1849, pela Câmara do Porto, que se situava no gaveto daquelas duas ruas e, onde, mais tarde, seria erguido o prédio onde se instalaria o Hotel de Francfort, com o café Chaves (1900/1917), no rés-do-chão.



“Pois foi junto a esse gaveto, do lado poente, que a Câmara criou o tal cemitério para cães. Que não teve uma longa vida. Com efeito, aí por 1851, um tal Luís Domingos da Silva Araújo, capitalista, como eram classificados os homens de dinheiro daquele tempo, comprou o terreno à Câmara e nele mandou construir um edifício onde, pouco depois, se instalou o Hotel de Francfort, que, nos finais do século XIX, começos do seguinte, era o mais importante hotel do Porto. Para conseguir esta categoria, muito contribuiu a sua privilegiada situação: haveria de ficar a dois passos, digamos assim, da estação central do caminho-de-ferro, a Estação de S. Bento onde o primeiro comboio chegou a 7 de novembro de 1896.
O edifício mandado fazer por Luís Domingos da Silva Araújo, não primava pela elegância arquitetónica. Tinha rés-do-chão e quatro andares e apresentava o feitio de um ferro de brunir. Nos baixos do prédio funcionava uma livraria e tipografia de Paulo Podestá, falecido aí por 1869, e onde instalou a sua livraria e tipografia Internacional.
Ao lado, ficava a célebre cervejaria Schereck e o não menos célebre café Chaves”.
Com a devida vénia a Germano Silva




Hotel Francfort pronto para ser demolido



Na foto acima, um pouco mais para a esquerda, fora de observação, em frente à Rua dos Lavadouros, situava-se a famosa Cervejaria Bastos.
O Hotel Francfort sempre esteve presente na prosa dos escritores da época, como se observa nos textos que se seguem. Ocupava um prédio situado atrás do palacete da Câmara, num gaveto formado pela Rua D. Pedro que acabava na Cancela Velha, e a Rua do Laranjal correndo para Norte, praticamente paralela àquela, que ia ter em frente à Igreja da Trindade.


“ Meu caro amigo! Os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José Matias não se arredou do Porto. Nesse Agosto o encontrei eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne e bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e ele se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz”.
Fonte: Eça de Queiroz (1845-1900) – Singularidades de uma rapariga Loira” – Contos


“Carlos abria os olhos para ela, assombrado, emudecido. Não esperava aquela extravagância. Supusera que ela o queria no Porto, escondido no Francfort, para passeios românticos à Foz, ou visitas furtivas a algum casebre da Aguardente...” 
Fonte: Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888


"Cançada de uma longa espectativa infructifera, encaminhei-me para o Hotel de Francfort, acerca do qual me fallara com louvor o conde de Paraty. Ordenei que conduzissem para ahi a minha bagagem, resolvida a não dar nem mais um passo. A primeira impressão foi atroz! Imagine-se uma rua descalcetada, invadida por uma nuvem de operários esfarrapados e sujos, portas ennegrecidas, casas agglomeradas; em vez de aposentos espaçosos uns simples quartos de collegial; emfim, a apparencia de uma hospedaria de província de terceira ordem.” 
Fonte: Maria Rattazzi – “Portugal a vol d’oiseau” (Portugal de Relance) 1881 “



“Pelo hotel passaram inúmeros forasteiros de nome, em especial gente de teatro, e muitas celebridades líricas, como a Ida Benza, a Isabella Schwichner, a gloriosa Ristori, a Darclée, a Elise Hensler, que depois casou com o rei D. Fernando, a Chiaramonte, a Dealberti, etc., pois o Porto em tempos foi grande apreciador de bom teatro lírico, não se contentando com artista de segundo plano.
O penúltimo dos seus proprietários, François Babel, muito culto e de bastante iniciativa, quis torná-lo um hotel moderno, dotando-o até de balneário, mas a casa não se prestava a isso. Ainda assim, para o tornar conhecido fora do Porto, estabeleceu ali jantares de réclame, às quintas-feiras, bem servidos, e relativamente baratos, que lhe deram nome. A custo se ia tenteando, se não fosse o advento da república, que deslocou os políticos para o Grande Hotel do Porto, conservando-se-lhe apenas fiel, enquanto viajava, o Sr. Dr. António José de Almeida”.
Fonte: António Lança in O Tripeiro, nº 109 (nº7 da 2ª série), 1 de Abril de 1919



A propósito do texto anterior, diga-se que Elise Friederike Hensler, titulada Condessa de Edla, foi a segunda esposa do rei D. Fernando II de Portugal, viúvo da rainha D. Maria II.
De origem suíça-alemã, Elise Hensler aos doze anos imigrou com a família para Boston, nos Estados Unidos, onde recebeu uma cuidadosa educação. Amante das artes e das letras, terminou os seus estudos em Paris. Ao longo dos anos, tornou-se fluente em sete idiomas.
Após o término da sua educação, Hensler actuou no Teatro alla Scala, em Milão, Itália. No dia de Natal de 1857, em Paris, aos vinte e um anos, ela deu à luz uma menina, batizada Alice Hensler, cujo pai era desconhecido.
No dia 2 de Fevereiro de 1860, Elise chegou a Portugal como membro da Companhia de Ópera de Laneuville, para cantar no Teatro Nacional São João, no Porto. Actuou em seguida no Teatro Nacional de São Carlos, de Lisboa, no dia 15 de Abril de 1860. Interpretava a pagem da ópera "Um Baile de Máscaras", de Verdi. O rei D. Fernando II, no meio da plateia, apaixonou-se pela bela cantora, então com vinte e quatro anos.
Além de cantora e atriz, Hensler era escultora, ceramista, pintora, arquiteta e floricultora.
O casal, que contraiu casamento em 1869, gostava de se refugiar em Sintra, onde D. Fernando II tinha comprado o abandonado Mosteiro da Nossa Senhora da Pena.
Em 1885, D. Fernando faleceu e, em testamento, deixou à sua viúva todos os seus bens, incluindo o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, ambos em Sintra.



Anúncio do Hotel Francfort do início do século XX

 

Em 5 de Junho de 1917, cerca de dois anos depois de ter falecido o Conde de Alves Machado, no Hotel Francfort, onde morou durante anos, falecia também, subitamente, neste hotel onde se encontrava hospedado, o Conselheiro Teixeira de Sousa (primeiro prémio Macedo Pinto da Escola Médica do Porto, onde se licenciara com distinção).
O nefasto acontecimento ocorrera após um passeio dado pela cidade na companhia de uns amigos.
O Conselheiro Teixeira de Sousa, antigo Presidente do Conselho e Ministro da Fazenda era, à data, sócio gerente da Empresa de Águas de Vidago, tendo promovido, nessa qualidade, a construção do  Vidago Palace.




Rua D. Pedro (mais tarde Rua Elias Garcia) à direita, e Rua do Laranjal à esquerda



Do lado esquerdo da fotografia anterior, vê-se a Rua do Laranjal e a capela dos Reis Magos. No centro, o Hotel Francfort e o café Chaves. À direita, a Rua Elias Garcia que, antes, foi Rua D. Pedro. Aquela Rua do Laranjal, rumando para Norte, ia desembocar em frente à Igreja da Trindade.




Troço da Rua do Laranjal com a Igreja da Trindade em fundo



Pela direita da foto, sempre em frente, corria a Rua Elias Garcia



Capela dos Reis Magos



A capela dos Reis Magos teria sido edificada em 1738-39, e  desmontada em 1915, aquando da construção da Avenida dos Aliados.
Era uma capela particular de Inácio Leite Pereira de Almada Pinheiro Moreira, que, no início do séc. XIX, a vendeu, juntamente com o palacete à Câmara do Porto. Nos dias de vereação, era lá celebrada missa.
Nesta capela estava a imagem de São Sebastião, que tinha estado, no nicho da porta com este nome, na cerca velha, bem como a de São Jorge, que veio da Igreja da Graça (Colégio dos Órfãos), em 1903, e a de Nossa Senhora da Natividade, que tinha estado na fonte da Natividade, na Praça Nova e, ainda, a de São Marçal, padroeiro dos bombeiros que se encontra, agora, ao que dizem, no quartel do Batalhão de Sapadores Bombeiros.
Em 25 de Maio de 1916, a edilidade portuense decide entregar por 60$00 a fachada da capela dos 3 Reis Magos.
As pedras desta capela foram então compradas  e o templo deslocado para Cantanhede, mais, precisamente, para uma terra chamada Pocariça, onde foi reedificada e, actualmente, ainda pode ser admirada.



Capela dos Reis Magos, em Pocariça, agora, como Igreja de S. Tomé

segunda-feira, 20 de março de 2017

(Continuação 20) - Actualização em 17/05/ e 23/07/2019 e 07/01/2021

Hotéis, Restaurantes e outros Estabelecimentos


Hotéis no Porto da 2ª metade do século XIX



“Não sabemos, ao certo, desde quando as estalagens começaram a funcionar no velho burgo por­tucalense. A referência mais anti­ga à existência de estalagens no Porto é de maio de 1368. Consta de um documento que o meirinho-mor de Entre Douro e Minho enviou aos juízes da cidade informando-os de que não deviam consentir que os fidalgos, por muito pode­rosos que fossem, se aposentassem nas ca­sas particulares do burgo, mas que, se tives­sem mesmo necessidade de ai ficar, que o fizessem na "casa da estalagem", da cidade, embora somente pelo tempo estritamente necessário. 
Ora, a "casa de estalagem" que, naquele tempo, el-rei possuía no Porto ficava "no sítio a que chamam as Congostas", que, tendo em conta a topografia actual, podemos localizar como tendo sido na parte baixa da Rua de Mouzinho da Silveira. Um troço do Porto an­tigo que desapareceu de todo quando se construiu a Praça do Infante D. Henrique. 
A carta chamemos-lhe assim, que o mei­rinho-mor de Entre Douro e Minho escreveu aos juízes da cidade trouxe à memória aque­le costume antigo, que vinha do tempo de D. Afonso IV, de os burgueses do Porto não que­rerem que os fidalgos residissem na cidade. 
Tratava-se, acima de tudo, de um privilé­gio de ordem moral, pois os portuenses con­sideravam os ricos e poderosos como pes­soas ociosas, elementos de perturbação e causadores de enormes "vergonças". Mas, para além disso, os fidalgos quando calhava de estarem no burgo, pretendiam adquirir os artigos de que necessitavam pelo menor pre­ço, prejudicando a cidade na sua economia. 
Nos tempos idos, quando, por exemplo, o rei chegava ao Porto, "os seus", isto é aque­les que o acompanhavam, não podiam aposentar-se nas casas da Rua das Eiras (a atual Rua Chã), nem nas da Rua dos Mercadores. Estava-lhes vedado, também, tomarem por pousada as casas onde vivessem "viúvas honradas", nem moradas em que estives­sem mulheres casadas cujos maridos "an­dassem por outras terras nos seus tratos de negócios". 
Os fidalgos, proibidos de se instalar nas casas dos cristãos, passaram a ocupar, nas suas deslocações ao Porto, as moradias dos judeus, entretanto instalados na nova judia­ria do Olival. 
Em 1390, estando a corte em Estremoz, recebeu D. João I um protesto dos judeus do Porto, por causa do que consideravam um abuso por parte da fidalguia, que à força ocu­pava as suas residências na nova judiaria. O monarca levou o protesto a sério e expediu uma ordem no sentido de que, "fosse quem fosse, ficava proibido de pousar nas casas da nova judiaria". 
Logo no ano seguinte, o mesmo D. João I, a solicitação dos procuradores do concelho do Porto, mandou que nesta cidade, e à custa dela, se criassem "boas e grandes" estalagens, "em que pudessem pousar todo los grandes e honrados e outros de qualquer estado e con­dição que fossem", e que nelas devia haver "boas casas; e câmaras; e alpendres; e currais; e mantimentos, para os viajantes e cevada e palha para as bestas".  
Ainda em 1391, estando "os homens bons do Porto" (entenda-se juízes e vereadores da cidade) reunidos "no sobrado da vereação" (naquela velha casa da Rua de S. Sebastião agora transformada em posto de apoio aos tu­ristas), resolveram, para acabar com os gran­des prejuízos e danos que eram provocados pelos fidalgos durante as suas permanências na cidade, e no cumprimento do que já havia sido determinado pelo rei D. João I, criar nes­ta cidade várias estalagens. E logo ali delibe­raram também que os lugares mais apropria­dos para a instalação das novas estalagens eram os seguintes: "primeiramente, nas Con­gostas, duas estalagens grandes e boas; uma no Souto, também grande e boa; outra, nas ca­sas que foram de Esteves Ferreira (?); mais ou­tra na Rua Chã, nas casas, que foram de Jeró­nimo da Devesa; ainda outra, e boa, na porta de Cima de Vila; em Miragaia outra estalagem que seja grande e boa; e uma outra ainda em Vila Nova, do outro lado do rio". 
Ao cumprirem esta sua deliberação, os chamados" homens bons do Porto" estavam apenas a procurar defender a sua honra, os privilégios dos cidadãos do burgo e a avulta­da fazenda, ou seja, os bens, a riqueza dos mercadores da cidade, que já era por aquele tempo bem avultada. 
Sabemos disso por causa do episódio que foi protagonizado por Domingos Peres, um riquíssimo mercador portuense do tempo de D. Fernando. Num determinado momento das lutas que este monarca manteve com os castelhanos, Domingues Peres foi feito prisio­neiro e para salvar a vida teve que pagar o avultado resgate de 10 000 francos em ouro, uma enorme fortuna para a época. 
Conta Fernão Lopes, numa das suas pre­ciosas crónicas, que logo na semana a seguir à do seu resgate, Domingues Peres viu chegar da Flandres uma sua nau que só em fre­tes e mercadorias lhe proporcionou lucros muito superiores ao valor do resgate que ha­via pago aos castelhanos.
A criação de uma estala­gem, "grande boa", em Mi­ragaia justificava-se plenamente. Este bairro, ao tempo da fundação da estalagem, fi­cava da parte de fora do muro (Muralha Fernandina) da cidade, mas estava em pleno crescimento económico e demográfico. Nas inquirições de 1258, cons­tava que em Miragaia havia já setenta casas e que em cada dia se faziam mais. Aproximadamente cerca de um século e meio depois, Miragaia progredira a olhos vistos, de modo a justificar plenamente a criação de uma estalagem para utili­dade de quantos ali se des­locavam em negócio ou para acompanhar a cons­trução naval, que se desen­volvia nos estaleiros que funcionavam no chamado areal de Miragaia, onde, no século XIX, se construiu o enorme e granítico edifício da Alfândega que hoje aco­lhe o Museu dos Transpor­tes e Comunicações. 
Naqueles tempos (finais do século XIX) os hábitos familiares eram muito diferentes dos de hoje. Por exemplo, almoçava-se cedo, às oito horas, jantava-se às duas (14 horas) "quando o sino da Sé tocava a chamar para o coro", conta um cronista da época; e ceava-se das nove para dez (da noite) "quando tangia o sino de recolher também chamado dos mariolas", acrescenta o cronista. Isto era o que se passava, digamos assim, em família. E fora de casa, como era?
Cortesia de Germano Silva
 
 
Na primeira metade do século XVIII, as estalagens encontravam-se por toda a baixa da cidade.
À Porta de Carros, diante da Igreja dos Congregados existia, em 1821, uma estalagem.
 
Avisos: na Estalagem Real, à Porta dos Carros, existe uma parelha de cavalos que se pretende vender”.
In “Borboleta dos Campos Constitucionais”, p. 4, de 13 de Julho de 1821 

 
 
O Almanaque portuense para o ano de 1854-55, apontava para a existência de 9 hotéis no Porto.
Entre eles estava o Hotel do Comércio, na Rua Nova dos Ingleses, o Hotel Águia d’Ouro, na Praça da Batalha, com restaurante e café no piso térreo, a Hospedaria do Peixe vinda do palacete do visconde de Balsemão no Largo dos Ferradores e agora no nº 12 da Rua da Porta de Carros, o “English hotel” de Mary Castro, sito na Rua da Reboleira, a Hospedaria Inglesa na Rua do Calvário e não mencionava qualquer unidade hoteleira na Foz.
A mesma publicação em 1864, porém já menciona 4 unidades na Foz, entre elas a Pensão Mary Castro, no nº 24 da Rua das Motas, como filial do English Hotel, onde Camilo se alojou várias vezes a partir de 1879, distribuindo-se as restantes pela Rua Central e Rua Nossa Senhora da Luz, sendo que mais tarde na Rua de S. Bartolomeu, junto ao mar se viria a estabelecer uma unidade de banhos quentes e o Hotel da Boavista sito na Esplanada do Castelo.
No Porto em 1864 já o almanaque dava conta de 25 unidades hoteleiras.
Na zona do Carmo e Carlos Alberto, onde em frente ao restaurante Caldos de Galinha parava a mala-posta para Viana do Castelo eram referenciados os Bons Amigos, Boa Esperança, Leão d’Ouro e Comércio.
Na zona da Praça da Batalha eram referidos o Estrella do Norte, Estanislau, Sol, Europa, Águia d’Ouro e Nova Itália.
Em S. Lázaro onde estava situada a Nova Companhia de Viação Portuense, que alugava diligências e donde partiam carreiras regulares para Vila Real, Régua e Chaves, abririam o Hotel Pomba d’Ouro e Hotel Boa União.
Em consequência da instalação de uma estação de Char-à-Bancs no começo da Rua do Bonjardim, que fazia ligações à estação ferroviária das Devesas, a zona da Praça D. Pedro começaria a ser invadida por unidades hoteleiras.
Por sua vez, o Palácio de Cristal chamaria para junto de si o famoso Grande Hotel do Louvre, no começo da Rua do Rosário.
Com a chegada do Americano, primeiro e depois da “Máquina” (conhecida também por “Vaporzinho”, percursora a vapor do Metro actual), na estação de Cadouços na Foz, surgiria o Hotel Italiano e entre 1874 e 1884, algumas outras unidades, uma delas, sucursal do Grande Hotel do Louvre, situada na Rua de S. Bartolomeu.
Naquele mesmo período de tempo entre 1874  e 1884, na cidade do Porto passa-se de 27 para 37 unidades hoteleiras.
Para albergar camponeses chegados para procurar emprego na indústria e outros com menos posses existiam a Hospedaria Espanhola na Rua Chá, a Hospedaria de São Sebastião na Rua Escura e o Hotel de Portugal na rua de Trás da Sé.
Com a chegada do comboio a Campanhã várias unidades se instalam nas imediações da estação ferroviária, bem como nas zonas de S. Lázaro, Praça da Batalha e Rua de Entreparedes.
Em 1896 o comboio chega a S. Bento, pelo que começa a assistir-se a um deslocamento de unidades de Campanhã para junto da nova estação”.
Fonte: Baseado em textos de Jorge Ricardo Pinto e Lígia Azevedo


A propósito do texto anterior, é de destacar a Hospedaria do Peixe, de António Bernardino Peixe, que começou por ter existência na Rua do Bonjardim, ainda na primeira metade do século XIX, ocupando instalações no Palácio de Duarte Huett Bacelar, na Rua do Bonjardim (Pátio do Paraíso) e, na década de 1840, se transferiu para o Palacete Balsemão, para o Largo dos Ferradores, onde em 1849 se alojou o rei Carlos Alberto da Sardenha.
Em 1854, quando a hospedaria já ostentava a designação de Hotel do Peixe, em virtude da venda do palacete, pelos herdeiros do visconde Balsemão ao 1.º visconde da Trindade, Bernardino Peixe teve que abandonar aquelas instalações. 
Então, depois de uma breve passagem pela Rua das Taipas, n.º 63, acabaria na Rua da Porta de Carros, n.º 12.
Ainda, sobre o anterior texto, o Handbook for Travellers in Portugal, em 1855, recomendava três unidades hoteleiras.


 



 
Sobre o Hotel Pomba d’Ouro, também acima referenciado, o “Jornal do Porto” na sua edição de 18 de Novembro de 1871, na pag. 2, noticiava o alojamento nessa unidade hoteleira do ministro do reino D. António Alves Martins e da sua comitiva.


 

 

 
 
António Alves Martins (Alijó, 18 de Fevereiro de 1808 – Viseu, 5 de Fevereiro de 1882) referenciado na notícia acima, para além de professor universitário foi, desde Julho de 1862, Bispo de Viseu, assumindo-se ainda como dirigente do Partido Reformista, entre 1868 e 1869, e, por isso, é aclamado presidente do conselho de ministros, no biénio 69/70.


 
 

O Hotel Pomba d’Ouro ocupava os andares superiores do prédio, em destaque, na foto


 
O English Hotel , atrás referenciado, estava aberto, na Rua da Reboleira, já em 1854 e, a partir de 1862, passaria a ocupar a casa-torre de Pedro Pedrossem, nº 59, daquela rua, com o nome de English Hotel e instalar-se-ia, também, na Foz do Douro, na Rua das Motas (como filial), com a designação de Pensão Mary Castro, sabendo-se que, já por aqui estava, em 1864.
A Pensão Mary Castro era assim uma filial do English Hotel.
Em 1872, o English Hotel abandonaria definitivamente a casa-torre.
A senhora que deu nome àquela pensão era a mãe do célebre tenor Frank de Castro, muito popular, no Porto, nos meados do sé­culo XIX.


 

Fachada da casa, na Rua da Reboleira, voltada para a Rua do Outeirinho





Pensão Mary Castro - Ed. “A Nossa Foz do Douro”-facebook


 
Na foto acima, vemos a “Pensão Mary Castro”, na Rua das Motas, n.º 48, na Foz do Douro, muito frequentada por Camilo Castelo Branco. 
Em 5 de Novembro de 1939, todo o seu mobiliário e restante recheio, foi objecto de um leilão.
Mais tarde, aproveitando as anteriores instalações, por lá se estabeleceu a Pensão de José Luís Gomes, que mantinha o seu funcionamento aquando da revolução de Abril, mas, já no início do século XXI, o espaço passaria a ser a residência de um cônsul.



 
 

Vista parcial do que foi, em tempos, a Pensão Mary Castro - Ed. Isabel Silva


 

Traseiras do que foi, outrora, o Hotel Mary Castro, na Foz


 
 
O Hotel do Comércio, também acima referido, haveria de mudar para o Largo Moinho de Vento, em 1861, segundo anúncio seguinte:

 
“Acha-se aberto o Hotel do Comércio que, por espaço de 12 anos, existia na rua dos Ingleses; mudou-se para o largo Moinho de Vento, 1 e 2, ao pé da praça de Carlos Alberto.”
In jornal “O Amigo do Povo”, 23 de Fevereiro de 1861 – Sábado

 
Entretanto, já em 1848, o fundador do Hotel do Comércio, na Rua Nova dos Ingleses, tinha passado esse estabelecimento hoteleiro e aberto um outro, na zona do Carmo, como nos conta o anúncio seguinte:

 
"Jerónimo da Cunha Bandeira, que teve Hospedaria na rua Nova dos Ingleses com a denominação de - Hotel do Comércio – mudou o seu estabelecimento para a Praça dos Voluntários da Rainha nº 66, com o título de –‘ Hospedaria Brasileira’ – onde se acharão bons cómodos, e bom serviço, continuando a fazer toda a qualidade de peixe de escabeche, e tudo o mais que lhe fôr encomendado.”
In jornal “O Nacional” de 20 de Novembro de 1848

 

Na Foz do Douro, por sua vez, destacavam-se para além da Pensão Mary e Castro, o Hotel Luzitânia e o Hotel do Comércio (o da Foz do Douro) e o Hotel dos Banhos Quentes, este na Rua de S. Bartolomeu.
Sobre o Hotel Luzitânia – para nacionais e estrangeiros – no Passeio Alegre, casa nº 54, em S. João da Foz do Douro, dizia a imprensa:

 
“Estará aberto este novo estabelecimento desde o dia 21 de Junho. Esta linda casa, situada, por certo, no mais lindo sítio da Foz, oferece os melhores cómodos e tratamentos para os hóspedes.”
In jornal “O Direito”, 22 de Junho de 1857 – 2ª Feira
 
Sobre o Hotel do Comércio (o da Foz do Douro) anunciava-se:
 
“ Acha-se aberto desde o dia 1 de Junho, o Hotel do Comércio, na Foz, de que é proprietário Lucas José dos Santos.
Este hotel é na rua Direita, casa amarela, nº 105.”
In jornal “O Oriente” de 19 de julho de 1858 – 2ª Feira
 
 
“… E hotéis?
Os mais famosos situavam-se na Praça da Batalha e imediações. Alguns anúncios da época explicam os motivos dessa localização "… próximo dos teatros e das repartições públicas…"
O hotel (ou hospedaria) da "Águia d'Ouro" … onde se hospedavam os intelectuais e artistas de teatro quando vinham ao Porto, casos de Antero de Quental e Ramalho Ortigão e do célebre actor Taborda. As diárias eram de 800 e 1200 réis.
O mais célebre, contudo, era o "Estanislau" ou "Stanislau". Ficava quase à esquina da Rua da Madeira, num prédio onde, depois, funcionou o "Hotel Portuense" que a seguir viria a servir de sede à Casa de Espanha e onde, muitos anos mais tarde (1938), se instalou o Orfeão do Porto.
Era célebre a cozinha deste hotel pela sua alta qualidade. Adorada por Camilo era a cozinheira do hotel, a Dona Gertrudes, pelos cozinhados excelentes que cativavam o escritor. Essa cozinheira haveria de perder a vida no naufrágio do Cachão da Valeira, no qual pereceu também o Barão de Forrester. 
Aqui uma diária variava entre os 600 e os 800 réis.
No edifício que fica à entrada da Rua de Alexandre Herculano, onde agora funciona a Messe dos Oficiais, esteve instalado o Hotel Universal, um dos mais procurados pelos lisboetas que se deslocavam ao Porto. Tinha trens para ligação, em exclusivo, com a "estação central" (S. Bento) dos caminhos- de- ferro.
Na Rua de Cima de Vila funcionava o "Hotel Estrela" e na Rua de Alexandre Herculano o célebre "Hotel das Camélias", perto do Teatro de D. Afonso no sítio onde muitos anos mais tarde viria a funcionar o Parque das Camélias de saudosa memória.
Mesmo defronte ao Teatro de S. João, ficava o "Hotel da Nova Itália", uma homenagem à Itália reunificado. Era preferido pelas prima-donas que vinham actuar naquela célebre sala de espectáculos do Porto. Como muitos outros, possuía "mesa redonda às três da tarde" ao preço de 360 réis. Esta "mesa redonda" corresponderia àquilo a que hoje se convencionou chamar o "self-service".
Ainda na Praça da Batalha havia o "Hotel Sul- Americano", procurado especialmente por "brasileiros de torna viagem". Ficava onde depois se instalou o "Grande Hotel do Império" e onde ainda funciona um dos modernos hotéis do sítio.
O "Grande Hotel da Batalha", que chegou com esta designação até aos nossos dias, era, nos idos de cinquenta, o mais antigo.
Nas imediações da Praça da Batalha havia, na Rua de Entreparedes, o "Hotel de Bragança", "dos mais antigos e conceituados do país, com mesas pequenas, quartos de banho e luz eléctrica" e os hotéis "Aurora do Lima" e "Estrela do Norte", com magníficos aposentos para famílias"; e ainda o "América Central" onde está a Residencial Aviz na esquina da Avenida de Rodrigues de Freitas; o "Nacional" e o "Continental", situado, dizia um prospecto publicitário da época, "no ponto mais central, próximo da estação dos caminhos–de-ferro, dos correios, telegraphos e teatros, passando-lhe à porta os carros eléctricos para todos os pontos da cidade…”
Cortesia de Germano Silva
 
 
 



Hotéis existentes e diárias praticadas, em 1864


 
 

Hotéis em 1865 – Fonte: revista “O Tripeiro”, 1 de Julho de 1908
 
 
 
 
No Largo de Santo Ildefonso encontrava-se, desde c. 1865, o "Hotel Europa", que era a residência, em 1870, do então governador civil do Porto, Jacinto António Perdigão.
Era contemporâneo do “Hotel Central” da Rua do Laranjal e do Hotel do Cisne da Rua Sá da Bandeira.
Pela Praça da Batalha esteve também o “Hotel Oriental”, que já por lá morava em 1876.


Publicidade ao Hotel Oriental, em 1877, no “Guia do Viajante no Porto e seus arrabaldes” de Alberto Pimentel

 
 
No início do século XX, um outro Hotel Oriental estaria pela Rua das Flores, nº 221. 
O Hotel do Cisne, onde Camilo chegou a hospedar-se com Ana Plácido, situava-se no antigo troço da Rua de Sá da Bandeira, nº 11, e por ali já estava em 1864, no 2.º andar do prédio de esquina onde  se instalou o Café Portuense, ocupando o 1.º andar com serviço de restaurante. 
Hoje, o troço de rua referido corresponde à Rua Sampaio Bruno. 


“Ora o Hotel do Cisne ocupava o segundo andar do prédio que, no quarteirão dos Congregados, faz esquina para a Praça Nova e para a rua Sá da Bandeira”.
“A Praça Nova” (1916) – Alberto Pimentel



Em 23 de Agosto de 1871, faleceria o seu proprietário, segundo noticiava um periódico da época.


 

“Jornal do Porto”, 24 Agosto de 1871, p. 2
 
 
Em 1877, já o hotel apresentava um outro proprietário.

 
 

Publicidade ao Hotel do Cisne, em 1877, no “Guia do Viajante no Porto e seus arrabaldes” de Alberto Pimentel




Em 1908, o Hotel do Cisne já estava na Rua de Sá da Bandeira, n.º 32 e a sua gestão era da responsabilidade de Vidal & Constantino.
 
 
 
 

Na planta (Telles Ferreira de 1892), assinalado com um X, está a localização do Hotel Cisne, em 1908



 
Com Ana Plácido, Camilo hospedou-se também, muitas vezes, no Hotel Real que ficava no fim do troço da antiga Rua do Bonjardim, junto à igreja dos Congregados (no corredor poente da rua).
Na Praça D. Pedro e imediações as instalações hoteleiras proliferavam.
 
 
 
Hotel Francfort
 
 
O Hotel Francfort ficava na esquina das ruas D. Pedro e do Laranjal, por trás da Câmara Municipal.

 
 

Hotel Francfort, em frente – Ed. Alberto Ferreira-Batalha-Porto
 
 
 
Sobre o fim do Hotel Francfort  transcreve-se  a seguir um humorístico texto.
 
 
 
“Já não existe, como todos sabemos. Também não ficou a fazer falta aquele casarão inestético exteriormente, e que só se tornou célebre por durante muitos anos ser o hotel preferido pelos estrangeiros, pelas celebridades de todos os géneros e pelos endinheirados. Frequentar o Francfort dava tom e civilisava os que desejavam adquirir maneiras distintas.
Talvez o leitor desconheça que, antes de ser construído aquele prédio, a área por ele ocupada, uma nesga lateral do excesso do terreno, aonde foi aberta a rua do Bispo (depois D. Pedro e agora Elias Garcia), foi destinada pela Câmara, em 1849, para cemitério dos cães.
V. Ex.ª fica admirado por ter o Porto precedido várias cidades europeias e americanas na invenção de um local destinado à sepultura da população canina, o que talvez fosse motivado por haver aqui cães em abundância e não existir ainda fabrica de guano, ou congéneres, para onde se lhes removesse a carcaça, depois de mortos.
Esse destino findou em 1851, ano em que o negociante Luiz Domingos da Silva Araújo requereu à Câmara a venda do terreno, para ali edificar o prédio, há dois anos demolido. Está portanto devoluto o terreno do antigo cemitério dos cães, provisoriamente sentina pública, ao natural, enquanto não se integrar na Avenida, por onde estadeiam o seu luxo e elegância os janotas e as gentis descendentes dos novos-ricos.
Apenas se concluiu o edifício, logo se montou o hotel, em cujos baixos Paulo Podestá, falecido aí por 1869, instalou a sua livraria e tipografia Internacional, sendo aquela a mais bem organisada do Porto. Depois conheci ali a Cervejaria Schreck, e o café Chaves, que de anos a anos muda de poiso.
Pelo hotel passaram inúmeros forasteiros de nome, em especial gente de teatro, e muitas celebridades líricas, como a Ida Benza, a Isabella Schwichner, a gloriosa Ristori, a Darclée, a Elisa Hensler, que depois casou com o rei D. Fernando, a Chiaramonte, a Dealberti, etc., pois o Porto em tempos foi grande apreciador de bom teatro lírico, não se contentando com artista de segunda plano.
O penúltimo dos seus proprietários, François Babel, muito culto e de bastante iniciativa, quis torná-lo um hotel moderno, dotando-o até de balneário, mas a casa não se prestava a isso. Ainda assim, para o tornar conhecido fora do Porto, estabeleceu ali jantares de réclame, às quintas-feiras, bem servidos, e relativamente baratos, que lhe deram nome. A custo se ia tenteando, se não fosse o advento da república, que deslocou os políticos para o Grande Hotel do Porto, conservando-se-lhe apenas fiel, enquanto viajava, o Sr. Dr. António José de Almeida.
A morte do Conde de Alves Machado, que ali viveu durante cerca de 40 anos, produziu nele um imenso vácuo.
Babel faleceu, a casa ia em decadência. A freguesia foi-se retraindo e não primava pela generosidade; às vezes nem pontual era no pagamento das contas. Ainda nas vésperas do seu encerramento teve de penhorar as malas de uma conhecida actriz, que passava por trazer a carteira bem recheada. Já por vezes acontecera outro tanto com vários fregueses.
As obras da cidade vieram dar-lhe o golpe de morte: o prédio era necessário, a fim de melhor se desenhar o bacalhau, adoptado para modelo da sua planta.
Custou-lhe, porém, a deixar-se entregar ao município. Ainda lá havia hospedes e já o camartelo municipal lhe esmoucava os telhados e as cantarias. Parece que algo de saudoso lhe custava a desprender-se dali; talvez os vários suicidas, que nos seus leitos se despediam da vida, como o espírito dilacerado da noiva do filho de Urbino de Freitas, vinda do Alentejo ali amortalhar-se., para a colocarem, no jazigo da Lapa, ao lado da alma gémea da sua, que tanto sofrera, em tão curta idade!
O último cadáver que de lá saiu, foi o Dr. Teixeira de Sousa, o derradeiro chefe do Partido Regenerador e presidente do conselho, à queda da monarquia: não se suicidou, mas morreu torturado pelos caprichos do destino!"
António Lança In “O Tripeiro”, nº 109 (nº7 da 2ª série), 1 de Abril de 1919
 
 
Sobre o texto anterior e sobre os últimos momentos vividos por Teixeira de Sousa, no dia 5 de Junho de 1917, a revista "O Tripeiro 7.ª Série de Junho de 2017, narra, a seguir, os factos respectivos.







Sobre a ocupação do edifício, há quem afirme que, durante os primeiros anos, após a sua conclusão, ele funcionou como residência.
Esse foi, de facto, o seu destino inicial.
No que concerne aos baixos do edifício, algumas testemunhas asseguram que, antes da Cervejaria Schreck, o espaço foi ocupado por uma loja de comércio de fazendas, cujo proprietário, um tal de Freire, era pai do barão do Casalinho.
Teria sido nessa loja, que exibiu pela primeira vez um manequim, que um freguês, à sua entrada, tirou o chapéu e pediu ao boneco licença para entrar.




 
Edifício do Hotel Francfort, quando se começava a abrir a Avenida dos Aliados




Hotel Lisbonense
 
Este hotel tinha estado no Largo do Carmo, tendo-se transferido para a Rua de Sá da Bandeira, nº 1, e no seu antigo poiso estabeleceu-se, dez meses depois, o Hotel Novo Lisbonense que antecedeu, aí, o Hotel Âncora de Ouro.
 
“O proprietário deste estabelecimento, no largo do Carmo, da cidade do Porto, mudou para a Rua de Sá da Bandeira, nº 1, próximo à praça D. Pedro, aonde oferece aos seus amigos e fregueses muitas boas salas e quartos.”
In “Diário do Povo, 12 de Janeiro de 1863 – 2ª Feira



Publicidade da abertura do Hotel Novo Lisbonense, In Jornal "O Comércio do Porto" de 1 de Outubro de 1863



Tendo o Hotel Lisbonense abandonado o Carmo, em 1863, para a Rua de Sá da Bandeira, nº 1, só o poderia ter feito para o primeiro troço, a que hoje se dá o nome de Rua Sampaio Bruno, e  tendo em consideração que a nova identificação das moradas pelos números de polícia, já vigorava desde 1860, o local de destino seria no início daquela numeração, isto é, na esquina com a Rua do Bonjardim.
De notar que, a partir de 1875, quando a Rua de Sá da Bandeira foi estendida até à Rua Formosa, dada a orientação relativamente ao rio Douro do novo troço de via, os números de polícia da Rua de Sá da Bandeira passaram a ter o seu início na Praça D. Pedro.
 
 
“Recomendamos ao público o Hotel Lisbonense, situado na rua de Sá da Bandeira, fazendo esquina para a rua do Bonjardim.
Esta casa é uma das melhores do Porto pela limpeza dos quartos e das iguarias.”
In jornal “A Verdade”, 24 Dezembro de 1884 – 4ª Feira
 
 
 
Em 1842, já tinha sido começada a rasgar a ligação entre a Praça Nova e a Travessa dos Congregados, à qual foi atribuído o topónimo de Rua de Sá da Bandeira.
O troço desta rua, entre aquela travessa e a Rua Formosa ocorreu, apenas, entre 1875 e 1880.
Como é dito na publicidade, em 1884, o Hotel Lisbonense fazia esquina com a Rua do Bonjardim. À data, estaria num prédio que tinha a si adossada a chamada fonte da Rua de Sá da Bandeira. 

 
 

Fonte da Rua de Sá da Bandeira
 
 
O edifício onde esteve o Hotel Lisbonense seria demolido na década de 1960.
 
 
 

Hotel Lisbonense e Rua de Sampaio Bruno, c. 1930 - Fonte: AHMP
 
 
 
Desde sempre, na Praça D. Pedro (Praça da Liberdade) e nas suas imediações, se instalaram várias unidades hoteleiras.
 
 
 

Hotel Brazil, na Praça da Liberdade, em 1913

 
 
Como se pode ver no folheto anterior, o Hotel Brazil que foi “Antiga Casa Cascata”, estava situado no local onde hoje está situado o edifício ”A Nacional” na Avenida dos Aliados, pois, é possível ver na gravura representado, o fontanário que estava no começo da Rua da Fábrica (hoje Rua Dr. Artur de Magalhães Basto).

 
 
 

No local do edifício central da foto estava o Hotel Brazil e, à esquerda, instalar-se-ia, mais tarde, a delegação do Banco de Portugal
 
 
 

Praça D. Pedro antes da instalação do Banco de Portugal
 
 
 
 

Hotel Aliança na esquina das ruas Sampaio Bruno e do Bonjardim - In JN

 
 
Na foto acima o Hotel Aliança, cujo aparecimento na Rua de Sá da Bandeira (a Rua de Sampaio Bruno ainda não existia), deve ter ocorrido no último quartel do século XIX.
Após a abertura, o Aliança colocou na fachada uma tabuleta onde se lia o seguinte: "Hotel Aliança sucessor do Mary Castro - English Hotel", e no “Almach das Senhoras Portuenses” em 1886, dizia-se:
 
sucessor do English Hotel de Mary Castro e gabava-se da sua centralidade e proximidade e, ainda, do seu esmerado serviço de mesa”.
 
De facto, Mary Castro havia-se mudado no fim do ano de 1870 para aqui, vinda da Rua da Reboleira, como noticiava o “Jornal do Porto”, de 8 de Dezembro de 1870, na sua página 4.


 
 


 
 
 
As unidades hoteleiras neste prédio ocuparam sempre, somente, os seus andares superiores.
No rés-do-chão funcionou, durante muitos anos, a loja de um luveiro (na parte voltada para a anti­ga Travessa da Rua de D. Pedro, agora Tra­vessa dos Congregados) e, ainda, o estabelecimen­to de câmbios dos irmãos Borges que, pelo menos desde 1884, ocupava a parte virada para a Rua do Bonjardim.
Para, lá de meados do século XX, o Hotel Aliança continuava de portas abertas.


 

Publicidade ao Hotel Aliança, em 1958