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domingo, 27 de março de 2022

25.154 Companhia Carris de Ferro do Porto – os primeiros passos

Na história dos transportes públicos, na cidade do Porto, a Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP) teve um papel de primordial importância.
A primeira fase da sua longa existência, a da sua afirmação é, deveras, a mais fascinante.




Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
 
Assim, em 21 de Agosto de 1873, a Câmara Municipal do Porto entrega, em concessão, ao negociante António Manuel Lopes Vieira de Castro e ao engenheiro Evaristo Nunes Pinto, a exploração pelas ruas da cidade de um meio de transporte público, sobre carris de ferro, puxado por bestas.
António Manuel Lopes Vieira de Castro (Santo Ildefonso, 12/09/1839; Matosinhos-Leça da Palmeira, 11/12/1907) viria a ser, em 1897, o 11º presidente da Associação Industrial Portuense.
Ficaria conhecido por ser proprietário da marcenaria a vapor “A Económica”, com instalações fabris na Rua do Freixo, nº 721.
“A Económica” dedicava-se ao fabrico de mobílias de luxo, decoração de casas, artigos de colchoaria, estofos e de tapetes, tendo obtido um Diploma de 1.ª Classe, na Exposição de 1887, e uma Medalha de Ouro, na Exposição de 1888 (Mercê Régia Especial).
 
 
 

Cartão comercial (30 de Dezembro de 1881) da Marcenaria a Vapor do Porto “A Económica”
 
 
 
Na década de 1920, “A Económica” seria comprada pela firma "António do Nascimento e Filhos".

 
 

Edifício com projecto da autoria do arquitecto Marques da Silva, onde se instalaram, em 1927, os Grandes Armazéns Nascimento, com fábrica no Freixo


 
 

O edifício da foto anterior, seria ocupado, a partir de 1939, pelo Café Palladium, na sequência de uma venda do mesmo, em virtude da ocorrência de um incêndio acontecido na fábrica do Freixo, em 1934, que colocou em sérias dificuldades de sobrevivência os “Grandes Armazéns Nascimento”


 
 
Na foto acima destaca-se o porteiro do café Palladium impecavelmente fardado. 
O edifício das fotos anteriores encontra-se hoje ocupado com as lojas das firmas “FNAC” e “C&A”.
António Manuel Lopes Vieira de Castro, proprietário da marcenaria mecânica a vapor “A Económica”, ficaria ainda conhecido por ter presidido, no começo do ano de 1899, a uma comissão de avaliação das condições de trabalho manual dos tecelões da cidade.
Embora, António Manuel Lopes Vieira de Castro fosse afecto a outro sector de actividade, o seu prestígio levou-o a ser proposto para aquela função, no âmbito da indústria têxtil.
Naquela época, os tecelões levariam a cabo uma luta pela melhoria das condições de trabalho, concretamente, em meados de 1903, tendo as suas acções de protesto ficado célebres.
Cerca de três anos antes sobre a entrega daquela concessão a António Manuel Lopes Vieira de Castro e a Evaristo Nunes Pinto, tinha sido permitido ao Barão da Trovisqueira fazer a exploração, também em concessão, de um caminho-de-ferro pelo sistema americano entre a Porta Nobre e S. João da Foz, com possibilidades de prolongamento até Matosinhos.
 
 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
Atente-se no facto de que a concessão solicitada pelo Barão da Trovisqueira viria a ser atribuída pelo Governo, por decreto, dado que ela seria concretizada usando um chão de domínio marítimo, usando os cais ribeirinhos que tinham sido levantados pela Real Companhia Velha, se bem que, a municipalidade tenha sido ouvida e dado o seu parecer, como atesta a narrativa, abaixo.

 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
 
 
Entretanto, o Barão da Trovisqueira irá passar a concessão a José Dionísio de Melo e Faro e ao capitalista António Tavares Basto que, em Junho de 1872, solicitam à Câmara licença para estabelecer o caminho-de-ferro-americano em algumas ruas da cidade, nomeadamente, um ramal entre o Largo dos Mártires da Pátria e Massarelos, singrando a Rua da Restauração, que obteve deferimento e entrado ao serviço em Agosto de 1873.
Este ramal irá, assim, ser autorizado ao peticionário, mas os restantes percursos viriam a ter outros destinatários.
 
 
 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
De igual modo, António Manuel Lopes Vieira de Castro e Evaristo Nunes Pinto tinham, em devido tempo, requerido a exploração daquela actividade de transporte pelas ruas do Porto.
Depois de escusa do governo em ser parte na atribuição da concessão respectiva, pois o transporte em causa desenvolver-se-ia por solos do domínio municipal, aquele acto administrativo passar a ser da responsabilidade apenas da Câmara, tendo saído como contemplados, António Manuel Lopes Vieira de Castro e Evaristo Nunes Pinto.

 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)

 
 
Na posse da concessão António Manuel Lopes Vieira de Castro e Evaristo Nunes Pinto vão tratar de angariar o capital necessário o que, para o efeito, conduz à formação de uma sociedade anónima de responsabilidade limitada.
Não demorou muito que os respectivos estatutos vissem a luz do dia, dos quais se transcrevem, a seguir, alguns artigos.
Pela sua leitura, se pode observar que os primeiros concessionários cederam a concessão à denominada Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP), em troca de um benefício, explicitado no artigo 3º.
 
 
 
 
Estatutos da Companhia Carris de Ferro do Porto - Texto extraído da Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)




A partir de então, no terreno, estavam duas companhias que exploravam o transporte americano.
A primeira a instalar-se no terreno foi a “Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos”, a “Companhia de Baixo”, que explorava ainda um ramal de ligação que, começando a norte da Cordoaria e seguindo pela Rua da Restauração, acabava em Massarelos. Quando se estendeu para o concelho de Bouças (Matosinhos) percorria, aí, a Rua Juncal de Cima (Rua Brito Capelo).
 
 
 

Estação de recolha da “Companhia de Baixo”, no Largo do Ouro (actual Largo António Calém)

 
 
A outra transportadora era a  “Companhia Carris de Ferro do Porto”, a “Companhia de Cima”, que explorava a ligação entre determinados locais da cidade e que, mais tarde, haveria de solicitar autorização para a introdução, em determinados percursos, da tracção a vapor em substituição da tracção animal.
Começaria por explorar uma linha partindo da Praça Carlos Alberto, seguiria pela Rua do Rosário, Rua da Boavista, Rotunda da Boavista e ligação a Cadouços (Foz Velha).
Este último troço, entre a Rotunda e Cadouços, acabaria por ser feito, a partir de 1878, por tracção a vapor. Mais tarde, estender-se-ia a Matosinhos, por onde entrava na Rua Real de Baixo (Rua Roberto Ivens).
 
 
 

Estação de recolha da CCFP, na Boavista, entre 1872 e 1928


 
 

Carro americano, na Praça D. Pedro (Praça da Liberdade, desde 27 de Outubro de 1910)

 
 

Carro americano, c. 1900, no Largo de Santo Ildefonso (hoje integrado na Praça da Batalha)
 
 
 
 
A CCFP, por esta altura, já era dirigida por José Vieira de Castro, pois nesse ano ele entra para exercer a sua gerência.
Surgiria, então, em 1878, a ligação de uma linha servida por uma máquina motriz, a vapor, fazendo a ligação entre a Praça da Boavista e Cadouços e que, mais tarde (1882), seria estendida até Matosinhos. Ficou conhecida como a “Máquina”.
Em 1890, quando ainda não se tinha dado a fusão da CCFP (Companhia de Cima) com a Companhia de Baixo, o que só ocorreria três anos depois, uma viagem de ida e volta a Matosinhos custava 80 réis, de acordo com publicidade divulgada.






A “Máquina” junto da Estação da Boavista
 
 
 
 


Estação da linha a vapor, na Fonte da Moura. À esquerda, por onde seguia a “Máquina” segue, hoje, a Rua Correia de Sá; pela direita, em frente, a Avenida da Boavista


Estação de Cadouços (actualmente, o Largo Capitão Pinheiro Torres de Meireles)


 
 
 

“A Máquina” perto de Cadouços
 
 
 

A “Máquina”, no cruzamento da Rua de Gondarém e da Rua do Molhe, c. 1900
 
 
 
Seria, também, sob a égide de José Vieira de Castro que a CCFP iria abalançar-se à introdução da tracção eléctrica na cidade do Porto.
Entretanto, em 1893, as duas companhias, que durante cerca de duas décadas foram concorrentes, uniram-se, tendo restado dessa união a denominação de uma delas - “Companhia Carris de Ferro do Porto”.
Para o lançamento da tracção eléctrica foi montada uma estação de produção de energia na Arrábida, depois do funcionamento de uma pequena central, experimental, ao fundo da Rua da Restauração.
O primeiro percurso, em tracção eléctrica, seria efectuado entre Massarelos e o Carmo e inaugurado em Setembro de 1895, a que seguiriam alguns outros, cujos concursos eram sucessivamente ganhos pela CCFP.
 
 
 

Eléctrico rebocando um atrelado (antigo americano) junto a Massarelos
 
 
 
Em 1897, a tracção eléctrica já tinha chegado a Matosinhos e, em 1898, a Leça da Palmeira, atravessando o rio Leça por uma ponte construída em 1887, para servir os americanos.

 
 

Eléctrico atravessando o rio Leça pela ponte construída, antes, em 1887, para servir os carros americanos
 
 
 
 
O nome de José Vieira de Castro ficará para sempre ligado ao sucesso da “Companhia Carris de Ferro do Porto”.
José Ribeiro Vieira de Castro (4 de Março de 1843; 4 de Julho de 1905) foi um empresário e homem de negócios; era filho de João José Ribeiro, natural da freguesia de Rossas, concelho de Vieira do Minho e de Francisca Lopes Vieira de Castro, natural de Antime, concelho de Fafe.
Desde cedo, José Ribeiro Vieira de Castro emigra para o Brasil, onde faz fortuna.
Em 1870, depois de vários anos emigrado no Brasil, José Ribeiro Vieira de Castro retorna a Portugal e toma nas suas mãos a Companhia Industrial de Fafe, dedicada à moagem de cereais e instalada numa queda de água, no rio Ferro, na freguesia de Fafe.
Em 1887, transforma aquela unidade industrial de moagem de cereais numa fábrica têxtil, surgindo no mesmo local a Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe.
A Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe acabará por ter a sua sede na cidade do Porto e, a partir de 1930, num edifício com projecto do arquitecto Júlio José de Brito 1896-1965), que ainda existe, na esquina da Avenida dos Aliados e Rua Rodrigues Sampaio.
 
 
 

Em destaque o edifício da sede da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe
 
 
 
Na cidade do Porto, José Ribeiro Vieira de Castro vai ter a sua vida profissional ligada à Companhia de Gás do Porto e, sobretudo, à Companhia Carris de Ferro do Porto, onde exercerá as funções de Director e Gerente. O percurso de sucesso da CCFP é fruto, em grande medida, da sua dedicação que, nos seus últimos anos de actividade à frente daquela companhia, teve o contributo do engenheiro Américo Augusto Vieira de Castro que, em 1917, haveria de adquirir a fábrica de sabonetes e perfumes "Claus & Schweder, sucessores", nacionalizada pelo governo português, na sequência da 1ª Grande Guerra, por ser detida por dois cidadãos alemães.
Este técnico teve sobre a sua alçada, no âmbito da CCFP, as oficinas centrais da companhia, o serviço de tracção e via e as obras.
Em 1891, José Ribeiro Vieira de Castro foi vice-presidente da Associação Industrial do Porto.

 
 

José Ribeiro Vieira de Castro (Director e Gerente da CCFP) – In Revista Brasil – Portugal, 16 de Janeiro de 1903

 
 

Américo Vieira de Castro (Engenheiro da CCFP) – In Revista Brasil – Portugal, 16 de Janeiro de 1903
 
 
O engenheiro Francisco de Almeida e Sousa, no texto seguinte, resume a actividade de José Ribeiro Vieira de Castro na CCFP.

 
 


 
 
 
Em 1904, por sugestão da “Companhia Carris de Ferro do Porto”, a Câmara do Porto mostrava-se receptiva a atribuir-lhe uma concessão com o exclusivo para 99 anos.
Em 1906, face ao repúdio público pela situação de privilégio que gozava a CCFP, a Câmara do Porto ver-se-ia pressionada, então, ao lançamento de um concurso que pressupunha que o vencedor passaria a prestar o serviço de transporte público por tracção eléctrica em regime de monopólio.
A CCFP não concorreu.
Escolhido o vencedor do citado concurso, em sequência, seria adjudicada e atribuída a concessão, a partir de 5 de Abril de 1906, a Paiva e Irmãos, de Lisboa, e a Mathieu Lugan, do Porto.
Os concessionários transferem, então, um ano depois, os seus direitos para uma nova empresa “Companhia Viação Eléctrica do Porto”, que passa a ter o direito exclusivo da exploração dos transportes colectivos urbanos eléctricos, continuando a “Companhia Carris de Ferro do Porto” a explorar, apenas, transportes de viação americana.
A “Companhia Viação Eléctrica do Porto”, no entanto,  não chega a dar início a qualquer actividade e, em 1908, é absorvida pela "Companhia Carris de Ferro do Porto", que vem a beneficiar da concessão.
Em poucos anos, uma nova fase se seguiria com a implantação da viação eléctrica com o desaparecimento completo das ruas da cidade da tracção animal, em 22 de Setembro de 1904 e a de vapor, em 1914.


 

Carro eléctrico passando, em 1907, junto ao palacete Andresen, na Rua do Castelo do Queijo (Avenida de Montevideu, desde 1926)



Assim, em 1906, é decidido atribuir uma concessão para o transporte citadino.
Um grupo de investidores ganha a concessão.
O vencedor tinha de direito o exclusivo da exploração dos transportes colectivos urbanos, continuando a “Companhia Carris de Ferro do Porto”, que não concorreu, a explorar os transportes de viação americana.
Aquele grupo de investidores viria a constituir, um ano depois (1907), a Companhia Viação Eléctrica do Porto” que, tendo durado apenas 1 ano, não chega a dar início a qualquer actividade.
Em 1908, “A Viação Eléctrica do Porto”, é absorvida pela "Companhia Carris de Ferro do Porto", que vem a beneficiar da concessão.
A partir de então, vai ter um papel de enorme importância na Companhia Carris de Ferro do Porto, Severiano José da Silva, o seu Administrador-Delegado que exercerá até à data do seu falecimento em 1937.
Severiano José da Silva era natural de Salreu, Estarreja, onde nasceu em 1865. Cursou medicina, no Porto, tendo-se formado em 1890 e abriu consultório na Rua das Taipas.
No campo político, sendo um republicano convicto, cedo adquiriu certa notoriedade, mormente, na posição que tomou contra a cedência de Portugal aos interesses dos ingleses na Guerra dos Boers. Em 1910, faz mesmo parte das Cortes Constituintes.
Quis o destino que viesse a contrair matrimónio com a viúva de João Henrique Andresen (falecido em 1900), Joana Andresen, cuja família era accionista da Companhia Carris de Ferro do Porto.
Durante o seu mandato na Companhia Carris de Ferro do Porto, as vicissitudes enfrentadas na Guerra 14-18, que privou a Central de Massarelos da ulha inglesa, para a qual tinham sido concebidas as respectivas caldeiras, e levou ao consumo do pobre carvão de S. Pedro da Cova, foi tarefa de monta. Neste caso, Severiano José da Silva teve a ajuda preciosa dos engenheiros Rodrigo Sarmento Beires, Carlos Braga e Manuel Correia de Barros.
O carvão de S, Pedro da Cova chegava ao Monte Aventino por teleférico, cujo cabo de 9 km tinha sido instalado em 1914, seguindo, depois, em zorras para Massarelos.
Aos últimos anos atribulados, com o aproximar do fim da concessão, o Dr. Severiano já não assistiu porque faleceu em 1937.
A "Companhia Carris de Ferro do Porto" (CCFP) que durou com esta designação, 73 anos, pelo que, ainda hoje, há muita gente que, seguindo o velho hábito, ao referir-se ao Serviço de Transportes Colectivos do Porto (S.T.C.P.), continua a chamar-lhe "Carris".
Em 1936, a CMP avisa a CCFP, com base no artigo 31º da escritura de concessão para a exploração da viação eléctrica, que o contrato seria rescindido em 1941.
Em virtude de determinados acontecimentos, entre eles, a deflagração da 2ª Guerra Mundial, aquela decisão seria adiada.
Então, em 1946 a CCFP, ao fim de 73 anos de laboração dá lugar ao STCP, liderado pela Câmara Municipal do Porto.
A designação do Serviço de Transportes Colectivos do Porto (STCP) surge, então, em 1946, com o resgate da concessão referida, feita pela Câmara Municipal do Porto a um grupo de empresários. 



Cronologia dos factos mais importantes relacionados com o sistema de transportes portuense


sábado, 22 de abril de 2017

(Continuação 4) - Actualização em 12/05/2021


O "Americano”, no Porto, na Praça D. Pedro, em 1880 – Ed. Aurélio Paz dos Reis


Um "Americano", na Foz do Douro 



Ao fundo dos Clérigos, um Fiacre seguido de um Americano



Um Americano, na Praça Carlos Alberto



A Câmara Municipal do Porto a 27 de Junho de 1878 autoriza provisoriamente as companhias, designadas correntemente como “Companhia de Baixo” e “Companhia de Cima”, à introdução da tracção a vapor.
A partir de 1878 a “Companhia Carris de Ferro do Porto”, designada por “Companhia de Cima” no percurso até à rotunda da Boavista, onde tinha a sua Estação Central, passa a recorrer aos habituais Americanos, mas, aí, os passageiros faziam transbordo para a “Máquina”, um veículo a vapor, que podemos considerar o primeiro “metro de superfície” do país e que quando prolongado até Matosinhos (1882) aí entrava por Juncal de Baixo, hoje a Rua Roberto Ivens.
A “Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos” vulgarmente designada por “Companhia de Baixo” efectuava a ligação entre a Porta Nobre (ou Nova), passando pela Rua Nova da Alfândega até à Foz, prolongada depois até Matosinhos (1873) por Juncal de Cima, hoje a Rua Brito Capelo.



Cruzamento (1) dos percursos do Americano e da Máquina a Sul do Castelo do Queijo (2)



A “Companhia de Baixo” com Estação Central no Ouro ficou ligada à chamada linha da marginal.
As duas empresas concorrentes, Companhia de Cima e Companhia de Baixo fundem-se, em 1893, numa só que mantém o nome da primeira, "Companhia Carris de Ferro do Porto".
A "Linha de Paranhos" foi a última linha de carros americanos que o Porto viu desaparecer, pois, em Setembro de 1904, a então designada Companhia Carris de Ferro do Porto CCFP substituiu a tracção animal pela tracção elétrica na referida linha.
Passados 2 anos, em 1906, é decidido atribuir uma concessão para o transporte citadino.
Um grupo de investidores ganha a concessão.
O vencedor tinha de direito o exclusivo da exploração dos transportes colectivos urbanos, continuando a “Companhia Carris de Ferro do Porto”, que não concorreu, a explorar os transportes de viação americana.
 Aquele grupo de investidores viria a constituir um ano depois (1907) a Companhia Viação Eléctrica do Porto” que, tendo durado apenas 1 ano, não chega a dar início a qualquer actividade.
Em 1908, “A Viação Eléctrica do Porto”, é absorvida pela "Companhia Carris de Ferro do Porto", que vem a beneficiar da concessão.
A "Companhia Carris de Ferro do Porto" (CCFP) durou, com esta designação, 73 anos. Ainda hoje, há muita gente que, seguindo o velho hábito, ao referir-se ao Serviço de Transportes Colectivos do Porto (S.T.C.P.) continua a chamar-lhe "Carris".
A designação do Serviço de Transportes Colectivos do Porto (STCP) surge, em 1946, com o resgate da concessão referida, feita pela Câmara Municipal do Porto a um grupo de empresários. Esta concessão durou 40 anos. 



“Linha 1 (Marginal)

Rota
Praça da Liberdade - Infante - Alfândega - Massarelos - Foz (Castelo) - Castelo do Queijo - Matosinhos - Leixões (Leça da Palmeira).
Comprimento 11.9 km (até 1960, encerramento do troço Matosinhos - Leixões), 10½ km (até 1968, encerramento do troço Praça da Liberdade - Infante), 9.7 km (até 1993, encerramento do troço Castelo do Queijo - Matosinhos); Duração da viagem num sentido: 52½ minutos (1934); 40 minutos (1991).

História
Esta foi a linha original da Companhia Carril Americano do Porto á Foz e Matosinhos aberto em 9 de março de 1872 entre a Alfândega e a Foz. No dia 15 de maio, a linha foi estendida para Matosinhos e as festividades de abertura oficial ocorreu.
Logo depois que também a parte entre a Rua dos Ingleses (Infante) e a Alfândega foi aberto. Em 1887 a linha foi estendida para Leça da Palmeira.
Para esta extensão viria a ser construída uma ponte de ferro sobre o rio Leça.
Em 1896 iniciou-se serviços eléctricos entre Infante e Ouro (Estação) e em 1897 o resto da linha de Leça foi eletrificada.
Em 1898 a linha foi estendida em Leça da Palmeira da Rua do Arnado ao Castelo de Leça. O serviço eléctrico entre a Praça e o Infante começou em 24 de abril de 1898, mas ainda como um serviço independente da linha principal. Somente em novembro 1898 Praça - Leça foi operado como um serviço.
No período de 1938-1940 um reencaminhamento foi feito em Leixões devido à construção da primeira doca. Com estes trabalhos também a ponte sobre o Leça foi desmantelada. A Extensão das docas provocou o corte da linha para Matosinhos (Mercado) em 1960.”
Fonte: Site “tram-porto.ernstkers.nl/”


Já a “Companhia de Cima” com Estação Central na Boavista, teve a sua primeira linha, antes da tracção a vapor, entre a Praça Carlos Alberto e Cadouços (Foz do Douro).



“Linha 18 (Cadouços)

Rota
Praça da Liberdade - Carmo - Carvalhosa - Boavista; mudança para tracção a vapor; Boavista - Fonte da Moura - Foz (Cadouços) - Castelo do Queijo - Matosinhos (Roberto Ivens)

História
A CCFP (“Companhia Carris de Ferro do Porto”) teve as festividades para a abertura de sua primeira linha da Praça Carlos Alberto até à Foz (Cadouços) em 12 de Agosto de 1874. Dois dias depois o serviço começou. Em outubro, a linha foi estendida para a Porta do Olival (Cordoaria próximo da Torre dos Clérigos). Desde agosto 1875 os carros americanos andando na direção da Boavista estavam usando Rua do Rosário em vez de Rua da Cedofeita.
Uma linha urbana da Boavista via Praça de Campanhã foi aberta alguns meses antes. Dois anos depois estes serviços foram combinados para uma linha de Campanhã - Foz (Cadouços).
Existia um túnel que liga a Praça Duque de Beja e Rua do Rosário. Também foi usado pelos eléctricos até Outubro de 1925.




Túnel entre a Rua do Rosário (1) e a Praça do Duque de Beja (2) e ainda Rua da Restauração (3) – Planta de Telles Ferreira de 1892




A linha foi convertida para o uso da tracção a vapor entre a Boavista e a Foz em 1878. Durante os primeiros anos a linha da Foz houve uma operação mista com tracção a vapor durante o período de verão e tracção animal durante o período de inverno e na noite durante o verão.
Em 1882 a linha foi estendida da Foz (Cadouços) via Rua da Gondarém para Matosinhos.
A linha atingiu a costa do Atlântico a sul do Castelo do Queijo onde cruzou com a linha da CCAPFM (“Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos”).
Em Matosinhos a linha estava situada na rua agora se chama Rua Roberto Ivens, uma rua paralela à Rua Brito Capelo.
Para evitar declives acentuados um túnel e três viadutos foram construídos na linha:
-Um túnel foi feito na Foz abaixo do Monte da Luz. Este túnel ainda existe.
-Um viaduto foi feito na Rua de Correia de Sá para atravessar a Rua de Tânger. No mesmo local um novo viaduto mais largo existe, ainda.
-Um viaduto foi feito entre Cadouços e a Rua Nova do Túnel para atravessar Rua Fonte da Luz. Este viaduto desapareceu.
-Um viaduto foi feito na Rua de Gondarém para atravessar Rua da Agra. Um encosto ainda permanece.
Desde 1884 a linha de Cadouços foi cortar a Praça Dom Pedro IV e uma linha separada operando entre Boavista e Campanhã.
Em 1886 a CCFP construía uma ponte de madeira sobre o rio Leça, perto do terminal da linha a vapor. Esta ponte foi demolida em 1922.
Em 1912 a linha de Cadouços fez obter o número 18 com tracção elétrica a partir da Praça da Liberdade até a Boavista e a partir da Boavista tracção a vapor para Matosinhos. Em novembro de 1914 a tracção a vapor foi encerrado e a rota via a Foz (Cadouços) fechada. Com esta ocasião o número da linha 18 desapareceu. Ele foi usado novamente para uma variação da linha 2 desde 1934, quando a nova rota a partir do Carmo via Palácio para Boavista foi aberto.

Horários
14 Agosto 1874
Praça Carlos Alberto - Cadouços: 4.20h - 20' - 20:00h
Cadouços - Praça Carlos Alberto: 4:50h - 20' - 20:50h
15 Decembro 1884
Praça - Foz: 6:30h - 30' - 19:30h - 21:00h - 22:00h - 23:00h
Praça - Matosinhos: 6:30h - 30' - 16:30h - 60' - 19:30h - 22:00h
Matosinhos - Praça: 7:30h - 30' - 17:30h - 60' - 20:30h - 23:20h
Foz - Praça: 6:30h - 30' - 20:00h - 21:00h - 22:30h
1914
Praça - Boavista: 6.35h - 20' - 11.35h - 30' - 16.05h - 20' - 20.05h - 30' - 0.05h
Boavista - Praça: 6.20h - 20' - 11.20h - 30' - 15.50h - 20' - 19.50' - 30' - 23.50'
Boavista - Matosinhos (tracção a vapor): 6.50h - 20' - 11.50h - 30' - 16.20h - 20' - 20.20h - 30' - 0.20h
Matosinhos - Boavista (tracção a vapor): 7.25h - 20' - 12.25h - 30' - 16.55h - 20' - 20.55h - 30' - 0.55h”
Fonte: Site “tram-porto.ernstkers.nl/”


Em 1893, seria criada pela fusão das duas empresas existentes, Companhia Carril Americano do Porto e Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP), de uma só companhia que tomou o nome da última.
Assim em 1893, a Companhia Carril Americano do Porto é adquirida pela Companhia Carris de Ferro do Porto e, em 12 de setembro de 1895, tem início a tracção eléctrica sendo eletrificada a linha entre o Carmo e a Arrábida.
Alguns dos carros americanos começaram, então, a ser colocados fora de serviço.
Os que durante muitos anos serviram a população com destino a Matosinhos foram comprados pela firma Lobo & Freitas, para prestarem serviço, como carruagens, no ramal de Penafiel à Lixa e de Penafiel a Entre-os-Rios; entre Braga e o Bom Jesus, muitas carruagens, provenientes do Porto, sulcaram também as ruas da cidade dos arcebispos; outras composições foram adquiridas pelo alquilador José Galiza, para prestarem serviço na exploração que ele tinha a seu cargo entre Vila do Conde e a Póvoa de Varzim.
Os que durante muitos anos serviram a população com destino a Matosinhos foram comprados pela firma Lobo & Freitas, para prestarem serviço, como carruagens, no ramal de Penafiel à Lixa e de Penafiel a Entre-os-Rios; entre Braga e o Bom Jesus, muitas carruagens, provenientes do Porto, sulcaram também as ruas da cidade dos arcebispos; outras composições foram adquiridas pela firma fundada pelo alquilador José Galiza e continuada pelos seus herdeiros, para prestarem serviço na exploração que ele tinha a seu cargo entre Vila do Conde e a Póvoa de Varzim.
Esta carreira realizada por uma linha, entre aquelas localidades, de carros americanos tinha sido inaugurada em 15 de Outubro de 1874.
Porém, só mais tarde, José Branco Soares Galiza vai arrematar o negócio subjacente à exploração da linha, por mil libras (4 contos e quinhentos mil reis).



Anúncio de 25 de Julho de 1920


Carro "americano" da empresa de José Branco Soares Galiza, Herdeiros, Lda, passando à entrada da Rua 5 de Outubro, em Vila do Conde, junto daquela que foi a terceira morada do Hotel Central



“Carro americano”, em 1880, na Póvoa de Varzim


Em 1928, de acordo com o anúncio seguinte, publicado no jornal “O Commercio do Porto” de 10 de Junho de 1928, a linha de americanos entre a Póvoa e Vila do Conde ainda estava em actividade.







Máquina a vapor puxando antigas carruagens de “carros americanos”, numa rua de Braga




Muitos outros carros americanos foram intervencionados nas oficinas da Companhia Carris de Ferro e convertidos de diversos modos e continuaram a rodar pelas ruas do Porto, já sob o domínio da tracção eléctrica.
Em pleno período de introdução da tracção eléctrica aos transportes citadinos, no Porto, em 1901, ainda se procedia à inauguração de novos percursos com os tradicionais carros americanos, como se observa no texto seguinte.


 

In jornal “A Voz Pública”, em 6 de Julho de 1901





Ripert foi o fundador em 1883 da "Empreza Portuense de Carros Ripert" com sede na Praça de Carlos Alberto, que fazia a exploração das várias linhas dentro da cidade e arredores, sob a direcção de outro francês, Henrique Latourrette. Os próprios cavalos que puxavam os carros eram os célebres "Percherons", também de origem francesa.
Os Ripert começam a fazer concorrência ao “americano” da Carris, chegando a utilizar os seus carris, uma vez que tinham rodas e comprimento de eixo semelhan­tes. Isto origina um conflito e a consequente reclamação à Câmara que responde que o que está na via pública é para ser utilizado pelo público. 



Anúncio do lançamento da linha do Ripert entre o Lugar do Ribeirinho (Rua de Cedofeita) e a estação do Pinheiro (Campanhã) - In jornal "O Comércio do Porto", de 12 de Julho de 1883



In jornal "A Voz Pública" de 23 de Agosto de 1900, pág.3



A Carris resolve então alterar o sistema de rodas e de carris, impedin­do assim os carros Ripert de se utilizarem dos mesmos.
Dissolvendo-se a empresa de Carros Ripert, foi um destes carros adquirido por Ignácio Bemfolga, que começou a explorar a carreira para S. Mamede de Infesta com partida da Praça Carlos Alberto. Em Fevereiro de 1910, a Companhia Carris cria uma linha de carro eléctrico até S. Ma­mede, e a população para festejar o acontecimento queima o Ripert.



Cartaz do Ripert


O Ripert




(O Ripert) …”Era um pesado carroção, conjunto pavoroso de madeira e ferro, ras­tejando quase ao nível do solo. Sobre quatro rodas pequenas, assentava um largo estrado de madeira, com a área de uns bons oito metros quadrados.
Dentro, dispostos longitudinalmente, transversalmente, em diagonal, e em todas as direcções imagináveis, incómodos bancos de tabuínhas onde um gárrulo grupo de viajantes viajava. Do tejadilho avantajado, de que uma curiosa renda de folha de zinco orlava, caíam cortinas de lona rendilhadas também pelos buracos que o tempo lhes fizera. Atrás e adiante, duas formidáveis plataformas, compridas como tabuleiros de ponte, largos corredores de hotel. Na frente, empunhando as rédeas, um cocheiro baixo, espadaúdo, de faces rosadas e bigode pendente, lembrava uma peça de louça de Bordallo. E ao poderoso puxão de três nédias mulas, a formidável mole arrastava-se pesadamente, aos sola­vancos, com um estridor de ferragens que lembrava o largar de terra de uma galera antiga — ora mergulhando de proa a proa, de encontro aos paralelepípedos da calçada, enquanto dentro os passageiros abanavam, dançavam, e se entrechocavam, ameaçando desconjuntar-se com a nave colossal que os conduzia “
Campos Monteiro in O Tripeiro.




Ripert em S. Mamede



O carro americano Ripert da foto acima servia a linha de S. Mamede.
Este carro foi queimado pelo povo, em frente à Igreja de S. Mamede, em 20/2/1910, quando lá chegou o eléctrico.



“Em 19 e 20/2/1910, S. Mamede festejou a chegada do eléctrico, que passou a ligar á cidade de 20 em 20 minutos desde as 5,37 da manhã até à 1,7 da noite. Acabaram-se as dificuldades da ida a S. Mamede; já os cocheiros não podiam pedir fortunas por uma viagem; já não havia que suportar os solavancos tremendos do carro Ripert. Acabou-se o pesadelo!
O povo de S. Mamede resolveu comprar o último antediluviano carro e fazer-lhe um solene auto-de-fé, em frente à Igreja de S. Mamede. 
Um tal Turidu, pseudónimo de Campos Monteiro leu no acto um pequeno poema.”
Fonte: portoarc.blogspot.pt




Igreja de S. Mamede em 1900 – Fonte: portoarc.blogspot.pt